Gentlemen Bakongo – O folclore black urbano é fashion

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Seriam mais resquícios dos antigos bakongo em nós?

Resenha para fotos de Daniele Tamagni

Vejam as imagens neste link.

São pobres de marré de si vestindo-se como se ricos de marré de si fossem, num esmero quase doentio. Atores e personagens em si mesmos não são o que aparentam ser, mas a estudada aparencia deles denota uma espécie de orgulhosa ideologia, na ingenua, porém eficiente afirmação de que não aceitam a pecha de ignorantes selvagens, que a sua condição de extrema pobreza poderia sugerir como imagens indeléveis deles mesmos.

Ora…nada é indelével ou eterno neste mundo, certo?

E vejam bem: Não são caricaturas de ricos, imitativos reflexos do que pensam que os ricos são. São criativos e originais, fashionistas no melhor dos sentidos. Os ricos sim, são os que acabam se mostrando bregas, kitsh no vestir, por conta do propósito sempre evidente no vestir deles de ostentar riqueza e poder. Pobres de espírito.

Estes aqui não. Ostentam apenas a liberdade e a alegria da arte de vestir bem. A arte de bem ser o que não são (ou efetivamente são, sei lá), humorísticos as vezes, mas ridículos jamais.

Mascaram a pobreza ritualísticamente e assim confundem as conclusões da rasteira sociologia das aparencias que os definiria e na qual estariam escravizados, cabisbaixos como se estivessem sempre nus ou de tanga.

Vê-los me evocou, imediatamente a minha adolescência suburbana. Vocês não iriam acreditar no modo radicalmente fashion como nos vestíamos nos confins dos subúrbios no fim dos anos 60 do século passado. Mãe costureira, eu podia ousar o máximo de estilosidade nas minhas calças ‘boca sino’, nas camisas de esdrúxulas mangas drapeadas, nos sapatos de plataforma. Um luxo só. Desviava das poças de lama do bairro com desenvoltura de um Barishinikov.

Nos anos seguintes da pós adolescencia, fiquei menos fashion, envolvido que estava com a luta política, armada às vezes, séria e carrancuda, naquele ‘abaixo a ditadura’ meio suicida – embora também juvenil – que se apossou de alguns poucos de nós.

Mas não podia deixar de perceber que o fashionismo militante dos meus amigos suburbanos prosseguia impávido e foi assim que testemunhei as suas (nossas) black fashions weeks seguirem impolutas pelas mesmas ruas enlameadas, nos bailes de black music, no movimento black Rio que inflamou nossos subúrbios cariocas e paulistas com maneirismos de vestir totalmente exacerbados, inéditos, boinas, cachecóis, cachimbos loucos, saltos carrapetas em sapatos super engraxados, com franchas e apliques, sapatos complexos bicolores, sapatos de deuses trepados em nuvens.

(Os sapatos bicolores aliás, me trazem a lembrança fortuita de sapatos iguais – embora mais bicudos e sociais – dos dançarinos de nossas gafieiras de antigamente, os ternos brancos de linho cuidadosamnte amarfanhados. Me lembram também aqueles sambistas mais malandros ainda, dos idos de 1940, naquele seu vestir masculino, machão, mas meio puxado ao árabe muçulmano, meio português dos Trás aos Montes, contrastando com o feminino dos pés polvilhados de branco, as unhas pintadas a esmalte transparente, cintilando no arrastar desleixado de afrescalhados chinelos ‘charlote’.

Ai! E como eles me lembram, irresistivelmente o modelito do Zé Pilintra clássico que tanto nos fascina!

Sei lá de onde veio este jeito de vestir, estes bons modos fashion em nós tão introjetados. Pode ter sido de bem longe, tão longe quanto devem ter vindo os modos destes rapazes bakongo das fotos. Modas irmãs, com toda certeza é o que parecem…pelo mesnos nas aparencias.

Quando os nossos antropólogos despertarem do entnocentrismo excerbado que costuma orientar os seu enfoque sobre a cultura africana em geral, talvez melhores explicações apareçam sobre este inusitado fenômeno dos hábitos e costumes mais excêntricos de nossa população mais largada, naqueles guetos e favelas de todos nós

Nem me atrevo a tecer mais considerações. Vejam e leiam as considerações de lá de longe que já dizem quase tudo:

———————

By Dylan Jones

The Guardian, sábado 14 março de 2009

“Vinte e cinco anos atrás, quando eu editei a revista ID, passei uma época inventando cultos socioeconômicos. O meu favorito eram os Mashers que desfilavam em torno de Londres como cavaleiros edwardianos em cartolas e coroas, adoradores do consumo de vinho, das mulheres e de todas as coisas ligadas à moda e a costura.

Enquanto eu folheava um livro chamado ‘gentlemen Bakongo “, uma viagem com o Sapeurs do distrito Bakongo de Brazzaville no Congo, o berço real de Sapé, a” religião de roupa ‘”, eu pensei que o tempo dos Mashers estavam de volta. Nas fotos eu vi um grupo imaginário de curtidores de roupas  incongruentemente exigentes, só que desta vez em vez de rebeldes do bairro do Soho, eles eram habitantes dos confins da África,.

E eles eram reais sim, além de espetacularmente bem-vestidos. Eles são os ‘Sapeurs’ (Sociedade para o Avanço das Pessoas Elegantes).

Surgiram do caos do reinado de Mobutu, o seu jeitão distinto era uma forma de se rebelar contra decreto ditatorial que todos deviam se vestir com trajes tradicionais africanos.

Os ‘Sapé’ são uma religião de tipos, um mini-estado que oferece as suas próprias camadas sociais de ‘presidentes’, ‘ministros’ e acólitos. E se eles não sabem como amarrar uma gravata borboleta, com certeza conhecerão alguém que sabe.

Tome Salvador Hassane, 29, que trabalha para uma empresa de telefonia móvel, além de ser líder do Grupo Piccadilly, uma das subseitas de Sapeurs mais extravagantes é um auto-proclamado “consultor de estilo”, aconselhando jovens aspirantes sapeurs sobre a roupa mais adequada para eles, e boutiques e alfaiates que eles gostariam de visitar (cobrando um bom preço pela dica, claro).

Como com todo modo de vestir, o estilo sapeur é uma forma de auto-engrandecimento, o culto da aparência. Para eles, estar bem-vestido é como ser bem sucedido, que não é apenas uma vaidade, mas um apelo do coração.

Mas eles parecem extraordinários. Não pareceriam estranhos desfilando pela Savile Row, resplandecentes em suas melhores roupas multicoloridas, carregando bastões e charutos, colocando um mocassim de camurça branca na frente do outro e sorrindo como se não tivessem problema algum neste mundo.

Por seus pecados, Oscar Wilde disse uma vez que a boa aparência e o vestir bem são essenciais, já que que são um propósito de vida. Esta máxima pode ser o slogan dos Sapeurs.

Homens como Lalhande (21 anos) que vive em um pequeno quarto com um guarda-roupa enorme cheio de ternos sob medida. Ele é um católico, torce para o  Milan, e quer ser modelo e Michel, 24, que está tentando obter uma bolsa para estudar em os EUA. Como todos os Sapeur, quando eles saem de casa parecendo dandys.”

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~ por Spirito Santo em 03/09/2011.

2 Respostas to “Gentlemen Bakongo – O folclore black urbano é fashion”

  1. Spirito Santo. Gostei muito da foto dos textos e do design do Blog.
    Estou sempre aprendendo um pouco mais!
    Obrigada!
    Monica

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  2. Spirito adorei!!!!!

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