_NZAMBI-A-MPUNGO, AUÊ! A revelação – Post final

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Aquarela assinada pelo padre capuchinho Bernadino Ignacio em 1740

Aquarela assinada pelo padre capuchinho Bernadino Ignacio em 1743 representando a celebração de uma missa campal. Ao centro o pequeno clero congolês, formado pela ordem desde o século 16 e o ManiSoyo (o rei, de um reino vizinho e suserano do Kongo) da época, com seu séquito de músicos e soldados.

Ponto final de um enigma que é mesmo preto no branco

Cá entre nós: A hipótese do Zambiampungo (leia aqui posts #01 e #o2)  ter mesmo uma origem portuguesa (veja só este site aqui) muito antiga me parece um tanto remota. Mas como provar? É correto supor que descendentes de ex-escravos africanos praticando uma dança tradicional, tipicamente, visceralmente portuguesa em pleno Recôncavo baiano assumindo como sua uma festa na verdade europeia e a mantendo viva assim por tantos anos – talvez mais de um século adiante – é uma possibilidade antropológica impensável, bem estranha, difícil de se acreditar mesmo. Mas sabem como é a vida: nada que humano nos deve parecer estranho.

Pode ser. Tudo é possível, mas o caso é completamente improvável, inacreditável até, diria. Teria que ter havido nesta região do Recôncavo uma colônia portuguesa, transmontana muito ativa, bem antiga e muito forte e isolada culturalmente, instalada em Ilhéus a princípio no século 19 e logo em seguida, segundo as pistas indicadas por Alexandre Guimarães em Cairu. Não poderia ser outra a origem remota do Zambiampungo caso apostássemos nesta hipótese lusitana.

Pesquisadores baianos… Acordem, por favor!Alôôô!

Com o chicotinho queimando a minha velha mufa, como o São Tomé incréu que sou, acho forte, contudo a impressão de que alguém possa ter de algum modo feito uma pesquisa dos caretos portugueses e inserido este elementos lusitanos no Zambiapungo, reciclando a dança posteriormente nos anos 80. A emérita professora Camardelli , grande incentivadora da revitalização da dança em 1982, pode ter, quem sabe, esta informação crucial, autora que pode ter sido da ressemantização da festa.

Para desvendarmos esta ressemantização eventual, será preciso revisar os elementos citados pelos entrevistados como sendo anteriores à reconstituição feita pela professora para checar se ela – ou alguém – inseriu os elementos aparentemente transmontanos ou se eles já estavam no contexto. Tentei fazer isto com os dados fornecidos pela tese do Alexandre, mas é tudo ainda muito raso e superficial.

Será preciso confirmar também a natureza do processo de revitalização usado pela professora que, pelo que o Alexandre Guimarães sugere em sua tese, teria se preocupado em rememorar os relatos dos informantes e reproduzir mais ou menos o que eles descreveram (muitas dúvidas sobre isto, pois a festa ficou, praticamente extinta quase, por 20 anos e muita coisa se perdeu, a história oral é muito fluida, vulnerável demais ao  transcorrer do tempo)

De todo modo, com muitas peças do quebra cabeças ainda faltando, acabo de descobrir que as semelhanças entre o Zambiampungo atual e os Caretos são inquestionavelmente gritantes, como se pode ver pelas fotos e pela descrição da festa em Portugal. Incrível descoberta que faz o mistério quase revelado cair de novo no buraco negro sugador de memórias…

Ai, Jesus!

Querem a teoria final do Tio sobre o Zambiampungo?  Eu jurei, eu prometi. Eu dou.

Por todos os indícios expostos e esmiuçados até aqui, a rítmica da dança do Zambiampunga – executada nas enxadas, e nos búzios –  É africana. Os Caretos portugueses não têm propriamente uma música (os textos lusitanos falam em ‘alarido’) porém o som dos enormes cincerros que utilizam é extremamente semelhante ao som de ferro batido das enxadas. Manifestação cultural tradicional com trilha sonora obrigatória, contudo (música) geralmente costuma ser coisa de africanos.

Assim o Zambiampungo original deve mesmo ter tido uma origem africana remota – os Mukixe são sim a referencia mais provável – depois de um período de quase extinção e ostracismo, teria sido reciclado por alguém que, deliberadamente – difícil evitar esta hipótese- o associou aos Caretos portugueses, principalmente no figurino e na data motivadora da festa (finados) também a mesma – apenas em Nilo Peçanha, diga-se)- da festa portuguesa.

Quem promoveu esta…’distorção etnológica’ – se é que ela ocorreu mesmo – quando, como e porque, é coisa para pesquisas posteriores.

 Vocabularium Latinum, Hispanicum et Kikongo. Pater Joris van Geel, 1647.

Vocabularium Latinum, Hispanicum et Kikongo. Pater Joris van Geel, 1647.

Afogueado de dúvidas saio para tomar um ar. Fecho a tampa desta série de posts deixando vocês com a resolução do segredo etimológico final, pelo menos ele, cabalmente revelado – por enquanto – o mais surpreendente de todos por ser o mais remoto, de tempos quase imemoriais.

Revelo enfim tudo, tim tim por tim tim, como se o Deus fosse eu o que quer dizer Nzambi-a-Mpungo: Pasmem vocês agora que de estar pasmado eu já cansei :

Século 17. Reino Kongo, África.

“…Quionça equi ocanguiri banunzi ÿ acunezuluquicalabho que acangama; quionço equi ecutúluiri ba Nunzi, ÿacunezulu quicalabho qacutuluca; Catiúna o nzambiampungu u azaúla ocufunguna Cuna quecua cúúnnba co atulonga ngana ey ÿlandila catiuna nzambiampungu asonga muna nganga umoçi auquissi, una aiquele y a nganga ey bene yamucangaçi andi umoci munzo au…”

(Trecho em kikongo clássico extraído do dicionário Kikongo-Latin-Espanhol realizado em 1647 com a orientação de Manoel Roboredo,  segundo John Torntom)

A palavra Nzambi-a-Mpungo, com o sentido estrito de ‘Deus Altíssimo’ (‘Deus supremo’, ‘Deus todo poderoso’) aparece pela primeira vez ao mundo branco ocidental na cidade de São Salvador do Kongo (Mbanza Kongo), por obra e graça de padres capuchinhos italianos que, orientados pelo padre e intelectual congolês Manoel Roboredo produzem o primeiro  Dicionário congolês Kikongo-Latim-Espanhol,  no qual um sermão clássico de Manoel Roboredo inserido numa edição posterior pelo missionário Joris van Gheel,  estabelece o conceito.

“…O kikongo foi a primeira língua bantu escrita ainda em latim e o mais antigo dicionário bantu escrito….Em 1624 Mateus Cardoso, um inquisidor Português editou e  publicou uma tradução Kikongo/Português de um catecismo. O prefácio nos informa que a tradução foi feita por professores de São Salvador do Kongo (atual Mbanza Kongo) entre eles o padre capuchinho congolês Félix do Espiritu Sanctus.

O dicionário Kikongo-latim-espanhol foi escrito em cerca de 1647 para o uso de missionários capuchinhos (lê-se inquisidores portugueses) e o principal autor foi Manuel Roboredo, um padre secular do Kongo (que se  tornou um dos membros da ordem dos Capuchinhos em São Francisco de Salvador). Na parte de trás deste dicionário (que tem cerca de 10.000 palavras) se encontra um sermão de duas páginas escritas apenas em Kikongo por Roboredo.”

“…Roboredo desempenhou um papel central na produção do dicionário, e, sem dúvida em todos os outros trabalhos lingüísticos que os capuchinhos produziram, incluindo o sermão. Em 1649, Bonaventura da Alessano, o prefeito capuchinho, sublinhou o importante papel desempenhado pelos textos de Roboredo, escrevendo que eles tinham “com sua ajuda compilado um Vocabulário”, sem dúvida, o mesmo dicionário que mais tarde foi copiado por outros missionários…”

“…Na verdade, podemos argumentar que Roboredo foi o principal autor do sermão, bem como de outros textos (infelizmente perdidos) do Kikongo aos quais Teruel se refere.

A ordem dos Capuchinhos sem dúvida, discutiu antes de trabalhar com ele, especialmente aqueles que tiveram que aprender Kikongo por si mesmos, mas devemos aceitar que o espírito do sermão deriva de Roboredo em sentido estrito e da Igreja Católica congolesa no sentido mais amplo. “

Manoel Roboredo, filho de Dona Eva, irmã do Rei do Kongo D. Alvaro V com um  nobre português, pertencia a uma casta de intelectuais congoleses formados pelos capuchinhos (entre estes há também um Felix Espiritu Sanctus e D. Miguel de Castro, embaixador do Kongo enviado certa vez ao Brasil (1643) para negociar em Recife com Maurício de Nassau, africanos mestiços em sua maioria (o que não era o caso de D. Miguel de Castro, de quem já divulguei aqui um retrato) , com formação linguística e humanística, hábeis em latim, kikongo, espanhol e português. Elos ambíguos de ligação entre as duas culturas: A africana e a europeia.

“…Se os capuchinhos não confiavam nos intérpretes leigos eles claramente também não confiavam em Roboredo, que era membro da elite espiritual, social e intelectual do Kongo, filho de um nobre Português chamado Tomas Roboredo e de D. Eva, irmã do Alvaro V, Rei Kongo, além disso, ele não era apenas um intérprete, mas um sacerdote, ordenado em 1637. Sua educação numa escola congolesa incluiu o estudo do Latim e Português, no qual ele era considerado especialista.

Estas escolas locais criadas pelos capuchinhos no Kongo eram bastante adequadas ao trabalho linguístico, pois quando os capuchinhos chegaram e começaram a lecionar decidiram oferecer cursos avançados de gramática e teologia em vez de temas mais rudimentares. Outro produto destas escolas foi D. Miguel de Castro, embaixador no Brasil e nos Países Baixos em 1643, que conforme foi dito por seus anfitriões holandeses no Recife era capaz de “compor poesia até na América”.

(Quando os portugueses venceram os congoleses na batalha de Mbwila em 1665, talvez , Manoel Roboredo estivesse  lá, ao lado do seu manikongo (rei) D. Antonio Nkanga-a-Vita – que morre decapitado – Roboredo pode ter sido o padre Manoe, citado capelão de Nkanga-a- Vita. Ele não seria, de modo algum, um africano ‘vendido’, cooptado pelos brancos)

No âmbito de toda esta ambiguidade ideológica, não temos meios de saber ainda se o conceito de monoteísmo expresso pelo termo nzambi-a-mpungo traduzido para o Latim, o português e o espanhol por Manoel Roboredo já era comum entre os bakongo antes dos capuchinhos ou dos portugueses chegarem. É provável que sim (leia o filósofo congolês – atual – Fu Kiau, a respeito) . Há inclusive esta interessante hipótese levantada pelo clássico e preciso Pierre Verger, cabendo como uma luva em nosso papo (eurocentristas e nagoistas de plantão, tremei)

“…Os africanos, via de regra, admitem tudo exceto o Criador. Ser incompreensível, o Deus supremo é julgado muito alto para o baixo nível da humanidade, e consequentemente não é temido nem adorado.

O sentimento quase universal entre os pretos corresponde ao ponto de vista de muitos pensadores, tanto antigos como modernos, que consideram Deus como a causa das causas e a fonte da lei mais do que um fato pessoal e local.

Tal sentimento pelo menos salvou o africano do antropomorfismo – uma peculiaridade da raça ariana, cuja hostilidade para com um monoteísmo puro persiste até nos dias atuais, numa fé semítica que se tornou o credo da Europa moderna.

Dessa forma os dois extremos se tocam; e tão radical é a identidade da crença que a divindade dos negros, se está dissociada de símbolos físicos, se aproxima de perto da idéia do filósofo”

(A noção de Deus supremo considerado como uma pura força, sugerida por Richard Burton – citado por Pierre Verger – num relato do tempo que passou em Abeokuta e no Daomé)

Reproduzo abaixo e por fim, o sermão de Manoel Roboredo traduzido para o português coma as palavras ‘Padre’, ‘Diabo’, ‘Deus Altíssimo‘, mantidas em Kikongo. Tenho certeza que vocês, por fim de tudo aqui explanado, de um modo ou de outro entenderão o ‘mais em baixo do buraco’, o sentido moral que toda esta charada teve enfim.

“Tudo que é ligado na Terra, para o Céu é puxado junto; o que está solto  na terra está desligado no Céu.  Porque Nzambi-a-Mpungo está horrorizado com uma confissão incompleta,  ele nos ensina a seguinte história, que Nzambi-a-Mpungo contou a um padre.

Quando o Nganga e seu companheiro estavam no  confessionário de uma igreja, veio uma nobre senhora para confessar-se com o seu companheiro. Quando ela acabou de confessar um pecado mortal, se viu um escorpião saindo de sua boca. Ela podia ver ainda o escorpião saindo de sua boca quando outro escorpião saiu de dentro de sua boca para o chão e este escorpião era pior que todos os outros, poque este era nada mais nada menos do que um pecado mortal que ela havia escondido  por causa da vergonha de o confessar.

O Nganga viu que um escorpião que estava dentro da boca da senhora, depois de ir ao chão voltou para o estômago da penitente e todos os outros escorpiões que ela expelira voltaram também ao seu estômago. O Nganga chamou a atenção de seu companheiro que, imediatamente percebeu que os escorpiões que havia aparecido primeiro foram os pecados mortais que a senhora tinha confessado, mas que o outro, o grande escorpião do mal, era o pecado mortal que a mulher não havia confessado.

Em seguida, os Nganga confessores foram para a casa da nobre senhora, que tinha vindo a confessar-se, para dizer que ela deve fazer uma confissão completa, mas no entanto, quando eles chegaram em sua casa encontraram-na morta.

Isto não serve a nenhum outro propósito do que nos demonstrar como Nzambia-Mpungo odeia uma confissão ruim e que o Ncariampemba não só mata o corpo, mas também carrega a alma para o inferno; é por isso que quando vamos para à confissão, nós não devemos esconder nenhum pecado, a fim de que não aconteça conosco o que aconteceu com aquela senhora!

Quem vai confessar deve mostrar grande contrição. Com efeito, aquele que confessa sem ter contrição, não confessou. Seja ele um homem muito justo ou mesmo um inimigo do Nzambi-a-Mpungo, não é mais filho de Nzambi. Quem tem uma boa contrição é um dos herdeiros de Nzambi, um dos seus filhos, aquele que Nzambi espera lá no céu.

A história a seguir ensina isto: um dia isso aconteceu. Quando um grande número de pessoas iam se confessar em certa igreja, o Ncariampemba apareceu. Isso mostra que onde Nzambi-a-Mpungo constrói uma igreja, o Ncariampemba constrói um pátio de entrada.; Como bem sabemos, quando uma pessoa está tentando fazer um bom trabalho, o Ncariampemba se coloca em seu caminho para impedir o bom trabalho, como um soldado.

Fui confessar estas pessoas que estavam sujas dos pecados enormes que carregavam. Depois de confessá-las elas estavas brilhando como o sol.

O Ncariampemba,  quando viu isso, ficou com ciúmes e – que grande bem – afirmou que ele também queria se confessar, mas com más intençõees, exclusivamente para retornar branco e puro como um anjo.”

(Todas as referencias à Manoel Roboredo foram extraídas de textos capuchinhos estudados e divulgados por John Thornton. Boston University College & Graduate School Off Arts & Sciencies- African American Studies)  

—————-

– E aqui uma breve nota para aqueles que sempre perguntam ao Tio, cobrando-lhe bibliografias e referencias, as fontes e os fundamentos da pesquisa do Tio enfim:

 _” De onde você tirou isto, Tio?_

Ora, as fontes são inúmeras, esparsas, mas estão todas citadas aqui. São dicionários clássicos, letras de canções tradicionais, imagens de cronistas antigos e atuais, descrição de rituais religiosos, tudo. O método é pessoal. Quase impossível – e desnecessário- bibliografar.

Devem existir conclusões semelhantes – conheço algumas poucas – mas as conclusões desta pesquisa aqui, sempre preliminares, são pessoais, tiradas da cabeça, da lógica do Tio.

Ninguém precisa dizer Amém! Nem tudo é verdade e vocês são livres para duvidar de tudo se quiserem.

————–

_Nzambi-a –Mpungo auê! _Salve Deus todo poderoso! (Para aqueles que nele crêem) amém!

Spirito Santo
Janeiro 2012

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~ por Spirito Santo em 30/01/2012.

3 Respostas to “_NZAMBI-A-MPUNGO, AUÊ! A revelação – Post final”

  1. Que coisa.

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  2. Brigadão! Vou abrí-la e salvá-la. A propósito (não sei se voc~e leu o psts que fiz a respeito) descobri em Tornthon (que cita um doc. capuchinho) que aquele D, Miguel de Castro, embaixador do Kongo ao Recife (do quadro do Albert Eckhout), era um intelectual da nobreza do Do Reino do Kongo, hábil em linguística (latin, portugues, espanhol e kikongo) junto com o padre Manoel Roboredo e outros.

    O bacana é que o texto capuchinho é mais um doc. que confirma como cabal a viagem desta embaixada do Kongo ao Basil.

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  3. Fala aí Spirito Santo! andei procurando pelo site de Leilão Sotheby’s e achei uma bela obra de arte congolesa do século 17 chamada ´´Nkangi Kiditu“:http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nkangi_Kiditu.jpg e uma versão melhorada de uma pintura que voçê já conhece:http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Black_man_with_Sword.jpg

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