‘Jorjão’, o filme de Paulo Tiefenthaller



Jorjão é que é O Cara!

O meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” fala sobre Deus e o Mundo do Samba. Uma das coisas mais empolgantes, contudo foi poder falar desta figura fantástica que é o mestre Jorjão. Não é a toa que o seu nome ajuda a batizar o livro.

JORJÃO from Paulo Tiefenthaler on Vimeo.

Mil e últimas noites


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Mil e últimas noites

Almejo a eternidade fortuita.
Ser dois não sei se ainda sei ser
(sei lá se saber ser dói).

As duas são do tardio
do crepúsculo lusco fusco
de mim mesmo saídas
(ou entradas)
sem seta de direção.

Uma:
Aurora luminosa
ainda que tardia nova hora da manhã
costa de Dunkerque sem guerra.
Sol de verão.

Outra:
Hora da tarde de sol quase frio
morno crepúsculo
no lento torpor do tempo que se esvai
no eclipse de um inverno
sem luz nem de lua.

Uma, portanto, lua eclipsada que se vai
Outra, por tudo, sol que nasce intenso
ofusca, mas não cega

Assim mesmo
girasol tombado, mas atento vou

Um tênue torpor de extasiamento
diante das prometidas – e já sem odaliscas
últimas mil e uma noites que virão.

Almejo a eternidade fortuita.
Com este sonho trafego calmamente
para mim e para o meu fim.

Spírito Santo
Setembro 2011

Vigário Geral , ‘Cavalos Corredores’ e Tropa maldita


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Li no jornal agora. Escrevo de cabelos em pé.

Assustadora a estranha lógica que vai se formando nas estreitas relações estabelecidas entre os policiais de alta patente – logo desmascarados como bandidos e assassinos notórios – e a política de promoção e indicação para comandos de batalhões importantes e estratégicos (como Maré e São Gonçalo) por parte do governo do Rio.

Só para lembrar, anteontem mesmo o tenente coronel comandante do batalhão do complexo da Maré, solicitou o fechamento da UPA (unidade emergencial de saúde) da Maré, alegando ‘falta de segurança’ no entorno da unidade por causa do cerco de bandidos (como?).

Pois bem: Claudio Luiz de Oliveira o tenente coronel mandante do assassinato da juíza – um chefão mafioso violento e perigoso como se sabe agora – até ontem era, exatamente o comandante do batalhão da Maré. De posse da ficha dele – raposa tomando conta do galinheiro – não custava nada fazer a pergunta:

_Porque será que ele pediu para que se fechasse a UPA, meu Deus ?

Pode não querer dizer nada, mas o jornal diz também que Claudio Luiz de Oliveira era major no batalhão de Benfica, jurisdição da favela de Vigário Geral na época do célebre massacre perpetrado por PMS assassinos integrantes deste mesmo batalhão que se auto denominavam ‘Cavalos Corredores.

Já é notório também (a imprensa já noticia isto direto) que policiais envolvidos com corrupção em UPPs e favelas costumam ser transferidos para funções reservadas e confortáveis, a maioria em funções burocráticas no próprio quartel general da PM.

Para acabar de endireitar, acaba de assumir o comando geral da PM no lugar do comandante Mario Sergio Duarte que se encontra hospitalizado, o tenente coronel Álvaro Garcia que, do mesmo modo que Claudio Luiz de Oliveira foi preso e condenado tempos atrás depois de comandar uma seção de tortura com moradores inocentes num muro da favela da Cidade de Deus.

Acho absolutamente impossível conceber que as autoridades máximas da segurança pública e o governo do Estado do Rio desconheçam as fichas imundas de alguns (tomara que não muitos) de seus oficiais superiores ou que não as consultem antes de promovê-los ou premiá-los com funções estratégicas.

É estranhíssima enfim esta impressão de que estejam sendo, exatamente os mais corruptos e assassinos os credenciados para exercer cargos de tão alto nível numa cidade com problemas de segurança pública tão graves e decisivos, quando está prestes a sediar mega eventos internacionais.

Assusta sim que sejam estas figuras, exatamente aquelas que são escolhidas para comandar os mais agitados, problemáticos, e… ‘lucrativos’ postos de comando, inclusive em termos de arrecadação de armas, drogas e dinheiro, que acabamos de saber hoje, são surrupiados como ‘espólio’ pelos comandantes de vários batalhões ou UPPs, que distribuem o butim entre seus comandados (e sabe-se lá entre quem mais).

Meu Deus!

Há algo de podre aí, claro. É o que tudo indica. Como dizia o Capitão (já tenente coronel) Nascimento, ao que tudo indica talvez a Polícia Militar do Rio de Janeiro tenha mesmo é que… acabar.

Já as milícias de São Gonçalo, Niterói, Zona Oeste do Rio, os ‘mensalões‘ de UPPs em geral, os ‘bandidos escondidos atrás de togas’, o governo do Rio e outras ramificações mais bem organizadas…bem, vamos deixar isto pra lá.

Tudo dominado. Avisar a gente avisa, né?

Spirito Santo

Setembro 2011

Verger: A cegueira não é branca, a cosmologia é que foi fraudada


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A etnofantasia  nagô à luz do bom devoto Pierre Verger 

(Sim. Este papo – e não este texto exatamente – também está no livro)

Este texto do Pierre Verger que reproduzo em gordas ‘pílulas’ abaixo, é uma das minhas principais fontes para defender a tese de que o mito da ‘Supremacia’ Nagô’  ainda em voga no Brasil e na Diáspora toda, foi meticulosamente construído ao longo do século 19 por diversos meios e intenções.

(E está no livro porque ainda dizem por aí que o Samba – como tudo do negro no Brasil –  também seria nagô.)

A outra referencia essencial que utilizei, entre tantas outras, foram as teses do antropólogo Luiz Nicolau Parès das universidades de Michigan e Federal da Bahia.

Parès entrou na dança porque eu, embora já intuísse há tempos, não sabia ainda (nem sei se Verger chegou a saber) que a ‘construção deste conceito, para mim socialmente venenoso e deletério, tinha outros fundamentos ideológicos muito mais perversos do que as meras distorções etnológicas as quais Verger se refere de forma tão enfática.

(E reitero aqui que só insisto no tema porque passei a semana ouvindo provocações de uns poucos leitores baianos que insistem em tentar desqualificar meus argumentos – que nem exclusivamente meus são – com abobrinhas apressadas e mal passadas).

O fato é que – quer queiram ou não queiram os bairristas baiano-nagô – sabemos agora que este processo de ideologização do Candomblé também se deu no decorrer do século 19, localizado no eixo Lagos-Salvador, para só depois provavelmente assumir– embora não se saiba se deliberadamente – a função de anteparo atenuador de conflitos, nas tensas relações sócio raciais no Brasil, tornando-se um dos instrumentos cruciais da afirmação de uma ideologia de casta (uma minoria negra superior ao resto), a serviço do mesmo elitismo original da seita fundada no século 19, calcado numa suposta ‘superioridade’ da minoria étnica nagô perante a cultura dos demais (a maioria) dos negros do Brasil.

O tema quente e cabeludo ao qual tenho me dedicado com especial afinco porque o considero crucial para o avanço do impasse produzido pelo racismo no país, embora tenha atraído a presumida atenção de muita gente não tem alimentado ainda tanto feedback quanto eu gostaria. Ao que parece o mito está fortemente arraigado no pensamento dos movimentos negros do país, como uma cegueira branca de quem não quer ver.

Tirando esta minha ênfase sentida, o certo é que poucos se arvoraram até agora a emitir alguma opinião. Há como disse e com efeito, apenas comentários ofendidos, ressentidos – alguns alarmistas, terroristas até – em geral me admoestando sarcasticamente, me tratando como um iconoclasta abusado ‘denegrindo’ um conceito chave, baluarte da cultura negra do Brasil: o velho tabu do Candomblé.

Acho lamentável – na verdade constrangedor – que tanto esforço argumentativo, baseado, como já disse em teses muito bem aprofundadas de outros respeitáveis estudiosos do assunto (aos quais eu recorro e cito insistentemente) esteja sendo tratado com tanta parcimônia e descaso, incitando muito mais a arrogância de certos leitores ditos especialistas interessados no assunto do que uma generalizada e madura reflexão, como se poderia esperar.

Pura incúria intelectual, a repercussão surda que o tema provoca parece até com aquela empáfia burra dos reis de terra de cegos, aqueles que ninguém tem coragem de avisar que estão nus.

Bem. Sirvam-se aí então. O texto do Pierre Verger (um clássico estranhamente tão citado quanto pouco lido) é uma referencia imperdível para quem quer mesmo começar a entender o assunto.

Melhor para mim, que tendo Verger como advogado, posso me reservar o direito de, desta vez nem gastar mais meus modestos argumentos de franco atirador.

É de cadeira ou camarote que compartilho então estas claras idéias do não acadêmico douto que foi Verger, sincero adepto e devoto do bom Candomblé, fotógrafo e etnólogo franco-afro-brasileiro de coração, referencia internacional sobre o tema.

Faço minhas – pelo menos conceitualmente – as palavras dele. E Nem está mais aqui quem falou.

Etnografia yoruba e probidade científica

Pierre Verger em seu clássico artigo (trechos)

“…As definições dadas aos orixás, os deuses iorubas, foram efetivamente, a partir de determinada época (1884, para sermos precisos) embelezadas com detalhes tão pitorescos quanto inexatos. Essas definições foram a seguir eruditamente retomadas, doutamente citadas e entusiasticamente comentadas pela maioria dos que a partir de então escreveram sobre o assunto..”

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“…Ao longo de minhas pesquisas, pude constatar de que maneira informações expressas muitas vezes descuidadamente por pessoas, respeitáveis noutros domínios, criaram uma tradição aparentemente lógica, mas enganadora. Com o tempo foi-se assim acumulando vasta documentação escrita, tida como erudita porque baseada em textos, a única fonte válida aos olhos dos letrados, mesmo que esses textos fossem inspirados por escritos anteriores incorretos e até contrários à verdade. Essas informações foram copiadas e publicadas inúmeras vezes, sem que sua autenticidade fosse posta em dúvida…“

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“…Eis porque somos obrigados a pôr em questão neste artigo certas informações que estão na origem de sistemas teogônicos e cosmogônicos eruditos e a constatar que, estando desprovidas de fundamentos, não passam de gratuidades ou de construções mais ou menos habilidosas do espírito.”

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“…Ao lado e independentemente dessa tradição oral recolhida no coração da terra iorubá, a etnografia religiosa iorubá tem sido vítima, desde 1884 (e o é ainda), de informações fantasistas recolhidas muitas vezes em regiões periféricas daquelas onde a civilização iorubá se desenvolveu. Felizmente, nos é possível encontrar os autores, assinalar o momento exato do nascimento e o encaminhamento dessas noções errôneas através dos diversos escritos que têm tratado da questão. Também nos é fácil determinar o grau de competência e de seriedade, avaliar o crédito que pode ser concedido às suas informações e compreender o que está por trás de tudo que possa influenciar o caráter dos informes publicados por eles…”

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“…Nas linhas seguintes desenvolveremos esses diversos pontos detalhadamente, pois essas falsas tradições têm figurado como um postulado e freqüentemente têm sido aceitas sem discussão por numerosos autores.”

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“…Alonguei-me um pouco sobre os danos da influência das lendas inventadas pelo padre Baudin e copiadas pelo tenente coronel Ellis, mas era necessário fazê-lo, pois os absurdos publicados por eles servem de ponto de partida e de inspiração para outras e de fundamento para dissertações sobre sistemas teogônicos habilmente estruturados e ornados com efeites psicológicos e genéticos sofisticados, sobre os quais falaremos mais adiante.”

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As lendas do padre Baudin tiveram vida longa, atravessaram o Atlântico, não na memória dos escravos transportados, pela simples razão de que o tráfico negreiro já tinha acabado na época em que Baudin convertia os pagões, mas por intermédio do livro de Ellis, de que Nina Rodrigues teve conhecimento ao escrever seu livro Os Africanos no Brasil…”

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“…Este texto de Epega, juntamente com as indicações errôneas do padre Baudin, serve de fundamento para um livro recente intitulado Os Nagô e morte  (Juana Elbein dos Santos, 1975) onde a autora expõe uma concepção toda pessoal das leis que regem o que ela chama de “entidades sobrenaturais” (ib.: 72) dos Nagô (Iorubá). “

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“…mas não posso deixar de lembrar que durante a pesquisa de campo geralmente se estabelece uma situação desagradável entre o pesquisador e a pessoa entrevistada. Esta última pega rapidamente o sentido e o pensamento do pesquisador, e cheia de boa vontade, dá as respostas que casam com a hipótese da pesquisa desejada. Ainda que o informante não deforme voluntariamente os fatos, tenta ao menos exprimir-se em termos que ele quer tornar compreensíveis ao interlocutor, sendo o resultado a maior satisfação deste último e um grande prejuízo para a verdade. “

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“…O abade Bouche reconhecia isso entre 1866 e 1975 (Bouche, op.cit.: 109), dizendo “que os intérpretes negros visam menos a ser exatos do que a não descontentar o branco (freqüentemente irascível quando se vê contrariado em suas teorias pré-estabelecidas), (4) e eles (os intérpretes) não se incomodam com interpretações que sabem ser de seu gosto, ou, pelo menos, de suas idéias…”

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“…O que nos entristece e nos constrange no livro da autora (Juana Elbein dos Santos)— que é sua tese de doutoramento de terceiro ciclo pela Sorbonne — não é tanto o fato de ela haver-se inspirado em informações errôneas ou provenientes de etnias não-nagô, mas o fato de que, para edificar e “estruturar” sua obra, ela manipule e modifique os documentos citados em apoio ao sistema concebido por ela, o que é grave e constitui falta total de probidade científica…”

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“…A posição de todos esses orixás depende da história das cidades onde representam divindades protetoras. Xangô, quando vivo, era o terceiro rei de Oyó; Oxum fez um pacto em Oxogbo com Laro, o fundador da dinastia dos reis locais; Odùdùa, fundado da cidade de Ifé, cujos filhos se tornaram reis de outras cidades iorubás, conservou um caráter mais histórico e até mais político que divino e não tem nada a ver com os “ventres fecundados” da autora de Os Nagô e a morte…”

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“…Ela  (Juana Elbein dos Santos) fundamenta então agora uma teoria bastante sofisticada, confundindo, entretanto, e reunindo sob uma mesma designação noções que são na realidade diferentes, sem haver mesmo entre elas nenhuma relação de significado. O mais grave é que o conteúdo da obra Os Nagô e a morte, como aconteceu com escritos precedentes, citados no início deste artigo serve de referência e ponto de partida para novos trabalhos baseados assim em informações inexatas. Existe na autora uma tendência um pouco hoffmanesca para as almas-do-outro-mundo, as feiticeiras e Exu. “

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“…Ela tem todo o direito de seguir suas inclinações, mas onde estamos menos de acordo é quando, partindo de dados inexatos, algumas vezes manipulados, ela edifica “sistemas” de uma lógica impecável, muito bem acolhidos, diga-se de passagem, nos congressos científicos internacionais, mas que, examinados com cuidado, são um tecido de suposições e de hipóteses inteligentemente apresentadas, não tendo nada a ver com a cultura dos Nagô-Iorubá e correndo o risco de contaminar as tradições transmitidas oralmente, ainda conservadas nos meios não-eruditos…”

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…Será que ainda falta dizer alguma coisa?

Spirito Santo

Setembro 2011

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Nota de Kandimba:
Juana Elbein dos Santos – Antropóloga e coordenadora geral da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil- Secneb). Seus livros ‘Os Nagô e a Morte,  Pàde, Àsèsè e o Culto Éguns na Bahia’ foi Tese de Doutorado em Etnologia na Universidade de Sorbonne em 1972, traduzido para o português pela Universidade Federal da Bahia.

Eu vou! Porque não? Corruption in Brazil: Frivolous or serious protests.


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Passeatas direitistas, esquerdistas, populistas e vice versas de montão

Eu fui! Claro que fui. E nem me surpreendi com o fato de estarem lá ‘apenas’ 3000 pessoas. Imagina! 3000 pessoas é gente pra caramba.

É que falavam em 30.000, confundindo facebook com facevida real. Eu tenho experiência disto divulgando shows da minha banda Vissungo. Os gatos que vibram cá dizendo efusivamente ‘_Eu vou! Eu vou!”enchendo a página do seu evento de promessas de bombamento, não vingam, não pingam lá, te enchendo de frustração diante da platéia meio vazia. Mas passa.

O show sempre tem que continuar.

É uma espécie de doença do nosso tempo: a confusão entre realidade e ficção, a sensação quase estúpida de que existe mesmo uma Matrix , uma ‘realidade’ virtual e que a gente pode, ao simples apertar de uma tecla, mandar um Mr. Smith qualquer de óculos escuros e terno preto gritar por nós “Fora Corrupção!” enquanto a gente toma um vinhozinho, um chopinho, um suco de laranjazinho, tranquilamente num bar da moda qualquer, enquanto o nosso avatar substituto, todo sestroso expressa a nossa indignação em gritos inflamados, reverberados com eco e repeteco, sacudindo uma frase odiosa qualquer daquelas que a gente colou no nosso mural virtual.

_”Morra Sarney! Morra  corrupto! Morra Cabral!”

Coisas deste nosso tempo, mas mesmo assim coisas de todo o sempre.

No fim dos anos 70 cansei de ver passeatas de certo modo minúsculas lentamente passando a mover montanhas com a sua fé santa pelo fim da ditadura. Todo povo é ‘maria-vai-com-as-outras” e só se move no início como lesma covarde que só fala grosso e ruge quando empurrada por alguma enxurrada de indignação qualquer, contra alguma coisa, nem sempre edificante.

É que não esqueci o quanto de escroto havia naquela fieira de velas acesas nas janelas dos prédios da orla da Zona sul do Rio em 1964.

Os pais desta mesma classe média indignada que se amontoou na Cinelândia agora, ontem, neste 2011 esquisito – acreditem! – se organizaram indignados contra João Goulart e as reformas de base, aquela tentativa tosca dele, do Brizola e de outros até certo ponto honestos indignados, de democratizar o Brasil com alguma urgência e marra (democracia esta que eles, os pequeno burgueses e burgueses conservadores daquele tempo, queriam que ocorresse nunca, jamais, em tempo algum)

Para alguns só mesmo lendo em ambíguos livros, mas eu vi meninos, ali, de cadeira, as passeatas e as manifestações (chamadas de Marchas da Família com Deus pela Liberdade’ ) que esta gente elitista, direitista, quase nazista montou abrindo o caminho para que os militares daqui – e o governo norte americano de lá – implantassem aquela ditadura militar sórdida, sangrenta e ignorante que durou mais de 30 anos.

Pois então se toquem: 3000 pessoas indignadas – para o bem ou para o mal – é uma enxurrada e tanto, uma tempestade anunciada, aquela nuvem escura se avolumando e se aproximando rápida, bola de neve pequenininha desembestando, que tanto pode soterrar a democracia de um lugar por 30 anos, como pode lavar o esgoto da pátria de toda a sujeira dos ditadores escrotos, dos populistas histriões escrotos e dos corruptos falastrões escrotos, principalmente estes que estão aí, no poder, no governo de plantão.

E vejam bem: É mesmo líquido e certo. Ninguém deve esquecer. A multidão nunca é sábia, mas ela é sempre ameaçadora para alguém (não se sabe nunca para quem) imprevisível e avassaladora no seu ‘sem mais nem menos’, na sua imprevisibilidade que, às vezes – como na Primavera Árabe, por exemplo – perde as estribeiras e deixa os déspotas mais pomposos com a bunda de fora e as calças na mão.

Corruptos, portanto tremei!

Ontem, anteontem, no dia desta ultima manifestação ali na Cinelândia, eu vi pelo menos um político de esquerda – e do PT! – de terno preto e sombrancelhas hirtas, assustadas, saindo da câmara dos vereadores acompanhado de assessores puxa-sacos, meio acovardados também, se esgueirando pelos cantos da multidão que vociferava:

_Cadeia neles!Cadeia neles! Cadeia neles!

Dava pra ver na cara aparvalhada do político petista uma aura de medo aturdido diante do fato de que aquela causa, aquela bandeira cívica desfraldada ali na Cinelândia, não podia mais ser por ele abraçada, apropriada, porque ela era CONTRA a política institucional, convencional que se acanalhou de vez.  A manifestação era contra ele,’ O’ político! A manifestação contra a corrupção era contra os políticos TODOS do Brasil.

E esta é, até agora, a única proposta definitiva contida no desfraldar desta bandeira.

Políticos convencionais tremei!

É. A multidão é cega, emotiva e temperamental. O amor que a multidão tem pela política é visceral. Quando não é imoral (oportunista) como agora, é religioso.

Getúlio Vargas, Hitler, Mussolini, Brizola, Lula, todo político falastrão, histrião, honesto ou não, galvaniza as massas, mas fatalmente morrerá na praia do ostracismo ou da tragédia. A multidão é infiel e covarde.

Você pode comprar a multidão – como o PT lulista-governista fez agora –  aparelhando o movimento social todo, acanalhando, comprando grupos organizados, antes autônomos com benesses, cooptando lideranças com favores, cargos, empregos.

Mesmo nesta alentada Primavera Árabe a gente viu isto: Adeptos puxa sacos, funcionários de um Mubarak destes da vida, invadindo as praças, a pé ou montados em camelos, chutando, prendendo e arrebentando manifestantes desarmados.

A gente vê isto agora mesmo no fantasma do Kadafi resistindo em algum buraco de bueiro, defendido por mercenários negros retintos, que parecem vindos sabe-se lá de que país vizinho e vê também, como seqüela ambígua do avanço rebelde, o CNT sendo acusado de genocídio contra estes negros, porque sem se saber mais quem é mesmo rebelde ou quem é mesmo mercenário, todos os negros retintos que estiverem na Líbia passaram agora a ser  pau mandados de Kadafi , automaticamente condenados a morrer como traidores da liberdade.

Fazer o que? A multidão, comprada ou não, depois que desembesta é sempre cega. Melhor não atiçá-la com a vara curta da desfaçatez.

Mas não tem jeito: Há um ponto de esgarçamento e de ruptura, no amor das multidões por este abaixar a cabeça que os populistas usam de montão. Aceitar a cooptação, as vantagens clientelistas dadas com uma mão e tomadas com as duas (como esta coisa constrangedora chamada ‘Bolsa famíla’) é típico das multidões em muitos casos, mas o instinto da liberdade fraudada às vezes explode em incidentes fortuitos, tipo nada a ver.

Coisa de momento. Uma chispa súbita e… pronto.

O dia do ‘saco cheio’ das multidões pode demorar, mas é inexorável. Sempre chega o Dia do ‘Chega! O dia de tocar  o ‘foda-se!’, ‘chutar o pau da barraca’, o ‘balde’, dar um pé na bunda de alguém que encheu o nosso saco. Este dia está sempre ali, na curva do amanhã dos sacripantas que usam a multidão para se eleger, reeleger e, eternamente se locupletar.

_“Morra Sarney!”_ estava escrito numa placa da Cinelândia agora mesmo.

E notem bem: O leit motiv das constrangidas manifestantes atuais pelo combate à corrupção – não sei todo mundo sabe – foi o fato alardeado por um jornalista do diário espanhol ‘El País’ – nos chamando às falas – de que aqui se mobiliza milhões de manifestantes em frívolas e inconsequentes paradas gays, enquanto nós (…nós quem, cara pálida?) o resto do tempo, diante de coisas mais graves, nos mantemos mudos e cúmplices, mesmo carecas de saber dos impressionantes níveis de corrupção estatal, por exemplo.

Claro está, portanto, que as manifestações populares não são santas procissões religiosas, mas isto não importa muito em caso algum. Nem sempre elas são exatamente ‘populares’ e – o que é mais significativo –nem sempre são justas e democráticas, mas a gente precisa delas participar para nos sentirmos membros de uma comunidade, de uma nação, patidários de uma idéia qualquer que move o nosso mundo.

Mas isto não é desculpa para você não participar delas – e não apenas das frívolas, inconsequentes porque – cá entre nós- bloco de Carnaval não muda governo algum nem impulsiona mudanças. Tolos são os que acreditam que as manifestações mais bombadas, principalmente por serem inofensivas – e por esta clara razão, oficialmente consentidas – como o caso das paradas gays – tem alguma coisa a ver com revolução e mudança.

Desaparelhe-se! Desce deste troninho, sai deste gueto mermão!

Saindo da Cinelândia matutando sobre estas coisas todas que pincelo aqui, passei por um grupo de bombeiros que, recém saídos da manifestação geral na Cinelândia haviam se instalado nas escadarias da Câmara dos Deputados, na Praça XV, onde se encontram acampados, protestando contra o governo Estadual do odiado Sergio Cabral que os oprime e humilha como todo mundo, pelo menos aqui no Rio, já deve já estar sabendo.

Bem perto, ao lado do Museu do Paço Imperial, outro grande grupo de pessoas comuns, nem sei se também saídas da Cinelândia, confabulava animadamente sobre não sei o que.

Uma amiga, antiga militante do Movimento Negro lamentou comigo sobre a quase total ausência de negros na manifestação, fato nada estranho para mim. Certo. O perfil típico dos manifestantes era o de pessoas bem de vida, bem nutridas, a maioria branca de meia idade. Povo mesmo, deste típico, pobre negro, mal vestido só uns poucos, bem poucos (este que fotografei aí em cima era um dos poucos estranhos no ninho)

Bem. A gente sabe que povão mesmo, deste que se exige a participação para se afirmar que uma manifestação é realmente popular, não participa de passeatas como estas. Nunca participou. Foi daí que eu reparei que nas mãos dela, desta minha amiga, havia um flyer de divulgação de um tradicional evento cultural promovido por uma instituição deste Movimento Negro Oficial. Evento inclusive do qual este ‘povão’ idílico também não participa, claro.

Entre os apoiadores do tal evento o nome de notórias instituições oficiais do governo petista (ou peemedebista, sei lá) do governo que aí está enfim. Charada matada.

Ora, assim a explicação fica límpida para nós: Não há quase negros nestes eventos e manifestações como não também há sindicalistas, militantes de entidades estudantis, etc. Isto se dá por várias razões, entre elas o fato de que, cooptados, paus mandados engolfados pelo formidável aparelhamento do movimento social meticulosamente perpetrado pelo PT, sindicatos, entidades do Movimento Negro, ONGs, Instituições estudantis – como a UNE e a UBES – não vão comparecer ou apoiar – por enquanto – nenhuma manifestação espontânea contra este governo tão ‘prestativo‘, tão ‘providencial‘ para certas castas sociais.

Calma. A batata deles precisa assar um pouco mais.

Mas elas, estas organizações ‘populares’ tuteladas, cometem um erro suicida porque estão se desqualificando como representantes da indignação popular e começam já a se desmoralizar, a se esvanecer na bruma de seu conformismo interesseiro. Os políticos convencionais, todo mundo sabe, já se desmoralizaram. A bola da vez será este movimento social amarrado em seu constrangido ‘rabo preso’.

Desaparelhe-se! Desce deste troninho, sai deste gueto mermão!

É perceptível já, pelo bom resultado das presentes mobilizações iniciadas nas redes sociais, que um novo e oxigenado movimento social está nascendo no Brasil.

Os pequenos grupos de indignados independentes, bombeiros, grupos organizados nestas redes sociais, ao que parece começaram já a faxina real, o resgate moral do movimento social autêntico, aparecendo aqui e ali em células dispersas ainda, mas de grande potencial de explosão.

Corruptos titulares, oficiais e corruptos ‘pau-mandados’ do movimento social aparelhado, tremei. 3000 cabeças aqui, 3000 cabeças ali, podem muito bem, se quiseram derrubar a meia dúzia de cabeças podres que vocês são.

O trator da ética na política e na vida pública do Brasil em geral, a hora do ‘Fora nojentos cachorros da Corrupção’ vem aí raspando a esteira – com cascos de touro raspando o chão, puto da vida, babando seu veneno mortal.

Com a chapa esquentando a batata desta gente assando. Se você não bota o azar é seu, mas eu boto fé e lenha nesta fogueira.

Eu vou!

Spirito Santo

Setembro 2011

Brazíu brazilêro: O país ‘Pai dos Burros’ e suas arraigadas bruzundangas


(Na foto crianças dalits-párias-numa sala de aula na…Índia (ops! pensei que fosse no Brasil)

Já sabíamos, mas ouvir assim como ouvi no rádio dia destes de uma fonte especializada é desolador.

(E nem foi esta fonte aqui não porque esta é a oficial, aquela que mente ou doura a pílula)

“Vejamos um quadro da situação do ensino. O Brasil investe por ano, apenas 3,2% do PIB. Segundo dados do MEC, este percentual foi de 4,4% em 2006. Difícil encontrar o valor exato, de qualquer forma, é pouco para um país considerado “Em Desenvolvimento”.

Se comparado ao investimento da Coréia do Sul, ficamos muito longe. Este país investiu 10% do seu PIB durante 10 anos. Lá, para ser professor é preciso prestar um dos vestibulares mais difíceis do país e apenas 5% dos candidatos são aprovados, e é obrigatório ter Mestrado.

No Brasil, 28% dos professores não têm curso superior. O salário de um professor na Coréia equivale a R$ 4.000,00 por mês em início de carreira, no Brasil, R$ 1.500,00, 37% abaixo da média dos profissionais com diploma. Um estudante na Coréia passa, em média, 9 horas por dia na escola, o estudante brasileiro, apenas 5 horas por dia. (Fonte de dados: MEC e Revista Exame de 31/12/08).

Sim senhores, vovô não viu a uva. Os quadros de profissionais de educação do Brasil são ocupados por aqueles que foram os alunos menos preparados de nossas escolas, os mais mal formados entre estes, sendo os que, em conseqüência ganham os menores salários em comparação com as pessoas com profissões equivalentes, mesmo as com terceiro grau.

É desolador concluir, por conseguinte que, obviamente as pessoas que formam estes profissionais nos cursos normais e nas faculdades de educação de nossas universidades, inclusive – com todo respeito – os doutores em Educação que os tornam mestres ou os doutoram, são oriundos, com raríssimas exceções desta mesma máquina de baixa excelência constrangedora.

Verdadeira fábrica de deseducação e emburrecimento nacional.

E a constatação mais trágica: A péssima qualidade de nossa Educação (pública ou privada, diga-se quando comparada com o resto do mundo) não é, como se costuma simplificadamente deduzir, apenas uma questão ligada aos baixos salários dos professores, mas muito antes disto um problema intrínseco ao sistema que está carcomido desde a base.

Considerando-se ser a má formação dos alunos desde as classes mais elementares a raiz de todo o problema, para se ter alguma chance de resolvê-lo teríamos que fechar os olhos e desistir do mal sem remédio, do que já está feito e cabado para passar a investir apenas na base do sistema, rezando d epés juntos para que num prazo, sei lá, de 15 anos, com muito rigor gerencial, se possa ter professores de cursos normais e universidades bem formados e capazes de, num espaço de mais uns 5 anos (ou seja 15 no total) revolucionar as bases de nossa Educação para que nos 5 anos seguintes, termos o sistema saneado, dslanchando um circulo virtuoso.

20 anos, no barato, é o que precisamos para nos igualarmos aos países mais ou menos desenvolvidos, neste aspecto fundamental para uma sociedade que quer crescer de verdade, sem elite predadora, sem doutores em ladroagem, sem a desavergonhada ineficiencia geral que nos carateriza.

Considerando-se que o sistema brasileiro, os governos, as instituições afins em suma,  não demonstram o menor interesse – ou mesmo compreensão sobre a real natureza e a devastadora gravidade do problema – a ponto de investir pesadamente em Educação elementar (todos os recursos disponíveis são gastos com programas clientelistas de renda mínima e corrupção institucional), pode-se deduzir facilmente que não temos nenhuma chance de ainda nesta geração, sair desta lama.

É por isto que, não sendo um masoquista-  muito pelo contrário – confesso que desisto deste assunto. Com cerrteza não estarei vivo quando alguma luz surgir neste horizonte…se é que um dia alguma luz se acenderá neste túnel sem fim.

Garanto, afirmo e assino em baixo que os da minha geração e a desta seguinte à minha, esta  que se esvai também na ignorância, podem esquecer o assunto.

Trabalhei mais ou menos perto de Darcy Ribeiro nos Cieps, tive ali contato com algumas práticas  e baseadas nas idéias seminais de Anísio Teixeira e de outros educadores e pensadores progresistas. Vi, funcionando na prática as melhores ações visando revolucionar a nossa Educação pública, funcionando a pleno vapor para, logo em seguida serem sabotadas, dinamitadas de dentro das próprias universidades, por foribundas campanhas de doutores do atraso, que apostavam – como apostam ainda hoje, no caso das cotas para a educação –  no elitismo secularmente sórdido com que tentam atravancar o  país, na defesa estúpida de seus oxidados anéis.

Certa vez, inspecionando um Ciep logo depois da administração de Darcy Ribeiro ouvi um funcionario me contar que uma comitiva do secretário seguinte fez uma grande fogueira onde foram qeimados os uniformes e o material escolar dos alunos, comprados pelo governo anterior.  As cameras VHS e o equipamento de som, material que havia sido instalado em todos os Cieps, foram recolhidos pela tal comitiva ao depósito público estadual, onde desapareceram, distribuídas entre autoridades e cupinchas sacripantas, como butim.

Num país ‘Pai dos Burros”, travestido de madrasta de crianças a serem deseducadas, a Educação no Brasil é um assunto que assassino em mim, sem nenhuma culpa, sem qualquer remorso.

Próxima mazela, por favor.

Spírito Santo

Setembro 2011

Me and the Master of Samba drums – Mestre André, o rei dos batuqueiros


Eu, Mestre André e a ‘paradinha’ das escolas de Samba

O grande barato foi eu ter estado lá e ter visto tudo, ao vivo e à cores. Conheci sim o Mestre André pessoalmente. Isto era muito fácil para quem morava em Padre Miguel, mas para mim foi conhecer assim mesmo, de apertar a mão do cara admirado. O homem era a maior celebridade do local (que tinha também o Dilermando – ‘chapéu de palha’- Pinheiro, um cantor-sambista do rádio que, batucava num chapéu de palhinha, sempre impecável, e o Zózimo, parceiro de Pelé num daqueles times antológicos do Santos)

O meu encontro com o André foi pra lá de inusitado. Não teve nada a ver com a sua função de Mestre de Bateria, talvez o melhor entre todos em todos os tempos. A escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel estava numa fase crítica. Nem sede tinha e a diretoria se reunia numa casa de fundos numa rua transversal da Rua Cherburgo, perto do estádio de ‘Moça Bonita‘ (onde pontificava o time do Bangu).

Ao que parece a gloriosa escola nem patrono tinha, por alguma razão que me foge agora da lembrança, não havia o contraventor Castor de Andrade nem ninguém bancando nada por ali, pelo menos naquele ano. Pelo visto eram alguns bicheiros menores, uns abnegados que seguravam a onda. A situação era tão desesperadora que o ‘carnavalesco’ naquele ano era… o próprio André.

(Diga-se de passagem que a função de ‘carnavalesco‘ nem estava ainda estabelecida direito. Para se ter uma idéia, os carros alegóricos eram compostos por estátuas de papier machè, feitas por algum escultor ali da área mesmo, tão abnegado quanto os bicheiros e todos nós ali, orgulhosos de nossa escola de Samba.)

Me lembro nitidamente de uma alegoria do bandeirante Manoel Branco, ajoelhado ao pé do trono do rei de Portugal, ofertando-lhe um cacho de bananas de ouro maciço, provando assim a grande abundancia da terras do Brasil. O carro todo desengonçado, com aquelas estátuas toscas de arame e papel, choacoalhava todo nos paralelepípedos da Rua Cherburgo como se em meio a um tremor de terra, com o samba inesquecível soando ao fundo:

“…Foi um lindo cacho de bananas
todo de ouro de tamanho natural, natural
que deslumbrou toda a nobreza
que naquela data existia no salão real
o rei entusiasmado
fitou Manoel Branco
estendendo-lhe a mão…”

O fato é que alguém contou pro André que eu desenhava, pintava, estas coisas aí, e ele, de sopetão apareceu na porta da minha casa, deixando todo mundo surpreso com aquela tão célebre visita. O que seria que o Mestre André queria comigo, gente?

-” É você o garoto que pinta, né?”

Sei lá se falei ou fiz um gesto que sim com a cabeça, o que aconteceu foi que ele nem quis saber se eu aceitava ou não. Foi logo dando a ordem:

_ ‘Pois você vai pintar os estandartes da escola. Diz aí quanto custa, quanto quer de adiantamento pro material e estamos conversados.”

Um ‘paco‘ como se dizia de grana. Um pacotão de dinheiro ele foi deixando ali mesmo, nas minhas mãos trêmulas e suadas.

Chamei dos amigos do peito para me auxiliar e me internei por quinze dias e quinze noites no meu quarto travestido de ateliê.

O enredo tinha algo a ver com o Descobrimento do Brasil, juro que não me lembro nem a data, só sei que era antes de 1968 com certeza (1967 talvez). Pintamos dezenas de estandartes com uma cruz de malta vermelha e louros verdinhos, dezenas de pares de sapatilhas que tinham que ficar totalmente prateadas para receber uns raminhos de louros salpicados aqui e ali. Se não me falha a memória, a própria bandeira da escola foi por nós pintada, tudo a tempo e a hora… quase a passar da hora, na verdade como ocorre com todo preparativo de Carnaval.

No fim, em pleno sábado de Carnaval, encomenda entregue, com o bolso literalmente cheio de grana, saimos para dar aquela volta vitoriosa e triunfal pela Praça do Trabalhador. O plano era prosaico: Tomar uns poucos tragos para ganhar coragem para soltar uns galanteios para as mocinhas mais desavisadas, felizes da vida.

Nem me toquei que aquele ‘carnavalesco’ tão mão aberta era o grande Mestre André, célebre herói do meu bairro, o pai da paradinha das baterias de Escolas de Samba. Nem sabia que um dia ia ter que colocar, com muito orgulho as glórias dele no meu livro, sim, este livro mesmo que falei que estava no prelo e que você muito brevemente  iria ler, é inspirado muito nas glórias sambísticas do Mestre André. O livro saiu. André ficou mais eterno ainda.

Este sim é um dos meus poucos heróis. Claro que eu conto a história dele (não esta comigo, exatamente) no meu livro. Querem ler uma ‘palinha‘?

“O SAMBA DA MOCIDADE INDEPENDENTE”

(Extraído de ‘Do Samba ao Funk do Jorjão“, lançado agora mesmo – se liguem na divulgação rolando por aí . O livro saiu em versão papel e E.book e está à venda nas livrarias Cultura, Saraiva,Travessa, FNAC (e versão E.book á venda  pela KBR Digital no site da Amazon.com). Em breve rolando em países africanos de língua oficial portugusa (Palop)

Um caso a ser destacado entre as Escolas de Samba ‘suburbanas’.
A batida da ‘depê

“ …Eu quando comecei a tocar com André tava com seis anos de idade. Era o menor da bateria. Ele tinha um apito de madeira que ele tinha o maior ciúme daquele apito “Toma. Guarda esse apito pra você.” Quando eu cheguei em casa, fui saber…veio a notícia que ele tinha falecido. O Mestre André foi o homem que lançou a paradinha. Inclusive essa “Paradinha” foi até um troço muito interessante. O André lançou a “Paradinha” num escorregão que ele levou. Foi fazer um show uma vez ele tomou um escorregão, tinha uma poça d’água ele foi faz…ele costumava Sambar, então ele tomou um escorregão e caiu, quando ele caiu, a bateria parou, e na época tinha um ritmista que se chamava João Branco, quando viu que ele caiu começou a repicar o repique até ele levantar, ele levantou, João Branco deu a entrada a bateria subiu. Foi muito aplaudida. Foi onde foi lançada a “Paradinha” da Mocidade, foi num tombo, num escorregão do Mestre André”

(Depoimento de Mestre Jorjão dando conta de uma das muitas versões sobre a invenção da ‘paradinha‘ do Mestre André)

Na definição do moderno conceito de bateria de Escola de Samba em voga nos dias de hoje, baseado num agudo senso de valorização do espetáculo, de ousadia na performance e na busca do máximo de apuro técnico na dinâmica do conjunto, a bateria dirigida pelo saudoso Mestre André é até hoje insuperável.

A famosa mística da bateria nota dez estará para sempre associada diretamente aquele discreto morador da Rua C do conjunto do IAPI, que para muitos talvez tenha sido o melhor mestre de bateria de escolas de Samba de todos os tempos.

Difícil comprovar ainda, mas, ao que tudo indica, muitas das surpreendentes inovações de orquestração usadas pelas baterias de Samba a partir desta época, foram criadas nestas baterias suburbanas, e firmadas, impregnadas de erudição por muitos mestres da Portela, do Salgueiro, da Império Serrano mas, com destaque para o Mestre André e uma grande estirpe de percussionistas reunidos pela Mocidade Independente de Padre Miguel ali pelo final da década de 50.

“ Em 1952 um grupo de rapazes resolveu criar um time de futebol ao qual foi dado o nome de Independente Futebol Clube, e para alegria levavam alguns instrumentos de percussão. Como o time sempre ganhava, na volta a alegria era tal que mais parecia um bloco de carnaval, chamando a atenção de todos a maneira harmoniosa com que a bateria apresentava o ritmo de Samba. Bem vai pra lá, vem pra cá, a moçada resolveu transformar o time de futebol em bloco carnavalesco. Lá pelo idos de 1955, apresentado-se em um desfile pelas ruas do bairro de Padre Miguel por ocasião do carnaval daquele ano, promovido pelo falecido político Waldemar Vianna de Carvalho…”

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(Extraído de ‘Do Samba ao Funk do Jorjão“)

Spirito Santo

Setembro 2011