Chico Rei. O filme e a música dentro do filme / post#01

Creative Commons LicenseATENÇÃO: Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

“…O épico Chico Rei deu continuidade ao projeto de um cinema histórico mais atento às elaborações mitológicas que ao rigor das versões acabadas. Lima Jr. usa a história do primeiro escravo a se tornar dono de ouro no Brasil para investigar as suas próprias raízes negras. O Grupo Vissungo, em sua fusão de arte e militância, teve papel decisivo na formatação sonora do filme, que ainda mobilizou ícones da música negra brasileira como Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Naná Vasconcelos e Geraldo Filme. Chico Rei assinalou também a primeira colaboração direta de Wagner Tiso numa trilha de Walter, parceria que iria se repetir em três dos quatro filmes seguintes do realizador.

Em ‘Um cinema que quer ser música’ artigo de Carlos Alberto Mattos, Publicado na revista Veredas -CCBB/Rio, Nov-2000

Chico Rei, o filme é oficialmente de 1985. As locações no entanto são de bem antes. O roteiro original era do novelista da TV Globo Mário Prata e baseava-se no romance histórico de Agripa de Vasconcelos.

Não havia nenhum rigor historiográfico neste roteiro inicial (o próprio romance, a meu ver sofre de problemas incontornáveis neste sentido), coisa muito comum na história do negro no Brasil, entregue geralmente a sanha de curiosos e abnegados romancistas que misturam lendas da história oral mal contadas com suposições estapafúrdias e chavões recorrentes, geralmente ligados a um Candomblé fake destes pra inglês ver.

Com o roteiro de Mário Prata para ‘Chico Rei’, portanto não aconteceu diferente. Não li o roteiro de Mário, mas soube por Walter Lima Júnior, diretor do filme que, efetivamente assumiu o projeto no final da década de 1970, que o roteiro original teria que ser retrabalhado em muitos pontos para poder virar bom cinema.

Conheci um pouco certos aspectos da construção do filme e em circunstancias algo especiais, porque o  Grupo Vissungo  ao qual pertenço até hoje (pesquisa da música de a cultura negra do Brasil em geral), antes mesmo de ser cogitado para se incumbir da música do filme,  teve a honra de assessorar – de maneira meio que fortuita e informal é verdade – ao Walter Lima em aspectos que depois se mostraram cruciais á produção.

Entre estes aspectos se destacou a própria definição, digamos… étnica dos escravos habitantes da Minas Gerais do século 18, questão que havia sido resolvida pela produção (de José Eugênio Müller, a quem o vídeo acima erroneamente atribui a…direção do filme) de maneira totalmente equivocada, importando um grupo de importantes artistas negros da Bahia (o grande ator Mário Gusmão como decano deles), julgando de forma como disse, apressada e recorrente, que a cultura de TODOS os negros do Brasil seria…nigeriana ou algo assim, ligada portanto, diretamente ao Candomblé e às demais características da cultura afro-baiana em geral, especialidade daquele elenco.

Nada a ver.

O fato, que acabou sendo providencial, é que nós – que estávamos em Ouro Preto, a princípio por acaso, fazendo uma pesquisa de campo sobre congadas locais- éramos pesquisadores exatamente daquelas coisas bantu que faltavam ao roteiro do filme. Sopa no mel para o meticuloso diretor, autor de clássicos de nosso cinema ‘Novo‘ ou moderno, como ‘Menino de Engenho’, Lira do Delírio, ‘ A Ostra e o Vento’, entre outros.

O certo é que, em conversas bem animadas com Walter Lima – as vezes até ‘convocados’ por ele – eu e meu parceiro de Vissungo Samuka de Jesus, tomando cachaça com mel e muita caipirinha na Praça Central de Ouro Preto, acabamos colaborando com a concepção estética de algumas cenas, principalmente aquelas que envolviam manifestações culturais de negros africanos no filme (a cena final do filme, por exemplo,  com vários grupos de congada, foram produzidas e coordenadas inteiramente por nós).

Walter ficou mesmo muito ‘passado‘ (embora entusiasmado) quando soube que o suposto Galanga da história, o afamado Chico Rei de seu filme, se com toda certeza tinha vindo do Kongo ou de Angola, um lugar destes aí de gente bantu, muito distante portanto da Nigéria, com toda certeza também devia praticar uma cultura completamente diversa daquela afro-baianitude óbvia armada pela produção do filme.

Neste trailer aí de cima, dois flagrantes musicais bem ilustrativos: Na cena em que Chico-Galanga recebe a carta de alforria, a música cantada é deste autor que vos fala (com Samuka de Jesus). Ela se chama ‘Chico Reina’ e foi composta especialmente para Clementina de Jesus cantar no filme. Já muito adoentada, contudo Tia Kelé só conseguiu gravar a introdução que é esta que rola ao fim da cena (sendo este, aliás o último registro gravado em estúdio da voz de Clementina, pois, a diva negra faleceu meses depois desta gravação). O jeito foi eu mesmo gravar a canção propriamente dita – o seguimento dela – que aparece completa no vinil/ CD da trilha sonora, produzido posteriormente pela Som Livre, já disponível na rede.

Ao final do trailer – numa cena da qual eu gosto muito por causa do lirismo selvagem e meio surrealista que emana dela, o grande ator Mário Gusmão dubla o som de uma kalimba, também entusiasmadamente tocada por este Titio aqui que vos fala.

Panos para mangas, a questão do rigor étnico ou antropológico, foi crucial para este filme saga , que não poderia em nome da irrecorrível posteridade que uma obra de cinema almeja, abrir mão em nenhum aspecto de seu rigor estético (histórico por suposto).

(Como se pode constatar muito bem hoje, Cacá Diegues negligenciou tanto este aspecto no seu “Quilombonagô tropicalista que acabou realizando um filme contrangedoramente ruim, risível, quase ridículo quanto mais a posteridade o ilumina).

A saga do filme tem muitos outros mirabolantes eventos, tais como o ‘sequestro‘ para Hamburgo dos copiões pelos co-produtores  alemães do filme, em meio à conflitos na relação com a produção brasileira. A demanda (que interrompeu bruscamente as locações finais) demorou muito tempo para ser acertada e influiu, diretamente na montagem do filme, cuja edição final – a história e sua trama em si – teve que ser criada na moviola. Sei disto e falo assim sem pejo porque também, de vez em quando estava lá na sala de montagem – ainda à convite – dando uma força, digamos etnológica ao valoroso Walter Lima Júnior e ao não menos valoroso montador Mário Murakami.

Bem, mas isto é história para ser ruminada em posts seguintes que animada e eventualmente escreverei daqui para a frente. Leiam e vejam um outro filme por dentro do filme.

Spírito Santo

Novembro 2011

Anúncios

~ por Spirito Santo em 16/11/2011.

2 Respostas to “Chico Rei. O filme e a música dentro do filme / post#01”

  1. Pois é. E aí, no embalo da viagem rolava um work shop de construção de marimba (ou balafon, sei lá). Aliás sabe que ‘balafon’, tudo indica (não conta pra Paulinha não, rs rs rs) não é uma expressão mandinga? Este ‘fon’ aí do sufixo ‘fone’ como em saxofone do inglês)tem toda pinta de ser francês. É por isto que prefiro falar ‘marimba’.

    Curtir

  2. Como sempre, de um rigor cirúrgico né mestre? a propósito, deveríamos fazer uma sessão vip para vermos o filme ao lado e com os comentáios adicionais de quem viveu o filme… Abração.

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: