‘Nagôization’- O cativeiro eterno dos Bantu na Diáspora

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Os homens mais ricos da comunidade brasileira ( em Lagos) , ou seja, ex-escravos do Brasil que voltaram a África, mandavam seus filhos para estudar na Europa ou na Bahia. Assim se formaram os primeiros médicos e advogados da Nigéria, como Plácido e Honório Assumpção. As carreiras de funcionário do governo colonial inglês e em empresas estrangeiras atraíam muito dos chamados "brazilian descendants". Os irmãos acima adotaram o nome iorubá Alakija. Parte da família voltou para a Bahia no começo do sec. XX. (Documento da família fotografado por Pierre Verger).

Os homens mais ricos da comunidade brasileira (em Lagos) , ou seja, ex-escravos do Brasil que voltaram a África, mandavam seus filhos para estudar na Europa ou na Bahia. Assim se formaram os primeiros médicos e advogados da Nigéria, como Plácido e Honório Assumpção. As carreiras de funcionário do governo colonial inglês e em empresas estrangeiras atraíam muitos dos chamados “brazilian descendants”. Os irmãos acima adotaram o nome iorubá Alakija. Parte da família voltou para a Bahia no começo do sec. XX. (Documento da família fotografado por Pierre Verger).

Um conceito que cabe como uma luva neste papo.

Rasgando a saia justaPost#04

Ela, uma angolana:

“Kota Spirito Santo,

li o post e gostei bastante. Estava a pensar algo, que não tem muito a ver com esse post, mas que me fez lembrar e pensar sobre o seu post a analisar as falsas afirmações sobre cultura nago, menosprezando a bantu.

Estou a ler um livro que fala da arte youruba. O que chamou a minha atenção eh que se esta a tentar usar a arte youruba como referencia para falar da arte africana. Calculo que eh assim que os “buatos” se espalham. Ou será que esta eh uma boa forma. Será que a arte youruba pode ser posta nesta posição. Pelos mapas que o kota postou aqui, a área de yoruba eh tao pequena…”

—————–

Eu:

“Pelo que vou constatando aqui nas minhas leituras, a coisa é bem complexa mesmo e, o que é pior, generalizada. Há muita ambiguidade nas análises porque o mito toca fortemente na auto estima de todos os negros do mundo.

 Ter uma suposta civilização filosoficamente ‘avançada’ como exemplo perante os brancos é um valor muito caro aos negros do mundo. Só que é um equívoco burro, ignorante. Um uncle thomas myth representado por um ‘tio’  fantasiado de rei africano.

A cultura yorubana, por razões diversas e muito complexas, foi alçada a esta condição de ‘superior’, embora sirva, como ideologia e doutrina exótica (do ponto de vista do branco) muito mais para a manutenção do status quo do que para a revolução, a redenção dos negros sob o jugo do racismo.

O pior de tudo é que o mito, mesmo sendo falso e construido, artificialmente, por brancos e negros da elite burguesa e pequeno burguesa das grandes cidades da diáspora, se impôs como anteparo social, em detrimento de outros milhões de negros que ficaram subalternos, subjugados, socialmente submetidos sob a classificação de ‘crioulos impuros’ (e esta é a função última do culto ao yoruba em nossa sociedade diáspórica).

Só como pista uma informação constrangedora para vocês: dados documentais dão conta de que a aristocracia ‘nagô’ e candomblecista da Bahia no século 19, enriqueceu, entre outros expedientes por meio da compra, posse e venda de escravos.”

Ela, de novo:

“…Pensei que só tinha que lidar só com a supremacia branca (rsrs)…agora tem mais essa nagô. Então eu vou me informando…Uma das perguntas que me faço eh o que esta na base dessa ideologia. Porque eh que o retrato foi pintado com cores de rosa e não cores vermelhas, figurativamente falando. Ainda nao consigo perceber exactamente o porque da discrepancia. Se Bantu eh mais influente eh…porque mudar as coisas e onde isso começou a acontecer?”

(Eu e Lucia kudielela, amiga angolana de Nova York, via facebook:)

Daí fui seguindo o estudo, lendo surpreso o Luiz Nicolau Parés:

 “Desde os anos 1980 uma nova abordagem construtivista tem sido proposta. Autores como Beatriz Góis Dantas, Peter Fry e Patricia Birman têm argumentado que a valorização do Nagô foi principalmente uma construção acadêmica de pesquisadores e antropólogos, começando com Nina Rodrigues.

…Segundo ela (Beatriz Dantas), as elites brancas, ao promover o reconhecimento da herança afro-brasileira favoreceriam a idéia de uma aparente “democracia racial” (como a concebida por Gilberto Freyre)…

 “..Por outro lado, a ênfase na “pureza” africana iria “exotizar” a cultura afro-brasileira e implicitamente promover o estabelecimento de um “gueto cultural” e, portanto, privando os seus agentes sociais de cidadania.

(Luiz Nicolau Parés, em Repensando a “Nagôização do candomblé no século XIX”)

E eis enfim a minha ‘tese’ leiga corroborada também por alguns doutores ‘de direito’ (ou eu, sem querer, corroborando a deles). Ou seja. Acertei o certo por linhas tortas, ou o torto certo me acertou em pleno vôo.

_ “Viram só? Eu não disse? Eu não disse? “

Aliás, este caso, das teses-tabu que são escritas para jamais serem lidas, lembra bem a história do ovo e da galinha: Quem leu quem primeiro?

Tá bom. Pouco importa, desde que isto traga alguma luz ou faça sentido.

Juro por algum deus desses aí: Nunca havia lido estas teses. Além do Fry (que nunca li diretamente, confesso) nunca ouvi falar destas pessoas. E vejam como são as coisas: o Peter Fry, tem sido personagem-vilão de muitas das minhas diatribes contra os anti-cotistas – entre os quais ele pontifica. E não é que ele tem lá a sua parte boa?)

_”É, mas são apenas doutores brancos” _ dirão os do lado de cá. _” Os mesmos que construíram o mito agora tentam desconstruí-lo.”

E daí? O que teria isto a ver com as calças? ‘Juntem-se aos bons’, diz um ditado destes aí. Se quiserem mostro uma penca de doutores e não-doutores negros que escrevem como se fossem brancos, defendendo que as coisas fiquem como estão, na base do ‘Cotas não! Viva a mestiçagem nacional!”.

(E não é que este é exatamente um dos nós desta nossa conversa?)

Mas é ‘saia justa’ sim só encontrar respaldo para idéias tão ‘de negão’, exatamente no meio dos…‘brancões’. Prova de que a verdade neste tema anda mesmo bêbada e de calças curtas, perambulando por ruas tortuosas e escuras, assim sem pai nem mãe.

…No entanto, uma minoria significativa (de africanos nagôs, etnias assemelhadas e seus descendentes: nota minha) foi capaz de acumular alguma riqueza e investir no que era então a mercadoria de base: os escravos.

Em meados do século XIX na freguesia urbana de Nossa Senhora de Santana (Salvador, BA: nota minha), uma das mais densamente povoadas por africanos, 22% dos africanos livres eram proprietários de escravos, e quase metade deles (52%) foram os donos de mais de dois escravos.

A maioria desses escravos estavam na locação de sistema ou de ganho, trabalhando por conta própria e com uma certa mobilidade, mas obrigado a pagar seus senhores uma quantia diária ou mesmos.”

(Luiz Nicolau Parés, em “Repensando a “Nagôização do candomblé no século XIX”)

_” Caô! Caô Cabecile!

Ser escravo de preto não, né meu rei Xangô!”

“…Portanto, de certa forma, poderíamos falar de uma solidariedade entre africanos natos (em Salvador, BA), agitada pelo antagonismo e pela competição com a população crioula.

Minha sugestão é que esse separatismo sociocultural brasileiro (completamente independente, mas ainda assim ocorrendo em paralelo com o racismo britânico do final do século XIX, que moldou a etnogênese iorubá em Lagos) encontraram um campo particularmente fértil de expressão no domínio religioso.

Mesmo que tenha havido, durante a segunda metade do século (19), um aumento da mistura étnica e racial entre os praticantes do Candomblé, os terreiros permaneceram pouco ou menos permeáveis à mistura inter-étnica e ainda se identificavam como exclusivamente africanos”

(Idem)

Hora então de um ‘Você Sabia’ urgente, mote central do nosso papo de hoje:


Vi na Wikipédia:

“Etnogênese é um conceito antropológico que pretende dar conta do processo de emergência de novas identidades étnicas bem como o ressurgimento de etnias já reconhecidas. Não trata apenas da emergência física de um determinado grupo culturalmente diferenciado, abrange também e principalmente processos de transformação social pelos quais passa determinado grupo humano, não apenas politicamente, mas também em termos de definição de identidade, seleção e incorporação criativas de elementos auxiliares.

(O chato nestas horas é que a conversa fica tão cabulosa que periga escorregar para o pântano ensaboado das conversas bizantinas, academicas. Por isto eu grito aqui, enfático:):

_Academicice pomposa! Não passarás!

Ou seja – traduzindo, se me permitem.

Tem gente que não sabe, mas o conceito ‘Etnia’ ficou sendo popularmente confundido com ‘Raça’ nem vale a pena se discutir aqui porque. Como ‘Raça’ não existe (e o Ali Kamel repete isto todo dia), tem alguns engraçadinhos querendo diluir tudo num bolo misto só, miscigenado. Mas peço muita calma e pouca picardia nesta hora. Nem tudo é esta mistureba não.

O que a tese de Parés deixa claro com o termo ‘etnogênese’ é que as etnias são construções humanas, culturais, da iniciativa deliberada de um grupo movido por interesses corporativos ou mesmo por conta de algumas circunstancias políticas, sociais, econômicas à sua revelia.

É o que teria ocorrido com os yoruba ou ‘nagôs’ em Lagos, Nigéria na segunda metade do século 19. A dica de Parés é muito relevante para nós sim porque é esta mesma etnia yoruba que aparece como protagonista e pivô da construção étnica também do que estamos chamando aqui de ‘Mito da ‘supremacia Nagô’ no Brasil.

A constatação é clara: Foram as especificidades do racismo inglês em Lagos (cuja população era na época de ampla maioria yoruba) que formaram os guetos e aldeias de ‘nagôs’ isolados dos colonos brancos. Foi isto o que em consequencia possibilitou a germinação de modos de ser e viver, ditos como sendo, ‘tipicamente yoruba’, em parte baseados na cultura ancestral daquelas pessoas, em suas velhas tradições oriundas das aldeias do interior, porém mesclados já à modernas recriações simbólicas, religiosas, culturais enfim.

No bojo de uma sociedade colonial já não mais tão – pelo menos assumidamente – escravista, de rígida estratificação como imaginamos que fosse Lagos na Nigéria do século 19, surgiu pelo que se deduz lendo Parés, uma espécie de aristocracia negra subalterna, com algum trânsito social e poderes de articulação, barganha e intermediação junto aos aristocratas brancos.

É esta casta dedicada à defesa dos interesses sociais exclusivos de seu grupo, que se fortaleceu ideologicamente a partir da estruturação de uma seita político-religiosa, seguramente muito mais poderosa do que era nas aldeias, ao tempo dos clãs yoruba mais originais ou tradicionais.

É só a gente deslocar o cenário para a Salvador do mesmo período para uma fiat lux bem escandalosa piscar na nossa cabeça.

Caraca! Era uma máfia preta este “Axé-babá” colonial!

Ora, é óbvio que circunstancias muito semelhantes ocorriam em Salvador do século 19, com o agravante de que aqui, algumas variantes socio economicas poderiam oferecer chances de ascenção social muito mais promissoras para os mais organizados e atentos ‘nagôs’ daqui.

E pensam que eles se avexaram?

A mais surpreendente descoberta que fizemos lendo Parés (uma espécie de Caixa Preta de Pandora que rasga de vez, a ‘saia justa’ e deixa a nossa moça-negritude completamente nua) é que houve um franco e intenso transito transatlântico Salvador-Lagos-Salvador, movido por abertos interesses comerciais e políticos – principalmente o tráfico de escravos – destes ilustres cidadãos e cidadãs negros e negras, natos ou descendentes de ‘nagôs’ libertos de Salvador, Bahia.

Gente fina – mesmo preta – é outra coisa.

Pois pasmem em saber – ainda aprendendo com Parés –  que presumivelmente foi por meio deste mesmo intercâmbio transatlântico que foi sedimentada toda a dita ‘pureza’ yoruba-‘nagô’ de Salvador, construída por intermédio de verdadeiros ‘workshops’ de sacerdotes yorubas vindos com esta finalidade de Lagos para cá ou por meio de viagens de ‘capacitação religiosa’  dos sacerdotes (‘pais’ e ‘mães de santo’) ou candidatos à sacerdote de cá, de modo que as premissas do culto permanecessem sempre recicladas (‘afro-puras‘) e imunes à ‘contaminação’ da natural evolução cultural do resto do crioléu normal, que foi expulso do salão.

Ai!…Respirem fundo, contem até dez e prossigam.

É que o que eu havia apenas insinuado acerca do carater deletério da chamada ‘Supremacia Nagô’ – e Parés, descubro eu, afirma enfaticamente, baseado em sua ampla pesquisa publicada pela Universidade de Michingan – assume agora para mim contornos de um complexo mito colonial transatlanticamente construído. Um mito diaspórico, portanto.

Este até então bem camuflado mito assumiu, pois, a forma de um verdadeiro pacto social (algo sórdido,  sob um ponto de vista menos distanciado) que envolveu, de um lado um grupo de perspicazes negros ricos e remediados de Salvador, supostamente ‘yorubas’, africanos nagôs libertos, gente que enriqueceu às custas das idiossincrasias do sistema colonial daqui, no escravismo tardio da colônia portuguesa chamada Brasil).

De outro lado gente – ou agentes – do mesmo modo ‘nagô’, de lá da colônia inglesa em Lagos (descrita por Parés) para, por fim, num conluio de contornos sociais muito complexos, os daqui se tornarem líderes religiosos de uma seita mística endogâmiga, cuja única finalidade política e ideológica parece ter sido se organizar como uma casta, uma ‘máfia socio-religiosa’ (como uma Maçonaria negona chamada posteriormente de Candomblé ) e usufruir de algumas vantagens sociais geradas de sua proximidade com o poder aristocrata branco e suas instituições.

Será que é mesmo isto tudo aí, meu rei? Vá se benzer, rapaz! Tomar uns passes…

Difícil digerir este troço cabeludo, não é não? Mas ao que tudo indica, quando vista assim sob este ponto de vista crítico, analítico e sem papas ou entremeios ‘vaselinas’, esta seita-casta chamada Candomblé Baiano, se associou sim à a aristocracia branca para barrar – como até hoje barra, pelo menos como pretexto e ideologia oficial do negro do Brasil – qualquer possibilidade de organização da massa escrava em geral, carente de cidadania, massa escrava esta que foi alijada do processo, estigmatizada sob a pecha de ‘impura’, ‘crioula’, com os milhões de bantu e seus descendentes inclusos na classe dos ‘não-africanos’, dos pretos vira-latas, dos negros sem pedigree.

Ora…como foi que esqueceram que os bantu (angolanos em sua maioria) eram- e são – africanos tão ‘puros’ quanto os ‘yoruba-nagôs’? E o engraçado é que até hoje a antropologia brasileira inteira – até mesmo o Parés!_ meio que omite este detalhe claramente étnico sabe-se lá por que.

(E nem adianta mais a gente latir em kimbundo ou português).

Difícil aceitar, mas tudo isto está devidamente fundamentado nos estudos mais novos que vão aparecendo sobre este assunto (como este do Parés que estou tendo o modesto prazer de comentar).

————-

(Ai! A tal bela moça símbolo da nossa inefável negritude já tão desprezada, aquela mesma da rasgada ‘saia justa’ – aquela que já está nua por minha culpa, minha máxima culpa, depois destas denúncias ácidas, porém sinceras – e que nem minhas são , assim, de sozinho deduzir – já nem me olha mais nos olhos

_ Ai! Viram só como ela me olhou feio agora? Pronto…fechou o tempo. Parece que não vai querer jamais sorrir pra mim. Ai! Perdi!Perdi! Peço pra sair!)

———–

Constrangido saio à francesa só por um tempinho. Volto já, prometo. Só espero que já não esteja tão sozinho, assim, crioulo apátrida pregando no deserto. Diria nesta minha saída súbita, o que disse certa vez o poeta Guillén na  ‘Llegada’:

¡Aquí estamos!
La palabra nos viene húmeda de los bosques,
y un sol enérgico nos amanece entre las venas.
El puño es fuerte
y tiene el remo.

Spirito Santo

Agosto 2011

(Nota: Estar numa ‘saia justa diz-se no Rio de Janeiro quando se está numa situação inusitadamente comprometedora)

“Rasgando a Saia Justa”: Siga a série abrindo estes links:
Post # 01, Post #02, Post #03, Post # 04, Post #05, Post# 06

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~ por Spirito Santo em 11/08/2011.

4 Respostas to “‘Nagôization’- O cativeiro eterno dos Bantu na Diáspora”

  1. Tá pronto o post! As suas ponderações deram panos para manga. Ajudaram muito a melhorar o foco das minhas argumentações. O assunto é um mundo muito novo para todos nós. Importante mundo.

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  2. spirito, exatamente, são ponderações. posso ter dito bobagem, mas acho que são pontos que devem ser pensados, nem que seja pra reforçar o argumento.

    quanto à pureza nagô, pode começar botando aí que vesitr branco na sexta-feira é coisa de muçulmano, e que os oráculos daquela galera, como o jogo de ifá, por exemplo, também têm raízes em antigas práticas do islã.

    abraço!

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  3. Nem li ainda direito, mas já vi que estas suas poderações vão me permitir aprofundar mais ainda o papo. Vou responde-las, claro, ponto a ponto viu, parceiro? Rs rs sr rs! E vamos ganhar mais um post para a série. O tema será o questionamento a esta suposta ‘pureza‘ nagô versus a também suposta ‘impureza‘ bantu. isto aí é a raiz do mito, a sua justificativa mais crucial. Descontruí-la (ou explicá-la) é difícil, mas é possível e urgente. Volto com você no próximo post então.

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  4. essas informações do parés sobre essa – muito bem chamada por você – maçonaria nagô em aliança com os brancos por interesses escravocratas são fantásticas e muito relevantes, mas acho que é preciso cuidado em atribuir a elas tanto peso.

    se pensarmos na força do pensamento colonial, não consigo crer que uma micro elite negra tenha sido capaz de apagar as referências culturais de um outro grupo, muitíssimo maior, embora escravizado, porque, no fim das contas, mesmo essa elite negra certamente precisava se associar aos códigos culturais europeus – roupas, língua, religião, costumes – para ter boa circulação e aceitação entre os brancos. ou seja: certamente precisavam negar suas origens africanas para poderem circular, e ainda mais nos meios intelectuais. seria realmente viável fazer penetrar a ideia de que suas culturas eram melhores? acho muito pouco provável, ainda mais num nível tão amplo.

    por maior que fossem os interesses econômicos comuns, não creio que nos séculos passados houvesse espaço, dentre a elite branca, para a “aceitação” da cultura nagô em um nível de respeito. o que quero dizer é que não acho que fosse possível, em pleno brasil colônia, o espaço para a construção de qualquer discurso em favor de qualquer cultura negra, mesmo que fosse para esmagar uma outra que estivesse sendo escravizada. afinal de contas, também houve escravos nagôs e escravos malês. sim, eu sei, eles eram considerados mais “evoluídos”, mas, ainda assim, eram escravos. pelo discurso colonial, podiam estar uns dois passos à frente dos bantos, mas isso não significava praticamente nada no contexto de escravidão de africanos.

    dentro da mentalidade e prática colonial, não creio que houvesse espaço para uma “legitimação” de tais culturas. poderiam até diferenciar, mas acho que era algo irrelevante. no fim, era tudo preto, e como pretos foram tratados (tirando um ou outro preto rico).

    o que quero dizer é que essa “maçonaria” pode ter o seu quinhão na história, mas acho que é muito menor. ela pode até ter “convencido” a academia a retratar os yorubá de maneira superior, mas me parece que o processo se fundamenta muito mais em outras coisas.

    esse processo atingiu nosso imaginário e nossa (des)memória de tal maneira que são necessárias explicações mais no âmbito coletivo e processual, sem controle, do que uma ação tão premeditada como está colocada pelo parés.

    acho muitíssimo mais razoável a sua hipótese de que os negros bantos que cá chegavam já eram meio católicos, e então ficava mais difícil a associação de suas práticas culturais a cultura negra “de fundamento”. elas se mantém, mas não são reconhecidas como tal. isso tem muito mais peso para se multiplicar como ideia. basta associar isso aos reconhecidos fatos de: 1) uma elite acadêmica branca com formação eurocêntrica ter inventado essa supremacia nagô na comparação com a mitologia grega (lembra auqele babaca no facebook falando que a mitologia nagô era de “valor universal”, sem perceber que o parâmetro dele era obviamente o grego?) como forma de impedir o povo de reconhecer a sua própria cultura e, claro, 2) o golpe de misericórdia, que é o fato de a militância negra ter acatado a esse discurso no século 20, em busca de símbolos fortes que nos legitimassem, e fizeram isso numa época em que tornou-se mais possível falar e pesquisar cultura negra e divulgar as ideias para um número maior de pessoas por conta da maior circulação de livros, radiodifusão, televisão, liberdade de culto, embora relativa etc e tal.

    isso sem esquecer que no resto da américa latina e caribe ocorre o mesmo fenômeno da nagôization (frente a uma maioria banto esmagadora), sem que se tenha conhecimento dessa elite nigeriana que voltava para pregar sua superioridade cultural. acho que já comentei contigo de um argentino que, escrevendo sobre o tango, comenta brevemente sobre o “desprestígio banto” em sua terra, embora ritmos como o tango, candombe etc sejam evidentemente bantos.

    acho que essas informações do parés são muito valiosas e fazem a gente ver com o processo com maiores detalhes, mas acho que tem de ver melhor o peso dessa história específica.

    abraço!

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