Brasil Bandido #02: Rocinha City como metáfora

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‘Nem’ Sucupira, ‘Nem’ Pindorama. Sem comédia porque agora é drama

(Leia aqui neste link Brasil Bandido” #01)

Na década de 1980, decidimos fazer uma festa de aniversário de nosso Grupo Vissungo numa favela (ainda não se usava eufemisticamente o nome ‘comunidade’) aqui do Rio chamada ‘Morro dos Prazeres’. A favela, num contexto de várias outras (Morros da Coroa, Querozene, Fogueteiro, etc.) hoje denominado de ‘Complexo de Santa Teresa’ era um mundo de tranquilidade quase rural, com traficantes gatos pingados e contraventores (‘bicheiros’) cuidando de seus negócios em paz de um lado (já com polícia corrupta na retaguarda da proteção e da vista grossa) e líderes comunitários abnegados do outro.

O conceito ‘líder comunitário’, aliás, que praticamente acabara de ser inventado na época era, sem dúvida nenhuma a mais promissora novidade de nossa democracia recém renascida com o fim da ditadura, a anistia em 1979 e a volta dos asilados.

O movimento social brasileiro, tocado antes da ditadura, basicamente por sindicatos mal alinhavados numa CGT de tendência meio esquerdista e aguerridas agremiações estudantis sofreu a partir daí, no turbilhão em que se transformou o processo de criação de novos partidos políticos (e a refundação de antigos, extintos pela ditadura) uma impactante transformação que só agora, de longe se pode perceber.

Pois bem. Aquela festa de aniversário do Vissungo foi paradigmática neste sentido. Conto sem romantismo ou salamaleques para vocês sentirem o drama.

O leit motiv da festa era um suculento mocotó. A casa usada para o evento, com um amplo quintal no alto do morro, na parte virada para o lado do Catumbi havia sido intermediada pelo Maurílio (nome fictício) um empresário de um famosíssimo coletivo de artistas pós tropicalistas, incensados e lançados ao estrelato por um famosíssimo suposto ‘pai’ de nossa MPB mais moderninha.

Tirando ele, o simpático empresário moderninho, a única coisa estranha mesmo por ali era a presença de um grande grupo de ‘mauricinhos’ da zona sul, convidados ninguém sabia por quem e que se aboletou num canto do quintal em conchavos sérios demais, alheios a tudo, inclusive para o clima da festa, animada pelo samba franco que a maioria de nós, os presentes ali, gostávamos de fazer. Afinal, fomos ali para beber e não para debater.

Gente estranha. O que será que estariam fazendo ali aqueles ‘bacaninhas’ janotas, naquela favela miserável e sem charme? Sobre o que conversavam tão gravemente, olhando para os lados, desconfiados.

Cabreiro como sempre fui, juro que maldei. Maldei por que lembrei dos comícios relâmpagos de que eu, operário metalúrgico fortuito participei em portas de fábrica, disfarçado de mendigo, de vendedor de amendoim. Infiltrado no meio de operários comuns para fazer a ‘segurança’ de mauricinhos de esquerda que discursavam gritando ‘Abaixo a ditadura”, insuflando as massas.

Maldei principalmente porque, lá para as tantas encontrei no chão um folheto manuscrito com detalhes do que ocorria ali, à revelia de nosso inocente mocotó: Haviam se aproveitado de nossa festa para arregimentar uma reunião-conchavo na qual os mauricinhos, que pertenciam a uma tendência do que seria o futuro PT maioral, entronizariam na marra, no posto de presidente da Associação de Moradores do Morro dos Prazeres, um preposto deles, derrubando o presidente que estava no poder, um simplório líder espontâneo, articulado, porém incapaz de perceber o golpe sutil que os mauricinhos petistas urdiram ali.

Que malandrinhos! Haviam aparelhado a associação de moradores e…o nosso inocente mocotó!

Claro. Não dava para se perceber na época, mas era apenas o início da cooptação geral que os partidos políticos de classe média fariam das chamadas ‘lideranças populares autênticas’, do incipiente movimento social brasileiro independente que nascia na época já se articulando em federações e associações que congregavam a maioria das favelas do Rio de Janeiro.

Curiosamente, com a solidificação de nossa democracia parlamentar, os partidos políticos se transformando nesta constrangedora banca de interesses corruptos de toda espécie em que se transformaram, garantidos os modos de ser de nossas campanhas políticas, articuladas agora em currais eleitorais armados nas comunidades apenas na época das campanhas, o aparelhamento direto de associações de moradores – largadas ao Deus dará a partir daí – deu lugar a um sistema muito mais refinado, no qual os próprios líderes locais se transformaram em candidatos diretos ou assessores prepostos e ‘aliados locais’.

Mas o modelo do aparelhamento direto, exemplarmente inaugurado por esta ‘esquerda’ oportunista dos anos 80, havia corrompido irremediavelmente o conceito de representação popular das associações de moradores. E elas, as associações passaram a ser imediatamente aparelhadas por outro tipo solerte de aventureiro, que delas passou a lançar mão na marra, a ferro e fogo: Os contraventores do jogo do bicho, os contrabandistas e os traficantes de drogas até caírem por fim já nos dias atuais, nas mãos de outros ‘senhores’ mais avessos ainda às frescuras e aos melindres do ‘Estado democrático de Direito’: As milícias.

Tem jeito não. História, vamos combinar é sempre processo e – como alguém disse um dia desses – só se repete como farsa.

É por isto que eu chamo a atenção dos amigos para o que ocorre hoje na Rocinha, espécie de paradigma do caráter infelizmente espúrio das nossas esculachadas relações sociais e políticas. Símbolo incontestável de que a nossa democracia representativa pode estar dando, de novo com os burros n’água, a Rocinha parece que é hoje a frente de batalha onde um novo poder paralelo se estabelecerá.

O que haveria em comum entre aquele tempo ensolarado dos anos 80 do século 20 e este nublado momento político em que vivemos hoje, com o movimento social inteiramente tutelado, aparelhado aviltado, incapaz de mobilizar uma passeatazinha sequer que não sejam aquelas convocadas e bancadas pelos políticos de plantão, ‘líderes locais’ e seus interesses cada vez mais escusos e mascarados de caras de pau?

Falo da constrangedora descoberta que se vai fazendo aos poucos (‘avisar a gente avisa, né?’) de que uma espécie de metástase social está se alastrando no tecido social de nossa sociedade, no contexto destas ligações perigosas, altamente suspeitas estabelecidas entre políticos, celebridades, dondocas, artistas, governadores, presidentes, etc, tudo gente muito rica. – uma rede de interesses burgueses e mundanos de dimensões internacionais até, quem sabe? – com líderes comunitários intermediários, ‘mediadores de – sabe-se lá quais – conflitos’, e outros agentes de um lado, com bandidos, traficantes, assassinos – notadamente traficantes de armas e drogas – e lobistas ‘um-sete-uns’ , escroques de todos os tipos, do outro lado.

Uma rede de relações escusas, promíscuas à boca pequena tratadas, camufladas, abafadas por uma espécie de espírito de corpos midiático, impossível de ser quebrado por pessoas comuns seguidoras fiéis da lei do silêncio que diz ” manda quem pode, obedece quem juízo’, mas que aos mais atentos, aparece claramente como sendo um quadro social muito grave e de extensões ainda impossíveis de serem medidas.

Quem não é daqui ou não sabe o que está acontecendo, olhando as fotos destas celebérrimas figuras, todas abraçando o William da Rocinha, pode até ficar pensando: Afinal, seria a Rocinha um país estrangeiro emergente destes aí do grupo dos Brics, um Brasil paralelo dentro do Brasil-ficção sediado em Brasília?

Pois é isto mesmo, gente. Sai a inocente e burlesca Sucupira e entra a cruel e bruxuleante Rocinha como metáfora de Brasil.

Uma novela com sexo selvagem, drogas pesadas e Funk and roll.

É estranho demais a gente saber que isto, na verdade, esta rede de imundas e sangrentas artimanhas, pode envolver estranhos e mal explicados interesses – não mais apenas eleitoreiros, enfatiza-se – tendo como objeto de barganha milhões de favelados entregues à própria sorte, usados como moeda de troca para sustentar este Brasil ‘grande’ que está sendo aí, irresponsavelmente construído.

Cala-te boca.

Conhecendo a gênese desta história toda, quem pode acreditar realmente que um líder comunitário, ex presidente de uma importante associação de moradores, candidato à político, articulado com Deus e todo mundo (sabe se lá como ou porque), assessor parlamentar da câmara de vereadores, seria tudo isto, ocuparia tão proeminente posição se não estivesse articulado com o poder paralelo que domina a comunidade onde mora?

Quem pode acreditar realmente que Lula, Cabral, Dilma, Paes,  a companheira e empresária de Gilberto Gil, Flora Gil (de quem a esposa de William da Rocinha é cabeleireira) o moço do AFroReggae e tantas celebridades, no ensejo de visitar a favela, participar de eventos, shows e comícios no local, desconheciam inteiramente as ligações óbvias e previsíveis de William com o poder local comandado por ‘Nem‘?

William, o intermediário contumaz destas relações ‘entre a favela e o asfalto’ era evidentemente uma espécie de intermediário político, um ministro de ‘relações exteriores’, digamos assim e era com este status talvez que obteve assento na câmara dos vereadores como assessor parlamentar, como já dissemos ou como se pode facilmente deduzir com acesso à negociações e articulações políticas e partidárias de alto e de baixo nível.

Quem, assistindo aquela aberta e franca negociação para a venda de um fuzil de última geração ao ar livre, em plena luz do dia (ou da noite, não se sabe bem), pode acreditar que eram realmente inocentes e ingênuas as relações entre o tráfico da Rocinha, ‘Nem‘, William seu embaixador e os políticos, dondocas e empresários todos que conscientemente ou não, paparicaram um dia o líder comunitário em fotos,  com sorrisos e abraços efusivos?

Não seria mais lógico supor que houve condescendência sim – e, quiçá até mesmo uma certa promiscuidade irresponsável – nas relações entre estas celebridades e o ‘crime organizado’? Não é justo se supor que esta condescendência toda, tão visível e aparente é parte das razões que justificaram aquela tão relaxada negociação pública de um fuzil de guerra?

E aquelas centenas de notas de dinheiro sendo folheadas com sofreguidão ali a vista de uma câmera indiscreta operada sabe-se lá por quem? O que poderiam temer os envolvidos ali naquele ‘trampo’ se as autoridades estavam todas ‘arregadas’, comprometidas, apalavradas num esquema, se todos estavam – ao menos por omissão – acumpliciados à tudo aquilo? Estava tudo dominado, não era não?

Cala-te boca

O certo é que o ‘Morro dos Prazeres’ daquele mocotó histórico, uns 15 anos depois ficou famoso no filme Tropa de Elite (havia uma associação de moradores fajuta ali, dominada por uma Ong, perceberam?). Eu mesmo conheci anos depois uma associação de moradores dali, pois, Forest Gump profissional que sou, trabalhei ali nos anos 90, para o Instituto Estadual de Florestas, ligado (juro por Deus) pessoal e diretamente ao traficante da vez, o falecido ‘Zu’ presidente da associação na época, morto trucidado por um comando rival num ataque de surpresa numa manhãzinha de 1994.

(Curiosamente quase fui morto também neste incidente, pois andava quase toda manhã- exceto aquela-  escoltado por alguém da quadrilha do Zu, divulgando uma ação cultural que coordenava no morro. Bem, mas esta já é outra história.)

Ui!

Como naquelas histórias de famílias mafiosas em crise – promiscuidade entre celebridades, políticos e criminosos traficantes de drogas é o que? – instaladas as UPPs e sua Ditadura Militar Seletiva, a guerra por território e áreas de influencia comercial (drogas, armas, contrabando) – e eleitoral – na cidade do Rio de Janeiro promete surpresas muito eletrizantes. É que pobres e miseráveis antigamente rendiam votos que, depois renderiam dinheiro. Hoje os pobres coitados já rendem dinheiro diretamente. É só pagar pra ver.

Eu não pago. E vou logo avisando: O Grupo Vissungo – que continua vivo e fagueiro por aí – e seu mocotó não tiveram e não terão jamais nada a ver com isto.

Façam como nos filmes de Hollywood: Sigam o dinheiro.

(Não deixem de ler neste link Brasil Bandido” #01)

Spirito Santo

Dez 2011

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~ por Spirito Santo em 04/12/2011.

2 Respostas to “Brasil Bandido #02: Rocinha City como metáfora”

  1. …E os outros, os asseclas dele também, certo?

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  2. eu quero que deixem ele 12 anos de cadeia

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