Um livro velho nunca morre porque a mentira tem perna curta

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O Limbo dos livros nunca é a morte porque o pai e a mãe dos livros somos todos nós.

(Eu, hoje um I-Tio, E-Tio, sei lá, um Tio on line comum desses aí, confesso aqui contrito o meu amor pelo papel dos livros).

Não sei o que faria se os livros não existissem neste meu mundinho restrito, porém exemplar. Difícil para muitos jovens de hoje entender isto, neste mar encapelado de mídias que virou a comunicação universal.

“Quem lê tanta notícia?”

Não sei se foi – na verdade sei, com certeza foi – por culpa de minha mãe, que tirou esta idéia da cabeça semi-analfabeta dela, esta coisa de me dar livros e gibis (quem ainda sabe aí o que é ‘gibi’?) como quem dá doces de presente.

O fato é que viciei no cheiro do papel impresso desde cedo, no colégio interno ainda, ali pelos meus oito anos de idade. E era papel impresso há muito tempo, daqueles velhos, folhas amareladas, cagadas e roídas de traças cultas, sumidades vorazes mais letradas do que qualquer um de nós.

Que eu me lembre assim, vívidamente, as minhas traças infanto-juvenis liam Arsène Lupin, Daniel Defoe, Julio Verne e até Monteiro Lobato. Liam também, avidamente gibis do Tarzan, Popeye, e aquelas coisas do Walt Disney: Patinhas, Pluto, Pato Donald (sonhava deliciado com as neo-colonialistas aventuras do Mickey Mouse, nas terras de Fu Man Chu, do Egito, de Machu pichu).

E não era por querer saber. Não era por querer ser letrado. Era o vício mesmo, se instalando, como ansia por maconha, cocaína, por heroína, por crack, os livros e os gibis ansiados – eu fissurado neles – como se fossem cachaça pura, escorrendo narinas adentro, olhos adentro, cabeça adentro, neurônios adentro, alma adentro como um grande amor.

Gosto do cheiro do papel novo sim. Mas a tinta fresca, aquele cheiro de não-sei-o-que recente que hoje me inebria, é apenas a parte mais recente do vício, droga leve, já meio malhada, como se diz. É que o que me dá barato mesmo, o que deu e dá onda (tanto que agora mesmo, neste instante, exulto e tremo de prazer) o que fez milhões e milhões de palavras grudarem em mim, nas memórias de mim para sempre, foi – e é – o cheiro acre que tem o papel passado, as palavras roídas por aquelas traças antigas, alunas residentes dos montes de papel velho que eu folheei, olhei e cheirei na minha infancia.

Conto, mas ninguém acredita: escrevo, escrevo – escrevi agora mesmo um livro inteiro, grandão, cheio de letras e figurinhas – consultando uma enorme bibliografia, recortando, pinçando, escaneando coisas. Pois, praticamente todos os calhamaços e livros que tive que consultar sobre tudo, história, romances, música, antropologia, verdades e mentiras, estavam ali, ao alcance da minha mão, em estantes ao meu lado, sujos, velhos amarfanhados de lidos, quase comidos. Não dei – juro – um passo fora de casa (e não falo da internet, claro) para consultar o que quer que fosse.

Foi um Google-exu, uma entidade-povo-da-rua invocada por minha mãe macumbeira que baixou em mim, foi isto que me fez ficar assim como sou, devo assumir. Foi o vício inoculado por aquela estranha mania dela, de minha mui letrada, embora semi analfabeta mãe querida, que me fez sair por aí garimpando em sebos – e que curioso: acho que as mães todas tinham a mesma mania antigamente porque na minha juventude era muito comum, ver jovens garimpando livros em sebos. Como traças.

(E por acaso você sabe mesmo o que é um ‘sebo’? Não? Pois saiba: ‘Sebo’ é como Google, só que Google, mermão…não tem cheiro)

Toda esta memorabilia emotiva está ligada ao amor irreprimível que tenho por este livro aí de cima, na foto. Um raro exemplo do fetiche avassalador que os velhos livros de papel são.
Ele se chama Os Mitos Africanos no Brasil.

Guardo-o há anos, oculto em segredo, com medo que o surrupiem de mim. Na vida soube da existência de apenas dois outros exemplares dele. Devem existir mais que isto, claro. Dez talvez.

Comprei-o num sebo no centro da cidade do Rio de Janeiro nos anos 70 do século 20, atraído apenas pelo nome, que expressava assim, diretamente o tema que abordava, mas que não dava nem de longe, a menor pista do ouro maravilhoso – e inusitado para mim – de seu conteúdo e de seus segredos.

Uma viagem este livro e seus mistérios.

Entre tantos mistérios revelados, por exemplo, uma pista para a origem remota do mito de Saci Pererê (veja as imagens ampliadas – todas – clicando sobre elas) na fabulosa história de um perneta que sequestra moças em sua Kora (e que seria um mito mandinga já que a Kora, é o nome de uma harpa-cítara africana que só existe na Guiné Bissau e em parte do Senegal, território mandinga, por suposto). Mas poderia ser também uma fusão com mitos bantu e yoruba, por conta de outros elementos curiosos, as ‘matambas’ citadas, o nome (‘Ossonhe‘) do personagem.

Aliás, vendo a história sugerida pela imagem, vocês não se lembram do mito supostamente europeu no qual se baseia a ópera ‘A Flauta Mágica’ não? O ‘Flautista de Hamelin”, gente! Aquele cara que, de vingança sequestra as criancinhas de uma aldeia, enfeitiçando-as com sua flauta.

Pois é. Dizem que os mitos humanos vieram todos do mesmo lugar: das cavernas.

Para continuar com os mistérios, o desconhecido autor Souza Carneiro, vinha a ser o pai de um dos mais respeitados etnólogos do Brasil: Edison Carneiro. Um especialista em cultura negra dos anos 30 aos 50 do século passado. Como podia ser – me perguntei logo que vi a uma nota do editor aludindo a este fato – que um livro tão denso de conteúdos idênticos aos abordados por Edison Carneiro não fosse jamais citado pelo próprio filho do autor?

Não seria lógico supor que os estudos do pai antecederam os do filho? No que consistiria a divergência entre os dois. Porque as conclusões de um são tão contraditoriamente diferentes, opostas mesmo em muitos aspectos?

Você pode ler a nota a que me refiro (na impossibilidade de escanear o raro livro, fotografei algumas preciosas páginas, entre elas a sugestiva nota do editor). Nela, reparem, está a sugestão de que pai e filho, por alguma razão misteriosa, não se transitavam, não se davam, “um não sabendo dos escritos do outro”, diz a nota. Como assim?

O fato é que na tese defendida pelo livro de Souza – não exatamente na tese defendida em si, mas explicitamente no que nela está cabalmente atestado, fruto do formidável senso investigativo de folclorista rigoroso que ele era – aparece um rol de contos tradicionais, lendas e mitos, ainda genuinamente africanos, a maioria totalmente desconhecidos por todos nós, recolhidos (alguns por Nina Rodrigues) aqui mesmo, no recôncavo baiano (entre o início do século 20 e os anos 30 do mesmo período, ocasião em que o livro foi publicado).

Amaldiçoado não sei por que (ou sei, mas nem preciso dizer) o livro de Souza Carneiro demonstra então uma quantidade enorme de equívocos e distorções etnológicas cometidos por quase todos os estudos posteriores (inclusive os de seu filho  Edison Carneiro) os quais, omitindo ou subestimando certos aspectos desta herança africana cabal, viva, ainda visível naquela época – na intenção provável de legitimar outros elementos (como a indefectível ‘supremacia nagô’, por exemplo) tornaram ‘oficiais’, como conceito de Cultura negra baiana  (ou mesmo cultura negra do Brasil) o que havia sido, na verdade, inventado por uma casta de doutores e iniciados na seita do Candomblé, com intenções que não nos cabe aqui repetir.

(Nota de maio de 2015: Acabo de receber de uma prestimosa colaboradora um trecho de uma desairosa resenha de Arthur Ramos desancando e desqualificando o livro de Souza Carneiro (sim, este mesmo que eu exalto). Neste documento – a meu ver uma lamentável prova da improbidade constrangedora de certas sumidades acadêmicas brasileiras, injustamente canonizadas – muito a se debater.  

Sempre me surpreende o baixo nível em que as bases de nossa antropologia acadêmica está assentada. Prometo um novo artigo exclusivo sobre esta novidade deplorável. Aqui, abaixo, um trecho do ‘assassinato cultural’ perpetrado contra Souza Carneiro.

Aposto que o comentário desairoso e bajulatório, dirigido á Arthur Ramos, é do ingrato filho de Souza, o incensado Edison Carneiro):

image

(É. Naquele nosso velho papo de Tio-Kota teimoso vivo falando isto por aí. Cobra matada, vejam agora vocês mesmos em que eu me baseava, no que me fundamentava e como, ao que tudo indica lendo o Souza, estava coberto de razão.)

Observem então, chafurdem estas poucas páginas fotografadas e vejam como são surpreendentes os dados contidos nas fichas e relatos de mitos recolhidos por Souza. Vejam como eles exibem um retrato da cultura da Bahia completamente diversa daquela que ‘oficialmente’ se perpetuou. Observem como, apenas numa vista rápida de olhos, se comprova a maciça e preponderante influencia de culturas africanas oriundas da área Congo-Angola (bantu), não só no Rio de Janeiro como já se atestou, mas ali mesmo, ao lado de Salvador.

Afinal – surpreenda-se como eu – porque será que estes dados essenciais à compreensão de nossas origens culturais mais caras e antigas, tão meticulosamente garimpados por Souza Carneiro (presumo que ele tenha dedicado a vida inteira a esta pesquisa) desapareceram assim, completamente dos livros, das bibliografias, quase nunca aparecendo – se é que apareceram um dia – nem mesmo como vaga citação em teses e dissertações.

O que teria contribuído para que este inestimável livro se tornasse assim tão desconhecido, maldito quase, caído neste buraco negro do qual alguns poucos exemplares puderam ser resgatados (entre eles este que possuo acidentalmente garimpado numa empoeirada banca de um sebo do Rio)?

E aqui, nos finalmentes, uma curiosa analogia se impõe: A mãe (a minha) a semi analfabeta que trouxe livros á luz para iluminar a vida do filho, servindo de contraponto dramático a esta história provável de um filho (Edison Carneiro) que, teria contribuído (no mínimo por omissão, fruto de algum ressentimento familiar, como saber a razão?) para lançar no limbo o luminoso livro do seu próprio pai.

É, mas por isto ou por aquilo, um livro no limbo – com suas verdades mesmo as mais relativas – não morre jamais. Pode-se entender isto perfeitamente agora.

Os virtuais não sei para onde irão no futuro, os de papel – como este meu do Souza –  por certo se esfarinharão com o tempo, mas a sempre densa a alma dos livros será sempre imortal. E tudo porque são vício, daqueles incuráveis, que nem as traças dos doutos do mal destruirão.

Spírito Santo

Outubro 2011

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Onde? Quando?

O  livro “Mitos Africanos no Brasil” de Souza Carneiro foi composto e impresso nas oficinas da empresa “Graphica da Revista Tribunaes“, á Rua Xavier de Toledo, 72 -São Paulo para a Companhia Editora Nacional, em Setembro de 1937.
Nota: O ilistrador é o grande Cícero Valadares da revista ‘O Malho‘.

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~ por Spirito Santo em 15/10/2011.

Uma resposta to “Um livro velho nunca morre porque a mentira tem perna curta”

  1. Santo, Spirito

    Achei nove exemplares na Estante Virtual, mas agora já há só oito. Reservei o da Traça, em Porto Alegre, e vou pegar amanhã. Quem quiser um dos oito, estão aqui:

    .

    Quando eu voltar a BH ou for ao Rio, combinamos pra pegar o que vc escreveu.

    cp

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