Fernando anti Pessoa: o sujo navegar negreiro para ele era preciso

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Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

(O dito gajo num dos seus poemas)

É, mas porque ninguém nos contou isto antes, sobre esta parte da vida ‘errada‘ do bardo luso? Porque este manto branco, diáfano, este filó delicado e imaculado sobre a obra deste baluarte da literatura portuguesa, este Camões supostamente moderno, este muso taciturno que Maria Bhetânia mais uma vez endeusaria declamando 365 poemas dele, ás nossas custas? (Vocês se lembram daquele projeto do Hermano Viana que seria -ou foi sei lá – bancado pelo MinC da Anna de Holanda?)

Pois é.

Com que então, pularam esta parte da biografia do tuga? Rasgaram as páginas que o denegriam para o embranquecer e desanuviar seus maus bofes? E onde foi que esconderam estes seus escritos obscuros, estes que desabonam a sua conduta de poeta humanista introspectivo,  as suas rasuradas e amarfanhadas ideias salazaristas, de fascista de bodega?

Podiam ao menos ter inventado um heterônimo qualquer, um João das Couves ou dos Algarves aí, alguém suposto a quem seriam atribuídos todos os mal ditos e mal escritos do poeta.

Gente, ando impressionado como os filmes dos heróis de nossa nacionalidade (que neste caso é lusitanidade) andam queimando por aí. O cheiro de celuloide fritando anda insuportável por aqui, sufocante.

Dia destes, sobre a memória de um suposto herói guerrilheiro  contra a ditadura (o ex jornalista Celso de Castro), cuja controversa morte foi investigada e filmada pela própria filha, apareceu a turva sombra (divulgada pelo jornalista  Zuenir Ventura neste link) de que ele teria sido morto na verdade assaltando um apartamento em busca de cocaína, droga da qual era viciado.

E sobre o Chico Buarque também de  Holanda, viram já a fofoca? Um biógrafo italiano sugere que a RCA Victor italiana, gravadora do artista por lá, foi quem planejou o seu exílio como suposto perseguido da ditadura militar, exílio este que teria sido forjado como golpe publicitário para aquecer as vendas de seus discos na Europa. Será? Gente!  Leiam só isto:

“(…) a imagem de Chico (Buarque) só se transformou após o que (o autor) chama de ‘breve’ exílio do artista na Itália. Baseado em tese ainda não publicada do historiador italiano Luca Bacchini, o livro é contundente: ‘Sabendo da sede da juventude italiana pelos mitos da América Latina, especialmente Che Guevara, a RCA (gravadora italiana) criou uma campanha publicitária que colocava Chico Buarque vítima da ditadura.

Chico nega ter aceito semelhante armação, claro e é bastante provável que seja mesmo o cara honesto que imaginamos que ele seja, mas efetivamente ele se auto-asilou na Itália nesta época (1969) e a armação da gravadora – que ninguém até agora desmentiu – pode mesmo ter sido engendrada.

Nada provado nos dois casos, mas filme queimado, sabem como é: derrete, escorre fotograma a fotograma, esgruvinhando-se para nunca mais se desesgruvinhar. A boa imagem gravada nunca mais volta à ser luz.

O gosto para nós, reverentes adoradores de exemplos dignificantes é sempre amargo ou azedo, nunca mais insípido ou inodoro. Água nenhuma lava mais a má impressão impressa na náusea ou no nojo, como  o que sentiu o amigo angolano Aristóteles Kandimba que me repassou estas palavras cruas do poeta Fernando Pessoa, pinçadas por sua vez da matéria (veja o link) resenhando a biografia de Pessoa escrita por José Paulo Cavalcanti Filho.

Fala o bardo luso, o meu mais recente ídolo caído:

“A escravatura é lógica e legítima; um zulu (negro da África do Sul, que falava a língua banto) ou um landim (indígena de Moçambique, que falava português) não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir aos fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico. O degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude”

Pessoa continua, em texto de 1917:

“A escravidão é lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada. O amor covarde que todos temos à liberdade é o verdadeiro sinal do peso de nossa escravidão”.

Quase dez anos depois, ele se mantinha firme nessas convicções racistas:

“Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social”. E ainda: “Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs”?

Oh, Deus dos desgraçados! Quantos anjos cairão mais deste nosso céu de mágicas, farsas e fantasias ?

(Como se já não nos bastassem os anjos caídos ex-guerrilheiros  e ex-operários que temos agora mesmo a nos governar)

Spírito Santo

setembro 2011

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~ por Spirito Santo em 09/09/2011.

Uma resposta to “Fernando anti Pessoa: o sujo navegar negreiro para ele era preciso”

  1. CARÁLEO!!

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