Meu coração na curva do Rio. Paz do ‘Alemão” para inglês ver

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O Forte Apache e a política de segurança do Rio de Janeiro

“ No Western Delaware Tribal Museum estão exposições de vestimentas e utensílios utilizados por diversas tribos. Nesta região em 1869 o governo americano construiu um forte para defender os colonos e enfrentar os índios, o Fort Still.

Nele ficavam os soldados da 9a e 10a cavalarias americanas, por isso estes campos viram muitas batalhas entre soldados e índios. Hoje em dia todo mundo sabe como terminou esta história…”


Sim senhor. Estes ‘fortes‘ ou ‘quartéis‘ são figurinhas fáceis em qualquer manual militar. São apenas uma velha tática de ocupação de territórios habitados ou ocupados por comunidades hostis. Índios, guerrilheiros, cangaceiros, piratas (na costa) e bandos de bandidos de qualquer ordem, são hostilizados e contidos em seus avanços contra os interesses de quem detem o poder, a princípio por alguma forma tosca, precursora, que nas favelas do Rio de Janeiro se chamaram DPOs (Destacamento de Policiamento Ostensivo). Quando a coisa engrossa e a chapa esquenta como ocorreu aqui no Rio de Janeiro…o jeito é chamar a 7ª cavalaria.

Ora, eu mesmo vi, esquandrinhando mapas oficiais do interior do Estado de Minas Gerais pontinhos esparsos na Serra do Espinhaço assinalados como ‘Quartéis‘, ou seja ‘Fortes‘  do exército colonial portugues  construídos no século 18 para conter e reprimir o avanço de quilombolas bandoleiros, contra as tropas de soldados ‘dragões‘ que carregavam ouro e diamantes em tropas de burros pelas fraldas e escarpas da serra.

Na verdade cheguei mesmo a ver  com os próprios olhos as ruínas de um destes ‘quartéis‘ quando visitei um quilombos destes, num lugarejo remoto denominado, providencialmente ‘Quartel de Indaiá’ (significando que, inusitadamente o velho quartel acabou mesmo dominado pelos quilombolas).

É uma tática de dominação colonial recorrente. Depois de desgastantes batalhas escorraçando os inimigos encastelados em algum ponto que ameaça o seus interesses (nos EUA os colonos brancos queriam se apossar de terras nas vastas áreas ocupadas pelos índios aqui temos os interesses turístico comerciais ligados à Copa do Mundo e as Olimpíadas), o exercito colonial resolve instalar postos fixos avançados.

Recorrentemente também em refregas pela ocupação, os rebeldes armados são mortos, capturados ou expulsos do local, mas os cuidados com a manutenção da ordem pública, no intuito de impedir que os grupos armados retornem às antigas posições, obriga as tropas a se manterem permanentemente em prontidão, tornando as liberdades dos ‘nativos‘, dos moradores locais, daquela população que habita o a área ocupada pelas tropas, muito limitada, restrita demais em muitos e, as vezes, intoleráveis limites.

É de onde nascem os conflitos e os motins.

Quem leu um pouco da história da ocupação do oeste americano, mesmo em histórias em quadrinhos sabe. Depois do massacre de Little Big Horn  e da fragorosa derrota do General Custer os fortes foram construídos, os índios atacados e sujugados para serem por fim mortos de frio, fome e removidos de suas terras para reservas distantes.

Alguns poucos, para mim ingênuos – embora existam também os cínicos e os cretinos – fecham os olhos para os detalhes mais amplos do assunto e caem como patinhos na propaganda. Afirmam então, emocionados e mais enfáticos ainda do que eu, que as UPPs são “a melhor solução já encontrada para a segurança pública do Rio de Janeiro”.

Não são.

Como ocorreu com os Apaches e Cheyennes…”hoje em dia todo mundo sabe como terminará esta história”…

É como eu digo sempre por aí: com as UPPs  instala-se no Rio de Janeiro uma verdadeira DITADURA MILITAR  SELETIVA.

Usando a analogia com o Forte Apache e os quartéis contra os quilombolas eu diria que ela, esta tática, só é boa mesmo para os colonos brancos, para os ‘cara-pálidas’ como diria o ‘Cavalo Louco”. É política pública apenas lá pras negas da classe média do Rio como diria o ‘Touro Sentado”. Política boa mesmo é para inglês ver. Aliás, falando nisto acompanhem este papo aqui:

…George Howell, um amigo inglês, aqui no facebook:

“Acredito que o sucesso dos UPPs depende da conscientização dos moradores que a policia trabalha para eles, que eles são um serviço. Acho tambem que a direito humano de segurança é fundamental, e que os UPPs tentam fornecer isso. Acho que os cidadãos também têm que entender que o estado é deles.

Eu, retrucando:

“Conscientização dos moradores que a polícia trabalha para eles...” Kkkkkk! Realmente você não conhece a realidade daqui, George, não sabe o que é a polícia aqui, não sabe o grau de degradação da autoridade pública por aqui. Só rindo, desculpe.

UPP, George é OCUPAÇÃO MILITAR. É como ocupação militar em qualquer lugar. NÃO É política pública. É parecido com a contenção de árabes na faixa de Gaza, com os antigos guetos do Apartheid da África do Sul, com as forças da ONU ocupando a favela Citè Soleil no Haiti, já disse isto aqui.

As realidades parecem diferentes mas intenção do Estado é a mesma: Excluir e conter os excluídos num território controlado. Os bandidos são apenas a ponta, o lado militar do problema.

E o papo segue:

George:

Como a policia deve agir? Deve ser proibido a entrar igual a época da Brizola? E quando os bandidos lutam entre si nas suas guerras territoriais – deixa assim? A polícia odeia o estado tambem, igual bombeiro. Essa dura realidade continua nas 999 favelas sem policia…porra o Jacarezinho e uma merda! Criancas cracudas se prostituindo…ninguem pode falar nada…se não o tráfico te mata.

Eu, tentando responder:

Difìcil dialogar quando você não vê o problema por todos os ângulos. Este ângulo restrito que você vê é o mesmo da propaganda, o mesmo da ‘mágica‘. A política das aparências.

É um sistema, George. O Estado exclui as pessoas de TODOS os direitos. Elas ‘se viram‘ e ocupam as frestas da cidade, morros, áreas insalubres, etc. e se amontoam ali. Aquilo vira uma cidade meio animalesca, visceral, com as pessoas fazendo de tudo para sobreviver.

A princípio elas viviam de pequenos serviços para a classe média (daí as favelas serem próximas dos bairros ricos), empregadas domésticas, motoristas, faxineiros, mas a população favelada explodiu, são mais de 60% da população do Rio (para se falar só daqui) e não há mais ‘pequenos serviços’ (semi escravidão) para todos. Infelizmente o único mercado de trabalho que esta realidade criou foi o tráfico de drogas.

As comunidades faveladas hoje se organizaram então, principalmente em torno da economia do tráfico (de drogas e de armas, talvez os negócios mais lucrativos do mundo hoje em dia). Já disse e repito: O dinheiro do tráfico de drogas e de armas é que aquece a economia das favelas, tudo, os mercadinhos, os armarinhos, as locadoras de vídeo, as oficinas mecânicas, os bares, todo o comércio existe por que a grana obtida com o tráfico circula nas favelas. É a base da economia local.

E veja: O segundo mais importante comércio das favelas é o contrabando, ou seja, a venda de quinquilharias contrabandeadas em barraquinhas e pequenas lojas. Ou seja, quase toda a economia das favelas é clandestina, ‘informal‘, ilegal e bandida.

Tudo isto não é culpa do bandido. Não foi o bandido que inventou isto. O bandido é um componente, um habitante deste contexto, um elemento desta equação sim, mas só por uma razão: O negócio da droga exige força militar. Os depósitos e paióis de droga e armas precisam ser defendidos dos rivais e da polícia.

É preciso, pois, procurar QUEM está controlando a venda de drogas no Rio, ou o que é mais sério ainda: Descobrir o mais rápido possível que forma o tráfico de drogas está assumindo antes que se agravem mortalmente os nossos problemas de cidadãos acuados de um lado por um Estado corrupto e por outro de uma bandidagem armada a serviço deste mesmo Estado.

————-

Aqui ou acolá no Facebook o papo vai seguir. Só uma coisa é certa: No The End o nosso coração é que será enterrado na curva do Rio.

Se você é meu amigo no facebook vai poder ler o papo – que chegou a muito bom termo – na íntegra aqui neste link

Spirito Santo

Setembro 2011

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~ por Spirito Santo em 07/09/2011.

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