The Racist Scourge – O ‘Flagelo do Racismo’ saiu no New York Times

De brancos para brancos. O tema quase não sai por aqui, mas que dane: saiu no New York Times

por ROGER COHEN – Agosto 2011

(Roger Cohen , é colunista do ‘New Yok Times’)

Pouco depois que eu nasci meu pai se mudou da Grã-Bretanha de volta à sua terra natal, a África do Sul para se tornar reitor de uma escola de medicina para estudantes negros na Universidade de Witwatersrand. Os negros eram obrigados a viver apartados dos brancos, principal razão para meu pai ter deixado Joanesburgo pela primeira vez

Houve alguns problemas durante a sua estada. Ele dizia aos alunos que estava entregando a eles a responsabilidade pelos seus próprios assuntos. O que ajudou a resolver as coisas no campus. Fora do campus a história era diferente. Muito do tempo do meu pai era gasto com idas a delegacias de polícia para negociar a soltura de estudantes negros detidos sem motivo por policiais brancos estúpidos.

Uma vez ele chegou a ouvir um policial afrikaner zombar de uma jovem negra que estava prestes a ser diplomada em medicina: “Você pensa que é uma estudante inteligente, mas na verdade não passa de uma Kaffir (‘Cafre’),  insulto hoje passível de punição legal na África do Sul.

O racismo é o recurso da estupidez. Há muita gente estúpida no mundo. O apartheid sobreviveu durante quase meio século, um sistema baseado na visão de que os negros só são bons para trabalhar como cortadores de lenha ou para carregar água. Ele teve paralelo nos EUA, onde as leis Jim Crow vigoraram por quase um século.

Aquele foi o primeiro ano da minha vida com os estudantes negros Witwatersrand. Meu pai retornou com a família para a Inglaterra, mas regularmente voltávamos à África do Sul. Me lembro dos jacarandás, dos horizontes distantes, dos firmes pêssegos amarelados. A beleza que era abundante, mas uma sombra estava sempre à espreita. Foi assim que eu absorvi o racismo, como uma fisgada, um primeiro indício de um micróbio perigoso no sangue.

Essas coisas é que formam a gente. Os judeus na África do Sul tendiam a ver os negros como um grande anteparo contra sua própria perseguição, embora estivessem mais engajados do que a maioria na tentativa de quebrar o sistema. É um pensamento grotesco este, mas se você está ocupado perseguindo dezenas de milhões de negros que não tem muito tempo de sobra para perseguir dezenas de milhares de judeus. Este pensamento ocorreu aos judeus, cujas famílias (muitos de origem lituana), havia fugido de progroms europeus e assim evitado as valas para as quais as brigadas de extermínio de Hitler os teria enviado.

Como um sul-Africano judeu, ver os negros sem passes sendo agrupados na traseira de vans da polícia foi desconcertante. Mas pelo menos isto não era assassinato em massa, pensava. Você tenta desviar os olhos.

O racismo é um jogo mental. Faz as vítimas se sentirem gratas por pequenas misericórdias até a hora em se levantam com fúria incontrolável.

Eu fui iniciado cedo no veneno do racismo na África do Sul. Os Michels, minha família materna, viveu numa propriedade que chamávamos, meio brincando de ‘Château Michel’. Da praia para a piscina para churrasco a vida era uma amplidão só, pontuada pela  ressaca da inquietação.

Eu sentia a hostilidade de uma empregada negra como se fosse uma criança que ela ameaçava deixar cair, de propósito, de seus braços. Perguntava-me porque os negros nadavam num porto sujo enquanto as praias para os brancos se estendiam por milhas. Quando adolescente evitava olhares ilícitos porque flertar era um crime. Ouvia  justificativas esfarrapadas, intolerância vestida de teoria científica.

Anos depois, em Lagos, observando Fela Kuti numa discoteca, onde eu era o único branco entre mil negros, eu entendi a palavra “minoria“. Uma boa coisa da vida foi  eu ter conquistado, graças ao jornalismo, a capacidade de cruzar fronteiras: do racismo e da intolerância, por exemplo. Os negros na África do Sul não eram sequer uma minoria. Eles eram a maioria encurralada na escravidão.

De volta à Inglaterra as coisas foram indo bem. Fui chamado de “yid” (‘judeu’) por um tempo na escola. Procurei pela palavra ‘judeu’ no Dicionário de Oxford da época:

Definição 1: Uma pessoa de ascendência hebraica, uma pessoa cuja religião é o judaísmo.
Definição 2: Uma pessoa que se comporta de maneira anteriormente atribuída aos judeus: pessoa avarenta ou chantagista.

E por aí vai.

Nada faz meu sangue ferver mais do que o racismo. Eu tenho um monte de e-mails irritados de leitores de uma recente coluna que escrevi sobre o assassino em massa na Noruega e sua simpatia pela islamofobia racista. “Muçulmanos não são uma raça”, afirmavam os comentários.

Engraçado, várias notas raivosas eram de judeus, que pareciam ter esquecido que mesmo não sendo uma raça, mas uma religião não escaparam da perseguição racista: Talvez as brigadas de extermínio tenham se perdido numa confusão semântica na hora de abrir fogo. Talvez a multidão de futebol da Malásia, que vaiou Yossi Benayoun do Chelsea, um jogador  judeu israelense, não fosse realmente racista. Iluda-se.

O ódio aos muçulmanos na Europa e nos Estados Unidos é uma indústria política crescente. É odioso, perigoso e racista. Graças ao minha colega Andrea Elliott, agora sabemos não passou de uma orquestração bem sucedida a campanha contra a Shariah (lei islâmica) nos Estados Unidos, liderada por um judeu hassídico chamado David Yerushalmi, que sustenta que “a maioria das diferenças fundamentais entre as raças são genéticas”. Os direitistas da Europa que usam a retórica anti-muçulmana são verdadeiros herdeiros daquelas horas mais sombrias do Continente.

Fico feliz de numa idade em que já entendia as coisas, meu pai ter me falado sobre um estúpido policial branco, com poder para dizer a um jovem negra inteligente e com futuro promissor que ela não passava “de uma Kaffir.”

As coisas no mundo mudam, mas  a estupidez humana não.

(Tradução Spírito Santo+Google translator)

Anúncios

~ por Spirito Santo em 14/08/2011.

3 Respostas to “The Racist Scourge – O ‘Flagelo do Racismo’ saiu no New York Times”

  1. obrigado, achei um site da biblioteca publica de Nova Iorque falando da diaspora africana na asia:http://exhibitions.nypl.org/africansindianocean/index2.php

    Curtir

  2. Daniel,

    Pelo contrário. O assunto está no cerne desta questão que só pode ser entendida se a olharmos por vários ângulos. esta história das rebeliões negras na diáspora guarda muitos segredos-chave para se entender todo o resto.

    Esta informação, por exemplo, se encaixa como uma luva numa pesquisa que fiz há mais de 30 anos, sobre um texto do folclorista e etnólogo brasileiro Paulo Carvalho-Neto, sobre um xilofone africano adaptado por mestiços de índios com negros peruanos, exatamente de… Esmeraldas.

    Feita do caule de uma palmeira típica com a qual os índios fazem arcos e com ressonadores de bambu,, o xilofone era a mais pura demonstração deste hibridismo que aparece na descrição do quadro. Fantástica contribuição como todas que voc~e tão gentilmente nos envia..

    Curtir

  3. sem querer sair do assunto, mas estou fazendo um trabalho sobre a rebeliões de escravos na américa latina e acabei encontrando essa impressionante obra de arte e história:http://www.public.iastate.edu/~savega/galque.html

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: