O BECO – Roteiro de cinema (versão integral)

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O BECO

By Spírito Santo -1993

Roteiro para filme de ficção Longa metragem
VERSÃO INTEGRAL – Leia  resenha neste link

Interiores:

Salão de Dancing

Redação e gráfica de jornal

Delegacia de polícia

Salão de sinuca

Interior de avião anos 50

Escritório de advocacia

Interior de adega

Sala de mansão

Exteriores:

Favela  ( platô, birosca, barracos, etc. )

Bairro Boêmio ( Lapa) / ( cabarés, largo, ruas, ladeiras, arcos e adega )

Centro do Rio / ( bar, relógio do Largo da Carioca)

Copacabana ( entrada de hotel, fachada de delegacia, ruas e calçadão )

Fuselagem de avião anos 50

Saguão e pista do aeroporto anos 50

Praia do Caribe

Rua de Havana, Cuba

Personagens, coadjuvantes e figurantes

1-  Juvenal King Kong / O fotógrafo gordo

2-  Dr. Mário Sarione / O  delegado

3-  Aníbal Maciel / O Senador

4-  Cândido Menezes da Silva, “Candinho” / O chofer de  táxi

5-  Satã  / O homossexual

6-  Dona Clarinda Belfant Maciel / A madame morta

7-  Carlito Pimenta  / O Jornalista

8-  Herrera / O matador de aluguel

9-   Dr. João Beckmam  / O advogado

10- Janeth / A amiga da madame

11- Nézinha / Amante de Candinho

12- Menino Goleiro

13- Joaquim Polaco / receptador

14- Secretária

15- Chisnove

16- Velha

17- Barrigudo da piteira

18- Leão de Chácara

19- Misses e mães de misses.

20- Meninos favelados

21- Moradores e freqüentadores da Lapa.

22- Homens e mulheres da alta sociedade

23- Motoristas de táxi

25- Netos da velha

26- Policiais civis

————-

Exterior/Noite                                                                                           

Beco na Lapa

Largo da Lapa.

Piso de  paralelepípedos imundo.

Beco deserto iluminado por luminária de rua.

Vozes em off, ao telefone:

Clarinda

Ah…vamos sim! Afinal…não vai te custar nada não é? O lugar é tão simpático.

Janeth

O que está havendo com você, heim? Nunca foi disso…andar na noite, na boêmia, nesse submundo?

Clarinda

E a Lapa é submundo por acaso? Você não viu ontem? Até Edith Piaf estava lá. Ali é a  nossa Monmartre, querida e, além do mais…bem, num ponto você tem razão. Ando meio deprimida  mesmo.

Janeth

Desiludida da vida?.. É o desquite não é?…

Clarinda

Pois é. Este assunto de novo…Pedi a separação de corpos, sabia? Não dava mais pra suportar…sabe? A pressão, as ameaças…depois de tudo que eu relevei…

Janeth

Tá bom, não se fala mais nisso. Te pego aí em dez minutos. Ah…quase esqueço. Posso levar alguém…assim, pra te fazer companhia?…Não? Ih…mas que chata que você está, meu Deus! Tá. Esquece….Não, não. Deixa estar. Eu pego um táxi.

Poste da luminária iluminando letreiro de bar ao fundo:

A Capela

Chão de paralelepípedos e poças d’água, fazendo fundo para legenda:

3 de Maio de 1955

Lapa, Rio de Janeiro

Som de gritos inflamados.

Briga de rua.

Pés da assistência, na soleira do bar.

Pés dos contendores, rápidos, indo para o meio da rua, em luta.

Golpe de um no ventre do outro, que cai.

Rosto do homem que caiu, um negro de bigode fino, aparado.

Olhos se revirando.

Rosto do outro, também negro, com um chapéu, olhando para o adversário assustado.

Turba se aproxima do homem caído, agitada.

Agressor em fuga, desaparece numa esquina.

Rosto do homem caído no meio-fio.

Poça de sangue próxima ao rosto, cresce e  se mistura a uma poça d’água.

Chuva fina começa a cair.

Poça de água e sangue, salpicada pela chuva.

Letreiros de apresentação rolam no quadro.

Exterior / noite                                                                                       

Largo da Lapa.

Letreiros de cabarés e bares com pessoas paradas ou andando nas esquinas.

Ponto de  táxi ao fundo.

Candinho, o motorista, se aproxima do carro.

Meio-fio com longa poça d’água em perspectiva.

Pés de um grupo de  homens e pneus de táxis parados em fila.

Grupo de taxistas conversando animadamente, com Candinho chegando ao fundo.

Chofer barrigudo, apontando para Candinho com uma piteira.

Chofer 1(Barrigudo):

Falando no diabo… ele logo aparece. Não morre tão cedo esse aí!

Candinho (com enfado)

Ih…Pronto! Já sei…É aquele papo da francesa.

Faz menção de ligar o rádio, sendo impedido pelo Barrigudo

Candinho( ríspido: )

Larga meu rádio, rapaz. Não tem mais o que fazer não?

Página de revista com uma foto montagem de Edith Piaf em frente aos arcos da Lapa.

Grupo rindo de Candinho.

Chofer 2:(mostrando uma revista aberta)

Tá aqui a tua francesa. Ah, mas que michuruca! Que desmilingüida a  tadinha!

Candinho:

Ah…vão se danar!

Chofer 2, sacode a revista insistente, sempre  rindo.

Chofer 2:

Se fosse coisa que prestasse, ia tirar retrato nos Arcos da Lapa assim, como uma doidivana qualquer? Que nada! Botava um maiô, vestia uma sainha, um shortinho e fazia pose, empinava a bundinha na Vista Chinesa, não é mesmo?

Candinho:

É a rainha do romantismo, seu bocó! Deu na revista. Ah…Tu lá entende o que é isso?

Chofer 2:

Romantismo?! E tu gasta tua grana toda com jornaleiro, só pra ver isso?…Romance?! Tu tá é ‘tan tan’, maluco!

Candinho:

E você? Que fica aí, gastando féria com vadia…Quero ver é ter amor de graça, paixão mesmo, de fé, assim que nem eu tenho.

Barrigudo:

Até parece! Quanto tempo faz que tu não vai no morro ver aquela, como é que chama?…Nézinha, né mesmo? Me diz! Já deve ter te trocado por um ferrabrás, daqueles lá da favela. Quer apostar? Dor de corno, rapaz! Teu mal é esse. É por isso que gosta destas musiquinhas de tristeza, queixume de puta arrependida. É ou não é?

Candinho se afasta do grupo, aborrecido.

Barrigudo imita a pose e a elegância de Candinho sumindo numa esquina.

Grupo de motoristas às gargalhadas.

Som de sirene de ambulância.

Ambulância chegando em disparada, passando em frente ao grupo de motoristas .

Interior, noite

Dancing na Lapa

Som da pequena orquestra do Dancing.

Som da sirene da ambulância passando lá fora.

Boca do trombone em close.

Pequeno palco com os músicos e um letreiro aceso ao fundo.

Cabaret NOVO MÉXICO

Dancing

Salão cheio de gente  rodopiando, muita agitação, fumaça.

Mesas com pessoas alegres.

Burburinho de vozes gritadas, misturadas à música.

Entrada do dancing.

Candinho entra, cumprimentando o Leão de Chácara com um sorriso de intimidade.

Exterior, noite

Beco na Lapa.

Vista através da janela de um sobrado no beco.

Ambulância do “Socorro Urgente” estacionando na esquina.

Médico saindo da ambulância apressado.

Roda de gente se formando, multidão portando guarda-chuvas pretos.

Médico abrindo a roda de guarda-chuvas.

Homem da briga caído no centro da roda.

Janela do sobrado com a silhueta de homem alto e gordo de costas.

King Kong vestindo pijamas, olhando para cena lá em baixo. .

Visto ainda do sobrado, médico examina o homem caído em meio à poça de sangue.

Rosto do homem, ainda vivo, procura algo com os olhos, sem entender o que se passa.

Olhos do homem ferido em close parecem encarar alguém.

Rosto de King Kong no alto do sobrado, impressionado com o olhar do ferido.

King Kong pega uma máquina fotográfica na escrivaninha,

Segue até a escada, corre para porta e desce para a rua descalço.

Médico chama o enfermeiro e motorista com um gesto para que tragam a maca.

Ferido é carregado para a ambulância que sai depressa, com a sirene ligada.

King Kong aparece na porta do prédio com a máquina fotográfica.

Ambulância passa na frente do prédio, lançando lama sobre King Kong.

King Kong sacode o pijama enlameado, com a máquina apertada contra si.

Balança a cabeça, lamentando o flagrante perdido.

Interior, noite 

Dancing na Lapa

Música da pequena orquestra seguindo.

Janeth, dança com homem engravatado, preocupada, circulando o olhar pelo ambiente.

Fixa o olhar na mesa onde está Clarinda.

Clarinda observa o ambiente com um sorriso vago.

Candinho olha em direção a Clarinda que percebe, desvia o olhar e constrangida.

Decote de Clarinda em close, destacando um broche de ouro: Uma pequena serpente enroscada em si mesma.

Janeth e o acompanhante se encaminham para a mesa onde está Clarinda, eufóricos.

Exterior, noite                                                                                             

Beco na Lapa.

Música do Dancing soando na rua.

King Kong volta para a entrada do prédio e sem querer chutando algo no chão.

Objeto pequeno rolando como uma pedra.

King Kong se abaixa e pega o objeto.

Broche dourado, idêntico ao de Clarinda na palma da mão de King Kong.

Rosto de King Kong intrigado com o broche, lembrando algo.

Flash muito rápido de rosto de uma mulher mulata rindo, num ambiente enfumaçado.

King Kong guarda o broche no bolso, pensativo.

Interior, noite                                                                                         

Dancing na Lapa.

Som da orquestra do Dancing prosseguindo.

Janeth e o acompanhante sentados na mesa com Clarinda.

Candinho se aproxima e convida Clarinda para dançar, conduzindo-a  para o centro do salão.

Acorde da orquestra, concluindo  a música.

Vozerio inflamado.

Casais se dispersando, todos no salão sorrindo e soltando gargalhadas, excitados.

Clarinda com os amigos bebendo e rindo na mesa, eufóricos.

Candinho num dos cantos do salão, confidencia algo para amigos que observam discretamente a mesa de Clarinda.

Orquestra retomando com um Mambo.

Clarinda volta ao salão com Candinho.

Os dois dançam com rosto colado,

Clarinda  ri descontraída, de algo que Candinho fala ao seu ouvido.

Janeth olha para o casal de forma estranha, incomodada.

Espaço do dancing, do ponto de vista de Clarinda.

Som confuso de vozes e  risos misturados à música.

Todo o ambiente do salão enfumaçado, girando vertiginosamente, até imagens ficarem totalmente borradas.

Exterior, noite                                                                                             

Largo da Lapa

Ponto de táxi com o carro de Candinho estacionado, sozinho.

Som da orquestra do Dancing ecoando na rua.

Fachada iluminada do dancing com  Candinho já na rua, saindo.

Candinho dança sozinho na rua embevecido, seguindo em direção ao carro.

Senta no carro, coloca o chapéu no banco ao lado e liga o rádio.

Música do Dancing ecoando na rua, ao fundo.

Voz de locutor no rádio:

P.R.E. 8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Na capital federal, 1 hora e trinta e cinco minutos. Tempo chuvoso, temperatura estável…E agora, para vocês, queridos ouvintes amantes do romantismo, a confirmação da grande notícia: Era mesmo Edith Piaf a francesinha que circulava ontem pela Lapa noturna. De férias no Brasil, a inigualável “chansoière”, intérprete de maravilhosas canções de amor, declarou que…

Som de orquestra no rádio, tocando a introdução de  uma música de Edith Piaf.

Táxi parado no ponto com a porta aberta.

Rádio em close, junto ao taxímetro.

Rosto de Candinho ouvindo a música embevecido.

Pára-brisa do carro, visto por dentro, com chuva fina escorrendo.

Sacada do sobrado do dancing iluminada, vista através do pára-brisa.

Casal se agarrando na sacada.

Porta de saída com um grupo de pessoas elegantes saindo abraçadas, rindo alto.

Clarinda, no meio do grupo, dando gargalhadas, bêbada.

Candinho colocando a chave na ignição, fechando a porta e  ligando o motor do carro.

Barulho forte do motor misturado com a música do rádio.

Clarinda se aproxima do ponto de táxi, com carro de Candinho quase partindo.

Janeth e o acompanhante se despedem efusivamente de Clarinda.

Retrovisor de Candinho mostra Clarinda correndo, acenando para o táxi.

Clarinda tropeça, quebrando o salto do sapato.

Candinho vê a cena do retrovisor e desliga o carro.

Clarinda corre em direção ao carro mancando, com o salto quebrado nas mãos.

Amigos correm atrás dela, rindo da cena.

Táxi com a porta traseira aberta, esperando os amigos de Clarinda a colocarem no banco.

Clarinda ri muito, amparada pelo amigo até conseguir se sentar.

Mão do amigo de Clarinda coloca salto do sapato no banco do carro.

Clarinda desabada no banco, com Candinho coçando a cabeça preocupado.

Amigos de Clarinda voltam para o dancing.

Retrovisor mostra esquina vazia.

Candinho desliga o rádio.

Candinho:

Pra onde vamos, Madame?

Clarinda (entreabrindo os olhos ):

Copacabana, por favor!

Candinho:

Que altura?

Clarinda (se aprumando) :

Princesa Isabel…sei lá! Olha, moço…quando chegar eu falo, tá bom? Ah…Deixe o rádio ligado, por favor.

Candinho (religando o rádio):

Ah, sim…Tá bom. Desculpe.

Música de Edith Piaf voltando.

Rua chuvosa com o carro em movimento.

Perfil de Candinho com fachadas da rua passando.

Carro cruza com casais de namorados encostados em vielas escuras.

Boca de Clarinda, com o batom borrado, no retrovisor, canta baixinho a canção do rádio. Candinho surpreso, admira a mulher no espelho.

Clarinda (percebendo):

Que foi? Não repara não. Sou assim mesmo, romântica. Desde pequenininha.

Candinho (distraído):

Pois não, Madame?

Clarinda:

A música…esta do rádio. É a Edith Piaf, sabia?

Candinho:

Sei, sei! Eu conheço. Esteve aqui na Lapa,  não foi?

Clarinda:(olhando para a rua)

Lapa…Conheci outro dia. Vou voltar sempre. Engraçado…Não vi nada que confirmasse a má fama.

Rosto de Candinho, reconhecendo Clarinda pelo retrovisor

Candinho:

Me admira muito a senhora ter gostado. A Lapa hoje anda tão decaída…

Clarinda repara algo no banco ao lado de Candinho.

Chapéu pousado no banco.

Clarinda:

Mas, espera aí…O Senhor não é aquele que estava…

Candinho (pelo retrovisor):

..No dancing? Pois é, Madame.  Mundo pequeno não é mesmo?

Clarinda:

Ué ?! E não ia  me dizer?

Candinho :

…A Sra.não tinha notado não? Bom…e aí? Já tá melhor agora? 

Clarinda, coloca a mão no ombro dele, distraída, ainda cantando junto com o rádio.

Candinho coça a cabeça, tenso e tenta disfarçar o incômodo, assobiando a mesma música.

Clarinda :

Viu só? O Sr. também é um romântico.

Candinho:

Sou sim. Isso não posso negar.

Clarinda:

Mas…não é comum um chofer ser assim…sentimental, não é mesmo?..(retira a mão do ombro dele, rapidamente)…Oh, desculpe. Eu e meus preconceitos.

Candinho:

Tem nada não, madame. Pra a ser franco…quase que desisti da corrida? 

Clarinda:

É mesmo?! Mas, por quê? Eu danço tão mal assim?

Candinho:

Não, não! Que é isso? É que…sabe o que eu pensei? Passageira sozinha, há esta hora, assim tão fina… Bem…A senhora não parecia nada bem.

Clarinda:

Ai, que pileque!.. Deve ter me achando uma chata de uma dondoca, não é mesmo?

Candinho:

Não, não! Eu vi logo que a senhora não era como certas passageiras que tem por aí.

Clarinda:(colocando de novo a mão no ombro dele)

Tá vendo! Olha só, você também com  preconceito.

Táxi correndo pela Avenida Atlântica.

Vista da praia escura passando pelo vidro lateral do carro com a lua semi encoberta ao fundo. Rosto de Clarinda, olhando o céu.

Interior do carro com Clarinda com a mão no ombro de Candinho.

Candinho vacila no volante.

Mão de Clarinda sobe  pelo ombro dele, alisando seu pescoço.

Carro, desvia do meio-fio.

Candinho(assustado)

Ai meu Deus!.. Viu só?

Clarinda :

Ah…desculpe! Deixei você nervoso. 

Candinho (reduzindo a marcha ):

Não, não…É que…a senhora…

Clarinda:

Ah, me desculpe mesmo!.. Eu devia me comportar…Vê só o que a solidão faz com a gente.

Candinho (rindo):

Solidão? A senhora? 

Clarinda:

Acha graça, não é? Se o senhor soubesse da minha vida…(olhando para o céu de repente) …A lua saiu! Ai que coisa linda! Parece até cinema, não é mesmo?

Perfil de Candinho cofiando o bigode. Descendo até a mão livre dele, alisada pela dela.

Lua plena ao fundo, com nuvens pesadas em torno.

Calçadão com carro reduzindo a marcha, passando por um trecho deserto da praia.

Candinho:

A Sra. não acha que é melhor parar por aqui mesmo?

Clarinda:

Parar?!.. Ah é? Então tá. Aqui, aqui! Olha…pare aqui mesmo , por favor!

Candinho: (nervoso, estacionando):

Ai meu Deus do céu! Será o Benedito!

Clarinda (se chegando):

Ué?! Você não queria parar? O que é que tem? Olha como a praia está bonita. Ah…me abraça, vai. Está  tão frio lá fora.

Candinho (abraçando Clarinda, nervoso:)

Mas…Eu tava falando outra coisa. Eu disse parar de…

Clarinda (instigando, fazendo um carinho:)

Parar com isto?…Ai, tadinho! Está com medo, não é?

Candinho:

Eu? Imagina! O que é isso…O que a senhora vai fazer, heim?

Clarinda (sorrindo, abraçando mais forte):

Eu?! Nada de  mais, ora. E fique sabendo que eu não mordo não, viu, seu bobo. Aliás, se continuar me chamando de senhora, aí sim, eu mordo.

Candinho abre o a porta para Clarinda, olhando para a rua, apreensivo.

Clarinda já fora do carro sem sapatos, pega a mão dele, puxando-o em direção ao mar.

Barulho das ondas batendo na  praia.

Rosto suado de Candinho, indeciso.

Rosto de Clarinda com a maquiagem borrada.

Pés dela descalços e os sapatos dele sobre as desenhos do calçadão.

Os dois em pé na calçada, agarrados.

Candinho se afasta bruscamente, com a mão no peito, como se  tivesse sido picado por algo.

Decote de Clarinda com o broche de ouro.

Clarinda retira o broche e coloca no bolso dele.

Casal anda em direção à praia na penumbra e entra na areia.

Clarinda puxa Candinho para si.

Motocicleta com guarda civil avança pela avenida deserta.

Motociclista  reduz velocidade e olha curioso para a praia, na direção onde está o casal.

Praia com vultos do casal se deitando e sumindo na escuridão.

Policial intrigado com a cena, religa a moto e segue seu caminho em disparada. .

Perspectiva do Calçadão vazio com uma nuvem ao fundo, cobrindo inteiramente a lua.

Interior / noite                                                                                    

Redação de jornal

Som da balbúrdia dos repórteres e contínuos.

Gente datilografando, telefonando ou conversando acaloradamente.

Mesa em primeiro plano, com um homem visto de costas, curvado ao telefone.

King Kong pergunta algo a alguém tendo a mesa do homem ao fundo.

Pessoa perguntada aponta a mesa.

Homem da mesa, Carlito Pimenta, ainda de costas ao telefone.

Carlito:

…Quando? Anteontem? Mas…delegado, é notícia velha, né?…Tá, tá! Eu vou cobrir. Tô à toa mesmo…Manchete? Não, não. Aí já é luxo, né? Essas brigas na Lapa…sabe como é. Deve dar uma chamadinha de capa mas, deixa comigo…no Morro da Mangueira? Mas, quem é o moribundo? Geraldo?.. De que?.. Moreira? Ah, sim… Pereira… Hum!…Nunca ouvi falar. Tá. Tá bom! Já não disse? Tô indo pra aí.

King Kong se aproxima da  mesa.

Carlito, ao fundo, desliga o telefone.

Carlito: (para King Kong,)

Anh? É comigo? Em que posso servi-lo?

King Kong:

Juvenal de Oliveira, a seu dispor. É que sou o novo repórter. Me mandaram aqui pra uma entrevista.

Carlito (encarando surpreso):

Novo repórter?! Mas você não é o…Ah, ah,  ah ! Que coisa!

King Kong (olhando para os lados, constrangido):

O que foi?

Carlito:(rindo)

Desculpe, desculpe! É que…tu é a cara de um boxeur conhecido meu…como era mesmo o nome? Foi campeão sul americano de peso pesado…Ah, já sei! King Kong! Tu é o King Kong cuspido e escarrado, rapaz.  Impressionante!

King Kong: (sem achar graça)

É mesmo? Pois me mandaram falar com um tal de Seu Pimenta. É o senhor, não é ?

Carlito: (Para colega:)

…Cada uma que me aparece! (para King Kong:) Quem foi te mandou aqui?

King Kong (apontando para longe da mesa):

Bem…o chefe ali falou que o senhor…

Carlito:

Tá bom, tá bom!..(de novo para colega do lado)…Olha só que bodega! O chefe agora cismou de me achar com cara de treinador de foca…Só faltava essa.(para King Kong, com desdém)…Tu tem equipamento, essas coisas, correto?

King Kong:

Equipamento? Olha…Eu pensei que o emprego fosse pra repórter.

Carlito:

Ih! Que presunçoso. Vai ter que começar como fotógrafo mesmo! Tá pensando o que? Isto é…se quiser, né? Senão…

King Kong:

Bom…Tá  certo. Tenho equipamento em casa. Eu não sabia que…

Carlito: (se levantando)

Então? Vamos, vamos! Vai lá buscar teus trecos.

King Kong:

Mas…agora?! Quer dizer então que…o emprego é meu?

Carlito:

Claro, claro! Fui com a tua cara. Vamos, vamos! Estamos n’O Diário de Notícias, meu chapa. Tempo aqui vale ouro. Tem a cobertura de uma diligência aí pra fazer na Mangueira. O Troço começou com uma briga na Lapa, essas  merdas.

Rosto de King Kong  fundido com imagens do rosto da mesma mulher negra rindo no flash back, no ambiente enfumaçado.

King Kong:

Na Lapa? Engraçado…Teve uma confusão ali anteontem. Será que é essa briga que…

Carlito:

Ué? Pode ser, pode ser!.. Que faro, rapaz! Fenomenal! Tu foi testemunha ocular? Pois então…Tá vendo só? Homem de sorte! Tem estrela. Vamos, vamos lá, ô…King Kong dos pobres. (batendo nas costas de King:)… Vam´bora! Tá começando bem! Tá começando muito bem!

Carlito sai abraçado a King Kong.

Exterior, noite.                                                                               

Morro da Mangueira

Discreto letreiro num canto do quadro:

Morro da Mangueira

Pouco tempo depois

Som de sirenes de polícia.

Viela principal de favela sob chuva fina.

Viaturas da Polícia estacionam com estardalhaço no sopé do morro.

Planos gerais e rápidos de policiais afobados, descendo dos carros e subindo pela viela.

Perspectiva da viela enlameada se desvanecendo na escuridão salpicada de janelinhas iluminadas.

Som de rádio ligado no programa “A Voz do Brasil”.

Notícias de atos do senado federal misturadas com latidos de  cachorros.

Panorâmica no sentido da subida com um pequeno platô de terra batida e uma varandinha de birosca, cheia de homens bebendo cachaça, jogando carteado.

Perspectiva da viela com as janelinhas iluminadas, sendo fechadas apressadamente. .

Silêncio.

Birosca com  fregueses mudos durante a passagem dos policiais.

Carlito Pimenta atrás do grupo de policiais, seguido de perto por King Kong

King Kong aperta contra si a máquina fotográfica, preparada para algum flagrante.

Close da máquina, protegida da chuva por uma  folha de jornal.

Folha de jornal cai numa poça de lama. Close no jornal caído:

A LUTA DEMOCRÁTICA

FERIDO DE MORTE SAMBISTA NA LAPA!

Agressor foge espetacularmente

Foto 3/4 de Geraldo Pereira com legenda: “O  sambista moribundo”

Pés de King Kong pisando na folha de jornal, espirrando lama para os lados.

Delegado com um revólver na mão, conversando abraçado com um Chisnove, impaciente:

Delegado Sarione:

Olha aqui, meu filho…Que o pederasta agressor é  preto, eu tô cansado de saber. É o tal do madame Satã, aquele invertido, viado filho da puta. Agora tu disse que ele se escondeu aqui, não foi? Então vamos ver. ´Cê sabe que eu tenho horror a “cachorrinho” que nem tu. Tenho nojo… Chisnove desgraçado! Se eu tiver montado essa palhaçada de diligência à toa…Te dou uns dez dias de xilindró…Vamos ver! Vamos ver!

Flash espoucando, iluminando toda a viela.

Delegado, cobrindo o rosto.

Cachorrada com os dentes à mostra, raivosa, atacando o grupo de policiais.

Grupo se abaixando para pegar pedras para espantar os cachorros.

Delegado possesso, avançando em direção a  King Kong, com o revólver apontado:

Delegado Sarione:

Filha da puta! Apaga a porra desse holofote!

Grito aterrorizados de uma mulher.

Chisnove apontando um barraco, gritando para o delegado:

Chisnove:

Ali! Ali!

Gritaria dos policiais correndo em direção ao barraco.

Pés de policiais chutando e arrombando a porta do barraco.

Homem dentro do barraco, iluminado por uma lamparina, com um cinto levantado na mão.

Homem  é imobilizado pelos policiais.

Rosto da mulher com o nariz escorrendo sangue, iluminado por uma lanterna.

Delegado Sarione:

Pára! Pára! Que bodega!.. É um infeliz espancando a mulher, caralho! (dá um cachação no Chisnove e guarda a arma) Lorota deste cachorro. Que merda! Quinze anos de polícia e ainda caio nessas. No morro, nessa chuva desgraçada, caçando um crioulo pederasta que matou um outro crioulo qualquer. Vamos embora. Porra! Caralho! Odeio Chisnove! Odeio Chisnove!

Grupo desce a viela com o homem algemado.

Som de  “A Voz do Brasil” segue

Frestas das janelinhas se reabrem.

Viela vazia com o céu escuro e chuvoso ao fundo.

Interior, noite                                                                                     

Quarto de mansão

Panorâmica com chuva fina na praia deserta, com ondas.

Calçadão de Copacabana com vulto de guarda noturno se aproximando.

Policial sopra um apito.

Quarto de mansão com cama de casal iluminada por réstia de luar.

Clarinda, dorme só, agitada.

Flash rápido com imagem de sonho: Clarinda e Candinho transando no carro.

Mãos de Candinho no seio dela, passando pelo broche.

Lufada de vento sacode a cortina e derruba jarro de flores.

Clarinda acorda assustada, se levanta para fechar a janela, volta para a cama e recua, como se lembrasse de algo.

Coloca a mão no ponto onde usa o broche, sobressaltada.

Pega um isqueiro. Anda até a parede onde está um cofre.

Acende o isqueiro, abre o cofre.

Close no interior do cofre com mão de Clarinda abrindo um porta-jóias.

Close  acentua colares e anéis, um pequeno envelope pardo mas, nenhum  broche.

Flash do sonho:  Decote de Clarinda com o broche.

Mão dela arrancando o broche da blusa.

Clarinda no quarto, pondo as mãos no peito, deduzindo onde esqueceu o broche.

Clarinda:

Ai meu Deus! De novo? Mas que mancada.

Envelope no fundo do cofre.

Clarinda intrigada envelope, o abre com mãos trêmulas e folheia documentos e fotos.

Foto de homem (Senador Maciel) de terno elegante e fumando um charuto, abraçado a quatro coristas cubanas.

Clarinda recoloca o envelope no lugar e tranca o cofre.

Rosto de Clarinda, crispado de raiva.

Abajur se apagando.

Exterior/ interior, noite                                                                             

Rua suburbana

Chuva fina prossegue.

Táxi de Candinho parado em frente de casa pobre.

Câmera avança pelo interior da casa, até entrar no quarto com Candinho e a esposa dormindo

Candinho acorda bruscamente.

Cadeira com roupas dele penduradas.

Vai sorrateiramente até a cadeira. Revista os bolsos assustado.

Pega a camisa.

Mulher, deitada de costas, com olhos abertos, acompanha os movimentos de Candinho .

Candinho sai para a rua, com a camisa na mão, rumo ao carro.

Mão dele dentro do porta-luvas.

Candinho com o broche na mão senta no carro aliviado e enxuga o suor da testa com a camisa.

Sibilar do vento

Janela com mulher escondida atrás da vidraça salpicada de chuva, olhando Candinho no carro.

Largo da Lapa com carro de Candinho estacionando.

Ele sai do carro e entra apressado num beco escuro.

Candinho na porta do Dancing “A Capela” esperando alguém, ansioso.

Escada com “Leão de Chácara” descendo.

Som de escada  velha rangendo

Leão de chácara:

Ô meu nobre! O que é que manda? Não vai entrar?

Candinho:

Olha só,  Adamastor. Hoje não, tá? Eu tô numa sinuca de bico

Desgraçada…Você nem queira saber.

Leão de Chácara:

E isso é novidade? Você já deve uns cobres aqui na casa, não é mesmo? Olha aqui…

Candinho:

Psiu! Fala baixo!.. Não é nada de gaita não! (cochichando, olhando para os lados:)…Olha só. É aquela dona que tava dançando comigo aqui, naquele dia. Aquela granfina assim…meio balzaquiana. Você não lembra?

Leão de Chácara:

Sei, sei, ora. Mas o que o que é  tem ela?

Candinho:

Pois é. Ela esteve comigo…meio assim, sabe?

Leão de Chácara:

Aquela dondoca? Contigo? (rindo) Pra cima de mim, Candinho! O que é que tu quer, heim? Desembucha logo, meu chapa.

Candinho:

Ai, ai, ai…Ô Adamastor. Me deixa falar. Por acaso não viu ela hoje por aqui? É importante pra caramba Tá rindo de quê? Quer saber? Pois olha aqui a prova, meu chapa! (mostra o broche:) Ela esqueceu esse troço no meu carro, tá bom? Quero devolver. Tu sabe que eu não sou de explorar mulher, não é mesmo?

Leão de Chácara: (se afastando, assustado com o broche)

Homem de Deus! Sai, sai! Tu perdeu o juízo. Isso deve valer uma grana preta! Vai! Devolve, rapaz. Vai por mim! (Também olhando para os lados, com medo:)…Vê se pode…Segurar jóia de  granfina?! Ela vai dar queixa na polícia, palhaço!..(subindo as escadas)…Sai, sai! Te manda daqui! Vai acabar é me envolvendo nesse troço.

Leão de Chácara sobe apressado.

Candinho olha assustado para os lados, antes de sair.

Beco com muita gente circulando.

Homem ao fundo colando cartazes num muro.

Cartaz com foto:

VOTE 

ANÍBAL MACIEL

O SENADOR DO POVO

Candinho se mistura às pessoas e desaparece numa esquina.

Interior, dia

Escritório de advocacia

Escadaria e corredor de um prédio antigo com elevador subindo.

Som de telefone  tocando insistentemente.

Secretária sai do elevador correndo, abre a porta, largando o guarda-chuva molhado no chão.

Porta do escritório com um letreiro pendurado.

Dr. João Beckmam de Miranda Dias

Advogado

Horário Comercial

Causas Cíveis e Criminais

Pernas da secretária.

Guarda-chuva  pingando no chão.

Secretária:

Alô! Alô!.. Bom dia. Escritório do Dr.Beckmam de Miranda!.. Ah, sim, sim! Dona Clarinda?..Como vai a Sra.? Oh…desculpe. É que é cedo ainda…quer dizer, com esta chuva. Olha, ele não deve demorar…É urgente? Posso ajudar?..Sim…mas, ele pode ligar, assim que chegar. Como? Não entendi. Não precisa ser ele?

Secretária intrigada, falando baixo.

Secretária:

Mas, Dona Clarinda…Eu sei, mas…o que a Sra. quer exatamente? Documentos da agência de turismo? Lá de Cuba? Ai meu Deus!.. Eu sei que é importante mas, não sei se seria direito?.. Sim, eu sei onde está… Num arquivo comum, assim, trancado. Claro que eu consigo mas… Ai, Dona Clarinda…E se eu perder meu emprego?.. Tá, tá…eu sei que foi que senhora quem me arranjou a vaga. Bom…Tá bem. Eu vou tentar…A Sra. merece. Eu sou muito grata por tudo que a Sra. tem feito por mim. Tá bom. Posso ficar tranqüila então?.. Sim Sra. Eu lhe entrego as cópias. Bom dia pra Sra. também. 

Secretária tranca a porta principal e entra na saleta interna.

Secretária sai da saleta com um envelope na mão.

Envelope é embrulhado cuidadosamente na capa de chuva.

Poça d’água formada pelos pingos do guarda-chuva no chão.  .

Interior, noite

Clube na zona sul do Rio

Pés de mulheres jovens andando em fila no piso encerado de um grande salão.

Jovens vestidas com roupas típicas de estados brasileiros.

Mulheres de meia idade aglomeradas num canto da sala, olhando ansiosas para as jovens.

Cartazes com fotos de jovens de maiô, espalhados pelo salão.

Um dos cartazes:

Escola de Manequins

Janeth Bonfiglioli

Curso completo para misses, modelos e manequins

Janeth, ao lado de uma vitrola. Olhos atentos ao ensaio, falando ao telefone.

Som de música de desfile de misses, ao fundo.

Janeth:

Pois é. Perdi. Você por acaso não achou? São tão parecidos.

Clarinda (do outro lado da linha, em off):

…Mas querida, no estado em que saímos da Lapa naquele dia…Que loucura…Sabe que o meu também…Bom, já procurou debaixo da sua cama? Quem sabe naquela hora “h”, ele…

Janeth:

Ele quem?.. Hum…Acho que não. Talvez algum empregado…sei lá. Falando nisso. E o “Pé de Valsa”? Aquele do dancing? Tem visto?.. Aliás…Negro bem apanhado, heim?

Clarinda:

Ai, que maldade! Como você é fofoqueira. Cruz credo!..

Janeth:

Santinha do pau oco! Mas, olha…falando sério. Não encontro o diabo do broche! Você sabe que eu odeio perder as coisas…

Clarinda:

Ah…Só pode ter caído na rua…Não lembro de ter te visto você com ele, lá no dancing. Deixa pra lá. Esquece. Te dou outro, igualzinho…Era só bijouteria.  

Janeth:

Bijuteria sim mas, eu adorava ele, sabia? Nem todo mundo que tem a sorte que você tem, não é mesmo? Tanta que…até joga fora.

Clarinda:

Ah…desculpe! Não quis te ofender.

Janeth :

E o seu? Vale uma fortuna não é mesmo? Um belo pé-de-meia. Vai me dizer que também perdeu? Sei lá. Você fica andando com ele, pra baixo e pra cima… Vai que uma hora dessas…

Clarinda:

Ai, querida…me perdoa mas, isto não conto…Tá bom! Digamos que ele tem ficado com alguém de muita confiança.

Janeth:

Louca! Presente do Dr. Maciel não foi? E se ele der falta, menina?

Clarinda:

E eu com isso? Vai que ele pede de volta? Aquele mesquinho! Deixei de ser aquela mosca morta, sabia?

Janeth:

Olha, amiga… Não vá fazer nenhuma besteira, viu?

Clarinda:

Você ainda não viu nada. Depois do que eu descobri então…

Janeth:

Estou ficando preocupada com você, sabia? Brincando com fogo. Se arriscando assim, à  toa. O que você quer? É orgulho? Dinheiro? Quer me contar? Mesmo? Então tá. Vou dar um jeitinho de te ver. Olha só…Porque você não passa aqui, heim?

Clarinda:

Ai que bom! Assim eu saio um pouco. Preciso mesmo desabafar com alguém.

Janeth segura o telefone um pouco mais antes de desligar, pensativa.

Candidatas a miss, desfilam.

Janeth interrompe o ensaio.

Janeth

Pronto lindinhas! As nove em ponto aqui, por favor. Amanhã ensaio com maiô, está bem? (para as mães das moças:) E então mamães?.. Não vão aplaudir?

Mães aplaudem freneticamente, com sorrisos esperançosos.

Uma mãe, com olhos marejados admira a filha.

Cartaz com a foto de uma miss de maiô, coroada, sorrindo feliz com cetro, faixa e buquê de flores.

Interior, noite

Escritório de advocacia

Elevador parando. Porta pantográfica se abre, barulhenta.

Senador Maciel sai do elevador apressado.

Porta da sala de Beckmam aparece  ao fundo do corredor.

Secretária, através do vidro da porta, arruma as fraldas da blusa que estão para fora do cós da saia.

Secretária abre a porta com um sorriso amarelo.

Secretária:(olhando para dentro da sala)

Oh mas, é o Dr. Senador…

Maciel entra, apressado. Secretária tenta retardá-lo

Secretária:

…Mas Dr. espere um pouquinho….

Interior do escritório.

Grande mesa coberta por montes de pastas de processos.

Beckmam ajeitando a braguilha da calça e procurando os óculos:

Beckmam:

Maciel! A que devo a honra da visita do grande Senador da República? Há esta hora…fim de expediente? Vamos, entre!

Maciel :

Você não ficou de me telefonar hoje, seu tratante? Porque não ligou? 

Beckmam:

Calma, homem!.. Sente-se. O que foi que houve assim de tão urgente?

Maciel:

Ah…me desculpe chegar assim, Beckmam. Não sei bem mas…é que eu ando meio ansioso com a campanha. E mais esse negócio do desquite, da partilha, olha…Isso tem me dado nos nervos, sabia?

Beckmam:

Apresse isto, homem! Pressione ela assim…sutilmente. Não precisa ficar histérico. Vai com calma. Esse negócio de desquite é só uma formalidade. Não é nada do outro mundo. Você sabe melhor do que eu.

Maciel:

Não é isso! Meu medo são aqueles documentos. Se aquilo vazar….Meus adversários, você sabe. Serão implacáveis… Será que está tudo seguro mesmo?

Beckmam:

Mas que coisa, Maciel! Já não te afiancei que sim?

Maciel:

Ela tem andado estranha. Segura demais.Tenho tido pressentimentos horríveis. 

Beckmam:

Deixe de se amofinar, homem! Logo que você me trouxe a papelada eu arquivei tudo. Está aqui no escritório. Quer lugar mais seguro? Aliás, em boa hora você resolveu parar de guardar aquilo em casa, não é mesmo?

Maciel:

Pois é Beckmam mas, mesmo assim eu suo frio, só de pensar.

Beckmam:

Pensar o que, ora? Ai, Cristo! Você não confia em ninguém, não é mesmo? Aconteceu alguma coisa? Tá suspeitando de que? Olha só…Pra tua sorte, a Branquinha é uma moça bastante avoada.

Maciel:

Pois sim…Você não conhece a peça. Uma dissimulada. Disse que vai se mudar lá de casa. Imagina! Separação de corpos, essas coisas. Alguém anda aconselhando. Ela podia ter te procurado, quem sabe?

Beckmam:

Olha aqui Maciel, se você não confia em mim, basta dizer. Me demite pronto! Você já devia ter feito o acordo com ela. Você me garantiu que faria.

Maciel:

Mas como? Me diga! Bem que eu tentei mas, não deu. Já me ajoelhei, já fiz promessa, já rezei e nada. Aquela mulher é uma falsa moralista, rapaz. Dessas furiosas.

Beckmam:

Mas é tão simples! Já lhe disse. É só dividir os bens do casal, Maciel. A parte que ela sabe, é claro. Não há como fugir disso, nessas horas. Neste caso, pra agilizar, basta dobrar o valor pensão. Ou então…Abre o jogo, pronto! É melhor que arriscar tudo, te garanto. Ela é maluca mas não é dessas de rasgar dinheiro.

Maciel:

Não, não! Pelo amor de Deus! Nem pensar! Aquela honestilda de uma figa, é capaz de me encalacrar todo, me fuder de verde amarelo. Só por vingança.

Beckmam:

Pois então reze para ela não descobrir nada. Um escândalo destes, nem o presidente da República segura, rapaz. E aí…babáu! Adeus reeleição, ministério…E se ela empatar o desquite, heim? E se ela for te exigindo a mão, depois um pé, um braço, tudo…O que é que você vai fazer?

Maciel:

Pelo amor de Deus!…Olha aqui, Beckmam…e se eu fosse lá, em Cuba, heim? Talvez uma limpeza na situação, uma guaribada por lá, já sirva para salvar a pátria, não é mesmo? 

Beckmam:

Isso! Pois vá até lá, pronto! Já devia ter ido. Não sei quanto tempo vai dar pra segurar as pontas por aqui. Ai que porra! Essas tuas merdas sempre caem no meu colo. É impressionante!

Vista geral da sala com secretária abrindo a porta da saleta.

Beckmam fazendo sinal para ela ir embora.

Maciel nervoso, andando de um lado para o outro.

Advogado, também nervoso, remexendo ansiosamente num armário de arquivos.

Exterior, noite

Largo da Lapa.

Ponto de táxi.

Som de telefone tocando.

Close em telefone de rua num poste próximo ao ponto.

Barrigudo atendendo e chamando alguém com um gesto.

Barrigudo:

Ô ‘Tony Curtis’! É pra você. Pela voz é a tal dondoca. Corre, corre cavalinho! Anda!

Candinho se aproxima afoito, fala baixo ao telefone, com ar preocupado.

Entra no carro e sai apressado.

Barrigudo: ( para o colega)

Viu só? Esse ‘caboclo’ agora anda assim, uma pilha de nervos. Também…é isso que dá. Foi se meter sabe onde? Em charneca! Quizumba!…Tá de caso com uma branca, sabia? Uma madame aí, da alta sociedade.

Exterior, noite

Frente de mansão na zona sul

Panorâmica de uma rua de Copacabana sob chuva fina.

Fachada da mansão de Maciel com a porta aberta.

Copeira de uniforme, protegendo Clarinda com o guarda-chuva.

Empregado também de uniforme depositando malas na soleira da porta.

Clarinda abraçando a copeira que, enxuga uma lágrima.

Faróis de um carro apontando na esquina.

Letreiro de táxi aceso no teto do carro.

Rosto difuso de Candinho ao volante do táxi.

Clarinda corre até o táxi.

Exterior, noite

Ruas da zona sul 

Chuva fina prosseguindo.

Rua vista do interior do carro já em movimento.

Casal dentro do carro.

Retrovisor com rosto de Clarinda taciturno.

Candinho olhando a imagem dela no espelho.

Candinho:

Macambúzia porque?

Clarinda:

Não sei…Não gosto de hotel. Parece que estou fugindo, me escondendo. E se o desquite demorar?

Candinho:

Ué?! E esse troço ainda não saiu não?

Clarinda:

Ai, como você é ingênuo! Pensa que é assim tão fácil, é?

Candinho:

Sei lá…sair de casa sem mais nem menos…Não tem essa história de abandono de lar? Porque não fica lá quietinha, no teu canto, até tudo se acertar?

Clarinda:

Você não entende. Não dá mais para esperar. São tantos interesses… Pode ser até…perigoso, sabia?

Clarinda tira o broche da blusa e coloca no porta-luvas.

Candinho: (olhando o porta-luvas, impaciente:)

Olha, me faz um favor. Pára com essa mania de colocar esse broche aí, tá bom? Vai acabar esquecendo de novo e…Bom…Não quero confusão pro meu lado.

Clarinda:

Ih…tá certo, tá certo! Andei até pensando em te dar ele assim, de presente, sabia?

Candinho:

Não, de jeito nenhum. Tá me estranhando?.. Leva contigo, tá bom? Fica deixando aí. Um passageiro qualquer vai e pega. Sabe como é. Acaba o Candinho aqui,  pagando o pato.

Clarinda:

Imagina…Eu sei que você é de confiança.

Candinho:

Melhor deixar guardado contigo. Prefiro.

Clarinda: (ainda sem pegar o broche)

Ai meu Deus! Ficou ofendido, não é? Foi porque eu te chamei de ingênuo? Ou foi broche? Ah, vá!…Sei que você não é nenhum aproveitador, nenhum…gigolô. Desculpe. Foi só uma brincadeira. É que eu ando nervosa…

Candinho:

Não sei com que! Tem tudo que pediu a Deus e ainda reclama.

Clarinda acaricia o pescoço dele.

Clarinda:

Te magoei, não é? Ah…esquece, vai. Sabe o que eu queria de verdade?.. Largar tudo de mão. Sair por aí. Ser uma pessoa simples, otimista assim como você.

Candinho (sarcástico):

É mesmo? Essa é boa! Então vamos trocar, tá certo? Você fica com essa charanga velha, rodando na praça, e eu fico com teus problemas, a tua boa vida e tudo o mais. Tá bom assim? 

Clarinda:

Deus me livre! Você hoje está intratável, heim?

Carro entra na Avenida Atlântica, com  silhueta do hotel à frente.

Interior do carro com Clarinda e Candinho emburrados.

Close no porta luvas aberto, com o broche dentro .

Exterior, noite 

Frente do Hotel Copacabana Palace

Fachada de bar na rua Rodolfo Dantas, quase na esquina com Avenida Atlântica.

Balcão de vidro, imundo com moscas sobrevoando pastéis murchos.

Mão com um punho de paletó de linho segurando um copo de whisky.

Copo que um homem sorve num só gole, brusco.

Homem colocando um toco de charuto aceso na boca.

Contra plano com rosto do homem, olhando para  a  esquina, em meio a fumaça de uma baforada. Táxi de Candinho se aproximando, virando a esquina, do ponto de vista do homem.

Homem colocando uma moeda no balcão e se levantando, ajeitando um volume oculto por baixo do paletó e saindo do bar.

Costas do homem com o táxi ao fundo, estacionando na porta do Hotel .

Homem atravessa a esquina rumo ao táxi, apressado.

Candinho sai do táxi, abre o guarda-chuva, contorna o carro e abre a porta para Clarinda.

Rosto de Clarinda maquiado, encarando Candinho com um sorriso de intimidade.

Candinho virando o rosto constrangido.

Contraplano de Candinho olhando de novo para Clarinda, com o homem moreno sendo visto pela , de relance, se aproximando do carro.

Candinho se afasta da porta do carro aberta, abre o bagageiro e volta para ajudar Clarinda a se levantar.

Carregador de bagagem se aproxima do carro.

Velha de sombrinha, com duas crianças, cruza a avenida.

Dois carros passam.

Algumas poucas  pessoas andam pela calçada.

Pára-brisa, mostrando Clarinda dentro do carro distraída, procurando algo na bolsa.

Candinho abre o porta luvas do carro.

Candinho: (estendendo a mão com o broche):

Tá procurando o que?..Além de tudo é esquecida. Toma. 

Clarinda:(olhando, sem pegar o broche, voltando a se distrair com a bolsa)

Anh? Tá…obrigada. É outra coisa…(achando o que procurava)…Achei!.. Toma. É para você. 

Mão de Clarinda, estendida, com um pequeno cartão de visitas.

Mão de Candinho também estendida, com o broche.

Cano de um revólver.

Facho de luz de duas explosões saindo de um cano do revólver.

Som de um tiro. Outro tiro.

Velha grita histérica.

Candinho, cai na calçada, ao lado da porta do carro, ferido.

Clarinda cai sobre ele, de bruços.

Guarda-chuva de Candinho é arrastado na avenida por uma lufada de vento.

Um carro freia, abruptamente diante do guarda-chuva.

Homem dá um tiro de misericórdia na cabeça de Clarinda.

Candinho se desvencilha do corpo  e se levanta rápido.

Candinho corre para os lados da praia escura.

Homem atira de novo em Candinho mas erra.

Vista do alto da rua com homem atirando na direção de Candinho que foge.

Homem também foge, desaparecendo pela rua  Rodolfo Dantas.

Porta do hotel com pessoas da rua se aglomerando em torno da cena do crime.

Corpo ensangüentado de Clarinda. .

Rosto de Clarinda morta.

Mão de Clarinda crispada, segurando um cartão de visitas:

Varadero Turismo S/A

DR. ANÍBAL R. S. MACIEL

Senador da República

Diretor Presidente

Escritório Comercial

Rua Almirante Barroso 32/ sala 1258-Tel.23546

Capital  Federal- Rio de Janeiro–Brasil

Exterior, noite

Ruas de Copacabana 

Som forte de voz arquejante.

Pés com sapatos pretos sujos de lama, correndo.

Rápidas imagens de rua, vacilantes e tremidas, letreiros de bar, placas, vitrines, etc.

Detalhe de uma mão negra, apertando barriga ferida.

Sapato pisando poça de lama.

Exterior, noite

Rua de Havana, Cuba 

Som de orquestra tipo Xavier Cugat.

Panorâmica com trecho de uma rua.

Letreiros luminosos de cabarés e cassinos:

CASSINO SIBONEY

Night Club

Rua em frente ao cassino.

Fila de carros rabos de peixe, buzinando, disputando o estacionamento.

Esquinas da rua, vistas parcialmente.

Prostitutas e homens encostados nos postes. Bancas de revistas, parquímetros.

Homens e mulheres elegantes desembarcando na entrada do cassino.

Vendedores de rua, crianças e velhos, assediando as pessoas que desembarcam.

Som intermitente de sirene de polícia misturado à música

Rua com grupo de prostitutas correndo.

Prostituta assustada, espiando a rua por detrás de um beco.

Som de orquestra prosseguindo.

Exterior, dia                                                                     

Praia tipo Varadero ,Cuba

Céu com sol a pino.

Placa de madeira pintada e desbotada, com mar ao fundo:

Varadero Beach

La playa del soño

Horizonte e ondas do mar do Caribe. Muito sol.

Onda estoura, espuma escorrendo lentamente pela areia.

Maciel:(em off)

Alô!.. Beckmam?.. Ô meu velho. Tudo bem por aí? Alguma novidade?

Espuma da onda escorre na areia. Voz nervosa de Beckmam, responde:

Beckmam (também em off):

Ora, Maciel…Por aqui nada bem. Você já devia saber.

Chalé  perto da praia com porta entreaberta.

Maciel sentado ao telefone numa espreguiçadeira.

Mesa em frente com uma garrafa de rum e um copo com resto de bebida.

Pires com rodelas de limão murchas.

Cadeira com roupas íntimas de mulher.

Maciel:

O que eu sei é que estou retido aqui. Sabe que o Herrera, aquele meu gerente, sumiu, evaporou? Fui recebido pelo faxineiro. Dizem aqui que o homem foi até Miami, sei lá…

Beckmam:

Olha aqui…Acho bom não se demorar. Faça logo essa limpeza aí e volta, homem.

Maciel:

Ah…Tenha paciência, Beckmam. Encontrei um problemão aqui. Imagina… agência de turismo sem funcionários, sem gerente…Isso dá na vista, não dá?

Beckmam:

Maciel, Maciel! Acaba com esse negócio de prostituição, homem. Muda de ramo, pelo amor de Deus. Este negócio de turismo é um tipo de fachada muito do manjado, você já devia saber?

Maciel:

Manjado mas funciona. Negócio da China, meu nobre! O que você acha que os turistas querem por aqui? Museuzinho? Coqueirinho na praia? Ah…Eles querem é prazer, rapaz. Fuder, fuder. Se acabar de fuder, ora ora!

Beckmam:

Pois sim! Quem pode acabar se fudendo é você. Volta depressa para cá, meu amigo…Então? Já não se distraiu o bastante? Já não espaireceu?

Mulher de maiô se aproximando de Maciel, fazendo carinho enquanto recolhe o pires e o copo.

Maciel:

Ora…me poupe, Beckmam! Espere pelo menos eu acabar de…arranjar as coisas por aqui, não é mesmo?.. me fala das promissórias? Já resgatou?

Beckmam:

Não…ainda não. O dinheiro é seu mas, achei a operação meio arriscada. Melhor mesmo, seria…Deixa! Desarme este trato com esse Herrera. Trate de vender logo essa mansão daí que eu rasgo essas merdas de promissórias, pronto! Sabe como é, a coisa não está nada boa, já disse. Isso pode ficar fora de controle e…

Maciel:

Ai, ai, ai! É ela não é? A Clarinda. Pode dizer. Continua pressionando. Não quer acordo! Ah, que maldita!

Beckmam:

Não, não…é que…Ouça o que eu te digo, Maciel!

Maciel:

Ouvir o que, homem? Tá bom. Já sei! É a situação aqui em Cuba, não é? Comunistas, terroristas, mafiosos, generais ladrões. Um verdadeiro cú da mãe Joana. Só Deus sabe o que vem por aí. Pode muito bem virar para o lado dos comunas, já pensou? Metidos a moralistas como são…

Beckmam:

Pois então! Já não é hora de pular do barco? Me escuta. Ah…antes que eu me esqueça. Não deixe de transferir a conta do Fayr Bank para Miami, tá bom?

Maciel:

Tá, tá! Eu sei, ora bolas! Assim que o Herrera aparecer eu acerto…Mas, o que está havendo por aí, heim, Beckmam? Esse teu mau humor, esse fatalismo…

Beckmam:

Aqui eu te conto. O problema não está só aí, você sabe.

Maciel:

Já sei, já sei. Deixe estar. Você sabe que eu sei me safar, não é?

Beckmam:

Certo, certo! Tenho que desligar tá bom?

Maciel:

Olha aqui, Beckmam. É melhor você falar logo, viu? O que está me escondendo, heim?

Beckmam:

Eu?!.. Bem.. Quando é que você volta?.. Tá certo, tá certo! ..Eu digo…(faz longa pausa:)…É a Clarinda mesmo, tá bom?

Maciel:

Ah mas…eu sabia! Ai meu Cristo! O que foi desta vez, homem?

Beckmam:

Sinto muito amigo mas…Foi uma tragédia, Maciel! Uma tragédia!

Maciel:

Que tragédia, meu Deus? O que é isso, Beckmam?

Beckmam:

Ela morreu, Maciel! A Clarinda levou um tiro na Porta do Copacabana Palace!

Mulher volta com novas rodelas de limão e um copo renovado de rum.

Rosto de Maciel pálido, suando muito, indo até a porta, com falta de ar.

Horizonte com céu azul e mar ao fundo.

Exterior / Noite                                                                               

Sala de delegacia 

Céu cinzento. Fachada da delegacia, com chuva miúda prosseguindo.

Viaturas da Polícia estacionando.

Policiais carregam presos algemados para dentro..

Interior da delegacia com presos resistindo ao serem levados à força para a cela.

Carlito Pimenta entra na sala afobado, seguido por King Kong.

Se encaminham apressados para a mesa de  Sarione.

Sarione irritado, faz um sinal negativo com a mão, antes de Carlito chegar até ele.

King kong para à distância da mesa do delegado.

Sarione:

Pode tirar o cavalinho da chuva. Esquece! Mudei de idéia. Devia é te deixar chupando dedo. Se sair mais foto minha que seja, eu te mato, seu porra. Você e esse fotógrafo balofo. 

Capa de jornal numa mesa, com foto de Sarione ao lado do Chisnove,  na batida no Morro.

Carlito (apontando o jornal ):

Ah…Mas é isso? Ora, Sarione… O rapaz só queria um flagrante de impacto, ora. O grande delegado em ação, cumprindo seu dever…Você devia se orgulhar, sabia? Deu primeira página, viu? Não é uma  glória?

Sarione:

Ah, sei! Me desmoralizaram, não é mesmo? Sujaram meu nome. Não me apareça de novo com esse cara com o holofote (aponta King Kong)…pelo amor de Deus! (mudando o tom:) Agora vem cá…(procurando nos bolsos:) Não devia te mostrar não mas…dá uma olhada nisso…é só pra te deixar babando…(tirando um cartão do bolso:)…O que é que tu acha, heim?

Sarione mostra o verso do cartão de Maciel, rabiscado a caneta.

Verso do cartão com pequenas manchas de sangue :

Aníbal,

O portador é amigo de uma conhecida minha. É  motorista profissional dos bons, honesto e trabalhador.

Quem sabe não dava para você arranjar uma vaguinha  para ele aí no Senado?

Uma mão bem que podia lavar a outra não é,  meu bem?

Branquinha”

Carlito olha o cartão excitado.

Carlito:

Pera  aí, pera aí!.. Branquinha? Mas esse não é o apelido da dondoca que morreu no Copacabana Palace? Aquela das colunas sociais? Clarinda “Branquinha” Belfant Maciel, isso mesmo! Rapaz, que babado! E que motorista é esse? Só pode ser o que fugiu baleado! Que bomba, meu chapa! Que bomba!

Sarione dá de ombros, se esquivando.

King Kong observa a conversa, curioso:

Sarione (olhando para os lados, ansioso):

Bomba é o cacete! Tu cala essa boca, heim! Tá todo mundo querendo pegar esse caso. Você viu aí, né? O marido é o tal senador da república, o motorista…um baita de um crioulo. Vamos ver, vamos ver! Se você me ajudar eu te ajudo. Ai Cristo! É babado do bom, meu chapa! Babado forte, meu compadre!

Porta da delegacia com Carlito e Sarione se despedindo, com um aperto de mão efusivo

Interior da delegacia com delegado entrando.

Som de  gritos. Algazarra de policiais xingando os presos.

Exterior / Madrugada                                                                  

Frente do Dancing.

Carro do Barrigudo estacionado na frente deserta do Dancing.

Barrigudo bate palmas na porta, afobado.

Escadaria com o Leão de Chácara de ceroulas, descendo os degraus

Interior do carro com Candinho deitado no banco traseiro, pálido e suando.

Barrigudo (Para o Leão de Chácara, já no carro amparando Candinho):

Não fala nada, Não fala nada! Me ajuda logo a pegar ele aqui, anda.

Leão de Chácara ( hesitando ao notar Candinho):

Puta que me pariu! Ah, não…mas que bodega é essa? Isso aqui não é hospital não, caralho!

Barrigudo (enérgico):

Tu vê lá, Adamastor! Isso não é hora pra tu discutir. Ajuda aqui, anda!

Leão de Chácara (ajudando, olhando para os lados apavorado):

São só essas porras de amizade que eu arrumo…

Barrigudo :

É  tiro mas, foi só de raspão. Onde é que ele pode ficar? Mas será o Benedito? Anda, rapaz que estão atrás dele! Vam´bora!

Leão de Chácara:

Tá certo.  Vamos levar ele  lá  pro depósito mas…(para Candinho:) olha só…Tu vai ter que sumir daqui amanhã de noitinha. Senão sou eu quem chama a polícia. Sorte tua que amanhã é feriado, seu puto. Ai meu caralho! Eu não te avisei pra não se meter com granfina, homem?

Candinho, confirma com a cabeça.

Os dois amigos o amparam, seguindo em direção ao interior do Dancing. .

Exterior e interior / Dia

Aeroporto Santos Dumont

Corcovado sob céu chuvoso.

Asa de avião comercial

Fuselagem do avião com o nome da companhia:

Panair do Brasil

Moldura da janela do avião, por dentro enquadrando o rosto do senador de terno de linho branco, dormindo.

Senador por inteiro, suando em bicas e roncando

Jornal aberto na barriga do senador:

O  DIÁRIO  DE  NOTÍCIAS

CRIME NO  COPACABANA  PALACE!

Morta no táxi esposa de senador da república!

Aeromoça toca o ombro do senador que acorda sobressaltado, quase pulando da  cadeira.

Aeromoça:

Senador, Sr. Senador! Oh…Desculpe mas…é que já chegamos ao Rio!

Som de pessoas, balbúrdia.

Saguão do aeroporto lotado de repórteres e curiosos.

Pista de pouso através da vidraça mostrando avião estacionado.

Escada do avião com passageiros desembarcando. .

Rosto de Beckmam ansioso, olhando para os passageiros desembarcando.

Grupo de repórteres no saguão agitados, vistos através da vidraça observando o senador, que se aproxima sob um guarda-chuva carregado por uma aeromoça.

Senador apavorado, entrando no saguão e sendo imediatamente cercado pelos repórteres. Espoucar de flashs. Muita confusão.

Gritos dos repórteres.

Carlito Pimenta diante de Maciel, com o  caderninho  na mão, no meio do tumulto.

Carlito (gritando para Maciel):

Vossa excelência, vossa excelência! Por favor. Sr. conhecia o tal chofer? Era seu empregado?

Maciel irritado, encarando Carlito.

Fundo do saguão, com grupo de soldados da polícia da Aeronáutica correndo, se aproximando do tumulto.

Soldados afastando os jornalistas com empurrões e bordoadas, cercando o senador num cordão de isolamento.

Rosto assustado de Maciel, com Beckmam a seu lado, no meio dos soldados.

Flash fotográfico espoucando, velando  o quadro.

Exterior / Dia                                                                                           

Largo da Lapa 

Céu com uma réstia de sol entre nuvens de chuva.

Ponto de táxi no Largo da Lapa com grupo de motoristas conversando acaloradamente, em torno do barrigudo da piteira que  mostra para os outros um jornal aberto.

Hidrante com um sapato branco apoiado, meio sujo de lama.

Bainha de uma calça de linho suja, com ponto de táxi ao fundo. .

Homem moreno visto de costas, olhando atentamente o grupo de motoristas a sua frente. Motorista barrigudo, notando o homem, fechando o jornal e cochichando algo com os outros.  Motoristas se dispersando rumo a seus carros e se afastando do ponto.

Adega, vista da rua.

Balcão com fregueses sonolentos. .

Máquina de café fumegante.

Teto da adega rebaixado por uma tralha composta por queijos, mortadelas, garrafas, mantas de bacalhau.

Barris encostados num canto do piso, até  no sapato do homem moreno, amassando uma guimba de charuto na soleira da porta.

Subindo do sapato até a boca do homem num telefone público, fixado na parede interna, próxima à porta.

Homem, com o mesmo terno de linho sujo e amarrotado, rosto barbado e cara de quem não dormiu.

Homem falando ao telefone, com alguém de quem não se ouve a voz.

Homem moreno:

Sí! Soy yo, Herrera, caramba!.. Ainda estoy en Rio, en la calle, ora…El condutor escapò. Lamento…Ok., ok.!… Mas, mira…Terminarè el trabajo!…Estoy a cá por esto mismo, claro!.. Sè lo que tengo que hacer!.. Alô!.. Si… Pois mira, la mujer no tenía ninguma jóia…ningum…(ligação cai) Ay, caramba !

Adega com fregueses curiosos olhando para Herrera ainda de costas, desligando o telefone. Máquina de café com Herrera ao fundo, se retirando apressado.

Máquina de café em close, até  fechar no seu jato de vapor.

Exterior / Noite                                                                              

Morro da Mangueira

Som de voz arquejante.

Viela na entrada do morro, com luzes esparsas vazando de janelinhas entreabertas.

Bêbado cambaleando aparecendo no topo da viela, cantarolando alto.

Bêbado descendo e parando para urinar num poste de luz da esquina.

Poça de urina se formando.

Esguicho e poça de urina.

Rosto de Candinho abaixado ao lado do poste.

Bêbado parando de cantarolar, pressentindo algo.

Corpo de Candinho, semi encoberto na sombra, agachado, suando.

Bêbado olha em torno, com medo, abotoa a braguilha e some rápido na escuridão da esquina.

Candinho se levanta, com a mão apertando a barriga ferida, sobe a viela, pelos cantos dos barracos, até  também sumir lá em cima.

Exterior , interior / Noite                                                  

Mansão em Copacabana.

Corcovado coberto por uma nuvem pesada.

Calçadão de Copacabana e rua com poças d’água esparsas.

Pessoas passeando com guarda-chuvas pretos.

Vidraça da mansão de Maciel.

Grande sala apinhada de gente elegante, espalhada em grupos que conversam discretamente em torno de um esquife luxuoso.

Tampa do caixão aberta com corpo de Clarinda em seu interior, quase que totalmente coberto de flores.

Sala com muitas corbeiles e coroas de pêsames.

Rosto da  morta e Beckmam ao fundo, ao telefone.

Janeth, num canto da sala, olhando o corpo e enxugando uma lágrima.

Beckmam em primeiro plano, de costas e ainda ao telefone, tendo o olhar atraído por três homens que conversam no Jardim iluminado.

Ponto de vista do jardim com vidraça da mansão ao fundo.

Maciel, o delegado Sarione e Carlito Pimenta em contra plano, conversando:

Maciel:

Os senhores são…Desculpe mas, já fomos apresentados?

Sarione:

O distinto Senador nos desculpe a má hora mas…(estende a mão)…Delegado Mário Sarione, da décima sétima DP, ao seu inteiro dispor. Esse aqui é o…

Maciel :(sem responder ao cumprimento)

Sim, claro! Bem, só não sei em que posso servi-los. Querem ajudar na investigação? Olhem só…O Ministério da Justiça já começou a trabalhar no caso e penso que…

Sarione (remexendo os bolsos):

Vossa Excelência me desculpe mas…O fato é que existe um inquérito na minha jurisdição. O Sr. sabe como é. Fomos nós que lavramos a ocorrência. Chegamos lá primeiro, na noite funesta, sabe? (mostrando o cartão:)…Este cartão é seu, não?

Maciel (sem prestar atenção):

Sei mas, e daí? Olha aqui, Seu delegado. Não sei se o Sr. tem competência para…

Carlito:

Claro, claro! Desculpe-me mais uma vez a insistência Excelência mas, é que…Talvez fosse o caso de conversarmos. Temos evidências de que…

Maciel:(tenta se livrar dos dois homens para voltar ao velório)

Acho que os Srs. não estão entendendo. O caso está entregue às instancias federais. Não me parece que as ilações dos senhores possam ser de muita valia. Ora, por favor.

Maciel toma o cartão da mão de Sarione, irritado.

Carlito:(interferindo de novo)

Se o Senador me permite uma modesta opinião…Vossa excelência já deve ter tido conhecimento que a polícia tem provas de que…

Maciel:(Se afastando)

Mas o que é isso? Alguma brincadeira? (se referindo a Carlito, desconfiado) Quem é este cidadão? É seu ajudante?

Maciel rasga o cartão com raiva.

Joga os pedaços na grama e olha para  o interior da mansão preocupado.

Sarione:

Ah, sim! O senhor não esperou eu dizer. Este é o Carlito Pimenta, repórter d´O Diário de Notícias.

Senador:(irritadíssimo)

Repórter?! Imprensa  marrom, não é mesmo? (olhando para o interior da mansão. Fazendo um gesto de chamar  alguém)…Ah mas, que pachorra! O que é isto? Algum tipo de pressão? Espero que os senhores saibam a gravidade disso tudo, não é mesmo? Das conseqüências, quero dizer. Se uma linha que seja for publicada…

Seguranças se aproximam, um deles traz um cão de guarda.

Senador (para os seguranças):

..Pronto! Esses dois senhores estão de saída.

Carlito (também para os seguranças):

Calma, pessoal! (Para o Senador:)…Por favor. Estamos aqui a serviço, quer dizer…para…colaborar. No mais puro interesse público! 

Maciel:(se retirando)

Ora esta é muito boa! Uma indiscrição, isto sim! Abuso! Invasão de privacidade. Se fosse em outra ocasião até entenderia mas… (ameaçando:)…Décima sétima DP, não é mesmo? Tomarei minhas providências. Podem me aguardar.

Jardim com seguranças puxando Carlito pelo paletó.

Antes de também ser pego, Sarione se abaixa e recolhe os pedaços do cartão da grama. Maciel entra apressado na mansão.

Portão da mansão com Sarione e Carlito sendo tocados para a rua pelos seguranças.

Cão latindo para eles, ameaçador.

Exterior / Noite                                                                                

Ruas da zona Sul

Carro circulando pela avenida Atlântica. .

Sarione e Carlito dentro do carro, conversando.

Sarione (irritadíssimo):

Canalha! Presunçoso! O puto acha que tá acima da lei dos homens. É caso de chifre.  Boto a mão no fogo se não for. Carlito, Carlito. Você que é da imprensa, me diz. Isso balança ou não balança os alicerces da República?

Carlito:

Hosana! Hosana! Desta vez eu lavo mesmo a égua. Já pensou, Delegado? (escrevendo no ar): “Crime passional abala governo! Senador corno manda matar a mulher e crioulo ricardão!” Minha nossa senhora! O caso é um Otelo ás avessas! Isso vai dar prêmio Esso de Jornalismo, rapaz!

Sarione:

Prêmio Esso é o cacete! Nem pense nisso! Nos mandam pra Fernando de Noronha…antes de agente conseguir soletrar um dois três.

Carlito:

Ué! E cadê o destemido delegado Mário Sarione? Onde é que foi parar?

Sarione:

Destemido eu não sei. O que eu não sou mesmo é maluco. Vamos trabalhar em silêncio, entendeu?  Na maciota. Nesse Brasil, não nasceu ainda um político que não tenha rabo preso.

Rosto pensativo do delegado.

Fusão com planos em flash back do táxi de Candinho estacionando na praia.

Motocicleta com guarda civil avançando na avenida.

Policial reduzindo a velocidade da moto e olhando curioso para a praia.

Clarinda e Candinho se deitando e sumindo na escuridão.

Copeira de uniforme sendo interrogada na porta da mansão por Sarione.

Revólver disparando na cabeça de Clarinda.

Rosto de Clarinda em close, agonizando.

Cartão de visitas, virado no verso.

Imagem do cartão se diluindo nos olhos de Sarione .

Carro cruza o bairro da Glória e entra na Lapa, na  altura do Largo.

Sarione e Carlito, dentro do carro, em primeiro plano, olham para o ponto de táxi deserto, passando ao fundo.

Interior / Noite                                                                           

Redação de Jornal 

Gráfica de jornal com pessoas circulando afobadamente.

Som irritante de telefones tocando insistentemente.

Folha de prova de capa do jornal numa mesa:

O DIÁRIO  DE  NOTÍCIAS

CRIME DO COPACABANA  PALACE!

BÁRBARO ASSASSINO CAÇADO PELA POLÍCIA !

Carlito Pimenta corre até a mesa cheia de telefones com fios emaranhados, laudas de papel e a folha de prova da capa do jornal do dia.

Atende ao telefone irritado, aos berros mas logo, surpreso com o que ouve, tapando um ouvido para ouvir melhor.

Derruba uma garrafa térmica sobre a mesa.

Levanta a prova de capa e lê afoito.

Close na prova de capa borrada de café. .

Carlito olha em torno, procurando alguém.

Tira de negativo fotográfico, contra a luz.

Rosto de King Kong, no canto da sala, olhando a tira.

Carlito:

King Kong! Vem cá. Corre aqui, camarada!

King Kong se aproxima da mesa de Carlito, ressabiado.

Carlito:

Vou te dar uma colher de chá, meu chapa! Senta aqui um instante e presta atenção. Você sabe que aquele caso do sambista morto, né? Aquele tal compositor, sei lá! Diz que o dito cujo morreu mesmo foi de fraqueza, sabe? Hemoptise, escarrando sangue, essas coisas. De modos que…

King Kong:(Com enfado, fazendo menção de levantar)

Tá certo, Carlito…Não precisa nem continuar. Estou manjando.

Carlito:

Que manjando o que rapaz! É pra eu cobrir uma emergência aí, tá bom? Um caso mais rumoroso. Não é coisa pra foca…

King Kong:

Então. Manjei ou não manjei? Vão me afastar do caso da madame, não é isso? Só pode ser coisa daquele delegado. Meganha sem mãe! Puta merda! Tu é mesmo um capacho, sabia?

Carlito:

Deixa eu falar, pôxa! Ponderei e o chefe concordou que a história do sambista dá boa reportagem, sabe como é…tem conteúdo humano, ajuda a vender jornal…Tu me disse que tinha o maior interesse pelo caso. Quer ser repórter, não é mesmo? Pois então? É ou não é uma boa chance pra começar com o pé direito?

King Kong (ferino)

Que merda de chance é essa? Tu tá é me pondo na geladeira, tá bom? Enquanto isso tu vai tocando esse casinho da dondoca, não é isso?

Carlito (irritado)

Tu é muito do revoltado heim, camarada! Mal começou e já tá aí, cantando marra. A foto do delegado te ferrou, meu chapa! Deixou o homem puto nas calças. Tô te dando essa oportunidade que é pro chefe não te encostar numa pior…Instituto Médico Legal, Souza Aguiar…Raciocina, rapaz! Pega esta pasta e analisa o caso. O que é que tu prefere? Que merda de mal agradecido!

Mão de King Kong retira o broche falso do bolso e o acaricia pensativo.

King se levanta, com uma pasta na mão e vai saindo contrariado.

Carlito (para King Kong já de costas, saindo):

Isso! Assim que se faz! Entenda isso como uma colher de chá, rapaz! Uma oportunidade de ouro pra você subir na carreira

Interior / Dia                                                                                        

Adega na Lapa

Fachada da adega da Lapa sob chuva forte.

Herrera com o chapéu murcho, molhado de chuva,  mordendo o charuto, arrancando a ponta e tentando acendê-lo.

Herrera (ao telefone):

…Nuevos planos?…Madrecita!..Alô…Alô! Mira. Me escuchas ahora?..necessito de la plata y de el ticket. Sí! El avión!.. La plata! Imediatamente!.. No, Cuba no! Embarco para Miami!..el condutor?.. No tengo ainda su paradero mas…Si, si! Ainda estoy a cá, en Lapa, caramba! Ok, ok! Como?…(ligação cai de novo)…Mierda! 

Interior / Dia                                                                                            

Beco da Lapa 

Beco da Lapa sobre chuva forte.

Vidraça com chuva escorre, vista de dentro do apartamento de King Kong.

Broche sobre a escrivaninha.

King Kong pega o broche e o alisa, pensativo.

Som de gritaria vinda do beco.

Vistas através da vidraça, duas prostitutas lá em baixo no beco, engalfinhadas numa briga violenta, no meio de poças d’água.

Flash back rápido do morto do beco sendo socorrido e olhando para King Kong na cena da ambulância.

Som de sirene de ambulância misturado com a gritaria das mulheres brigando.

Flash back segue com os rostos da assistência da briga no beco falando sem som.

Mulher mulata de costas, se fundindo ao retrato retocado de Geraldo Pereira de terno, sorridente, na capa de um jornal que está sobre a escrivaninha, ao lado da máquina fotográfica.

A LUTA DEMOCRÁTICA

MANGUEIRA  DE  LUTO!

Hemorragia mata compositor Geraldo Pereira

King Kong veste a roupa, pega o chapéu, coloca o broche falso no bolso e saindo apresado.

Exterior / Dia                                                                              

Morro da Mangueira

Som de algazarra de meninos, latidos de cachorros e de um auto falante tocando música de Geraldo Pereira.

Imagem de auto falante amassado, pendurado no alto de um poste, abrindo para  do sopé do morro sob a chuva fina que segue.

Muita lama no chão.

Viela vista através do gradil da birosca com King Kong se aproximando.

Meninos enlameados jogando futebol no platô de terra batida ao fundo. .

Pés dos meninos rápidos, chutando uma bola de meia surrada.

Madame Satã, sentado numa cadeira na varandinha da birosca, olhando o jogo com King Kong se aproximando

Satã desaparece dentro da barraca.

Silêncio súbito

King Kong se dirige ao campinho e interrompe o jogo para perguntar algo.

Meninos fazem gestos evasivos, de que não sabem de nada, se afastam e formam um círculo em torno do que estava de goleiro, olhando para King Kong de soslaio.

King Kong espera intrigado.

Menino-goleiro corre para dentro da birosca.

Imagem de barracos de zinco sob céu chuvoso.

Menino goleiro volta:

Menino goleiro (para King Kong ):

Moço! Subir lá no alto eu não aconselho não. Tem lama, sabe. Vai sujar seu sapato. É melhor o senhor esperar um pouco…Toma um guaraná aí, que eu vou lá em cima ver se ele vai descer. É um instantinho só.

King Kong vai até a birosca e pede cachaça ao  birosqueiro.

Viela deserta vista no sentido da subida do morro.

Satã desce a viela sem camisa, arisco e com discretos trejeitos femininos.

Usa um chapéu panamá e uma toalha pequena em volta do pescoço, vindo em direção à birosca, seguido pelo menino goleiro e vários e agitados meninos.

King Kong desce a varandinha e se aproxima, tirando o broche do bolso e entregando a Satã que observa a jóia, curioso.

King Kong:

Achei na Lapa…No dia da briga, sabe?

Satã: (relutante, devolvendo o broche)

Bom…já vi e daí? É porcaria. Ouro de tolo. E eu não sei? O que mais se acha na Lapa é bijuteria barata, ora.

King Kong:

Bem…é que eu pensei que…talvez o senhor soubesse de quem era.

Satã :

Eu?!.. Ih, meu amor!..Tá pensando que é meu, não é? Vê lá se eu uso esses trecos. Isso é coisa de puta fina, sei lá. É cópia boa, isso eu posso garantir pra você.

King Kong:(desconcertado)

Ah!.. O senhor me desculpe…

Satã (desconfiado):

Olha só, meu nego!.. Porque não fala logo o que tá querendo. É da polícia não é mesmo?  Essa desculpa de broche, ih…já viu que não colou, né? Vai! Diz logo, meu bem! Qual é o babado?

King Kong:

Bom…tá certo. Quer dizer…Não sou da polícia não. Mas o senhor tem toda a razão! Sabe o que é ? É sobre aquele cidadão da briga…O outro, sabe? O que  morreu.

Satã:(impaciente)

Mas será o benedito! (com as mãos na cintura, agitado) Eu já não falei, homem de Deus? Era o Geraldo Pereira. Grande compositor, o maior da Mangueira, o maior do Brasil. Um homão deste tamanho!

Flash back: Durante a briga no bar do beco, rosto de Satã, transtornado.

Imagem difusa de Geraldo Pereira próximo ao balcão, enfurecido, gesticulando, empurrando Satã que quase caindo sobre alguns barris atrás de si.

Mulher mulata de costas, segurando Geraldo, tentando controlá-lo.

Geraldo pegando um copo de chope e despejando no rosto de Satã.

Pé de Satã atingindo a barriga de Geraldo que cai sobre a mulher que o ampara sem que se veja o seu rosto.

Geraldo se aprumando e  correndo para fora do bar, chamando Satã para a briga.

Vozes de Satã e King Kong, seguindo em off, durante o insert.

Satã:

Morreu. O problema é que bofe valente morre cedo, viu? Eu fico mortificado também mas…ia fazer o que? Deixar ele bater na minha cara? Me achincalhar na frente da Lapa inteira? Ah, não! Foi briga limpa, na mão!

King Kong:

Eu sei, eu sei mas…e o broche? Não seria dele, quer dizer…Todo mundo disse que tinha uma dona lá, junto com ele, na hora da confusão, pode ser que o broche caiu dela e…Essa mulher pode ser a chave de tudo, né? Pode contar um lado da história que…

Satã, enxuga o suor da testa e abre um sorriso surpreso, enquanto vão se desvanecendo as imagens do flash back.

Satã: (eufórico)

Ah meu Deus! Logo vi! É reportagem que você quer, não é? Por que não falou logo, meu amor?

King Kong:

É isso! Eu tava sem jeito de dizer.

Satã:

Relaxa, meu lindo. Posso até ajudar mas…sabe como é…Tem que haver um acordo…Aí, quem sabe? A gente pode até trocar umas figurinhas. Qual é mesmo o jornal, heim?

King Kong:

O Diário de Notícias. Posso arranjar um cachê, quer dizer…uma ajuda de custo. Não posso garantir muito mas…

Satã: (rindo, animado)

Te aveche não, meu bem! Cachê, michê é tudo igual mesmo…Se for razoável…

King Kong :

Quer dizer que o senhor topa me ajudar na história?

Satã:

Bom…Se temos um acerto…Vou ver se descubro alguma coisa. A história é essa que eu falei mas, se o senhor quiser florear…pra mim tá tudo bem. Eu ajudo sim. Faz o seguinte…Deixa a bijuteria comigo, tá bom?

King Kong devolve o broche para Satã e depois aperta sua mão.

Levanta a gola do paletó e desce para a rua principal para ir embora.

Satã também vai, subindo o morro, sempre cercado pelos meninos fazendo algazarra.

Interior / Dia                                                          

Escritório de agência de turismo

Fachada de um prédio do centro do Rio.

Pingos de chuva forte caindo.

Longo corredor de um dos andares do prédio.

Beckmam andando apressado pelo corredor, de capa e guarda-chuva, em direção a uma porta ao fundo.

Tabuleta na porta envidraçada:

VARADERO TURISMO S/A

Viagens e excursões para Cuba

e demais ilhas do Caribe

Escritório amplo e moderno, com a ante-sala decorada com móveis luxuosos.

Parede  lateral da ante-sala inteiramente coberta com posters de praias do Caribe.

Pilha de revistas numa mesinha ao lado de um sofá.

Revista com uma mulher seminua na capa.

Som da campainha.

Pernas da recepcionista.

Bunda de recepcionista rebolando, enquanto caminha até a porta.

Silhueta de Beckmam aparecendo ao fundo, através da porta de vidro canelado.

Recepcionista (abrindo a porta, sorrindo):

Oh, Dr. Beckmam! Entre, entre! O Sr. já está sendo aguardado.

Beckmam retira a capa molhada e deixa o guarda-chuva na soleira da  porta.

Porta da sala de Maciel aberta pela secretária.

Plano seqüência com longo  pelo recinto, segue o olhar do advogado procurando o Senador que não está na sala: Advogado se sentando num sofá, nervoso. Cofre de parede, Quadro de avisos ao lado do cofre. Olhar de Beckmam circulando pela sala, até se fixar um pouco num grande poster de Miami Beach. Vidraça da janela com vista parcial da  baía de Guanabara se descortinando sob o céu chuvoso. Interior da  sala, com Maciel surgindo do banheiro, abotoando a braguilha.

Maciel:(estendendo a mão)

Oh sim, meu grande amigo! Já não era sem tempo. Desculpe a demora!

Beckmam se levantando.

Caixa de charutos cubanos.

Maciel  percebendo o olhar de Beckmam sobre a caixa:

Maciel:

Aceita ?  É um “coxa de mulata” saboroso e…legítimo!

Beckmam:(mal humorado):

Ah, Maciel…Faça-me o favor. Você sabe que não fumo. Quantas vezes preciso dizer?

Maciel:(acendendo um charuto)

Hum…Você não perde mesmo este jeitão de franciscano, não é mesmo? Quem te conhecer que te compre! Não vai se sentar? Relaxe, meu caro e vamos comemorar! 

Beckmam (sentando, irritado ainda):

Comemorar? O que? Ficou maluco?

Maciel:

A minha inocência! É sério! Estou limpo, Beckmam! Limpinho da silva! Recebi uma ligação ainda agorinha. A polícia Federal já tem a história toda esclarecida. Foi latrocínio mesmo, meu caro. Algum maluco tentou assaltar a coitadinha e depois fugiu.

Beckmam :

Ah…Você está mesmo doente da cabeça!

Maciel:

Sabe aquele broche de ouro? Aquele, presente de casamento, lembra? Pois sumiu! Ela andava com ele, ostentando pela rua. Um verdadeiro chamariz de ladrão. Foi uma fatalidade, pronto!

Na parede grande retrato do senador, abraçado ao presidente Getúlio Vargas.

Numa mesa pilhas de revistas com mulheres nuas na capa.

Vozes do advogado  e  do senador em off

Beckmam:

Fico mesmo abestalhado!.. Como é que um senador, um sujeito assim tão astuto, uma raposa velha como você, pode se iludir tão facilmente?

Maciel:

Ai meu Cristo! Não estou entendendo. O que foi agora, Beckmam? Já não fiz de tudo? Olha só como estou conformado. Lancei fora um montão de anéis…quase lanço os dedos também e… fica você aí, feito um corvo agourento, a me atazanar?

Beckmam:

Atazanando? Eu? Acorda, homem! Saiba que a situação é grave. Muito grave mesmo!

Secretária abre discretamente a porta.

Maciel e Beckmam, agitados.

Maciel:(se levantando, assustado)

Então fala logo! O que foi que aconteceu?

Beckmam:(mordaz)

O motorista, Maciel! O chofer! Esqueceu dele? Pois bem. Sabe onde o tal crioulo fazia ponto?

Maciel:

Eu sei. Na Lapa. E daí? Um desqualificado. Esse crioulo sumiu, evaporou, não foi? Até eu, se me aparecesse um maluco atirando assim, na minha cara, sumia. Me escafedia, ora! Além do mais, se foi um assalto, ora…o crioulo bem que devia estar mancomunado, assim, como cúmplice, ora. Já sei. Você foi lá naquele delegado, chafurdar naquela lama, não foi?  Ah, meu Deus! 

Beckmam:

Vê se pode? Você é quem deveria ter ido…Devia ter pelo menos prestado mais atenção no caso. Sabe-se lá o quanto esse delegado já descobriu. Ah…Essa tua presunção…

Maciel:

Imagina! E quem é o advogado aqui afinal? Eu? Fuçar aquela mixórdia. Na minha posição?

Beckmam:

Posição crítica, meu amigo! Pois fique sabendo que esse delegado, esse tal de Sarione, está lá, cheio de pistas. Ele acha que o tal crioulo não sumiu coisa nenhuma. Diz que ele fugiu, isso sim.

Maciel:

Então! Já não disse?

Beckmam:

Olha…Tinha um salto de sapato da Clarinda, no porta luvas do táxi dele e…não era o que ela calçava na hora da morte.

Maciel:

Lógico que não era dela! Era de alguma vadia da Lapa, ora! O que tenho eu com isso? O que importa é que o caso de Cuba…

Beckmam:

Que Cuba, homem? A esta altura, quem está ligando pra isso? Oh, diacho! Presta atenção, Maciel! A situação é grave, periclitante! Ah…Não adianta. Você parece uma mula!

Maciel:

Ei! O que é isso, Beckmam? Você tá muito nervosinho, pro meu gosto. Modere-se, não é mesmo?

Beckmam(tentando se controlar:)

O salto era da Clarinda mesmo, pronto! Estava lá, no porta luvas do táxi…há dias! Já averiguaram. E o bilhetinho? Você leu o bilhetinho por acaso?

Maciel:

Que história é essa de bilhetinho?

Beckmam:

Atrás do seu cartão. O que estava na mão dela.

Maciel:

Ah, dane-se! Rasguei em pedacinhos. Nem olhei atrás…Achei aquilo o cúmulo do abuso!

Beckmam:

Pois devia ter lido! Ela estava cavando emprego pro tal crioulo, homem e o pedido, era para você mesmo! Eu vi a merda do cartão, coladinho de novo. Qualquer um que lesse aquilo, ia achar que a Clarinda tinha vamos dizer assim…um interesse muito particular no crioulo, dar uma ajudazinha, um empurrãozinho pra ele , sabe como é?

Maciel:

Baboseira. Ela sempre foi assim, meio caridosa, coitada. Você sabe.

Beckmam:

Caridosa? Me perdoe amigo mas….Demais da conta, não é?

Rosto de  Maciel empalidecendo.

Visão vertiginosa pela sala misturando ao rosto dele, com imagens misturadas e borradas das costas nuas e suadas de um homem negro, movendo-se deitado.

Maciel:

Olha aqui…você me respeite, heim!.. O que está insinuando? Fala!

Beckmam se levanta, descontrolado.

Beckmam:

Não sou quem está insinuando. É a polícia, meu caro! Ora, meu amigo…para quem sabe ler…um pingo é letra!

Imagem trêmula de Beckmam de pé, do Ponto de Vista de Maciel, também se levantando.

Maciel:

Pera lá! Vamos com calma! Isso não ! Isso não!

Insert:

Quarto de motel

Cama com lençóis de seda amarfanhados.

Corpo do homem negro cobrindo o corpo da mulher branca. .

Voz de Beckmam em off.

Beckmam:

É isso mesmo! Um revertério! Ela te jogou lama na cara, amigo! Agora, é só a imprensa ir se fartando e pronto! Veja bem. Sou apenas teu advogado. Não sou anjo da guarda e nem tampouco Jesus Cristo, para ficar fazendo milagre toda hora não, viu?

Imagem distorcida do rosto de Clarinda, aparecendo sob a cabeça do homem negro, num relance.

Maciel desfalecendo, imagem dele fundida a de Clarinda, com o negro na cama.

Som longo do gemido de Clarinda.

Voz de Beckmam em off, gritando para a secretária

Beckmam:

Moça, corre aqui! Acode  o senador!

Secretária (entrando, para Beckmam):

Ai meu Deus do céu! O senhor sabe se ele é cardíaco, essas coisas?

Rosto de  Maciel, suado, ofegante. .

Retrato do senador abraçado a Getúlio Vargas.

Imagem fundida do homem negro de costas, dentro de um carro, agarrando Clarinda.

Mão do homem debaixo da saia dela.

Rosto de Getúlio Vargas no retrato, fumando charuto e sorrindo.

Imagem do revólver que matou Clarinda, atirando.

Som do  tiro.

Beckmam e a secretária fora de foco, abaixados olhando para Maciel caído no sofá, olhos arregalados, passando mal. Secretária saindo da sala correndo. .

Exterior / Noite

Morro da Mangueira 

Trecho de viela no Morro.

Chuva forte.

Fachada de barraco forrado com tábuas de caixotes.

Mão negra batendo na porta insistentemente.

Latidos histéricos de cachorros.

Luz de lamparina vazando pelas frestas da janela do barraco.

Janelinha se entreabrindo e se fechando logo em seguida.

Luz da lamparina vazando pelas frestas da porta se abrindo. .

Homem encharcado, iluminado pela lamparina caindo de bruços no piso.

Rosto molhado de Candinho caído, olhando a mulher da lamparina.

Mulher gritando apavorada.

Mulher:

Ai minha Nossa Senhora da Penha! Candinho de Deus! O que fizeram contigo, meu nego? Ai meu Cristo!

Exterior/ Dia

Delegacia

Botequim em frente á delegacia.

Chuva forte prossegue.

Vistos de longe, Sarione e Carlito conversam e tomam cafezinhos.

Fachada da delegacia aparecendo ao fundo

Beckmam de guarda-chuva aparece na escadaria, ansioso, entra na delegacia e sai rapidamente, rumo ao botequim.

Balcão do botequim com Sarione pagando os cafezinhos ao ver Beckmam à sua frente.

Sarione:

Ah, sim! Dr. Beckmam, não é mesmo? Mas que surpresa!

Beckmam:(incomodado com Carlito)

Sim, sou eu mesmo. O senhor é o Delegado…

Sarione:

Mário Sarione, ao seu inteiro dispor. Foi  o senador quem o mandou?

Carlito estica a mão que  Beckmam ignora.

Beckmam:

O Sr. não acha que seria melhor em particular?

Sarione:

Que é isso, Dr.?! Não, não se preocupe. O Carlito é  gente nossa. Afinal de contas, ele agora é, digamos assim… um mal necessário. Sem o apoio da imprensa nós…sabe como é? Estaríamos completamente lascados, não é mesmo?

Beckmam olha para o alto, com ar contrariado.

Carlito oferece de novo a mão que Beckmam agora aceita.

Carlito:

Sinto muito mas…Este caso é mesmo um escândalo. Nas mãos dessa canalhada que há por aí…Seria um prato feito, doutor! Um verdadeiro maná!

Sons de  tráfego

Rua, com Sarione e Carlito se acomodando sob o guarda chuva de Beckmam, se dirigindo para a delegacia meio encobertos por carros e pessoas passando. .

Carlito, ao lado dos dois, pegando o caderninho de notas no bolso do paletó.

Sarione:

Bom…com que então, temos um acordo, certo?.. Que bom que o Doutor e o Senador refletiram sobre a nossa proposta.

Beckmam:

Deixemos de salamaleques. Na verdade…cá entre nós…Estou aqui por minha própria conta…Dever de ofício, certo? Bem, ficamos assim. Sem mais investigações ou desdobramentos, não é isso? Os Srs. abafam o caso, destroem as provas que cuidamos de recompensá-los, está bem assim?

Sarione:

Conforme já lhe disse, só temos esse jeito para livrar o senador da enrascada. Vai ser complicado mas…daremos o nosso jeito.

Beckmam:

Complicado é uma pinóia! Abafem o escândalo e pronto!..(para Carlito:)… Futricas e manchetes capciosas sobre adultério, crime passional, essas coisas, já sabem…Conto tudo para o senador. Ele vai agir com mão de ferro.

Carlito:

Bem, não é assim, tão fácil. Existem as testemunhas e, afinal…Temos que considerar que o assassino, isto é…o atirador está por aí à solta…Eu acho que…

Beckmam:

Os Srs. não tem que achar nada. Bem…é pegar ou largar. Não se esqueçam (ameaçador:)…o  caso continua na alçada do Ministério da Justiça. Dos detalhes conversamos depois. Fiquemos em contato.

Sarione e Carlito se entreolham, concordando.

Exterior, interior /  Dia                                                     

Hotel Copacabana Palace

Vista da praia de Copacabana em amanhecer nublado.

Portaria do hotel Copacabana Palace.

Porteiro nervoso, sendo admoestado asperamente por um casal de hóspedes elegantes.

Som de telefone  tocando

Porteiro faz sinal para que os hóspedes aguardem

Porteiro:

Com licença…Um instantinho…(olhando para a porta de entrada, gritando)..Zé Filinto! Ô Zé Filinto! É pra você! Olha só…eu já disse pra não dar o número daqui!

Carregador de malas, o mesmo que viu o crime, entra no saguão surpreso.

Porteiro faz cara feia, recriminando.

Hóspedes se impacientam.

Carregador atende ao telefone assustado.

Carregador pálido, derruba o fone

Fone girando pendurado pelo fio.

Hóspedes e porteiro olham intrigados:

Porteiro (acudindo o carregador):

Eu, heim!.. Felinto! O que foi? Morreu alguém da família?

Porteiro recolhe o fone dependurado tentando ouvir quem está na linha. Intrigado, coloca o fone de novo no gancho.

Interior / Noite                                                                                   

Salão de sinuca

Janela vista de dentro de uma sinuca da Lapa.

Chuva escorrendo pela vidraça.

Ponto de táxi com carros saindo.

Dois carros parados no ponto.

Dois motoristas, sendo um deles o barrigudo da piteira se encaminhando descontraídos em direção ao prédio da sinuca.

Telhados da Lapa, beco com letreiro destacado:

Siri da Lapa

Snooker Bar

Mesa de bilhar com mão e taco acertando a bola na caçapa.

Grupo de homens rindo em torno da mesa na sinuca.

Barrigudo da piteira sorrindo discretamente de sua própria tacada e tomando um gole de cerveja

Pano verde da mesa  com parte do corpo do oponente do barrigudo.

Carlito Pimenta, com o rosto encoberto pela aba do chapéu.

Levanta o rosto.

Se afasta, para  trocar de  taco na estante de uma parede  no canto da sala.

Chisnove, encostado próximo a estante de tacos, caminha para onde está Carlito. .

Close em Jukebox

Som da Jukebox .

Sala lotada. Muita fumaça. Mistura de homens mal vestidos com cidadãos engravatados. Confusão em torno de outra mesa.

Dois homens discutindo acaloradamente, com todos à sua volta também discutindo.

Barrigudo, no meio do grupo, agitando a piteira no ar, inflamado.

Carlito cochicha no ouvido do Chisnove.

Carlito:

O que é que tu acha? É ele mesmo ?

Chisnove:(confirmando com os olhos)

É sim! O da piteira. Tem táxi aqui no Largo. É amigo do tal chofer.

Interior / Noite                                                  

Oficina de joalheiro, ladeira da Lapa

Ladeira tortuosa na Lapa.

Porta de sobrado encimada por letreiro imundo:

Joaquim Brodowsky

Ourives e protético

Sala 101/a

Luz de luminária pendurada sobre uma mesa de ourives.

Homem velho, curvado sobre a mesa olhando o broche dourado encontrado por  King Kong. .

Broche na mão do ourives.

Satã e  King Kong ao lado dele, ansiosos.

Satã:

…Daí eu disse a ele que tu é o maior especialista nesses trecos de jóia e tal e coisa. 

Joaquim Polaco (Para Satã, observando King Kong:)

Vê lá, heim…Tô sabendo que tu anda muito famoso. Não tem polícia por trás disso não?

Satã:

Que é isso, Polaco? Eu tô limpo, rapaz. Além do mais…É coisa sem valor…(mostrando o broche)…Fala aí, Seu Juvenal !

King Kong:

Bem…é que eu sou repórter e, essa peça…bem eu só queria saber a procedência.

Joaquim Polaco:

Deixa ver. Hum…Ora, ora! (mudando de tom, ficando interessado:)…Conheço isso sim! Já vi muitos cópias parecidos. Verdadeira mesmo, só uma vez, com uma marinheiro americano. Muito interessante! A marujo trouxe de Cuba ou do Haiti, uma coisa assim. Onde é que conseguiram este?

King Kong:

Achei na rua. Aqui mesmo na Lapa. Bem, se o Sr. pudesse ajudar…Queria mesmo é localizar a dona da peça. É um tipo de bijuteria tão esquisito que…

Joaquim Polaco:

É mas, por aqueles bandas do Caribe dizem que é moda, sei lá. Aliás…assim de bijuteria, no Lapa é até bem comum também. Só sei dizer uma coisa. É jóia de prostituta, coisa de prender homem…essas coisas de Macumba, de Vudú, sei lá…Eu tenho muita interesse nela. Se o Sr. quiser se desfazer é só…

Rosto do ourives, espera resposta ansioso.

King Kong e Satã se entreolham em silêncio.

Joaquim Polaco:

Olha, rapaz…O satã já disse. Isso é uma cópia. Não tem valor algum. Dizem até que dá azar. Eu, se  fosse o senhor…

King Kong recolhe o broche na mesa e enrola num lenço.

Ourives volta a trabalhar.

Olhar sorrateiro do ourives observando pelas costas King Kong e Satã saindo.

Interior / Dia                                                                                   

Sala de Delegacia 

Fachada da delegacia.

Mesa do delegado com um cinzeiro cheio de guimbas e uma piteira acesa.

Folhas de papel com desenhos de retratos falados, fichas e anotações ao lado do cinzeiro.

Retrato desenhado parecido com o rosto de Candinho.

Delegado em pé, interrogando o barrigudo da sinuca que está sentado, encolhido.

Escrivão anota depoimento

Sarione:

Tá me achando com cara de idiota, é? Olha aqui…Estamos na campana deste ponto de táxi há um tempão. Paguei muita corrida para o Chisnove levantar a pista. Tem um chofer de praça sumido do ponto. Tem ou não tem?

Barrigudo:

Tem dois sim senhor mas…

Sarione:(embaralhando as fichas)

Que mas o que, rapaz! Tenho a folha corrida de todo mundo do ponto. Retrato falado, tudo. É só você entregar o caboclo e pronto. Tá liberado, ora.

Sarione soca a mesa, finge raiva. Derruba guimbas e cinzas de cigarro sobre o retrato falado.

Sarione:

Mas que merda! O homem deu dois tiros na cabeça da mulher de um senador, idiota! Friamente, como se ela fosse uma cachorra qualquer.

Sarione espera o interrogado dizer algo.

Barrigudo hesita.

Sarione:

Tu vai ser arrolado como cúmplice, tá bom assim?

Barrigudo acuado.

Sarione:(apontando retrato de Candinho)

Esse aqui? Quem é ?

Barrigudo, abaixa os olhos, com remorsos.

Sarione se levanta com o retrato na mão e pega o telefone.

Barrigudo, abaixa os  olhos. Observa o retrato,  constrangido.

Mãos do Barrigudo, trêmulas, tentam retirar as guimbas e cinzas de cima do retrato.

Retrato borrado com as cinzas.

Geral da sala da delegacia.

Geral da fachada da delegacia.

Rua inteira, sob chuva intensa.

Exterior / Dia                                                                  

Morro da Mangueira

Auto falante no alto do poste.

Som de música de Geraldo Pereira.

Varandinha da birosca do morro ao fundo

Horizonte com céu ainda chuvoso.

Poças d’água remanescentes.

Satã tomando seu café da manhã,  observando a viela.

Pessoas descendo de várias vielas para trabalhar, cruzando com Satã, cumprimentando-o.

Menino-goleiro, mal desperto, com olhos remelentos, aparecendo do fundo da birosca.

Menino sentando ao lado de Satã.

Menino rolando a bola de meia na mão, nervoso.

Satã:(para  o menino)

Eu, heim! Que cara é essa? Sonhou com o capeta?

Menino:

Sonhei foi com tu!

Satã engasga com o café e se levanta, tossindo.

Satã:(ainda  tossindo)

Cruz credo! Sai daqui, sai!

Menino:

Tá estranhando o que? Tu não é o Satã? Então. É o mesmo que Capeta, não é?

Satã faz menção de sair, aborrecido com o menino.

Menino oculta a bola de meia.

Menino:(insistindo, enigmático)

Quer que eu conte?

Satã:

Contar o que?

Menino:

O sonho, ora!

Satã (se levantando):

Não me conta sonho! Pelo amor de Deus! Não gosto que sonhem comigo. Dá azar. Tenho horror.

Menino:

Então não conto. Azar o teu.

Satã olha para a mesa.

Mão do menino embaixo da mesa, ainda escondendo a bola.

Satã:

Ih…Aí tem truta. O que é que tá escondendo, heim, garoto?

Menino (olhando para a viela)

Não conto. Se eu contar meu pai briga.

Satã:

E tu tem pai, por acaso?

Menino corre para o campinho em  frente, chutando a bola, sempre  rindo.

Satã:(fingindo desistir)

Ah, garoto…Conta logo isso e me deixa em paz, vai!

Menino:

Não conto. Me falaram que tu matou aquele homem…o Geraldo.

Satã:

Não muda de assunto. Conversa fiada tua. O que é que tu tem aí? Mostra anda!

Satã corre pelo campinho atrás do menino, tentando tomar a bola.

Menino escapa, circundando a baliza do gol.

Baliza do campinho com Satã voltando para a varandinha, arquejante.

Menino:(mostrando a  bola)

E o que é que eu ganho se mostrar?

Satã:(sentado)

Raça ruim! É o que tu é…Mostra logo, anda!

Menino:

Então tá. Mas, eu só mostro se tu prometer uma coisa.

Satã:

Prometer o que?…Ah…já até sei o que é. Tá escondido na bola. Você roubou não é? Seu cretino? Ah que eu vou agora mesmo contar pro teu pai, miserável!

Menino:

Ué?! Tu não disse que eu não tinha pai? (se aproximando) Não roubei nada! Eu vou mostrar! Mas…tem que prometer que vai me ajudar.

Satã:

Tá certo! Tá certo mas…deixa eu ver se é mesmo de valor. Olha lá!…Se for roubo já sabe. Vai ter que devolver pro dono.

Menino:

E quem é você pra me botar moral?

Satã:

Eu, heim. Tá doido? Olha o respeito!

Menino:

Tá bom! Então olha!

Menino desmonta a  bola de meia.

Broche igual ao que King Kong deixou com Satã, aparece dentro da  meia.

Satã:

Eu te mato, garoto! Tu me roubou a bijuteria do jornalista! Miserável!

Menino(fazendo careta):

Rá, rá, rá!…Matar porque? Vai dar uma de trouxa? Olha direito!

Rosto de Satã intrigado, pegando o broche, olhando mais detidamente riscando com ele a parede caiada da birosca .  Risco do broche na parede.

Satã, admirado.

Satã:(balbuciando)

Mas…esse é outro! Igual ao do jornalista só que…Minha nossa Senhora do Perpétuo Socorro…É ouro! Ouro maciço, gente! Onde tu arrumou isto, menino? Fala, fala!

Exterior / Interior /Noite                                                             

Rua de Copacabana

Tomada da Avenida Atlântica, até porta de um prédio velho e comum.

Sala de apartamento, pequena e modesta.

Som bem alto, ligado no programa “Balança mais não cai”.

Gargalhadas de claque do rádio.

Gritaria de crianças vinda de um quarto.

Velha  que presenciou o crime, sentada num sofá atenta para o rádio ao fundo.

Som de campainha.

Velha se levanta irritada e olha no olho mágico.

Velha entreabre a porta.

Fresta da porta.com um vulto encoberto por uma sombra.

Velha tenta fechar a porta.

Vulto barra a porta com o pé, tenta entregar um papel dobrado. .

Mão do vulto joga o papel no chão da sala.

Corredor com vulto desaparecendo.

Velha atravessa a sala assustada. Crianças vindas do corredor esbarram nela.

Velha escorrega na parede e cai no chão, com a mão apertando o peito.

Crianças olham intrigadas para a avó caída e depois para a porta, ainda entreaberta.

Criança:

Ué, vó! Não era a mãe? Cadê ela?

Som de gargalhadas da claque no programa de rádio.

Interior  / Noite                                                                            

Oficina de joalheiro 

Ladeira da oficina do ourives sob chuva fina.

Porta da sala de Joaquim Polaco entreaberta.

Voz do ourives ao telefone.

Sala até  ourives de costas, ao telefone.

Joaquim Polaco:

Não. Não é a verdadeiro não! O que ele tem é um cópia. Disse que achou aqui no Lapa…Bem, de qualquer modo é pista, não é? O homem parece muito interessada no história do broche. Deve estar atrás do mesma coisa que…Quem? Esse? O tal homem?.. Ah…É um tal de Juvenal, repórter, algo assim….Parece que é da Diário de Notícias…Ah…Isso é simples. Ela é um mulatão assim… grandão…Atende pelo apelido de King Kong…quer coisa mais fácil?

Interior  / Dia                                                                                

Redação de jornal 

Redação do Diário de Notícias.

Janela mostrando dia sempre chuvoso.

Menino-goleiro sujo, molhado, tentando entrar na sala mas sendo barrado por um contínuo.

Contínuo:

Sai, sai! Esmola aqui não, tá bom!

Menino, força a entrada. .

King Kong reconhece o garoto e corre para recebê-lo.

King Kong:

Ué?! O que tu fazendo aqui? Que é que houve, garoto?( procurando) Cadê o Satã?

Menino: (agitado)

Não é nada dele não. É que eu preciso de  um favor do senhor. Pode ser?

King Kong (levando o menino para o corredor):

Claro, claro! Quer tomar um guaraná?

Menino:

Não. Brigado.

King Kong:

Tá. Então diz logo o que é que aconteceu. Tá me deixando nervoso.

Menino tira a bola de meia do bolso e  mostra o broche de ouro.

King Kong surpreso.

Menino:

Calma, calma! Não é o seu não…Esse aqui é de ouro, de verdade. O Satã pediu pra eu vir aqui pra…

King Kong: (eufórico)

Tá me escondendo coisa né, garoto?.. Ele descobriu a mulher da briga, não é isso? Ai meu Deus! Fala,  garoto! Descobriram a tal Dona?

Mãos do menino abrindo o broche  no meio.

Menino:

Abriu assim, sem querer…bati com uma pedra, pra ver se tirava este esse olhinho verde aqui e…pá! Abriu. Essa chavinha…Deve ser alguma coisa importante.

Chave bem pequena dentro de uma das metades do broche.

King Kong (tentando pegar o broche):

Ai, ai, ai. Que história é essa?

King Kong pega o broche e retira a  chavinha  para olhar mais de  perto.

King Kong:

Parece que é desses cofres de aluguel. (olhando mais de perto) Rapaz, isto é do Banco do Brasil! O que é que tem lá? Diz logo, anda!

Menino:

Calma, calma! O Satã disse que é pro senhor vir comigo, até o Morro.

King Kong:

Até no Morro?! Que segredo é esse, heim?.. Tá. Eu vou mas…Fala logo. Qual é o favor que você quer?

Menino:

Bom. O favor…

King Kong:

Então? Tu não veio aqui pra me pedir um favor, garoto? Então fala.

Menino:

Pois é, moço. O favor…tá  lá no morro também.

Exterior / Noite                                                                                          

Beco da Lapa 

Beco deserto.

King Kong se dirige para a entrada do sobrado onde mora.

Sapatos brancos de Herrera, oculto  na esquina, a espreita.

Rosto de Herrera, soltando uma baforada do charuto. .

Exterior /Dia                                                                                

Morro  da   Mangueira

Som de rádio tocando música de Geraldo Pereira.

Velha foto emoldurada, com a mulher da casa onde Candinho se escondeu, numa pose alegre, fantasiada de porta-estandarte de escola de samba.

Foto desfocando.

Rosto de  Candinho  fazendo expressão de  dor.

Candinho:

Uii! Ô Nézinha. Tu quer me matar de vez é?

Porta do barraco aberta.

Rosto de Nézinha abraçando Candinho por  trás.

Queixo de Nézinha apoiado no ombro completamente enfaixado dele.

Nézinha: (olhando o vazio, com um sorriso amargo)

Ai nego…Sonhei  que tu ia ficar pra sempre aqui…comigo mais o menino.

Candinho:

Não fala  isso! Tu sabe que eu vou ter que ir embora, assim que me livrar desse rôlo.

Nézinha:

Disse pra ele ontem quem é que tu é. Bem que tu podia visitar a gente, de vez em quando. Ele fica por aí, largado.

Candinho:

Tadinho. Foi me conhecer logo assim, escondido feito um bandido. Falando nisso…cadê ele, heim?

Nézinha:

Tá atrás do Satã. Meteu na cabeça que vai te salvar. Tu sabe como ele é atirado.

Candinho:

O que? Salvar como, Nézinha? Esse menino é doido, é?

Rosto de Candinho, desconfiado, se desvencilhando do abraço de Nézinha.

Abrindo e revirando o interior de uma gaveta, ansioso.

Candinho:

Cadê o broche, Nézinha? Pelo amor de Deus!..(se desesperando:)…Vocês endoidaram de vez, é ? Não dá pra vender aquilo. É fria! A polícia  tá doida atrás é disso mesmo…Onde é que esse diabinho foi? Nézinha…Cadê esse menino, mulher?    

Candinho corre para a porta do barraco com Nézinha.

Morro visto da porta do barraco com três pessoas subindo em direção ao barraco.

Menino-goleiro, Satã e King Kong, subindo o morro apressados.

Candinho corre na direção a eles, com Nézinha atrás.

Exterior /noite                                                                                

Morro da Mangueira

Panorâmica descendo do céu escuro, carregado.

Barracos na penumbra.

Silêncio.

Porta do barraco de Nézinha, iluminada por lanternas de mão trêmulas.

Elevações nas laterais da viela, com fachos de lanternas revelando partes dos vultos de policiais Brilho esparso de armas.

Vulto de chapéu, gritando:

Sarione:

Vamos lá Seu Cândido! Sai preso agora ou…defunto depois. Pra nós, tanto faz.

Som de ranger de porta

Porta se abrindo lentamente.

Vultos de policiais nas elevações, engatilhando armas.

Menino saindo lentamente do barraco e correndo em seguida para a viela.

Policial agarrando o menino.

Sarione de pé numa das elevações, iluminado por várias lanternas.

Policial segurando o menino que se debate.

Sarione:(apontando a arma para a porta):

É agora, Seu Cândido! Acabou-se a brincadeira!.. Sai logo daí, rapaz! Pro teu próprio bem.

Menino, dominado.

Candinho aparece na porta com as mãos na cabeça.

Policiais em correria, engolfam Candinho com gravatas, socos e pontapés.

Exterior / Interior / Dia                                                              

Delegacia de Polícia

Fachada da delegacia. Chuva forte. Viatura estacionando.

Sarione descendo do carro, correndo da chuva.

Interior da sala deserta. Sarione entrando.

Silencio

Aparição súbita do escrivão, do Chisnove e dos outros policiais, cantando “parabéns pra você” efusivamente.

Sarione sorri surpreso.

Escrivão :(gritando no meio da cantoria:)

Viva o maior delegado do Brasil!

Policiais levantam Sarione nos braços.

Sarione :

Ai mas, que bodega! Ponham-me no chão! Cambada de puxa-sacos!

Balbúrdia, policiais repondo Sarione no chão.

Carlito Pimenta entra.

Sarione (Sorrindo ao ver Carlito:)

Será o benedito! Até você? Como é que descobriu?

Carlito, com ar consternado.

Alegria dos policiais vai se dissipando diante do desânimo de Carlito.

Sarione:

Que cara de enterro é essa?

Carlito afasta Sarione para um canto.

Policiais se espalham pela sala, escondendo a curiosidade.

Carlito:

Ih…!Acho que eu vou estragar tua festa.

Sarione:

Ai, ai, ai ! Já sei. A porra do advogado mais o puto do Senador deram pra  trás. É isso?

Carlito:

Pior. Muito pior!

Sarione:

Fala logo, porra!

Carlito:

Senta. É melhor ouvir sentado.

Sarione:

Que sentar o que. Se é pra enfartar, prefiro em pé mesmo. Vamos lá pra fora.

Olhares dos policiais nas mesas, se cruzando desconfiados enquanto os dois saem.

Os dois na porta da delegacia, tomando chuva.

Carlito:

Sabe aquele  fotógrafo, o d`O Diário de Notícias?

Sarione:

O puto do holofote? Aquele? Não me diga que.. Ah mas, eu não te disse? Eu estava adivinhando…

Carlito:

Pois é. O miserável acaba de me trazer uma bomba só que…daquelas de chorar. Gás lacrimogêneo, meu chapa!

Sarione:

Bomba?! Não me conta, não me conta! Pelo amor de Deus!.. Ah, vá! Conta logo, anda!

Carlito:

Ele esclareceu o crime da madame, Sarione! Sozinho. Deu uma rasteira na gente. Bem nas nossas barbas.

Sarione:

Esclareceu o que?.. Não entendi, cacete! O motorista tá preso. O inquérito tá pronto. Provei que foi um assalto, não provei? Até a polícia federal confirmou a mesma coisa!

Carlito:

Negativo.  É estaca zero, meu amigo. Nem assalto nem crime passional. O cacete! O caso é tão cabeludo mas, tão cabeludo que se ninguém tomar uma providência já, vou ter que publicar. Senão…posso até perder o emprego, entendeu? Entro em cana. Me desmoralizo pro resto da vida.

Sarione:

Não, não! Que história é essa? Justo agora? Eu chega estou com os braços doendo de tanto dar porrada naquele crioulo, pra ele confessar, porra!

Carlito:

Não dá, não dá! Tem muita merda espalhada por aí. O fotógrafo está com a porra do broche da madame. Aquele que o senador disse que o assassino roubou, no dia do crime.

Sarione:

O Broche?! Aquele? Caralho!.. Ah, como eu sou burro! 

Carlito:

As provas, Sarione. Uma chavinha de banco, dentro da porra do broche. Uns documentos num cofre, mostrando que o tal senador tá envolvido até o pescoço num escândalo aí, internacional, entendeu? Coisa braba…tráfico de mulheres, desvio de divisas, Cuba, Miami, o escambáu!

Sarione:

Eu sabia que tinha mais merda, da graúda! Eu sabia. Porra! Caralho! Puta que pariu!

Carlito:

O puto do fotógrafo tá pedindo garantia de vida. Diz que tem um sujeito aí, atrás dele, atrás da chave.

Sarione:

Eu sei, eu sei. É a porra do cubano.

Carlito:

Cubano?! Então pronto. É isso. O sujeito disse que, se agente não negociar, vai jogar merda no ventilador. E se ele for ao senador antes de nós, homem?.. Se safam e fodem a gente. Podem nos lascar de vez! Liga pro Senador, anda!  A gente tem que resolver isto  hoje…agora!

Sarione

Tá bom, tá bom, merda! Que presentão de aniversário, heim?.. Mas que pé frio, Carlito! Você é uma porra, um maldito de um pé frio!

Carlito:

Pé frio? Eu? Estou salvando a pátria, meu chapa. Limpando nossa barra. O cara veio direto a mim, não foi? Isto prova que tenho sorte. Que tenho estrela, rapaz!

 

Interior / Dia.                                                                                 

Delegacia

Broche de ouro aberto e com a chave, sobre uma mesa.

Sarione e King Kong, frente à frente.

Sarione:

O Sr. se arriscou muito, sabia?

King Kong:

É. O pior é de tudo é que abri mão da reportagem da minha vida…Isso é que dói.

Delegado faz cara de enfado.

Delegacia com policiais e escrivão, em torno da cena, olhando curiosos.

Som de telefone tocando.

Sarione atende ansioso.

Sarione:

Vossa Excelência tomou uma sábia decisão! Melhor assim. Não tínhamos mesmo outra saída…Foi xeque-mate!..(pausa)…Sim, sim! Ele está aqui, na minha frente. Trouxe a chave do cofre e as provas. Estão a sua disposição.(pausa) Eu sei. Já avisei a ele mas…sabe como é…Cada cabeça uma sentença, né?.. Já mandei até o carcereiro soltar o crioulo…Foi só o que ele exigiu. Quanto ao cubano, bem… Só tem um jeito…

Interior / Dia.                      

Adega da Lapa

Adega da Lapa com Herrera ao fundo, tomando um whisky.

Som estridente de telefone.

Herrera correndo para o balcão, afoito.

Garçom pegando o fone detrás do balcão com cara feia.

Herrera:

Como?..No compreendo…Cancelar el trabajo? Ay caramba! Mas…Estoy a ponto de queda-lo…(pausa)…Ok, ok! Como quieras mas.. Largo de la Carioca. Ok. En el reloj? Si. Conozco…A la media noche. Ok, ok!..(pausa)…Ay caramba! Despuès… Sy.  Para Miami, claro. O ticket es para Miami. Cierto, cierto!

Calçada de rua ainda molhada.

Pessoas passando.

Pés dos passantes.

Capa de jornal sujo, caído na calçada.

A LUTA DEMOCRÁTICA

Fuzilado no Largo da Carioca o marginal cubano!

Tiros na cabeça! Execução sumária!

Foto de Herrera no jornal, caído sob o relógio do Largo da Carioca, morto.

Relógio da foto marcando mais de meia noite.

Rua de paralelepípedos, com poças d’água remanescentes refletindo sol forte.

Fachada da delegacia e prédios vizinhos emoldurados por céu azul, completamente sem  nuvens.

Interior / Dia.                                                                                 

Agência de turismo

Grande poster, pousado numa parede, com o retrato pintado do Senador sorrindo e acenando.

Slogan de campanha eleitoral escrito no poster:

PARA SENADOR

VOTE 

ANÍBAL MACIEL

UM MELHOR FUTURO PARA O BRASIL!

Voz de Sarione em off

Sarione:

A falecida se resguardou. Haviam muitas provas naquele cofrinho, doutor.  Papéis da sua agência em Havana com o nome daquele Herrera, fotos de Vossa Excelência em Cuba, aquelas mulheres peitudas…escrituras de imóveis, tudo, tudo…(pausa)…Bem…o Sr. com certeza sabe que lenocínio é crime muito grave… O mandante? Como assim? Mas eu pensei que o Vossa Excelência…Ah! Mas…de que nos interessa isso agora, se o tal Herrera empacotou? Relaxe, Excelência. Botemos uma pedra em cima disso tudo e pronto. De outro modo não ia dar certo  mesmo, não é?

Corredor da  agência de turismo com trabalhadores removendo móveis e objetos das salas da agência.

Pilhas de posters de Miami, revistas, etc., amontoados no corredor.

Outro retrato do senador, abraçado a Getúlio Vargas.

Rosto de Getúlio sorrindo no retrato.

Voz de Sarione seguindo em off

Sarione: (solícito, eufórico)

É. Arquivei o caso. Vossa excelência pode ficar tranqüilo. Fiz exatamente o que combinamos…Eu?! Para a polícia Federal? Aleluia! Ah…que é isso?! Eu é que lhe agradeço. Uma promoção dessas, a esta altura da vida…E o Carlito?.. Editor-chefe? É mesmo? Tá. Eu transmito a novidade. Aquele miserável foi quem se saiu melhor nessa história toda. Grato, Senador! Muito agradecido mesmo! Passar bem!.. Pro Senhor também! 

Interior / Dia.                                                                                             

Delegacia

Sarione suado, seca a testa aliviado.

King Kong olha desolado para o broche aberto na mesa do delegado.

Close do broche.

Exterior / Dia.                                                                                 

Jardim de mansão

Som de pequena orquestra Cubana tocando “Babalú”.

Panorâmica de céu azul.

Jardim da mansão de Maciel.

Grande toldo com muita gente elegante, em grupos alegres, espalhados pelo espaço em torno. Pequena orquestra sob o toldo, com os músicos negros suando e sorrindo.

Sarione e  Carlito num grupo, soltando gargalhadas. .

Maciel dançando em frente à orquestra com uma mulher de costas.

Aplausos de  todos os presentes para o casal.

Sarione  e  Carlito num canto discreto do jardim, também aplaudindo e depois, confidenciando.

Sarione: (olhando para o Senador):

Sujeito de sorte, não é mesmo? Não teve que sujar um dedo para se livrar dos problemas. Agora tá aí…esposa nova, eleição à vista…  

Carlito (com admiração:)

Você leu no jornal? Diz que o casamento em Miami foi um deslumbramento. Um verdadeiro espetáculo de Hollywood.

Senador rindo, dançando com a mulher ainda de costas.

Carlito:

Sorte mesmo quem teve foi o Sr., seu Delegado. Sorte grande.

Sarione:

Sorte, eu? Não sei em que?.. Sorte teve você que, praticamente só colheu os louros. Se tive, foi mais que merecida. Resolvi o caso a contento, não foi?

Carlito:

Será? E o mandante? O Sr. se deu ao trabalho de descobrir? (cochichando:) Cá entre nós, me diga. Descobriu ou não descobriu? Me conta. Juro minha mãe mortinha que essa eu não publico.

Sarione (olhando o casal dançando):

Ah…Tu não é jornalista? O rei da reportagem investigativa? Então. Descubra por si mesmo. Usa a cabeça, rapaz!

Maciel e a mulher de costas, rodopiando.

Mulher se virando, revelando o rosto de Janeth.

Casal parando de dançar, sorrindo.

Busto de Janeth, arquejante.

Broche de ouro, pregado em seu vestido.

Rosto de Janeth esfuziante. .

Carlito (surpreso com o olhar significativo de Sarione sobre Janeth:)

O quê?! Não me diga! Puta que pariu! Mas não era amiga íntima da defunta? Que judas! 

Sarione:

Porque este espanto ? Virou São Francisco de Assis agora? Isso aqui é Brasil, meu caro. Uma canalhocracia! Aqui só sobrevivem dois tipos de gente, os que tem o rabo preso pra esconder e os que tem o silêncio pra vender. O resto…é o resto. Vegeta, se afoga na lama, presa nesse beco sem saída. Guarda essa lição, tá bom? Aproveita que…essa, por enquanto, é de graça.

Exterior e interior / Dia.                                     

Beco e quarto de King Kong na Lapa

Beco em amanhecer ensolarado.

Satã e o Menino batem na porta de King Kong.

King Kong abre. Veste um terno elegante, pronto para sair.

King Kong :

Ai meu Deus! Não vão largar do meu pé mais não, é?

Satã:

O menino me pediu pra vir com ele aqui…pra te agradecer.

King Kong:

É. Só pra me lembrar da burrada que eu fiz, não é?

Satã:(esboçando um abraço)

Que nada. Gosto de  homem macho, assim que nem o senhor. Eu, se fosse mulher…

King Kong: (repelindo abraço)

Ih!! Sai pra  lá! Tá me estranhando, é? 

Satã:(também recuando)

Até  parece !..Tem perigo não, meu amor. Sou home, não tem jeito. Perigo é mulher de verdade, feito a serpente do broche. Se enrosca, abraça, aperta e no final…enraba  a gente, sem dó nem piedade.

King Kong:

É mas…ruim com elas, pior sem elas…

Satã:

Pra quem aprecia…Falando nisso, preciso contar pro Sr.. Descobri uma coisa sobre a tal Dona, aquela que tava com Geraldo, na hora da briga,…

King Kong (eufórico:)

Descobriu, descobriu?! Me conta, rapaz! Me conta!

Satã:

Desculpe perguntar mas…fala a verdade. Ela foi tua, não foi? É Olga o nome dela. É ou não é? O Geraldo Pereira tinha tomado ela do Sr.. Pode dizer. O Bigode, garçom lá do Capela, me cantou essa pedra.

King Kong envergonhado, abaixando os olhos, confirmando. .

Os dois se abraçam emocionados.

King Kong envolve o menino no mesmo abraço.

Satã :

E a reportagem? Morreu, é?

King Kong:

Que é isso?! De jeito nenhum. Passa essa semana lá na redação. Essa história pode dar prêmio Esso, meu chapa! Você vai ver.

Som de buzina de carro, insistente.

King Kong:

Hora de trabalhar. Vamos! (para o menino, abraçando) Tu é quem vai gostar de saber quem tá lá embaixo.

Rosto do menino se iluminando num sorriso.

Vidraça do apartamento mostrando o beco com o táxi de Candinho parado na porta do sobrado.

Entrada do sobrado vista da rua.

Táxi parado com a porta aberta.

Candinho em pé diante do carro, sorrindo de braços abertos para o menino.

King Kong, Satã e o menino se encaminhando para o carro.

Menino correndo para abraçar Candinho.

Porta e painel do carro com o rádio aceso, atrás de Candinho.

Close do broche falso pendurado no retrovisor do carro.

Voz de  Agostinho dos Santos cantando “Estrada do sol” de Dolores Duran, no rádio.

“É de manhã

Vem o sol mas os pingos da chuva

que ontem caiu

ainda estão a brilhar…”

Vista panorâmica com o beco e as ruas próximas se enchendo de pessoas saindo para trabalhar. Bêbados perambulando, prostitutas sentadas em  bancos de praça, bares se abrindo, etc.

Arcos da Lapa no sentido das ladeiras velhas de Santa Teresa, com bondinho subindo.

Música seguindo sob o roll  com os letreiros finais.

FIM

Spírito Santo

Praça Seca, Rio de Janeiro – 26 de  Janeiro de  1993

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~ por Spirito Santo em 29/10/2011.

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