‘Jorjão’, o filme de Paulo Tiefenthaller



Jorjão é que é O Cara!

O meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” fala sobre Deus e o Mundo do Samba. Uma das coisas mais empolgantes, contudo foi poder falar desta figura fantástica que é o mestre Jorjão. Não é a toa que o seu nome ajuda a batizar o livro.

JORJÃO from Paulo Tiefenthaler on Vimeo.

Mil e últimas noites


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Mil e últimas noites

Almejo a eternidade fortuita.
Ser dois não sei se ainda sei ser
(sei lá se saber ser dói).

As duas são do tardio
do crepúsculo lusco fusco
de mim mesmo saídas
(ou entradas)
sem seta de direção.

Uma:
Aurora luminosa
ainda que tardia nova hora da manhã
costa de Dunkerque sem guerra.
Sol de verão.

Outra:
Hora da tarde de sol quase frio
morno crepúsculo
no lento torpor do tempo que se esvai
no eclipse de um inverno
sem luz nem de lua.

Uma, portanto, lua eclipsada que se vai
Outra, por tudo, sol que nasce intenso
ofusca, mas não cega

Assim mesmo
girasol tombado, mas atento vou

Um tênue torpor de extasiamento
diante das prometidas – e já sem odaliscas
últimas mil e uma noites que virão.

Almejo a eternidade fortuita.
Com este sonho trafego calmamente
para mim e para o meu fim.

Spírito Santo
Setembro 2011

Vigário Geral , ‘Cavalos Corredores’ e Tropa maldita


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Li no jornal agora. Escrevo de cabelos em pé.

Assustadora a estranha lógica que vai se formando nas estreitas relações estabelecidas entre os policiais de alta patente – logo desmascarados como bandidos e assassinos notórios – e a política de promoção e indicação para comandos de batalhões importantes e estratégicos (como Maré e São Gonçalo) por parte do governo do Rio.

Só para lembrar, anteontem mesmo o tenente coronel comandante do batalhão do complexo da Maré, solicitou o fechamento da UPA (unidade emergencial de saúde) da Maré, alegando ‘falta de segurança’ no entorno da unidade por causa do cerco de bandidos (como?).

Pois bem: Claudio Luiz de Oliveira o tenente coronel mandante do assassinato da juíza – um chefão mafioso violento e perigoso como se sabe agora – até ontem era, exatamente o comandante do batalhão da Maré. De posse da ficha dele – raposa tomando conta do galinheiro – não custava nada fazer a pergunta:

_Porque será que ele pediu para que se fechasse a UPA, meu Deus ?

Pode não querer dizer nada, mas o jornal diz também que Claudio Luiz de Oliveira era major no batalhão de Benfica, jurisdição da favela de Vigário Geral na época do célebre massacre perpetrado por PMS assassinos integrantes deste mesmo batalhão que se auto denominavam ‘Cavalos Corredores.

Já é notório também (a imprensa já noticia isto direto) que policiais envolvidos com corrupção em UPPs e favelas costumam ser transferidos para funções reservadas e confortáveis, a maioria em funções burocráticas no próprio quartel general da PM.

Para acabar de endireitar, acaba de assumir o comando geral da PM no lugar do comandante Mario Sergio Duarte que se encontra hospitalizado, o tenente coronel Álvaro Garcia que, do mesmo modo que Claudio Luiz de Oliveira foi preso e condenado tempos atrás depois de comandar uma seção de tortura com moradores inocentes num muro da favela da Cidade de Deus.

Acho absolutamente impossível conceber que as autoridades máximas da segurança pública e o governo do Estado do Rio desconheçam as fichas imundas de alguns (tomara que não muitos) de seus oficiais superiores ou que não as consultem antes de promovê-los ou premiá-los com funções estratégicas.

É estranhíssima enfim esta impressão de que estejam sendo, exatamente os mais corruptos e assassinos os credenciados para exercer cargos de tão alto nível numa cidade com problemas de segurança pública tão graves e decisivos, quando está prestes a sediar mega eventos internacionais.

Assusta sim que sejam estas figuras, exatamente aquelas que são escolhidas para comandar os mais agitados, problemáticos, e… ‘lucrativos’ postos de comando, inclusive em termos de arrecadação de armas, drogas e dinheiro, que acabamos de saber hoje, são surrupiados como ‘espólio’ pelos comandantes de vários batalhões ou UPPs, que distribuem o butim entre seus comandados (e sabe-se lá entre quem mais).

Meu Deus!

Há algo de podre aí, claro. É o que tudo indica. Como dizia o Capitão (já tenente coronel) Nascimento, ao que tudo indica talvez a Polícia Militar do Rio de Janeiro tenha mesmo é que… acabar.

Já as milícias de São Gonçalo, Niterói, Zona Oeste do Rio, os ‘mensalões‘ de UPPs em geral, os ‘bandidos escondidos atrás de togas’, o governo do Rio e outras ramificações mais bem organizadas…bem, vamos deixar isto pra lá.

Tudo dominado. Avisar a gente avisa, né?

Spirito Santo

Setembro 2011

Verger: A cegueira não é branca, a cosmologia é que foi fraudada


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A etnofantasia  nagô à luz do bom devoto Pierre Verger 

(Sim. Este papo – e não este texto exatamente – também está no livro)

Este texto do Pierre Verger que reproduzo em gordas ‘pílulas’ abaixo, é uma das minhas principais fontes para defender a tese de que o mito da ‘Supremacia’ Nagô’  ainda em voga no Brasil e na Diáspora toda, foi meticulosamente construído ao longo do século 19 por diversos meios e intenções.

(E está no livro porque ainda dizem por aí que o Samba – como tudo do negro no Brasil –  também seria nagô.)

A outra referencia essencial que utilizei, entre tantas outras, foram as teses do antropólogo Luiz Nicolau Parès das universidades de Michigan e Federal da Bahia.

Parès entrou na dança porque eu, embora já intuísse há tempos, não sabia ainda (nem sei se Verger chegou a saber) que a ‘construção deste conceito, para mim socialmente venenoso e deletério, tinha outros fundamentos ideológicos muito mais perversos do que as meras distorções etnológicas as quais Verger se refere de forma tão enfática.

(E reitero aqui que só insisto no tema porque passei a semana ouvindo provocações de uns poucos leitores baianos que insistem em tentar desqualificar meus argumentos – que nem exclusivamente meus são – com abobrinhas apressadas e mal passadas).

O fato é que – quer queiram ou não queiram os bairristas baiano-nagô – sabemos agora que este processo de ideologização do Candomblé também se deu no decorrer do século 19, localizado no eixo Lagos-Salvador, para só depois provavelmente assumir– embora não se saiba se deliberadamente – a função de anteparo atenuador de conflitos, nas tensas relações sócio raciais no Brasil, tornando-se um dos instrumentos cruciais da afirmação de uma ideologia de casta (uma minoria negra superior ao resto), a serviço do mesmo elitismo original da seita fundada no século 19, calcado numa suposta ‘superioridade’ da minoria étnica nagô perante a cultura dos demais (a maioria) dos negros do Brasil.

O tema quente e cabeludo ao qual tenho me dedicado com especial afinco porque o considero crucial para o avanço do impasse produzido pelo racismo no país, embora tenha atraído a presumida atenção de muita gente não tem alimentado ainda tanto feedback quanto eu gostaria. Ao que parece o mito está fortemente arraigado no pensamento dos movimentos negros do país, como uma cegueira branca de quem não quer ver.

Tirando esta minha ênfase sentida, o certo é que poucos se arvoraram até agora a emitir alguma opinião. Há como disse e com efeito, apenas comentários ofendidos, ressentidos – alguns alarmistas, terroristas até – em geral me admoestando sarcasticamente, me tratando como um iconoclasta abusado ‘denegrindo’ um conceito chave, baluarte da cultura negra do Brasil: o velho tabu do Candomblé.

Acho lamentável – na verdade constrangedor – que tanto esforço argumentativo, baseado, como já disse em teses muito bem aprofundadas de outros respeitáveis estudiosos do assunto (aos quais eu recorro e cito insistentemente) esteja sendo tratado com tanta parcimônia e descaso, incitando muito mais a arrogância de certos leitores ditos especialistas interessados no assunto do que uma generalizada e madura reflexão, como se poderia esperar.

Pura incúria intelectual, a repercussão surda que o tema provoca parece até com aquela empáfia burra dos reis de terra de cegos, aqueles que ninguém tem coragem de avisar que estão nus.

Bem. Sirvam-se aí então. O texto do Pierre Verger (um clássico estranhamente tão citado quanto pouco lido) é uma referencia imperdível para quem quer mesmo começar a entender o assunto.

Melhor para mim, que tendo Verger como advogado, posso me reservar o direito de, desta vez nem gastar mais meus modestos argumentos de franco atirador.

É de cadeira ou camarote que compartilho então estas claras idéias do não acadêmico douto que foi Verger, sincero adepto e devoto do bom Candomblé, fotógrafo e etnólogo franco-afro-brasileiro de coração, referencia internacional sobre o tema.

Faço minhas – pelo menos conceitualmente – as palavras dele. E Nem está mais aqui quem falou.

Etnografia yoruba e probidade científica

Pierre Verger em seu clássico artigo (trechos)

“…As definições dadas aos orixás, os deuses iorubas, foram efetivamente, a partir de determinada época (1884, para sermos precisos) embelezadas com detalhes tão pitorescos quanto inexatos. Essas definições foram a seguir eruditamente retomadas, doutamente citadas e entusiasticamente comentadas pela maioria dos que a partir de então escreveram sobre o assunto..”

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“…Ao longo de minhas pesquisas, pude constatar de que maneira informações expressas muitas vezes descuidadamente por pessoas, respeitáveis noutros domínios, criaram uma tradição aparentemente lógica, mas enganadora. Com o tempo foi-se assim acumulando vasta documentação escrita, tida como erudita porque baseada em textos, a única fonte válida aos olhos dos letrados, mesmo que esses textos fossem inspirados por escritos anteriores incorretos e até contrários à verdade. Essas informações foram copiadas e publicadas inúmeras vezes, sem que sua autenticidade fosse posta em dúvida…“

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“…Eis porque somos obrigados a pôr em questão neste artigo certas informações que estão na origem de sistemas teogônicos e cosmogônicos eruditos e a constatar que, estando desprovidas de fundamentos, não passam de gratuidades ou de construções mais ou menos habilidosas do espírito.”

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“…Ao lado e independentemente dessa tradição oral recolhida no coração da terra iorubá, a etnografia religiosa iorubá tem sido vítima, desde 1884 (e o é ainda), de informações fantasistas recolhidas muitas vezes em regiões periféricas daquelas onde a civilização iorubá se desenvolveu. Felizmente, nos é possível encontrar os autores, assinalar o momento exato do nascimento e o encaminhamento dessas noções errôneas através dos diversos escritos que têm tratado da questão. Também nos é fácil determinar o grau de competência e de seriedade, avaliar o crédito que pode ser concedido às suas informações e compreender o que está por trás de tudo que possa influenciar o caráter dos informes publicados por eles…”

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“…Nas linhas seguintes desenvolveremos esses diversos pontos detalhadamente, pois essas falsas tradições têm figurado como um postulado e freqüentemente têm sido aceitas sem discussão por numerosos autores.”

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“…Alonguei-me um pouco sobre os danos da influência das lendas inventadas pelo padre Baudin e copiadas pelo tenente coronel Ellis, mas era necessário fazê-lo, pois os absurdos publicados por eles servem de ponto de partida e de inspiração para outras e de fundamento para dissertações sobre sistemas teogônicos habilmente estruturados e ornados com efeites psicológicos e genéticos sofisticados, sobre os quais falaremos mais adiante.”

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As lendas do padre Baudin tiveram vida longa, atravessaram o Atlântico, não na memória dos escravos transportados, pela simples razão de que o tráfico negreiro já tinha acabado na época em que Baudin convertia os pagões, mas por intermédio do livro de Ellis, de que Nina Rodrigues teve conhecimento ao escrever seu livro Os Africanos no Brasil…”

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“…Este texto de Epega, juntamente com as indicações errôneas do padre Baudin, serve de fundamento para um livro recente intitulado Os Nagô e morte  (Juana Elbein dos Santos, 1975) onde a autora expõe uma concepção toda pessoal das leis que regem o que ela chama de “entidades sobrenaturais” (ib.: 72) dos Nagô (Iorubá). “

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“…mas não posso deixar de lembrar que durante a pesquisa de campo geralmente se estabelece uma situação desagradável entre o pesquisador e a pessoa entrevistada. Esta última pega rapidamente o sentido e o pensamento do pesquisador, e cheia de boa vontade, dá as respostas que casam com a hipótese da pesquisa desejada. Ainda que o informante não deforme voluntariamente os fatos, tenta ao menos exprimir-se em termos que ele quer tornar compreensíveis ao interlocutor, sendo o resultado a maior satisfação deste último e um grande prejuízo para a verdade. “

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“…O abade Bouche reconhecia isso entre 1866 e 1975 (Bouche, op.cit.: 109), dizendo “que os intérpretes negros visam menos a ser exatos do que a não descontentar o branco (freqüentemente irascível quando se vê contrariado em suas teorias pré-estabelecidas), (4) e eles (os intérpretes) não se incomodam com interpretações que sabem ser de seu gosto, ou, pelo menos, de suas idéias…”

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“…O que nos entristece e nos constrange no livro da autora (Juana Elbein dos Santos)— que é sua tese de doutoramento de terceiro ciclo pela Sorbonne — não é tanto o fato de ela haver-se inspirado em informações errôneas ou provenientes de etnias não-nagô, mas o fato de que, para edificar e “estruturar” sua obra, ela manipule e modifique os documentos citados em apoio ao sistema concebido por ela, o que é grave e constitui falta total de probidade científica…”

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“…A posição de todos esses orixás depende da história das cidades onde representam divindades protetoras. Xangô, quando vivo, era o terceiro rei de Oyó; Oxum fez um pacto em Oxogbo com Laro, o fundador da dinastia dos reis locais; Odùdùa, fundado da cidade de Ifé, cujos filhos se tornaram reis de outras cidades iorubás, conservou um caráter mais histórico e até mais político que divino e não tem nada a ver com os “ventres fecundados” da autora de Os Nagô e a morte…”

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“…Ela  (Juana Elbein dos Santos) fundamenta então agora uma teoria bastante sofisticada, confundindo, entretanto, e reunindo sob uma mesma designação noções que são na realidade diferentes, sem haver mesmo entre elas nenhuma relação de significado. O mais grave é que o conteúdo da obra Os Nagô e a morte, como aconteceu com escritos precedentes, citados no início deste artigo serve de referência e ponto de partida para novos trabalhos baseados assim em informações inexatas. Existe na autora uma tendência um pouco hoffmanesca para as almas-do-outro-mundo, as feiticeiras e Exu. “

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“…Ela tem todo o direito de seguir suas inclinações, mas onde estamos menos de acordo é quando, partindo de dados inexatos, algumas vezes manipulados, ela edifica “sistemas” de uma lógica impecável, muito bem acolhidos, diga-se de passagem, nos congressos científicos internacionais, mas que, examinados com cuidado, são um tecido de suposições e de hipóteses inteligentemente apresentadas, não tendo nada a ver com a cultura dos Nagô-Iorubá e correndo o risco de contaminar as tradições transmitidas oralmente, ainda conservadas nos meios não-eruditos…”

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…Será que ainda falta dizer alguma coisa?

Spirito Santo

Setembro 2011

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Nota de Kandimba:
Juana Elbein dos Santos – Antropóloga e coordenadora geral da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil- Secneb). Seus livros ‘Os Nagô e a Morte,  Pàde, Àsèsè e o Culto Éguns na Bahia’ foi Tese de Doutorado em Etnologia na Universidade de Sorbonne em 1972, traduzido para o português pela Universidade Federal da Bahia.

Eu vou! Porque não? Corruption in Brazil: Frivolous or serious protests.


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Passeatas direitistas, esquerdistas, populistas e vice versas de montão

Eu fui! Claro que fui. E nem me surpreendi com o fato de estarem lá ‘apenas’ 3000 pessoas. Imagina! 3000 pessoas é gente pra caramba.

É que falavam em 30.000, confundindo facebook com facevida real. Eu tenho experiência disto divulgando shows da minha banda Vissungo. Os gatos que vibram cá dizendo efusivamente ‘_Eu vou! Eu vou!”enchendo a página do seu evento de promessas de bombamento, não vingam, não pingam lá, te enchendo de frustração diante da platéia meio vazia. Mas passa.

O show sempre tem que continuar.

É uma espécie de doença do nosso tempo: a confusão entre realidade e ficção, a sensação quase estúpida de que existe mesmo uma Matrix , uma ‘realidade’ virtual e que a gente pode, ao simples apertar de uma tecla, mandar um Mr. Smith qualquer de óculos escuros e terno preto gritar por nós “Fora Corrupção!” enquanto a gente toma um vinhozinho, um chopinho, um suco de laranjazinho, tranquilamente num bar da moda qualquer, enquanto o nosso avatar substituto, todo sestroso expressa a nossa indignação em gritos inflamados, reverberados com eco e repeteco, sacudindo uma frase odiosa qualquer daquelas que a gente colou no nosso mural virtual.

_”Morra Sarney! Morra  corrupto! Morra Cabral!”

Coisas deste nosso tempo, mas mesmo assim coisas de todo o sempre.

No fim dos anos 70 cansei de ver passeatas de certo modo minúsculas lentamente passando a mover montanhas com a sua fé santa pelo fim da ditadura. Todo povo é ‘maria-vai-com-as-outras” e só se move no início como lesma covarde que só fala grosso e ruge quando empurrada por alguma enxurrada de indignação qualquer, contra alguma coisa, nem sempre edificante.

É que não esqueci o quanto de escroto havia naquela fieira de velas acesas nas janelas dos prédios da orla da Zona sul do Rio em 1964.

Os pais desta mesma classe média indignada que se amontoou na Cinelândia agora, ontem, neste 2011 esquisito – acreditem! – se organizaram indignados contra João Goulart e as reformas de base, aquela tentativa tosca dele, do Brizola e de outros até certo ponto honestos indignados, de democratizar o Brasil com alguma urgência e marra (democracia esta que eles, os pequeno burgueses e burgueses conservadores daquele tempo, queriam que ocorresse nunca, jamais, em tempo algum)

Para alguns só mesmo lendo em ambíguos livros, mas eu vi meninos, ali, de cadeira, as passeatas e as manifestações (chamadas de Marchas da Família com Deus pela Liberdade’ ) que esta gente elitista, direitista, quase nazista montou abrindo o caminho para que os militares daqui – e o governo norte americano de lá – implantassem aquela ditadura militar sórdida, sangrenta e ignorante que durou mais de 30 anos.

Pois então se toquem: 3000 pessoas indignadas – para o bem ou para o mal – é uma enxurrada e tanto, uma tempestade anunciada, aquela nuvem escura se avolumando e se aproximando rápida, bola de neve pequenininha desembestando, que tanto pode soterrar a democracia de um lugar por 30 anos, como pode lavar o esgoto da pátria de toda a sujeira dos ditadores escrotos, dos populistas histriões escrotos e dos corruptos falastrões escrotos, principalmente estes que estão aí, no poder, no governo de plantão.

E vejam bem: É mesmo líquido e certo. Ninguém deve esquecer. A multidão nunca é sábia, mas ela é sempre ameaçadora para alguém (não se sabe nunca para quem) imprevisível e avassaladora no seu ‘sem mais nem menos’, na sua imprevisibilidade que, às vezes – como na Primavera Árabe, por exemplo – perde as estribeiras e deixa os déspotas mais pomposos com a bunda de fora e as calças na mão.

Corruptos, portanto tremei!

Ontem, anteontem, no dia desta ultima manifestação ali na Cinelândia, eu vi pelo menos um político de esquerda – e do PT! – de terno preto e sombrancelhas hirtas, assustadas, saindo da câmara dos vereadores acompanhado de assessores puxa-sacos, meio acovardados também, se esgueirando pelos cantos da multidão que vociferava:

_Cadeia neles!Cadeia neles! Cadeia neles!

Dava pra ver na cara aparvalhada do político petista uma aura de medo aturdido diante do fato de que aquela causa, aquela bandeira cívica desfraldada ali na Cinelândia, não podia mais ser por ele abraçada, apropriada, porque ela era CONTRA a política institucional, convencional que se acanalhou de vez.  A manifestação era contra ele,’ O’ político! A manifestação contra a corrupção era contra os políticos TODOS do Brasil.

E esta é, até agora, a única proposta definitiva contida no desfraldar desta bandeira.

Políticos convencionais tremei!

É. A multidão é cega, emotiva e temperamental. O amor que a multidão tem pela política é visceral. Quando não é imoral (oportunista) como agora, é religioso.

Getúlio Vargas, Hitler, Mussolini, Brizola, Lula, todo político falastrão, histrião, honesto ou não, galvaniza as massas, mas fatalmente morrerá na praia do ostracismo ou da tragédia. A multidão é infiel e covarde.

Você pode comprar a multidão – como o PT lulista-governista fez agora –  aparelhando o movimento social todo, acanalhando, comprando grupos organizados, antes autônomos com benesses, cooptando lideranças com favores, cargos, empregos.

Mesmo nesta alentada Primavera Árabe a gente viu isto: Adeptos puxa sacos, funcionários de um Mubarak destes da vida, invadindo as praças, a pé ou montados em camelos, chutando, prendendo e arrebentando manifestantes desarmados.

A gente vê isto agora mesmo no fantasma do Kadafi resistindo em algum buraco de bueiro, defendido por mercenários negros retintos, que parecem vindos sabe-se lá de que país vizinho e vê também, como seqüela ambígua do avanço rebelde, o CNT sendo acusado de genocídio contra estes negros, porque sem se saber mais quem é mesmo rebelde ou quem é mesmo mercenário, todos os negros retintos que estiverem na Líbia passaram agora a ser  pau mandados de Kadafi , automaticamente condenados a morrer como traidores da liberdade.

Fazer o que? A multidão, comprada ou não, depois que desembesta é sempre cega. Melhor não atiçá-la com a vara curta da desfaçatez.

Mas não tem jeito: Há um ponto de esgarçamento e de ruptura, no amor das multidões por este abaixar a cabeça que os populistas usam de montão. Aceitar a cooptação, as vantagens clientelistas dadas com uma mão e tomadas com as duas (como esta coisa constrangedora chamada ‘Bolsa famíla’) é típico das multidões em muitos casos, mas o instinto da liberdade fraudada às vezes explode em incidentes fortuitos, tipo nada a ver.

Coisa de momento. Uma chispa súbita e… pronto.

O dia do ‘saco cheio’ das multidões pode demorar, mas é inexorável. Sempre chega o Dia do ‘Chega! O dia de tocar  o ‘foda-se!’, ‘chutar o pau da barraca’, o ‘balde’, dar um pé na bunda de alguém que encheu o nosso saco. Este dia está sempre ali, na curva do amanhã dos sacripantas que usam a multidão para se eleger, reeleger e, eternamente se locupletar.

_“Morra Sarney!”_ estava escrito numa placa da Cinelândia agora mesmo.

E notem bem: O leit motiv das constrangidas manifestantes atuais pelo combate à corrupção – não sei todo mundo sabe – foi o fato alardeado por um jornalista do diário espanhol ‘El País’ – nos chamando às falas – de que aqui se mobiliza milhões de manifestantes em frívolas e inconsequentes paradas gays, enquanto nós (…nós quem, cara pálida?) o resto do tempo, diante de coisas mais graves, nos mantemos mudos e cúmplices, mesmo carecas de saber dos impressionantes níveis de corrupção estatal, por exemplo.

Claro está, portanto, que as manifestações populares não são santas procissões religiosas, mas isto não importa muito em caso algum. Nem sempre elas são exatamente ‘populares’ e – o que é mais significativo –nem sempre são justas e democráticas, mas a gente precisa delas participar para nos sentirmos membros de uma comunidade, de uma nação, patidários de uma idéia qualquer que move o nosso mundo.

Mas isto não é desculpa para você não participar delas – e não apenas das frívolas, inconsequentes porque – cá entre nós- bloco de Carnaval não muda governo algum nem impulsiona mudanças. Tolos são os que acreditam que as manifestações mais bombadas, principalmente por serem inofensivas – e por esta clara razão, oficialmente consentidas – como o caso das paradas gays – tem alguma coisa a ver com revolução e mudança.

Desaparelhe-se! Desce deste troninho, sai deste gueto mermão!

Saindo da Cinelândia matutando sobre estas coisas todas que pincelo aqui, passei por um grupo de bombeiros que, recém saídos da manifestação geral na Cinelândia haviam se instalado nas escadarias da Câmara dos Deputados, na Praça XV, onde se encontram acampados, protestando contra o governo Estadual do odiado Sergio Cabral que os oprime e humilha como todo mundo, pelo menos aqui no Rio, já deve já estar sabendo.

Bem perto, ao lado do Museu do Paço Imperial, outro grande grupo de pessoas comuns, nem sei se também saídas da Cinelândia, confabulava animadamente sobre não sei o que.

Uma amiga, antiga militante do Movimento Negro lamentou comigo sobre a quase total ausência de negros na manifestação, fato nada estranho para mim. Certo. O perfil típico dos manifestantes era o de pessoas bem de vida, bem nutridas, a maioria branca de meia idade. Povo mesmo, deste típico, pobre negro, mal vestido só uns poucos, bem poucos (este que fotografei aí em cima era um dos poucos estranhos no ninho)

Bem. A gente sabe que povão mesmo, deste que se exige a participação para se afirmar que uma manifestação é realmente popular, não participa de passeatas como estas. Nunca participou. Foi daí que eu reparei que nas mãos dela, desta minha amiga, havia um flyer de divulgação de um tradicional evento cultural promovido por uma instituição deste Movimento Negro Oficial. Evento inclusive do qual este ‘povão’ idílico também não participa, claro.

Entre os apoiadores do tal evento o nome de notórias instituições oficiais do governo petista (ou peemedebista, sei lá) do governo que aí está enfim. Charada matada.

Ora, assim a explicação fica límpida para nós: Não há quase negros nestes eventos e manifestações como não também há sindicalistas, militantes de entidades estudantis, etc. Isto se dá por várias razões, entre elas o fato de que, cooptados, paus mandados engolfados pelo formidável aparelhamento do movimento social meticulosamente perpetrado pelo PT, sindicatos, entidades do Movimento Negro, ONGs, Instituições estudantis – como a UNE e a UBES – não vão comparecer ou apoiar – por enquanto – nenhuma manifestação espontânea contra este governo tão ‘prestativo‘, tão ‘providencial‘ para certas castas sociais.

Calma. A batata deles precisa assar um pouco mais.

Mas elas, estas organizações ‘populares’ tuteladas, cometem um erro suicida porque estão se desqualificando como representantes da indignação popular e começam já a se desmoralizar, a se esvanecer na bruma de seu conformismo interesseiro. Os políticos convencionais, todo mundo sabe, já se desmoralizaram. A bola da vez será este movimento social amarrado em seu constrangido ‘rabo preso’.

Desaparelhe-se! Desce deste troninho, sai deste gueto mermão!

É perceptível já, pelo bom resultado das presentes mobilizações iniciadas nas redes sociais, que um novo e oxigenado movimento social está nascendo no Brasil.

Os pequenos grupos de indignados independentes, bombeiros, grupos organizados nestas redes sociais, ao que parece começaram já a faxina real, o resgate moral do movimento social autêntico, aparecendo aqui e ali em células dispersas ainda, mas de grande potencial de explosão.

Corruptos titulares, oficiais e corruptos ‘pau-mandados’ do movimento social aparelhado, tremei. 3000 cabeças aqui, 3000 cabeças ali, podem muito bem, se quiseram derrubar a meia dúzia de cabeças podres que vocês são.

O trator da ética na política e na vida pública do Brasil em geral, a hora do ‘Fora nojentos cachorros da Corrupção’ vem aí raspando a esteira – com cascos de touro raspando o chão, puto da vida, babando seu veneno mortal.

Com a chapa esquentando a batata desta gente assando. Se você não bota o azar é seu, mas eu boto fé e lenha nesta fogueira.

Eu vou!

Spirito Santo

Setembro 2011

Brazíu brazilêro: O país ‘Pai dos Burros’ e suas arraigadas bruzundangas


(Na foto crianças dalits-párias-numa sala de aula na…Índia (ops! pensei que fosse no Brasil)

Já sabíamos, mas ouvir assim como ouvi no rádio dia destes de uma fonte especializada é desolador.

(E nem foi esta fonte aqui não porque esta é a oficial, aquela que mente ou doura a pílula)

“Vejamos um quadro da situação do ensino. O Brasil investe por ano, apenas 3,2% do PIB. Segundo dados do MEC, este percentual foi de 4,4% em 2006. Difícil encontrar o valor exato, de qualquer forma, é pouco para um país considerado “Em Desenvolvimento”.

Se comparado ao investimento da Coréia do Sul, ficamos muito longe. Este país investiu 10% do seu PIB durante 10 anos. Lá, para ser professor é preciso prestar um dos vestibulares mais difíceis do país e apenas 5% dos candidatos são aprovados, e é obrigatório ter Mestrado.

No Brasil, 28% dos professores não têm curso superior. O salário de um professor na Coréia equivale a R$ 4.000,00 por mês em início de carreira, no Brasil, R$ 1.500,00, 37% abaixo da média dos profissionais com diploma. Um estudante na Coréia passa, em média, 9 horas por dia na escola, o estudante brasileiro, apenas 5 horas por dia. (Fonte de dados: MEC e Revista Exame de 31/12/08).

Sim senhores, vovô não viu a uva. Os quadros de profissionais de educação do Brasil são ocupados por aqueles que foram os alunos menos preparados de nossas escolas, os mais mal formados entre estes, sendo os que, em conseqüência ganham os menores salários em comparação com as pessoas com profissões equivalentes, mesmo as com terceiro grau.

É desolador concluir, por conseguinte que, obviamente as pessoas que formam estes profissionais nos cursos normais e nas faculdades de educação de nossas universidades, inclusive – com todo respeito – os doutores em Educação que os tornam mestres ou os doutoram, são oriundos, com raríssimas exceções desta mesma máquina de baixa excelência constrangedora.

Verdadeira fábrica de deseducação e emburrecimento nacional.

E a constatação mais trágica: A péssima qualidade de nossa Educação (pública ou privada, diga-se quando comparada com o resto do mundo) não é, como se costuma simplificadamente deduzir, apenas uma questão ligada aos baixos salários dos professores, mas muito antes disto um problema intrínseco ao sistema que está carcomido desde a base.

Considerando-se ser a má formação dos alunos desde as classes mais elementares a raiz de todo o problema, para se ter alguma chance de resolvê-lo teríamos que fechar os olhos e desistir do mal sem remédio, do que já está feito e cabado para passar a investir apenas na base do sistema, rezando d epés juntos para que num prazo, sei lá, de 15 anos, com muito rigor gerencial, se possa ter professores de cursos normais e universidades bem formados e capazes de, num espaço de mais uns 5 anos (ou seja 15 no total) revolucionar as bases de nossa Educação para que nos 5 anos seguintes, termos o sistema saneado, dslanchando um circulo virtuoso.

20 anos, no barato, é o que precisamos para nos igualarmos aos países mais ou menos desenvolvidos, neste aspecto fundamental para uma sociedade que quer crescer de verdade, sem elite predadora, sem doutores em ladroagem, sem a desavergonhada ineficiencia geral que nos carateriza.

Considerando-se que o sistema brasileiro, os governos, as instituições afins em suma,  não demonstram o menor interesse – ou mesmo compreensão sobre a real natureza e a devastadora gravidade do problema – a ponto de investir pesadamente em Educação elementar (todos os recursos disponíveis são gastos com programas clientelistas de renda mínima e corrupção institucional), pode-se deduzir facilmente que não temos nenhuma chance de ainda nesta geração, sair desta lama.

É por isto que, não sendo um masoquista-  muito pelo contrário – confesso que desisto deste assunto. Com cerrteza não estarei vivo quando alguma luz surgir neste horizonte…se é que um dia alguma luz se acenderá neste túnel sem fim.

Garanto, afirmo e assino em baixo que os da minha geração e a desta seguinte à minha, esta  que se esvai também na ignorância, podem esquecer o assunto.

Trabalhei mais ou menos perto de Darcy Ribeiro nos Cieps, tive ali contato com algumas práticas  e baseadas nas idéias seminais de Anísio Teixeira e de outros educadores e pensadores progresistas. Vi, funcionando na prática as melhores ações visando revolucionar a nossa Educação pública, funcionando a pleno vapor para, logo em seguida serem sabotadas, dinamitadas de dentro das próprias universidades, por foribundas campanhas de doutores do atraso, que apostavam – como apostam ainda hoje, no caso das cotas para a educação –  no elitismo secularmente sórdido com que tentam atravancar o  país, na defesa estúpida de seus oxidados anéis.

Certa vez, inspecionando um Ciep logo depois da administração de Darcy Ribeiro ouvi um funcionario me contar que uma comitiva do secretário seguinte fez uma grande fogueira onde foram qeimados os uniformes e o material escolar dos alunos, comprados pelo governo anterior.  As cameras VHS e o equipamento de som, material que havia sido instalado em todos os Cieps, foram recolhidos pela tal comitiva ao depósito público estadual, onde desapareceram, distribuídas entre autoridades e cupinchas sacripantas, como butim.

Num país ‘Pai dos Burros”, travestido de madrasta de crianças a serem deseducadas, a Educação no Brasil é um assunto que assassino em mim, sem nenhuma culpa, sem qualquer remorso.

Próxima mazela, por favor.

Spírito Santo

Setembro 2011

Me and the Master of Samba drums – Mestre André, o rei dos batuqueiros


Eu, Mestre André e a ‘paradinha’ das escolas de Samba

O grande barato foi eu ter estado lá e ter visto tudo, ao vivo e à cores. Conheci sim o Mestre André pessoalmente. Isto era muito fácil para quem morava em Padre Miguel, mas para mim foi conhecer assim mesmo, de apertar a mão do cara admirado. O homem era a maior celebridade do local (que tinha também o Dilermando – ‘chapéu de palha’- Pinheiro, um cantor-sambista do rádio que, batucava num chapéu de palhinha, sempre impecável, e o Zózimo, parceiro de Pelé num daqueles times antológicos do Santos)

O meu encontro com o André foi pra lá de inusitado. Não teve nada a ver com a sua função de Mestre de Bateria, talvez o melhor entre todos em todos os tempos. A escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel estava numa fase crítica. Nem sede tinha e a diretoria se reunia numa casa de fundos numa rua transversal da Rua Cherburgo, perto do estádio de ‘Moça Bonita‘ (onde pontificava o time do Bangu).

Ao que parece a gloriosa escola nem patrono tinha, por alguma razão que me foge agora da lembrança, não havia o contraventor Castor de Andrade nem ninguém bancando nada por ali, pelo menos naquele ano. Pelo visto eram alguns bicheiros menores, uns abnegados que seguravam a onda. A situação era tão desesperadora que o ‘carnavalesco’ naquele ano era… o próprio André.

(Diga-se de passagem que a função de ‘carnavalesco‘ nem estava ainda estabelecida direito. Para se ter uma idéia, os carros alegóricos eram compostos por estátuas de papier machè, feitas por algum escultor ali da área mesmo, tão abnegado quanto os bicheiros e todos nós ali, orgulhosos de nossa escola de Samba.)

Me lembro nitidamente de uma alegoria do bandeirante Manoel Branco, ajoelhado ao pé do trono do rei de Portugal, ofertando-lhe um cacho de bananas de ouro maciço, provando assim a grande abundancia da terras do Brasil. O carro todo desengonçado, com aquelas estátuas toscas de arame e papel, choacoalhava todo nos paralelepípedos da Rua Cherburgo como se em meio a um tremor de terra, com o samba inesquecível soando ao fundo:

“…Foi um lindo cacho de bananas
todo de ouro de tamanho natural, natural
que deslumbrou toda a nobreza
que naquela data existia no salão real
o rei entusiasmado
fitou Manoel Branco
estendendo-lhe a mão…”

O fato é que alguém contou pro André que eu desenhava, pintava, estas coisas aí, e ele, de sopetão apareceu na porta da minha casa, deixando todo mundo surpreso com aquela tão célebre visita. O que seria que o Mestre André queria comigo, gente?

-” É você o garoto que pinta, né?”

Sei lá se falei ou fiz um gesto que sim com a cabeça, o que aconteceu foi que ele nem quis saber se eu aceitava ou não. Foi logo dando a ordem:

_ ‘Pois você vai pintar os estandartes da escola. Diz aí quanto custa, quanto quer de adiantamento pro material e estamos conversados.”

Um ‘paco‘ como se dizia de grana. Um pacotão de dinheiro ele foi deixando ali mesmo, nas minhas mãos trêmulas e suadas.

Chamei dos amigos do peito para me auxiliar e me internei por quinze dias e quinze noites no meu quarto travestido de ateliê.

O enredo tinha algo a ver com o Descobrimento do Brasil, juro que não me lembro nem a data, só sei que era antes de 1968 com certeza (1967 talvez). Pintamos dezenas de estandartes com uma cruz de malta vermelha e louros verdinhos, dezenas de pares de sapatilhas que tinham que ficar totalmente prateadas para receber uns raminhos de louros salpicados aqui e ali. Se não me falha a memória, a própria bandeira da escola foi por nós pintada, tudo a tempo e a hora… quase a passar da hora, na verdade como ocorre com todo preparativo de Carnaval.

No fim, em pleno sábado de Carnaval, encomenda entregue, com o bolso literalmente cheio de grana, saimos para dar aquela volta vitoriosa e triunfal pela Praça do Trabalhador. O plano era prosaico: Tomar uns poucos tragos para ganhar coragem para soltar uns galanteios para as mocinhas mais desavisadas, felizes da vida.

Nem me toquei que aquele ‘carnavalesco’ tão mão aberta era o grande Mestre André, célebre herói do meu bairro, o pai da paradinha das baterias de Escolas de Samba. Nem sabia que um dia ia ter que colocar, com muito orgulho as glórias dele no meu livro, sim, este livro mesmo que falei que estava no prelo e que você muito brevemente  iria ler, é inspirado muito nas glórias sambísticas do Mestre André. O livro saiu. André ficou mais eterno ainda.

Este sim é um dos meus poucos heróis. Claro que eu conto a história dele (não esta comigo, exatamente) no meu livro. Querem ler uma ‘palinha‘?

“O SAMBA DA MOCIDADE INDEPENDENTE”

(Extraído de ‘Do Samba ao Funk do Jorjão“, lançado agora mesmo – se liguem na divulgação rolando por aí . O livro saiu em versão papel e E.book e está à venda nas livrarias Cultura, Saraiva,Travessa, FNAC (e versão E.book á venda  pela KBR Digital no site da Amazon.com). Em breve rolando em países africanos de língua oficial portugusa (Palop)

Um caso a ser destacado entre as Escolas de Samba ‘suburbanas’.
A batida da ‘depê

“ …Eu quando comecei a tocar com André tava com seis anos de idade. Era o menor da bateria. Ele tinha um apito de madeira que ele tinha o maior ciúme daquele apito “Toma. Guarda esse apito pra você.” Quando eu cheguei em casa, fui saber…veio a notícia que ele tinha falecido. O Mestre André foi o homem que lançou a paradinha. Inclusive essa “Paradinha” foi até um troço muito interessante. O André lançou a “Paradinha” num escorregão que ele levou. Foi fazer um show uma vez ele tomou um escorregão, tinha uma poça d’água ele foi faz…ele costumava Sambar, então ele tomou um escorregão e caiu, quando ele caiu, a bateria parou, e na época tinha um ritmista que se chamava João Branco, quando viu que ele caiu começou a repicar o repique até ele levantar, ele levantou, João Branco deu a entrada a bateria subiu. Foi muito aplaudida. Foi onde foi lançada a “Paradinha” da Mocidade, foi num tombo, num escorregão do Mestre André”

(Depoimento de Mestre Jorjão dando conta de uma das muitas versões sobre a invenção da ‘paradinha‘ do Mestre André)

Na definição do moderno conceito de bateria de Escola de Samba em voga nos dias de hoje, baseado num agudo senso de valorização do espetáculo, de ousadia na performance e na busca do máximo de apuro técnico na dinâmica do conjunto, a bateria dirigida pelo saudoso Mestre André é até hoje insuperável.

A famosa mística da bateria nota dez estará para sempre associada diretamente aquele discreto morador da Rua C do conjunto do IAPI, que para muitos talvez tenha sido o melhor mestre de bateria de escolas de Samba de todos os tempos.

Difícil comprovar ainda, mas, ao que tudo indica, muitas das surpreendentes inovações de orquestração usadas pelas baterias de Samba a partir desta época, foram criadas nestas baterias suburbanas, e firmadas, impregnadas de erudição por muitos mestres da Portela, do Salgueiro, da Império Serrano mas, com destaque para o Mestre André e uma grande estirpe de percussionistas reunidos pela Mocidade Independente de Padre Miguel ali pelo final da década de 50.

“ Em 1952 um grupo de rapazes resolveu criar um time de futebol ao qual foi dado o nome de Independente Futebol Clube, e para alegria levavam alguns instrumentos de percussão. Como o time sempre ganhava, na volta a alegria era tal que mais parecia um bloco de carnaval, chamando a atenção de todos a maneira harmoniosa com que a bateria apresentava o ritmo de Samba. Bem vai pra lá, vem pra cá, a moçada resolveu transformar o time de futebol em bloco carnavalesco. Lá pelo idos de 1955, apresentado-se em um desfile pelas ruas do bairro de Padre Miguel por ocasião do carnaval daquele ano, promovido pelo falecido político Waldemar Vianna de Carvalho…”

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(Extraído de ‘Do Samba ao Funk do Jorjão“)

Spirito Santo

Setembro 2011


White skins, black masks -Nos Minstrels da América branca a patológica inversão de Fanon


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Black'n'blues a minstrel show creation 2010Do ‘Cara Preta’ ao Blackexplotation

“..Claro, os judeus são maltratados, melhor dizendo, perseguidos, exterminados, metidos no forno, mas essas são apenas pequenas histórias em família. O judeu só não é amado a partir do momento em que é detectado. Mas  comigo tudo toma um aspecto novo. Nenhuma chance me é oferecida. sou sobredeterminado pelo exterior. Não sou escravo da “idéia” que os outros fazem de mim, mas da minha aparição…”

 (Franz Fanon em “Peu noire, masques blancs”)

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Gente, é pura piração. Mas o que não é piração, loucura, insanidade galopante nesta patológica neurose branca chamada racismo?

A lebre, a lama no fundo do lago foi levantada pela estúpida frase de um ator galã da TV Globo anos atrás, dizendo-se ardoroso fã de Sammy Davis Jr. porque ele, o ator norte americano – que por acaso era negro, feio, baixinho e caolho – quando representava ‘se transformava num homem branco de 2 metros de altura e olhos azuis’.

Ui!

Mas Rodrigo Lombardi, o bobo ator da corte global não é nenhuma aberração. Toda hora aparece gente falando estas abobrinhas racistas, com a ‘melhor das intenções’. É que isto é típico dos nossos modos brasileiros de sermos falsamente cordiais.

“_Quem se importa? Os negros não ligam para isto, nem reclamam. Qual o problema? Nós somos superiores mesmo. Nada de pessoal, tá bom?”

Mas é doideira sim, gente. Pura pancadice. Vocês precisam aprender a se tocar. Não é proibido falar o que nos vem à cabeça, expressar o que quer que seja até ser racista se admite que as pessoas sejam e afirmem ser, o país preza pela liberdade de opinião – pelo menos por enquanto- mas pensar antes de falar, ter convicção daquilo que se fala, ter bons argumentos para embasar uma afirmação cabulosa como esta, é uma norma básica da civilidade. Não dá mais para dizer que a cigana nos enganou.

O fato é que, refletindo sobre o incidente me ocorreu o quanto de hipocrisia ainda afoga os modos de convivencia nada sadios em voga nas relações entre pretos e brancos no Brasil. Os expedientes de exclusão racial são tão avassaladores, tão acachapantes que chega a ser revoltante o cinismo que engolfa qualquer discurso que negue a existencia de racismo no Brasil.

Não dá mais para engulir este sapo insípido.

Esta característica de conspiração surda, tácita, subreptícia que faz com que uma platéia e um juri de artistas de um programa de televisão, Por exemplo, com milhões de expectadores finjam que o que o ator ou o político, o apresentador falou ‘não foi nada de mais’, as caras ‘de bunda’ de milhões de pessoas diante de uma afirmação grosseira de racismo expressa assim, com a maior ingenuidade ou frieza, faz o sangue de quem está atento ao assunto ferver nas veias.

Bem, daí danei a navegar de novo neste mar de negações da negritude. É impressionante o quanto de engov os nossos estômagos solicitam, exigem mesmo, para tentar afastar os engulhos de nojo que o racismo em suas variadas formas provoca em nós, os que o sofremos desde que parentes nossos, cada vez mais remotos, foram arrancados da África para cá.

Arghhh!

O tema sugerido pelo martinicano Franz Fanon em ‘Pele negra, máscaras brancas’, o estudo desta psicopatia da qual os brancos (e alguns negros) estão tomados, esta estúpida e amedrontada rejeição do outro e suas formas psicopatológicas, simbólicas, neuróticas enfim de negar, escamotear, trair, fingir, e até mesmo linchar, matar, queimar na fogueira o negro que há dentro de todos nós, não é coisa desde mundo não. Não é coisa de gente (pelo menos gente sã). É um atributo do mal mais profundo buraco negro, demoníaco, virulento, peçonhento, coisa do belzebu.

O tema – que ao que parece contamina tudo – avança aqui depois que postei algumas imagens com atores brancos pintados de negro, sugerindo, sarcasticamente que os atores ou atrizes ‘brancos’ que declaram sua hipócrita e piegas simpatia por atores negros – num mercado onde todo mundo sabe que negros não têm vez nem voz alguma – deviam mesmo é despir as suas máscaras, livrar-se do cinismo e assumir que são cúmplices deste estado de coisas aviltante.

Vil, desprezível são mesmo as palavras mais suaves com que se pode classificar  a cultura brasileira neste aspecto.

Franz Fanon não acreditaria.

Dia desses, anos atrás vi assim de relance na TV o ainda menino Douglas Silva, promissor ator em Cidade Deus de Fernando Meirelles assumindo junto a Renato Aragão e os Trapalhões na TV o eterno e esteriotipado posto de ‘preto estúpido’, o ‘Moleque Tião’ infantilizado e alcóolatra que, entre tantos outros,  foi do cômico Mussum.

O karma de Douglas (como já foi do insuperável Grande Otelo), tenha a qualidade artística que tiver, é acabar sendo mesmo apenas mais um Mussum, mais um minstrel invertido de pele negra com máscara negra, ao fim de tudo o preto macaco que um dia lhe destinaram ser.

Não encontrei muitas referencias sobre o assunto destas ‘máscaras pretas’ por aquí. Nem mesmo na internet onde –  coisa impressionante! – perguntas em portugues sobre as agruras dos atores e atrizes negros geram sempre informação quase nenhuma. Imagens esparsas, sendo uma do ator-galã Sergio Cardoso pintado de preto na novela A Cabana do pai Tomás’ da TV Globo são as poucas referencias que se encontra nesta envergonhada história da exclusão imagética do negro no Brasil.

Triste novela de brancos covardes, cuidando constrangedoramente de salvar ‘o seu’, se pintando até de preto para viver, se preciso for.

Encontrei contudo, perguntando em inglês, uma profusão enorme de imagens e vídeos do mesmo fenômeno racista na América. Bons termos de comparação para se enxergar o que o meio artístico brasileiro, o nosso maisntream caboclo tanto tenta esconder, alguma informação ao menos acerca das sórdidas razões que impedem atores e atrizes negras de representar a nossa nacionalidade por aí.

Para além do apagão de nós mesmos, portanto, vamos a uma outra visão do tema sem os óculos  baratinhos e embaçados das  “óticas do povo, morou?”

Você já ouviu falar de um judeu lituano pintado de preto chamado Al Jolson?

“..Chego lentamente ao mundo, habituado a não aparecer de repente. Caminho rastejando. Desde já os olhares brancos, os únicos verdadeiros, me dissecam. Estou fixado. Tendo ajustado o microscópio, eles realizam, objetivamente, cortes na minha realidade. Sou traído. Sinto, vejo nesses olhares brancos que não é um homem novo que está entrando, mas um novo tipo de homem, um novo gênero. Um preto..!

(Franz Fanon em “Peu noire, masques blancs”)

E do extraordinário fenômeno dos Minstrels do qual Jolson foi uma fulgurante proeminencia? Já ouviu falar? Veja então este vídeo aqui: ‘Al Jolson and Minstrels show“.

Claro que sim. Você já ouviu falar. É inimaginável que isto tenha ocorrido, mas a América racista gerou sim, neste período – entre o fim do século 19 e o os primeiros anos do século 20 – um gênero fabuloso de show business (veja as imagens e vídeos fantásticos que inseri aqui no post) no qual, com o deliberado intuito de disseminar o racismo e o ódio contra negros, uma quantidade enorme de atores, músicos, cantores e produtores brancos, com um senso de desumanidade digno de animais, se puseram a representar, de forma esteriotipada, como caricaturas escatológicas, grosseiras mesmo, o comportamento de negros ex-escravos e trabalhadores pobres de seu próprio país.

Estúpidos e ignorantes, movidos por uma espécie de medo doentio, linchavam assim a – para eles – odiosa imagem do negro, quando não linchavam e incendiavam estes mesmos negros ao vivo e a cores, exultando e aplaudindo como bestas feras, em ambos os espetáculos de selvageria que promoviam para seu mais fútil e torpe deleite.

Pois bem, com você então, respeitável público o texto denso sobre estes torpes ‘Caras Pretas’ que eu mesmo canhestramente traduzi extraido deste interessante site (veja no link).

Os Blackfaces Minstrels

 “Os personagens do blackface minstrels desempenham um papel significativo na divulgação de imagens, atitudes e percepções racistas em todo o mundo.

Cada grupo de imigrantes era estereotipado no palco de um salão de música durante o século 19, mas a história do preconceito, da hostilidade e da ignorância em relação às pessoas negras teve uma proeminencia e longevidade únicas na história destes estereótipos.

As concepções de artistas negros percebidas pela América branca foram moldadas por caricaturas zombando de negros. Por mais de cem anos a crença de que eles, os negros eram racial e socialmente inferiores foi assim difundida e fomentada por uma legião de artistas tanto brancos como (alguns poucos) negros em performances de ‘blackface’ (“Caras Pretas”).

Blackface nos Minstrel’s Shows

http://youtu.be/h-1mo9j7it8

A maquiagem ‘blackface’ era uma pintura a base de cortiça queimada misturada a uma camada de manteiga de cacau ou pintura de graxa preta. Nos primeiros anos lábios vermelhos exagerados eram pintados em torno de suas bocas, como os de palhaços de circo de hoje. Nos anos posteriores, os lábios eram geralmente pintados de branco ou sem pintura. Os trajes eram geralmente berrantes com combinações exóticas de formas exageradas; casacos de rabo de andorinha, calça listrada, chapéus de grandes dimensões.

Platéias brancas, no século 19 não aceitariam artistas negros reais no palco a não ser que eles usassem também maquiagem blackface. Um dos primeiros negros a representar com maquiagem blackface para audiências brancas foi o e inventor do ‘stap shoes’(sapateado), William Henry Lane, o ‘Mestre Juba’ . O talento e a habilidade de Lane foram tão extraordinárias que ele se tornou famoso a ponto de, eventualmente, representar de cara limpa, ou seja, com sua própria pele.

Estereótipos racistas contra os negros

Originários das estereotipadas caracterizações feitas por atores brancos representando escravos das plantações e negros livres durante a era dos shows menestrel (1830-1890), as caricaturas imprimiram tão firmemente certos preconceitos no imaginário americano que o público criou uma expectativa ruim sobre pessoas de pele escura, não importando muito com seus antecedentes a ponto de se conformarem com um ou mais dos estereótipos abaixo relacionados.

Jim Crow’

O termo Jim Crow nasceu em 1830, quando um artista branco menestrel Thomas “Daddy” Rice, se apresentou com o rosto enegrecido com pasta de carvão ou rolha queimada cantando a letra da canção “Jump Jim Crow”.

Zip Coon

Realizada pela primeira vez por George Dixon em 1834, ‘Zip Coon’ era uma paródia ridicularizando os modos de ser de  um negro livre. Ele seria uma figura arrogante, ostentosa, vestindo-se em alto estilo e falando uma série de besteiras e trocadilhos que estragavam a sua tentativa de parecer uma pessoa ‘digna’ (como os brancos seriam).

‘Jim Crow’ e ‘Zip Coon’ eventualmente eram fundidos em um único estereótipo, chamado então, simplesmente de “coon”.

Mammy
Mammy  (‘Mamãe’) é uma fonte de sabedoria terrena, que é ferozmente independente e não tolera respostas malcriadas. Apesar de sua imagem ter mudado um pouco ao longo dos anos, o estereótipo sobrevive. Seu rosto ainda pode ser encontrado em caixas de pancake até hoje.

Uncle Tom (‘Pai Tomás’ ou ‘Pai João’no Brasil)

Os ‘Toms’ são tipicamente bons, gentis, religiosos e sóbrios. Imagens dos Tios Toms eram as preferidas para ilustrar anúncios e embalagens pelos fabricantes de  alimentos, cereais principalmente. A imagem de um “Tio Ben” (o mesmo que ‘Tio Tom’) ainda hoje é sendo usado para vender arroz.

Macho (o’negão’ no Brasil)

O ‘Buck’ é um grande homem negro muito orgulhoso e, às vezes ameaçador, sempre interessado em seduzir mulheres brancas.

A Puta / Jezebel ( a ‘mulata piranha’  do Brasil)

A tentadora. Durante a era menestrel, as ‘putas’ eram tradicionalmente um homem em trajes femininos. No cinema, ‘putas’ eram geralmente mulheres pardas (‘mulatas’, exatamente como no Brasil).

Mulato/a
Um mestiço do sexo masculino ou feminino. No cinema, muitas vezes retratado como uma figura trágica que, intencionalmente se passa por branca até qualguém descobrir que ela tem ‘sangue’ negro ou ser desmascarada por um outro personagem, geralmente negro.

Negrinho (‘moleque’ no Brasil)

Os ‘moleques’ tem olhos esbugalhados, cabelos despenteados, lábios vermelhos e bocas parecendo fatias enormes de melancia. Esses estereótipos foram firmados durante a era dos minstrels e transitaram muito em vaudeville e no cinema.

No final de 1800 um dos espetáculos de entretenimento blackface mais populares foi a adaptação da Cabana do Pai Tomás, um conto antiescravidão. ‘A Cabana’(legítima expressão do que mais tarde se convencionou chamar de ‘Circo-Teatro’: nota minha), era uma mistura de show menestrel, circo e zoológico, com cães treinados, pôneis, e até um crocodilo que se  manteve o espetáculo mais popular nos Estados Unidos por mais de um século.

“…Em uma das reviravoltas mais curiosas e interessantes da história do show business, na primeira metade do século XX, os principais praticantes da tradição menestrel no velho estilo blackface eram artistas negros, que tinha começado no show business usando maquiagem blackface – literalmente ou figurativamente – e se mostraram relutantes em abandoná-lo.

Além do mais, eles tinham pouca ou nenhuma chance de escolher papéis melhores do que os que lhes eram oferecidos. Já com década de 1950 bem avançada, atores negros do sexo masculino estavam limitados a papéis estereotipados: ‘Coons’, por exemplo, Stepin Fetchit, Mantan Moreland e Toms, os mais famosos foram Bill “Bojangles” Robinson e Eddie “Rochester” Anderson. Da mesma forma, os papéis no cinema apenas para mulheres negras foram os de criadas e mammys. A ‘mammy’ mais famosa foi Hattie McDaniel.

Cinema mudo.

Os filmes sempre foram um meio poderoso para a propagação de estereótipos raciais. Os primeiros filmes mudos, como ” The Wooing and Wedding of a Coon” em 1904, “O Escravo“, em 1905, “A Série Sambo” 1909-1911 e “The Nigger” em 1915 apresentavam os mesmos estereótipos de sempre através do meio novo e excitante do cinema.

A estréia de “O Nascimento de uma Nação” em 1915 marcou uma mudança na ênfase de estereótipos como ‘Jim Crow’ e o ‘Negro Selvagem’. No filme de D.W. Griffith, a Ku Klux Klan resgata a Sul – e as mulheres do Sul  em particular – de negros selvagens que conquistam poder sobre os brancos com a ajuda de aventureiros do Norte.

Griffith mais tarde admitiu que seu filme foi projetado para “criar um sentimento de repulsa em pessoas brancas, especialmente as mulheres brancas, contra homens de cor”.

Filmes raciais

Os negros do norte responderam a “O Nascimento de uma Nação” produzindo seus próprios filmes. Os “Filmes Raciais” se refereriam invariavelmente a assuntos do interesse dos negros e eram produzidos, pois, exclusivamente para o público negro.

Apenas agumas pequenas empresas independentes de Blackfilms sobreviveram à Grande Depressão. Com  a elevação dos custos adicionais de produção, associados a mudança na tecnologia dos filmes mudos para os sonoros só com a criação de Hollywood, que entrou em cena e assumiu o controle do cinema negro, surgiram novamente condições de financiamento para este tipo de filme. Os Filmes raciais, a partir de então se transformaram de entretenimento orgânico, diretamente voltado para negros em filmes de padrão Hollywoodiano mais convencionais, como westerns, dramas e musicais e filmes policiais ou de crime, apresentando um elenco de negros.

Cartoons racistas

Entre 1930 e 1950, os animadores da Warner Brothers, Walt Disney, MGM, Merrie Melodies, Looney Tunes, RKO, e muitos outros estúdios independentes, produziram milhares de cartoons que perpetuavam os mesmos velhos estereótipos racistas contra negros.

Este período é conhecido como a idade de ouro da animação, e até meados dos anos 1960, cartoons eram exibidos antes de todos os filmes longa-metragens. Mais tarde, estes mesmos cartoons cumpriram um longo ciclo de sucesso por décadas na TV aberta ou a cabo.

Eventualmente, os cartoons mais claramente racistas eram retirados da televisão ou editados para atenuar seu conteúdo grosseiramente preconceituoso, mas muitos deles estão ainda hoje disponíveis na internet. Para as audiências modernas, muitos desses desenhos são bastante chocantes, pois ilustram graficamente como o racismo generalizado e institucionalizado na nossa cultura – a cultura norte americana, no caso – acontecia a bem pouco tempo atrás.

Filmes Blackexploitation

A década de 1970 também viu o ressurgimento de filmes adaptados para o público negro em um gênero chamado “Blacksploitation”,(‘Exploração do negro’). “Sweet Sweetback’s Baadass Song” (1971) estrelado por Melvin Van Peebles, que também escreveu, produziu e dirigiu, foi o precursor do estilo..

No filme, o personagem central é uma prostituta negra que é forçada a fugir depois que salva um jovem Pantera Negra que estava sendo espancado por dois policiais brancos corruptos. O filme é muitas vezes creditado como iniciador do gênero blaxploitation porque o seu sucesso provou que havia um mercado lucrativo para tais filmes. O filme custou apenas US$ 150.000 – a maior parte colocado por Peebles – e arrecadou mais de US$ 15 milhões. ‘Superfly’, ‘Shaft’, ‘Blackula’, ‘Black Caesar’, ‘O inferno no Harlem’, ‘Black Gestapo’, ‘Foxy Brown’, e muitos outros rapidamente seguiram o sucesso do filme de Peebles.

A maioria dos filmes Blacksploitation eram pequenas produções independentes que lidavam com o crime e os efeitos das drogas ilegais em cidades do interior. As causas geralmente eram retratadas como sendo uma consequencia do racismo branco e da exploração dos negros pobres. Policiais e políticos brancos foram retratados como corruptos, forçando anti heróis negros a tomar a justiça em suas próprias mãos.

Exagerando nas cenas de sexo explícito, nudez gratuita e violência, bem como nos estereótipos de cafetões, prostitutas e criminosos negros, os filmes Blacksploitation, geraram uma revolta liderada por líderes negros que pôs fim a este tipo de filme na década de 1980.

Brancos de alma preta

(no mal sentido)

Soube que para representarem hindus na novela ‘Caminho das índias’ de Glória Peres, a maioria dos atores da Globo – que são, majoritariamente brancos – se submetiam a seções periódicas de bronzeamento artificial. Eles não chegavam a virar crioulos hindu baixinhos e caolhos não, mas eu ficava matutando no que um hindu real pensaria daquelas máscaras acinzentadas de hindus de fancaria.

Pintada à graxa ou rolha queimada ou mesmo bronzeada artificialmente o certo é que a provação da invisibilidade do negro no cinema e na TV do Brasil, pelo visto prosseguirá ainda por muito tempo.

A razão principal de sua eternização a gente já sabe: Para aparecer na TV e no cinema o negro teria que, não só se conformar com a sua representação continuar a ser feita por atores (e roteiristas, e diretores) brancos ‘pintados’ ou travestidos de pretos, mas agora muito mais que isto, teria que se transformar num passe de mágica num branco de 2 metros de altura e olhos azuis.

Como isto é uma mágica que nem o cinema consegue ainda fazer, aos negros artistas do Brasil caberia– simbolicamente, claro já que não somos tão selvagens como poderíamos ser –  fazer o que fez Tião Medonho no filme de Roberto Farias “Assalto ao Trem Pagador” e dizer para os Nilos Perus que se apropriaram de nossa auto imagem e lincham, besuntam de graxa a nossa alma e a nossa cara real:

_”Vamos! Joga logo ele no rio que é pros peixe comê os zóio azul dele!”.

Spirito Santo

Setembro 2011

Nota: A excelente página aqui traduzida em parte, chamada ‘A Brief History of Blackface” não está linkada porque aparece agora, por alguma razão como ‘conta suspensa‘.

Fernando anti Pessoa: o sujo navegar negreiro para ele era preciso


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Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

(O dito gajo num dos seus poemas)

É, mas porque ninguém nos contou isto antes, sobre esta parte da vida ‘errada‘ do bardo luso? Porque este manto branco, diáfano, este filó delicado e imaculado sobre a obra deste baluarte da literatura portuguesa, este Camões supostamente moderno, este muso taciturno que Maria Bhetânia mais uma vez endeusaria declamando 365 poemas dele, ás nossas custas? (Vocês se lembram daquele projeto do Hermano Viana que seria -ou foi sei lá – bancado pelo MinC da Anna de Holanda?)

Pois é.

Com que então, pularam esta parte da biografia do tuga? Rasgaram as páginas que o denegriam para o embranquecer e desanuviar seus maus bofes? E onde foi que esconderam estes seus escritos obscuros, estes que desabonam a sua conduta de poeta humanista introspectivo,  as suas rasuradas e amarfanhadas ideias salazaristas, de fascista de bodega?

Podiam ao menos ter inventado um heterônimo qualquer, um João das Couves ou dos Algarves aí, alguém suposto a quem seriam atribuídos todos os mal ditos e mal escritos do poeta.

Gente, ando impressionado como os filmes dos heróis de nossa nacionalidade (que neste caso é lusitanidade) andam queimando por aí. O cheiro de celuloide fritando anda insuportável por aqui, sufocante.

Dia destes, sobre a memória de um suposto herói guerrilheiro  contra a ditadura (o ex jornalista Celso de Castro), cuja controversa morte foi investigada e filmada pela própria filha, apareceu a turva sombra (divulgada pelo jornalista  Zuenir Ventura neste link) de que ele teria sido morto na verdade assaltando um apartamento em busca de cocaína, droga da qual era viciado.

E sobre o Chico Buarque também de  Holanda, viram já a fofoca? Um biógrafo italiano sugere que a RCA Victor italiana, gravadora do artista por lá, foi quem planejou o seu exílio como suposto perseguido da ditadura militar, exílio este que teria sido forjado como golpe publicitário para aquecer as vendas de seus discos na Europa. Será? Gente!  Leiam só isto:

“(…) a imagem de Chico (Buarque) só se transformou após o que (o autor) chama de ‘breve’ exílio do artista na Itália. Baseado em tese ainda não publicada do historiador italiano Luca Bacchini, o livro é contundente: ‘Sabendo da sede da juventude italiana pelos mitos da América Latina, especialmente Che Guevara, a RCA (gravadora italiana) criou uma campanha publicitária que colocava Chico Buarque vítima da ditadura.

Chico nega ter aceito semelhante armação, claro e é bastante provável que seja mesmo o cara honesto que imaginamos que ele seja, mas efetivamente ele se auto-asilou na Itália nesta época (1969) e a armação da gravadora – que ninguém até agora desmentiu – pode mesmo ter sido engendrada.

Nada provado nos dois casos, mas filme queimado, sabem como é: derrete, escorre fotograma a fotograma, esgruvinhando-se para nunca mais se desesgruvinhar. A boa imagem gravada nunca mais volta à ser luz.

O gosto para nós, reverentes adoradores de exemplos dignificantes é sempre amargo ou azedo, nunca mais insípido ou inodoro. Água nenhuma lava mais a má impressão impressa na náusea ou no nojo, como  o que sentiu o amigo angolano Aristóteles Kandimba que me repassou estas palavras cruas do poeta Fernando Pessoa, pinçadas por sua vez da matéria (veja o link) resenhando a biografia de Pessoa escrita por José Paulo Cavalcanti Filho.

Fala o bardo luso, o meu mais recente ídolo caído:

“A escravatura é lógica e legítima; um zulu (negro da África do Sul, que falava a língua banto) ou um landim (indígena de Moçambique, que falava português) não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir aos fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico. O degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude”

Pessoa continua, em texto de 1917:

“A escravidão é lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada. O amor covarde que todos temos à liberdade é o verdadeiro sinal do peso de nossa escravidão”.

Quase dez anos depois, ele se mantinha firme nessas convicções racistas:

“Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social”. E ainda: “Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs”?

Oh, Deus dos desgraçados! Quantos anjos cairão mais deste nosso céu de mágicas, farsas e fantasias ?

(Como se já não nos bastassem os anjos caídos ex-guerrilheiros  e ex-operários que temos agora mesmo a nos governar)

Spírito Santo

setembro 2011

Meu coração na curva do Rio. Paz do ‘Alemão” para inglês ver


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O Forte Apache e a política de segurança do Rio de Janeiro

“ No Western Delaware Tribal Museum estão exposições de vestimentas e utensílios utilizados por diversas tribos. Nesta região em 1869 o governo americano construiu um forte para defender os colonos e enfrentar os índios, o Fort Still.

Nele ficavam os soldados da 9a e 10a cavalarias americanas, por isso estes campos viram muitas batalhas entre soldados e índios. Hoje em dia todo mundo sabe como terminou esta história…”


Sim senhor. Estes ‘fortes‘ ou ‘quartéis‘ são figurinhas fáceis em qualquer manual militar. São apenas uma velha tática de ocupação de territórios habitados ou ocupados por comunidades hostis. Índios, guerrilheiros, cangaceiros, piratas (na costa) e bandos de bandidos de qualquer ordem, são hostilizados e contidos em seus avanços contra os interesses de quem detem o poder, a princípio por alguma forma tosca, precursora, que nas favelas do Rio de Janeiro se chamaram DPOs (Destacamento de Policiamento Ostensivo). Quando a coisa engrossa e a chapa esquenta como ocorreu aqui no Rio de Janeiro…o jeito é chamar a 7ª cavalaria.

Ora, eu mesmo vi, esquandrinhando mapas oficiais do interior do Estado de Minas Gerais pontinhos esparsos na Serra do Espinhaço assinalados como ‘Quartéis‘, ou seja ‘Fortes‘  do exército colonial portugues  construídos no século 18 para conter e reprimir o avanço de quilombolas bandoleiros, contra as tropas de soldados ‘dragões‘ que carregavam ouro e diamantes em tropas de burros pelas fraldas e escarpas da serra.

Na verdade cheguei mesmo a ver  com os próprios olhos as ruínas de um destes ‘quartéis‘ quando visitei um quilombos destes, num lugarejo remoto denominado, providencialmente ‘Quartel de Indaiá’ (significando que, inusitadamente o velho quartel acabou mesmo dominado pelos quilombolas).

É uma tática de dominação colonial recorrente. Depois de desgastantes batalhas escorraçando os inimigos encastelados em algum ponto que ameaça o seus interesses (nos EUA os colonos brancos queriam se apossar de terras nas vastas áreas ocupadas pelos índios aqui temos os interesses turístico comerciais ligados à Copa do Mundo e as Olimpíadas), o exercito colonial resolve instalar postos fixos avançados.

Recorrentemente também em refregas pela ocupação, os rebeldes armados são mortos, capturados ou expulsos do local, mas os cuidados com a manutenção da ordem pública, no intuito de impedir que os grupos armados retornem às antigas posições, obriga as tropas a se manterem permanentemente em prontidão, tornando as liberdades dos ‘nativos‘, dos moradores locais, daquela população que habita o a área ocupada pelas tropas, muito limitada, restrita demais em muitos e, as vezes, intoleráveis limites.

É de onde nascem os conflitos e os motins.

Quem leu um pouco da história da ocupação do oeste americano, mesmo em histórias em quadrinhos sabe. Depois do massacre de Little Big Horn  e da fragorosa derrota do General Custer os fortes foram construídos, os índios atacados e sujugados para serem por fim mortos de frio, fome e removidos de suas terras para reservas distantes.

Alguns poucos, para mim ingênuos – embora existam também os cínicos e os cretinos – fecham os olhos para os detalhes mais amplos do assunto e caem como patinhos na propaganda. Afirmam então, emocionados e mais enfáticos ainda do que eu, que as UPPs são “a melhor solução já encontrada para a segurança pública do Rio de Janeiro”.

Não são.

Como ocorreu com os Apaches e Cheyennes…”hoje em dia todo mundo sabe como terminará esta história”…

É como eu digo sempre por aí: com as UPPs  instala-se no Rio de Janeiro uma verdadeira DITADURA MILITAR  SELETIVA.

Usando a analogia com o Forte Apache e os quartéis contra os quilombolas eu diria que ela, esta tática, só é boa mesmo para os colonos brancos, para os ‘cara-pálidas’ como diria o ‘Cavalo Louco”. É política pública apenas lá pras negas da classe média do Rio como diria o ‘Touro Sentado”. Política boa mesmo é para inglês ver. Aliás, falando nisto acompanhem este papo aqui:

…George Howell, um amigo inglês, aqui no facebook:

“Acredito que o sucesso dos UPPs depende da conscientização dos moradores que a policia trabalha para eles, que eles são um serviço. Acho tambem que a direito humano de segurança é fundamental, e que os UPPs tentam fornecer isso. Acho que os cidadãos também têm que entender que o estado é deles.

Eu, retrucando:

“Conscientização dos moradores que a polícia trabalha para eles...” Kkkkkk! Realmente você não conhece a realidade daqui, George, não sabe o que é a polícia aqui, não sabe o grau de degradação da autoridade pública por aqui. Só rindo, desculpe.

UPP, George é OCUPAÇÃO MILITAR. É como ocupação militar em qualquer lugar. NÃO É política pública. É parecido com a contenção de árabes na faixa de Gaza, com os antigos guetos do Apartheid da África do Sul, com as forças da ONU ocupando a favela Citè Soleil no Haiti, já disse isto aqui.

As realidades parecem diferentes mas intenção do Estado é a mesma: Excluir e conter os excluídos num território controlado. Os bandidos são apenas a ponta, o lado militar do problema.

E o papo segue:

George:

Como a policia deve agir? Deve ser proibido a entrar igual a época da Brizola? E quando os bandidos lutam entre si nas suas guerras territoriais – deixa assim? A polícia odeia o estado tambem, igual bombeiro. Essa dura realidade continua nas 999 favelas sem policia…porra o Jacarezinho e uma merda! Criancas cracudas se prostituindo…ninguem pode falar nada…se não o tráfico te mata.

Eu, tentando responder:

Difìcil dialogar quando você não vê o problema por todos os ângulos. Este ângulo restrito que você vê é o mesmo da propaganda, o mesmo da ‘mágica‘. A política das aparências.

É um sistema, George. O Estado exclui as pessoas de TODOS os direitos. Elas ‘se viram‘ e ocupam as frestas da cidade, morros, áreas insalubres, etc. e se amontoam ali. Aquilo vira uma cidade meio animalesca, visceral, com as pessoas fazendo de tudo para sobreviver.

A princípio elas viviam de pequenos serviços para a classe média (daí as favelas serem próximas dos bairros ricos), empregadas domésticas, motoristas, faxineiros, mas a população favelada explodiu, são mais de 60% da população do Rio (para se falar só daqui) e não há mais ‘pequenos serviços’ (semi escravidão) para todos. Infelizmente o único mercado de trabalho que esta realidade criou foi o tráfico de drogas.

As comunidades faveladas hoje se organizaram então, principalmente em torno da economia do tráfico (de drogas e de armas, talvez os negócios mais lucrativos do mundo hoje em dia). Já disse e repito: O dinheiro do tráfico de drogas e de armas é que aquece a economia das favelas, tudo, os mercadinhos, os armarinhos, as locadoras de vídeo, as oficinas mecânicas, os bares, todo o comércio existe por que a grana obtida com o tráfico circula nas favelas. É a base da economia local.

E veja: O segundo mais importante comércio das favelas é o contrabando, ou seja, a venda de quinquilharias contrabandeadas em barraquinhas e pequenas lojas. Ou seja, quase toda a economia das favelas é clandestina, ‘informal‘, ilegal e bandida.

Tudo isto não é culpa do bandido. Não foi o bandido que inventou isto. O bandido é um componente, um habitante deste contexto, um elemento desta equação sim, mas só por uma razão: O negócio da droga exige força militar. Os depósitos e paióis de droga e armas precisam ser defendidos dos rivais e da polícia.

É preciso, pois, procurar QUEM está controlando a venda de drogas no Rio, ou o que é mais sério ainda: Descobrir o mais rápido possível que forma o tráfico de drogas está assumindo antes que se agravem mortalmente os nossos problemas de cidadãos acuados de um lado por um Estado corrupto e por outro de uma bandidagem armada a serviço deste mesmo Estado.

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Aqui ou acolá no Facebook o papo vai seguir. Só uma coisa é certa: No The End o nosso coração é que será enterrado na curva do Rio.

Se você é meu amigo no facebook vai poder ler o papo – que chegou a muito bom termo – na íntegra aqui neste link

Spirito Santo

Setembro 2011