No fétido pantano da cidade construída sobre os ossos de seus escravos

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Brasil: Sociedade asquerosa de pútridas memórias insepultas

A antiga rua ‘rua do cemitério’ de 1830 no bairro carioca da Gamboa, hoje se chama Rua Pedro Ernesto. Trabalhei lá nos anos 80 no Centro Cultural Municipal José Bonifácio, que um dia teve a função, nunca assumida formal e verdadeiramente pela prefeitura de ‘Centro de Referencia da Cultura negra do Rio’. Hoje, em pleno ano do afrodescendente, corre a notícia de que o prédio vai virar uma repartição da prefeitura ligada à gestão das obras para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. É o velho descaso de sempre pela memória de nós todos.

As ações ligadas à cultura negra tentadas no Centro Municipal José Bonifácio nunca deram muito certo, apesar do esforço de algumas abnegadas direções. Dizia-se nos primeiros anos, ali pelo final dos anos 80 que havia uma ‘caveira de burro’ enterrada sob ele. Poucos anos depois se descobriu a confirmação da lenda, que era pior ainda como verdade: O Centro cultural – uma antiga escola pública do tempo de D. Pedro II – havia sido erigido sobre um cemitério de vítimas africanas do tráfico negreiro: O Cemitério dos pretos novos’.

Todo o quarteirão onde o Centro Cultural está assentado era um imenso depósito dos ossos de antigos cadáveres de negros africanos recém chegados ao porto do Valongo que faleciam quando desembarcavam de doenças adquiridas na horrorosa travessia.

Enojado, já havia postado uma matéria recentemente – a qual relinko aqui– sobre os detalhes históricos (eloquentes documentos da época) desta aberração colonial.

A cena descrita abaixo não é menos dantesca, eu a extraí agora mesmo de outra matéria sobre o ‘cemitério dos pretos novos’ publicada em O Globo. É de dar náusea até nos mais frios e indiferentes. Para mim ela é o mais incisivo exemplo da frieza degradante e criminosa de nossa elite, frieza renitentemente perpetuada em nosso odioso racismo, cujos reflexos estão aí mesmo para todo mundo ver.

“…Outra surpresa dos arqueólogos  é relacionada ao estado precário dos vestígios. Ao contrário do que se pensava, os ossos não estão quebrados  só por causa da má conservação daquele sítio arqueológico.

_ Os ossos dos mortos eram quebrados pelos funcionários do cemitério – destaca –Como a vala comum era reaberta várias vezes e estava cada vez mais cheia, a solução para que novos corpos coubessem debaixo da terra era partir os ossos dos que estavam lá dentro.”

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Spirito Santo

Novembro 2011




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~ por Spirito Santo em 19/11/2011.

4 Respostas to “No fétido pantano da cidade construída sobre os ossos de seus escravos”

  1. I am actually thankful to the holder of this website who has
    shared this fantastic post at at this place.

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  2. Valeu mais uma vez, Daniel!

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  3. Otimo post cara, acabei de postar do wikipedia uma foto de uma rara pintura do século 18 retratando uma famila de ex escravos. http://commons.wikimedia.org/wiki/File:African_Diaspora.jpg

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  4. Otimo post cara, acabei de postar do wikipedia uma foto de uma rara pintura do século 18 retratando uma famila de ex escravos.

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