Da cidade invisível à cidade empresa


Charge da Revolta da Vacina

Charge da Revolta da Vacina

Vocês conhecem o Oswaldo Cruz, o ‘comandante‘ das ‘tropas‘ da vacina obrigatória no início do século 20, certo? Conhecem o Pereira Passos, o demolidor do Rio da Belle Èpoque carioca com o seu ‘Bota Abaixo‘. Vocês conhecem as UPPs deste século 21 não é mesmo? E sabem que por aqui estão acontecendo grandes transformações urbanas e sociais.

Pois então vocês vão poder identificar muito bem o personagem-cidade em quem este papo do português João Teixeira Lopes cabe como uma luva.

Cidades invisíveis

Da cultura como locomotiva da cidade-empresa a um conceito alternativo de democracia cultural

João Teixeira Lopes | sociólogo

 ‘Vírus’ novembro/dezembro 2009 

Considerações iniciais

Num dos muitos blogues sobre o Porto pode ler-se o seguinte post de Pedro Bismarck:

“Um espaço infinitamente desdobrável de ideias, de pessoas, de manifestações artísticas e poéticas, de layers variadas que se sobrepõem e cruzam. Uma cartografia infinita e surpreendente de possibilidades, é isso a cidade, é isso o Porto”.

Impossível não fazer uma imediata associação a um texto célebre de Jonathan Raban, Soft City (Raban, 1974). Nele, o autor defende, precisamente, essa infinita gama de opções que se colocam ao urbanita contemporâneo, a um ponto tal que cidade e indivíduo se transformam em espelho mútuo: “Decida quem é e a cidade assumirá mais uma vez uma forma fixa em seu redor. Decida o que ela é e a sua própria identidade será revelada, como um mapa estabelecido por triangulação.

As cidades, ao contrário das aldeias e das pequenas cidades, são plásticas por natureza. Moldamo-las à nossa imagem: elas, por sua vez, moldam-nos” (idem, pp. 9-10). Plasticidade ou plasticina: tudo é moldável, espécie de artesanato das identidades e cartografias. Por antítese, os constrangimentos não existem ou não se revelam e a sociedade, como num sonho de um demiurgo narcísico, adquire a sua forma e imagem.

Esta narrativa suave, de contornos pós-modernos, arrisca-se, com matizes várias, a estabelecer-se como o discurso hegemônico dos atuais processos de transformação das grandes cidades (cidades globais ou cidades região, em qualquer caso com projeção estratégica). Em certa medida, trata-se da última nova velha versão da pressão que o capitalismo de acumulação flexível exerce para a polarização e reinvenção permanente de hierarquias, fronteiras e distinções no sistema urbano globalizado.

Nada de novo. E no entanto…

O poder propriamente mágico das palavras e do discurso consiste, em boa parte, na sua capacidade performativa de resolver os problemas, isto é, de criar os quadros de inteligibilidade dentro dos quais as respostas ganham sentido e são reconhecidas como tal. Na sombra, ou na mais pura inexistência, fenecem as realidades que a perspectiva da enunciação não permite alcançar.

Na atualidade, vários são os nomes por que se designam os processos de transformação das cidades no âmbito da globalização de soma-zero (o que umas ganham, outras perdem): regeneração, reconstrução, revitalização ou até renascença. Certos termos, no entanto, cada vez mais são evitados: higienização ou gentrificação. Nada de novo, por conseguinte, tampouco na excitação agora patente na versão criativa da competição pelo lugar das cidades na divisão espacial do consumo (e apenas complementarmente na divisão espacial do trabalho, dada a centralidade de uma economia cultural dos bens simbólicos assente na capacidade criativa/destrutiva do volátil capitalismo tardio).

Falamos, então, na consolidada vulgata urbanística, em cidades criativas; bairros criativos, economias criativas; indústrias criativas e, naturalmente, em classes criativas, numa certa redundância semiótica que banaliza/naturaliza a circulação destes conceitos na esfera pública.

Neil Smith (2002), em particular, salienta a centralidade deste discurso como gramática de uma prática urbanista (o “novo urbanismo” enquanto “novo globalismo”) que encara as cidades como os grandes laboratórios do capitalismo contemporâneo. A própria noção de imagem de cidade liberta-se do quadro de enunciação em que Kevin Lynch a criou para significar a intensa imbricação e mútua conversão entre capital simbólico e capital econômico, funcionando, de fato, como um produto sofisticado de marketing territorial.

Mas até aqui, como dizíamos, aparentemente nada de novo. Aparentemente, apenas, pois na verdade nunca como hoje as cidades funcionaram enquanto máquinas velozes de crescimento locomovidas pela esfera cultural, num processo que modifica os próprios conceitos de cultura e de cidade, unindo, desse modo, como até suposto, raramente explicitado, de que vender a imagem de cidade equivale a vender a própria cidade.

Do «patriotismo de cidade» à cultura como consenso

Assim, nas novas valências da cultura, eis que emerge como uma espécie de roteiro ou fio condutor do planejamento estratégico, desdobrando-se, não apenas enquanto marcador do que tem ou não interesse do ponto de vista da imagem de cidade e da atração de investimento, mas, igualmente, enquanto revelador da orientação dos fluxos e da estrutura reticular do território (impondo, por exemplo, novas hierarquias nos fatores locativos e na relação entre usos do espaço e classes sociais). Mais ainda, a cultura tece as mediações e os nós que entrelaçam o campo artístico, o campo cultural, o campo político e o campo econômico, produzindo intersecções e consensos.

No modelo catalão de planejamento estratégico esta função surge com particular incidência. À cidade-mercadoria e à cidade-empresa junta-se a cidade como pátria, tapando as brechas abertas pelas resistências populares e novos movimentos sociais. Este «patriotismo cívico» ou «patriotismo de cidade», defendido por Borja, Castells e Forn, entre outros, visa alimentar a produção de identidades em torno de «obras e serviços visíveis, tanto os que têm um caráter monumental e simbólico, como os dirigidos a melhorar a qualidade dos espaços públicos e o bem-estar da população” (Castells e Borja cit. in Vainer, 2007: 94).

Ou, como Forn e Foxà referem, de modo bem explícito, trata-se de produzir um cimento simbólico-ideológico assente na “consciência ou patriotismo de cidade – eis o elemento-chave para o estabelecimento, em bases permanentes, da cooperação público-privada e para a posterior difusão do pensamento estratégico entre os agentes econômicos e sociais da cidade” (Borja e Foxà, cit. in Vainer, 2007: 95).

A produção de processos e dispositivos de identificação e projeção identitária é, não raras vezes, feita em nome do cosmopolitismo, embora siga, na verdade, os velhos preceitos do nacionalismo mais blindado. Mesmo uma difundida e vaga apologia dos espaços públicos, geralmente povoados por grandes emblemas arquitetônicos, monumentais e artísticos, assenta na recuperação da velha concepção de cidade como centro e representação do poder.

Em relação àquilo que é considerado cidade, tudo o resto se define como «periferia», «subúrbio», territórios residuais e desinteressantes. Ora, o espaço público é originalmente pensado como arena agonística, terreno de confronto e interpelação, locus de formação dialógica da opinião pública. O patriotismo de cidade usa, pois, a cultura como máquina e fabulatória de um encontro imaginário de todos perante algo que os transcende e hipnotiza, anulando a política da diferença: grandes eventos, «bairros culturais», «cidades da arte», megaequipamentos, complexos museológicos, etc.

Efeitos não pretendidos do planejamento estratégico

Muitos dos balanços entretanto elaborados a propósito do impacto do planejamento estratégico na revitalização de cidades e regiões sugere um possível esgotamento do modelo, apesar de inegáveis efeitos diretos (no emprego e nas receitas), indiretos (turismo, transportes, restauração, edição, informação, etc.) e ainda induzidos (competências, redes, imagem – Costa, 2007).

Na verdade, a armadilha existia, desde o início, como paradoxo: se tudo é passível de encantamento nada se diferencia; se tudo é cultura, nada é cultura; se tudo é Cézanne, nada é Cézanne. A enorme sede de protagonismo urbano na competição entre cidades levou, de fato, a uma cartilha de intervenções, legitimada por uma “retórica do criativo” ou da pancriatividade. A animação, a patrimonialização, a espetacularização, a ludificação, a esteticização ou a gentrificação geraram-se através de simulacros de simulacros, originando, no final, uma constrangedora homogeneidade e um quase receituário com fraco enraizamento e especificidade territorial, revelando uma propensão para a queda no mainstream e no franchising cultural (tipo Guggenheim).

O investimento no simbólico, por outro lado, descurou as dimensões materiais. Ao invés da coesão e integração sociais, a descontinuidade sócio-espacial aumentou nas grandes urbes, provocando ambientes de desconfiança, hostilidade e mesmo agressividade entre distintos grupos e classes sociais.

A enorme sede de protagonismo urbano na competição entre cidades levou a uma cartilha de intervenções, legitimada por uma “retórica do criativo” ou da pancriatividade. A animação, a patrimonialização, a espetacularização, a ludificação, a esteticização ou a gentrificação geraram-se através de simulacros de simulacros,

Cresce, aliás, a tendência para a construção do que Caldeira (2003) apelida de espaços públicos não modernos e não democráticos: enclaves, casas, ruas e praças muradas, condomínios fechados, etc. No dizer de Carlos Vainer, as esferas políticas locais atrofiaram-se e a city procurou substituir a polis. A World-class-city, acrescentaria, substituiu a diversidade e a interculturalidade (que nada devem à lógica descendente e paternalista da «tolerância» snob das “classes criativas”).

Por outro lado, ao fazer-se uma economia da diversidade de situações de partida e da diversidade de metodologias institucionais e organizacionais (Costa, 2007), o pensamento criativo revela-se enquanto pensamento pobre, guiado, na verdade, por um pensamento único sobre a viabilidade das cidades.

Mesmo ao nível do sector cultural, avanços significativos na esfera da oferta (equipamentos e infraestruturas, competências dos recursos humanos, alguns desenhos organizacionais e institucionais inovadores, certas dinâmicas sustentadas e sistemáticas de políticas públicas) não encontram eco do lado da procura, mantendo-se, no essencial, a mesma composição dos públicos assíduos e fidelizados.

Ainda a animação cultural

Apesar de, no essencial, me identificar com as análises de Harvey, Arantes, Vainer e Caldeira, creio que importa superar algum reducionismo de cariz ideológico, patente, em particular, em Arantes. A crítica radical que desenvolve contra a animação cultural deveria, na verdade, dirigir-se às suas modalidades colonizadas e domesticadas. Jaume Trilla (2004), por exemplo, realça a intensa conflitualidade teórica que anima a animação…Paradigmas tecnocratas conflituam com paradigmas interpretativos e fenomenológicos e com modelos sócio críticos.

Estes últimos, assentes em pedagogias dialógicas, reflexivas e críticas recusam a instrumentalização da cultura para usos de legitimação dos poderes instituídos (usos que Arantes denuncia, ao considerar que a cultura acaba por ser um mecanismo de encenação da própria ideologia que anima os políticos que a produzem). Por outro lado, existe um vasto manancial, já avaliado e validado, de experiências emancipadoras levadas a cabo dentro do paradigma da democracia cultural (ou de que apelidei de políticas culturais de terceira geração – Lopes, 2003 e 2007), entendida como:

i) Em primeiro lugar, uma clara negação de qualquer conceito de cultura como “ornamento de espírito, sinal de distinção social, modo de supremacia dos iniciados sobre os demais, dotado de linguagens reservadas e de ritos particulares que excluem aqueles que os ignoram” (Crevoisier, 1979: 12); negação peremptória, enfim, dos usos hierarquizados e hierarquizantes, classificatórios e estigmatizantes da cultura como violência simbólica ou forma de infligir sofrimento, infelicidade e humilhação a outros sujeitos sociais;

ii) Em segundo lugar, uma opção: a democracia cultural entronca num direito à cultura, simultaneamente individual e coletivo, devedor de uma concepção de serviço público centrado na própria ideia de liberdade: só há democracia cultural na dignificação social, política e ontológica de todas as linguagens e formas de expressão cultural e na abertura de repertórios e de campos de possíveis, condição sine qua non para a expressão e escolha livres.

Tal não significa abdicar de critérios de qualidade, mas sim ter como subjacente o questionamento do caráter universal desses critérios, bem como a explicitação da sua construção inter subjetiva, provisória e, necessariamente, conflitual.

iii) Em terceiro lugar, a democracia cultural aponta para uma incidência transversal: na criação de bens e obras culturais, na sua distribuição e recepção. Uma concepção de democracia cultural assente apenas na familiarização, pela via da recepção, a todos os códigos e modos de expressão (numa acepção ideal típica), seria uma versão diminuída e ineficaz.

José Madureira Pinto (1994), num artigo tornado clássico, afirma claramente intenções de democratização do campo da produção cultural: “propiciar a segmentos populacionais vastos, sobretudo das camadas populares, o contacto com as formas culturais mais exigentes em termos dos instrumentos estético cognitivos necessários à sua descodificação e fruição (alargamento de públicos), procurando, de forma tão sistemática quanto possível, que a recepção da obra se prolongue em aproximação empática ao ato criador (participação) e que esta última promova a prazo uma intervenção autônoma e auto enriquecedora ao nível da criação (democratização da esfera da produção cultural)

iv) Em quarto lugar, importa colocar a formação de públicos no centro da democracia cultural. Este conceito implica a destruição sistemática do conceito mítico de público, no singular, espécie de comunidade imaginada ao serviço de uma coletividade de práticas rituais, nomeadamente alicerçada na integração e coesão sociais sob o manto diáfano da ideologia dominante.

De igual modo, esta proposta de democracia cultural é incompatível com a noção de utente, consumidor ou visitante. Impõe-se, por isso, uma sociologia dos usos e dos modos de relação com a cultura, para desocultar a diversidade na mirífica ficção de igualdade patente na concepção singularizada e homogênea de público – uma espécie de suspensão mágica das desigualdades sociais.

v) Em quinto lugar, a defesa da socialização institucional na formação de públicos obriga à invenção de uma nova profissionalidade, em particular no que se refere às funções de interpretação (nomenclatura anglo-saxônica) ou de mediação (classificação francófona).

Esta nova profissionalidade, enquanto processo dinâmico de comunicação entre as instituições e os seus públicos, longe de ser meramente um sector pericial, especializado e acantonado nos organogramas das instituições deve fazer valer a sua transversalidade, disseminando-se pelas competências das várias categorias de intermediários culturais (conservadores, gestores, administradores, curadores, comissários, programadores, animadores, mediadores…).

Trata-se, afinal, não só de facilitar a familiarização com a obra de arte através de uma nova cultura organizacional, mas de plasmar o respeito pelas apropriações e usos dos espaços e equipamentos culturais, nomeadamente através das múltiplas interpretações e pontos de vista que a relação com as obras suscita e que na base do ofício de público.

Desta forma, é possível, assim o creio, superar o patamar de uma crítica certeira e oportuna, mas com laivos de reducionismo e fatalismo, em direção a uma institucionalização da cultura e dos modos de relação com a cultura relativamente autônoma face a usos instrumentais, subalternos e extrínsecos, recuperando quer o perfil intelectual, reflexivo e crítico dos novos intermediários culturais, quer certa dádiva e gratuitidade na instauração de espaços públicos urbanos modernos e democráticos.”

————–

Vírus novembro/dezembro 2009 [29] cidades invisíveis
bibliografia

ARANTES, Otília (2007), “Uma estratégia fatal. A Cultura nas novas gestões urbanas” em AAVV, A Cidade do Pensamento único. Desmanchando Consensos. Petrópolis: Vozes.
BENJAMIN, Walter (1997), “Paris, capital do século XIX” em Carlos Fortuna (org.), Cidade, Cultura e Globalização. Oeiras: Celta.
BORJA, Jordi e FORN, Manuel de (1996), “Políticas da Europa e dos Estados para as cidades” in Espaço e Debates, nº 39.
BOURDIEU, Pierre (1989), O Poder Simbólico. Lisboa: Difel.
BUCHENHORST, Ralph e VEDDA, Miguel, editores (2008), Observaciones Urbanas: Walter Benjamin y las Nuevas Ciudades. Buenos Aires: Gorla.
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio (2003), Cidade de Muros. São Paulo: Edusp.
COSTA, Pedro (2007), Da Economia Criativa à Cidade Criativa: alguns contributos para reflectir sobre o caso português. Lisboa: Fórum Cultura e Criatividade (Working Paper)
CREVOISIER, J. C. (1979), Des Pratiques Sócio-Culturelles à Une Politique de l’Animation. Montier : Conseil de l’Europe.
FLORIDA, R. (2002), The Rise of the Creative Class: and how it’s transforming work, leisure ,community, and everyday life. New York: Basic Books
HARVEY, David (1992), Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola.
LANDRY, Charles (2005), The Creative City. London: Earthscan Publications.
LASH, Scott e URRY, John (1994), Economies of Signs and Space. London: Sage.
LOPES, João Teixeira (2003), Escola, Território e Políticas Culturais. Porto: Campo das Letras.
LOPES, João Teixeira, Da Democratização à Democracia Cultural. Uma Reflexão sobre Políticas Culturais e Espaço Público. Porto: Profedições.
OLIVEIRA, Ana e PINTO, Liliana (2008), Território de Culturas. Desenho de um «cluster cultural emergente» na Baixa do Porto. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
PINTO, José Madureira (1994), “Uma reflexão sobre políticas culturais” em AAVV, Dinâmicas Culturais, Cidadania e Desenvolvimento Local. Lisboa: Associação Portuguesa de Sociologia.
QUEIRÓS, João (2007), O Lugar da Cultura nas Políticas de Reabilitação de Centros Urbanos: apontamentos a partir do caso do Porto. Porto: Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
QUEIRÓS, João e RODRIGUES, Vanessa (2005), Recriar a Cidade. Dinâmicas culturais emergentes e reabilitação urbana da Baixa do Porto. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
RABAN, Jonathan (1974), Soft City. The Art of Cosmopolitan Living. London: Dutton.
SIMMEL, Georg (1997), “A Metrópole e a vida do espírito” em Carlos Fortuna (org.), Cidade, Cultura e Globalização. Oeiras: Celta.
SMITH, Neil (2002), “New globalism, new urbanism: gentrification as global urban strategy”, in Antipode, vol. 34, n.º 3.
TRILLA, Jaume (org.), Animação Sociocultural. Lisboa: Piaget.
VAINER, Carlos B. (2007), “Pátria, empresa e mercadoria. Notas sobre a estratégia discursiva do planejamento estratégico urbano” em AAVV, A Cidade do Pensamento Único. Desmanchando Consensos. Petrópolis: Vozes.

A ‘neguinha’ Caetano não é santa não. Santo Amaro e a purificação racial do Brasil


Creative Commons LicenseATENÇÃO:Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.
Caetano Veloso no carnaval da Bahia de 1971 -Revista Realidade - Upload SCaetano Veloso no carnaval da Bahia de 1971 -foto Revista Realidade – Upload Spirito Santo

Caetano Veloso relendo Nabuco escreve o racismo por linhas tortas.

…”Compare-se com o Brasil atual da escravidão o ideal de pátria que nós, abolicionistas, sustentamos: um país onde todos sejam livres; onde, atraída pela franqueza das nossas instituições e pela liberdade do nosso regime, a imigração europeia traga, sem cessar, para os trópicos uma corrente de sangue caucásio vivaz, enérgico e sadio, que possamos absorver sem perigo, em vez dessa onda chinesa, com que a grande propriedade aspira a viciar e corromper ainda mais a nossa raça; um país que de alguma forma trabalhe originalmente para a obra da humanidade e para o adiantamento da América do Sul.”

(Joaquim Nabuco em ‘O Abolicionismo”- 1863 )

(Notaram o ódio racial escorrendo contra os chineses ? O desprezo pelo ‘vício’ e pela ‘contaminação racial’? Pois é. Isto é Joaquim Nabuco. Para quem sabe ler um pingo é letra.)

Os adeptos da teoria do ‘elogio à mestiçagem’ me aborrecem sempre com seus sofismas arcaicos e o poder desmedido que têm como formadores de opinião, bambambans da mídia no Brasil, quando o tema é racismo, abafando, omitindo – e, as vezes até mesmo censurando – todo discurso que não se enquadre no seu modelito gilbertofreiriano da Democracia Racial. O contraditório para eles precisa ser indizível, invisível. Adoram um ‘neguinho pai João’.

De Caetano Veloso então – este, que beirando o cabotinismo se pretende sempre o mais cult e descolado entre todos – nem falo muito. Me irrita profundamente as suas recorrentes e pseudo militantes odes ao ‘Abolicionismo Tardio’, citando e resenhando Joaquim Nabuco, como se escravidão no século 19 e racismo no século 21 fossem uma mesma questão fortuitamente resvalada do passado para o presente.

Presunçoso como sempre, em O Globo de hoje em pleno Dia Nacional da Consciência Negra, tentando ser provocativo, não é que Caetano assume na maior cara dura a função de desqualificador das comemorações do 20 de Novembro e, por tabela, inviesadamente – como é do feitio de sua verve – subestimando os protestos contra o racismo e as demandas por direitos civis e ações afirmativas para negros, etc.?

Só faltava esta! Será o benedito?

Bem, até aí nada de novo. Esta tem sido bem a cartilha seguida pelos colunistas de arte e cultura deste e de outros grandes jornais do Brasil quando o assunto é negritude nacional e racismo. Ocorre contudo que Caetano não é um colunista qualquer. Caetano é…’neguinha’, Caetano tem uma carreira muito bem sucedida baseada em boa parte nestas coisas de cultura axé baiana, afro brasileira, cultura negra enfim.

Caetano saía no Ylê Ayê, no Filhos de Ghandi – não é gente? – naquela Praça Castro Alves que ele mesmo disse que era do povo.

Lá para as tantas, neste seu artigo dominical nosso herói quase soa ridículo ao tentar (com mal disfarçado ressentimento, diga-se) refutar a antropóloga Liv Sovik da UFRJ – que teria afirmado que ele vê o racismo ‘sob os olhos do senhor’ – para no mesmo embalo, não se sabe se por incoerencia ou distração, partir para a rememoração saudosa das glórias da …ops!…‘redentora’ Princesa Isabel (para ele, ao que parece a antítese de Zumbi de Palmares).

Na parte mais expressiva de seus desvios eugenistas do texto deste domingo (20/11/2011), afirmando que ‘neguinho é todo mundo’, Dom Veloso meloso, tece loas e mais loas às festas de 13 de Maio (a sua antítese para o 20 de Novembro) de ‘sua’ Santo Amaro da Purificação onde – como ficamos sabendo por ele mesmo – as comemorações tradicionais pela ‘libertação‘ dos escravos foram criadas, ditadas, promovidas, e até mesmo dirigidas  (o irmão é o secretario de cultura local) por pessoas de sua família, uma espécie de ‘clã Sarney do reconcavo, dona de tudo e de todos por ali.

…”A escravidão é um mal que não precisa mais ter as suas fontes renovadas para atuar em nossa circulação, e que, hoje, dispensa a relação de senhor e escravo, porque já se diluiu no sangue. Não é, portanto a simples emancipação dos escravos e ingênuos que há de destruir esses germens, para os quais o organismo adquiriu tal afinidade.”

(Dizia ainda Nabuco em ‘O Abolicionismo”- 1863)

Que bobagem! Todo mundo leu Nabuco. Quem não passou, mesmo que por alto por um texto dele na escola? Nabuco é o pensamento oficial sobre o assunto escravidão. Nabuco é ‘o olho do (bom) senhor’, ora pois!

O que Caetano e sua ‘tchiurma’, do alto de sua empáfia burguesa parecem não se dar conta, é que alguns não só leram Nabuco, como o leem também nas entrelinhas (que nem são tão entrelinhas  assim). Basta o exercício da mais prosaica perspicácia, lendo Nabuco sem adoração, para ver revelado ali aquele arcaísmo mais rançoso, o racismo reciclado, camuflado de ponderação, cheio de artimanhas desta gente bronzeada que se julga cheia de si e de valor, esta gente ‘diferenciada’ que pontifica hoje com ares de sabichona nas colunas de grandes jornais como O Globo e tantos outros.

(Gente! Não fosse coisa do século 19, isto de adorar Nabuco é pensamento ultrapassado desde a década de 40 do século passado!).

No fim, arrotando ignorante sapiencia – porque supõe arrogantemente que discorda dele não lê, não tem ‘embasamento teórico’ para rebatê-lo- Caê sugere que se leia –nós, no caso – o artigo ‘O Abolicionismo’ de  Joaquim Nabuco (seu guru, mais até do que Freire que ele também já afirmou adorar), enfatizando – Oh! – que o texto pode ser baixado de graça no Google, faltando pouco para nos mandar (pobres miseráveis analfabetos ‘sem-computador’ que seríamos)… passar numa lan house para ‘baixar’ o texto.

Nem precisa. Coloquei aqui no post o link do texto e partes significativas dele pra vocês nestas notinhas de meio aí.

Dá pra se entender perfeitamente lendo nosso eterno ‘modernista tropicalista’ , como funciona a cabeça da classe média do Rio, entre outras classe médias por aí, esta gente que aplaude tropas militares invadindo favelas. Em pleno século 21 ainda sonham com o embranquecimento compulsório da população, almejando a ‘purificação’, da suposta raça brasileira (a gentalha) por meio da extinção física lenta e gradual dos ‘mais negros’, uma faxina étnica ou…estética (mais sonhada do que possível) travestida de benemerência, caridade e chamamentos à paz universal.

Ora o pensamento deles – sutil como pata de elefante para quem o jugo dele padece – é o mesmo pensamento seminal do racismo à brasileira, introjetado como estigma de ferro em brasa em nosso imaginário ‘culto’ desde lá detrás, nos primeiros 50 anos do século 20, por Nabuco e Freire, entre outros.

Só não vê quem não quer.

No fundo no fundo este pensamento – que por não poder mais ser claro, assume a feições do cinismo, da dissimulação e do sarcasmo – repete ad infinitum o velho projeto pré nazista de Nabuco que por baixo do seu ‘abolicionismo’, propunha a abolição da escravatura (hoje pregam a inexistência do racismo) para, na verdade facilitar a importação de trabalhadores brancos europeus e, no processo extinguir todos os vestígios genéticos da raça negra no Brasil em… 100 anos (hoje tentam desqualificar as lutas e demandas por direitos civis para negros negando a  própria existencia de…negros).

Pois sim. Escravidão forever, não é isto?

…” O trabalho livre, dissipando os últimos vestígios da escravidão, abrirá o nosso país à imigração européia; será o anúncio de uma transformação viril, e far-nos-á entrar no caminho do crescimento orgânico e portanto homogêneo. O antagonismo latente das raças – a que a escravidão é uma provocação constante, e que ela não deixa morrer, por mais que isso lhe convenha – desaparecerá de todo.”

(Ainda Nabuco em ‘O Abolicionismo”- 1863 )

Nabuco pelo menos assumia este propósito dissimuladamente eugenista mais claramente.

Vamos combinar então: O pensamento de Nabuco é lixo ideológico hoje gente. Vale como história das raízes de nossas iniquidades sociais mais arraigadas. O pensamento de Caetano não (que lástima!). Este é doença, puro veneno tropical.

————
Em tempo: A leitora Maria Paula Adinolfi via Facebook afirma que Caetano mente e omite sobre o “Bembé do 13 de Maio” de Sto Amaro da Purificação, BA. Veja a verdade sobre a festa aqui neste link.

Spirito Santo

20 de Novembro de 2011

 

No fétido pantano da cidade construída sobre os ossos de seus escravos


Creative Commons LicenseATENÇÃO:Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Brasil: Sociedade asquerosa de pútridas memórias insepultas

A antiga rua ‘rua do cemitério’ de 1830 no bairro carioca da Gamboa, hoje se chama Rua Pedro Ernesto. Trabalhei lá nos anos 80 no Centro Cultural Municipal José Bonifácio, que um dia teve a função, nunca assumida formal e verdadeiramente pela prefeitura de ‘Centro de Referencia da Cultura negra do Rio’. Hoje, em pleno ano do afrodescendente, corre a notícia de que o prédio vai virar uma repartição da prefeitura ligada à gestão das obras para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. É o velho descaso de sempre pela memória de nós todos.

As ações ligadas à cultura negra tentadas no Centro Municipal José Bonifácio nunca deram muito certo, apesar do esforço de algumas abnegadas direções. Dizia-se nos primeiros anos, ali pelo final dos anos 80 que havia uma ‘caveira de burro’ enterrada sob ele.

Poucos anos depois se descobriu a confirmação da lenda, que era pior ainda como verdade: O Centro cultural – uma antiga escola pública do tempo de D. Pedro II – havia sido erigido quase sobre um cemitério de vítimas africanas do tráfico negreiro: O Cemitério dos pretos novos’.

Todo o quarteirão onde o Centro Cultural está assentado era contíguo a um outro quarteirão onde existiu um imenso depósito dos ossos de antigos cadáveres de negros africanos recém chegados ao porto do Valongo que faleciam quando desembarcavam de doenças adquiridas na horrorosa travessia, depósito este exageradamente denominado de “cemitério”

Enojado, já havia postado uma matéria recentemente – a qual relinko aqui– sobre os detalhes históricos (eloquentes documentos da época) desta aberração colonial que não ocorreu apenas na Rua Pedro Ernesto.

A cena descrita abaixo não é menos dantesca, eu a extraí agora mesmo de outra matéria sobre o ‘cemitério dos pretos novos’ publicada em O Globo. É de dar náusea até nos mais frios e indiferentes. Para mim ela é o mais incisivo exemplo da frieza degradante e criminosa de nossa elite, frieza renitentemente perpetuada em nosso odioso racismo, cujos reflexos estão aí mesmo para todo mundo ver.

“…Outra surpresa dos arqueólogos  é relacionada ao estado precário dos vestígios. Ao contrário do que se pensava, os ossos não estão quebrados  só por causa da má conservação daquele sítio arqueológico.

_ Os ossos dos mortos eram quebrados pelos funcionários do cemitério – destaca –Como a vala comum era reaberta várias vezes e estava cada vez mais cheia, a solução para que novos corpos coubessem debaixo da terra era partir os ossos dos que estavam lá dentro.”

————-

Spirito Santo

Novembro 2011

 

 

 

Chico Rei. O filme e a música dentro do filme / post#01


Creative Commons LicenseATENÇÃO: Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

“…O épico Chico Rei deu continuidade ao projeto de um cinema histórico mais atento às elaborações mitológicas que ao rigor das versões acabadas. Lima Jr. usa a história do primeiro escravo a se tornar dono de ouro no Brasil para investigar as suas próprias raízes negras. O Grupo Vissungo, em sua fusão de arte e militância, teve papel decisivo na formatação sonora do filme, que ainda mobilizou ícones da música negra brasileira como Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Naná Vasconcelos e Geraldo Filme. Chico Rei assinalou também a primeira colaboração direta de Wagner Tiso numa trilha de Walter, parceria que iria se repetir em três dos quatro filmes seguintes do realizador.

Em ‘Um cinema que quer ser música’ artigo de Carlos Alberto Mattos, Publicado na revista Veredas -CCBB/Rio, Nov-2000

Chico Rei, o filme é oficialmente de 1985. As locações no entanto são de bem antes. O roteiro original era do novelista da TV Globo Mário Prata e baseava-se no romance histórico de Agripa de Vasconcelos.

Não havia nenhum rigor historiográfico neste roteiro inicial (o próprio romance, a meu ver sofre de problemas incontornáveis neste sentido), coisa muito comum na história do negro no Brasil, entregue geralmente a sanha de curiosos e abnegados romancistas que misturam lendas da história oral mal contadas com suposições estapafúrdias e chavões recorrentes, geralmente ligados a um Candomblé fake destes pra inglês ver.

Com o roteiro de Mário Prata para ‘Chico Rei’, portanto não aconteceu diferente. Não li o roteiro de Mário, mas soube por Walter Lima Júnior, diretor do filme que, efetivamente assumiu o projeto no final da década de 1970, que o roteiro original teria que ser retrabalhado em muitos pontos para poder virar bom cinema.

Conheci um pouco certos aspectos da construção do filme e em circunstancias algo especiais, porque o  Grupo Vissungo  ao qual pertenço até hoje (pesquisa da música de a cultura negra do Brasil em geral), antes mesmo de ser cogitado para se incumbir da música do filme,  teve a honra de assessorar – de maneira meio que fortuita e informal é verdade – ao Walter Lima em aspectos que depois se mostraram cruciais á produção.

Entre estes aspectos se destacou a própria definição, digamos… étnica dos escravos habitantes da Minas Gerais do século 18, questão que havia sido resolvida pela produção (de José Eugênio Müller, a quem o vídeo acima erroneamente atribui a…direção do filme) de maneira totalmente equivocada, importando um grupo de importantes artistas negros da Bahia (o grande ator Mário Gusmão como decano deles), julgando de forma como disse, apressada e recorrente, que a cultura de TODOS os negros do Brasil seria…nigeriana ou algo assim, ligada portanto, diretamente ao Candomblé e às demais características da cultura afro-baiana em geral, especialidade daquele elenco.

Nada a ver.

O fato, que acabou sendo providencial, é que nós – que estávamos em Ouro Preto, a princípio por acaso, fazendo uma pesquisa de campo sobre congadas locais- éramos pesquisadores exatamente daquelas coisas bantu que faltavam ao roteiro do filme. Sopa no mel para o meticuloso diretor, autor de clássicos de nosso cinema ‘Novo‘ ou moderno, como ‘Menino de Engenho’, Lira do Delírio, ‘ A Ostra e o Vento’, entre outros.

O certo é que, em conversas bem animadas com Walter Lima – as vezes até ‘convocados’ por ele – eu e meu parceiro de Vissungo Samuka de Jesus, tomando cachaça com mel e muita caipirinha na Praça Central de Ouro Preto, acabamos colaborando com a concepção estética de algumas cenas, principalmente aquelas que envolviam manifestações culturais de negros africanos no filme (a cena final do filme, por exemplo,  com vários grupos de congada, foram produzidas e coordenadas inteiramente por nós).

Walter ficou mesmo muito ‘passado‘ (embora entusiasmado) quando soube que o suposto Galanga da história, o afamado Chico Rei de seu filme, se com toda certeza tinha vindo do Kongo ou de Angola, um lugar destes aí de gente bantu, muito distante portanto da Nigéria, com toda certeza também devia praticar uma cultura completamente diversa daquela afro-baianitude óbvia armada pela produção do filme.

Neste trailer aí de cima, dois flagrantes musicais bem ilustrativos: Na cena em que Chico-Galanga recebe a carta de alforria, a música cantada é deste autor que vos fala (com Samuka de Jesus). Ela se chama ‘Chico Reina’ e foi composta especialmente para Clementina de Jesus cantar no filme. Já muito adoentada, contudo Tia Kelé só conseguiu gravar a introdução que é esta que rola ao fim da cena (sendo este, aliás o último registro gravado em estúdio da voz de Clementina, pois, a diva negra faleceu meses depois desta gravação). O jeito foi eu mesmo gravar a canção propriamente dita – o seguimento dela – que aparece completa no vinil/ CD da trilha sonora, produzido posteriormente pela Som Livre, já disponível na rede.

Ao final do trailer – numa cena da qual eu gosto muito por causa do lirismo selvagem e meio surrealista que emana dela, o grande ator Mário Gusmão dubla o som de uma kalimba, também entusiasmadamente tocada por este Titio aqui que vos fala.

Panos para mangas, a questão do rigor étnico ou antropológico, foi crucial para este filme saga , que não poderia em nome da irrecorrível posteridade que uma obra de cinema almeja, abrir mão em nenhum aspecto de seu rigor estético (histórico por suposto).

(Como se pode constatar muito bem hoje, Cacá Diegues negligenciou tanto este aspecto no seu “Quilombonagô tropicalista que acabou realizando um filme contrangedoramente ruim, risível, quase ridículo quanto mais a posteridade o ilumina).

A saga do filme tem muitos outros mirabolantes eventos, tais como o ‘sequestro‘ para Hamburgo dos copiões pelos co-produtores  alemães do filme, em meio à conflitos na relação com a produção brasileira. A demanda (que interrompeu bruscamente as locações finais) demorou muito tempo para ser acertada e influiu, diretamente na montagem do filme, cuja edição final – a história e sua trama em si – teve que ser criada na moviola. Sei disto e falo assim sem pejo porque também, de vez em quando estava lá na sala de montagem – ainda à convite – dando uma força, digamos etnológica ao valoroso Walter Lima Júnior e ao não menos valoroso montador Mário Murakami.

Bem, mas isto é história para ser ruminada em posts seguintes que animada e eventualmente escreverei daqui para a frente. Leiam e vejam um outro filme por dentro do filme.

Spírito Santo

Novembro 2011

A guerra do Rio e Deley de Acari:Tropas saqueiam “inimigos” favelados!


Rocinha é festa. Acordem. Já era. Olhem agora para a favela de Acari, para o Complexo da Maré.

Conheço Deley de Acari (Vanderley da Cunha) desde a década de 70. Deley integrou o grupo de escritores poetas ‘Negrícia’. Deley foi repórter e pesquisador de campo do meu Grupo Vissungo. Com Deley esquadrinhei varias vezes os mais recônditos quilombos de Minas Gerais. Já naquela época, como um correspondente de guerra, fazia a cobertura das injustiças policiais e sociais de sua favela que publicávamos no jornalzinho mimeografado que o Vissungo destribuiu durante alguns anos.

Antes que a moda pegue uma ressalva importante a fazer é que Deley de Acari, grande poeta dos seus, NÃO é nem NUNCA foi ‘mediador de conflitos’. Deley é ativista pelos direitos humanos de seus vizinhos de Acari, comunidade favelada das proximidades da Av.Brasil, num destes infernais complexos de favela que proliferam por aqui.

Deley não é de médias nem de muros. Deley não tem uma ONG como retaguarda nem trabalha a serviço do Estado. Deley é um homem não governamental e sem fins  lucrativos. Deley é.

Dito isto, leia você mesmo e, por favor divulgue para o máximo de pessoas que você puder o dramático relato de Deley que divulgo a seguir.

Deixo como advertencia a minha forte impressão de que cada vez mais vamos precisar uns dos outros daqui para a frente. Não é ‘pacificação’ o que o Estado está fazendo nas favelas do Rio de Janeiro. Eles estão atacando e ocupando como um exército convencional a parte mais indefesa – e majoritária – da população de nossa cidade.

Eles são as tropas de ocupação. O que o Estado está fazendo é Guerra. O inimigo a princípio foram os traficantes, agora são os favelados indefesos, logo em seguida seremos eu e você. Estão implantando aqui a DITADURA MILITAR SELETIVA. Você ainda não viu não?

Vai apoiar ou protestar? Vai encarar, defender o Deley e seus Acaris ou vai pedir pra sair?

“Acari, jamais deveria ter voltado. Estou contando as horas de sair!”

“PMs INVADEM E SAQUEIAM CASA DE MORADORES EM ACARI.

Por Deley de Acary

Nesta 6ª Feira passada, dia 11 de Novembro, recebi a o primeiro aviso de um morador, que a casa dele estava sendo invadida por pms as 06h40 da manhã. Na noite anterior, ao fechar a janela do quarto, sofri uma forte pancada no braço doente, e acordei com dores insuportáveis, que me acompanharam por toda manhã, até ás 11h e pouco, mais ou menos a hora que os pms foram embora. Atualmente, o presidente da associação de moradores mora fora da favela, e só chega em Acari lá pras 10h00. De maneiras que,hoje, o único defensor de direitos humanos, a disposição, pra botar a cara e sair pra pista, 24 horas por dia em Acari, sou eu.

Durante toda operação meu telefone não parava de tocar… por uma vez tocou quando bati de frente com o caveirão, e por duas vezes, nos exatos momentos em que bondes de pms com X9 passavam por mim.

Quando fui atender um morador cuja a casa estava sendo saqueada pelo pms, dois pms acompanhados de um X9 me barraram e um tenente que nunca vi antes me disse: não esta escoltando policia não né seu vanderley? antes de perguntar como ele sabia meu nome, olhei pro X9 e reconheci os olhos verdes e a pequena cicatriz sob a pálpebra do olho esquerdo, que o buraco da toca ninja não consegui esconder. Nem precisa perguntar como o tenente sabia meu nome. Isso era 07h15 da manhã e nenhuma organização de direitos humanos, governamental ou não governamental, funciona este horário. Tive que recuar e me proteger… só as 10h30, hora que abriu uma lan hause, consegui mandar o primeiro e-mail pra Band Rio. Nesta hora os pms já estavam saindo da favela com o tesouro de sua pilhagem.

Fui a casa da moradora que foi saqueada e fui recebido com xingamentos, criticas e acusações de não ter impedido que os pms violassem seu domicilio e a esculachassem. Tentei esclarecer a ela que estava na rua dela tentando intervir e tinha sido ameaçado pelo pms. Ela retrucou com grosseria que eu estou “aí” pra isso mesmo e por isso tenho e posso que botar a cara.

Mais tarde, lideres comunitários, outros moradores, a até alguns “meninos” mais “embalados”, também me “cobraram” por minha incompetência como defensor de direitos humanos.

De noite, estava sentado na escadinha da quadra de areia, quando a jovem que eu salvei de ser morta com uma paulada na cabeça, passou de braço dado com seu companheiro, quase seu assassino, e meu mutilador, para aula de capoeira. Ao meu lado, um líder comunitário e militante cultural me sacaneia:- Ta vendo como você é um babaca metido a feminista otário: os dois estão no bem bom, e você ai aleijado, isso é pra deixar de ser otário, da próxima vez deixa se matarem… e você ainda ficou 37 dias internado e nenhuma feminista, ou amiga sua ou ong feminista fez nada até agora por você ou deu alguma nota pública em solidariedade a você.. Sequer foram te visitar no hospital. As feministas de esquerda e este povo dos direitos humanos que você paga pau querem mais é que você se foda… Você tá pensando que é Marcelo freixo, seu mané?

Levantei, coloquei os fones do celular nos ouvidos fui pra casa ouvindo a Oi fm e me sentindo mesmo um babaca metido a feminista otário. Mais babaca e otário por ter voltado pra Acari, ao em vez de ter ido me restabelecer em Juiz de Fora, onde ninguém de Acari, me ligaria, como me ligavam, pro meu celular, no hospital, não pra saber, se eu estava bem, mas pra reclamar de violência policial… talvez, se estivesse em Juiz de Fora agora, na casa do meu tio, me restabelencendo, nenhum morador me esculacharia por não impedir que a policia invadisse sua casa, nem nenhum compas de luta me “marcaria” como babaca metido a feminista.

Desde 6ª Feira então, militante de direitos humanos aleijado e incompetente, e e babaca metido a feminista otário e mané, que se não sou, ainda me sinto, até acabar sendo mesmo, vou contando as horas, pra sair em definitivo de Acari, pra onde jamais deveria ter voltado!

Enquanto vocês estão dando atenção a rocinha, policiais do 41 de irajá, neste exato momento estão invadindo e saqueando casas de moradores na favela de Acari e Amarelinho, sem a presença da imprensa.”

Em sex, 11/11/11, Deley de Acari

Então:
venho ratificar a informação que dei a Band de manhã. o meu telefone mais facil é 95834968- Deley de Acari

——————–

Para se solidarizar com Deley mande emails para : ouvinterj@band.com.br

Vanderley da Cunha.

Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos de Acari. 

Telefones: 8198 2643 e 9583 4968

A Literatura negra do Brasil e suas páginas em branco


Alexandre Dumas_by_Nadar,_1855 (com Machado de Assis no peito)

Alexandre Dumas (Dumas Davy de la Pailleterie para os íntimos) era um negão, sabiam?…Negão não desculpem…mulato, pardo-mestiço, já nem sei mais como se diz… afrofrancês, afrodescendent (já que era filho de uma escrava haitiana com um nobre francês) pelo menos tanto quanto foi o nosso hoje remulatizado Machado de  Assis.

Aristocrata e filho de um nobre francês – que a julgar por sua própria definição, era  ele também um mulato – Dumas, o famoso literato escreveu certa vez um pequeno romance denominado ‘Georges’, no qual tocava em questões ligadas a raça e preconceito e as relações entre estes conceitos com o colonialismo, plenamente em  voga ainda em seu tempo, ainda em sua cruenta forma original. O colonialismo das mentes, portanto em ampla voga também. Dumas contava que certa vez, respondendo a um homem que zombara de sua ascendencia mestiça se vira obrigado a dizer de forma bem direta e incisiva:

“_Meu pai era um mulato, meu avô era  um negro e meu bisavô um macaco. Como vês, Senhor, minha família começa onde termina a sua”.

Na França, berço paradigmático da mais alta literatura universal do período, meados do século 19 por aí, as coisas eram assim, como são aqui no Brasil até hoje. Mais tarde, durante o translado do corpo de Dumas para um mausoléu dos heróis da pátria francesa, Jacques Chirac, o então presidente da república francesa afirmou:

“…o racismo que atingiu  o escritor, havia sido  um erro que estava sendo corrigido enfim, com Alexandre Dumas sendo consagrado ao lado dos companheiros autores Victor Hugo e Emile Zola. Com a honraria se reconhecia que embora a França  tivesse produzido grandes escritores, nenhum deles havia sido tão lido quanto Alexandre Dumas. Suas histórias foram traduzidas em quase uma centena de idiomas, e inspiraram mais de 200 filmes.”

(Não.   Em “Os tres mosqueteiros”, clássico de Dumas não havia um que era negão – nem mesmo o excentrico D’Artangnan.  Sem viagem. Segurem esta onda afromundista que não é bem por aí não.)

Mas cá entre nós, você acharia plausível a repetição de um ato como este aí do Chirac aqui no Brasil? Claro que não. Aqui, inusitadamente, em pleno século 21, ainda se reluta em reconhecer a simples existência do racismo, a própria existência de negros, estas coisas tão escancaradas assim na nossa cara como um pancake que mais mostra do que esconde o que a gente não quer ver. O que dizer então de literatura e escritores negros?

Aqui é o Pindorama selvagem, terra de cegos pardacentos, cor de burro quando foge, onde reina o mais renitente dos racismos, o mais medíocre e cruel: O racismo das ambiguidades forjadas, o racismo das falsas aparencias, o racismo ‘cordial’.

“A literatura afro-brasileira é “um conceito em construção”, diz o professor Eduardo de Assis Duarte, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde coordena o grupo de pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira.

Contribuição significativa para o edifício deste conceito, a coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica”, organizada por ele e recém-lançada pela Editora da UFMG, reúne, em quatro volumes, uma série de ensaios e referências biográficas e bibliográficas sobre cem escritores, dos tempos coloniais até hoje…”

O conceito ‘literatura negra’ – ou o breguíssimo e politicamente correto ‘literatura afro-descendente’ – é bastante controverso sim,  vamos combinar. ‘Literatura não tem cor’ diriam alguns cínicos brasileiros ou franceses, tergiversando. Este é, contudo o único conceito literário válido por enquanto, para definir esta literatura no âmbito de uma sociedade racista como a do Brasil que isola, alija, suprime, censura e reprime meticulosamente a expressão ou a manifestação da literatura realizada por autores de ascendencia negra desde sempre.

E vai querer saber por quê?

Um doce para quem souber,  assim peremptoriamente, mas ao que parece numa espécie de surdo conluio, editores, críticos literários especializados, jornalistas e formadores de opinião em geral, por razões que, como já disse a própria razão desconhece, uma classe formada, exclusivamente por gente branca – ou que se imagina branca – age como se negros não pudessem escrever e o que é pior: como se sequer soubessem ler.

(E vamos colocar as patinhas pro céu contritos deles já estarem reconhecendo, pelo menos, que existem negros no país. Aleluia!)

Pois é desta omissão insistente, sistemática, quase messiânica da elite literária  brasileira de que trata esta iluminada antologia citada aí em cima.

Existem questões muito profundas a serem abordadas sobre este tema, camadas e camadas de bizantinas questões subjacentes. As complexas implicações de todas elas  Eduardo de Assis Duarte aprofunda muito bem em suas considerações expressas na entrevista, mas convenhamos que são questões tão gordas de ambiguidades que acabam mesmo ficando boiando na superfície beletrista dos ‘papos cabeça’, naquela  casca do ‘não é bem assim porque o buraco é bem mais embaixo’.

Está bem, mas o quanto é mais em baixo? Dá pra conversar a respeito? Claro que dá. É só querer.

Não quero ser o chato de plantão, mas confesso: Tenho mais de 6 décadas de idade  e já li trocentas resenhas e entrevistas como esta aí de cima, idênticas sem tirar nem por, todas versando sobre este mesmo assunto, com doutores e acadêmicos do mesmo modo especialistas no tema ao qual se dedicaram por toda a vida. É a mais pura verdade: A pífia participação de autores e temáticas negras na literatura do Brasil é um assunto daqueles sobre os quais quase nunca se tem novidades a acrescentar.

O Brasil tem sim autores negros – quem não sabia? – abordando temáticas relacionadas às intoleráveis condições de vida de nossa população negra ou afro descendente. Porque não haveria de ter? Tanto quanto a França do século 19 (que tinha o bom Alexandre Dumas). Existe sim, sempre existiu, embora abafada, subestimada, apesar disto e daquilo, contra tudo e contra todos, existe uma literatura negra no Brasil. Esta literatura,  embora incipiente, tem sim qualidade, é relevante e pertinente. Todo mundo que sabe ler devia lê-la e aí é que está certo xis da questão.

Quem lê esta literatura no Brasil? A quem ela se destina? A contradição entre estes dois fatores – se liguem bastante neste ponto – pode ser chave nesta discussão.

Se o perfil médio do leitor de livros no Brasil, como alguns de nós imaginamos for mesmo, exatamente aquele dos que não querem ou evitam ler esta literatura – por se sentirem constrangidos, por indiferença para com o racismo, por falta de solidariedade para com o problema ‘dos negros’, sei lá, desinteressados enfim pelo que esta literatura negra tem a dizer, ojeriza por suas temáticas que denunciam, direta ou indiretamente a escravidão passada, o racismo resultante e a afirmação de valores africanos eventualmente  contidos em nossa cultura – como seria o leitor potencial dela, aquele a quem esta literatura, eventualmente se destina?

É muito provável que, as  pessoas potencialmente interessadas no que esta ‘literatura negra’ tem a dizer seja um grupo formado por alguns poucos letrados negros e brancos, mas principalmente por aqueles milhões de iletrados, muitos semi alfabetizados talvez, aqueles que desempenham em nossa sociedade, muito mais o papel de personagens e atores de dramas e comédias rasgadas do que o de ávidos leitores de romances panfletários.

Ou seja: antes de ser racista, o mercado editorial brasileiro talvez sofra também de outro anacronismo, não menos agudo e penetrante, caracterizado por uma cena literária pífia (no sentido comercial do termo, inclusive), composta por escritores, jornalistas, livreiros e leitores ‘brancos’ conservadores, a maioria gente elitista e preconceituosa (‘diferenciada’ no dizer atual dos humoristas).

Estes leitores ‘diferenciados’ seriam por sua vez orientados em seu gosto literário – com raras exceções – por uma casta corporativista (com o perdão da redundância) formada por acadêmicos e críticos especializados, isto por um lado, e por outro, por um público potencial (embora indesejado) composto por uma massa impressionante de consumidores sub letrados, cuja cultura não se encontra de modo algum expressa nesta literatura presunçosa que o mercado de livros elegeu como sendo o ideal por ser uma cultura…de negros.

E afinal, convenhamos negros mal compram jornais populares.

(Foi por isto – reparem bem lá no link – que Eduardo de Assis chamou de utópica a pretensão desta nossa ‘Literatura Negra’ de almejar um leitor, um mercado exclusivo, do mesmo modo negro. Livros, livros a ‘mancheia’ para quem precisa? Não. Livros apenas para quem tem grana e pode consumir bens e serviços, tal é a profundidade do buraco abissal de nosso mercado editorial.)

Pois é. Talvez seja bom mesmo, aproveitarmos a boa vontade que emana deste papo para penetrar mais fundo ainda neste buraco meio saco sem fundo. Vamos nesta?

Considerando ser ínfimo o universo de pessoas letradas no Brasil – e falo apenas daquelas que consomem livros- é de se supor que o processo de aferição desta produção literária negra – no aspecto da crítica especializada mesmo, tão sintomaticamente omissa – tenha problemas bem importantes no que diz respeito à sua validade e pertinência  (e falo até aqui, para início de conversa, de literatura de maneira geral e não apenas de literatura… negra, se bem me entendem).

Imagino que já se contem às centenas as teses acadêmicas, matérias, dissertações e artigos, versando sobre o assunto Literatura Negra. Não conheço totalmente a natureza do processo que seleciona monitora e legitima os nomes e as temáticas votados para integrar estas listas, mas imagino que seja o mesmo que rege a produção literária do Brasil em geral, ou seja: os textos são pinçados no fluxo de material referente ao tema que circula no ambiente acadêmico tradicional (geralmente bancas de mestrado) onde são avaliados e legitimados – ou não – por doutores especialistas e num outro fluxo – este bem mais restrito –  de textos publicados disponíveis no mercado editorial convencional no qual estes textos ganharam alguma repercussão e notoriedade eventual.

Esta repercussão se deu, geralmente por meio da divulgação em resenhas e matérias de jornal, etc. sabe-se lá por conta de que critérios. Isto sem nos esquecermos de ressaltar o meio de divulgação principal para a fruição de textos deste tipo que são (ou foram, principalmente nas décadas de 1970/80) as iniciativas voltadas para um mercado alternativo, edições caseiras, venda de mão em mão, etc. É de se supor também que tradicionalista como é, este processo de natureza francamente acadêmica, no sentido arcaico do termo, omita de seus filtros de aferição a produção literária que circula na internet (que em sendo  mesmo fato, representa um equívoco pra lá de imperdoável).

Enfim, um universo de amplitude um tanto restrita, infelizmente no qual os agentes, os responsáveis pela escolha e a legitimação dos nomes que constam nestas listas, os juízes desta ‘canonização’ afro descendente, aqueles que decidem o que é ou não é  ‘negro’ do ponto de vista literário, são uns poucos doutores que exercem um papel por demais decisivo.

Estou sugerindo, portanto – e ouso afirmar, diretamente  – que o ambiente que legitima ou que torna, de certo modo canônica – embora Eduardo de Assis negue esta intenção em sua antologia – certa literatura produzida por negros (ou relativa a temáticas ligadas a questões da negritude) é o mesmo ambiente que legitima toda a produção literária nacional: A Academia… ’branca’, entidade ao mesmo tempo acusada de ser a algoz , a instituição que barraria a emergência desta mesma literatura.

Algo errado nesta história aí, não é não?

Entenderam a sutileza? Estou sugerindo que para começo de conversa, a legitimidade destas listas precisa ter a sua relevância relativizada – ou mesmo questionada – porque  existe um caráter claro de legitimidade tutelada, caracterizado por sugestões antológicas subalternizadas, uma contradição instalada aí que faz com que seja o ‘agente’ desta cultura hegemônica –  supostamente racista e excludente – a mesma instancia que decide quem – e o que– é literatura negra. Falo, portanto da necessidade de se avaliar mais acuradamente a natureza deste processo de definição do quem é quem ou o que nesta chamada ‘literatura negra’.

A mesma mão que afaga ser a mesma que apedreja”, é uma contradição indesejada, percebem?

É que me espanta um pouco o fato do enfoque deste assunto estar sendo sempre tão restrito e dirigido, sempre às mesmas figuras na enfadonha recorrência dos mesmos nomes repetidos ano após ano, com a inserção de um ou outro novato alçado a condição de ‘novo’ autor a cada 10, 15 anos, hiatos que me parecem extensos demais para exprimir alguma plausibilidade. Afinal, devem existir milhares de autores negros produzindo ‘literatura negra’ por aí.

Seriam mesmo tão eficientes assim os filtros que incluem ou excluem do processo, do acesso ao mercado editorial brasileiro literatos negros ou interessados em temáticas  afrocentradas? Estas listas seriam realmente um reflexo da realidade da produção brasileira no âmbito da literatura negra ou afro descendente? Este recorte realizado por estas abordagens acadêmicas recorrentes estão sendo mesmo consideráveis parâmetros?

A questão é, pois controversa demais – e esta é apenas a primeira das muitas controvérsias do tema, insisto. Carregada assim de ambiguidades tão paralisantes, surge daí então, a me instigar como pulgas na orelha, pontos que parecem também muito pertinentes para que se possa entender, minimamente  o assunto. Doa a quem doer, vamos mergulhar neles, portanto. De cabeça.

Uma questão bem cabeluda, só pra começar:

Quando classificamos – ou ‘canonizamos’- os indivíduos autores, os literatos cujos nomes constam nestas listas estamos nos referindo exatamente a que? À literatura negra  (como instancia cultural) ou a literatos negros (como categoria sócio  racial)? Ou seja: estamos nos reportando neste  caso à arte ou ao a artista? À atividade – ou atuação-  ou ao ator? À obra ou ao autor? E é nesta questão tão óbvia e – estranhamente não se sabe por que tão subjacente – que nasce a pergunta chave que não quer calar:

Como afinal se define quem é negro no contexto dos autores destas antologias? Do mesmo modo que a sociedade racista no passado embranqueceu monstros sagrados como Machado de Assis, nestas antologias não se estaria ‘enegrecendo’ certos autores, produzindo uma esdrúxula e desnecessária aproximação entre a sua temática afro centrada e a sua biotipia? Piração isto aí, não acham não?

Pois é. Este ponto em especial parece ter sido bem focado, pelo menos na entrevista por Eduardo de Assis Duarte,  mas o foi só de leve, talvez por ser um verdadeiro tema tabu, pois, afinal Machado de Assis foi eleito o ‘maior’ literato do Brasil, com a omissão cuidadosa de sua ascendencia negra, num embranquecimento oficial – auto imposto inclusive –  que  só agora acabou de ter esta branquitude eugenista desconstruída num constrangedor episódio envolvendo a Caixa Econômica Federal, no qual Machado, de branco caucasiano cliente da CEF, rapidamente após uma formidável gritaria nas redes sociais, foi promovido oficialmente a negão quase retinto, sem passar sequer por um gradual processo midiático de mulatização.

Pelo que se percebe há uma tendencia hoje de se resgatar conteúdos de negritude ou ‘afrocentricidade’ supostamente ocultos na obra do Machado de Assis. Mas sabem como é: estas coisas assim ‘ocultas’, ‘sugeridas’ em literatura são sempre ambíguas e discutíveis demais da conta.

————

Por outro lado há que se considerar outras restrições ao conceito ‘literatura negra’ não por conta do nome do ‘estilo’, mas por causa dos conteúdos que costumam predominar mesmo, em geral fechados em temáticas excessivamente recorrentes, não raro emocionalmente simplistas (“branco mau X negro bom”), calcadas numa negritude um tanto óbvia, estereotipada, maniqueísta (quando não falseada), voltada para dentro do gueto, tentando refletir muito mais o que superficialmente a elite literária negra imagina que o gueto (o leitor negro potencial) deveria, idealisticamente ser,do que o que o gueto real efetivamente é ou almeja ser.

É compreensível que, na falta de um mercado para o escoamento desta literatura afro descendente quase sempre emergente e amadora ela – seus autores – se feche e se volte para dentro de si mesma, assumindo esta tendência para a criação de um público leitor exclusivamente negro idealizado, cliente de um mercado ‘a parte’, sonhado, mas como o próprio acadêmico aponta, se configurando numa utopia em termos, pois vivemos num país com a estratificação sócio racial arraigadamente excludente.

Em terra de cego quem tem um olho é rei, mas de que vale a uma comunidade ter sempre reis caolhos?

Do ponto de vista dos autores, eu insisto, portanto que não basta escrever para  as pessoas ‘do gueto’ se sentirem orgulhosas e tal. Não basta ter o aplauso condescendente do gueto – um gueto irreal–  apenas imaginado. A qualidade absoluta deveria ser a única meta do artista, preto ou branco e não esta estética do ‘não tem tu vai tu mesmo’, esta coisa de aceitar rei caolho.

Aceitar, pois, a separação do mercado entre leitores negros e brancos como sendo uma fatalidade incontornável, uma contingência irreparável de nossa sociedade, a ponto de se almejar a criação de uma literatura, uma cultura exclusiva para negros, não me parece que seja uma solução, uma possibilidade plausível de jeito nenhum para um mercado tão carente de oportunidades.

Há com toda certeza inúmeras restrições injustas e odiosas a esta literatura feita por negros, mas o que é relevante e efetivo são as restrições interpostas às temáticas e a determinadas abordagens mais incisivas tocando em questões chaves, nevrálgicas de nosso racismo.

São sintomáticas, aliás, as sutis diferenças existentes entre a atual e alentada releitura da obra de Machado de Assis, no bom sentido sendo rapidamente ‘reenegrecida’, incrementada que está de insuspeitados conteúdos ligados a sua antes pouco evidente afrodescendencia, e a quase irrelevância dada a estes mesmos fatores e conteúdos, na obra de Lima Barreto, fatores e conteúdos estes dos quais a obra dele, Lima sempre esteve, explicitamente contida. Afinal, se literatura negra precisa ser negra na forma e no conteúdo, a obra de Lima deveria estar sendo também mais iluminada hoje, tanto quanto a de Machado está. Não acham não?

É por isto que eu penso que para que este problema específico da penetração de obras de autores negros no mercado literário brasileiro se resolva, para que cesse enfim esta inaceitável ausência de literatos negros na praça será preciso que esta literatura emergente – toda ela e não apenas àquela chancelada por bancas e antologias acadêmicas – seja lida e avaliada por todos, exercitada, testada, comentada, resenhada amplamente, fora do gueto enfim.

Por outro lado, acho que – com as exceções de praxe – falta também a esta literatura ‘negra’ – às suas temáticas bem entendido – um comportamento mais ostensivo de enfrentamento social, contra cultural mesmo, mais ousadia para partir ‘para cima’ como se diz, de partir para o desafio, para a disputa de espaço no mercado literário mesmo (disputa estética, inclusive), saindo fora deste armário temático, do gueto cômodo da expressão desta negritude recorrente, previsível baseada na exaltação de mitos arcaicos tipo ‘axé-ogum-exu-xangô, que acaba obtendo espaço e projeção apenas nas teses acadêmicas mais solidárias com a ‘causa negra’, ou em círculos afro-militantes mais fechados que, por conta deste isolamento compulsório, acabam sendo por demais autorreferentes, autorreverentes, auto complacentes enfim.

Paulo Lins, Machado de Assis, Lima Barreto, Nei Lopes, para falar apenas nos mais conhecidos ou festejados e tantos outros mais ou menos afro-centrados, não deveriam ser lidos, resenhados, criticados, tratados  apenas como ‘literatos negros’, ‘escritores afro-descendentes’ como se diz por aí com certo mal disfarçado desdém até e, não raro com doses extras de um paternalismo bem rançoso.

Abaixo o escaninho que nos isola neste contexto subreptício da subvalorização, da subestimação. Eles e todos os outros da lista desta antologia são literatos brasileiros. Ponto. O que se precisa avaliar de verdade e com isenção é se eles são ótimos, bons, medianos ou medíocres e para isto faltam-lhes leitores, mercado livre, isento de panelinhas literárias corporativas  (racistas por suposto) para que possam enfim cumprir o seu importante papel.

Hora, portanto de nós escritores negros, abandonarmos o discurso da senzala contida e da favela pacificada. Momento de sair do ‘corner’, das cordas. Hora de subverter ou inverter os papéis da novela, tempo de largar as algemas e os queixumes no quintal de casa, abolir a escravidão autocomiserativa do ‘sim sinhô’ ou mesmo do ‘ai sinhô’ que nos aprisiona e partir para a porrada, falando de tudo e de todos, de prólogos, dramas e epílogos para brancos e negros, de ontem e de amanhã, dramas de gente enfim, sem papas na escrita, sem sermos pautados por ninguém.

Como? Não sei. Editores, livreiros, críticos, pessoas do ramo, por favor, manifestem-se, desçam deste muro que não lhes pertence.

Machado de Assis e Lima Barreto – e o velho exemplo de Alexandre Dumas que usei lá em cima – cada um a seu modo, são exemplos evidentes disto aí, de que a qualidade se sobrepõe a tudo, mais cedo ou mais tarde. Extrapolaram os limites – e a tutela – que foram impostos à literatura deles e são hoje o que são: Grandes escritores negros, de algum modo voltados pra expressar a sua condição de negros sim, mas, antes de tudo grandes escritores da humanidade. De toda a humanidade. Reis com dois olhos bem abertos.

E mais não digo por que sobre o que eu penso está valendo muito mais o escrito.  Como insinuou o Dumas, o jogo de literatura  é jogo de gente, e não jogo de bicho.

Spirito Santo

Novembro  2011