Iconografia do black people para todos (+ um post)

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Jovem arqueiro por Govaert Flinck (1615-1660).

A resenha a seguir eu traduzi livremente de um site holandês, se não me engano do Rijks Museum de Amsterdam. Bem, como você já devem saber, entendo chongas de holandês, mas como não sou  lá tão ignorante assim, vou seguindo com o meu barco. Sempre chego em algum bom lugar.

Quem tem boca, se diz por aí, vai à Roma.

A sugestão que faço – prosaica como todas as anteriores – é a seguinte: No que diz respeito à história da África,  neste emaranhado de fontes escritas suspeitas, carregadas quase sempre – e até hoje – de propaganda colonialista, fontes supostamente ‘científicas‘, no fundo no fundo carregadas de ideologia eurocentrista, às vezes com o intuito mal camuflado de ‘denegrir‘ ou desqualificar a cultura alheia, no âmbito de certa antropologia interesseira enfim,  na falta de outras, a iconografia talvez seja uma das fontes mais confiáveis no rol dos registros feitos pelos europeus sobre a ‘misteriosa’ África invadida por eles no século 16.

É por isto que, como São Tomé, curto fotografia, pintura, rabiscos de tição no ar, grafitti de muro de favela, qualquer coisa que os olhos veem e o coração sente. Ver para crer.

O século 17, notadamente com o advento da chamada pintura barroca ‘verista’ – na qual os holandeses foram os mestres incontestes – foi pródigo neste sentido de dar alguma visibilidade às terras do ‘outro mundo’. Desprovida daqueles salamaleques estéticos do barroco renascentista italiano, calcado na bajulação de mecenas e da vida dos aristocratas que bancavam a nababesca vida dos artistas, a iconografia holandesa dá de 10 a zero nas outras, quando se busca evidências realistas – reportagens mais ou menos fotográficas – de como era, mesmo supostamente, aquela África remota tida e havida como primitiva e selvagem, retratada quase sempre com exagero exotista, indigna de atenção meticulosa por parte da maioria dos pintores europeus da época.

Já disse aqui: É preciso reconhecer talvez que o fato de os holandeses terem estado no Brasil por aqueles breves anos, teve o lado bom de salvar a história africana do Brasil setecentista de um apagão imagético irremediável.

Limitados que estaríamos aquele trágico estoicismo católico apostólico romano dos pintores barrocos espanhóis e portugueses, que escondiam sobre o exacerbado vermelho do sangue do martírio de seus santos, todas as barbaridades que cometiam por aqui contra índios e africanos escravizados, nossa história imagética seria um mundo das trevas só.

O quadro desta resenha de hoje nem é desta praia aí, da história africana no Brasil não, mas é um excelente exemplo do quanto de história próxima do real se pode  encontrar admirando uma imagem ‘verista’ como esta.

Curto olhar para estas coisas e admirá-las. De paixão. Esmiúço minúcias, resquícios, texturas, autopsio tudo, meticulosamente, com lupa como um legista de filme criminal. No fim – podem crer – quase sempre descubro pólvoras e crimes. Ver para poder contar e provar.

Nem tudo é verdade, eu sei, mas pelo menos fica sendo alguma possibilidade de ver para crer, o que – convenhamos – é bem melhor que  acreditar piamente em firulas hipotéticas, cascatas de espuma só por que algum fulano nos falou.

(Com todo respeito e a  benção São Tomé)

A Resenha

A tela ‘O jovem arqueiro’ (1640) é o único trabalho atribuído ao pintor holandês Govaert Flinck  constante do acervo da Wallace Collection.

O quadro foi adquirido como se fosse um Rembrandt (1606-1669) pelo Marquês de Hertford em 1848. Em 1913 sob a suposta assinatura Rembrandt apareceram os resquícios de outra assinatura. Em 1928 o quadro passou a ser reatribuído a um dos alunos de Rembrant chamado Govaert Flinck, que atuou em Amsterdã na década de 1630,  produzindo para um mercado insaciável por pinturas no estilo criado por Rembrandt tornado um modismo na época.

A pintura mostra um rapaz negro em um fundo liso, ricamente vestido em trajes de caça, um arco fechado na mão direita, uma bolsa de flechas pendurada no ombro esquerdo. Os fechos de metal intrincado da alça da mala são cuidadosamente detalhados e são destaque, em contraste com a opacidade sombria do casaco do rapaz. Duas pérolas, um brinco pingente e um colar brilham contra a escuridão de sua pele e roupas. Olhar da figura é direcionado para longe do espectador com uma solenidade envolvente e inquietante.

A pintura, uma ‘tronie’ ou ‘rostro’ (em holandês), é uma técnica característica do ‘verismo’ flamengo do século 17, caracterizado como uma representação de um modelo com expressões inusitadas ou grotescas, com a finalidade de demonstrar o talento do artista para captar expressões de personagens. Tais pinturas eram muitas vezes produzidas por aprendizes no atelier como exercício técnico na arte do estudo de personagem. ‘tronies’ foram imensamente populares nos anos 1630 e 40 na Holanda, onde o mercado para a aquisição de pinturas era muito maior do que no resto da Europa.

Tem sido sugerido que o retrato Flinck representa um caçador, uma ocupação considerada humilde no século 17. No entanto, uma legenda inserida abaixo de uma cópia impressa por Jan de Visscher (c. 1636-após 1692) feita a partir de um desenho do mesmo assunto feito por Cornelis Visscher (? 1629-c.1658) oferece a possibilidade de uma interpretação alternativa. A inscrição diz:

“O ‘Moor’ (termo usado em muitas regiões da Europa para designar ‘negro’: Nota minha) com o seu arco e flecha parece ter o inimigo nos olhos”

A inscrição, que se pensava anteriormente sugerir uma figura literária desconhecida, pode ser uma alusão aos famosos arqueiros núbios dos tempos clássicos.

Núbia, (outro termo para Kush – uma região localizada no vale do rio Nilo, nos dias de hoje parte do Sudão e da Etiópia), foi um potência militar que ganhou imenso respeito no mundo romano, em parte devido à sua tradição de ter arqueiros altamente qualificados. Os núbios ficaram famosos no final dos tempos antigos, em parte devido ao papel desempenhado como mercenários nas guerras em todo o Mediterrâneo.

Por que Flinck escolheu retratar o seu jovem modelo como um arqueiro? Entre as razões se pode incluir o desejo de retratar uma cor de pele e uma fisionomia diferente da dos súditos de costume, a disponibilidade de adereços de arqueiro em seu estúdio e a enorme popularidade de arco e flecha como esporte no século 17 na Holanda ou, talvez, até mesmo uma consciência da história dos hábeis arqueiros africanos a partir de descrições contidas na Bíblia.

Rembrandt é certamente conhecido por ter sido fascinado por histórias e personagens do Antigo Testamento. Seja qual for sua verdadeira identidade ou propósito, há certamente influência de Rembrant seduzindo este jovem pintor a quem o quadro é atribuido.

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~ por Spirito Santo em 23/01/2012.

4 Respostas to “Iconografia do black people para todos (+ um post)”

  1. É fácil. A minha eu faço no site deles. Lá então é mais fácil ainda. A propósito precisamos avançar aquela pesquisa em Dortrech, aquela coisa do navio em que D.Miguel viajou. Você falou também na missa que teria sido rezada em Amesterdam com a comitiva de D.Miguel (ou outro embaixador do Kongo) presente.

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  2. BOA!

    Preciso fazer uma boa pesquisa sobre esse assunto por la’ mesmo.

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  3. Obrigado. É nele que ando – como quem bate massa de pão – amadurecendo novos livros, rs rs rs!

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  4. que espetaculo o teu blog!

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