O BECO – Roteiro de cinema

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"Gafieira" - Di Cavalcante

"Gafieira" - Di Cavalcante

O BECO – Roteiro de cinema

Me animei. Livro publicado já nas livrarias do Brasil a enorme gaveta do eu escritor, que eu mantinha empanturrada de escritos se abriu prazeirosa. Desempoeirada cuidadosamente ela vai me revelando então coisas feitas muito antigamente, sobre as quais eu nem tinha mais lembrança. O texto a seguir é um roteiro cinematográfico escrito ali por volta de 1993. Não sei se daria bom cinema, presumo que sim, mas gosto mesmo – e muito – é da história, uma tentativa de…Bem fiz uma resenha aí, especialmente para animá-los também a ler um calhamaço que, completo, deve ter bem umas 75 páginas. Dividido nesta pílula de 8 páginas apenas, acho que vocês aguentam pelo menos conhecer uma palinha da trama. Quem não gostar que mude de canal ou de esquina. Quem gostar pode ler o roteiro completo num link que estará abaixo deste post.

Com vocês então, “O BECO”

Uma resenha:

Em 1955 o Brasil começava a se preparar para o chamado ‘desenvolvimentismo’ que já se anunciava com a onda de otimismo que redundou, um ano depois, no governo Juscelino Kubitschek e sua bombástica meta dos ‘cinquenta anos em cinco’. Não temos ainda um cinema digno de nota nesta época mas, em Hollywood ‘bomba’ a nossa ‘brazilian bomb shell’ Carmen Miranda.

O produto mais estranho da cinematografia ufanista dos EEUU nesta época, foi o chamado ‘Cinema Noir’, estilo formado por filmes soturnos, com muito mistério diluído em intrincadas tramas policiais nas quais personagens torturados por problemas existenciais, viviam grandes dramas morais que, geralmente, acabavam de forma trágica ou melancólica. Ao que parece uma invenção tipicamente européia, o ‘Film Noir‘ com efeito, reproduzia de forma perfeita todo aquele ambiente de intriga e clandestinidade vivido pelos partisans da resistência francesa na recém finda segunda guerra mundial.

Enquanto isto, aqui na América do Sul, com a a guerrilha de Fidel Castro fustigando o charme ‘caliente’ do grande balneário que era a Cuba de Fulgencio Batista, a Copacabana em 1955 já se firmava como destino para os endinheirados do mundo inteiro. Luxo boêmio, escândalos de bons vivants, embalados por Boleros e tristes sambas canções de Dolores Duram.

Talvez por conta deste ensolarado cenário, o cinema do Brasil não embarcou muito neste campo da estética ‘Noir’. Quando houve algum impulso para o nosso cinema, a onda já era outra. Mergulhou-se numa ‘Nouvelle Vague‘ dividida entre o realismo italiano do pós guerra e o ‘existencialismo‘ Sartriano, ou algo assim.

No entanto, há talvez qualquer coisa deste clima ‘Noir’ nos primeiros filmes de Nelson Pereira dos Santos ( ‘Rio Zona Norte’ e ‘Rio 40 graus’). O mesmo clima parece estar também presente em ‘O assalto ao Trem pagador’, filme clássico de Roberto Farias.

É por aí, pelas referências acima enumeradas, que ‘O Beco’, roteiro que escrevi para um filme de longa metragem, tenta trafegar nestas esquinas ainda mal iluminadas, numa tentativa de conhecer os meandros deste gênero instigante – e, é claro, o charme de sua época -, seus aspectos estilísticos mais evidentes (como a trama detetivesca e o jornalismo investigativo, por exemplo) e até seus chavões e cacoetes mais recorrentes (como o gangterismo e o crime passional).

‘O Beco’ se dedica também e, principalmente, a estimular um improvável diálogo entre as classes sociais no Rio de Janeiro que, naquela época, já era uma cidade quase irremediavelmente ‘partida‘, diálogo este que, de forma simbólica acaba no filme (como na vida real) produzindo fatalidade, drama e morte.

Lapa de 1955: Metáfora de um Brasil tornado beco sem saída.

Bem leia o roteiro a seguir  (como é um longa metragem o dividi em várias partes) e depois me retorna aí com a alguma opinião sincera:

O BECO

By Spírito Santo -1993

Roteiro para filme de ficção Longa metragem

Interiores:

Salão de Dancing

Redação e gráfica de jornal

Delegacia de polícia

Salão de sinuca

Interior de avião anos 50

Escritório de advocacia

Interior de adega

Sala de mansão

Exteriores:

Favela  ( platô, birosca, barracos, etc. )

Bairro Boêmio ( Lapa) / ( cabarés, largo, ruas, ladeiras, arcos e adega )

Centro do Rio / ( bar, relógio do Largo da Carioca)

Copacabana ( entrada de hotel, fachada de delegacia, ruas e calçadão )

Fuselagem de avião anos 50

Saguão e pista do aeroporto anos 50

Praia do Caribe

Rua de Havana, Cuba

Personagens, coadjuvantes e figurantes

1-  Juvenal King Kong / O fotógrafo gordo

2-  Dr. Mário Sarione / O  delegado

3-  Aníbal Maciel / O Senador

4-  Cândido Menezes da Silva, “Candinho” / O chofer de  táxi

5-  Satã  / O homossexual

6-  Dona Clarinda Belfant Maciel / A madame morta

7-  Carlito Pimenta  / O Jornalista

8-  Herrera / O matador de aluguel

9-   Dr. João Beckmam  / O advogado

10- Janeth / A amiga da madame

11- Nézinha / Amante de Candinho

12- Menino Goleiro

13- Joaquim Polaco / receptador

14- Secretária

15- Chisnove

16- Velha

17- Barrigudo da piteira

18- Leão de Chácara

19- Misses e mães de misses.

20- Meninos favelados

21- Moradores e freqüentadores da Lapa.

22- Homens e mulheres da alta sociedade

23- Motoristas de táxi

25- Netos da velha

26- Policiais civis

————-

Exterior/Noite                                                                                           

Beco na Lapa

Largo da Lapa.

Piso de  paralelepípedos imundo.

Beco deserto iluminado por luminária de rua.

Vozes em off, ao telefone:

Clarinda

Ah…vamos sim! Afinal…não vai te custar nada não é? O lugar é tão simpático.

Janeth

O que está havendo com você, heim? Nunca foi disso…andar na noite, na boêmia, nesse submundo?

Clarinda

E a Lapa é submundo por acaso? Você não viu ontem? Até Edith Piaf estava lá. Ali é a  nossa Monmartre, querida e, além do mais…bem, num ponto você tem razão. Ando meio deprimida  mesmo.

Janeth

Desiludida da vida?.. É o desquite não é?…

Clarinda

Pois é. Este assunto de novo…Pedi a separação de corpos, sabia? Não dava mais pra suportar…sabe? A pressão, as ameaças…depois de tudo que eu relevei…

Janeth

Tá bom, não se fala mais nisso. Te pego aí em dez minutos. Ah…quase esqueço. Posso levar alguém…assim, pra te fazer companhia?…Não? Ih…mas que chata que você está, meu Deus! Tá. Esquece….Não, não. Deixa estar. Eu pego um táxi.

Poste da luminária iluminando letreiro de bar ao fundo:

A Capela

Chão de paralelepípedos e poças d’água, fazendo fundo para legenda:

3 de Maio de 1955

Lapa, Rio de Janeiro

Som de gritos inflamados.

Briga de rua.

Pés da assistência, na soleira do bar.

Pés dos contendores, rápidos, indo para o meio da rua, em luta.

Golpe de um no ventre do outro, que cai.

Rosto do homem que caiu, um negro de bigode fino, aparado.

Olhos se revirando.

Rosto do outro, também negro, com um chapéu, olhando para o adversário assustado.

Turba se aproxima do homem caído, agitada.

Agressor em fuga, desaparece numa esquina.

Rosto do homem caído no meio-fio.

Poça de sangue próxima ao rosto, cresce e  se mistura a uma poça d’água.

Chuva fina começa a cair.

Poça de água e sangue, salpicada pela chuva.

Letreiros de apresentação rolam no quadro.

Exterior / noite                                                                                       

Largo da Lapa.

Letreiros de cabarés e bares com pessoas paradas ou andando nas esquinas.

Ponto de  táxi ao fundo.

Candinho, o motorista, se aproxima do carro.

Meio-fio com longa poça d’água em perspectiva.

Pés de um grupo de  homens e pneus de táxis parados em fila.

Grupo de taxistas conversando animadamente, com Candinho chegando ao fundo.

Chofer barrigudo, apontando para Candinho com uma piteira.

Chofer 1(Barrigudo):

Falando no diabo… ele logo aparece. Não morre tão cedo esse aí!

Candinho (com enfado)

Ih…Pronto! Já sei…É aquele papo da francesa.

Faz menção de ligar o rádio, sendo impedido pelo Barrigudo

Candinho( ríspido: )

Larga meu rádio, rapaz. Não tem mais o que fazer não?

Página de revista com uma foto montagem de Edith Piaf em frente aos arcos da Lapa.

Grupo rindo de Candinho.

Chofer 2:(mostrando uma revista aberta)

Tá aqui a tua francesa. Ah, mas que michuruca! Que desmilingüida a  tadinha!

Candinho:

Ah…vão se danar!

Chofer 2, sacode a revista insistente, sempre  rindo.

Chofer 2:

Se fosse coisa que prestasse, ia tirar retrato nos Arcos da Lapa assim, como uma doidivana qualquer? Que nada! Botava um maiô, vestia uma sainha, um shortinho e fazia pose, empinava a bundinha na Vista Chinesa, não é mesmo?

Candinho:

É a rainha do romantismo, seu bocó! Deu na revista. Ah…Tu lá entende o que é isso?

Chofer 2:

Romantismo?! E tu gasta tua grana toda com jornaleiro, só pra ver isso?…Romance?! Tu tá é ‘tan tan’, maluco!

Candinho:

E você? Que fica aí, gastando féria com vadia…Quero ver é ter amor de graça, paixão mesmo, de fé, assim que nem eu tenho.

Barrigudo:

Até parece! Quanto tempo faz que tu não vai no morro ver aquela, como é que chama?…Nézinha, né mesmo? Me diz! Já deve ter te trocado por um ferrabrás, daqueles lá da favela. Quer apostar? Dor de corno, rapaz! Teu mal é esse. É por isso que gosta destas musiquinhas de tristeza, queixume de puta arrependida. É ou não é?

Candinho se afasta do grupo, aborrecido.

Barrigudo imita a pose e a elegância de Candinho sumindo numa esquina.

Grupo de motoristas às gargalhadas.

Som de sirene de ambulância.

Ambulância chegando em disparada, passando em frente ao grupo de motoristas .

Interior, noite

Dancing na Lapa

Som da pequena orquestra do Dancing.

Som da sirene da ambulância passando lá fora.

Boca do trombone em close.

Pequeno palco com os músicos e um letreiro aceso ao fundo.

Cabaret NOVO MÉXICO

Dancing

Salão cheio de gente  rodopiando, muita agitação, fumaça.

Mesas com pessoas alegres.

Burburinho de vozes gritadas, misturadas à música.

Entrada do dancing.

Candinho entra, cumprimentando o Leão de Chácara com um sorriso de intimidade.

Exterior, noite

Beco na Lapa.

Vista através da janela de um sobrado no beco.

Ambulância do “Socorro Urgente” estacionando na esquina.

Médico saindo da ambulância apressado.

Roda de gente se formando, multidão portando guarda-chuvas pretos.

Médico abrindo a roda de guarda-chuvas.

Homem da briga caído no centro da roda.

Janela do sobrado com a silhueta de homem alto e gordo de costas.

King Kong vestindo pijamas, olhando para cena lá em baixo. .

Visto ainda do sobrado, médico examina o homem caído em meio à poça de sangue.

Rosto do homem, ainda vivo, procura algo com os olhos, sem entender o que se passa.

Olhos do homem ferido em close parecem encarar alguém.

Rosto de King Kong no alto do sobrado, impressionado com o olhar do ferido.

King Kong pega uma máquina fotográfica na escrivaninha,

Segue até a escada, corre para porta e desce para a rua descalço.

Médico chama o enfermeiro e motorista com um gesto para que tragam a maca.

Ferido é carregado para a ambulância que sai depressa, com a sirene ligada.

King Kong aparece na porta do prédio com a máquina fotográfica.

Ambulância passa na frente do prédio, lançando lama sobre King Kong.

King Kong sacode o pijama enlameado, com a máquina apertada contra si.

Balança a cabeça, lamentando o flagrante perdido.

Interior, noite 

Dancing na Lapa

Música da pequena orquestra seguindo.

Janeth, dança com homem engravatado, preocupada, circulando o olhar pelo ambiente.

Fixa o olhar na mesa onde está Clarinda.

Clarinda observa o ambiente com um sorriso vago.

Candinho olha em direção a Clarinda que percebe, desvia o olhar e constrangida.

Decote de Clarinda em close, destacando um broche de ouro: Uma pequena serpente enroscada em si mesma.

Janeth e o acompanhante se encaminham para a mesa onde está Clarinda, eufóricos.

Exterior, noite                                                                                             

Beco na Lapa.

Música do Dancing soando na rua.

King Kong volta para a entrada do prédio e sem querer chutando algo no chão.

Objeto pequeno rolando como uma pedra.

King Kong se abaixa e pega o objeto.

Broche dourado, idêntico ao de Clarinda na palma da mão de King Kong.

Rosto de King Kong intrigado com o broche, lembrando algo.

Flash muito rápido de rosto de uma mulher mulata rindo, num ambiente enfumaçado.

King Kong guarda o broche no bolso, pensativo.

Interior, noite                                                                                         

Dancing na Lapa.

Som da orquestra do Dancing prosseguindo.

Janeth e o acompanhante sentados na mesa com Clarinda.

Candinho se aproxima e convida Clarinda para dançar, conduzindo-a  para o centro do salão.

Acorde da orquestra, concluindo  a música.

Vozerio inflamado.

Casais se dispersando, todos no salão sorrindo e soltando gargalhadas, excitados.

Clarinda com os amigos bebendo e rindo na mesa, eufóricos.

Candinho num dos cantos do salão, confidencia algo para amigos que observam discretamente a mesa de Clarinda.

Orquestra retomando com um Mambo.

Clarinda volta ao salão com Candinho.

Os dois dançam com rosto colado,

Clarinda  ri descontraída, de algo que Candinho fala ao seu ouvido.

Janeth olha para o casal de forma estranha, incomodada.

Espaço do dancing, do ponto de vista de Clarinda.

Som confuso de vozes e  risos misturados à música.

Todo o ambiente do salão enfumaçado, girando vertiginosamente, até imagens ficarem totalmente borradas.

————–

(Você vai poder ler o roteiro completo aqui neste link bem perto de você)

Spírito Santo

Outubro 2011

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