‘Spirito Santo ‘ponto com’: É Nóis! Balanço de 4 anos de blog

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Vi lá no motor de busca do meu blog:

Quem diria! Quatro anos de blog. A série sobre o mito da ‘Supremacia Nagô”, só como exemplo, está batendo a média de 120 acessos dia. Para um bloguinho assim como o meu isto é best seller, mermão!

Mais de 3.000 acessos por mês é uma audiência bem razoável para um escriba de rede. Sei que tem blogs aí com milhões de acessos, mas e daí? Meu sitiozinho – ou o “meu lote”, como diz o Nei Lopes – está dando uns bons cestos de jabuticaba.

Uhúuu!

Tirando os clicks casuais, acidentais, estes de adolescentes espinhentos procurando ‘bundas de negras gostosas’ (acreditem, tenho muitos clicks destes nas minhas listas diárias) é um número bem bacana de gente ligada nos assuntos que abordo (basicamente, cultura negra, musica e política brasileira). No geral se esta tem sido a média e leitores-dia, independentemente do tema da matéria, percebe-se que tópicos ligados à cultura negra do Brasil e da África – principalmente a cultura da Diáspora-  estão despertando bastante interesse.

A nota estranha é que, apesar dos apelos e a mobilização de leitores lançados numa verve propositalmente instigadora, provocativa, visando sempre estimular o debate, o feedback de leitores, tem sido pífio. Quase ninguém se dispõe a debater coisíssima alguma – quando o papo é sério – e os poucos debatedores que se animam a interagir, geralmente comparecem apenas com comentários elogiosos e estimulantes. Fica sempre a impressão de estarmos falando sempre para os mesmos interessados, o que já me inspirou a criação de vários grupos específicos de facebook.

Tem jeito não. Na rede como na vida, as pessoas se organizam em tribos, panelinhas, igrejinhas bem restritas.

Um segredo revelado: Este blog foi criado em 17/02/2007 motivado, principalmente por uma desagradável constatação pessoal: Quase não havia na internet conteúdos sérios sobre cultura negra, tema pelo qual sou apaixonado desde bem novo.

Ocorria que as perguntas que eu formulava em português no Google, sobre estes assuntos, quase sempre só me retornavam material de baixíssima qualidade e dois tipos de tratamento: Posts e imagens de chavões sobre o tema – não raro com viés racista, escatológico ou excessivamente calcado em religião – ou posts bem intencionados, porém pobres de  fundamentação, baseados na pura reiteração de mistificações as mais diversas.

Comecei escrevendo na internet no site Observatório da Imprensa. Parei de colaborar lá depois de uma pauta que propus, criticando acidamente as estrepolias corruptas do PT às vésperas da eleição do segundo mandato do Lula, ter sido, meio que censurada (sério! Era impensável, considerado maluquice falar apontar estas coisas naquele tempo ainda de ilusão petista, hoje com casa quase caída …‘avisar a gente avisou’, digo hoje saboreando o chiste do prato frio).

Infelizmente esta censura politicamente correta existe ainda hoje por aí, em vários sites jornalísticos e até mesmo numa rede de blogueiros ‘ baba-ovo’ do PT bem rançosos (Ih!…já fui muito chingado por esta gente), mesmo com as evidencias de corrupção do PT e de seus aliados em geral pululando todo dia por aí.

Bem, mas isto é outra história.

Do Observatório da Imprensa  passei para o interessantíssimo e estimulante site Overmundo, no qual continuei nesta ‘missão’ de inserir conteúdos sobre cultura negra e racismo na rede. O Overmundo para mim foi uma escola. Nem foi uma convivência harmoniosa, mas foi a base deste meu blog aqui, já que foi lá que pude exercitar uma maneira de escrever mais coloquial, ousando aqui e ali alguma diatribe, na busca de um formato mais adequado à internet.

Lá no Overmundo a participação dos leitores e colaboradores, o caráter assumido de site colaborativo como se diz, era exercido de forma radical e o estímulo à pesquisa de linguagem era realmente formidável de se fazer, embora certos temas, como racismo por exemplo fossem pontos nevrálgicos, tratados meio como tabu. Os colaboradores (brancos e classe média em sua esmagadora maioria, como era comum na internet da época por razões socio economicas já sabidas), sofriam de certa dificuldade para lidar com temas menos …politicamente corretos.

Tinham uma propensão renitente para rejeitar, agressivamente as denúncias ou mesmo a simples menção de que havia sim o racismo no Brasil – e a conseqüente ‘censura’ a posts que tocavam fundo neste assunto era sempre sutil. Isto nunca podia ser exatamente explicitado e denunciado, mas era sempre permanente e muito incômodo.

Havia também um problema no site (comum a quase todos os sites colaborativos da época) que era uma espécie  de dogmatismo editorial que balizava e monitorada radicalmente a exigência expressa de que os colaboradores só falassem, no caso do Overmundo , de temas referentes á cultura ‘do Brasil’, o que num veículo tão francamente planetário como a Internet, sempre me pareceu um anacronismo estranho, quase xenófobo. Sugeriam nas normas de conduta do site que esta era uma exigencia contratual, já que  site havia sido bancado pelo MinC, mas parecia ser mesmo uma intenção algo ingênua de criar um mundinho nacionalista novo, porém com porteira.

Meus posts avançando sobre as sempre citadas, mas nunca aprofundadas relações culturais entre África e Brasil, por exemplo, eram um pouco mal vistos por seu suposto ‘estrangerismo‘  panafricanista. Sempre afirmava que era impossível falar de cultura negra do Brasil sem falar em África, mas acho que a justificativa nunca foi exatamente compreendida, embora se falasse muito de cultura norte americana por lá.

Com frequencia eu era sutilmente ‘admoestado’ pelos moderadores por conta destes ‘deslizesinternacionalistas, além de o ser também por conta questões ligadas à direito de imagem, uma área que está hoje bem mais relaxada do que era na época, quando havia um medo pânico do site ser processado por ferir os direitos autorais de algum fotógrafo mais tremendão.

Esta foi, aliás, a principal razão de ter decidido criar uma página pessoal, idéia que os moderadores mais radicais do Overmundo me sugeriam, meio a título de pirraça tipo, ‘a porta de saída é a serventia da casa’.  O Overmundo, contudo, vamos combinar, foi mesmo a minha mais que excelente escola de escrevinhador da internet. No dia em que percebi que tinha mais leitores na minha página pessoal do que no Overmundo, pedi o meu boné, embora volte lá, confesso que saudoso, de vez em quando.

No processo, de 2007 até aqui, à medida que os temas chave foram sendo identificados, passando a usar o método de fazer perguntas ao Google em inglês ou outra língua qualquer, os conteúdos começaram a aparecer, abrindo-se um mundo de boas fontes sobre o tema no Brasil e denotando uma verdade constrangedora: Havia mesmo algum racismo ‘de conteúdos’ na internet do Brasil. Certos temas não apareciam porque ninguém os postava e tinham que ser  inseridos na rede para passarem a estar disponíveis nas buscas de todo mundo.

E desleixo, incúria intelectual, claro, já que na profusão de teses de mestrado ou textos mais pretensiosos que estavam na rede, nos trabalhos de algum fôlego investigativo que encontrávamos, a mesma característica rasa dos conteúdos predominava. Um círculo vicioso, pois, já que sem fontes confiáveis como se poderia gerar conteúdo de qualidade?

Então, antes de qualquer coisa uma satisfação: Os conteúdos sobre cultura negra estão aparecendo muito mais na internet hoje. São ainda recorrentemente baseados em chavões e mistificação muito questionáveis, mas estão aí, para serem lidos e vistos e podem ser debatidos e questionados. Ao clicar uma pergunta no Google, mesmo em portugues, já se tem já bastante material sobre o tema ‘Cultura Negra’ ( aliás gosto muito de saber que aparecem nestas pesquisas muito material que o blogeiro aqui postou, principalmente imagens já que, surpreendentemente, percebemos que havia também– e ainda há – uma espécie de racismo imagético na internet brasileira na qual imagens sobre coisas referentes á cultura negra, à negritude, tanto daqui quanto da África eram muito rarefeitas).

Uhúuu 2!

O chato é quanto na pista de um detalhe qualquer sobre um tema, descubro que a única fonte existente sou eu mesmo, o que dá uma sensação bem esquisita de estar rodando feito um peru numa roda onde acabarei assado com batatas. Mas isto passa.

Gosto e me sinto recompensado de não precisar mais ter que garimpar tantos temas-tabu, para alimentar a restritíssima rede de conteúdos sobre este tema. Hoje o debate franco, bem profundo às vezes pode predominar, embora as pessoas tenham ainda uma relação muito passiva com o conhecimento que circula na internet. O tipo de interrelação que predomina ainda é aquele muito raso, eternizado pelo Orkut e baseado na mera rede de fofocas sobre amenidades. Poucos se deram conta, na verdade de que uma nova maneira de se escrever e ler textos, participar da geração de conteúdos está surgindo na Internet e que esta grande mãe-mídia tem uma dinâmica diferente das outras mídias do passado, como estas novas maneiras de se escrever textos e espalhar conhecimento, notícias além de bons…ou maus boatos.

Isto de uma nova mídia exigir nova escrita é mais ou menos óbvio, mas há também o fator da interatividade, do feedback que no caso da Internet é a novidade mais fundamental. A rapidez com que a relação entre o que se escreve e a reação dos leitores foi modificada radicalmente. Posso citar como exemplo o tamanho dos textos que já vão podendo ser mais densos e, no meu caso foram aumentando de tamanho lentamente, a medida em que eu ia percebendo que as pessoas podiam e qeriam ler textos maiores sim, desde que a linguagem fosse de algum modo dinâmica e ágil e o tema fosse novo e interessante.

Tem- se escrito muitos textos hoje em dia a partir de alentados comentários de leitores que levam os debates de certos assuntos muito mais longe dos que os suportes de mídias de texto mais convencionais, livros, revistas, etc. levavam. O tom coloquial, a criação de maneirismos de estilo, o uso da mescla com outras linguagens (como a música e o vídeo) num mesmo post, fazendo com que aquela argumentação pesada e pomposa, que era típica do linguajar academico e que predominava, quando os temas eram mais ‘sérios’, ‘cabeça’, passasse a ser banida da comunicação na rede, a rapidez do feedback virando a chave desta nova forma de distribuir conhecimento, tudo isto são sinais positivos de uma modernidade bem aí à mão, ao nosso inteiro dispor.

A este propósito, levantando algumas boas bolas com as pesquisas que faço (usando, aliás, quase que totalmente ferramentas de internet) tenho conseguido desenvolver aqui bons debates até na área acadêmica, carente mais que todas as áreas de conhecimento no Brasil de mais insight e ‘simancol‘, aferrada que está ao anacronismo aristocrático arrogante e lerdo-militante que é próprio do meio acadêmico mais tradicional.

Não conto não, mas algumas teses universitárias já se articularam lá com certos textos do bloguinho do leigo tio-kota aqui e andam sendo debatidas até em bancas de mestrado por aí. Vai entender!

É provável que com o adensamento das redes sociais como canais múltiplos, filtros de personalização de conteúdos, sintonia fina de anseios os mais inusitados de grupos muito diversos e originais, muito mais coisa possa ser feita a este respeito. Propondo novas formas de partilhar conhecimento, a democracia relativa gozada por todos nós na Internet hoje – pelo menos por enquanto – permite que, praticamente qualquer hiato, qualquer dúvida ou baixa taxa de existencia de conteúdos – como era o caso dos temas sobre cultura negra que mencionei no início – possa ser rapidamente sanada pela ação de um grupo organizado de escritores-leitores bem focados e preparados para abastecer a rede do que bem entender.

Então é isto aí. O bloguinho do tio-kota Spírito Santo acha que nestes 4 anos contribuiu bastante – e continuará contribuindo – para desatar nós e inserir gomos novos nesta grande rede das mãos dadas de todos nós .

Até o próximo post, galera amiga.

Spírito Santo

Agosto 2011

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~ por Spirito Santo em 18/08/2011.

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