A maldição do ‘Deus Dará” não está na Bíblia nem no gibi


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Fábrica abandonada - Foto Spirito Santo 2011

Na boca do Jacarezinho o inferno é grande

O Tio cronista, assim, do nada, visita o âmago da favela real

Um grupo de alunos mais chegados do Musikfabrik, todos músicos, com exceção de um, decidiu promover um encontro de congraçamento de fim deste  ano da graça de 2011. “Whíske com cerveja e outras milongas mais”, como diria o Jorge Ben sobre a festa do Charles Anjo45.

Saímos da Uerj em dois táxis fagueiros. Eu, Hugo, Chopa, Eduardo, o DJ Muhamed e o meu amigo Samuka, convidado fortuito, pego a laço ali, na hora. O inusitado do local escolhido – a favela do Jacarezinho, selvagem e indomada ainda – tinha tudo a ver com a música do ‘Charles’ e uma explicação prosaica: Hugo, o aluno uruguaio artista plástico, havia montado o seu ateliê justamente ali naquela favela, numa bem azeitada parceria com a associação de moradores local que exigiu dele, em troca do espaço, apenas que promovesse aulas de artes plásticas para as crianças da comunidade.

Beleza. Simples assim. Sem ONG, sem UPP ou edital, Hugo montou um excelente trabalho por lá. A articulação envolvia contatos particulares bem anteriores de Hugo, com um habitante dali, antigo ‘morador’ de nosso sistema prisional.

O ensejo do churrasco, totalmente informal como um grupo de músicos bem aprecia, foi articulado em minutos. Uma visita à birosca trailer de Dona ‘Mãe’ como o Hugo chama a proprietária, deixou os PMs super armados na entradinha da favela indóceis, nervosos. Afinal, o que faria por ali aquele bando de crioulos estrangeiros? Nada demais. Bastava não dar muita atenção a eles que a indocilidade logo se dissiparia, como se dissipou. Logo saíram com a patamo para longe dali, sumindo de nossa vista como uma chata aparição indesejada.

Dali mesmo da birosca de D. Mãe já saíram os litros de cerveja. Um garoto partiu com a missão que retornar com o carvão. Coisa de mais alguns minutos, ouvindo ainda o espoucar do foguetório aqui e ali, como GPS escandaloso avisando aos traficantes todo o trajeto da patamo da PM pelo entorno da favela e já estávamos refestelados em cadeiras, em torno de uma mesa improvisada com um gigantesco carretel destes de cabos de força da Light, felizes e tranquilos naquela nossa unidade de pacificação particular.

Ali, naquela tarde ensolarada e calorenta, num pátio imenso entre as ruínas de uma fábrica abandonada tive o grande prazer de promover o que talvez tenha sido – e para sempre será, presumo – o debate mais profícuo sobre o meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão’.

É que o pessoal era todo especialista, exatamente naqueles assuntos que o livro aborda: Gente preta, músicos, de certo modo sambistas e habitantes de ‘comunidades carentes’ no passado ou no presente. Gostaram muito do propósito do livro de desconstruir alguns mitos da história do Samba.

Fecharam questão com certos trechos, não tanto com outros e a animação da ‘mesa redonda’ informal foi se encorpando, gerando até o convite do líder comunitário da área para que o Tio aqui voltasse num outro dia para um debate com os integrantes da velha guarda da Escola de Samba Unidos do Jacarezinho. Imperdível esta, certo? “Mais velho’ empedernido e quase profissional o Tio aqui topou na hora.

E não duvidem. Distorço em nada os fatos nesta minha narrativa. A ‘mesa’ foi unânime em endossar aquela tese do Tio sobre a Ditadura Militar Seletiva. Lá para as tantas, mesmo ainda ouvindo o foguetório GPS da garotada do tráfico, João Carlos (nome fictício) líder comunitário local me saiu com esta:

_”…Eu sei que com os bandidos também é meio ditadura, mas é diferente. Esta filosofia ‘deles’ (os soldados da PM ou do Exército), esta disciplina militar não se coaduna com a nossa..”

Todos, sem exceção manifestaram o temor do que acontecerá depois de 2016, com o fim dos Jogos Olímpicos e a política de controle militar das comunidades carentes não for mais necessária aos interesses eleitorais, turísticos e esportivos das ‘ôtoridades’ constituídas. Todos temem por ali os efeitos caóticos de um previsível ‘Deus dará’ que se abaterá sobre as favelas do Rio de Janeiro.

Aliás, o cenário dantesco da parte 01 desta maldição do ‘Deus dará’ estava ali para todo mundo ver.

A fábrica abandonada (existem várias por ali, como ruínas de uma cidade bombardeada por aviões inimigos numa guerra invisível) é realmente imensa. Um morador (por acaso irmão do ex presidiário, cria da comunidade) descreve um cenário de muita prosperidade no passado daquele local. A fábrica que se chamava segundo ele ‘Shop’ era uma grande confecção de roupas finas e empregava muitas centenas (ele disse alguns milhares) de habitantes dali e de outras localidades.

Para quem não sabe, a região, que compreende os trechos que margeiam as Avenida Brasil e a antiga Avenida Suburbana (hoje Avenida D. Helder Câmara) já foi um pujante parque industrial na década de 60 e 70 do século passado. Este Tio mesmo aqui que vos fala, foi operário metalúrgico na região em seus tempos áureos, ali pelo final dos anos 60.

Dá na gente uma sensação dolorosa de impotência testemunhar na visão ruinosa destas construções desdentadas e destelhadas, o desamparo absoluto ao qual foram relegadas estas pessoas, com o desmonte súbito daquele mercado de trabalho, provocado pela derrocada econômica das indústrias do Estado do Rio de Janeiro e a degradação urbana resultante, com o explosivo processo de favelização da região se agudizando, caracterizado, inclusive pela criação de verdadeiros condomínios de favelados em caóticas ocupações de muitas destas fábricas em ruínas.

Da esquerda para a direita, Muhamed o Dj, Samuka, Eduardo, um habitante do local, Chopa e Hugo, o uruguaio.

Da esquerda para a direita, Muhamed o Dj, Samuka, Eduardo, um habitante do local, Chopa e Hugo, o uruguaio (além do Tio atrás da câmera, claro).

Uma visão de caos bíblico.

Por razões que o uruguaio Hugo me esclareceu depois, ainda que por alto, a esperada ocupação desordenada das ruínas da fábrica ‘Shop” por hordas de favelados sem teto, jamais ocorreu.  Alguém, a associação de Moradores, presumo – não sei exatamente quem ou quando na verdade – destinou todo o espaço para atividades sócio culturais, entre as quais o atelier de Hugo.

A origem da legitimidade do poder institucional, com muita pinta de ser informal, que fez com que as pessoas obedecessem piamente a ordem de preservação do local é bem misteriosa. Se o próprio MinC/ IPHAN tivesse tombado o imóvel talvez não houvesse respeito maior.

Pude saber pelo mesmo Hugo que ali funciona agora também uma pequena fábrica de lajes pré moldadas a céu aberto, embora nenhuma obra de adequação do espaço (além do ateliê de Hugo que tem até ar condicionado!) seja visível no local que acumula lixo e entulho de anos e teve os telhados que cobriam os amplos galpões (valiosas telhas de amianto) , totalmente desmontados, com as estruturas de ferro à mostra, nos saques que ocorreram.

Enquanto fotografava as ruínas da fábrica, as palavras do líder comunitário sobre a Ditadura Militar Seletiva, ainda ecoavam na minha cabeça:

_”..Aqui não tem hora, aqui se eu quiser fazer uma festa de casamento de madrugada, um baile funk, uma roda de samba, a hora que eu quiser, soltar pipa, transportar tijolo, o que for eu faço. Aqui tenho liberdade. Os traficantes não interferem nisto aí não…

Fim de tarde, fim de festa. Partimos já meio bêbados para a Av. Suburbana à cata dos ônibus ou vans de cada um, tendo como guia – e escolta – o orgulhoso líder comunitário local. A descrição do impressionante interior, do âmago da favela do Jacarezinho que farei a seguir, foi uma experiência radical e quase inédita para mim que já conheci – e descrevi – o âmago de outras favelas do Rio.

_”É só lá com o negócio deles e pronto. E mais…bandido não esculacha morador, mulher, criança assim à toa não, bandido não rouba morador.” _ Dizia João Carlos, ecoando na minha cabeça.

A noite caía rapidamente, quando saímos das ruínas da fábrica. As vielas da favela, exíguas como artérias entupidas, se encaminhavam todas para uma rua também magrinha, uma ruela central na verdade com, no máximo uns três, quatro se muito, metros de largura. Uma rua tensa por si só e amedrontadora para nós, visitantes de primeira viagem.

Carros nem pensar. Não cabiam ali. O tráfego de veículos maiores que motos e bicicletas era virtualmente impossível por ali. Esta ruela central se torna mais exígua ainda com os atravancados estacionamentos de bicicletas, centenas delas amontoadas em pontos estratégicos, geralmente perto das dezenas de bares e pequenas lanchonetes que se amontoavam num dos cantos sem calçadas.

Há também uma formidável aglomeração de pessoas sentadas na rua. Nestes ‘points’ soturnos, as moças ficavam soltas em conversas animadas sabe-se lá sobre o que, novelas, cabelos, namoros, todas sentadas em cadeiras comuns ou caixotes, como se todos por ali tivessem decidido sair para a rua ao mesmo tempo, largando as pequeninas casas com as janelas escancaradas, naquele calor estúpido que fazia.

Existe um serviço de transporte de tralhas de todo tipo em carrinhos artesanais construídos com carcaças de geladeiras velhas e chassis de madeira. Presenciei a tortuosa tentativa de três meninos esquálidos empurrando um carrinho destes, carregado de entulho de obra, por uma rampa estreita acima.  O esforço desconjuntado que faziam resfolegantes em sua magreza meio mórbida, me deu a impressão de que eram garotos viciados tentando fazer alguns trocados para comprar pedras de crack.

Já com a noite inteiramente caída, já que não havia o menor sinal de iluminação pública por ali, deu para notar que uma escuridão pesada cobria aquelas ruelas, uma escuridão selvagem e opressiva porque era entrecortada, abruptamente, a todo o momento pelos faróis das centenas de motos que cruzavam para lá e para cá, motos, centenas de motos era o que mais se via por ali. Cruzei em certo momento com uma moto ‘Ninja’, verde limão, de última geração.

Naquela escuridão opressiva para mim, imprecisa nem olhei – e por isto não vi – os rostos nem quaisquer outros detalhes dos ocupantes das motos, se estavam ou não armados, suponho apenas que muitos deviam ser moto taxistas afobados ou mesmo meninos traficantes em missões patrulhamento.

Mas existiam também os transeuntes, centenas deles, como um formigueiro de gente sem rumo definido, cujos rostos só eram entrevistos em flashs dos faróis das motos ou pelas lâmpadas incandescentes de um ou outro quiosque de cachorro quente espalhados por ali. Quase como luz negra de bailes funk.

Impressionou-me demais a juventude, claramente predominante daquela multidão fervilhante e animada por não se sabe o que. Aquela sensação de geração perdida acuada, oprimida naquela ruela sufocada de mazelas e impossibilidades absolutas, sem futuro algum. Esta sensação de inutilidade me assaltou ali, ainda sem tristeza alguma.

No trajeto passamos por uma área mais movimentada onde havia uma grande quadra de esportes depauperada como tudo por ali. Era o entorno da estação de trens o centro do que havia sido outrora o Bairro do Jacarezinho, já agora engolfado totalmente pela favela.

De repente um trem apareceu resfolegante e ‘Eduardo’ e ‘Chopa’, como gatos de rua – apesar de já beirarem os quarenta anos – escalaram o muro e, rapidamente se enfiaram por um buraco da tela de proteção da estação, desaparecendo dentro do trem que os levaria à Baixada Fluminense.

Eu e Muhamed, o DJ, seguimos então ainda um pouco mais além, sempre escoltados pelo líder comunitário, conversando animadamente. O ponto ‘pitoresco’ final de nosso longo trajeto foi a travessia da linha férrea, notória por ser o limite da constrangedora cracolândia do Jacarezinho. Olhando para a esquerda, perscrutando a escuridão profunda do local podemos ver o espoucar ansioso de dezenas de isqueiros acendendo cachimbos de crack como pirilampos da morte.

Já na hora de entrar na van, testemunhamos ainda discussões entre viciados em crack que pediam dinheiro aos motoristas, sofregamente, enquanto os já dopados pela droga se espalhavam pelas calçadas como monturos de lixo.

Foi a hora que a tristeza bateu fundo e senti alívio de estar me afastando dali, de não ser dali, de não suportar mais conviver com aquilo ali.

Não sei, honestamente como aquelas pessoas suportam aquela situação absurda. Lembrei-me daquela explosão de atos de vandalismo promovidas por traficantes um pouco antes da invasão do Complexo do Alemão pelas forças policiais. A maioria dos comandos de meninos terroristas, munida com garrafas pet cheias de gasolina, partiu dali, daquele antro de mazelas indizíveis da cracolândia do Jacarezinho.

Ocorreu-me também que os atos, praticamente não visaram nenhum ataque direto á propriedade privada, como foram os motins de negros dos anos 70 nos EUA, por exemplo.

Tristezas não pagam dívidas.

Perdemos tudo por aqui, até as chispas de ideologia que poderiam eventualmente motivar a violenta – e neste caso – justa indignação destas pessoas como aquelas que vi ontem. Engolidas pela iniquidade que controla a nossa sociedade, elas podem matar ou morrer para defender um paiol de drogas consumidas pelos bacaninhas da Zona Sul, podem explodir e matar incendiadas as pessoas, quaisquer umas, quem estiver por perto por uma maldita pedra de crack, mas não atacam jamais, em grupo, coletivamente, os responsáveis diretos por sua desgraça. Não têm, como se diz, consciência social.

Morte anunciada, a pacificação destas almas todas não é uma probabilidade real, factível. O plano nunca foi resgatá-las deste inferno. Nunca será. Ao contrário a permanência delas ali, ad infinitun é o projeto de sociedade que endossamos. Cercadas, mais acuadas ainda, vão ser transferidas – ou não – para um inferno alternativo qualquer.

E que Deus tenha se apiede de suas almas.

Spirito Santo

Dezembro 2011

Brasil Bandido #02: Rocinha City como metáfora


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‘Nem’ Sucupira, ‘Nem’ Pindorama. Sem comédia porque agora é drama

(Leia aqui neste link Brasil Bandido” #01)

Na década de 1980, decidimos fazer uma festa de aniversário de nosso Grupo Vissungo numa favela (ainda não se usava eufemisticamente o nome ‘comunidade’) aqui do Rio chamada ‘Morro dos Prazeres’. A favela, num contexto de várias outras (Morros da Coroa, Querozene, Fogueteiro, etc.) hoje denominado de ‘Complexo de Santa Teresa’ era um mundo de tranquilidade quase rural, com traficantes gatos pingados e contraventores (‘bicheiros’) cuidando de seus negócios em paz de um lado (já com polícia corrupta na retaguarda da proteção e da vista grossa) e líderes comunitários abnegados do outro.

O conceito ‘líder comunitário’, aliás, que praticamente acabara de ser inventado na época era, sem dúvida nenhuma a mais promissora novidade de nossa democracia recém renascida com o fim da ditadura, a anistia em 1979 e a volta dos asilados.

O movimento social brasileiro, tocado antes da ditadura, basicamente por sindicatos mal alinhavados numa CGT de tendência meio esquerdista e aguerridas agremiações estudantis sofreu a partir daí, no turbilhão em que se transformou o processo de criação de novos partidos políticos (e a refundação de antigos, extintos pela ditadura) uma impactante transformação que só agora, de longe se pode perceber.

Pois bem. Aquela festa de aniversário do Vissungo foi paradigmática neste sentido. Conto sem romantismo ou salamaleques para vocês sentirem o drama.

O leit motiv da festa era um suculento mocotó. A casa usada para o evento, com um amplo quintal no alto do morro, na parte virada para o lado do Catumbi havia sido intermediada pelo Maurílio (nome fictício) um empresário de um famosíssimo coletivo de artistas pós tropicalistas, incensados e lançados ao estrelato por um famosíssimo suposto ‘pai’ de nossa MPB mais moderninha.

Tirando ele, o simpático empresário moderninho, a única coisa estranha mesmo por ali era a presença de um grande grupo de ‘mauricinhos’ da zona sul, convidados ninguém sabia por quem e que se aboletou num canto do quintal em conchavos sérios demais, alheios a tudo, inclusive para o clima da festa, animada pelo samba franco que a maioria de nós, os presentes ali, gostávamos de fazer. Afinal, fomos ali para beber e não para debater.

Gente estranha. O que será que estariam fazendo ali aqueles ‘bacaninhas’ janotas, naquela favela miserável e sem charme? Sobre o que conversavam tão gravemente, olhando para os lados, desconfiados.

Cabreiro como sempre fui, juro que maldei. Maldei por que lembrei dos comícios relâmpagos de que eu, operário metalúrgico fortuito participei em portas de fábrica, disfarçado de mendigo, de vendedor de amendoim. Infiltrado no meio de operários comuns para fazer a ‘segurança’ de mauricinhos de esquerda que discursavam gritando ‘Abaixo a ditadura”, insuflando as massas.

Maldei principalmente porque, lá para as tantas encontrei no chão um folheto manuscrito com detalhes do que ocorria ali, à revelia de nosso inocente mocotó: Haviam se aproveitado de nossa festa para arregimentar uma reunião-conchavo na qual os mauricinhos, que pertenciam a uma tendência do que seria o futuro PT maioral, entronizariam na marra, no posto de presidente da Associação de Moradores do Morro dos Prazeres, um preposto deles, derrubando o presidente que estava no poder, um simplório líder espontâneo, articulado, porém incapaz de perceber o golpe sutil que os mauricinhos petistas urdiram ali.

Que malandrinhos! Haviam aparelhado a associação de moradores e…o nosso inocente mocotó!

Claro. Não dava para se perceber na época, mas era apenas o início da cooptação geral que os partidos políticos de classe média fariam das chamadas ‘lideranças populares autênticas’, do incipiente movimento social brasileiro independente que nascia na época já se articulando em federações e associações que congregavam a maioria das favelas do Rio de Janeiro.

Curiosamente, com a solidificação de nossa democracia parlamentar, os partidos políticos se transformando nesta constrangedora banca de interesses corruptos de toda espécie em que se transformaram, garantidos os modos de ser de nossas campanhas políticas, articuladas agora em currais eleitorais armados nas comunidades apenas na época das campanhas, o aparelhamento direto de associações de moradores – largadas ao Deus dará a partir daí – deu lugar a um sistema muito mais refinado, no qual os próprios líderes locais se transformaram em candidatos diretos ou assessores prepostos e ‘aliados locais’.

Mas o modelo do aparelhamento direto, exemplarmente inaugurado por esta ‘esquerda’ oportunista dos anos 80, havia corrompido irremediavelmente o conceito de representação popular das associações de moradores. E elas, as associações passaram a ser imediatamente aparelhadas por outro tipo solerte de aventureiro, que delas passou a lançar mão na marra, a ferro e fogo: Os contraventores do jogo do bicho, os contrabandistas e os traficantes de drogas até caírem por fim já nos dias atuais, nas mãos de outros ‘senhores’ mais avessos ainda às frescuras e aos melindres do ‘Estado democrático de Direito’: As milícias.

Tem jeito não. História, vamos combinar é sempre processo e – como alguém disse um dia desses – só se repete como farsa.

É por isto que eu chamo a atenção dos amigos para o que ocorre hoje na Rocinha, espécie de paradigma do caráter infelizmente espúrio das nossas esculachadas relações sociais e políticas. Símbolo incontestável de que a nossa democracia representativa pode estar dando, de novo com os burros n’água, a Rocinha parece que é hoje a frente de batalha onde um novo poder paralelo se estabelecerá.

O que haveria em comum entre aquele tempo ensolarado dos anos 80 do século 20 e este nublado momento político em que vivemos hoje, com o movimento social inteiramente tutelado, aparelhado aviltado, incapaz de mobilizar uma passeatazinha sequer que não sejam aquelas convocadas e bancadas pelos políticos de plantão, ‘líderes locais’ e seus interesses cada vez mais escusos e mascarados de caras de pau?

Falo da constrangedora descoberta que se vai fazendo aos poucos (‘avisar a gente avisa, né?’) de que uma espécie de metástase social está se alastrando no tecido social de nossa sociedade, no contexto destas ligações perigosas, altamente suspeitas estabelecidas entre políticos, celebridades, dondocas, artistas, governadores, presidentes, etc, tudo gente muito rica. – uma rede de interesses burgueses e mundanos de dimensões internacionais até, quem sabe? – com líderes comunitários intermediários, ‘mediadores de – sabe-se lá quais – conflitos’, e outros agentes de um lado, com bandidos, traficantes, assassinos – notadamente traficantes de armas e drogas – e lobistas ‘um-sete-uns’ , escroques de todos os tipos, do outro lado.

Uma rede de relações escusas, promíscuas à boca pequena tratadas, camufladas, abafadas por uma espécie de espírito de corpos midiático, impossível de ser quebrado por pessoas comuns seguidoras fiéis da lei do silêncio que diz ” manda quem pode, obedece quem juízo’, mas que aos mais atentos, aparece claramente como sendo um quadro social muito grave e de extensões ainda impossíveis de serem medidas.

Quem não é daqui ou não sabe o que está acontecendo, olhando as fotos destas celebérrimas figuras, todas abraçando o William da Rocinha, pode até ficar pensando: Afinal, seria a Rocinha um país estrangeiro emergente destes aí do grupo dos Brics, um Brasil paralelo dentro do Brasil-ficção sediado em Brasília?

Pois é isto mesmo, gente. Sai a inocente e burlesca Sucupira e entra a cruel e bruxuleante Rocinha como metáfora de Brasil.

Uma novela com sexo selvagem, drogas pesadas e Funk and roll.

É estranho demais a gente saber que isto, na verdade, esta rede de imundas e sangrentas artimanhas, pode envolver estranhos e mal explicados interesses – não mais apenas eleitoreiros, enfatiza-se – tendo como objeto de barganha milhões de favelados entregues à própria sorte, usados como moeda de troca para sustentar este Brasil ‘grande’ que está sendo aí, irresponsavelmente construído.

Cala-te boca.

Conhecendo a gênese desta história toda, quem pode acreditar realmente que um líder comunitário, ex presidente de uma importante associação de moradores, candidato à político, articulado com Deus e todo mundo (sabe se lá como ou porque), assessor parlamentar da câmara de vereadores, seria tudo isto, ocuparia tão proeminente posição se não estivesse articulado com o poder paralelo que domina a comunidade onde mora?

Quem pode acreditar realmente que Lula, Cabral, Dilma, Paes,  a companheira e empresária de Gilberto Gil, Flora Gil (de quem a esposa de William da Rocinha é cabeleireira) o moço do AFroReggae e tantas celebridades, no ensejo de visitar a favela, participar de eventos, shows e comícios no local, desconheciam inteiramente as ligações óbvias e previsíveis de William com o poder local comandado por ‘Nem‘?

William, o intermediário contumaz destas relações ‘entre a favela e o asfalto’ era evidentemente uma espécie de intermediário político, um ministro de ‘relações exteriores’, digamos assim e era com este status talvez que obteve assento na câmara dos vereadores como assessor parlamentar, como já dissemos ou como se pode facilmente deduzir com acesso à negociações e articulações políticas e partidárias de alto e de baixo nível.

Quem, assistindo aquela aberta e franca negociação para a venda de um fuzil de última geração ao ar livre, em plena luz do dia (ou da noite, não se sabe bem), pode acreditar que eram realmente inocentes e ingênuas as relações entre o tráfico da Rocinha, ‘Nem‘, William seu embaixador e os políticos, dondocas e empresários todos que conscientemente ou não, paparicaram um dia o líder comunitário em fotos,  com sorrisos e abraços efusivos?

Não seria mais lógico supor que houve condescendência sim – e, quiçá até mesmo uma certa promiscuidade irresponsável – nas relações entre estas celebridades e o ‘crime organizado’? Não é justo se supor que esta condescendência toda, tão visível e aparente é parte das razões que justificaram aquela tão relaxada negociação pública de um fuzil de guerra?

E aquelas centenas de notas de dinheiro sendo folheadas com sofreguidão ali a vista de uma câmera indiscreta operada sabe-se lá por quem? O que poderiam temer os envolvidos ali naquele ‘trampo’ se as autoridades estavam todas ‘arregadas’, comprometidas, apalavradas num esquema, se todos estavam – ao menos por omissão – acumpliciados à tudo aquilo? Estava tudo dominado, não era não?

Cala-te boca

O certo é que o ‘Morro dos Prazeres’ daquele mocotó histórico, uns 15 anos depois ficou famoso no filme Tropa de Elite (havia uma associação de moradores fajuta ali, dominada por uma Ong, perceberam?). Eu mesmo conheci anos depois uma associação de moradores dali, pois, Forest Gump profissional que sou, trabalhei ali nos anos 90, para o Instituto Estadual de Florestas, ligado (juro por Deus) pessoal e diretamente ao traficante da vez, o falecido ‘Zu’ presidente da associação na época, morto trucidado por um comando rival num ataque de surpresa numa manhãzinha de 1994.

(Curiosamente quase fui morto também neste incidente, pois andava quase toda manhã- exceto aquela-  escoltado por alguém da quadrilha do Zu, divulgando uma ação cultural que coordenava no morro. Bem, mas esta já é outra história.)

Ui!

Como naquelas histórias de famílias mafiosas em crise – promiscuidade entre celebridades, políticos e criminosos traficantes de drogas é o que? – instaladas as UPPs e sua Ditadura Militar Seletiva, a guerra por território e áreas de influencia comercial (drogas, armas, contrabando) – e eleitoral – na cidade do Rio de Janeiro promete surpresas muito eletrizantes. É que pobres e miseráveis antigamente rendiam votos que, depois renderiam dinheiro. Hoje os pobres coitados já rendem dinheiro diretamente. É só pagar pra ver.

Eu não pago. E vou logo avisando: O Grupo Vissungo – que continua vivo e fagueiro por aí – e seu mocotó não tiveram e não terão jamais nada a ver com isto.

Façam como nos filmes de Hollywood: Sigam o dinheiro.

(Não deixem de ler neste link Brasil Bandido” #01)

Spirito Santo

Dez 2011