Rasgando a saia justa – Post#05- Diaspora captive. The Lagos-Salvador Conection

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Família negra brasileira rica em Lagos, no fim do século 19. Nos pés descalços – e tensos – da menina ao lado a evidencia incômoda e constrangedora: Ela é uma escrava de estimação da família.

O Eixo da ‘pureza nagô’ é preto & branco e transatlântico

(Leia o fundamental post anterior neste link)

Recomeço frisando que em certos detalhes estas minhas últimas opiniões aqui defendidas acerca do Candomblé no século 19, não são originalmente minhas. Como disse anteriormente elas são opiniões tiradas do que li em textos esparsos do professor da Universidade de Michigan Luiz Nicolau Parés.

Afinal, ando comentando as ditas ideias assim animadamente por que concordo, quase piamente com elas que, inusitadamente acabaram sendo muito idênticas ao que eu ando ruminando meio intuitivamente por aí.

Alertado por um leitor amigo (Rafael Cesar) friso também então que no post anterior me ative apenas às implicações sociais e políticas do Candomblé no momento de sua invenção no século 19. Cito, portanto e só de passagem o momento da gênese da seita. Não entrei ainda em sua seara propriamente cultural, na análise das características estético filosóficas do culto propriamente ditas. Na verdade nem sei se entrarei neste cipoal de conceitos antropológicos por inapetência e falta absoluta de aptidão.

Neste aspecto, quando – e se – eu entrar mesmo nele a questão que predominará com certeza, será a do questionamento e aprofundamento deste conceito ‘pureza e africanidade‘ atribuído ao Candomblé, atribuição que julgo completamente impertinente e capciosa. Aliás, querem saber? Vou logo dar umas pinceladas neste assunto sim.

_”Eu não disse! Eu não disse! Eu não disse!”

A observação feita pelo Rafael Cesar (o longo e arguto comentário está no post anterior desta série), de que a assimilação, a submissão consensual desta elite negra ao pensamento e aos modos de ser e viver dos burgueses brancos da época, precisaria estar visível para ser crível, procede. Só que ela está visível sim, sempre esteve – menos para nós – e aí é que está o nosso grande problema: a ignorância sobre o assunto grassa.

Rafael se mostrava incrédulo diante da minha afirmação – baseada, diretamente em Parés – de que uma elite negra de modos de ser assumidamente brancos pode sim,  se exprimir por outro lado com traços culturais ‘africanos’ – pelo menos a nível das aparências isto é perfeitamente possível. Ao que tudo leva a crer, este é o caso do Candomblé.

Ora, estas coisas não acontecem de forma assim tão simples e direta. Apenas de leve, posso lembrar que a analogia entre Maçonaria e Candomblé, novamente se impõe procedente: Nas aparências esta europeíssima seita dos Maçons exibe valores estéticos bem exóticos e nada eurocêntricos, baseados em valores proto cristianistas, árabe israelitas, sei lá, marcados por esoterismos bem diversos dos ritos clássicos do cristianismo europeu mais convencional.

Ou seja, há tanto no Candomblé quanto em qualquer outra seita religiosa do tipo, digamos… sócio corporativista (como é o caso da Maçonaria), um jogo de aparências, uma pompa e uma circunstancia,  um protocolo legitimador de sua…’pureza‘ doutrinária.

Tenho aqui comigo bem fresquinhas – ô sorte! – uma série de fotos desta elite negra no início do século 20, todas elas tiradas em Lagos entre o fim do século 19 e o início do 20 (publiquei uma delas no post anterior) e vou postar todas aqui, uma hora destas. Pois vejam lá: Os personagens retratados são cópias mais do que fiéis dos ‘sinhôzinhos‘ brancos que subjugavam o resto da negrada não rica e não nagô.

Estes sinais de assimilação estão todos lá e são – pasmem! – pra lá de evidentes. Esta negrada fina, publicamente em suas relações mais mundanas estava sim, perfeitamente integrada aos maneirismos da elite branca (no caso de Lagos, à elite inglesa). Muitos deles nem adeptos do Candomblé seriam, posto que o catolicismo era muito mais forte entre eles (tanto quanto entre a nobreza bakongo-angolana do século 16), como referencia, por ser um valor ‘branco’ por excelência, até como atestado de assimilação.

Talvez a maioria fosse mesmo muito mais católica do que ‘candomblecista‘ (embora isto não diminua a importância dos terreiros de Candomblé nem a atuação ‘diplomática’ de ‘pais e ‘mães de santo’, no processo, como agentes desta conexão transatlântica)

Lagos-Salvador: The ‘Nagô’ Conection

A propósito – tentando esclarecer mais ainda este aspecto, preciso frisar que a organização por um grupo social específico, de uma seita religiosa, com propósitos, além de religiosos ou políticos, com o fim de se emancipar socialmente – mesmo em seu âmbito exclusivo (ou endogamicamente como diria o Parés) como os ‘nagôs‘ de Lagos e Salvador fizeram, não é um ato indigno, de modo algum. É de uma perspicácia política elogiável sim. Admirável até.

O que se está apontando aqui, criticamente são os aspectos deletérios da ética, dos meios que estes ‘nagôs‘ teriam utilizado para atingir seus propósitos de hegemonia social, em detrimento dos demais negros que permaneciam escravos. Estamos falando enfim do aspecto contraditório desta doutrina – baseada assim, tão evidentemente em fundamentos ideológicos questionáveis – ser até hoje reconhecida como meritória e gozar deste status recorrente de ‘ideologia oficial  dos negros’ numa sociedade ainda tão racista como é o Brasil.

Afinal esta ideologia ‘Pai-João’ serve para que?

Pois é, gente. O buraco deste assunto. É bem mais em baixo. A cultura negra ‘real’ do Brasil ( e por favor, não pulem as aspas) está toda calcada numa relação legítima – do ponto de vista cultural – entre valores africanos (que não são só ‘negros’, porque antes de mais nada são humanos) e europeus (que, do mesmo modo não são apenas ‘brancos’, quando entendidos como cultura de gente comum). Não há dicotomia possível nesta história. Só se for como farsa.

Observem que se formos analisar, em profundidade esta alegada ‘pureza nagô’, esmiuçando à lupa as características alegadamente ‘puras’ ou ‘originais’, depois de nos livrarmos das inevitáveis influencias de outras culturas que, fatalmente estarão presentes no caldo e serão muitas (uma pitadinha de catolicismo aqui outra de islamismo ali, só para ficarmos no ramerrão) o que sobrará serão ritos ancestrais animistas pré históricos – como os sacrifícios de animais, por exemplo.

Ora, estes são valores que, do ponto de vista das pretendidas elevadas virtudes, das superiores qualidades filosóficas que se quer atribuir à doutrina do Candomblé, são anacrônicos demais, ou seja. A tal ‘pureza nagô’ aventada só é factível mesmo em aspectos que colocam os negros no patamar de povos muito atrasados, aferrados às superstições mais ingênuas e primitivas.

A quem interessaria afinal os negros serem representados por este filme assim tão preto & branco, tão cinema mudo?

Ora, isto é pureza para inglês ver, não é não?

As idiossincrasias das cruéis relações de dominação e poder entre colonizadores brancos e escravos negros – estas sim, dicotômicas por sua própria natureza – são de outra ordem. Há muitas nuances a serem consideradas. A existência de negros escravocratas desta elite de Lagos-Salvador é, aliás, a prova mais candente desta angustiante ambiguidade contida no tema.

(Já sei, acuado e enredado que estou nas armadilhas da ênfase – peguei pesado, confesso – vou ter que sair do muro então para esclarecer isto tudo mais direitinho ainda.)

O que não se pode esquecer (ou talvez eu não tenha deixado claro) é que o que chamo aqui de ‘Candomblé‘ não é apenas o Culto aos orixás. Chamo de Candomblé todo o arcabouço social e as intenções ideológicas e políticas que envolveram a criação da seita. Falo isto sim (e aí por minha própria conta e risco, sem me valer de Parés que é mais discreto, rigoroso e cuidadoso que eu) das segundas e terceiras intenções ocultas na folha corrida da seita.

Falo assim, enfaticamente é do fato dela, a seita do Candomblé tornada doutrina, ter sido alçada à condição de avançada filosofia ‘dos negros’ em geral ao mesmo tempo em que servia,  na prática, isto sim, aos interesses  ‘dos brancos’. Acho estranho e tento compreender ainda se foi mesmo ético a seita ter favorecido e ter servido de pano de fundo para o enriquecimento de um grupo restrito de negros, por meio da sua cumplicidade direta com a posse e o tráfico de escravos, além da evidente indiferença e cumplicidade demonstrada por estes líderes (uns políticos outros religiosos) pessoas de muitas posses, diante da abjeta instituição da escravidão de seus semelhantes africanos.

O fato é que as fotos desta aristocracia ‘nagô’ baiano-nigeriana que encontrei demonstram de forma tão cabal e evidente o seu assimilacionismo que fiquei até indeciso em publicar uma delas: esta aí de cima, de uma feliz família preta mui fina, posando com roupas muito elegantes, tendo ao lado… a sua escravinha de estimação de uns 12 anos de idade.

Muito constrangedor olhar a foto (tomara que ninguém queira me condenar como blasfemo por publicá-la).

Ou seja: ‘Pureza’ africana apenas para inglês ver, repito.

Há nas ponderações de alguns questionadores destas minhas opiniões, contudo, bem perceptivelmente até, certa nostalgia constrangida que tenta salvar da ‘virulência‘ provocativa do meu discurso os valores ‘supremos‘ da cultura do Candomblé, uma quedinha para aceitar o mito da ‘purezanagô , apesar de seus pesares como um valor caro à nossa negritude.

Esta é a parte mais delicada da minha argumentação.

Ocorre que, além deste conceito ‘pureza‘ ser antropologicamente bem questionável, problemático (além de suspeito) quando tratamos de valores étnicos, observem que como Parés coloca muito bem, houve um esforço deliberado dos líderes religiosos da seita do Candomblé no sentido de manter estreita fidelidade aos preceitos nigerianos do culto, mantendo uma ligação estreita com Lagos.

Esta busca incessante pela manutenção desta ‘pureza‘ africana (que para ser mesmo  ‘pura’ deveria ter nascido espontaneamente), contudo precisa ser vista no âmbito de suas reais intenções que, para mim foram afirmar que aquele grupo (do ponto de vista dos brancos, bem entendido) era ‘mais africano’ do que todos os demais.

(E incrível – cala-te boca! – como este aspecto, o desta busca incessante por uma ‘pureza‘ evangélica aparente, lembra muito a criação e a afirmação de seitas evangélicas atuais como a Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo.)

Vista assim sobre este ponto de vista, o mito da ‘pureza’ nagô era um valor político em si, já que por meio dele o grupo minoritário podia se destacar dos outros. Poderemos pontuar este aspecto, facilmente em outro momento (outro post talvez) mostrando as estreitas ligações de altas autoridades e personalidades da aristocracia baiana desde o século 19, com o Candomblé e suas lideranças, tanto em Salvador quanto aqui no Rio, onde Tia Ciata (sim, Hilária Baptista, aquela da casa onde teria nascido o Samba) aparece como personagem chave nesta aliança da seita com o poder branco (aliança que, certamente garantiu ao Candomblé a sua ascensão, status e sobrevivência no posto de religião negro africana ‘oficial‘ do Brasil).

Outro aspecto problemático e discutível (embora omisso) nestas contra argumentações, também observado nas minhas ultimas (e rápidas) leituras é que, mesmo os antropólogos mais avançados  – sugeri isto no texto anterior –  passam batidos pela cultura também africana dos bantu, partindo talvez do pressuposto totalmente equivocado (e bem utilizado politicamente pelos nagôs) de que os bantu eram um povo ‘culturalmente impuro’ , com a sua cultura já ‘contaminada’ desde lá da África pelo catolicismo.

Recomendamos, portanto muito cuidado antes desqualificar ou questionar o caráter legitimamente africano da cultura bantu. É preciso estudá-la mais a fundo (coisa que a academia brasileira e os estudiosos do assunto em geral, fogem como o diabo da cruz), pelo menos tanto quanto se estuda esta suposta cultura yoruba no Brasil.

Reparem que o negro norte americano não desqualifica, não questiona, assim tão subservientemente o islamismo fortemente incrustado na africanidade deles. E olha que há uma grande influencia e propaganda da ‘supremacia nagô’ também por lá.

MalcomX e Muhamad Ali são cultura negro afro-americana legítima. Ou não?

Ora, este é um erro antropológico crasso.

Aliás, frisemos aqui fortemente que este tipo de estratégia de organização de grupos étnicos para obter ascensão social, era muito comum nesta fase do século 19 em toda a África colonial. Não nos esqueçamos de que, as irmandades católicas negras, tão ligadas à libertação de escravos por meio de caixas de pecúlio e poupanças coletivas, tinham função social exatamente idêntica. O surgimento de seitas religiosas e sociedades secretas, de qualquer tendência, política ou religiosa, até mesmo para promover rebeliões ou insurreições, sempre esteve associado a este fenômeno típico da virada do século.

Para quem não sabe a insurreição de escravos no Vale do Paraíba do Sul no Rio de Janeiro (onde a maioria esmagadora dos escravos eram bantu) ocorrida em 1838 e denominada ‘Kilombo de Manoel Kongo’, foi urdida por uma sociedade secreta denominada ‘Embanda’, chefiada por escravos ferreiros e marceneiros e articulada em torno de um movimento ‘antonionista, um ‘mix’ de ritos católicos reinterpretados a luz de valores africanos tradicionais, de traço bakongo, resultando numa seita religiosa de tipo novo, de viés puramente africano sim, iniciada que foi no início do distante século 18 por uma sacerdotisa e líder rebelde da nobreza bakongo – angolana portanto – chamada Kimpa Nvita, presa e morta numa fogueira da inquisição em 1704.

Este ‘antonionismo’ africano – que por fortes indícios que tento comprovar numa difícil e intrincada pesquisa, talvez tenha estado presente no contexto da sociedade do Kilombo de Palmares dos últimos anos – até hoje ainda sobrevive na fronteira entre o Zaire e Angola, principalmente por força da pregação de um misto de sacerdote e líder político chamado Simon Kibangu, preso e morto pelas autoridades belgas em 1951.

Claro que a cultura bantu é tão negro africana quanto a dos yoruba. Ocorre que, no meu modesto entender, a cultura bantu possui em sua essência (ui!) – e foi obrigada a abandonar isto aqui por força do isolamento e da escravidão – uma dinâmica sócio adaptativa comum à todas as outras culturas humanas. Cultura – vamos combinar – é sempre intercâmbio de valores e saberes durante o contato entre grupos, quaisquer grupos, sejam lá quais forem as circunstancias deste contato.

Uns assimilam os valores e saberes dos outros, por osmose. É uma lei da natureza isto aí. E outra coisa: as culturas evoluem (ui!) sempre, caminham, se modificam, mesmo quando estão em conflito. Isto vale até para grupos de animais.

O que ocorreu com a cultura yoruba é que ela foi a que melhor se prestou – foi pensada para isto – para simbolizar os interesses de certo grupo de negros ricos e brancos aristocratas, no âmbito da complexa estratificação social na sociedade escravista do Brasil e da Nigéria da época.

Para serem tratados como interlocutores africanos ‘reais‘ e se destacarem de todo o resto de negros  (e isto ao que parece também ocorreu em Lagos, pude perceber), os membros desta aristocracia negra precisavam ter uma marca d’água, um sinal evidente qualquer, uma griffe, um selo de autenticidade.

Antes de Ser  tinham que Parecer ‘africanos reais’, certo?

Parés acentua muito bem este aspecto quando fala da ‘nagôização‘, frisando que o processo natural de amálgama entre os valores culturais das várias etnias negras que compunham a sociedade escrava e liberta de Salvador do século 19, já estava em franco processo quando certa liderança negro-aristocrática decidiu inventar a tal ‘pureza’ nagô, como marca exclusiva de ‘sua’ africanidade, atropelando o processo, apelando inclusive para as suas relações com o poder branco.

Há um momento crucial nesta história (ao qual posso voltar num post seguinte) no qual Edison Carneiro e outros intelectuais negros e brancos (e lembrem-se: Nina Rodrigues está ativo e operante como intelectual também neste contexto) organizam congressos, seminários e encontros entre si e com autoridades da Bahia, para legalizar, institucionalizar o Candomblé local demarcando, sutilmente regras que acabaram por alijar do processo todos os outros grupos e elementos considerados ‘impuros‘, como as influencias proto-umbandísticas (os elementos ‘puramentebantu, precisamente) e as do chamado culto dos caboclos’, manifestações pejorativamente chamadas de ‘crioulas‘ pelos próprios negros desta aristocracia intelectual e religiosa negra.

É preciso entender, com clareza que a chamada cultura yoruba moderna como eu sugiro – e Parés afirma – foi artificialmente construída. Quando ela é tornada hegemônica no Brasil, consideremos que não o foi por conta de sua pureza intrínseca – NÃO existe pureza intrínseca em cultura -, mas sim por conta de sua perspicácia política.

É preciso considerar também que o conceito ‘pureza‘ é um falso valor do ponto de vista dos interesses de nós todos, porque para culturas subalternizadas, o que é puro só o é em relação ao ponto de vista da classe dominante. É só do ponto de observação do ‘branco‘ (de uma elite qualquer) e de seus interesses que o conceito ‘pureza nagô’ se materializa e diz a que veio.

Não é à toa que a Academia adotou o Candomblé como sua única referencia para o estudo do negro no Brasil, em detrimento de todo o imenso resto.

Digo e afirmo – quem quiser que me desminta – que foram os ‘nagôs’ ricaços interesseiros,   mancomunados com os aristocratas brancos de Salvador e de Lagos, Nigéria  que criaram no fim do século 19 início do 20 o Candomblé como estuário da tal  ‘Pureza Nagô’, um mito tão sutilmente racista quanto o do ‘Elogio á Mestiçagem’.

E digo mais: O mito da ‘Supremacia Nagô’ é um mito colonial muito arraigado em nós todos que pode ter ‘contaminado’ a cultura do negro da Diáspora toda, como um vírus. Talvez fosse o caso de se estudar também, sob esta mesma ótica a cultura do negro nas antigas colônias inglesas, ‘parentes‘ de Lagos, Nigéria, como a costa oeste dos Estados Unidos da América e as ilhas do Caribe, onde o ‘Mito da Pureza Nagô’, esta idéia cavernosa de um povo negro Superior aos outros, ‘Eleito’- foi disseminada e floresceu.

Amigo da onça (ou amigo-urso, vai saber), o ‘nagô’ sabido, espertamente nos gritou de lá que o Candomblé yoruba “É NÓIS!”  Como aquele não menos sabido índio de gibi, precisamos perguntar logo para ele, já que ainda há tempo:

_”Nóis’ quem, cara pálida?”

Spirito Santo
Agosto 2011

(Nota: Estar numa ‘saia justa diz-se no Rio de Janeiro quando se está numa situação inusitadamente comprometedora)

“Rasgando a Saia Justa”: Siga a série abrindo estes links:
Post # 01, Post #02, Post #03, Post # 04 , Post#06


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~ por Spirito Santo em 12/08/2011.

3 Respostas to “Rasgando a saia justa – Post#05- Diaspora captive. The Lagos-Salvador Conection”

  1. show!

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  2. Pois esta sua sugestão já está lá sim, em algum lugar da série fiz esta colocação. Neste ultimo então, da ‘Diaspora Captive’, a proeminencia da razão do mercado escravista está explícita. Ocorre contudo que existem outras razões, com certeza, as quais ainda não tivemos tempo de nos ater. Tem, por exemplo, muita coisa ligada a interesses comerciais coloniais ingleses sobre os quais ainda nem cheguei perto. Consideremos que,esta burguesia negra brasileira (os ‘retornados’) eram o poder dominante na sociedade Nigeriana, o poder instituído mesmo, logo abaixo da autoridade colonial inglesa. Ao que tudo indica muitas das respostas podem estar lá, do outro lado do Atlântico.

    Outra coisa que precisa ser melhor estudada e com muita atenção também é esta tese do Verger de que vieram mais escravos yorubas neste período (1850). Esta teoria tem muitos problemas (presumo até que exageram o que o próprio Verger afirmou). O fato é que o tráfico de gente bantu foi foi mais profuso desde sempre. O que ocorre de 1850 para a frente é que com a dissolução dos reinos da África ocidental na área da Nigéria, Portugal, nosso fornecedor exclusivo de escravos passa a NÃO TER mais acesso direto à cargas de escravos da região da Nigéria (aliás, Portugal só teve esta cancha no fim do século 16 iniciozinho do 17).

    Outro dado: Depois do iniciozinho do século 19, a Inglaterra já não faz mais tráfico de escravos e, na verdade até o reprime. O que há em Lagos, portanto já não é mais uma sociedade escravocrata legítima. Acho impensável imaginar a saída de navios negreiros daquela região, muito menos de Lagos.

    Provavelmente estes ‘nagôs’ escravocratas, se estavam envolvidos com este negócio como os dados conhecidos dão conta, provavelmente o faziam intermediando o tráfico já quase clandestino em áreas mais ao Sul, como a Costa do Kongo até a região do futuro reino do Benguela. E esta informação se for fato, revoluciona a nossa história mais ainda.

    Devem ter saído, sei lá como, muitos escravos yoruba de outras etnias próximas para o tráfico semi-clandestino em 1850, mas estas cargas foram, com toda certeza, em muito maior número para colônias inglesas, francesas e até espanholas. O escravo preferencial do tráfico para o Brasil, sempre foi bantu.

    Acho que o Verger se refere a um fluxo maior em 1850, por aí, de escravos nagôs, mas para Salvador apenas (e para a Corte em menor número) e não para o Brasil como um todo, o que seria um contra senso à luz dos dados históricos que dispomos sobre o tráfico. Outro ponto chave é que o período a que nos referimos como sendo o da criação do Candomblé, é bem mais tarde que isto (já quase fim do 19).

    Muito pano para manga.

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  3. acho que aqui tem uma pista melhor, spirito. talvez já estivesse no outro post, mas eu não tivesse dado a devida atenção: a questão do comércio de escravos. aí talvez comece a fazer mais sentido – sentido sempre fez, mas digo num nível amplo como colocou no outro post – a elite branca brasileira ter abraçado uma elite negra nígero-soteropolitana e a sua matriz cultural.

    talvez fosse o caso de entender um pouco a história das mentalidades desse brasil do século 19 (acho que realmente só se aplica a esse período, antes disso, insisto que não creio que houvesse espaço para diálogo com culturas africanas não-cristãs em nível oficial como, por exemplo, a academia ou a elite intelectual). penso que possivelmente a academia lançou suas teses de afirmação de superioridade cultural sudanesa também como forma de tornar menos terrível a escravidão de – sobretudo – bantos durante os três séculos anteriores.

    a história sempre mostra que são criados discursos para justificar as atrocidades, como você sabe. então, pode ter sido um mecanismo para isso, e por esta razão, também, possivelmente as elites brancas tenham abraçado essa ideia. seria ótimo pra todo mundo:

    1) os brancos davam uma aliviada na mancha da escravidão (no século 19 é que começam a questionar o tráfico negreiro com mais ênfase), já que justificariam que vinham escravizando aqueles que realmente precisavam ser civilizados (os bantos);

    2) os brancos comprovariam suas teses racistas;

    3) e ainda estabeleciam negócios com uma elite negra da nigéria que lhes fornecia a mão-de-obra escrava;

    4) por último, essa mesma elite negra nigeriana se dava bem sendo reconhecida como pertencente a uma rara cultura africana respeitável, além de lucrar horrores com seus negócios negreiros.

    é um esquema perfeito, redondinho, bom demais para todos os envolvidos. pensando no comércio negreiro, me parece que o argumento fica mais forte. tem que aliar mentalidades com interesses de poder. acho que, do que destaquei, se minha ideia procede, o ponto UM, acima, é o mais importante.

    se é que é isso mesmo. estou apenas conjecturando a partir das suas próprias informações, claro. não disponho de mais nada. só estou tentando ajudar na reflexão, que obviamente muito me interessa.

    mas… nada dessa minha ideia funciona se, nesse mesmo século, de fato começa a haver uma chegada maior de escravos iorubanos. sabemos que daqueles portos vinham escravos de várias procedências, mas sabemos também que é o momento em que os nagô vêm em maior volume, não? ou será que isso não importava, e o que importava era mesmo um discurso, e a prática que se dane? é bem típico do nosso jeito brasileiro.

    e uma observação: quanto a isto ter evoluído para uma desarticulação da luta pró-identidade negra no brasil, acho que não pode ser feita uma relação direta sem deixar de considerar

    1) a força do pensamento colonial, pró-branquitudes, que grassa até hoje com muita força, e dificulta o assumir-se negro (banto, nagô ou o que fô) nas instâncias todas (culturais, estéticas, políticas);

    2) o fato de o movimento negro ter, desesperadamente, adotado, legitimado e multiplicado esse mesmo discurso axé-babá e legitimado isso no seio da militância, que produz até hoje pretinhos e pretinhas deslumbrados com papo de orixás que realmente pouquíssimo tem a ver com nossa real memória cultural, e com os quais forçam uma identificação por falta de outra que lhes seja oferecida.

    muito bom ver essa discussão avançar tanto. vamos arrepiar as carapinhas dos amigos!

    abraços!
    rafael.

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