A Escola de Samba – e o cinema – que não era deles

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Resenha para o filme ‘A Nossa Escola de Samba”- 1965

(Bem, é papo de Samba. Já deu para notar, não é? Só tenho falado disto porque…ah! Vocês já sabem: Dia 06 de Outubro estou lançando o meu livro (convite neste link) Do Samba ao Funk do Jorjão . Este filme aqui é da praia do meu livro. Foi por causa disto que fiz até esta animada resenha para ele:)

Primor absoluto. Um daqueles raros filmes que pelo tanto de vívidas memórias que nos evocam se tornam irresistivelmente comoventes. De chorar e de sorrir compungido mesmo, emocionado.

“Nossa Escola de Samba” é um filme de 1965 de Manuel Horacio Giménez produzido por Thomaz Farkas um ano depois da ditadura militar se instalar no Brasil e um ano antes do mega evento cívico que foi o 4º centenário da Cidade do Rio de Janeiro, fundada como se sabe em 1565.

É um filme de favela, um ‘favela movie’ como tantos que se fez por aí ultimamente, mas este é feito de dentro para fora, numa época em que isto ainda podia ser feito. É neste fator que está para mima base da força deste etnodoc. ‘de responsa’.

(Tá com pressa?Veja o filme aqui:)

É que havia também qualquer coisa estranha nas nossas relações sociais (e o filme deixa transparecer isto claramente) que ensejava estas abordagens românticas de nossa realidade, o sonho de um sociedade possível, calcada na harmonia entre pobres e ricos, entre brancos e pretos, estas utopias hoje tão desgastadas.

Uma solidariedade emotiva, um ‘tamo junto’ que unia os intelectuais de esquerda e o ‘povão’ do Rio de Janeiro, possibilitando enfoques cinematográficos mais íntimos, tomográficos quase, num diálogo sócio cultural mesmo, de igual para igual, em abordagens tão sinceras da realidade quanto próximas da ‘exatidão’ antropológica – e o que é mais surpreendente hoje: sem o pieguismo cultural – cínico e elitista por sua própria natureza que surgiria – ou se agudizaria – poucos anos depois, já que nascera cerca de um ano antes como vírus no ‘vanguardismo’ festivo dos CPCs da UNE.

É. O apartheid cínico que prevalece hoje, ao que parece, não tinha sido inventado ainda.

É que se filmava ainda em 1965 com distanciamento social e/ou cultural quase nenhum, meio que se inventando um cinema ‘brasileiro’ que – pelo menos nos documentários do período – queria ser popular, queria ser ‘Cinema (de) verdade’ com uma função de transformar o Brasil em algo melhor, apesar da ditadura.

E nem é preciso ser um velho saudosista para entender o quanto a força destas claras memórias têm de pungentes. Basta comparar os registros em preto e branco, estar vivendo no Rio de Janeiro hoje e ser adulto.

Assim, foi muito impactante para mim perceber vendo o filme, o quanto a miséria extrema é tão arraigada, renitente e perene nas favelas do Rio de Janeiro – o quanto ela, esta miséria degradante se agravou insuportavelmente, inclusive sufocando quase de morte uma riqueza cultural inestimável para o país que era aquele Samba praticado nestes cantões de gente africana. O sufocamento deste Samba é para mim uma  espécie de perda irreparável para a alma, o ethos, para a riqueza emocional de nós todos.

É Samba, gente? Samba dançado rico, amplo, generalizado. Ah!Como era intensa a expressão apaixonada da cultura ancestral daquelas pessoas!

Do mesmo modo é chocante observar nas cenas dos bastidores da construção do enredo da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel naquele ano, o quanto a população destas favelas (tendo a do Pau da Bandeira’ em Vila Isabel como modelo) perdeu em sua autonomia cultural que era de uma força criativa  enorme, pujante, bem menos tutelada do que é agora. Eu mesmo vi, pessoalmente em Padre Miguel meu bairro ‘natal’, carros alegóricos como aquele, de ‘papier machè’ e armações de arame, sendo montados por um artesão qualquer da comunidade.

Neste mesmo sentido é doloroso se observar também o quanto, aparentemente, a população favelada – e a população suburbana em geral – foi alijada das ruas do Centro e da Zona Sul da cidade, das diversões públicas mais livres e soltas destas áreas, fato que a gente observa claramente comparando a composição social dos blocos de Carnaval de rua que desfilam no filme por ruas da Zona Norte, Centro e Zona Sul, com os que desfilam hoje de hoje nas mesmas áreas, organizadíssimos, animadísssimos, porém…pequeno burguesíssimos de doer, apenas com alguns poucos crioulos batuqueiros na bateria.

E mesmo sem falar do crioléu, vale a pergunta: Para onde foram os foliões do ‘povão’ desta cidade, gente? Estão enfurnados em complexos favelados sufocantes cantando ‘funkões’ de ódio?

Saudosismos e crítica social à parte, muito bom o cinema brasileiro que se fazia na época que pode ser descrita com admirada emoção sim.

Cinema é sempre verdade.

Spírito Santo

Outubro 201

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O filme ganhou o Prêmio Dziga Vertov no Festival Internacional do Filme, Rio de Janeiro em 1967, e Menção Especial no VIII Festival de Cinema dos Povos Florença, Itália em 1967.

Veja o filme aqui:

“O documentário que faz parte da compilação “Brasil Verdade” de 4 médias-metragens realizados entre 1964 e 1965, lançados na forma de um longa de episódios em 1968, que veio a se tornar um dos clássicos do documentário brasileiro, a produção geral dos filmes foi de Thomas Farkas.” A cópia foi extraída do DVD 4 do “Projeto Thomaz Farkas”.

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~ por Spirito Santo em 02/10/2011.

2 Respostas to “A Escola de Samba – e o cinema – que não era deles”

  1. Pois é. Na época que você sugeriu eu estava ainda sob os efeitos da overdose de escola de samba que foi a revisão do livro e deixei este filme numa gaveta da alma. Agora, instigado pela editora a achar vídeos que servissem para divulgar o livro, decidi assistir a jóia. Tocante mesmo. Os outros grandes docs. da época ‘Cabra marcado para morrer‘(Eduardo Coutinho), ‘Pedreira São Diogo‘(Leon Hirzmam ), ‘Couro de Gato‘ (Joaquim Pedro de Andrade) etc. já tinham aquele ranço de pieguismo pequeno-burgues a que me refiro na resenha, aquela visão de cima para baixo do cineasta que se arvorava a ser a ‘vanguarda das massas incultas’.

    Um exemplo para o futuro, em todos os sentidos, este filme aí.

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  2. Eu sabia que este filme lhe tocaria… agora, as passagens sem locução — executada por um local, diga-se — em que mostram as evoluções, os trajes, os trejeitos e o samba no pé é de uma riqueza etnográfica e poética pra nenhum Jean Rouch botar defeito. Está entre os meus preferidos, uma aula até hoje.

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