A Maldição do Valongo

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Ruínas do Cais da Imperatriz no Valongo

Ruínas do Cais da Imperatriz no Valongo -No entorno dele o charco infecto onde se lançavam os cadáveres de escravos mortos após a travessia ou mesmo mortos em qualquer lugar das imediações

Herança macabra dos ‘pretos Novos’ é coisa de  festa ou de ‘credo em cruz’?

A Copa do Mundo vem aí. A área portuária do Rio de Janeiro vai ser revitalizada à toque de caixa. Vai virar uma rendosa e elegante área de turismo histórico – um “centro de Barcelona!”, dizem _ Cafés finos, bares da moda, teatros, finesses mis e outras maravilhas mundanas. Um novo point que vai bombar.

_Ulalá!

Bem ali, o Cais de escravos do Valongo e suas adjacências, descoberto em meio aos entulhos das obras, vai sendo escavado para que retirem a capa, a maquiagem imperial que colocaram sobre ele, para ocultá-lo em sua aura de feias memórias coloniais.

Nesta capa aristocrática, inaugurada com a pompa e circunstâncias costumeiras, haviam construído um novo cais, inaugurado com guirlandas de flores e queima de fogos, sei lá, imagino, para receber a nova dondoca imperatriz Teresa Cristina Sei lá o Que de Mais o que Sei Lá.

No dia da ‘nova’ inauguração – esta de agora em nossa era – de novo com as mesmas pompas e circunstâncias, as festas e os protocolos devem esconder agora a velha placa da imperatriz e colocar em algum lugar bem visível uma nova placa do Iphan, do Governo do Estado e da Prefeitura (escrita com lágrimas de crocodilo em duas ou três línguas) com estas autoridades todas declarando, em nome de nós, os cidadãos todo o ‘repúdio’, o ‘nojo’ e o ‘arrependimento’ que temos pela iníquas ações passadas os usos e abusos de traficar pessoas da África para o Brasil.

Pode ser que jamais saibamos a extensão real destes verdadeiros lixões de cadáveres. Na verdade, a julgar pelo documento que vocês lerão  a seguir, é possível que ali, naquela área (a história registra dois cemitérios de ‘pretos novos” e pelo menos um pântano de desova de cadáveres), tenham sido lançados corpos de escravos mortos de várias procedências e por diversos motivos, trazidos de toda a área próxima ao charco e não só negros ‘novos‘, ou seja, recém chegados da África, mas também mortos de outras freguesias.

(E  neste momento eu, que embora também sendo um cidadão brasileiro e carioca, antepassado sendo de quem sou, não tendo sido convidado a vir parar aqui, nem muito menos a nascer por aqui – lavo as minhas mãos e chamo esta gente toda de cachorra sem vergonha, isto sim.)

Mas, em vista do racismo nosso de cada dia, devo reconhecer que já é alguma coisa. Garanto a vocês, contudo que a placa nova que assinalará o ‘Museu ao ar livre do Valongo’ vai estar enfeitada sim por um pavão, um babado barroco destes aí, para dourar a pílula amarga das misérias quase inenarráveis que contaminaram de pragas fétidas os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo.

Mas não nos iludamos: Tentarão de novo cimentar no chão do Valongo as partes mais cruas das memórias de nossa escravidão. Podem crer. A tatuagem marrom da nossa servidão, entranhada na pele de todos nós como uma cicatriz, marca de ferro em brasa estará, apesar de tudo gritando assim:

“ Malditos para todo o sempre, bando de covardes!”

Mesmo agnóstico como sou, me benzo temeroso pelas terríveis tragédias que podem se abater sobre aqueles lugares historicamente tão lúgubres. Não concebo gente normal rindo, bebendo e se divertindo, impunemente em calçadas elegantes construídas sobre a podridão daquela inominável covardia que foram o chamado ‘cemitério’ eeo cais do Valongo

Quase dá para se ver até hoje, pairando sobre aqueles bairros a nuvem negra de fantasmas de urubus em revoada, dia após dia, tudo ali, a luz daquele sol torrando tudo.

Não concebo gente sadia da cabeça, enebriada de cerveja, andando normalmente sobre aquele aterro argamassado pelos ossos dilacerados, os dentes quebrados a marteladas e os trapos secos de gente inocente, os detritos delas aflorando ainda agora, de novo, no simples revolver da terra dos canteiros de obras.

Devia ser um lugar de reflexão e orações, contrito e respeitoso como os sítios de Auschwitz, Treblinka, palco de barbaridades tão semelhantes.

Meu asco não é pelos mortos insepultos. Meu asco é pelo mau cheiro que exala agora mesmo dos cadáveres dos vivos pusilânimes que estarão desfilando em corso por ali..

——————-

O texto abaixo (um documento oficial de 1815), que já publiquei aqui num outro post é por demais eloquente a este respeito. Ele se refere ao pântano onde se desovavam cadáveres, entre o que que é hoje os fundos do Colégio Pedro Segundo, na Rua Mal Floriano, esquina com Rua Camerino e o enorme quarteirão que vai destes fundos até a Rua Senador Pompeu, com um lado dando apra os costões do Morro da Conceição:

”Nos fundos da rua nova de São Joaquim e fundos das casas novamente…

…edificadas nos cajueiros há um pântano que além de nocivo a saúde pública ainda de mais a mais é cemitério de cadáveres de negros novos, pela ambição dos homens de valongo que para ali os lançam a fim de se forrarem a despesa de pagar cemitério.

[Desses] males vem da existência do dito [lago], um a perda do terreno, outro a facilidade de ali se conservarem cadáveres, e imundícies com que se [imputa] o bairro, e dele toda a cidade.

Fica Vossa Mercê encarregado de fazer aterrar mandando no distrito de todo o seu bairro declarar ou por editais ou por notificações as obras que se fizerem de concertos que caliço e entulhos para ali se levem e de dias em dias os mande estender a enxada e assim mesmo vendo que terrenos vizinhos se podem tirar a terras para as pôr ali por meio de algumas carroças por [ajustes] cômodos de que me dará parte e logo ao mesmo tempo mande notificar a todos os negociantes que recolherem pretos no Valongo para que nunca mais se atrevam a lançar para ali cadáveres [ilegível] de logo que se conheça que lhes os pertencem por marcas e outras informações pagarem da cadeia trinta mil réis para se gastar no enxugamento, e melhoramento do mesmo charco.

Ordene ao seu escrivão que nos autos que fizer dos corpos ali achados se examinem todas as marcas que tiverem [ilegível] individualmente e por elas, nessas ocasiões, mandará proceder a exame nos livros das cargas dos escravos para descobrir de quem sejam e a que armazéns vieram, de forma que por este meio se possa impor as penas, e que todos conheçam que devem a Polícia este miúdo exame a fim de extinguir este mal de que Vossa Mercê irá dando contas, pois que esta providência é perene, e tem um trato sucessivo para não se dar por acabada sem que todo se enxugue o pântano, e desapareçam os fatos de contravenção: para o que lhe fica esta notada.

Deus Guarde a Vossa Mercê. Rio 9 de dezembro de 1815.
Paulo Fernandes Viana, Senhor Juiz do Crime do Bairro da Sé”

5 respostas em “A Maldição do Valongo

  1. É isso aí, tem mais África enterrada no corpo-solo brasileiro, que a nossa vã filosofia possa imaginar. Parabéns, pelo trabalho mestre Spírito Santo.

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  2. inicio / galería / poesía
    POESÍA DE NICOLÁS GUILLÉN

    Balada de los dos abuelos

    Sombras que sólo yo veo,
    me escoltan mis dos abuelos.

    Lanza con punta de hueso,
    tambor de cuero y madera:
    mi abuelo negro.
    Gorguera en el cuello ancho,
    gris armadura guerrera:
    mi abuelo blanco.

    Pie desnudo, torso pétreo
    los de mi negro;
    pupilas de vidrio antártico
    las de mi blanco!

    Africa de selvas húmedas
    y de gordos gongos sordos…
    –¡Me muero!
    (Dice mi abuelo negro.)
    Aguaprieta de caimanes,
    verdes mañanas de cocos…
    –¡Me canso!
    (Dice mi abuelo blanco.)
    Oh velas de amargo viento,
    galeón ardiendo en oro…
    –¡Me muero!
    (Dice mi abuelo negro.)
    ¡Oh costas de cuello virgen
    engañadas de abalorios…!
    –¡Me canso!
    (Dice mi abuelo blanco.)
    ¡Oh puro sol repujado,
    preso en el aro del trópico;
    oh luna redonda y limpia
    sobre el sueño de los monos!

    ¡Qué de barcos, qué de barcos!
    ¡Qué de negros, qué de negros!
    ¡Qué largo fulgor de cañas!
    ¡Qué látigo el del negrero!
    Piedra de llanto y de sangre,
    venas y ojos entreabiertos,
    y madrugadas vacías,
    y atardeceres de ingenio,
    y una gran voz, fuerte voz,
    despedazando el silencio.
    ¡Qué de barcos, qué de barcos,
    qué de negros!

    Sombras que sólo yo veo,
    me escoltan mis dos abuelos.

    Don Federico me grita
    y Taita Facundo calla;
    los dos en la noche sueñan
    y andan, andan.
    Yo los junto.

    –¡Federico!
    ¡Facundo! Los dos se abrazan.
    Los dos suspiran. Los dos
    las fuertes cabezas alzan;
    los dos del mismo tamaño,
    bajo las estrellas altas;
    los dos del mismo tamaño,
    ansia negra y ansia blanca,
    los dos del mismo tamaño,
    gritan, sueñan, lloran, cantan.
    Sueñan, lloran, cantan.
    Lloran, cantan.
    ¡Cantan!

    Nicolás Guillén

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  3. todo mundo, principalmente os professores de história, precisa saber!!!!!

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