O racismo raso da rede e seus fundos contrários.

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O Balanço do Tio na Rede #post 02

Ainda ‘balanceando’ a minha experiência na Rede, falando sobre as páginas do Facebook e os blogs do Tio– que estão sendo lidas/lidos e comentadas por um número até bem razoável de amigos – várias curiosidades se poderia destacar. (Veja a lista das páginas do Facebook que o tio abriu aqui no post #01 desta série)

A mais impressionante é a contraditória noção do conceito ‘rede’ que aparece assim, nítida, diante de nós quando olhamos o contexto de páginas e grupos que criamos – mas não administramos mais, Deus nos livre! – de forma ampla, ‘holística’ como se diz.  Ao que tudo indica as pessoas tendem muito mais a se isolar em comunidades virtuais estanques, guetos mesmo, cercadinhos ‘vips‘, do que, propriamente se relacionar ‘em rede’.

Ora, não é preciso teorizar muito para se entender que o conceito Rede pressupõe o compartilhamento de opiniões e ações, o espírito ‘comunitário’ na acepção pura da palavra, o relacionamento entre as pessoas por afinidade sim, mas também por  necessidade de colocar na mesa, debater e esclarecer divergências e ambiguidades, estas coisas tão dinâmicas de nossa vida em sociedade que fazem a terra girar, sem parar.

Por mais simplório ou imbecil, ingênuo que seja, há sempre um propósito a ser atingido nos relacionamentos entre as pessoas em geral. Grosso modo a expressão a “união faz a força” é o que melhor define, filosoficamente este conceito ‘Rede

Contraditoriamente, contudo – pelo menos nas páginas e grupos que abri- as pessoas reagem de maneira às vezes truculenta mesmo, diante de meras críticas, ponderações pontuais, colocações eventualmente deslocadas da simples adesão compulsória a ideia predominante, os propósitos alegados pelo enunciado dos objetivos da página. Há, portanto fundamentalismo demais nesta minha rede (o que torna inviável a maioria das ações que porventura os debates propostos nela visavam estimular)

Muito doida contradição.

Para tornar mais doida ainda a incongruência, os nós da minha rede – e só olhando assim do alto, saindo do corpo que me pertence, pude enxergar isto – são radical e insanamente intolerantes.

Um exemplo bem emblemático desta intolerância fundamentalista e militante foi a criação da página/grupo ‘Racismo ao Contrário”. A motivação fortuita foi um incidente ocorrido no âmbito de um Seminário de Cultura Negra aqui no Rio, promovido por uma empresa desvinculada do Movimento negro oficial, no qual algumas equivocadas ações programadas  – como uma mesa redonda onde se debateria a mulher negra entre os integrantes, na qual por um lamentável engano de ‘cast’, não se escalou nenhuma mulher – estimularam protestos mais equivocados ainda.

A ideia da página era simples: Quebrar a dicotomia de um debate polarizado demais, onde brancos e negros nunca expunham francamente os seus pontos de vista. Ledo engano. Se polarizado estava, o debate no âmbito da página atraiu tudo que de pior e ruim pode ocorrer numa rede social: Ataques virulentos, ofensas apócrifas à honra alheia, inserção oportunista de tópicos extemporâneos ao assunto – tais como o feminismo mais agressivo e raivoso, com o viés de campanha proselitista pelo homossexualismo feminino negro – e, o que é pior, afastando do debate todas as pessoas mais, digamos assim, ponderadas que se debandaram assustadas, quase enxotadas, para longe dali.

Hoje, a página ‘Racismo ao Contrário” se transformou num espaço convencional para o debate do racismo em geral, mas, infelizmente, como a maioria das páginas de negros da Internet – está restrita à participação de negros, o que torna muita limitada a possibilidade da página atingir a seus objetivos originais.

Aliás, se existe tema cabuloso, quase impossível de se debater na Internet ele é o Racismo. A experiência do Tio neste aspecto é bem relevante, ou pelo menos muito intensa. Tanto que – ainda como reflexo desta intolerância virtual da Rede, sofro a pressão insuportável de muitos amigos, que se colocam, insensatamente em dois lados bem demarcados, apartados mesmo da questão.

Os meus queridos amigos negros – não todos, mas uma grande parte deles – detestam, odeiam de paixão algumas das minhas posições no sentido de propor uma revisão das estratégias e ideologias demonstradas nas ações e propostas mais recorrentes do Movimento negro do Brasil. Demonstram também uma ignorância relativa de fatos históricos ou etnológicos  essenciais, relacionados à real presença dos africanos no Brasil (tanto quanto ignorantes destas coisas são, inclusive muito dos doutores brancos).

Acho – e exprimo claramente isto em meus posts – que há muita ignorância, impropriedade e, mais ainda, bastante mistificação em quase tudo que se refere à cultura negra no Brasil. As bases ideológicas, no sentido de embasarem estratégias de luta contra o racismo, podem estar dramaticamente equivocadas.

No fundo deste meu proposto debate, está a crença de velho militante de que a luta anti racista no Brasil vive travada, por conta destes equívocos crassos todos, esta preguiça conceitual, esta dependência de uma etnologia acadêmica hegemônica, porém bastante relapsa e mal informada também, esta ideia rasa do que é (as pessoas se recusam, sistematicamente a raciocinar sobre isto), realmente, tecnicamente o Racismo sistêmico do Brasil. Tornando qualquer debate uma confusão com fundo de melê estrutural, tiros nos pés de nós todos, já que cultura negra e racismo, definitivamente não são problemas só de negros.

Sou considerado, portanto – incompreensivelmente diria – por esta ‘Ala Negra’ de minha Rede uma espécie de ‘traidor da raça’, já que a regra manda que as tais mistificações que denuncio – na melhor das intenções, diga-se – são dogmas politicamente corretos que ninguém deve ousar desmentir sob as penas de ser carbonizado por algum raio fulminante de Xangô.

_”Kaô, Kaô, kabesile!”

Ah, ah,ah! Como são tolinhos! Os raios de Xangô são pura simbologia (isto é história oral, folclore, o cara existiu de verdade. Sério! Nunca fez mágica nem milagre algum). Seus raios…virtuais, globosféricos, não torram a cuca ninguém.

E cá entre nós, porque o Tio não ousaria desmentir o que quer que seja? Como, se o que o Tio mais gosta na vida é de desobedecer os céus e os infernos? Qual seria a graça de uma vida espartana lavada de obediências e subserviências? Os Robôs – e os escravos- com toda certeza nunca serão felizes, máquinas de obedecer são inventados pelos homens e mulheres mais ousados, os que teimam em mandar mais do que obedecer.

Mas – oh, decepção dobrada (como disse, as duas Alas são água e óleo, nunca preto & branco, estanques em suas devoções aos escritos do Tio) – uma maioria de meus amigos brancos também encaminham as suas queixas no mesmo sentido – quer dizer, no sentido inverso . Para eles eu falo demais da conta em Racismo, alguns chegam mesmo a me impingir a pecha de – que doidos! – racista.

Muito interessante, aliás, a diferença entre estes dois tipos de leitores. Se entre os amigos negros o passionalismo evidente aparece sempre exacerbado, à flor da pele, motivado, é claro pelo envolvimento emocional, individual dos comentaristas, a falta de distanciamento deles para com o problema (o racismo no caso), nos amigos brancos o que aparece, quase que invariavelmente é a fria discrição, a contenção e o comedimento frio também, além de calculista, não raro refletindo uma omissão irritante, evitando completamente a expressão de posições mais claras, exigindo do Tio muito esforço de prosódia, sarcasmo, utilizando diversas técnicas de provocação e persuasão – que, geraram brigas homéricas algumas vezes – mas que, quase sempre avançam para algum consenso, pelo menos respeito mútuo e civilidade.

A experiência do Tio tem demonstrado também – e Franz Fanon aparece sempre fulgurante nestas seções virtuais de esquizofrenia – que os racistas francos, ‘honestos’ e sinceros, os ‘autênticos’ por se assim dizer, são antes de tudo seres ignorantes, tacanhos mesmo, carentes de educação no sentido amplo da palavra. Provocados, acabam falando  pelos cotovelos e o debate, baseado então em dados e informações mais precisas, argumentos irrefutáveis, costuma calá-los. Há, contudo um número incontável de ‘racistas’ pragmáticos, intelectualizados, embora inconscientes (ou omissos) e não se deve subestimá-los porque eles são milhões no Brasil (e – vamos combinar –este grupo não é formado apenas por gente branca).

Enquanto estes dois grupos formados por negros intolerantes, enclausurados em guetos virtuais ou reais e estes ‘racistas’ por omissão não debaterem juntos formas concretas, propositivas de combater o racismo que nos imobiliza à todos, o sistema é quem vencerá. Sempre.

Se o Tio fosse solicitado a dizer qual é a maior contribuição que os brancos – e os negros ‘assimilados’, os ‘pais-joões’ -do Brasil dão à manutenção do Racismo por aqui – pelo menos os brancos e ‘assimilados’ da Rede – Eu diria que é a omissão, a indiferença, a crença de que o problema é uma questão menor, irrelevante, que ‘não é com eles’.

Sobre os amigos negros eu diria que contribuem muito para a manutenção do racismo com a insana e ingênua intolerância que professam, esta crença absurda de que pode ser construída no Brasil uma classe média negra, um Mundo Negro Ideal, num Nagô-egipitologismo-rastafarianista historicamente canhestro, de filme B, quase carnavalesco, apartado cultural e socialmente do resto da sociedade, num devaneio de negritude norteamericanista superado desde os anos 70 do século passado.

(E vejam só a ‘saia justa‘: Se uma classe média negra fosse mesmo viável no seio do capitalismo do Brasil, com que cara, com que moral, com que ética esfarrapada se justificaria a manutenção do resto da negraiada toda – a maioria – na mesma miséria sistêmica, de sempre?)

Presos no que eu chamo de ‘Síndrome do Gueto’, não conseguem atualizar, revitalizar os discursos de Malcom X ou Franz Fanon que leem congelados no tempo, entre outros cânones menos populares, orientados por pós-doutores, a maioria deles brancos de marré de si, do mesmo modo, quem sabe, equivocadamente formados também sob a norma inculta destas bolorentas teses e hipóteses pré culturalistas nacionais.

É. Neste papo aí o Tio entrega o jogo por hora. Esbraveja sim um ou outro argumento mais abusado, mas só por pura teimosia, ranhetice como classificam alguns.

O certo é que o Sistema é complexo demais para os puros. O Sistema não prega prego sem estopa. Tanto quanto a Rede é embaraçada de armadilhas estas coisas não foram feitas mesmo para os tolos, muito menos para os amadores.

Ainda bem que ela, a nobre rede – por enquanto – ainda é transparente e franca. Não há como escapar de seu balanço.

Volto já, sei lá.

Spírito Santo

Janeiro 2012

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~ por Spirito Santo em 11/01/2012.

2 Respostas to “O racismo raso da rede e seus fundos contrários.”

  1. me identifiquei demais com o texto. o problema pra mim é que quando não é silêncio, é um festival de bobagens de dar dó.
    é preciso muito estômago pra aguentar.
    enfim, podemos esmorecer!
    abraço
    Patrício

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  2. Ai! Que silencio significativo! Nenhum comentário por aqui

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