A ‘neguinha’ Caetano não é santa não. Santo Amaro e a purificação racial do Brasil

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Caetano Veloso no carnaval da Bahia de 1971 -Revista Realidade - Upload SCaetano Veloso no carnaval da Bahia de 1971 -foto Revista Realidade – Upload Spirito Santo

Caetano Veloso relendo Nabuco escreve o racismo por linhas tortas.

…”Compare-se com o Brasil atual da escravidão o ideal de pátria que nós, abolicionistas, sustentamos: um país onde todos sejam livres; onde, atraída pela franqueza das nossas instituições e pela liberdade do nosso regime, a imigração europeia traga, sem cessar, para os trópicos uma corrente de sangue caucásio vivaz, enérgico e sadio, que possamos absorver sem perigo, em vez dessa onda chinesa, com que a grande propriedade aspira a viciar e corromper ainda mais a nossa raça; um país que de alguma forma trabalhe originalmente para a obra da humanidade e para o adiantamento da América do Sul.”

(Joaquim Nabuco em ‘O Abolicionismo”- 1863 )

(Notaram o ódio racial escorrendo contra os chineses ? O desprezo pelo ‘vício’ e pela ‘contaminação racial’? Pois é. Isto é Joaquim Nabuco. Para quem sabe ler um pingo é letra.)

Os adeptos da teoria do ‘elogio à mestiçagem’ me aborrecem sempre com seus sofismas arcaicos e o poder desmedido que têm como formadores de opinião, bambambans da mídia no Brasil, quando o tema é racismo, abafando, omitindo – e, as vezes até mesmo censurando – todo discurso que não se enquadre no seu modelito gilbertofreiriano da Democracia Racial. O contraditório para eles precisa ser indizível, invisível. Adoram um ‘neguinho pai João’.

De Caetano Veloso então – este, que beirando o cabotinismo se pretende sempre o mais cult e descolado entre todos – nem falo muito. Me irrita profundamente as suas recorrentes e pseudo militantes odes ao ‘Abolicionismo Tardio’, citando e resenhando Joaquim Nabuco, como se escravidão no século 19 e racismo no século 21 fossem uma mesma questão fortuitamente resvalada do passado para o presente.

Presunçoso como sempre, em O Globo de hoje em pleno Dia Nacional da Consciência Negra, tentando ser provocativo, não é que Caetano assume na maior cara dura a função de desqualificador das comemorações do 20 de Novembro e, por tabela, inviesadamente – como é do feitio de sua verve – subestimando os protestos contra o racismo e as demandas por direitos civis e ações afirmativas para negros, etc.?

Só faltava esta! Será o benedito?

Bem, até aí nada de novo. Esta tem sido bem a cartilha seguida pelos colunistas de arte e cultura deste e de outros grandes jornais do Brasil quando o assunto é negritude nacional e racismo. Ocorre contudo que Caetano não é um colunista qualquer. Caetano é…’neguinha’, Caetano tem uma carreira muito bem sucedida baseada em boa parte nestas coisas de cultura axé baiana, afro brasileira, cultura negra enfim.

Caetano saía no Ylê Ayê, no Filhos de Ghandi – não é gente? – naquela Praça Castro Alves que ele mesmo disse que era do povo.

Lá para as tantas, neste seu artigo dominical nosso herói quase soa ridículo ao tentar (com mal disfarçado ressentimento, diga-se) refutar a antropóloga Liv Sovik da UFRJ – que teria afirmado que ele vê o racismo ‘sob os olhos do senhor’ – para no mesmo embalo, não se sabe se por incoerencia ou distração, partir para a rememoração saudosa das glórias da …ops!…‘redentora’ Princesa Isabel (para ele, ao que parece a antítese de Zumbi de Palmares).

Na parte mais expressiva de seus desvios eugenistas do texto deste domingo (20/11/2011), afirmando que ‘neguinho é todo mundo’, Dom Veloso meloso, tece loas e mais loas às festas de 13 de Maio (a sua antítese para o 20 de Novembro) de ‘sua’ Santo Amaro da Purificação onde – como ficamos sabendo por ele mesmo – as comemorações tradicionais pela ‘libertação‘ dos escravos foram criadas, ditadas, promovidas, e até mesmo dirigidas  (o irmão é o secretario de cultura local) por pessoas de sua família, uma espécie de ‘clã Sarney do reconcavo, dona de tudo e de todos por ali.

…”A escravidão é um mal que não precisa mais ter as suas fontes renovadas para atuar em nossa circulação, e que, hoje, dispensa a relação de senhor e escravo, porque já se diluiu no sangue. Não é, portanto a simples emancipação dos escravos e ingênuos que há de destruir esses germens, para os quais o organismo adquiriu tal afinidade.”

(Dizia ainda Nabuco em ‘O Abolicionismo”- 1863)

Que bobagem! Todo mundo leu Nabuco. Quem não passou, mesmo que por alto por um texto dele na escola? Nabuco é o pensamento oficial sobre o assunto escravidão. Nabuco é ‘o olho do (bom) senhor’, ora pois!

O que Caetano e sua ‘tchiurma’, do alto de sua empáfia burguesa parecem não se dar conta, é que alguns não só leram Nabuco, como o leem também nas entrelinhas (que nem são tão entrelinhas  assim). Basta o exercício da mais prosaica perspicácia, lendo Nabuco sem adoração, para ver revelado ali aquele arcaísmo mais rançoso, o racismo reciclado, camuflado de ponderação, cheio de artimanhas desta gente bronzeada que se julga cheia de si e de valor, esta gente ‘diferenciada’ que pontifica hoje com ares de sabichona nas colunas de grandes jornais como O Globo e tantos outros.

(Gente! Não fosse coisa do século 19, isto de adorar Nabuco é pensamento ultrapassado desde a década de 40 do século passado!).

No fim, arrotando ignorante sapiencia – porque supõe arrogantemente que discorda dele não lê, não tem ‘embasamento teórico’ para rebatê-lo- Caê sugere que se leia –nós, no caso – o artigo ‘O Abolicionismo’ de  Joaquim Nabuco (seu guru, mais até do que Freire que ele também já afirmou adorar), enfatizando – Oh! – que o texto pode ser baixado de graça no Google, faltando pouco para nos mandar (pobres miseráveis analfabetos ‘sem-computador’ que seríamos)… passar numa lan house para ‘baixar’ o texto.

Nem precisa. Coloquei aqui no post o link do texto e partes significativas dele pra vocês nestas notinhas de meio aí.

Dá pra se entender perfeitamente lendo nosso eterno ‘modernista tropicalista’ , como funciona a cabeça da classe média do Rio, entre outras classe médias por aí, esta gente que aplaude tropas militares invadindo favelas. Em pleno século 21 ainda sonham com o embranquecimento compulsório da população, almejando a ‘purificação’, da suposta raça brasileira (a gentalha) por meio da extinção física lenta e gradual dos ‘mais negros’, uma faxina étnica ou…estética (mais sonhada do que possível) travestida de benemerência, caridade e chamamentos à paz universal.

Ora o pensamento deles – sutil como pata de elefante para quem o jugo dele padece – é o mesmo pensamento seminal do racismo à brasileira, introjetado como estigma de ferro em brasa em nosso imaginário ‘culto’ desde lá detrás, nos primeiros 50 anos do século 20, por Nabuco e Freire, entre outros.

Só não vê quem não quer.

No fundo no fundo este pensamento – que por não poder mais ser claro, assume a feições do cinismo, da dissimulação e do sarcasmo – repete ad infinitum o velho projeto pré nazista de Nabuco que por baixo do seu ‘abolicionismo’, propunha a abolição da escravatura (hoje pregam a inexistência do racismo) para, na verdade facilitar a importação de trabalhadores brancos europeus e, no processo extinguir todos os vestígios genéticos da raça negra no Brasil em… 100 anos (hoje tentam desqualificar as lutas e demandas por direitos civis para negros negando a  própria existencia de…negros).

Pois sim. Escravidão forever, não é isto?

…” O trabalho livre, dissipando os últimos vestígios da escravidão, abrirá o nosso país à imigração européia; será o anúncio de uma transformação viril, e far-nos-á entrar no caminho do crescimento orgânico e portanto homogêneo. O antagonismo latente das raças – a que a escravidão é uma provocação constante, e que ela não deixa morrer, por mais que isso lhe convenha – desaparecerá de todo.”

(Ainda Nabuco em ‘O Abolicionismo”- 1863 )

Nabuco pelo menos assumia este propósito dissimuladamente eugenista mais claramente.

Vamos combinar então: O pensamento de Nabuco é lixo ideológico hoje gente. Vale como história das raízes de nossas iniquidades sociais mais arraigadas. O pensamento de Caetano não (que lástima!). Este é doença, puro veneno tropical.

————
Em tempo: A leitora Maria Paula Adinolfi via Facebook afirma que Caetano mente e omite sobre o “Bembé do 13 de Maio” de Sto Amaro da Purificação, BA. Veja a verdade sobre a festa aqui neste link.

Spirito Santo

20 de Novembro de 2011

 

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~ por Spirito Santo em 20/11/2011.

3 Respostas to “A ‘neguinha’ Caetano não é santa não. Santo Amaro e a purificação racial do Brasil”

  1. Pois é. Fico impressionado mesmo é com a empáfia do discurso que parece supor que todos são ignorantes a ponto de não perceber o conteúdo claramente racista das teses de Nabuco, Freire etc.

    Outra coisa que me surpreende é o evidente mau caratismo de gente como ele, Caetano que trabalha sem isenção alguma a serviço de uma corrente do jornal O Globo, dirigida por seu editor-chefe Ali Kamel, militantemente dedicada a combater as ações afirmativas para negros no Brasil.

    Não critico o fato de eles serem, individualmente contra as cotas não. Nem mesmo recrimino o discurso deles negando a existencia de racismo no país. O que abomino é a covardia de usar um veículo de comunicação tão poderoso como as organizações O Globo para tocar as suas campanhas neoracistas, censurando e omitindo TODA opinião contrária, manipulando a opinião pública com esta ética jornalistica de botequim.

    Caetano entre outros colunistas parecem ser cúmplices disto. Sabem onde estão metidos e ganham remuneração por isto e como tal são, realmente execráveis.

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  2. Olá Spirito Santo!
    Gostei do texto, das críticas e argumentos e partilho de seus posicionamentos acerca de Caetano, grandes mídias e burguesia que insistem em defender fielmente o “nâo racismo” no Brasil e que todos somos mestiços (portanto iguais!)… e blá blá blá, e que por conseguinte nâo necesitamos de políticas afirmativas e/ou nenhum tipo de açâo pública de reparaçâo e promoçâo da igualdade.
    Lamentável partindo de alguém como Caetano que se diz promotor da “cultura afrobrasileira”!
    Também acompanho alguns de seus comentários e argumentos aos posts e matérias que expôe Ras Adauto no Facebook e sempre me esclarece em algo…
    Abraço e AXÉ!!!

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  3. Maria Paula Adinolfi via facebook:

    “Caetano tornou-se lamentável e só piora… a propósito, o Bembé do mercado, que acontece em Sto amaro todo 13 de maio, não é comemoração de p… nenhuma do 13 de maio oficial. pelo contrário, é a comemoração da revolta negra que aconteceu em 1889, quando os negros se reuniram pra bater candomblé no mercado como forma de protesto contra as tentativas dos senhores de restaurar a escravidão, ou suas negativas em cumprir a determinação da Lei Áurea. rolou atrito com a polícia, mas a negrada resistiu. ou seja, a comemoração do 13 de maio não é nenhum agradecimento à princesa, é o festejo da luta negra para garantir, mesmo após a abolição oficial, seus direitos.”

    ————–

    Leia a verdadeira história do 13 de Maio de Sto Amaro da Purificação aqui neste link: http://www.cultura.gov.br/site/2003/05/13/o-candomble-da-liberdade-por-ubiratan-castro-de-araujo/

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