O Racismo no Brasil segundo o ‘The Economist’


Raças no Brasil: Confirmando uma divisão

Os negros brasileiros estão em situação muito pior do que deveriam estar. Mas qual é a melhor forma de se remediar isso?

Em abril 2010, como parte de um plano de embelezamento das cercanias do porto perto do centro do Rio de Janeiro para as O,limpíadas de 2016, trabalhadores substituíam um sistema de drenagem em uma praça quando encontraram alguns objetos antigos.

Arqueólogos foram chamados e após algumas escavações foram encontradas  as ruínas do Mercado do Valongo, principal ponto de desembarque de escravos africanos trazidos para o  Brasil.

Entre 1811 e 1843 cerca de 500.000 escravos desembarcaram ali, de acordo com Tânia Andrade Lima, a arqueólogo responsável pelas escavações. O Valongo foi um complexo de edificações que incluía armazéns onde os escravos eram vendidos e até um cemitério. Centenas de sacos plásticos foram empilhados em caçambas de lixo estacionadas perto do no local, contendo objetos pessoais perdidos, escondidos pelos escravos ou apreendidos deles.

Os despojos incluíam pulseiras e anéis, delicados tecidos de fibras vegetais, pedaços de pedras de ametista usados em cultos africanos, além muitas conchas de, búzios, uma espécie de moeda muito comum na África.

O comércio de escravos ao Brasil é uma lembrança amarga tanto em suas dimensões quanto em sua longa duração. Dos cerca de 10,7 milhões escravos africanos transportados através do Atlântico entre os séculos XVI e XIX, 4.9 milhões  desembarcaram ali. Menos de 400 mil foram para os Estados Unidos. O Brasil foi o último país nas Américas a abolir a escravidão, em 1888.

O Brasil por muito tempo tentou esquecer essa história. Em 1843 a área do Mercado Valongo foi asfaltada para dar lugar às grandiosas instalações das docas do Rio de janeiro, criadas para servir de porto de desembarque para uma princesa de Bourbon, que veio a se casar com Pedro II, imperador do país no século 19. Um marco de pedra foi erguido na praça para comemorar a imperatriz e não os escravos. A cidade planeja agora construir ao ar livre um museu da escravidão e da diáspora africana no Valongo. “a intenção da iniciativa será dar maior visibilidade à comunidade negra e seus antepassados”, diz Tânia Andrade Lima.

Este projeto é um pequeno exemplo de uma reavaliação muito mais profunda que se faz no Brasil acerca do problema racial do país. A abrangencia da escravidão, o atraso em sua abolição, e o fato de nada ter sido feito para transformar os ex-escravos em cidadãos normais, isto tudo associado provocou um impacto profundo na sociedade brasileira. Estas são com certeza as principais razões para a  existencia de uma extrema desigualdade socioeconômica que ainda hoje marca o país de cicatrizes.

Nem separados, nem iguais.

No censo de 2010 cerca de 51% dos brasileiros se definiram como pretos ou pardos. Em média, a renda dos brancos é mais que o dobro da renda dos brasileiros negros ou pardos, de acordo com o IPEA. Constata-se assim  que os negros são relativamente desfavorecidas em níveis de educação, no acesso à saúde e a outros serviços. Mais da metade das pessoas que moram em favelas no Rio de Janeiro por exemplo, são negras. A proporção deste índice de negros em favelas, se comparada aos índices da população dos bairros mais ricos da cidade representaria apenas 7% de negros nestes locais mais abastados.

Os brasileiros têm sustentado que os negros são pobres apenas porque estão na base da pirâmide social, em outras palavras, que a sociedade é estratificada por classe e não por raça. Mas um número crescente de pessoas discorda desta hipótese. De acordo com Mário Theodoro do secretariado de igualdade racial do governo federal, estas “clamorosas” diferenças só podem ser explicadas pelo racismo.

Em um debate apaixonado e, por vezes inflamado, os ativistas negros brasileiros insistem que o legado da escravidão é de injustiças e desigualdades  e só pode ser revertido por meio de políticas de ação afirmativa, do tipo praticado nos Estados Unidos.

Os opositores desta proposta argumentam que a história das relações raciais no Brasil é bem diferente da dos Estados Unidos e que essas políticas afirmativas trazem o risco de criar novos problemas raciais. Ao contrário, dos Estados Unidos, no Brasil a segregação nunca significou escravidão. Aqui a mistura entre raças teria sido normal e o Brasil na bolição teria muito mais negros livres do que escravos. O resultado teria sido a formação de um largo espectro de cores ao invés de uma dicotomia racial.

Hoje em dia ainda poucas pessoas chamam Brasil de “democracia racial”. Como Antonio Risério, um sociólogo da Bahia, colocou em um livro recente: “É claro que o racismo existe nos EUA. É claro que o racismo existe no Brasil. Mas eles são diferentes tipos de racismo. “No Brasil, argumenta ele, o racismo é velado e envergonhado, não é institucionalizado”. No Brasil nunca houve nada parecido com o Klan Ku Klux, por exemplo ou mesmo a proibição de casamento inter-raciaias imposta em 17 estados norte-americanos até 1967.

Importando o arriscado sistema norte-americano de ações afirmativas, obrigando os brasileiros a se auto definirem em categorias raciais rígidas ao invés de assumirem algum lugar no amplo espectro de cores, diz Peter Fry, antropólogo britânico, naturalizado brasileiro. Tendo trabalhado Na África do Sul, Fry diz que a recusa do Brasil em assumir a “cristalização da raça como um marcador de identidade” é uma grande vantagem na criação de uma sociedade democrática.

Mas para os defensores da ação afirmativa, esta característica velada do racismo brasileiro se explica por que a estratificação racial tem sido ignorada por tanto tempo. “No Brasil você tem um inimigo invisível. Ninguém é racista. Mas quando sua filha sai com um negro mudam as coisas”, diz Ivanir dos Santos, um ativista negro no Rio de Janeiro. “Se os jovens negros e brancos em igualdade de qualificações pedirem para serem vendedores de loja em um shopping do Rio, o branco vai ficar com a vaga”, acrescenta.

O debate sobre as ações afirmativas divide esquerda e direita no Brasil. Os governos de Dilma Rousseff e o de seus dois antecessores, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, tem apoiado estas políticas. Mas estes governos têm agido com cautela. Até agora, o principal campo de batalha tem sido as universidades.

Desde 2001 mais de 70 universidades públicas introduziram programas de ingresso baseados em políticas de cotas raciais. Na Universidade do Estado Rio de Janeiro (UERJ), por exemplo 20% dos lugares são reservados para os estudantes negros que passarem no vestibular. Outros 25% são reservados para a “cota social”, composta por alunos de escolas estaduais cuja renda dos pais é inferior ao dobro do salário mínimo, alunos estes que, em muitos casos são negros. É grande a oferta em programa federais de bolsas para estudantes negros e pardos em universidades privadas.

Estas medidas começam a fazer a diferença. Embora apenas 6,3% dos negros com18 a 24 anos de idade tenham ingressado na educação superior em 2006, este número foi o dobro da proporção em 2001, de acordo com o IPEA. (Os números para os brancos eram 19,2% em 2006, em comparação com 14,1% em 2001). “Estamos muito felizes, porque nos últimos cinco anos temos colocado mais negros nas universidades do que nos últimos 500 anos”, diz Frei David Raimundo dos Santos, um frade franciscano que dirige a Educafro, uma instituição que mantém curso pré vestibulares em áreas carentes. “Hoje há uma revolução no Brasil.”

Um dos seus beneficiários é Carolina Bras da Silva, uma jovem negra cuja mãe é uma faxineira. Quando adolescente Carolina vivia nas ruas da capital paulista. Carolina foi aprovada para um curso de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica , com uma bolsa integral. “Alguns alunos perguntaram a ela:  ‘o que você está fazendo aqui?’ “Mas está ficando melhor”, diz ela que quer estudar Direito e se tornar promotora pública.

Acadêmicos de algumas das melhores universidades do Brasil têm feito campanha contra cotas. Eles argumentam, em primeiro lugar que a ação afirmativa começa com um ato de racismo: a divisão em categorias arbitrárias de uma nação que é um  arco-íris de cores. A classificação de raças no Brasil nem sempre é tão fácil quanto os ativistas afirmam. Em 2007 entre dois gêmeos idênticos selecionados para entrar na Universidade Federal de Brasília um foi classificado como preto, o outro como branco. Tudo isso ameaça criar ressentimentos raciais. Os oponentes alegam também que a ação afirmativa prejudica a igualdade de oportunidades e os conceitos meritocracia que são conceitos frágeis no Brasil, onde o nepotismo, privilégio e contatos têm sido os meios mais comuns para o ascensão social.

Os defensores da ação afirmativa dizem por sua vez que esses argumentos eternizam um status quo injusto. E exames de admissão em universidades, formalmente meritocráticos não são garantia de igualdade de oportunidades. Um estudo realizado por Carlos Antonio Costa Ribeiro, sociólogo da Universidade do Estado do Rio, constatou que os fatores mais estreitamente relacionados ao ingresso na universidade são ser filho de pais ricos e ter estudado em escolas particulares.

Na prática, contudo muitos dos receios ligados à adoção de cotas nas universidades não foram confirmados. Estudos ainda preliminares, tendem a mostrar que os ‘cotistas’, como são conhecidos, têm desempenho academico tão bom ou melhor que o de seus pares. Isso pode se dar porque eles têm substituído os “brancos” mais fracos, alunos que foram aprovados apenas porque tinham maior poder aquisitivo para se preparar para o exame.

Nelson do Valle Silva, um sociólogo da Universidade Federal do Rio, diz que a reação contra cotas teria sido ainda mais forte se o acesso às universidades não estivesse crescendo tão rápido. Por enquanto, quase todo mundo que passa o exame consegue vaga em algum lugar. Ela também estimula, diz ele, que muitas universidades adotem o menos controverso sistema de “cotas sociais”.

Peter Fry concorda que a ação afirmativa tende a “tornar-se um fato consumado”. Ele atribui a diminuição da resistência, à indiferença, o sentimento de culpa e o medo das pessoas de serem acusadas de racismo.

A batalha por empregos

Para os ativistas negros, o próximo alvo é o mercado de trabalho. “Como um homem negro, quando eu vou procurar um emprego já começo com uma desvantagem”, diz Theodoro. Ele observa que os Estados Unidos, que possue apenas 12% de negros em sua população, tem um presidente negro e vários políticos negros, e até alguns negros milionários. No Brasil, ao contrário, “não temos ninguém”. O que não é de todo verdade, pois, além de jogadores de futebol e cantores, o Brasil tem um preto supremo-tribunal de justiça (nomeado por Lula) e altos oficiais militares e da polícia. Mas são casos excepcionais.

Apenas um dos 38 membros do gabinete de Dilma Rousseff é negro (e dez são mulheres). Quando se fica na porta da sede da Petrobras, a companhia estatal de petróleo, ou do Banco Nacional de Desenvolvimento Social do Rio de Janeiro, na hora do almoço, se pode verificar que “todos os gestores são brancos e os serviçais, trabalhadores da limpeza etc. são todos negros”, diz Frei David.

A sombra do passado

Alguns órgãos do setor privado estão começando a adotar o conceito da diversidade racial nos seus programas de recrutamento. O estado do Rio de Janeiro já tem leis aprovadas reservando 20% das vagas no serviço público estadual reservadas para os negros, embora estas medidas ainda estejam para ser implementadas. Se os índices de desemprego subirem acima dos recorde de baixa verificados hoje em dia, a disputa por vagas de emprego poderá criar mais polêmicas até maiores do que as criadas pelo acesso à universidade.

O que se destaca em uma década de debates sobre ações afirmativas é que elas estão sendo implementadas de forma muito ‘brasileira’. Cada universidade tem tomado suas próprias decisões. O governo federal tem tentado promover a política, mas não as impõe. O STF está envolvido em três ações ligadas às cotas raciais. Alguns advogados suspeitam que as ações estão sendo deliberadamente proteladas, na esperança de que a sociedade se esqueça do problema.

A própria sociedade está de fato mudando rapidamente. Dos muitos brasileiros que sairam da faixa da pobreza  na última década 30 milhões são negros. As empresas estão atentas ao fenômeno: muito mais tipos de cosméticos estão sendo destinadas a consumidores negros, por exemplo. A mistura de passageiros e avião dos vôos dentro do Brasil agora tem algumas semelhanças com o Brasil real e menos com a Escandinávia. Até recentemente, os únicos atores negros em novelas de televisão desempenhavam papéis de empregadas domésticas, agora as novelas da Globo tem até um protagonista negro do sexo masculino. Muito disso poderia ter ocorrido sem as ações afirmativas.

A questão é saber se a melhor maneira de reparar o legado da escravidão é mesmo dar direitos extras para os brasileiros de pele mais escura. ‘Sim’, dizem o governo e o movimento negro, dada a persistência da desvantagem racial o que é compreensível.

Mas esta abordagem traz claros riscos. Até a adoção de idéias acadêmicas norte americanas, a maioria dos brasileiros achavam que o arco-íris racial de seu país era um dos seus principais orgulhos. Eles não estavam totalmente errados. O deputado do Valle Silva, especialista em mobilidade social, descobre que a raça afeta as chances de vida no Brasil, mas não os determina. Se a discriminação positiva se torna permanente, uma indústria de financiamento público para dar vazão a estes direitos pode crescer muito até cristalizar diferenças e promover uma verdadeira divisão político racial no país.

Podem existir formas mais eficientes de se estabelecer uma verdadeira igualdade de oportunidades e direitos no Brasil. O país tem uma legislação anti-discriminação desde a década de 1950. A Constituição de 1988 fez muito contra o abuso racial e os crimes de racismo. Tem havido, contudo relativamente poucos processos, o que ocorre em parte por causa do racismo no Judiciário. Isto ocorre também porque juízes e promotores acham que as sanções são muito severas: qualquer pessoa acusada de racismo tem que ser mantida na cadeia, sem direito á fiança no ato da prisão.

No Rio de Janeiro a preferência do movimento negro por ações afirmativas levou o governo do estado a perder o interesse por medidas destinadas a atacar o preconceito racial, de acordo com um estudo realizado por Fabiano Dias Monteiro.

A tarefa mais difícil é mudar as atitudes. Muitos brasileiros simplesmente admitem que os negros devem permanecer no fim da fila. Os defensores das ações afirmativas têm razão quando dizem que o país virou as costas para o problema. Mas as políticas ao estilo norte-americano podem não ser o caminho ideal para combater formas específicas do de racismo no Brasil. A combinação de forte ação legal contra a discriminação e as cotas para a classe social no ensino superior para compensar o fraco desempenho das escolas públicas pode funcionar melhor.

(Leia o artigo original neste link)

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_NZAMBI-A-MPUNGO, AUÊ! A revelação – Post final


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Aquarela assinada pelo padre capuchinho Bernadino Ignacio em 1740

Aquarela assinada pelo padre capuchinho Bernadino Ignacio em 1743 representando a celebração de uma missa campal. Ao centro o pequeno clero congolês, formado pela ordem desde o século 16 e o ManiSoyo (o rei, de um reino vizinho e suserano do Kongo) da época, com seu séquito de músicos e soldados.

Ponto final de um enigma que é mesmo preto no branco

Cá entre nós: A hipótese do Zambiampungo (leia aqui posts #01 e #o2)  ter mesmo uma origem portuguesa (veja só este site aqui) muito antiga me parece um tanto remota. Mas como provar? É correto supor que descendentes de ex-escravos africanos praticando uma dança tradicional, tipicamente, visceralmente portuguesa em pleno Recôncavo baiano assumindo como sua uma festa na verdade europeia e a mantendo viva assim por tantos anos – talvez mais de um século adiante – é uma possibilidade antropológica impensável, bem estranha, difícil de se acreditar mesmo. Mas sabem como é a vida: nada que humano nos deve parecer estranho.

Pode ser. Tudo é possível, mas o caso é completamente improvável, inacreditável até, diria. Teria que ter havido nesta região do Recôncavo uma colônia portuguesa, transmontana muito ativa, bem antiga e muito forte e isolada culturalmente, instalada em Ilhéus a princípio no século 19 e logo em seguida, segundo as pistas indicadas por Alexandre Guimarães em Cairu. Não poderia ser outra a origem remota do Zambiampungo caso apostássemos nesta hipótese lusitana.

Pesquisadores baianos… Acordem, por favor!Alôôô!

Com o chicotinho queimando a minha velha mufa, como o São Tomé incréu que sou, acho forte, contudo a impressão de que alguém possa ter de algum modo feito uma pesquisa dos caretos portugueses e inserido este elementos lusitanos no Zambiapungo, reciclando a dança posteriormente nos anos 80. A emérita professora Camardelli , grande incentivadora da revitalização da dança em 1982, pode ter, quem sabe, esta informação crucial, autora que pode ter sido da ressemantização da festa.

Para desvendarmos esta ressemantização eventual, será preciso revisar os elementos citados pelos entrevistados como sendo anteriores à reconstituição feita pela professora para checar se ela – ou alguém – inseriu os elementos aparentemente transmontanos ou se eles já estavam no contexto. Tentei fazer isto com os dados fornecidos pela tese do Alexandre, mas é tudo ainda muito raso e superficial.

Será preciso confirmar também a natureza do processo de revitalização usado pela professora que, pelo que o Alexandre Guimarães sugere em sua tese, teria se preocupado em rememorar os relatos dos informantes e reproduzir mais ou menos o que eles descreveram (muitas dúvidas sobre isto, pois a festa ficou, praticamente extinta quase, por 20 anos e muita coisa se perdeu, a história oral é muito fluida, vulnerável demais ao  transcorrer do tempo)

De todo modo, com muitas peças do quebra cabeças ainda faltando, acabo de descobrir que as semelhanças entre o Zambiampungo atual e os Caretos são inquestionavelmente gritantes, como se pode ver pelas fotos e pela descrição da festa em Portugal. Incrível descoberta que faz o mistério quase revelado cair de novo no buraco negro sugador de memórias…

Ai, Jesus!

Querem a teoria final do Tio sobre o Zambiampungo?  Eu jurei, eu prometi. Eu dou.

Por todos os indícios expostos e esmiuçados até aqui, a rítmica da dança do Zambiampunga – executada nas enxadas, e nos búzios –  É africana. Os Caretos portugueses não têm propriamente uma música (os textos lusitanos falam em ‘alarido’) porém o som dos enormes cincerros que utilizam é extremamente semelhante ao som de ferro batido das enxadas. Manifestação cultural tradicional com trilha sonora obrigatória, contudo (música) geralmente costuma ser coisa de africanos.

Assim o Zambiampungo original deve mesmo ter tido uma origem africana remota – os Mukixe são sim a referencia mais provável – depois de um período de quase extinção e ostracismo, teria sido reciclado por alguém que, deliberadamente – difícil evitar esta hipótese- o associou aos Caretos portugueses, principalmente no figurino e na data motivadora da festa (finados) também a mesma – apenas em Nilo Peçanha, diga-se)- da festa portuguesa.

Quem promoveu esta…’distorção etnológica’ – se é que ela ocorreu mesmo – quando, como e porque, é coisa para pesquisas posteriores.

 Vocabularium Latinum, Hispanicum et Kikongo. Pater Joris van Geel, 1647.

Vocabularium Latinum, Hispanicum et Kikongo. Pater Joris van Geel, 1647.

Afogueado de dúvidas saio para tomar um ar. Fecho a tampa desta série de posts deixando vocês com a resolução do segredo etimológico final, pelo menos ele, cabalmente revelado – por enquanto – o mais surpreendente de todos por ser o mais remoto, de tempos quase imemoriais.

Revelo enfim tudo, tim tim por tim tim, como se o Deus fosse eu o que quer dizer Nzambi-a-Mpungo: Pasmem vocês agora que de estar pasmado eu já cansei :

Século 17. Reino Kongo, África.

“…Quionça equi ocanguiri banunzi ÿ acunezuluquicalabho que acangama; quionço equi ecutúluiri ba Nunzi, ÿacunezulu quicalabho qacutuluca; Catiúna o nzambiampungu u azaúla ocufunguna Cuna quecua cúúnnba co atulonga ngana ey ÿlandila catiuna nzambiampungu asonga muna nganga umoçi auquissi, una aiquele y a nganga ey bene yamucangaçi andi umoci munzo au…”

(Trecho em kikongo clássico extraído do dicionário Kikongo-Latin-Espanhol realizado em 1647 com a orientação de Manoel Roboredo,  segundo John Torntom)

A palavra Nzambi-a-Mpungo, com o sentido estrito de ‘Deus Altíssimo’ (‘Deus supremo’, ‘Deus todo poderoso’) aparece pela primeira vez ao mundo branco ocidental na cidade de São Salvador do Kongo (Mbanza Kongo), por obra e graça de padres capuchinhos italianos que, orientados pelo padre e intelectual congolês Manoel Roboredo produzem o primeiro  Dicionário congolês Kikongo-Latim-Espanhol,  no qual um sermão clássico de Manoel Roboredo inserido numa edição posterior pelo missionário Joris van Gheel,  estabelece o conceito.

“…O kikongo foi a primeira língua bantu escrita ainda em latim e o mais antigo dicionário bantu escrito….Em 1624 Mateus Cardoso, um inquisidor Português editou e  publicou uma tradução Kikongo/Português de um catecismo. O prefácio nos informa que a tradução foi feita por professores de São Salvador do Kongo (atual Mbanza Kongo) entre eles o padre capuchinho congolês Félix do Espiritu Sanctus.

O dicionário Kikongo-latim-espanhol foi escrito em cerca de 1647 para o uso de missionários capuchinhos (lê-se inquisidores portugueses) e o principal autor foi Manuel Roboredo, um padre secular do Kongo (que se  tornou um dos membros da ordem dos Capuchinhos em São Francisco de Salvador). Na parte de trás deste dicionário (que tem cerca de 10.000 palavras) se encontra um sermão de duas páginas escritas apenas em Kikongo por Roboredo.”

“…Roboredo desempenhou um papel central na produção do dicionário, e, sem dúvida em todos os outros trabalhos lingüísticos que os capuchinhos produziram, incluindo o sermão. Em 1649, Bonaventura da Alessano, o prefeito capuchinho, sublinhou o importante papel desempenhado pelos textos de Roboredo, escrevendo que eles tinham “com sua ajuda compilado um Vocabulário”, sem dúvida, o mesmo dicionário que mais tarde foi copiado por outros missionários…”

“…Na verdade, podemos argumentar que Roboredo foi o principal autor do sermão, bem como de outros textos (infelizmente perdidos) do Kikongo aos quais Teruel se refere.

A ordem dos Capuchinhos sem dúvida, discutiu antes de trabalhar com ele, especialmente aqueles que tiveram que aprender Kikongo por si mesmos, mas devemos aceitar que o espírito do sermão deriva de Roboredo em sentido estrito e da Igreja Católica congolesa no sentido mais amplo. “

Manoel Roboredo, filho de Dona Eva, irmã do Rei do Kongo D. Alvaro V com um  nobre português, pertencia a uma casta de intelectuais congoleses formados pelos capuchinhos (entre estes há também um Felix Espiritu Sanctus e D. Miguel de Castro, embaixador do Kongo enviado certa vez ao Brasil (1643) para negociar em Recife com Maurício de Nassau, africanos mestiços em sua maioria (o que não era o caso de D. Miguel de Castro, de quem já divulguei aqui um retrato) , com formação linguística e humanística, hábeis em latim, kikongo, espanhol e português. Elos ambíguos de ligação entre as duas culturas: A africana e a europeia.

“…Se os capuchinhos não confiavam nos intérpretes leigos eles claramente também não confiavam em Roboredo, que era membro da elite espiritual, social e intelectual do Kongo, filho de um nobre Português chamado Tomas Roboredo e de D. Eva, irmã do Alvaro V, Rei Kongo, além disso, ele não era apenas um intérprete, mas um sacerdote, ordenado em 1637. Sua educação numa escola congolesa incluiu o estudo do Latim e Português, no qual ele era considerado especialista.

Estas escolas locais criadas pelos capuchinhos no Kongo eram bastante adequadas ao trabalho linguístico, pois quando os capuchinhos chegaram e começaram a lecionar decidiram oferecer cursos avançados de gramática e teologia em vez de temas mais rudimentares. Outro produto destas escolas foi D. Miguel de Castro, embaixador no Brasil e nos Países Baixos em 1643, que conforme foi dito por seus anfitriões holandeses no Recife era capaz de “compor poesia até na América”.

(Quando os portugueses venceram os congoleses na batalha de Mbwila em 1665, talvez , Manoel Roboredo estivesse  lá, ao lado do seu manikongo (rei) D. Antonio Nkanga-a-Vita – que morre decapitado – Roboredo pode ter sido o padre Manoe, citado capelão de Nkanga-a- Vita. Ele não seria, de modo algum, um africano ‘vendido’, cooptado pelos brancos)

No âmbito de toda esta ambiguidade ideológica, não temos meios de saber ainda se o conceito de monoteísmo expresso pelo termo nzambi-a-mpungo traduzido para o Latim, o português e o espanhol por Manoel Roboredo já era comum entre os bakongo antes dos capuchinhos ou dos portugueses chegarem. É provável que sim (leia o filósofo congolês – atual – Fu Kiau, a respeito) . Há inclusive esta interessante hipótese levantada pelo clássico e preciso Pierre Verger, cabendo como uma luva em nosso papo (eurocentristas e nagoistas de plantão, tremei)

“…Os africanos, via de regra, admitem tudo exceto o Criador. Ser incompreensível, o Deus supremo é julgado muito alto para o baixo nível da humanidade, e consequentemente não é temido nem adorado.

O sentimento quase universal entre os pretos corresponde ao ponto de vista de muitos pensadores, tanto antigos como modernos, que consideram Deus como a causa das causas e a fonte da lei mais do que um fato pessoal e local.

Tal sentimento pelo menos salvou o africano do antropomorfismo – uma peculiaridade da raça ariana, cuja hostilidade para com um monoteísmo puro persiste até nos dias atuais, numa fé semítica que se tornou o credo da Europa moderna.

Dessa forma os dois extremos se tocam; e tão radical é a identidade da crença que a divindade dos negros, se está dissociada de símbolos físicos, se aproxima de perto da idéia do filósofo”

(A noção de Deus supremo considerado como uma pura força, sugerida por Richard Burton – citado por Pierre Verger – num relato do tempo que passou em Abeokuta e no Daomé)

Reproduzo abaixo e por fim, o sermão de Manoel Roboredo traduzido para o português coma as palavras ‘Padre’, ‘Diabo’, ‘Deus Altíssimo‘, mantidas em Kikongo. Tenho certeza que vocês, por fim de tudo aqui explanado, de um modo ou de outro entenderão o ‘mais em baixo do buraco’, o sentido moral que toda esta charada teve enfim.

“Tudo que é ligado na Terra, para o Céu é puxado junto; o que está solto  na terra está desligado no Céu.  Porque Nzambi-a-Mpungo está horrorizado com uma confissão incompleta,  ele nos ensina a seguinte história, que Nzambi-a-Mpungo contou a um padre.

Quando o Nganga e seu companheiro estavam no  confessionário de uma igreja, veio uma nobre senhora para confessar-se com o seu companheiro. Quando ela acabou de confessar um pecado mortal, se viu um escorpião saindo de sua boca. Ela podia ver ainda o escorpião saindo de sua boca quando outro escorpião saiu de dentro de sua boca para o chão e este escorpião era pior que todos os outros, poque este era nada mais nada menos do que um pecado mortal que ela havia escondido  por causa da vergonha de o confessar.

O Nganga viu que um escorpião que estava dentro da boca da senhora, depois de ir ao chão voltou para o estômago da penitente e todos os outros escorpiões que ela expelira voltaram também ao seu estômago. O Nganga chamou a atenção de seu companheiro que, imediatamente percebeu que os escorpiões que havia aparecido primeiro foram os pecados mortais que a senhora tinha confessado, mas que o outro, o grande escorpião do mal, era o pecado mortal que a mulher não havia confessado.

Em seguida, os Nganga confessores foram para a casa da nobre senhora, que tinha vindo a confessar-se, para dizer que ela deve fazer uma confissão completa, mas no entanto, quando eles chegaram em sua casa encontraram-na morta.

Isto não serve a nenhum outro propósito do que nos demonstrar como Nzambia-Mpungo odeia uma confissão ruim e que o Ncariampemba não só mata o corpo, mas também carrega a alma para o inferno; é por isso que quando vamos para à confissão, nós não devemos esconder nenhum pecado, a fim de que não aconteça conosco o que aconteceu com aquela senhora!

Quem vai confessar deve mostrar grande contrição. Com efeito, aquele que confessa sem ter contrição, não confessou. Seja ele um homem muito justo ou mesmo um inimigo do Nzambi-a-Mpungo, não é mais filho de Nzambi. Quem tem uma boa contrição é um dos herdeiros de Nzambi, um dos seus filhos, aquele que Nzambi espera lá no céu.

A história a seguir ensina isto: um dia isso aconteceu. Quando um grande número de pessoas iam se confessar em certa igreja, o Ncariampemba apareceu. Isso mostra que onde Nzambi-a-Mpungo constrói uma igreja, o Ncariampemba constrói um pátio de entrada.; Como bem sabemos, quando uma pessoa está tentando fazer um bom trabalho, o Ncariampemba se coloca em seu caminho para impedir o bom trabalho, como um soldado.

Fui confessar estas pessoas que estavam sujas dos pecados enormes que carregavam. Depois de confessá-las elas estavas brilhando como o sol.

O Ncariampemba,  quando viu isso, ficou com ciúmes e – que grande bem – afirmou que ele também queria se confessar, mas com más intençõees, exclusivamente para retornar branco e puro como um anjo.”

(Todas as referencias à Manoel Roboredo foram extraídas de textos capuchinhos estudados e divulgados por John Thornton. Boston University College & Graduate School Off Arts & Sciencies- African American Studies)  

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– E aqui uma breve nota para aqueles que sempre perguntam ao Tio, cobrando-lhe bibliografias e referencias, as fontes e os fundamentos da pesquisa do Tio enfim:

 _” De onde você tirou isto, Tio?_

Ora, as fontes são inúmeras, esparsas, mas estão todas citadas aqui. São dicionários clássicos, letras de canções tradicionais, imagens de cronistas antigos e atuais, descrição de rituais religiosos, tudo. O método é pessoal. Quase impossível – e desnecessário- bibliografar.

Devem existir conclusões semelhantes – conheço algumas poucas – mas as conclusões desta pesquisa aqui, sempre preliminares, são pessoais, tiradas da cabeça, da lógica do Tio.

Ninguém precisa dizer Amém! Nem tudo é verdade e vocês são livres para duvidar de tudo se quiserem.

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_Nzambi-a –Mpungo auê! _Salve Deus todo poderoso! (Para aqueles que nele crêem) amém!

Spirito Santo
Janeiro 2012

_NZAMBI-A-MPUNGO, AUÊ! Post #02


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Eureka sim, mas toda pólvora descoberta pode dar xabu.

(Leia post #01 Aqui)

Na pista deste mistério com certeza secular – afinal, que diabos será mesmo esta tal festa baiana do Zambiampungo? – que até eu mesmo julgava insolúvel, tive uma rápida conversa dia destes com gente angolana para ver se recebia um novo eureka.

Eu sei. Eureka é grego, língua – dizem – incompreensível para nós brasileiros, mas que mesmo assim, neste caso, vocês sabem muito bem o que quer dizer: Um insight, uma lâmpada imaginária acesa em cima na nossa cabeça querendo dizer:

_”Bingo! Matei a maldita charada!”.

Pois então. Atrás deste eureka, animado como sou, falei neste dia aí – e até descrevi – o Zambiapungo da Bahia para a historiadora angolana Fátima Moniz, na esperança dela ter uma pista qualquer, uma chispa ao menos. Teve na hora. Deu-me uma chave de ouro, que já havia me ocorrido, vagamente em outras reflexões:

_” Isto é Mukiche, gente!” _ Disse ela animada, simulando a dança deles, mascarados encantados do folclore Chokwe, do Sul de Angola. _”Eles assustam as pessoas pelas aldeias, as crianças se apavoram. Não se pode olhar nos olhos deles”.

Depois da conversa com Fátima achei a excelente tese original e completa de Alexandre A.B. Guimarães na internet (queria repassar o link, mas acabo de notar que a tese que li anteontem sumiu da rede! desapareceu) percebi que, também já havia nela a sugestão desta relação entre os Mukixes e o Zambiampungo:

“…Segundo ela (Yeda Pessoa, a linguísta), uma etnia banto do norte do Zaire, os Yaka, tem um culto aos ancestrais chamado nzambiapunga, tanto na denominação como na estrutura formal semelhante ao zamiapunga da região de Valença. Nesse culto os participantes dançam usando máscaras, e roupas especiais chamadas “mukike”(sic), enquanto percutem bastões metálicos e emitem sons não articulados…”

( Tese de Alexandre Guimarães – UNEB)

Bakongo? Chokwe?Mukixe?Nzambi-a-mpungo? O que é isto, Tio? Grego de negão?

Foi mal. Se até eu, ainda no embalo da pesquisa sou atropelado pelos indícios mais imprevistos e desconexos que desabam feito avalanche sobre mim, imagine vocês, inocentes pagãos, mais leigos que eu nesta história. Sim. Muita informação. Entendi. Vou baixar a bola então.

Faço então aquele famoso o ‘Freio de arrumação conceitual’

Morem na etimologia.

Bakongo é o mesmo Ba-Kongo, certo? Povo matriz (nos séculos anteriores ao 15) dos escravos bantu que vieram para o Brasil. A língua deste povo – muito complexa como vocês perceberão adiante – é o Kikongo ou Ki-Kongo, por sua vez, provavelmente a língua mãe destas outras línguas todas (e notem que eu não falei das línguas’ pai’). Sacaram? Uma língua bantu destas cuja gramática está estruturada em prefixos (e não em sufixos, como esta “nossa”.

Grosso modo: ‘Ba’ é prefixo para definir gente de um lugar chamado Kongo e ‘Ki’ a língua falada por esta mesma gente do Kongo. Do Kikongo clássico (da nobreza) ou popular (do ‘povão’) – do século 15 ou 16 – é que surgiram (imiscuídas em outras línguas regionais) as outras línguas que vieram para o Brasil como o Kimbundo e o Mbundo, idiomas (que me perdoem os bairristas d’Angola) de certo modo são irmãs. Ah! A palavra Chokwe é fácil, não é? É uma etnia do Sul e Sudeste de Angola atual.

Mukixe (aliás, uma palavra chave, crucial nesta nossa história) para o Tio vem muito provavelmente do vernáculo Kikongo clássico ‘Mu- Nkise’ (‘Mu’- ao que parece, seria o sufixo que forma o coletivo – o gentílico – com função parecida a do ‘Ba’ do Kikongo e línguas sucessoras) querendo dizer, literalmente  ‘mascarado encantado’, só que com uma tradução ainda mais literal que informo abaixo.

(Nananinanão. Não reze, não se benza, nem solicite ao pai de santo um ‘passe’. Nkise é uma palavra apenas, com um sentido lato, envolvendo um conceito estrito, além de outros simbólicos, como qualquer palavra, de qualquer língua. Nada a ver, diretamente com religião.)

Edison Carneiro, com efeito, viu uma antiga gravura de Mukixes angolanos (desenhados pelo geógrafo português Hermenegildo Capello – ou pelo seu colega Roberto Ivens – no século 19 em Mbaka, Angola) decorando o rótulo de uma beberragem afrodisíaca no Mercado Modelo em Salvador, Bahia, nos idos de 1930. Olha ele aí na gravura do rótulo.

Edison deu a eles, aliás – como de hábito no seu nagocentrismo exacerbado – importancia etnológica quase nenhuma (sequer desconfiando da semelhança provável destes Mukixes com o nosso Zambiampungo do Recôncavo, que devia estar ainda nesta época correndo solto na Bahia) julgando-os por sua própria conta, uma mera ‘réplica’ do egunguns’ jêje-nagôs” com os quais, de fato os Mukixes se assemelham, só que com milhares e milhares de quilômetros separando as duas culturas (bakongo e yoruba-jêje) sendo talvez impossível descobrir quem inventou a prática primeiro.

“…Formavam (os Mukixes, nota minha) em Angola uma sociedade secreta, ‘embora não tão elaborada como entre os nagôs’ . Misteriosos, vindos não se sabia de onde, mascarados, todo o corpo coberto aos olhares indiscretos, envolviam sua identidade em ‘segredo absoluto’. Sabe-se que davam conselhos e faziam críticas e advertencias públicas e particulares.

Capelo e Ivens que fixaram o traço de dois deles)…os interpretaram corretamente como ‘atores’ que intervinham na vida civil. A semelhança com os egunguns (sic) terá passado despercebida, entre outros motivos em virtude do termo angolano aplicar-se igualmentee a pequenos ídolos e representações antropomórficas de divindades menores…”

(Edison Carneiro . Revista do Instituto Brasileiro do Açúcar e do Álcool – 1975)

Logo nkise então (exatamente como o ‘orisa’ ou orixá do nagô ou o vudum do jêje) quer dizer apenas ‘imagem’, ‘ídolo’, ‘estátua’, representação simbólica de algo imaterial (um Deus, um espírito, uma energia cosmológica) materializada num objeto, ou mesmo num animal qualquer (um boi, um porco, um sapo, uma serpente, etc.). Então fica entendido que quando um bakongo (um angolano de hoje, enfim) via uma imagem de Santo Antônio católico, Nossa Senhora, São Lázaro, qualquer uma imagem destas aí, católica, religiosa ou não, definia logo assim, na lata:

_ Isto é um ”Nkisse disso!Um Nkisse daquilo!”

Fácil deduzir agora então que Mukixe (segundo o raciocínio pessoal do Tio, bem entendido) é, pois: um ‘Mascarado encantado’, uma pessoa portando uma máscara (e/ou uma vestimenta) encantada, a fim de cumprir funções rituais determinadas, porém – muito importante se frisar – não exatamente litúrgicas ou religiosas. Muito parecido com o que acontece com os dançantes do Zambiampungo, não é não? Mas cuidado: as aparências – e nisto o Tio toma na cabeça toda hora – quase sempre teimam em nos enganar neste campo.

(A propósito se liguem num detalhe muito importante: Não sei se vale para outros povos africanos, mas os doutos africanólogos todos afirmam, quase unanimemente que entre os bantu a diferença entre o profano é o religioso é quase imperceptível. E cá entre nós, vamos combinar: as religiões não são criadas para explicar nada – muitas vezes são criadas até para confundir -. As religiões tentam apenas explicar, de forma quase sempre canhestra, simplista, reducionista este mundo doido em que vivemos.

Se Nzambi como vocês já sabem – simples assim – é Deus e se já sabemos o que são Mukixes, mascarados idênticos aos dançantes do Zambiampungo, só faltou mesmo então traduzir Mpungo. Reflita, pois, e conclua você mesmo pelas entrelinhas desta recente e curiosa pista:

“… Os Mpungos não são realmente “deuses” no contexto que entendemos isso, mas são extremamente poderosos, o mais antigo dos ancestrais (sic).

Vou lhes dar uma lista de correspondência, para tornar mais fácil de compreender as energias básicas da Mpungo. Não cometa o erro de supor, por exemplo, que um Mpungo é um Orisa. Eles não são, e devem ser abordados com os ritos adequados para a cultura de onde provêm.”

(Fala de um Palero, ‘pai de santo’ de Palo Mayombe, uma religião do Caribe algo parecida com o nosso ‘Candomblé de Angola’)

Entenderam? Fácil não? Mpungo por estas definições cruzadas todas, tudo indica que significa Força Vital, energia cósmica, essencial (exatamente como o ‘Axédos nagôs!).

Nkise é, pois, o objeto, a coisa na qual esta força – o ‘Mpungo’ – se materializa.

Nzambi-a-Mpungo, a expressão poderia ser, portanto a ‘Força de Deus em si mesmo’ ou ‘Deus todo ‘poderoso’ como bem me orientou um angolano atento dia destes e a arguta linguísta Yeda Pessoa de Castro (citada também na tese de Alexandre Guimarães) concluiu. Dito tudo isto nestas filigranas etimológicas, traduzido o vocábulo antes misterioso, podemos então voltar à tentativa de desvendamento da tal dança baiana. É que também tenho candentes novidades por aí.

Afinal, o que é mesmo esta tal festa baiana do Zambiampungo?

Coisa de doido, não é mesmo? As pistas todas da história oral levando tudo ao mesmo lugar: Zambiampungo parece mesmo ser Mukixe, vindo da Angola mítica de todos nós:

“Segundo informações de meus pais, que já morreram, os zamiapungas vieram dos africanos. Tem uma história que em 1811, quando um descendente dos donatários da capitania de Ilhéus, resolveu mudar a povoação de Velha Boipeba para Nilo Peçanha, com o nome Nova Boipeba, os visitantes já foram saudados por enxadas e búzios. Então, desde aquela época eu acredito que já existia os caretas aqui, não o zamiapunga.”

(Depoente de Nilo Peçanha, BA, nem tese de Alexandre Guimarães)

Está bom, mas vocês perceberam um detalhe fortuito no depoimento da senhora mais velha? Disse ela, claramente: “…já existia os caretas, não o zamiapunga”. O outro informante de Alexandre, diz por sua vez diz:

“ Zamiapunga começou numa brincadeira com os filhos de escravos né ? (…) Mutupiranga, fazenda que tinha muita piaçava (…) e os trabalhadores eram tudo escravos e filhos de escravos.

Quando era noite de lua, não tinham o que fazer, tiravam as enxadas do cabo, cada um com sua enxada na mão, arranjavam tambor de carneiro, faziam aqueles tambores bonitos, faziam aquelas caixas né?!, arranjavam búzios da costa (…) pra fazer o purupupu.

Então faziam aquelas meia-lua, aquela lua, uns batendo caixa, outros batendo enxada, outros tocando búzio, e faziam aquela brincadeira. E Militão Rogério era filho de escravo. Quando acabou a escravidão Militão Rogério continuou fazendo a brincadeira com os operários da serraria…”

“… os guias, contraguias, mestre, contramestre. Vinham com aquela bandeira muito bonita que era seu Militão. Era o dono do zamiapunga que vinha com aquela bandeira, (…) Aí agora vinha aquela parte toda mais enfeitada atrás, como estes que estão saindo hoje, (…) vinha aquela parte com as enxadas, vinha aquela parte com os tambores batendo, vinha aquela parte com os búzios, ainda tinha aquelas cuícas (…) e a bagaceira das máscaras vinha atrás de tudo; eram aquelas cabeças!, era gente vestida de cão laçando as almas… era aquelas pessoas vestidas de coruja, pessoas vestidas de morte…”

 “…agora acontecia isso: eu me vestia de careta, por exemplo, eu moro aqui, eu não saia daqui de casa; eu arrudiava esses fundos todos pra sair lá fora pra ninguém me conhecer. Você morava lá na sua casa; você saia por aqueles fundos seus e saia lá no prédio de Anazilda prá ninguém lhe conhecer. Então, ninguém lhe conhecia. Aí reunia tudo (…); máscaras feias pra poder acompanhar o zamiapunga.”

“(…) Aí o povo ficava até olhando, achando bonito, muitas pessoas com medo, era uma maravilha mesmo o zamiapunga!!(…)Agora, na época a gente via aquelas máscaras aqui corria, todo mundo corria, eu mesmo corria que eu não gostava daquelas máscaras tristes, vestido de bicho, aqueles negócios feios.

Ainda mais quando dizia: ‘olha, vem atrás de tudo, olha, os caretas já passaram, ali atrás vem um vestido de alma e o cão laçando!!’ Aí o cão vinha com a corda rodando e a alma correndo, se escondendo, pedindo socorro, aí pra gente era uma morte, pois quando a gente era criança tinha medo. Então era muito bonito o zamiapunga, era muito mesmo!!…”

( Tese de Alexandre Guimarães – UNEB)

Hum… Brumas vagas de novo. Só que agora se dissipando aos poucos.

Esgotadas lá em cima – pelo menos em parte – as etimológicas, minhas pistas finais passaram a ser as evidências iconográficas, claro. Parti então para a análise das máscaras, das roupas e evidências outras (como aquelas sobre os búzios e -vá lá – as enxadas). Foi daí que sobrevieram as mais candentes surpresas. Tente olhar com a mesma picardia com que olhei as imagens seguintes e as compare com as imagens atuais do Zambiampungo baiano. Vejam só que coisa de maluco:

Mal consigo guardar por mais algumas linhas este segredo final – ainda não de todo revelado, de tão intrincado que é – Ai! Como lamento decepcionar os leitores mais afrocentrados (como eu mesmo, aliás), mas mesmo assim vou em frente. É porque à luz destas minhas últimas conclusões, os elementos mais seminais constitutivos da dança do Zambiampungo, pelo menos como ela nos aparece hoje, após o trabalho de ‘resgate’ da professora Maria Auxiliadora Netto Camardelli parecem estar bem longe de onde estamos procurando. As evidências africanas se escafederam! Quase desaparecem quando acendi estas novas luzes.

Que Mukixe que nada, gente! O Zambiampungo de agora, de hoje em dia se parece muito mais é com os…Caretos de Portugal!

“Máscaras resgatam auto-estima das aldeias transmontanas”

“…O traje dos caretos da Lagoa de Mira (Portugal) distingue-se pelas cores garridas, com predominância do vermelho, e pelas máscaras, de onde sobressaem uns enormes chifres. A saia do careto é vermelha, ‘numa alusão ao pecado’, a camisa branca, ‘símbolo de pureza’, explica João Luís Pinho. Estes seres demoníacos fazem-se ainda acompanhar por chocalhos e campainhas que agitam endiabrados, aumentado o efeito diabólico que querem transmitir…”

Pois é. Estranhas, porém gritantes evidências. Teria tido a ressemantização feita pela emérita professora Lilli Camardelli do Zambiampungo a intenção de ser a expressão mais fiel possível do que o Zambiampungo realmente foi no passado? Se foi isto, o Zambiampungo na verdade, teria sempre refletido então uma dança na verdade portuguesa (e não africana), oriunda do tão tão distante Trasosmontes.

Mas sendo assim – Ó ! – como teria florescido a tal dança de tugas se mantido tão vívida, não entre os brancos de Ilhéus e adjacências como seria comum, mas sim entre negros descendentes de africanos e – o que é mais estranho, pelo menos no campo da etimologia – mantendo o tão impróprio nome de uma entidade africana ‘da gema’ como o tal do Zambiampungo?

Caramba! E até o calendário dos Caretos é igualzinho ao do Zambiampungo!

“…A força disto é tanta que, se reparar, este ciclo inicia-se com o dia de Todos-os-Santos, ao qual se segue o dia de Finados, um ciclo que termina no sábado da Aleluia. Há todo um conjunto de ligações à morte…”

 (Paula Godinho “Festas de Inverno com Máscaras”, do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT), da Universidade Nova de Lisboa)

Melê culturalista ou mistério etnológico de um sincretismo afro-luso inexplicável?

“… E o Cristianismo em relação a algumas festas anteriores colou-se-lhes ou perseguiu-as. Aquilo de que falamos quando nos reportamos aos Diabos representados nestas festas, são eles próprios uma construção feita à posteriori em relação a outras personagens que provavelmente não teriam nada a ver com o Diabo, diz a coordenadora do projecto…”

(Paula Godinho Festas de Inverno com Máscaras”, do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT), da Universidade Nova de Lisboa)

Viram lá: O povo da Bahia já chamava a coisa de ‘Caretas’. E a Bahia inteira – que eu saiba – até hoje brinca o Carnaval usando aqui ali, esparsamente esta prática dos… Caretas, exatamente como os gajos de Trasosmontes chamam suas máscaras de… ‘Caretos”. Tudo a ver. Incrível, não é não? Os retalhos repicados nas roupas, as máscaras de pano, com um que de teatro vicentino, renascentista, tudo look portuga, nada a ver com as imagens dos Mukixes, que são máscaras de madeira esculpida (os portugas também as usam, mas esporadicamente) , roupas de palha, estas coisas assim, do mato.

Ai meu Deus! Quer dizer que o Zambiampungo baiano de hoje em dia, na verdade  seria esculpido e escarrado os Caretos de Portugal? Como poderia ser isto?

Ai, Jesus!

(Calma, gente. Eu posso explicar. Não percam o desfecho da trama no post final)

Spirito Santo

Janeiro 2012

Bota Abaixo século 21: Pereira Passos e sua herança maldita


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Foto Spirito Santo- 27 Janeiro 2012Foto Spirito Santo- 27 Janeiro 2012

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O Pereira Passos, prefeito da cidade do Rio de Janeiro, capital federal em 1904, aquele que decidiu que o centro colonial da cidade deveria ser demolido, deve ter dito para os críticos e desafetos mais impertinentes (como escritor Lima Barreto), dando os ombros:

_”Não se faz omeletes sem quebrar ovos!”

(É que os ovos não eram os dele.)

Para fazer o carro chefe de sua ‘Reforma Urbana’, o boulevard parisiense da Av. Central (hoje Av. Rio Branco) como se sabe o alcaide escorraçou a população que morava no local (por culpa é claro da falta de um plano diretor, uma reforma sim, mas num sentido social do termo, um sentido humanista completamente diverso daquele que ele adotou).

O seu slogan era: “O Rio civiliza-se!”. Só que apenas para alguns.

Pois sim. Se civilização era isto, o que seria barbárie? Vejam bem. A remoção da população do Pinheirinho em São José dos Campos neste 2012 foi bem parecida com o ‘Bota Abaixo’ dele. As razões também foram bem parecidas e tão execráveis quanto.

Como o Alckmin o Pereira Passos devia ter sido preso num Bangu Um destes aí. Depois de muito apanhar na cara.

Já contei aqui como foi esta história e quem mais quis se informar já está careca de saber. O centro colonial, antigo perímetro urbano da velha Corte do Rio de Janeiro, tinha o seu coração cultural e emocional cravado num emaranhado de habitações coletivas, precárias, imagino eu que assim como uma antiga Bombaim, uma Marakesh muvucada. Pois bem: nesta muvuca moravam alguns milhares de pessoas.

Era a selvagem urbe insalubre, única opção possível àquelas pessoas, ex – ainda – quase escravas largadas ao Deus dará, uma urbe de miseráveis embaralhada, modelito urbanístico provável das intrincadas malhas de vielas e cubículos de nossas favelas atuais que, com a reforma dele, o alcaide do mal, aí sim explodiram de vez, se expandindo como uma cidade cancerosa no ápice de sua metástase. Violenta, nervosa, uma urbe que os sucessores de Passos sonham agora – tolinhos! – ‘pacificar’.

Quem pariu Mateus? Quem começou a guerra? A culpa foi deles, ora!

‘Reforma urbana’? Deviam ter dado outro nome. Urbe é lugar organizado, planejado para todo tipo de gente morar bem e em harmonia. ‘Urbe privê’, só para alguns devia ter outro nome.

Basta olhar para os cintilantes arabescos de ouro que bordam a fachada do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, hoje reformado para voltar a ser tal qual era no tempo da inauguração da afrancesada Avenida. Olhem para o alto e vejam aquela águia dourada gigantesca, imponente encimando tudo e reflitam: É ou não uma demonstração exacerbada e cruel de uma quase infame ostentação colonial?

Mereciam porrada.

Varreram para o lixo da periferia os pobres e desvalidos (negros, muitos negros ex-escravos e uns gatos pingados brancos desvalidos) para o que são os favelões de hoje em dia e puseram no lugar os infames monumentos de sua empáfia burguesa.

Espantaram os habitantes da urbe desurbanizada à tiros pauladas, chutes e pontapés. Passaram o trator nas casas deles, demoliram os morros do Castelo e de Santo Antônio (onde também moravam os pobres) e gritaram;

_”Ponham-se na rua! Escafedam-se! Morram!”

Os ovos eram os pobres e  no que deu isto tudo vocês podem ver aí, com os complexos de favelas a exigirem esta pacificação improvável, nesta guerra sem fim.

E olhem que disto eu sabia. O pior de tudo ainda estava ainda por saber.

Este centro do Rio reformado por Pereira Passos desmorona a olhos vistos como num filme de terror.

Bem…leiam a matéria aí em baixo e se apavorem também como eu. Brrr!Lembrei daquele filme Poltergeist, no qual um cemitério indígena aterrado para a construção de um loteamento de classe média se dissolveu em lama, sugando tudo que sobre si foi erigido.

Bondes virados, mortos, favelas que desmoronam, mortos, prédios que se esfarinham como castelos de areia e mais mortos. Temo pelo Rio de Janeiro. Juro. Já contei aqui este meu pesadelo: E se já estiver em curso a temida vingança das forças do desconhecido e o céu-kalunga dos ex escravos mortos insepultos desabar sobre nossas cabeças, nos sugando a todos para o inferno?

E se for mesmo verdade que a ‘Reforma Urbana‘ de Pereira Passos tiver sido mesmo amaldiçoada, espraguejada por uma bruxa quimbandista de santo extra forte?

Brrr!

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“Avenida Treze de Maio: região de lagoas e mangues no passado

“Por O Globo (granderio@oglobo.com.br) | Agência O Globo

RIO – Por baixo do solo aparentemente estável da Cinelândia corre a história de uma cidade repleta de opções erradas de ocupação, com aterros que engoliram ossadas de gados inteiros e, no caso do Teatro Municipal, até vestígios de barcos. A Avenida Treze de Maio é uma das que escondem um passeio mais úmido. Parte dela era uma estreita faixa de terra que ligava o Centro à Lapa. Outra fração estava embaixo d’água e atendia por Lagoa de Santo Antônio.

O desabamento dos três edifícios da avenida, na noite de quarta-feira, pode não ter relação alguma com suas bases. Ainda assim, para o historiador Nireu Cavalcanti, professor da pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF, serve como reflexão de como se deu a expansão da cidade.

Seria mais lógico que o Rio, localizado numa região muito baixa, fosse uma cidade de canais, como Amsterdã – compara. – Em vez disso, optamos por cobrir todas as lagoas e mangues, o que ocorreu, por exemplo, na Cinelândia.

Na década de 1970, durante a construção do metrô, os engenheiros responsáveis pela obra encontraram carcaças de barcos que seriam do século XVII, quando as chuvas faziam os lagos da região receberem água e objetos da Baía de Guanabara. Sob a estação da Glória, outra descoberta digna de nota: a ossada completa de uma baleia. O regime militar, porém, proibiu a divulgação dos achados, sob o temor de que o empreendimento fosse convertido em sítio arqueológico.

Heranças do tempo em que o Centro era um complexo lacustre, de solo frágil e pantanoso. A região coberta por escombros hoje, há três séculos margeava a Lagoa de Santo Antônio. Seguir aquele caminho levava até uma outra lagoa, a do Boqueirão, que se esparramava por uma região hoje dividida entre o Passeio Público e a Praça dos Arcos da Lapa.
– O Boqueirão recebia água da chuva que escoava dos morros de Santo Antônio e do Castelo, enchendo até se unir à Lagoa de Santo Antônio – lembra Nireu.

Na região surgiu a expressão “Cidade Maravilhosa”.

No século XVIII, as lagoas foram aterradas e sua água escoada para a Rua da Uruguaiana – cujo nome original, muito apropriadamente, era Rua da Vala. Surgiam, assim, dois largos, o da Carioca e a atual Cinelândia. A estrada responsável por sua ligação é, hoje, a Treze de Maio.

A primeira edificação de grande porte construída nos arredores foi o Teatro Municipal. Para sustentar uma estrutura tão pesada, foi necessário o uso de estacas de madeiras, que afundavam além do aterro e da lama, até encontrarem um terreno firme.

Arranha-céus como o Edifício Liberdade, de 20 andares, vieram na primeira metade do século passado. Mesma época em que as escavações do metrô descobriram, entre resquícios de barcos e baleias, bois mortos, jogados ali pelo antigo matadouro da cidade, instalado na Rua Santa Luzia até por volta de 1740.

A herança arqueológica e seu mau cheiro, porém, não foram o principal legado daquela região do Centro. Vale lembrar que foi por ali que nasceu o apelido Cidade Maravilhosa. Quando, exatamente, ninguém arrisca dizer. Mas foi provocado pelas reformas de Pereira Passos, cuja vitrine foi a criação da Avenida Central – hoje Rio Branco – e o ápice, a demolição do Morro do Castelo, encerrada em 1922.”

(Abaixo, demolição do prédio da Ordem  3ª da Penitência durante a Reforma Urbana de Pereira Passos em novembro de 1906.)

_NZAMBI-A-MPUNGO, AUÊ! – Post #01


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A cultura africana do Brasil na boca do sapo mítico

Pegue pela palavra. Vá à página da Wikipédia, a enciclopédia livre da internet (lusófona ou brasileira, sei lá) e tecle a palavra “Nzambi”. Fique constrangido como eu ao ler a educada repreensão, o leve ‘toque’, esta admoestação desagradável dos moderadores:

“Esta página ou secção não cita nenhuma fonte ou referência, o que compromete sua credibilidade….

Por favor, melhore este artigo providenciando fontes fiáveis e independentes, inserindo-as no corpo do texto por meio de notas de rodapé. Encontre fontes: Google — notícias, livros…”

Nzambi é Deus, ora. Apenas isto. É só um conceito dito em outra língua. Deus como Alah é Deus, como God é Deus, como Dieu é Deus, como Dios é Deus, como Gott é Deus… Querem coisa mais simples?

Mas não. Como Nzambi é isto aí mesmo, só que numa língua de negão dito ‘primitivo’, animista, dito dado a supersticionices, ficam nesta de carnavalizar os vocábulos com estas fantasias de nega maluca, crioulodoidamente enchendo-os de suposições semânticas psicoanalíticas,como analfabetos de pai e mãe.

_Maudit la pré-anthropologie du 19ème siècle!

(Eu sei. É claro que o conceito ‘Deus’ tem lá as suas idiossincrasias de cultura para cultura, mas a gente só vai esbarrar nesta pedra no caminho deste papo, mais adiante (no post #02, valeu?). Palavras são palavras e isto são, portanto outros quinhentos.

Vocês podem crer, no entanto que isto é muito mais comum em se tratando de cultura negra na internet do Brasil do que com qualquer outra coisa. É impressionante. Já testei.

A coisa melhora muito quando as perguntas são formuladas em inglês, holandês ou mesmo em qualquer língua europeia destas aí. Há uma questão mal resolvida aqui sim. A gente não sabe nunca se é ignorância ou má vontade intelectual dos nossos “formadores de opinião”. É um buraco negro, um troço destes aí interplanetários que sugam matéria, se alimentam da substancia das coisas alheias, um sapo mítico, se bem me entendem

(Calma. Vocês já já vão entender porque o tal do sapo entrou na história) .

_”Ah... – dirão os ímpios refinados do fundo de seus cercadinhos vips: – “…mas a Wikipédia não é uma enciclopédia confiável.”

Que nada. Baboseira de estudante pedante, metido a sabichão. Tanto quanto qualquer mar de fontes a internet é um banco de dados consistente. Basta saber o que – e como – procurar.

Nem doutores antropólogos quilombistas ou indigenistas, nem intelectuais afro culturalistas, dos mais rasos aos mais ciosos amantes dos cânones da norma culta, nem jornalistas progressistas, historiadores com especialidade em história africana, ninguém parece muito interessado em tratar com a devida atenção e profundidade este nó etnológico – pego aqui pelo pé da etimologia – incrustado em nossos modos displicentes de sermos TODOS afro descendentes.

É tudo bruma neste campo de nossa inteligência tão vadia e ignorante. As poucas chispas a gente vai riscando aqui e ali como cego em tiroteio.

(Pois é. E para variar este post nem era sobre isto. É que esbarro nestas pedras do caminho no meio de uma pesquisa qualquer a toda hora. Fico pra morrer.)

Que pobreza macunaímica, gente! Ai que preguiça!

Magoou? Então tá. Diga lá você: O que é mesmo Zambiampungo, heim?

(Sim. Quase me esquecia. Era disto, que eu andava atrás, lembram? Prometi que explicaria – Ai de mim engolfado nesta teia de conceitos frouxos – mas juro, de pés juntos que ao fim de tudo explicarei)

Uma estranha, uma exótica festa de negros no recôncavo baiano, lembraram?

Uma das poucas referencias documentais, digamos assim… acadêmicas, que encontramos na internet sobre a manifestação do Zambiampungo , cuja ocorrência mais notória é a da cidade de Nilo Peçanha, BA (parece que ocorreu – ou ocorria – também nas cidades de Valença e Cairu, ambas também no Recôncavo) foi um texto em duas ou mais versões idênticas que condensei numa só,  atribuído à Alexandre Guimarães, um mestrando (ou doutorando, não sei bem) em História pela Universidade do Estado da Bahia/UNEB,  provavelmente uma tese, contudo me parecendo ser apenas uma tentativa de aproximação, de explicação do evento, como tudo nesta área, carente ainda de muitos aprofundamentos. (Alexandre falando:)

“…O Zambiapungo trata-se de um cortejo de homens mascarados… trajados com roupas coloridas e feitas com retalhos de panos e papeis de seda, que saem às ruas durante a madrugada do dia primeiro de novembro, véspera do dia de finados, dançando e acordando a população da cidade.

É caracterizada pelo uso de, além de tambores, búzios gigantes, enxadas e outras ferramentas agrícolas, que são tocados como instrumentos de percussão pelos componentes.

“…Nestes dois dias a população local volta sua atenção para a lembrança de seus mortos que são homenageados com flores, velas e missas. Não existia momento mais propício do calendário católico para um cortejo que refletia uma religiosidade baseada na ancestralidade ir às ruas.

Essa importância do espírito dos ancestrais na religiosidade Banto é o segundo fator que evidencia o caráter religioso inicial do Zambiapunga.”

Esmiuçaremos aqui então este mistério maravilhoso, tentando cruzar os dados de Alexandre – baseados em chavões clássicos – com outras pesquisas e referencias mais amplas, neste emaranhado incrível e quase inescrutável que é a cultura africana do Brasil. Assinalamos com grifos, vez por outra, os pontos cruciais de nossa investigação – que é bem preliminar ainda –  aqueles que parecem encerrar as chaves da questão.

Ah…e vejam os vídeos do Zambiapungo nestes links (#01, #02,#03). E leiam – com os olhos críticos e bem abertos – só para começar, esta descrição folclórica, ou seja baseada numa descrição meramente visual, testemunhal da misteriosa manifestação (ainda Alexandre Guimarães falando, agora já demonstrando algumas incongruências fatais:)

“…Outra evidência do caráter religioso inicial do grupo é o significado do termo “Mpungu” de Nzambi-a-Mpungu. Segundo vocabulário construído por Aires Machado Filho, a palavra “Mpungu” é provavelmente sinônima de “defunto”.

Yeda Pessoa traduz, por sua vez, “nzambi ampungu” como o grande espírito e “saami ampunga” como os grandes ancestrais.

“Mpungu”, “ampungu” ou “ampunga” são palavras bantos que se referem aos mortos, aos antepassados, o que evidencia a relação da origem do zambiapunga atual com a religiosidade Banto.

“…Para compreendermos a segunda evidência da origem religiosa do Zambiapunga é necessário falarmos um pouco sobre os Bantos e sua religiosidade.

“… É provável que o Zambiapunga do Baixo-Sul baiano era ou integrava um ritual religioso de uma parcela dos africanos escravizados. Para entendermos esse aspecto é necessário fazermos uma análise etimológica do termo “zambiapunga” e enumerarmos alguns aspectos da religiosidade dos povos cujo termo citado se liga: os Bantos.

Zambi ou Nzambi-a-Mpungu é o Deus supremo de povos bantos do Baixo Congo. A relação entre a palavra “zambiapunga” e o Deus supremo de africanos é a primeira evidência da origem religiosa do folguedo atual…”

“…Com o tempo o caráter religioso se perdeu e permaneceu uma bela manifestação da cultura popular.”

Só para tentar a desconstrução ou o esclarecimento das incongruências (quem quiser que conte outras, mas fundamente, por favor) em verdade em verdade vos digo que não existe evidencia alguma de que a palavra Zambiapungo possa ter qualquer coisa a ver com sapos, mortos ou defuntos (e esta afirmação, posso afiançar – o post #02  o dirá – é quase inquestionável).

Procurando no livro de Aires da Mata Machado Filho citado por Alexandre, por exemplo (o clássico ” O Negro no Garimpo em Minas Gerais” que o Tio já leu, sei lá, mil vezes) não encontrei no pequeno vocabulário nele contido nada que confirmasse esta hipótese etimológica, esta coisa aí de ‘defunto‘ ser ‘mpungo‘. Pura viagem no buraco negro. Suposição vaga de iniciante.

“…Nzambi-a-pongo – O Deus encarnado ou que encarna no sapo – é Nzambi mascarado:-inclemente, inexorável, vingativo, obediente à voz do feiticeiro e, como Deus ou como ciclope, não pode ser morto à cacetadas. É a vontade do mal, o desejo de vingança.”

No caso de Souza Carneiro (que aponta acima o étimo mpungo como sendo ‘sapo‘) há não uma incongruência exatamente, mas uma suposição equivocada apenas, embora justificada por outra suposição mais factível que a de Alexandre: É que o mito africano, um conto tradicional) descrito por Souza, denominado na bahia ‘Kipongo” (ou seja, uma evidente transliteração de ‘Ki-Mpungo‘) tem relação direta com um sapo sim e há até uma ilustração curiosa deste sapo encantado gigantesco engolindo sua vítima (num desenho de Cícero Valladares), o que fez o mestre Souza Carneiro concluir:

…”Que se diz: “ Com licença, não se espante, com licença de Zambi mascarado em ou feito sapo”. Isso equivale a: “Zambi-a-apongo deu licença, logo não fará mal, não consentirá suceda qualquer mal.”

“Deus-de-sapo”, zambi-a-pongo quimbundo foi adaptação do nzambi-a-npungo conguês, ou vice versa.”

Num dos muitos autos de Ticumbi há o cântico:

“Com licença auê
Com licença de zambi a-pongo
Com licença auê…”

(O mestre Souza Carneiro em ‘Os Mitos Africanos no Brasil- Ed Brasiliana 1937)

A hipótese da linguista Yeda Pessoa é, contudo um pouco mais criteriosa e bem mais precisa até, pois como veremos mais adiante (tchan, tcahn, tchan!...)  Zambiapungo pode ser interpretado sim como sendo uma ‘forma‘ de deus. Mas o conceito é fugidio, dependendo de muito mais tutano e cavucação para ser decifrado.

(E a culpa não é de modo algum dos pobres bantu. O doido, como já disse por aí, não é o crioulo).

Bem, o fato é que mpungu a rigor não quer dizer ‘defunto’, de jeito nenhum. Também pode não querer dizer ‘Sapo’ – como eu mesmo açodadamente já imaginei, como vocês viram seguindo as pistas do mestre Souza Carneiro. E aqui uma ressalva importante:  me dirijo neste post, principalmente a leitores brasileiros, posto que leitores angolanos devem – ou deveriam – saber melhor do que eu o que quer dizer – pelo menos literalmente – mpungo, não é mesmo?

A relação equivocada entre o termo Zambiampungo e estas duas expressões (‘Sapo’ e ‘Defunto’) parece estar neste caso sendo induzida pelo fato de, em primeiro lugar, Souza Carneiro ter confundido o nome da entidade que assume a forma de Nzambi com o dito bicho (o sapo). Alexandre por sua vez deve ter feito confusão com o fato da  manifestação ter nos dias de hoje alguma relação com o católico – e universal – culto aos mortos, ressalvando-se que o dia de finados – a data em si – como bem sabemos é uma efeméride católica, o que faz a relação direta entre um provável culto ancestral bantu e a data dos festejos atuais ser um tanto improvável.

Contudo, pode ser que, de algum modo fortuito haja esta relação do Zambiapungo com os mortos sim, mas a palavra, a denominação traduzida ou decifrada mais precisamente, parece que não tem nada a ver com isto diretamente. A coisa parece ser bem mais complexa como vocês verão (e a solução da charada será, garanto a vocês, sur-pre-en-den-te).

É a complexidade viciante desta surpresa que nos animará daqui para adiante.

Ognupm-a-ibmaz? A palavra no espelho

E aí, como água fria, nos vem a informação mais decepcionante sobre a manifestação, aquela que nos lança mais fundo no limbo de sua enigmática origem:

“A delimitação geográfica e a problemática levantada levaram-me a escolher como balizas temporais os anos de 1940-2002. O zambiapunga nilopeçanhense levou alguns anos inativo, entre as décadas de 60 e 80, sendo “revitalizado” a partir de 1982 pela professora Maria Auxiliadora Camardelli e seus alunos do Ginásio de 1º Grau Adelaide Souza.Para entendermos as mudanças sofridas pelo grupo durante e depois de sua revitalização é necessário ao menos conhecermos alguns aspectos do zambiapunga anterior aos anos 60.”

Hum…Esta revitalização do Zambiampungo 20 anos depois – uma evidente ressemantização – precisa ser analisada melhor a luz de prováveis indícios e relatos que se possa obter sobre o passado da dança, antes de 1980. Se quase nada de escrito, pelo menos que se saiba, foi registrado em que terá se baseado a valorosa professora em sua recriação do Zambiampongo?

Na memória dos mais velhos, provavelmente, mas quais foram os elementos constitutivos da dança que foram recuperados –  tirando aqueles outros, agora francamente inventados – aqueles sob os quais se poderia basear uma historiografia qualquer sobre os vestígios e pistas que ela porventura encerra de seu passado africano? As máscaras? As enxadas? Os búzios?  A rítmica das canções? Quais?

Brumas.

Encontrei curtas  e lacônicas referencias  desta festa em texto Arthur Ramos, dando conta da existência remota da festa ainda no início do século 20, na mesma região, mas sem nenhum dado suplementar. Haveria referencias em textos angolanos, no trabalho meticuloso de Óscar Ribas, por exemplo que no seu iluminado trabalho ‘Ilundo‘, descreve algumas danças tradicionais de Angola já no século 20 muito semelhantes às danças africanas de inspiração bantu do Brasil?

No entanto, ainda assim estas densas brumas.

“Ai! Ai! Ai! Ai!
Pade-nosso cum ave Maria
Qui ta angananzambe-opungo.
Ei! Curietê!
Ai! Ai! Ai! Ai!
Pade-nosso cum ave Maria
Qui ta angananzambe-opungo.
Ei! Dunduriê ê!”

(Ponto de vissungo, Diamantina, MG em Aires da mata Machado Filho)

Mas isto ainda, como vimos são apenas sombra e vulto, a imagem ainda bem difusa de um conceito mais complexo, ligado que é a fundamentos muito antigos da cultura bakongo de Angola. Coisa cabalística, mística, empírica sim, mas apenas para nós, os que dela somos ainda ignorantes, posto que se trata de uma cultura de raízes muito antigas (século 12, por aí), daquelas que não podem ser, de modo algum primitivas, no sentido de atrasadas.

Apenas cultura de gente normal ansiando registro, carecendo de historicidade, precisando apenas se cientifizar.

É muito relevante ressaltar também, que as referencias documentais do eminente etnólogo baiano Souza Carneiro – pai de Edison Carneiro, tão desconhecido do público em geral e tão desprezado por seus pares (as razões nada prosaicas ou edificantes a gente vai descortinando por aí) –  baseadas em notas de campo de pesquisas por ele realizadas no final do século 19 no Recôncavo baiano – área de ocorrência, como sabemos do Zambiapungo personagem de nossa história – talvez sejam ainda hoje, fundamentais para pesquisas de campo desta tão relevante quanto subestimada, quase vilipendiada cultura bakongo no Brasil)

Finalizando este longo post#01, digo, repito, encho a boca para dizer: De tudo que pode saber até agora,  a dança do Zambiampungo de que tratamos vivamente aqui, com toda certeza, de um jeito ou de outro –  tenha tido a forma que for no passado – veio sim, não só de Angola – área do antigo Reino do Kongo e suas adjacências – mas de uma região bem determinada, provavelmente o sul do país, nas vastas imediações do porto de Benguela, origem da maioria dos escravos africanos que – inegavelmente talvez – para o Brasil vieram na segunda metade do século 19.

E mais não sabemos. Tarde demais. A parte crucial do mistério desta dança talvez jamais seja desvendada de todo.

Sobrou, contudo a palavra –zambiampungo!–  guardada na boca do sapo em que nossos antepassados a costuraram. Nos falta mesmo apenas desconstruí-la mais ainda para enxergar o que há por trás de suas belas cifras, abrir o manto do passado histórico que ela mantêm em si enrodilhado, embrulhado como um presente secreto que o Tio em breve – em uma diminuta parte – revelará.

Aí, nela, na palavra-chave, é que estão algumas outras ferramentas destrancadoras de charadas, aquelas que nos farão entender algum dia – por mais remoto e distante que este este dia esteja – o real sentido de misteriosas tradições e manifestações culturais que nos eletrizam com seus maravilhosos mistérios, que enfim desvendados serão – nisto o Tio crê, piamente – o diploma cabal de que somos sim civilizados, sempre fomos, mas às nossas próprias custas.

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Viram só? Conversa cheia de ‘como-assim? Tudo ainda a ser salvo do redemoinho do buraco negro. Parecia impossível decifrar estes enigmas todos, mas enigmas são feitos assim e assados, exatamente para serem revelados – mesmo este que parece ser da conta de algum Deus aí bem remoto.

O Zambiapongo da Bahia é um destes fenômenos. Veio de ouro ou baú de tesouros ainda a serem explorados, de prospecção adiada, tardiamente ansiada por culpa sabe-se lá de que ou de quem (de preconceitos etnocêntricos tolos, torpes mistificações historiológicas, esnobismo arcaico dos doutos de fancaria, racismo enfim), descaso raso porque mascararam justamente as nossas caras pretas reais, aquelas que mais representam uma parte quiçá majoritária das caras todas da nação.

Retirar a peneira que esconde o sol é uma boa intenção. Sol é luz indispensáveis. Tomemos então estes dados esparsos como resquícios, vestígios, evidencias ainda, porém firme certeza: A Cultura africana do Brasil está, praticamente toda por ser levantada e sistematizada. Isto será virtualmente impossível se não estudarmos, profundamente a história, a etnologia, a antropologia enfim da região africana compreendida pelas margens do Rio Kongo (ou Zaire) até mais um pouco ao Sul, no vasto entorno do antigo Porto Benguela.

O resto todo, como fieira puxada, virá de roldão.

As chaves, pelo menos o sentido estrito da palavra aqui esmiuçada estão todas lá, de onde vieram algemadas as pessoas e trancadas as fechaduras de suas almas e memórias, transatlânticas almas antepassadas de todos nós.

_NZAMBI-A-MPUNGO, AUÊ!

Spirito Santo

Janeiro 2012
(E não perca o sensacional desvendamento final -abra este link- no próximo post)

A Bibliografia oculta de Nina Rodrigues, o pai dos ‘negrólogos’ do Brasil


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Pé de pato mangalô três vêiz.

Conselho de Tio leigo abusado:

Ao lerem estes ‘negrólogos’ aí, os mais referendados, indicados, incensados, bibliografados, amarrem a bibliografia deles pelos sete lados.

Sei que alguns – notadamente os que já se imaginam doutos – acham que dizer isto é chover no molhado, mas aviso aos navegantes que estudam cultura negra do Brasil – notadamente gente universitária formanda, mestranda ou doutoranda em geral: Quando indicarem para vocês – entre outros – a leitura de Nina Rodrigues, Arthur Ramos, estes ‘clássicos’ precursores de nossas ciências sociais, hum…orelhas em pé, tá?

É. leiam a bula ou seja: Tenham o cuidado de ler também aqueles títulos deles que NÃO estão sendo indicados, aqueles mais difíceis de encontrar. É que neles é que está o pulo do gato – preto – ideológico, as páginas ‘negras‘, se é que me entendem.

O pé atrás neste caso engorda e faz crescer, sabiam? Não deem este mole de se arriscar a entregar o ouro para o bandido.

Tomei a liberdade então de fazer uma lista aqui para vocês, extraída aliás de um artigo do próprio Arthur Ramos, para quem não sabe discípulo fervoroso de Nina e considerado – ele Arthur – o pai incensado da assaz intrépida antropologia tupiniquim.

(Calma ‘dotôzinho’. O Tio sabe que você já sabe o que só alguns poucos sabem – que o Nina ‘era isto e aquilo sim, um preconceituoso e tal, mas… mas…afinal era um cientista social relevante, importante e fundamental, de ponta em seu tempo, um precursor dos estudos sobre o negro no país, um intelectual respeitável que não pode ser desconsiderado assim, patati patatá’.)

Sei. Ah, tá.

Mas você se deu ao trabalho de avaliar a obra de NIna (e de Arthur Ramos, Edson Carneiro, etc.) á luz do contexto científico da época em que viviam? Pois é, deviam.

( inserir dados sobre a Ahnenerd)

 

Mas será que o dotôzinho sabe tudo mesmo sobre o Nina ? Ou, melhor ainda: Se nós estes alguns poucos o sabemos, não seria de bom tamanho todo mundo saber também?

Pois então tá. vou batê pra tu pra tu batê pra tua patota:

Marotamente, pensando em quem estava boiando ainda na questão, assinalo então em vermelho, o sentido gritante das temáticas das teses eleitas ou preferidas por nosso ‘herói’ Nina Rodrigues (e por Arthur Ramos também) os tais fulcros de suas ideias fundamentais.

Surpreendam-se. As evidentes intenções racistas estão lá, eugenistas, profunda e arraigadamente inseridas nos estudos deles. Elas, as malévolas intenções estão lá claramente expressas, sem sutileza alguma.

Incrível, mas acho que eles acreditavam – Nina, Arthur e outros tantos doutores, de hoje até –  piamente que os retratados por sua..patológica… ‘etnologia‘ pré nazista jamais aprenderiam a ler ou a escrever um dia. Falavam para seus pares, assim, sem pudor algum.

Não acham preocupante que sejam estas as ideias  que, praticamente fundam a antropologia brasileira no campo da…’negrologia‘?

Não? Fala sério!

Ora, e espera lá…se estas ideias ‘fundam‘ – e que se saiba, nunca foram realmente revistas –  não é mais do que óbvio que elas podem estar imiscuídas em muita coisa que nos mandam ler por aí?

Sim. Há um perigo enorme morando nesta história. É que existe uma lei nova por aí (a 10639, vocês já sabem) que obriga –  ou sugere, sei lá – o ensino da cultura negra em escolas do país. Já pensaram o que este veneno bibliográfico, estes ‘fundamentos’ pseudo etnológicos, diluídos por aí não podem fazer com a nossa cabeça?

A Cabeça de nego com esta pólvora toda explode, gente!

Creiam. Por razões tão esdrúxulas que este humilde post de internet não pode aprofundar agora (mas o Tio aprofunda no seu livro), o melê que fizeram, sabe-se lá quem  (a cultura dominante, a academia, os oportunistas pretos e brancos de todas as ocasiões) com a cultura africana no Brasil é tão grande, mas tão grande que – como a Mangueira, a  escola de Samba- “nem cabe explicação.”

Desculpem a referencia fortuita e o açodamento da enfase, mas sabem como é: tem doutor que é cego, gente!

Trabalhos destacados de Nina Rodrigues sobre o negro e o mestiço brasileiros:

Antropologia patológica: os mestiços, Brasil Medico, 1890
As raças humanas e a responsabillidade penal no Brasil, 1ª ed. Bahia, 1894
– 2ª ed. de Afranio Peixoto, Rio, 1933
Métissage, dégenerescence et crime, Arch. d’Anthrop. crim., 1898
Nègres criminels au Brésil, Arch. di psich., scienze penali e antr. crim., vol. XVI; L’animisme fétichiste des nègres de Bahia, Bahia, 1900
– La paranoia chez les nègres, atavisme psychique et paranoia, Arch. d’Anthrop. crim., 1902
– Contribuição ao estudo dos índices osteometricos da raça negra, Rev. dos Cursos da Fac. de Med. da Bahia, 1904
Vários trabalhos publicados em revistas diversas depois reunidos num estudo de conjunto sobre O problema da raça negra na América Portuguesa, que deixou incompleto.

E nas palavras do próprio Arthur Ramos:

Com o material deixado pelo malogrado mestre e documentos encontrados no Instituto Nina Rodrigues, Homero Pires recompôs Os Africanos no Brasil, Rio, 1933

(Nota de Arthur:). Esta nota é prolongada na edição de 1940 com: “Em 1934, editei O animismo fetichista dos negros baianos, de que só existiam artigos esparsos e a edição em francês. Em 1939, recompus a obra, deixada inédita e inacabada, As coletividades anormais (Vols. II e XIX da Biblioteca de Divulgação Científica) NR.”

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Na veia. É simples a dica do Tio: Se você quer mesmo aprender, futuque, duvide, critique, questione o mestre, aperte o doutor.  Se o teu interesse for apenas um diploma no peito, um título pra chamar de seu, então – paciencia! – relaxe e faça apenas o que o seu mestre mandar.

Sintam  e vivam o drama por si mesmos.

Spírito Santo

Janeiro 2012

Iconografia do black people para todos (+ um post)


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Jovem arqueiro por Govaert Flinck (1615-1660).

A resenha a seguir eu traduzi livremente de um site holandês, se não me engano do Rijks Museum de Amsterdam. Bem, como você já devem saber, entendo chongas de holandês, mas como não sou  lá tão ignorante assim, vou seguindo com o meu barco. Sempre chego em algum bom lugar.

Quem tem boca, se diz por aí, vai à Roma.

A sugestão que faço – prosaica como todas as anteriores – é a seguinte: No que diz respeito à história da África,  neste emaranhado de fontes escritas suspeitas, carregadas quase sempre – e até hoje – de propaganda colonialista, fontes supostamente ‘científicas‘, no fundo no fundo carregadas de ideologia eurocentrista, às vezes com o intuito mal camuflado de ‘denegrir‘ ou desqualificar a cultura alheia, no âmbito de certa antropologia interesseira enfim,  na falta de outras, a iconografia talvez seja uma das fontes mais confiáveis no rol dos registros feitos pelos europeus sobre a ‘misteriosa’ África invadida por eles no século 16.

É por isto que, como São Tomé, curto fotografia, pintura, rabiscos de tição no ar, grafitti de muro de favela, qualquer coisa que os olhos veem e o coração sente. Ver para crer.

O século 17, notadamente com o advento da chamada pintura barroca ‘verista’ – na qual os holandeses foram os mestres incontestes – foi pródigo neste sentido de dar alguma visibilidade às terras do ‘outro mundo’. Desprovida daqueles salamaleques estéticos do barroco renascentista italiano, calcado na bajulação de mecenas e da vida dos aristocratas que bancavam a nababesca vida dos artistas, a iconografia holandesa dá de 10 a zero nas outras, quando se busca evidências realistas – reportagens mais ou menos fotográficas – de como era, mesmo supostamente, aquela África remota tida e havida como primitiva e selvagem, retratada quase sempre com exagero exotista, indigna de atenção meticulosa por parte da maioria dos pintores europeus da época.

Já disse aqui: É preciso reconhecer talvez que o fato de os holandeses terem estado no Brasil por aqueles breves anos, teve o lado bom de salvar a história africana do Brasil setecentista de um apagão imagético irremediável.

Limitados que estaríamos aquele trágico estoicismo católico apostólico romano dos pintores barrocos espanhóis e portugueses, que escondiam sobre o exacerbado vermelho do sangue do martírio de seus santos, todas as barbaridades que cometiam por aqui contra índios e africanos escravizados, nossa história imagética seria um mundo das trevas só.

O quadro desta resenha de hoje nem é desta praia aí, da história africana no Brasil não, mas é um excelente exemplo do quanto de história próxima do real se pode  encontrar admirando uma imagem ‘verista’ como esta.

Curto olhar para estas coisas e admirá-las. De paixão. Esmiúço minúcias, resquícios, texturas, autopsio tudo, meticulosamente, com lupa como um legista de filme criminal. No fim – podem crer – quase sempre descubro pólvoras e crimes. Ver para poder contar e provar.

Nem tudo é verdade, eu sei, mas pelo menos fica sendo alguma possibilidade de ver para crer, o que – convenhamos – é bem melhor que  acreditar piamente em firulas hipotéticas, cascatas de espuma só por que algum fulano nos falou.

(Com todo respeito e a  benção São Tomé)

A Resenha

A tela ‘O jovem arqueiro’ (1640) é o único trabalho atribuído ao pintor holandês Govaert Flinck  constante do acervo da Wallace Collection.

O quadro foi adquirido como se fosse um Rembrandt (1606-1669) pelo Marquês de Hertford em 1848. Em 1913 sob a suposta assinatura Rembrandt apareceram os resquícios de outra assinatura. Em 1928 o quadro passou a ser reatribuído a um dos alunos de Rembrant chamado Govaert Flinck, que atuou em Amsterdã na década de 1630,  produzindo para um mercado insaciável por pinturas no estilo criado por Rembrandt tornado um modismo na época.

A pintura mostra um rapaz negro em um fundo liso, ricamente vestido em trajes de caça, um arco fechado na mão direita, uma bolsa de flechas pendurada no ombro esquerdo. Os fechos de metal intrincado da alça da mala são cuidadosamente detalhados e são destaque, em contraste com a opacidade sombria do casaco do rapaz. Duas pérolas, um brinco pingente e um colar brilham contra a escuridão de sua pele e roupas. Olhar da figura é direcionado para longe do espectador com uma solenidade envolvente e inquietante.

A pintura, uma ‘tronie’ ou ‘rostro’ (em holandês), é uma técnica característica do ‘verismo’ flamengo do século 17, caracterizado como uma representação de um modelo com expressões inusitadas ou grotescas, com a finalidade de demonstrar o talento do artista para captar expressões de personagens. Tais pinturas eram muitas vezes produzidas por aprendizes no atelier como exercício técnico na arte do estudo de personagem. ‘tronies’ foram imensamente populares nos anos 1630 e 40 na Holanda, onde o mercado para a aquisição de pinturas era muito maior do que no resto da Europa.

Tem sido sugerido que o retrato Flinck representa um caçador, uma ocupação considerada humilde no século 17. No entanto, uma legenda inserida abaixo de uma cópia impressa por Jan de Visscher (c. 1636-após 1692) feita a partir de um desenho do mesmo assunto feito por Cornelis Visscher (? 1629-c.1658) oferece a possibilidade de uma interpretação alternativa. A inscrição diz:

“O ‘Moor’ (termo usado em muitas regiões da Europa para designar ‘negro’: Nota minha) com o seu arco e flecha parece ter o inimigo nos olhos”

A inscrição, que se pensava anteriormente sugerir uma figura literária desconhecida, pode ser uma alusão aos famosos arqueiros núbios dos tempos clássicos.

Núbia, (outro termo para Kush – uma região localizada no vale do rio Nilo, nos dias de hoje parte do Sudão e da Etiópia), foi um potência militar que ganhou imenso respeito no mundo romano, em parte devido à sua tradição de ter arqueiros altamente qualificados. Os núbios ficaram famosos no final dos tempos antigos, em parte devido ao papel desempenhado como mercenários nas guerras em todo o Mediterrâneo.

Por que Flinck escolheu retratar o seu jovem modelo como um arqueiro? Entre as razões se pode incluir o desejo de retratar uma cor de pele e uma fisionomia diferente da dos súditos de costume, a disponibilidade de adereços de arqueiro em seu estúdio e a enorme popularidade de arco e flecha como esporte no século 17 na Holanda ou, talvez, até mesmo uma consciência da história dos hábeis arqueiros africanos a partir de descrições contidas na Bíblia.

Rembrandt é certamente conhecido por ter sido fascinado por histórias e personagens do Antigo Testamento. Seja qual for sua verdadeira identidade ou propósito, há certamente influência de Rembrant seduzindo este jovem pintor a quem o quadro é atribuido.

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