A Literatura negra do Brasil e suas páginas em branco

Alexandre Dumas_by_Nadar,_1855 (com Machado de Assis no peito)

Alexandre Dumas (Dumas Davy de la Pailleterie para os íntimos) era um negão, sabiam?…Negão não desculpem…mulato, pardo-mestiço, já nem sei mais como se diz… afrofrancês, afrodescendent (já que era filho de uma escrava haitiana com um nobre francês) pelo menos tanto quanto foi o nosso hoje remulatizado Machado de  Assis.

Aristocrata e filho de um nobre francês – que a julgar por sua própria definição, era  ele também um mulato – Dumas, o famoso literato escreveu certa vez um pequeno romance denominado ‘Georges’, no qual tocava em questões ligadas a raça e preconceito e as relações entre estes conceitos com o colonialismo, plenamente em  voga ainda em seu tempo, ainda em sua cruenta forma original. O colonialismo das mentes, portanto em ampla voga também. Dumas contava que certa vez, respondendo a um homem que zombara de sua ascendencia mestiça se vira obrigado a dizer de forma bem direta e incisiva:

“_Meu pai era um mulato, meu avô era  um negro e meu bisavô um macaco. Como vês, Senhor, minha família começa onde termina a sua”.

Na França, berço paradigmático da mais alta literatura universal do período, meados do século 19 por aí, as coisas eram assim, como são aqui no Brasil até hoje. Mais tarde, durante o translado do corpo de Dumas para um mausoléu dos heróis da pátria francesa, Jacques Chirac, o então presidente da república francesa afirmou:

“…o racismo que atingiu  o escritor, havia sido  um erro que estava sendo corrigido enfim, com Alexandre Dumas sendo consagrado ao lado dos companheiros autores Victor Hugo e Emile Zola. Com a honraria se reconhecia que embora a França  tivesse produzido grandes escritores, nenhum deles havia sido tão lido quanto Alexandre Dumas. Suas histórias foram traduzidas em quase uma centena de idiomas, e inspiraram mais de 200 filmes.”

(Não.   Em “Os tres mosqueteiros”, clássico de Dumas não havia um que era negão – nem mesmo o excentrico D’Artangnan.  Sem viagem. Segurem esta onda afromundista que não é bem por aí não.)

Mas cá entre nós, você acharia plausível a repetição de um ato como este aí do Chirac aqui no Brasil? Claro que não. Aqui, inusitadamente, em pleno século 21, ainda se reluta em reconhecer a simples existência do racismo, a própria existência de negros, estas coisas tão escancaradas assim na nossa cara como um pancake que mais mostra do que esconde o que a gente não quer ver. O que dizer então de literatura e escritores negros?

Aqui é o Pindorama selvagem, terra de cegos pardacentos, cor de burro quando foge, onde reina o mais renitente dos racismos, o mais medíocre e cruel: O racismo das ambiguidades forjadas, o racismo das falsas aparencias, o racismo ‘cordial’.

“A literatura afro-brasileira é “um conceito em construção”, diz o professor Eduardo de Assis Duarte, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde coordena o grupo de pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira.

Contribuição significativa para o edifício deste conceito, a coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica”, organizada por ele e recém-lançada pela Editora da UFMG, reúne, em quatro volumes, uma série de ensaios e referências biográficas e bibliográficas sobre cem escritores, dos tempos coloniais até hoje…”

O conceito ‘literatura negra’ – ou o breguíssimo e politicamente correto ‘literatura afro-descendente’ – é bastante controverso sim,  vamos combinar. ‘Literatura não tem cor’ diriam alguns cínicos brasileiros ou franceses, tergiversando. Este é, contudo o único conceito literário válido por enquanto, para definir esta literatura no âmbito de uma sociedade racista como a do Brasil que isola, alija, suprime, censura e reprime meticulosamente a expressão ou a manifestação da literatura realizada por autores de ascendencia negra desde sempre.

E vai querer saber por quê?

Um doce para quem souber,  assim peremptoriamente, mas ao que parece numa espécie de surdo conluio, editores, críticos literários especializados, jornalistas e formadores de opinião em geral, por razões que, como já disse a própria razão desconhece, uma classe formada, exclusivamente por gente branca – ou que se imagina branca – age como se negros não pudessem escrever e o que é pior: como se sequer soubessem ler.

(E vamos colocar as patinhas pro céu contritos deles já estarem reconhecendo, pelo menos, que existem negros no país. Aleluia!)

Pois é desta omissão insistente, sistemática, quase messiânica da elite literária  brasileira de que trata esta iluminada antologia citada aí em cima.

Existem questões muito profundas a serem abordadas sobre este tema, camadas e camadas de bizantinas questões subjacentes. As complexas implicações de todas elas  Eduardo de Assis Duarte aprofunda muito bem em suas considerações expressas na entrevista, mas convenhamos que são questões tão gordas de ambiguidades que acabam mesmo ficando boiando na superfície beletrista dos ‘papos cabeça’, naquela  casca do ‘não é bem assim porque o buraco é bem mais embaixo’.

Está bem, mas o quanto é mais em baixo? Dá pra conversar a respeito? Claro que dá. É só querer.

Não quero ser o chato de plantão, mas confesso: Tenho mais de 6 décadas de idade  e já li trocentas resenhas e entrevistas como esta aí de cima, idênticas sem tirar nem por, todas versando sobre este mesmo assunto, com doutores e acadêmicos do mesmo modo especialistas no tema ao qual se dedicaram por toda a vida. É a mais pura verdade: A pífia participação de autores e temáticas negras na literatura do Brasil é um assunto daqueles sobre os quais quase nunca se tem novidades a acrescentar.

O Brasil tem sim autores negros – quem não sabia? – abordando temáticas relacionadas às intoleráveis condições de vida de nossa população negra ou afro descendente. Porque não haveria de ter? Tanto quanto a França do século 19 (que tinha o bom Alexandre Dumas). Existe sim, sempre existiu, embora abafada, subestimada, apesar disto e daquilo, contra tudo e contra todos, existe uma literatura negra no Brasil. Esta literatura,  embora incipiente, tem sim qualidade, é relevante e pertinente. Todo mundo que sabe ler devia lê-la e aí é que está certo xis da questão.

Quem lê esta literatura no Brasil? A quem ela se destina? A contradição entre estes dois fatores – se liguem bastante neste ponto – pode ser chave nesta discussão.

Se o perfil médio do leitor de livros no Brasil, como alguns de nós imaginamos for mesmo, exatamente aquele dos que não querem ou evitam ler esta literatura – por se sentirem constrangidos, por indiferença para com o racismo, por falta de solidariedade para com o problema ‘dos negros’, sei lá, desinteressados enfim pelo que esta literatura negra tem a dizer, ojeriza por suas temáticas que denunciam, direta ou indiretamente a escravidão passada, o racismo resultante e a afirmação de valores africanos eventualmente  contidos em nossa cultura – como seria o leitor potencial dela, aquele a quem esta literatura, eventualmente se destina?

É muito provável que, as  pessoas potencialmente interessadas no que esta ‘literatura negra’ tem a dizer seja um grupo formado por alguns poucos letrados negros e brancos, mas principalmente por aqueles milhões de iletrados, muitos semi alfabetizados talvez, aqueles que desempenham em nossa sociedade, muito mais o papel de personagens e atores de dramas e comédias rasgadas do que o de ávidos leitores de romances panfletários.

Ou seja: antes de ser racista, o mercado editorial brasileiro talvez sofra também de outro anacronismo, não menos agudo e penetrante, caracterizado por uma cena literária pífia (no sentido comercial do termo, inclusive), composta por escritores, jornalistas, livreiros e leitores ‘brancos’ conservadores, a maioria gente elitista e preconceituosa (‘diferenciada’ no dizer atual dos humoristas).

Estes leitores ‘diferenciados’ seriam por sua vez orientados em seu gosto literário – com raras exceções – por uma casta corporativista (com o perdão da redundância) formada por acadêmicos e críticos especializados, isto por um lado, e por outro, por um público potencial (embora indesejado) composto por uma massa impressionante de consumidores sub letrados, cuja cultura não se encontra de modo algum expressa nesta literatura presunçosa que o mercado de livros elegeu como sendo o ideal por ser uma cultura…de negros.

E afinal, convenhamos negros mal compram jornais populares.

(Foi por isto – reparem bem lá no link – que Eduardo de Assis chamou de utópica a pretensão desta nossa ‘Literatura Negra’ de almejar um leitor, um mercado exclusivo, do mesmo modo negro. Livros, livros a ‘mancheia’ para quem precisa? Não. Livros apenas para quem tem grana e pode consumir bens e serviços, tal é a profundidade do buraco abissal de nosso mercado editorial.)

Pois é. Talvez seja bom mesmo, aproveitarmos a boa vontade que emana deste papo para penetrar mais fundo ainda neste buraco meio saco sem fundo. Vamos nesta?

Considerando ser ínfimo o universo de pessoas letradas no Brasil – e falo apenas daquelas que consomem livros- é de se supor que o processo de aferição desta produção literária negra – no aspecto da crítica especializada mesmo, tão sintomaticamente omissa – tenha problemas bem importantes no que diz respeito à sua validade e pertinência  (e falo até aqui, para início de conversa, de literatura de maneira geral e não apenas de literatura… negra, se bem me entendem).

Imagino que já se contem às centenas as teses acadêmicas, matérias, dissertações e artigos, versando sobre o assunto Literatura Negra. Não conheço totalmente a natureza do processo que seleciona monitora e legitima os nomes e as temáticas votados para integrar estas listas, mas imagino que seja o mesmo que rege a produção literária do Brasil em geral, ou seja: os textos são pinçados no fluxo de material referente ao tema que circula no ambiente acadêmico tradicional (geralmente bancas de mestrado) onde são avaliados e legitimados – ou não – por doutores especialistas e num outro fluxo – este bem mais restrito –  de textos publicados disponíveis no mercado editorial convencional no qual estes textos ganharam alguma repercussão e notoriedade eventual.

Esta repercussão se deu, geralmente por meio da divulgação em resenhas e matérias de jornal, etc. sabe-se lá por conta de que critérios. Isto sem nos esquecermos de ressaltar o meio de divulgação principal para a fruição de textos deste tipo que são (ou foram, principalmente nas décadas de 1970/80) as iniciativas voltadas para um mercado alternativo, edições caseiras, venda de mão em mão, etc. É de se supor também que tradicionalista como é, este processo de natureza francamente acadêmica, no sentido arcaico do termo, omita de seus filtros de aferição a produção literária que circula na internet (que em sendo  mesmo fato, representa um equívoco pra lá de imperdoável).

Enfim, um universo de amplitude um tanto restrita, infelizmente no qual os agentes, os responsáveis pela escolha e a legitimação dos nomes que constam nestas listas, os juízes desta ‘canonização’ afro descendente, aqueles que decidem o que é ou não é  ‘negro’ do ponto de vista literário, são uns poucos doutores que exercem um papel por demais decisivo.

Estou sugerindo, portanto – e ouso afirmar, diretamente  – que o ambiente que legitima ou que torna, de certo modo canônica – embora Eduardo de Assis negue esta intenção em sua antologia – certa literatura produzida por negros (ou relativa a temáticas ligadas a questões da negritude) é o mesmo ambiente que legitima toda a produção literária nacional: A Academia… ’branca’, entidade ao mesmo tempo acusada de ser a algoz , a instituição que barraria a emergência desta mesma literatura.

Algo errado nesta história aí, não é não?

Entenderam a sutileza? Estou sugerindo que para começo de conversa, a legitimidade destas listas precisa ter a sua relevância relativizada – ou mesmo questionada – porque  existe um caráter claro de legitimidade tutelada, caracterizado por sugestões antológicas subalternizadas, uma contradição instalada aí que faz com que seja o ‘agente’ desta cultura hegemônica –  supostamente racista e excludente – a mesma instancia que decide quem – e o que– é literatura negra. Falo, portanto da necessidade de se avaliar mais acuradamente a natureza deste processo de definição do quem é quem ou o que nesta chamada ‘literatura negra’.

A mesma mão que afaga ser a mesma que apedreja”, é uma contradição indesejada, percebem?

É que me espanta um pouco o fato do enfoque deste assunto estar sendo sempre tão restrito e dirigido, sempre às mesmas figuras na enfadonha recorrência dos mesmos nomes repetidos ano após ano, com a inserção de um ou outro novato alçado a condição de ‘novo’ autor a cada 10, 15 anos, hiatos que me parecem extensos demais para exprimir alguma plausibilidade. Afinal, devem existir milhares de autores negros produzindo ‘literatura negra’ por aí.

Seriam mesmo tão eficientes assim os filtros que incluem ou excluem do processo, do acesso ao mercado editorial brasileiro literatos negros ou interessados em temáticas  afrocentradas? Estas listas seriam realmente um reflexo da realidade da produção brasileira no âmbito da literatura negra ou afro descendente? Este recorte realizado por estas abordagens acadêmicas recorrentes estão sendo mesmo consideráveis parâmetros?

A questão é, pois controversa demais – e esta é apenas a primeira das muitas controvérsias do tema, insisto. Carregada assim de ambiguidades tão paralisantes, surge daí então, a me instigar como pulgas na orelha, pontos que parecem também muito pertinentes para que se possa entender, minimamente  o assunto. Doa a quem doer, vamos mergulhar neles, portanto. De cabeça.

Uma questão bem cabeluda, só pra começar:

Quando classificamos – ou ‘canonizamos’- os indivíduos autores, os literatos cujos nomes constam nestas listas estamos nos referindo exatamente a que? À literatura negra  (como instancia cultural) ou a literatos negros (como categoria sócio  racial)? Ou seja: estamos nos reportando neste  caso à arte ou ao a artista? À atividade – ou atuação-  ou ao ator? À obra ou ao autor? E é nesta questão tão óbvia e – estranhamente não se sabe por que tão subjacente – que nasce a pergunta chave que não quer calar:

Como afinal se define quem é negro no contexto dos autores destas antologias? Do mesmo modo que a sociedade racista no passado embranqueceu monstros sagrados como Machado de Assis, nestas antologias não se estaria ‘enegrecendo’ certos autores, produzindo uma esdrúxula e desnecessária aproximação entre a sua temática afro centrada e a sua biotipia? Piração isto aí, não acham não?

Pois é. Este ponto em especial parece ter sido bem focado, pelo menos na entrevista por Eduardo de Assis Duarte,  mas o foi só de leve, talvez por ser um verdadeiro tema tabu, pois, afinal Machado de Assis foi eleito o ‘maior’ literato do Brasil, com a omissão cuidadosa de sua ascendencia negra, num embranquecimento oficial – auto imposto inclusive –  que  só agora acabou de ter esta branquitude eugenista desconstruída num constrangedor episódio envolvendo a Caixa Econômica Federal, no qual Machado, de branco caucasiano cliente da CEF, rapidamente após uma formidável gritaria nas redes sociais, foi promovido oficialmente a negão quase retinto, sem passar sequer por um gradual processo midiático de mulatização.

Pelo que se percebe há uma tendencia hoje de se resgatar conteúdos de negritude ou ‘afrocentricidade’ supostamente ocultos na obra do Machado de Assis. Mas sabem como é: estas coisas assim ‘ocultas’, ‘sugeridas’ em literatura são sempre ambíguas e discutíveis demais da conta.

————

Por outro lado há que se considerar outras restrições ao conceito ‘literatura negra’ não por conta do nome do ‘estilo’, mas por causa dos conteúdos que costumam predominar mesmo, em geral fechados em temáticas excessivamente recorrentes, não raro emocionalmente simplistas (“branco mau X negro bom”), calcadas numa negritude um tanto óbvia, estereotipada, maniqueísta (quando não falseada), voltada para dentro do gueto, tentando refletir muito mais o que superficialmente a elite literária negra imagina que o gueto (o leitor negro potencial) deveria, idealisticamente ser,do que o que o gueto real efetivamente é ou almeja ser.

É compreensível que, na falta de um mercado para o escoamento desta literatura afro descendente quase sempre emergente e amadora ela – seus autores – se feche e se volte para dentro de si mesma, assumindo esta tendência para a criação de um público leitor exclusivamente negro idealizado, cliente de um mercado ‘a parte’, sonhado, mas como o próprio acadêmico aponta, se configurando numa utopia em termos, pois vivemos num país com a estratificação sócio racial arraigadamente excludente.

Em terra de cego quem tem um olho é rei, mas de que vale a uma comunidade ter sempre reis caolhos?

Do ponto de vista dos autores, eu insisto, portanto que não basta escrever para  as pessoas ‘do gueto’ se sentirem orgulhosas e tal. Não basta ter o aplauso condescendente do gueto – um gueto irreal–  apenas imaginado. A qualidade absoluta deveria ser a única meta do artista, preto ou branco e não esta estética do ‘não tem tu vai tu mesmo’, esta coisa de aceitar rei caolho.

Aceitar, pois, a separação do mercado entre leitores negros e brancos como sendo uma fatalidade incontornável, uma contingência irreparável de nossa sociedade, a ponto de se almejar a criação de uma literatura, uma cultura exclusiva para negros, não me parece que seja uma solução, uma possibilidade plausível de jeito nenhum para um mercado tão carente de oportunidades.

Há com toda certeza inúmeras restrições injustas e odiosas a esta literatura feita por negros, mas o que é relevante e efetivo são as restrições interpostas às temáticas e a determinadas abordagens mais incisivas tocando em questões chaves, nevrálgicas de nosso racismo.

São sintomáticas, aliás, as sutis diferenças existentes entre a atual e alentada releitura da obra de Machado de Assis, no bom sentido sendo rapidamente ‘reenegrecida’, incrementada que está de insuspeitados conteúdos ligados a sua antes pouco evidente afrodescendencia, e a quase irrelevância dada a estes mesmos fatores e conteúdos, na obra de Lima Barreto, fatores e conteúdos estes dos quais a obra dele, Lima sempre esteve, explicitamente contida. Afinal, se literatura negra precisa ser negra na forma e no conteúdo, a obra de Lima deveria estar sendo também mais iluminada hoje, tanto quanto a de Machado está. Não acham não?

É por isto que eu penso que para que este problema específico da penetração de obras de autores negros no mercado literário brasileiro se resolva, para que cesse enfim esta inaceitável ausência de literatos negros na praça será preciso que esta literatura emergente – toda ela e não apenas àquela chancelada por bancas e antologias acadêmicas – seja lida e avaliada por todos, exercitada, testada, comentada, resenhada amplamente, fora do gueto enfim.

Por outro lado, acho que – com as exceções de praxe – falta também a esta literatura ‘negra’ – às suas temáticas bem entendido – um comportamento mais ostensivo de enfrentamento social, contra cultural mesmo, mais ousadia para partir ‘para cima’ como se diz, de partir para o desafio, para a disputa de espaço no mercado literário mesmo (disputa estética, inclusive), saindo fora deste armário temático, do gueto cômodo da expressão desta negritude recorrente, previsível baseada na exaltação de mitos arcaicos tipo ‘axé-ogum-exu-xangô, que acaba obtendo espaço e projeção apenas nas teses acadêmicas mais solidárias com a ‘causa negra’, ou em círculos afro-militantes mais fechados que, por conta deste isolamento compulsório, acabam sendo por demais autorreferentes, autorreverentes, auto complacentes enfim.

Paulo Lins, Machado de Assis, Lima Barreto, Nei Lopes, para falar apenas nos mais conhecidos ou festejados e tantos outros mais ou menos afro-centrados, não deveriam ser lidos, resenhados, criticados, tratados  apenas como ‘literatos negros’, ‘escritores afro-descendentes’ como se diz por aí com certo mal disfarçado desdém até e, não raro com doses extras de um paternalismo bem rançoso.

Abaixo o escaninho que nos isola neste contexto subreptício da subvalorização, da subestimação. Eles e todos os outros da lista desta antologia são literatos brasileiros. Ponto. O que se precisa avaliar de verdade e com isenção é se eles são ótimos, bons, medianos ou medíocres e para isto faltam-lhes leitores, mercado livre, isento de panelinhas literárias corporativas  (racistas por suposto) para que possam enfim cumprir o seu importante papel.

Hora, portanto de nós escritores negros, abandonarmos o discurso da senzala contida e da favela pacificada. Momento de sair do ‘corner’, das cordas. Hora de subverter ou inverter os papéis da novela, tempo de largar as algemas e os queixumes no quintal de casa, abolir a escravidão autocomiserativa do ‘sim sinhô’ ou mesmo do ‘ai sinhô’ que nos aprisiona e partir para a porrada, falando de tudo e de todos, de prólogos, dramas e epílogos para brancos e negros, de ontem e de amanhã, dramas de gente enfim, sem papas na escrita, sem sermos pautados por ninguém.

Como? Não sei. Editores, livreiros, críticos, pessoas do ramo, por favor, manifestem-se, desçam deste muro que não lhes pertence.

Machado de Assis e Lima Barreto – e o velho exemplo de Alexandre Dumas que usei lá em cima – cada um a seu modo, são exemplos evidentes disto aí, de que a qualidade se sobrepõe a tudo, mais cedo ou mais tarde. Extrapolaram os limites – e a tutela – que foram impostos à literatura deles e são hoje o que são: Grandes escritores negros, de algum modo voltados pra expressar a sua condição de negros sim, mas, antes de tudo grandes escritores da humanidade. De toda a humanidade. Reis com dois olhos bem abertos.

E mais não digo por que sobre o que eu penso está valendo muito mais o escrito.  Como insinuou o Dumas, o jogo de literatura  é jogo de gente, e não jogo de bicho.

Spirito Santo

Novembro  2011

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~ por Spirito Santo em 07/11/2011.

6 Respostas to “A Literatura negra do Brasil e suas páginas em branco”

  1. Valeu, Paula!

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  2. Interessantíssimo!

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  3. Bem pertinente a crítica, mas atire a primeira pedra aquele (ou aquela) que não tiver nenhum pecado.

    Você, que não posso identificar se é o homem ou mulher, já está cometendo um com este anonimato.

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  4. Ainda que o cânone que se pretenda preto, continua machista. Nem,se quer uma menção a Carolina Maria de Jesus e tantas outras mulheres escritoras que tem suas vozes silenciadas sistematicamente pelos ordenamentos de gênero, racial , literário e social.
    Fernanda Rodrigues Miranda, da USP, ensina como fazer critic literária e desestabilizar o cânone, fica a dica e a sugestão de leitura para um leitor tão experimentado.

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  5. Obrigado!

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  6. Parabéns pelo artigo, Spirito Santo!!!

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