IconoFAKEgrafia. Retrato mal falado do ilustre negão do 18


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“Artista Negro(a) concluindo retrato de uma mulher branca aristocrata” aristocrata Pintura possivelmente da escola brasileira. Primeira metade do século XVIII. Óleo sobre tela. Altura: 41

Iconologia do black people para todos (+ um post)

Francis Williams, nega maluca holandesa e iconologia das línguas de trapo

Deus do céu! Mal acredito no que vejo.

Ai como nestas horas faz bem ter um São Tomé negão no altar. Não para rezar, claro, que em santo nem todos creem, mas, para no sentido estritamente filosófico de sua condição de santo cabreiro e desconfiado, nos orientar e proteger.

E para sempre ser louvado.

Muito curiosa mesmo a imagem não é não? Inquietantemente inusitada, diria. Pois é mais curiosa ainda a legenda resenhada no site de onde ela foi extraída hoje, sugerida lá no blog do Tio por um dileto leitor que prepara para ser um especialista em iconologia, o sempre atento Daniel Jorge.

“…A pintura pertence a um grupo pequeno, porém cada vez mais estudado de obras em que indivíduos negros são retratados em variados tipos de papéis, de subserviente ao erudito. Enquanto a representação dos negros em atividades intelectuais é raro, não é contudo inédito, este retrato de Francis Williams, o intelectual negro da Jamaica por volta de 1740, no Museu Victoria e Albert. O filho de ricos ex-escravos, Williams teve um estilo de vida europeu e a oportunidade de estudar poesia e matemática.

Em seu retrato, Williams é flagrado em seu estúdio com a cidade jamaicana de Hispaniola à distância. Enquanto o objecto da presente pintura também parece desfrutar de algum nível de luxo, o contexto é mais ambígua.”

Um argumento em favor da condição de escravo/ servo desta figura negra seria o estilo do vestido. Os ombros corte-trabalho e outras características do vestuário não parece típico do século 18, e poderia refletir os tipos, muitas vezes fantasiosas de trajes usados pelos escravos dos ricos durante este período.

Junto com outros estilos de pintura os artistas coloniais também imitavam o estilo europeu de se fazer retratos, muitas vezes com fortes referências à suas próprias tradições e temas. Uma pintura extremamente rara de um artista negro completando o retrato de uma mulher branca aristocrata representa essa fusão entre metrópole e conceitos indígenas.

A pintura, possivelmente executada no Brasil, fala acerca da posição e da integração de escravos na sociedade do século 18. Aqui, o artista está vestido em um traje, antiquado e fantasioso e usa um brinco, colar de prata e punho de braço, indicando a sua condição de servo ou escravo.

“…A origem da pintura é ainda incerta, no entanto, há fortes indícios de ser esta origem sugerida pela paisagem urbana vista através da janela na pintura. Os telhados desta animada cena de cor rosa avermelhado são específicos das pinturas de Portugal e do Brasil colonial, que esteve sob domínio Português até 1822. ”

(Carlton Hobbs, crítico de arte e colecionador inglês interessado na influência do negro africano na sociedade britânica)

Já havia ouvido falar de Francis Williams? Nem eu. Associar este nome assim tão britânico à coisas de preto então, nem pensar; senão é improvável, é uma ideia bastante fortuita. Bem, o Brasil não, mas a Jamaica já foi uma colônia inglesa, certo? E esta é a nossa pista mais quente, mas só quando a gente vai mais fundo na questão é que se dá conta destas relações.

É sempre assim com o tio, parece até espiritismo. Um leitor especialista lê um post da sua praia no blog. Instigado pelo tema sugere um desdobramento e daí, pronto: Caímos nós, levando vocês de roldão em mais uma história fantástica, daquelas que a gente jamais imaginava que ia conhecer.

O amigo leitor é, mais uma vez o Daniel Jorge, moço que se especializa em iconologia histórica e sempre nos brinda com imagens raras para lá de instigantes. Impossível, a partir delas não mergulhar mais e mais no assunto. Iconologia é isto aí: Vício mobilizador. Pólvora em rastilho sem fim.

Não sei porque os historiólogos de verdade mesmo não mergulham assim, apaixonadamente como nós neste mundo do ver para crer. Quanto mais se vê, mais nos apaixonamos pela confusão do palheiro e mais acreditamos que encontraremos mais cedo ou mais tarde todas as agulhas escondidas nele.

Acho que, incréus que são – frios e objetivamente ‘britânicos‘ – estas sumidades supostas em seus narizes empinados, subestimam o nosso arguto bom e subjetivo São Tomé. De certo subestimam o ‘ver para crer’ da iconologia, usada como fonte de estudo, porque aferrados que estão às aristocráticas manias de ser da academia, teimam em hierarquizar fontes de informações, tachando umas de mais idôneas que as outras, segundo critérios, no fundo no fundo, enrustidamente evolucionistas, pra lá de caquéticos, ou seja: dados de documentos escritos, oriundos de fontes oficiais, seriam mais críveis do que os de fontes outras, com as fontes orais no fim da fila e a iconologia, o estudo meticuloso de indícios contidos em imagens de época, num nível também bem abaixo do crítico.

Segundo esta metodologia ultrapassada já pela lógica dos fatos (a internet está aí para derrubar esta impropriedade, em dois tempos, todo dia), a visão de um pintor, um gravurista na maioria dos casos não seria uma fonte segura de dados porque a imagem pode ter sido ‘corrompida’ pelas ilações e opiniões do autor. O mesmo se diz das fontes orais, não raro a única fonte de opinião disponível em sociedades que, no passado, não tinham ainda o hábito ocidental da escrita.

Mas convenhamos: Porque acham eles que um memorando alfarrábico escrito por um nobre europeu, à serviço de sua Coroa não teria o mesmo problema, esta mesma contaminação por interesses omissos, pessoais ou mesmo ‘da Coroa’, sendo um doc. ‘chapa branca’ por assim dizer, pois, sendo como todas as outras fontes não mais que meia verdade…podem ser ao fim de tudo não mais que reles mentira?

É o elitismo residual de nossas ciências sociais, vivo dizendo aqui. Má ou nenhuma cientificidade podem estar escondidas nestas metodologias renitentemente arcaicas. Quer mesmo saber tudo sobre algo? Então duvide de tudo que é fonte oficialmentesegura‘, referendada por alguns poucos e olhe a questão por todos os ângulos e versões possíveis. Escolha bem o seu doutor referencial, o seu guru. Questione-o. Desestabilize-o, derrube-o de sua torre de marfim.

A versão oficial de um fato, eleita pela ‘norma culta‘ e suas metodologias pretensamente científicas, não raro se interessa muito mais pelo estabelecimento de mentiras do que pela busca da verdade. E isto é verdadeiro. As mentiras certas são sempre mais confortáveis à manutenção do status quo, para as coisas que nos são favoráveis permanecerem para sempre como estão. É esta a ideologia do negócio dos doutos, dos mais sabidos. É disso que a academia convencional (a cultura oficial) se alimenta e vive. A verdade é inalcançável sim, claro! É como o rabo do cachorro. Mas a busca dela é, ao fim de todas as contas, o que nos libertará e nos fará avançar para o futuro.

Tenho dito muito isto por aí.

Veja‘ então estes texto e imagens aqui com os outros olhos. Os olhos da perspicácia e do ´’pé atrás’.

Como cego – por enquanto – não sou, posso descrever o que vi no quadro facilmente. Vocês também: Mais detalhes posso dar – e darei – mais adiante, mas logo de cara o que vejo posso descrever assim:

Uma mulher negra – e não um homem – com um ar curiosamente divertido, vestida surpreendentemente com roupas europeias de homem, pintando uma tela que representa uma mulher branca com vestes aristocráticas, tendo ao fundo uma cidade, flagrantemente ‘brasileira’.

A princípio a legenda de Hobbs não cita a expressão ‘auto retrato’, no entanto afirma, sabe-se lá por conta de que elementos, que o retratado (ou autorretratado) seria Francis Williams, um notável cidadão Jamaicano sobre o qual também falaremos melhor a seguir. Não há contudo evidencias cabais de que o retratado seja, realmente ele, não estando justificado no texto tampouco de onde saiu esta informação essencial à compreensão de tão inusitado flagrante. E o Tio mesmo pode rechaçar a informação com uns poucos cliques de mouse.

O que me chamou mais a atenção e me instigou a pesquisa foi o fato de a dedução mais lógica a que Hobbs nos induz ao fazer esta sua afirmação, é a de que Francis Williams teria sido… homossexual, uma informação que neste caso seria, absolutamente escandalosa. Ora, afinal a descrição de Hobbs nos diz é ou não é a seguinte?

Um pintor jamaicano, negro liberto, rico e aristocrata no século 18, se assumindo, abertamente como homossexual e produzindo um autorretrato no qual está travestido de mulher pintando uma dama branca tendo ao fundo uma cidade jamaicana – ou brasileira –

_”Cuma?” _ Diria um bom e atônito Mussum diante de tão inusitada descrição. Maldei também, claro. Não sei bem de onde o cítico retirou tão impactante informação.

Viram só quantas pulgas podem pular, de repente em nossas orelhas só de olhar uma imagem assim?

Dei uma pesquisada boa, muito surpreso, é claro com a forte insinuação de homossexualismo negro colonial constante na legenda (não fosse já surpreendente o fato de um negro ser rico e aristocrata na Jamaica do século 18). E mais ainda: pelo fato dos dados historiográficos não baterem em muitos pontos.

Foi daí que de descobri coisas mais inusitadas ainda. O Carlton Hobbs, autor da resenha, por exemplo é um mui famoso e respeitado colecionador e crítico de arte inglês, de uma interessante corrente interessada na influência do negro das colônias inglesas na sociedade britânica. Até aí tudo bem, muito bacana, mas é interessante considerar também que, ao que fica subentendido pelas coisas que li sobre Hobbs (e nas fotos dele que observei) se percebe que ele pode ser um discreto simpatizante da causa homossexual e, ao que parece fez aquela insinuação – de que o autor teria se auto retratado vestido de mulher – a partir apenas de uma mera e apressada suposição.

Ai, meu São Benedito (quiçá puro e hetero como eu), será que este crítico é da tchiurma do Luiz Mott e do Peter Fry?

...Embora a figura do artista negro aparente estar usando um vestido, é provável que seja uma figura masculina. Como o estudioso Cheek Sheldon explica, o artista usa um brinco e um colar de prata, ambos os artigos comuns usadas pelos negros servos/escravos na Europa durante os séculos 17 e 18, o colar tradicionalmente indicando o estado de escravidão. As mulheres raramente usavam este colar de prata. O artista também parece estar usando uma “algema” de prata no braço.”

(Carlton Hobbs)

O fato é que não há nenhuma evidência desta afirmação – a de que no quadro há um homem travestido de mulher – em nenhuma dos muitos textos que li agora mesmo sobre o notável – e até hoje – desconhecido Francis Williams. Não há inclusive – fato admitido pelo próprio Hobbs – nem mesmo a certeza de que o quadro realmente seja do rico negro jamaicano Francis Williams ou qualquer outro homem negro, ou mesmo que a tela tenha sido pintada na Jamaica, já que o fundo descarta a possibilidade da tela representar Londres ou qualquer outro lugar na Europa.

Tudo mera suposição de Hobbs. Vai supor assim no mato… e sem cachorro.

É incrível como ao se avançar mais ainda na análise se pode observar que o figurino da imagem nos remete ao vestuário de um século antes da data alegada por Hobbs (e um século, em termos historiológicos é tempo demais). Embora Hobbs justifique esta digressão e o antiquado do figurino de forma, diga-se, bem descuidada (seria um recurso humorístico) a justificativa não me parece fazer o menor sentido. O chapéu, por exemplo, e o modelo da roupa da figura (como eu já disse claramente masculinas e de modo algum um ‘vestido‘) nos remete fortemente para a escola flamenga, de meados do século 17. É roupa holandesa com quase toda garantia.

Eu dataria a tela, com quase toda certeza na segunda metade do século 17 (década de 1640, provavelmente) da escola flamenga como disse e, sem dúvida, pintada por algum dos artistas da comitiva de artistas trazida ao Brasil por Maurício de Nassau (entre os quais Albert Ekchout ou um seu aprendiz, no Brasil ou na Holanda, pode ser o mais provável autor). Há a este respeito o forte indício também de que, a se julgar pelo casario bem brasileiro que aparece ao fundo, que a cidade provavelmente é Recife.

Nenhuma relação haveria portanto entre a tela do século 17 e um suposto pintor inglês jamaicano do século 18 que, de modo algum poderia ser Francis Williams que, também enfaticamente se pode afirmar, sob hipótese alguma, teria se travestido de mulher. Aliás, a hipótese de ser um outro homem (um pintor supostamente negro travestido de mulher) também é absolutamente descabida por falta de fundamentos.

…O filho de ex-escravos ricos, Williams teve um estilo de vida europeu e a oportunidade de estudar poesia e matemática. Neste quadro, Williams é retratado trabalhando tendo uma cidade jamaicana de Hispaniola ao fundo. Embora o tema da pintura demonstre que ele parece desfrutar de algum nível de luxo, o contexto da pintura possui aspectos um tanto ou quanto ambíguos.”

(Carlton Hobbs)

Mentirada grosseira – ou ignorante – esta resenha perpetrada por Hobbs. Ao que parece ele mistura os textos de dois quadros completamente diferentes produzindo uma resenha ‘branco-doida’ que denigre o pobre (embora rico) Francis Williams.

A hipótese mais provável do suposto pintor travestido ser, na verdade uma mulher negra, isto sim, vestida como um aristocrata em plena era da colonização holandesa é que seria, portanto o fato mais instigante da tela.

Afinal, quem seria a senhora branca quase de meia idade retratada na tela inacabada?

Vale para este quadro aliás, o mesmo que disse acerca de um quadro do mesmo período resenhado aqui mesmo no blog. O Tio então já dizia:

“A pintura, uma ‘tronie’ ou ‘rostro’ (em holandês), é uma técnica característica do ‘verismo’ flamengo do século 17, caracterizado como uma representação de um modelo com expressões inusitadas ou grotescas, com a finalidade de demonstrar o talento do artista para captar expressões de personagens. “

Acrescentaria ainda que há na imagem inquietantes indícios de uma ironia humorística – ou ‘fantasista‘, um ramo do ‘verismo‘ flamengo, talvez – cujo sentido, que está óbvio na implausibilidade – ou non sense – da situação descrita pelo quadro  (uma negra dama vestida de homem (a África holandesa?), pintando uma mulher branca em plena colonização holandesa (A Europa ibérica, portuguesa?) nos escapa ainda.

E atentem para o detalhe de que estes dados estão à vista de qualquer um, pois como se sabe, nem crítico de arte o Titio é.

De modo enviesado devo ressalvar também – e os simpatizantes da causa gay que me perdoem, se quiserem – que este proselitismo da hora, da moda, que propõe a existência de homossexualismo em tudo, em todos os âmbitos da sociedade, insinuado pelas sugestão resenhada por Hobbs, precisa começar logo a se basear em dados e evidências mais cabais, sob pena de desmoralizar a causa dos interessados.

Esta espécie de… merchandising LGBT, pretensamente historiológico (no qual os antropólogos Luiz Mott e Peter Fry têm sido os ‘scholars‘ e próceres mais incensados) é bem questionável e não poderá ser levado a sério por muito tempo, ainda mais quando assume estes falsos ares acadêmicos, esta presunção de ‘pés quebrados’ e mal ajambrada expressa pelo trabalho de pessoas como Carlton Hobbs, críticos de arte, técnicos especialistas supostos nas artes de São Tomé.

O verdadeiro Francis Williams, no século 18 em tela cheia de sugestões à sua intelectualidade exuberante

O verdadeiro Francis Williams, no século 18 em tela também algo jocosa, cheia de sugestões à sua intelectualidade exuberante

Por fim – e como eu fiquem pasmados um pouco mais – na verdadeira biografia de Francis Williams , o herói de nossa história (sim, o Tio foi lá ver quem era ele) há sinais evidentes de que se o quadro se referisse mesmo a ele, só teria sido com o fim de depreciá-lo postumamente, pois Francis foi odiado na Inglaterra, onde viveu por um bom tempo.

Por isto mesmo parece muito mais evidente que o quadro aludido por Hobbs (que, como disse presumo ser do século 17) foi usado no contexto de uma campanha difamatória grosseira contra um negro livre que por seu próprio esforço se tornou um renomado intelectual no auge do regime colonial britânico. Uma campanha racista por suposto.

(Tomara que o difamador não seja o próprio Hobbs)

As pistas são muito promissoras. Vejam o que descobri: O verdadeiro Francis Williams foi sim um negro jamaicano liberto (o pai era John Williams, negro rico protegido de um nobre inglês). Francis foi mandado para estudar em Cambridge num ‘experimento social’ (espécie de ‘cota racial‘ como se dizia na época) e se tornou um renomado professor, especializado em literatura e matemática. Francis voltou para a Jamaica na segunda metade do século 18 e fundou ali uma conceituada escola.

David Hume, contemporâneo de Francis Williams, era um filósofo muito respeitado por sua clareza de pensamento e uso construtivo de ceticismo. Racista convicto, no entanto (é uma das referencias ideológicas do Tea Party dos EUA), se incomodou demais com um negro como Francis Williams,  cuja simples existência desmentia as bases principais de suas teorias. Referindo-se aos negros (e a Williams, diretamente) Hume escreveu em 1742:

…Eu estou inclinado a suspeitar que os negros e, em geral, todas as outras espécies de homens (pois há quatro ou cinco tipos diferentes) são naturalmente inferiores aos brancos. Nunca houve uma nação civilizada de qualquer cor de pele diferente da do branco, nem mesmo qualquer indivíduo eminente em ação ou especulação.”

…Você pode obter algo dos negros, oferecendo-lhes bebida forte, e podem facilmente convencê-los a vender, não só os seus filhos, mas suas esposas e amantes por um barril de brandy.

“Havia dois professores negros da filosofia na Europa na época. O jamaicano a quem Hume se referia era Francis Williams, um professor bem-educado que compunha poesia em latim. Para Hume, no entanto, ele era apenas um ‘parrot’ (um papagaio), capaz de imitar os comentários dos outros, mas não de criar algo próprio:”

…Nenhum engenhoso fabricante entre eles, sem arte, sem ciência. Por outro lado, o mais rude e bárbaro dos brancos, como os antigos germanos, os tártaros, ainda tem algo eminente sobre eles, em seu valor, sua forma de governo, ou algum outro aspecto particular. Essa diferença uniforme e constante não poderia acontecer em tantos países e épocas se a natureza não tivesse feito uma distinção original entre estas raças de homens.

…Na Jamaica, de fato eles falam de um negro que é um homem educado e de muitos saberes, mas é provável que ele seja admirado por realizações muito banais como as de um papagaio, que imita algumas palavras claramente.”

(Clássica teoria racista de Hume em Philosophical Misadventures)

A ilação de Hobbs é, portanto desqualificada e rasteira, pois, parece estar assentada num raso preconceito expresso na biografia do jamaicano: Francis Williams, na época da franca germinação das teses evolucionistas e racistas mais radicais que se tornam recorrentes no século 19, incomodou muito a aristocracia inglesa e seus ‘scholars’ brancos por sua – para eles – inusitada capacidade intelectual. Por conta disto Francis foi vítima de uma insidiosa e ferrenha campanha de difamação por parte dos racistas da época, que não se conformaram de jeito nenhum que fosse possível um negro de tão especiais caraterísticas intelectuais sequer existir.

E mais: Francis Williams nunca foi pintor. Não há, neste mesmo sentido indício algum de que ele tenha sido homossexual (os textos racistas da época o acusam, no máximo, de pedantismo e arrogância intelectual) logo ele nunca se autorretratou vestido de mulher – até porque como podemos muito bem constatar acima, o quadro que sugere esta infâmia oportunista e estúpida, é de um século antes da ascensão de Francis Williams às frescuras e babados dos meios pedantistas da nobreza inglesa.

O quadro que Hobbs resenhou, caso fosse mesmo uma citação à Williams (o que eu duvido, pois, não encontrei nenhuma referencia a isto em outros autores) não passaria, pois, da apropriação indébita e desonesta de uma obra, flamenga com certeza, de outro contexto histórico e intenções estéticas portanto, aleatoriamente utilizada como charge grosseira, tentando difamar, ‘denegrir‘ e desqualificar moralmente um negro intelectual do século 18 que, como dissemos acima desmontava todo o arcabouço teórico que embasava o racismo ‘científico’ da ocasião.

Lamentável. É a minha conclusão final sobre o assunto.

É por estas falsetas iconológicas e por outras que virão que o Tio recomenda: Olhos abertos. Olhar e ver para crer. Mais do que nunca granjear a São Tomé toda a nossa contrita e irrestrita devoção.

Como dizem os crentes: A Verdade vos libertará.

Spírito Santo

Março 2012

Arthur Bispo do Rosário e a arte inventário de Deus


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Atiçado por Sandra Bello,  de Berlim evoco aqui o grande artista do Brasil.

Tem país que é cego

Ainda não reconhecido no Brasil (por razões óbvias que se entenderá a seguir) Arthur Bispo do Rosário era um negro ex marinheiro e ex pugilista que um dia enlouqueceu.

Fantástico! Provavelmente antes da técnica do infográfico se estabelecer na imprensa, Bispo faz este completíssimo infográfico histórico sobre a marinha do Brasil

Fantástico! Provavelmente antes da técnica do infográfico se estabelecer na imprensa, Bispo faz este completíssimo infográfico histórico sobre a marinha do Brasil

Louco, num hospício, inserido num programa do Museu do Inconsciente da notável Dra. Nise da Silveira, se revelou um criador fabuloso, moderno, maravilhoso, comparado pelos críticos mais argutos aos melhores artistas do mundo, como Marcel Duchamp, por exemplo com o qual o seu trabalho muito se aparenta.

Bispo se imaginou um ‘inventariador das coisas do mundo’, missão que lhe teria sido passada por Deus. Com inigualável apuro estético passou a reunir objetos os mais inusitados, a serem transportados por veículos artesanais não menos inusitados, fazendo inventário de coisas mais intangíveis em panos, mantos e estandartes bordados com o fio indigo blue de velhos uniformes do hospital psiquiátrico (num destes panos ou estandartes bordou certa vez toda a esquadra da Marinha do Brasil)

Tanto o conceito estabelecido por ele quanto o apuro técnico são comuns a todos os grandes artistas da humanidade, não fosse já a arte, em si, uma forma de loucura.

No Brasil, contudo – como disse acima- exceto por um ou outro admirador mais empolgado, Arthur Bispo do Rosário é tratado como um reles negro louco, um artesão exótico, inculto, näif.

Estúpidos! Eu, por exemplo só fui conhecer o Bispo assistindo uma exposição dele em Zürich, Suíça em 1992, respeitado lá como o artista gigante que foi. Acachapado com a dimensão insuperável da arte dele (não conheço nada melhor no Brasil) de lá fiquei até hoje refletindo sobre estas coisas que disse aqui.

(Assista aqui o emocionante vídeo postado pela Sandar Bello no facebook)

Mais Bispo:

ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO:
O ILUSTRE DESCONHECIDO

Centenário de Nascimento e Vinte Anos de Ausência

NEGRO, POBRE, LOUCO

Arthur Bispo do Rosário, nasceu em Japaratuba – SE, no ano de 1909 (ou 1911, não se sabe ao certo), descendente de escravos africanos.

Em 1925, muda-se para o Rio de Janeiro e torna-se marinheiro. Foi campeão brasileiro e sul-americano de boxe na categoria peso leve pela Marinha.

Em seguida, passa a trabalhar na Light, empresa carioca de fornecimento de energia, e como lavador de bonde e borracheiro. Sofre um acidente de trabalho e resolve ajuizar uma ação contra a empresa, ocasião em que conhece o advogado Humberto Leoni, que passa a representá-lo na demanda judicial.

Começa a trabalhar na casa do advogado, como empregado doméstico, fazendo serviços diversos e residindo no local.

Na noite de 22 de dezembro de 1938, procura o patrão motivado por alucinações que lhe diziam que deveria apresentar-se à Igreja da Candelária. Peregrina pelas ruas, dirigindo-se a várias igrejas. Por fim, chega ao Mosteiro de São Bento, onde declara aos monges ser um enviado de Deus, incumbido da tarefa de julgar os vivos e os mortos.

É preso como indigente e demente, sendo conduzido ao Hospital dos Alienados, um hospício situado na Praia Vermelha. Um mês depois, é transferido para a Colônia Juliano Moreira, no bairro de Jacarepaguá, onde permaneceria por cerca de cinqüenta anos.

Foi diagnosticado como portador de esquizofrenia paranóide – que é um dos quatro tipos principais dessa patologia -, caracterizada pela ocorrência de visões, alucinações, sentimentos de perseguição e em que é comum o doente escutar vozes (FRANÇA, 2007).

A partir desse período, começa a produzir seu trabalho artístico, motivado por um pedido de Deus para que reconstruísse o universo e registrasse a passagem divina pela terra.

Aí, começa a história de Bispo do Rosário como artista plástico.

Estima-se que elaborou cerca de 1.000 peças, que permaneceram como propriedade da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, hoje desativada como instituição manicomial e transformada no Museu Arthur Bispo do Rosário.

Bispo faleceu em 1989.
Veja obras do artista aqui

 E mais outras aqui.

REFERÊNCIAS
* FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina Legal. Rio de Janeiro: Guanabara, 2007.

Spirito Santo

Março 2012

Fala The Guardian: “Enquanto o Rio constrói hotéis para a Copa do Mundo, famílias inteiras habitam motéis abandonados


“Os ocupantes de um motel antigo nos arredores da cidade temem terem sido deixados de fora do boom brasileiro”

 (Extraído de The Guardian por sugestão de Vik Birkbeck e tradução do Tio. Leia matéria original aqui)

Rosinéia Gonçalves estava grávida e vivendo debaixo de uma árvore perto do Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro. Francinéia dos Santos foi forçada a abandonar seu barraco na favela da Grota, uma favela no subúrbio da cidade, por razões que prefere não explicar. Monique da Silva perdeu seu emprego como vendedora ambulante de cotonetes e não podia pagar o aluguel.

As três mulheres desesperadas em busca de abrigo, encontraram agora um novo endereço: o Motel Oásis, de três andares abandonado em São João de Meriti no noroeste do Rio, invadido por sem tetos e agora o ‘lar’ de 300 convidados permanentes.

Com a Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 se aproximando rapidamente, as autoridades do Rio estão estimulando a competição para que se construam novos hotéis para lidar com o afluxo de milhares de turistas. Mas as três mulheres e outros ocupantes deste acampamento gigante – uma das dezenas de imóveis em ruínas no Rio de Janeiro e seu antigo – e falido- parque industrial – quer apenas casas.

“Não me importo com a Copa do Mundo. Nós nos preocupamos é em dar uma educação digna aos nossos filhos, ter acesso à água, ao saneamento”, disse Monique da Silva, 25, mãe de três filhos na ocupação lotada , à 40 minutos dos bairros turísticos Copacabana e Ipanema.

“Esta é a cozinha e o quarto”, brincou ela, abrindo a porta para suíte 221, outrora utilizada por profissionais do sexo e clientes para fugazes ligações amorosas. “Esta é minha humilde cabana.”

O mercado imobiliário do Rio de Janeiro está crescendo, com os preços subindo com os preparativos da cidade para sediar os dois grandes eventos esportivos. Mas o Rio – e o Brasil como um todo – continua a sofrer com um déficit habitacional crônico, com um défice este estimado em 7 milhões de residencias.

Nos últimos anos o governo federal tem lutado para reduzir o défice. Em 2009 o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o programa ‘Minha Casa, Minha Vida‘, um ambicioso R$ 34 bilhões destinado a criar pelo menos 1 milhão de casas de baixo custo para os pobres.

Mas dezenas de milhares de brasileiros sem teto dizem que sua única opção é a “ocupação” das fábricas, armazéns abandonados – e até motéis de sexo fortuito – nos subúrbios pobres do Rio de Janeiro. Num pequeno trecho da Via Dutra, a auto estrada que liga o Rio a São Paulo, existem pelo menos três ocupações destas, duas delas ex-hotéis. A Avenida Brasil, outra artéria principal, também tem um de seus lados tomado por estas “ocupações” – entre eles o prédio da ‘Borgauto‘, uma empresa de autopeças falida e abandonada.

Os moradores dizem que o motel Oásis fechou suas portas para clientes pagantes no final dos anos 90 e logo em seguida foi invadido por saqueadores. Tubos de cobre foram arrancados das paredes e espelhos e bacias desapareceram.

Sete anos atrás, os invasores sem teto ocuparam o espaço. Num país onde em 25% de certidões de nascimento de crianças não consta o nome do pai, muitas mulheres desta ocupações são mães solteiras. Maura Fernandes uma moradora de 39 anos de idade, tem 14 filhos, mas não tem marido nem banheiro.

Graciele de Vasconcelos, 25, é mãe de três filhos, mas perdeu uma filha de nove meses de idade com uma infecção contraída no motel. “Quando cheguei aqui não havia nada – nem eletricidade, nem água, apenas lixo porcaria, muita sujeira”, disse ela. “Graças a Deus está melhorado muito desde então.”

A maioria das 121 famílias aqui estão ansiosos para conferir o mais rápido possível, mas reclamam que as promessas do governo de realojá-los não foram cumpridas.

“É melhor do que pagar aluguel ou viver nas ruas”, disse Joana Batista Ferreira, 50, uma empregada doméstica que construiu um barraco de dois andares no pátio do motel. “Mas é claro que iria [se as autoridades ajudarem]. Todos queremos as nossas próprias casas.”

Francinéia dos Santos, 40, agora vende pirulitos para sustentar o filho de seis meses de idade. Ela está desesperada para sair dali, mas não pode se dar ao luxo de voltar à favela onde ela morava que recentemente a favela foi “pacificada” pela polícia.

Muitos são gratos por seu refúgio no Oásis, que eles chamam o ‘Condomínio Nova Esperança’.

“Quando eu mais precisava encontrar este lugar me ajudou muito”, disse Rosinéia 35 anos, mãe de quatro filhos que fugiu do marido violento e vivia na rua até ocupar o seu espaço no motel. “Passei oito meses na rua. Eu já passei por muita coisa”, disse ela.

No chão ao seu lado um dos filhos pegou um prato de arroz e colocou fatias de cachorro-quente na boca usando uma esferográfica como garfo.

As paredes do Oásis são pintadas com a insígnia de uma facção criminosa local. O esgoto escorre a partir de uma rede improvisada com tubos de plásticos ligados às manilhas de concreto. Muitos moradores se queixam de infecções pulmonares e micose.

Mas o motel oferece, pelo menos, um mínimo de segurança e infraestrutura. Os moradores têm acesso a dois bares, uma jukebox, uma loja de pirulitos de maracujá e uma igreja evangélica.

“Meu papel é tentar melhorar o condomínio e resolver disputas entre vizinhos”, disse Jeremias Francisco Nascimento, 42, líder oficial da ocupação, que vive com sua esposa na suíte 214.

Jeremias, que trabalha em uma loja de construção perto da praia de Copacabana, também tenta impedir o avanço sobre a comunidade dos traficantes de crack que tentam transformar o Oásis em seu quartel general. Ele introduziu um toque de recolher às 23:00 e criou uma igreja evangélica numa pequena sala com uma geladeira marrom, sete bancos de madeira e uma bateria musical. Na entrada pintou um trecho do Evangelho de São Mateus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados que e eu vos aliviarei.”

Na semana passada, a Fundação Getúlio Vargas anunciou que a desigualdade social este ano atingiu seu nível mais baixo desde os anos 60, com a queda de quase 8% na pobreza em relação ao ano passado.

Tal progresso ainda não foi notado no Oásis, lar de algumas das 351.000 pessoas que, segundo os números oficiais, sobrevivem com menos de 2 dólares por dia no estado do Rio.

Desde 2010 as autoridades têm prometido realocar as famílias. Eles ainda estão esperando. Márcia Rosário, secretária de comunicação de São João de Meriti, disse que aqueles que se candidataram para a habitações sociais seriam realocados até o final do ano. Motéis e outros tipos de ocupação não seriam incluídas, ela admitiu.

Muitos residentes do Oásis dizem que não têm os documentos ou a renda necessária para se beneficiar destas realocações.

Ficando em seu ‘quarto e cozinha‘, que ainda conta com os berrantes azulejos azuis e vermelhos de banheiro de motel, Francineide fez uma avaliação contundente do seu lugar na economia em expansão no Brasil.

“Eles dizem que este é o “país maravilhoso “. Bem, nem tudo é maravilhoso, não é?”

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(Nota do tio, extraída do blog “ Jornal do Conde” – matéria usada talvez por The Guardian como base da matéria:

Jeremias é uma espécie de síndico da ocupação irregular

“Na entrada do prédio há um bar, com mesas de sinuca e uma máquina que toca música (jukebox). O interior do prédio é manchado por uma cor escura, do esgoto que escorre durante os dias de chuva.

‘Síndico’ foi ameaçado pelo tráfico

Um dos moradores mais antigos do Oásis, o lanterneiro Jeremias Francisco Nascimento da Silva, 40, tenta por alguma ordem no prédio. Virou uma espécie de xerife do espaço e enfrentou até um grupo de traficantes da favela Jacarezinho que tentou invadir o local. Foi ameaçado de morte, mas resistiu e agora é chamado de síndico, mas ele prefere líder comunitário.

Jeremias diz que pede contribuição mensal de R$ 10 dos moradores para fazer a limpeza do prédio e realizar algumas melhorias, mas poucos pagam. Mudou o nome da ocupação para Condomínio Nova Esperança e com a ajuda de um pastor montou uma igreja em um dos espaços, onde são celebrados os cultos para atender os aflitos. “A maioria faz preces pedindo um trabalho para mudar de vida, sair daqui”, conta.

“Será que algum dia vão tirar a gente daqui e levar para um lugar melhor?”, pergunta Roldão Pereira de Souza, 60 anos, que ocupa um dos quartos do prédio onde funcionava o Oásis, há mais de quatro anos. “Fui um dos primeiros a chegar aqui”, conta, lamentando a distância dos filhos e dos quatro netos. “Vivo aqui, eu e Deus.”

———–

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA (difícil de achar na internet)

Comentário do autor da matéria do The Guardian em sus página do Facebook:

“Oito dias atras meu amigo Alan Roberto Lima fez esse retrato de Jeremias Francisco Nascimento, lider comunitario de uma ocupação no Rio. Ontem a noite Jeremias foi morto, a tiros, na casa dele num motel abandonado na Via Dutra. Algumas horas atras foi enterrado em Sao João de Meriti, cheio de tiros. Pericia? Investigação? Quero ver.
By: Tom Phillips

João José Reis e a cegueira branca – Post # final – Desatando os nós cegos da historiografia interesseira


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1845 - Batalha de Vertières durante a revolução haitiana - gravurista francês anônimo

1845 - Batalha de Vertières durante a revolução haitiana - gravurista francês anônimo

O Quilombo perene, solenemente ignorado por não ser nagô

Foram centenas de rebeliões quilombolas no Brasil do século 19, a maioria delas de gente bantu.

(Bem…É melhor começar esta leitura pedregosa pelos posts anteriores: #01 e #02 e #03)

(Viram a imagem? Viram a data da imagem? Pois bem, a Revolução haitiana (1791–1804) foi deflagrada – manifestada – por um texto em kikongo. Kikongo para os incautos é uma língua dos bakongo, povo bantu do Reino do Kongo. O Haiti é até hoje, uma cultura afro americana marcada pela herança cultural jêje (do antigo Reino do Dahomey, hoje República do Benin, de onde veio o seu vudu) e bakongo/angolana (de onde veio o seu ‘Palo Mayombe‘ – também cubano – se formos falar apenas de religião).

O resto é abobrinha de historiador entre aspas, tirando onda de rei em terra de cego.

Já contei por aí. Em 1834, (um ano antes da Revolta dos Malês), no Vale do Paraíba do Sul, Rio de Janeiro uma seita de escravos denominada ‘Embanda, provavelmente com ligações estreitas com o Antonionismo congolês (uma religião de perfil afro catolicista) e uns poucos libertos bantu, urdia uma rebelião de grandes proporções com o fim precípuo de ‘matar todos os brancos’, fugir para uma serra próxima e implantar por lá uma sociedade de negros – ‘africanos‘ e ‘crioulos‘ livre da escravidão.

 Precipitadamente eclodida em 1838 (depois de delatada por um traidor) um dos ‘Tata Korongo‘ (chefes) desta sociedade secreta rebelde, o ferreiro chamado Manoel Kongo, a quem foi atribuído o comando da rebelião, foi capturado numa refrega (comandava um grupo onde estavam as mulheres, os velhos e as crianças). Condenado à morte Manoel Kongo morreu na forca na cidade de Vassouras em 06 de setembro de 1839.

Centenas de rebeldes em fuga, contudo ao que parece não foram jamais capturados e viveram livres para sempre num quilombo perene, localizado provavelmente na Serra da Estrela, nas imediações das cidades de Vassouras, Valença, Paty do Alferes e Valença. Conheci pessoalmente uma mulher anciã (116 anos) que, quando criança viveu neste quilombo perene. Até a entrevistei e disponibilizei esta fonte por aí (no meu livro inclusive).

Algumas conclusões eventualmente inéditas sobre os detalhes deste incidente memorável – a sua relação com a história africana, angolana, do período – são minhas mesmo, um leigo que não se pretende historiador, mas você pode ler também Flávio Santos Gomes um amigo doutor especialista que também tem muitas informações sobre esta coisa aí, de rebeliões escravas.

João Reis denegrindo o bantu mas fingindo dizer que não

João Reis denegrindo o bantu mas fingindo que não

Quando leio as ilações e opiniões grosseiras e difamatórias, como esta aí de cima, do emérito historiador João José Reis contra a moral dos escravos de ascendência angolana ou bantu e me reporto a este heroico – e tão academicamente subestimado – evento histórico, me aborreço muito.

Sutil tentativa de desqualificar, lançar dúvidas sob a caraterística guerreira do conceito quilomboaliás como disse acima um tipo de rebelião escrava estranhamente subestimada no estudo de João Reis, talvez por ser uma tática de insubordinação essencialmente bantu, com centenas de exemplos históricos amplamente registrados. Afinal, não se tem muita notícia de exemplos de quilombos exclusivamente nagô/haussá, não é mesmo?

Entendem agora porque estou denegrindo este renomado historiador?

Ética! Isto mesmo. Ética em geral e acadêmica por suposto. Não este convescote dos pares, a se entrevorarem nas ante salas dos departamentos universitários, disputando verbas e títulos na área de estudos do negro mais recorrentes (o indefectível Candomblé nagô/baiano), como quem disputa pechinchas numa liquidação das Casas Bahia.

Típico: Assim que são pegos com a mão na botija da disseminação de exageros irresponsáveis e mentiras descabeladas, se calam em conluio – como num pacto sagrado de uma seita – a se protegerem dos estudantes ímpios que se insubordinam contra inverdades científicas e as mentiras mais deslavadas. Tenho sido procurado por um monte de inconformados estudantes destes aí. Estranho, não? Foi isto, aliás que me motivou a escrever série de posts indignados.

 Ética acadêmica devia ser saber o nome daquilo que nunca se deve dizer em vão. E provar o que se diz devia ser regra sem perdão. Ética no geral, a de nós todos e não a ética deles. Doutores não deveriam ter este direito de dizer o que bem entendem sem dar satisfação a ninguém, se escondendo atrás do jargão desta discutível e engessada ‘norma culta’ tupiniquim. Como pode ser que os pares de João José Reis referendem ideias assim sem pé nem cabeça sem partilhar delas? Sem endossá-las? Vejam isto, o veneno se espalhando agora mesmo já no século 21:

…A impressão que se tem é que os nagôs são mais organizados do que os bantos. E uma outra impressão que nos forma é que, onde há um nagô, um outro vem para manter a identidade a partir da crença, por isto esta união entre eles…

…Mas penso que esta ideia de organização passa-se pelas origens identitárias dos nagôs na própria África, devida a sua cultura avançada. Os nagôs têm porte altivo e são belos, foram escravos, mas não perderam a elegância, isto é visível nele. É só sentar-se em SSA (Salvador) e observá-los.

Não é que os outros sejam inferiores, ao contrário disto, todos são iguais, mas penso que o que difere é estarem mais à frente do que os bantos nas questões do viver organizadamente enquanto identidade étnica.”

(Uma moçoila que se denomina ‘Luana Luna’– universitária e negra, presumo- , comentado um post em meu blog dia destes)

Luana,

…Cegueira branca, como diria o Saramago. Curiosamente acabo de escrever exatamente sobre isto. Infelizmente as suas colocações são marcadas pela repetição cega de um preconceito muito arraigado na cultura brasileira, este de que existem negros culturalmente superiores (os descendentes dos nagôs) aos outros (todos os demais).

É um equívoco dramático, terrível por que contaminou o pensamento até de pessoas negras (como imagino que você seja) que não percebem a armadilha racista em que estão aprisionadas.

O mais incrível é que parece que você não leu uma linha sequer do que escrevi antes, explicitando como este ‘auto preconceito’ venenoso foi instilado em nossa cultura, bem como as intenções dele em nos manter submetidos aos ‘brancos’ (ao fim de tudo considerados os ‘mais superiores’ que todos nós, os ‘outros‘, os supostos descendentes de nagôs inclusive).

Decepcionante. Não guardo muitas esperanças em você não, mas espero que leia esta próxima matéria, ao menos com atenção. Sempre resta uma esperança.”

(Eu mesmo, desolado respondendo lá no blog)

Lendo, engolindo em pílulas amargas a historiografia deste João Reis, considerando gravemente a alta reputação que ele goza nos meios historiográficos brasileiros, me ocorreu impressão de que a ideologia malsã que claramente permeia os seus escritos, pode representar mesmo o pensamento dominante, hegemônico das áreas universitárias e acadêmicas afins.

Não falo – claro – de ingênuos formandos, mestrandos, nem mesmo dos nem tão ingênuos assim doutorandos e orientandos. Falo dos doutos supremos mesmo, estes que elegem, referendam, recomendam e até mesmo exigem que se leia João José Reis como matéria referencial e obrigatória no estudo da história – fake– do negro do Brasil.

Notaram? O negroafricano heroico foi, providencialmente efêmero

Se o ‘africano‘ negro está extinto e o descendente dele é o ‘crioulo‘ reles e ‘impuro‘ quem será hoje o guerreiro ‘superior‘, da vez, para historiadores como João Reis?

Nem parece, mas se passaram impressionantes 80 anos entre a publicação de “Os Africanos no Brasil”, clássico maldito de Nina Rodrigues vindo à luz em 1906 e o livro Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos malês1835” Ed. Brasiliense 1986 de João José Reis nosso arguto historiador aqui enfaticamente resenhado.

Pelo que soube lendo em Arthur Ramos, Nina Rodrigues nem mesmo concebeu o seu livro daquela forma, já que ele foi editado após a sua morte a partir da compilação de textos esparsos deixados por ele, escritos ainda em francês. O compilador, Homero Pires (leia post a respeito aqui), o discípulo dileto Arthur Ramos e uma série de eméritos doutores se incumbiram, portanto de implantar, instilar estas ideias por aqui, dando peso acadêmico a elas, foros de ciências sociais ‘top de linha’, tornando-as referenciais no pensamento etnológico oficial do Brasil.

Puiff!

As ideias racistas ali disseminadas, contudo são claramente um reflexo do pensamento ideológico de Nina – e de seus seguidores todos já que reproduzem ideias recorrentes em sua época, a virada do século 19 para o 20 e seu contexto (Nina Rodrigues, como se sabe vivia na Europa, em Paris,).

…Beatriz Góes Dantas (1988) demonstra, após analisar o Xangô em Recife, que a noção de pureza nagô foi construída pela ação dos acadêmicos ao elegerem alguns sinais diacríticos como sinais de pureza, transformando a categoria nativa em categoria analítica, com o passar do tempo muitos candomblés reproduziram e internalizaram essas interpretações.”

(“Religiões afro-brasileiras. Da degenerescência à herança nacional: lendo Nina Rodrigues– Rosenilton Silva de Oliveira)

Disse no meu livro e repito aqui, contextualizando: estas ideias racistas, forjaram toda a ideologia das classes dominantes do mundo branco ocidental – inclusive no Brasil, claro – no momento paradigmático das abolições das escravaturas e da implantação do neo colonialismo em África e no resto do mundo não branco, ideias estas que explodiram como modo de pensar hegemônico com a prática das táticas assassinas do nazifascismo, só desmoralizadas depois de muito sangue, suor e lágrimas, vertidos na derrota destas forças insidiosas na segunda guerra mundial, após a morte de milhões e milhões de pessoas – consideradas ‘raças inferiores’ – em campos de concentração e extermínio (e não apenas na Europa, diga-se).

É por isto que constatar a incrível semelhança entre as odiosas ideias expressas claramente no livro de João José Reis e aquele velho pensamento eugenista de Nina Rodrigues me assusta. 80 anos não são 80 dias. É doença crônica. Demanda tratamento de choque, quiçá transplante.

Sim. Já devo ter me perguntado mil vezes: Como pode ser que quase um século depois, aquele grosseiro ideário pré nazista de Nina Rodrigues ainda prevaleça como referência, como ciências sociais ‘de ponta’ no Brasil, enrustido em quase tudo que nossos universitários leem – sem ler– obrigados que são a concordar e pronto? Como ninguém mais douto demonstra ter visto, lido, percebido? Porque se tornou tão comum encontrar este pensamento capcioso – aí sim! – dissimulado em quase tudo que se lê sobre o negro no Brasil.

_ Não! Não! João José Reis não é um racista! Estão vendo racismo em tudo!”- Disse mais ou menos assim uma minha amiga doutora branca.

Como não? As transcrições das palavras de João Reis aqui resenhadas são textuais. Ele realmente escreveu aquilo! Como se vai provar que não? Só não viu quem não quis ver. Quem virá aqui debater, questionar as pílulas claríssimas aqui pinçadas, em bases conclusivas? Que venham!

Não sou um tonto esbravejando. Tenho um monte de pedras novas e taludas ainda para lançar.

João Reis  tentando livrar a barra dos crioulos  mas se contradizendo

João Reis tentando livrar a barra dos crioulos mas se contradizendo

Êpa! Viram só? Contradição pura, de rabo de fora, de novo. O conceito de ‘rebelião escrava’, tão caro a toda a argumentação do eminente historiador, que já aparecia um tanto ou quanto vago e ambíguo quando as estatísticas denunciaram um contingente majoritário de nagôs islamizados presos (seria uma revolta, essencialmente religiosa?), além de aparecer questionado acima pela participação de um número expressivo demais de negros nagôs (e, em menor número, haussás) libertos em posição de franca liderança também, se desvanece um pouco mais ainda, com a franca admissão de que, ainda na virada do século 18, ‘crioulos‘ e ”mulatos‘ também se rebelavam sim, contra tudo, inclusive contra a escravidão (João afirmava antes, no mesmo texto e sempre enfaticamente, que não).

Vale ressaltar também (e estes dados vivem sendo empurrados para debaixo do tapete desta historiografia interesseira) que alguns – não sei se muitos – destes líderes malês nagô/haussás tinham inclusive escravos. Se não fosse uma rebelião religiosa, provavelmente não era também, pelo menos exatamente uma rebelião escrava, no sentido estrito da palavra. Nananinanão!

Crioulos’ e ‘mulatos’, provavelmente atuaram ao lado de brancos pobres e ‘africanos’ em protestos e quebra-quebras…”

Como se vê, desta feita, é o explícito aparecimento de rebeliões ‘crioulas‘ que problematiza mais ainda a questão, tornando algo incongruentes as alegações centrais da tese do historiador (a de que apenas os aguerridos ‘africanosnagôs/ haussás participaram das rebeliões escravas no período, patatipatatá).

Tênue demais a linha que separa, hierarquizando, o conceito “rebelião escrava’ de ‘rebelião nativista’. Ambas as revoltas (e reler E. Genovesecitado no post anterior – nesta hora cai bem, seria muito interessante) estão dentro do mesmo contexto de contestação às estruturas da sociedade colonial, com a luta contra a escravidão – do mesmo modo assumida por ‘africanos‘ e ‘ crioulos– aparecendo sempre como objetivo de ambos os tipos de insubordinação violenta contra a ordem estabelecida.

Talvez seja por isto que João Reis tenta criar uma clivagem tão radical – e improvável – entre ‘rebelião nativista’ e ‘rebelião escrava’, entre rebeliões quilombolas e rebeliões ‘nagô’.

João Reis endeusando os nagô e denegrindo os bantu

João Reis endeusando os nagô e denegrindo os bantu

Observem bem que todos os parâmetros que, supostamente atestariam a tal ‘supremacia‘ nagô/haussá são parâmetros civilizatórios do branco europeu. Sem se falar que a comparação entre a ‘tranquilidade camponesa’ dos angolanos e a ‘arrogancia urbano-comercial’ dos yoruba/haussás é de uma parcialidade cínica. De doer.

Os termos usados não são historicamente comparáveis, nem no tempo e nem no espaço. Os bantu também tiveram reinos estáveis, civilizados e prósperos até o fim do século 18. Os nagô/haussá também tiveram esta sua suposta condição de reinos estáveis e fortes desmontada nesta mesma década de 1830 da Revolta dos Malês, por força da expansão do colonialismo inglês na região e da pulverização provocada por guerras inter étnicas. O próprio aumento do fluxo de escravos nagô/haussá para Salvador, Bahia nesta época, prova isto.

Fala sério!

Alegando uma suposta predisposição…geo genética dos ‘africanos puros’ para serem moralmente ‘superiores(o seu alto grau de ‘excelência civilizatória’ seria fruto do fato de serem eles desta e daquela etnia e por serem ambas oriundas de uma determinada região africana, etc.), João Reis cria assim uma discutível relação direta entre eugenia e cultura, já que engendra aquele juízo de valor particular intencionado em sugerir que certas relações entre seres humanos, de forma determinista seriam opositivas, conflituosas:(‘africanos‘ versus ‘crioulos‘, ‘crioulos‘ aliados aos ‘brancos‘, e estes aliados ‘com ‘mulatos‘, todos contra os africanos, etc.)

João  denegrindo o bantu mas tentando realtivizar seu evolucionismo vulgar

João denegrindo o bantu mas tentando realtivizar seu evolucionismo vulgar

Eu sei. Eu li. Já disse! Eu vi que João Reis em seu livro, lá para as tantas, tece algumas tentativas tímidas de ser ponderado, culturalista e estas suas tentativas como vimos, foram acenadas veementemente por minha amiga branca.

Não me pegou. É o velho lobo evolucionista sob a pele do cordeirinho culturalista.

João Reis tentando ponderar incongruencias

João Reis tentando ponderar incongruencias

O trecho acima, neste sentido, aliás sugere um amontoado de incongruências indesculpáveis para um historiador deste porte.

Ora, não é de modo algum um ‘mito’ a afirmação de que os bantu seriam mais ‘afeitos‘ a determinados tipos de serviço. E não há nenhuma questão… evolucionista ou mesmo eugenista embutida nesta circunstancia. Alguns autores afirmam cabalmente que, ao contrário do que João Reis sugere, quem predominava em “serviços domésticos’ e ocupações mais especializadas” em Salvador, Bahia durante a escravidão, não eram, absolutamente os ‘crioulos‘ (em geral, usado quase como eufemismo para ‘bantu‘ por João Reis), mas sim os ‘puros‘, os ‘mais inteligentes‘, os ‘mais cultos’… ‘africanos‘ (e ‘crioulos‘) nagô/haussá.

É que havia evidentemente uma estratégia logística no negócio da escravidão (como em qualquer atividade laboral, comercial). Sempre que possível, escravos eram selecionados sim, na origem, segundo suas habilidades pré existentes. Claro! Aos próprios nagô/haussáJoão Reis omite este dado cuidadosamente – eram determinadas as funções mais específicas no ramo das atividades domésticas em Salvador (cozinheiros faxineiros, mucamas, etc.), cabendo a maioria dos escravos bantupela lógica comercial do negócio – funções mais braçais, o serviço pesado no eito do recôncavo.

Aquele imaginário garoto ginasiano esperto que citei num post destes aí, já sabe que grupos étnicos ‘angolanos‘ da área do porto de benguela, foram seletivamente trazidos para as Minas Gerais na época do ciclo do ouro e do diamante. É que estes povos eram e especialistas em mineração (na verdade os povos bantu da vasta região da Angola atual eram tradicionais mineradores, tendo a metalurgia – do ferro, à princípio – como atributo da nobreza de reis, desde tempos imemoriais)

Observe o leitor que a intenção de João aqui, portanto é sugerir a capciosa separação entre bantu e nagô, já que a maioria dos nagôs, segundo ele, seria ‘africana‘. No contexto de sua argumentação também parece omitir também, cuidadosamente o alto grau de assimilação dos nagô/haussá à sociedade branca (de Salvador e de Lagos, Nigéria), com a existência já a esta época de um significativo contingente de nagô/haussás libertos, alguns se tornando inclusive, alguns anos depois, mui ricos comerciantes, atuando no eixo Salvador /Lagos (Nigéria) atuando em negócios nem sempre heroicos, limpos e edificantes como – cala-te boca! – o tráfico de escravos do Benguela para cá, por exemplo.

(Vai duvidar? Me desmentir? Vamos lá!)

É fato historicamente comprovado enfim que a maioria dos escravos de origem bantu na Bahia, já a esta época (1835) estava no eito das plantações do Recôncavo, para onde eram levados de forma seletiva, enquanto que os nagô/haussá, estes sim estavam em franco processo de assimilação no perímetro urbano de Salvador, onde estas relações de assimilação podiam, naturalmente ocorrer. A razão de ser da exagerada opção preferencial de certa academia pelo estudo apenas deste ramo de nossa cultura negra, aliás, pode estar neste processo de assimilação nagô/haussá aqui demonstrado. Porque não? João, intencionalmente inverte as bolas, se pode perceber agora, facilmente.

Cegueira branca!

Inútil tentar contemporizar com os epítetos racistas de João Reis. Eles – vocês viram e podem ver melhor lendo o livro dele – estão todos lá, impressos candentes de ideias claramente eugenistas, afirmando que certo tipo de negro, por isto e por aquilo – razões sempre estapafúrdias – é – ou era – superior a outro.

As tentativas de ser ponderado a esta altura, pois, não desdizem o que ele escreveu antes, nas pílulas, nos recortes que esmiuçamos aqui. Acabam sendo mesmo secundárias pílulas cínicas, enganosas, placebo que não cura mais o veneno, tentativa de ocultação do ‘cadáver‘.

E como fede o morto!

E reflitam comigo finalmente a constatação final, a mais insidiosa das charadas:

Se os ‘africanos‘, seres superiores na pirâmide eugenista do século 19 erigida por João Reis não existem mais (e Nina Rodrigues declara lamentando, esta eminente extinção deles já no final do século 19), se ‘crioulos‘, ‘mulatos‘, ‘cabras‘, esta gentalha toda enfim é a óbvia descendência da negritude africana hoje existente no Brasil (os ‘negros da vez’, digamos assim), então pelas injunções étnicas/genéticas de sua descendência – sempre pela lógica de João Reissomos todos hoje – e digo nós, os negros do Brasil – necessariamente o rebotalho ‘impuro‘, a classe dos seres desprezíveis, não é isto não?

É que em todo o arrazoado teórico de João José Reis Usem a cabeça! Por favor, usem a cabeça!– o que aparece embutido, subliminarmente enfim no pensamento douto deste eminente historiador é o desprezo pelos negros todos do Brasilos ‘afro-brasileiros’ como ele diz – Sim! Como não?

Negros universitários do Brasil – e os brancos, ‘mulatos’ e os ‘cabras‘, também, coitados – estariam sendo obrigados assim a ler isto, para disto tirarem uma ideia inteiramente falsa sobre si mesmos. Ideia falsa esta que, quando estes jovens forem doutores, estarão por sua vez disseminando por aí.

_Ai, lei 10639! Rogai por nós!

Como para quem sabe ler um pingo é letra, óbvio está também que neste discurso de João Reis está sugerido que os descendentes dos nagôs/haussás – supostamente concentrados todos ainda e Salvador, Bahia seriam hoje o sub extrato de negros ‘superiores‘ aos demais.

Absurdo! Racismo ninafreirista reciclado, o mito abjeto da Supremacia nagô’ redivivo, pois, e o pior cego – este incidente exemplar vem provar isto cabalmente- é mesmo aquele que não quer ver.

Sendo mais claro ainda (se é que isto é necessário): Pelas linhas tortas de João, o valentão, o que ele reza em seu livro, portanto é a crença proselitista, quase religiosa de que, extintos os aguerridos ‘africanos‘, segundos na hierarquia de sua evolucionista pirâmide sociocultural (já que está a omitida – oh santa ingenuidade a nossa! – embora subentendida, a liderança exemplar dos brancos nesta história toda) sobraram por aqui uma maioria de negroscrioulos‘ e ‘mulatos‘, ‘impuros‘,acomodados‘, ‘inferiores‘, pois, e todos aqueles epítetos que vimos espalhados aqui em seus recortes, as nossas pílulas indigestas.

Ora – elementar, caro Watson!- se o ‘africano‘ ‘puro‘, superior entre todos nós, os negros, extinto como o ornitorrinco já não existe mais, se escafedeu; se somos todos ‘crioulos’ descendentes daqueles seres… ‘inferiores‘ sobreviventes, quem seria então a raça suprema na estratificação sócio racial do Brasil de hoje em dia? Quem? Quem? Quem?

Ah! Nem preciso responder.

É o parâmetro omisso da questão. A chave suja da ideologia malsã, a pura introjeção do velho racismo de sempre em nós mesmos, não é não? Nós, as vítimas sem o saber mancomunadas com os algozes de sempre, velhos maquiavélicos em pele de doutores sabichões. Nós, tomados por tolos, engolindo as pílulas de morte do Dr. Reis – o suposto príncipe de maquiavel – e sua banda.

É a Cegueira branca, mermão! É a Cegueira branca!

Spirito Santo

Março 2012

Revolta dos Malês e cegueira branca – João José Reis, o rés-do-chão da norma culta. Post #03


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Século 19. Litografia sobre foto com guerreiros africanos com armamento misto (lanças e mosquetes). Não sei se são nagôs ou bantu.

Século 19. Litografia sobre foto com guerreiros africanos com armamento misto (lanças e mosquetes). Não sei se são nagôs/haussás (‘puramente’ africanos‘) ou bantu (gente ‘impura‘ preta africana misturada). João José Reis, por ser branco, é quem deve saber.

História ou ‘estorinha’?

Considerei isto tudo ‘abobrinhas conceituais’, sabe o que são? São assim: O recheio das morangas está envenenado, melhor não comer

Não se iluda. Nem toda enfase é puramente um arroubo emocional, passional e fútil, um chilique intempestivo. É muito pragmática sim esta minha intenção de denegrir um ilustríssimo historiador.

Todo denegrir é político, ora pois. O desancar alguém, difamar alguém nunca é um ato inocente, mesmo entre doutores finos e educados. Pode ser reativo, ato impulsivo, mas tem sempre o significado de que um tiro com endereço certo foi disparado. Alvejando com a primeira pedra o apedrejador, este tiro pode muito bem servir de aviso do tipo “quem com ferro fere com ferro será ferido”.

Sabia não? João José Reis – o doutor ‘sabe tudo’ – com certeza entende deste riscado.

O peixe, como se diz por aí, morre pela boca. O historiador pelo mau contado que sua história pode conter. O veneno dela, destilado em antídoto expelido de volta, regurgitado. Uma meia mentira repetida mil vezes pode um belo dia ser atropelada por uma meia verdade. Conhecemos vários exemplos de sumidades doutas em sua época, cujo trabalho iluminado pelo tempo foi virando coisa obsoleta até virar lixo acadêmico, bolor conceitual. Ocorreu isto mesmo com os doutores racistas da virada do século 19 para o 20.

Se os pares, omissos, perdoam, o crivo do tempo jamais perdoará a ciência entortada por ideias malsãs.

Afinal livros não são aves formadas por inocentes palavras sem sentido voando por aí. Ninguém escreve um livro impunemente. As palavras todas devem ter a liberdade de voar nos livros sim, nas revistas, nos jornais, nos blogs e sites, onde bem entendermos nós, os escrevinhadores, mas isto não quer dizer que elas são inocentezinhos avatares de algo sem rosto e sem razão de ser.

Elas, as palavras ditas e escritas, não vão nos levar a inferno algum (nem muito menos a qualquer paraíso). Mas podem fazer mal a terceiros. Não dá para engolir de volta palavras malditas, malfazejas. Engolir o próprio veneno mata o envenenador. Palavras são genes de intenções engravidadas pelas entrelinhas. Bem ou mal lidas e compreendidas ou incompreendidas as palavras podem ser ácido e fogo, química que queima ou embalsama, pelo bem ou pelo mal de quem as lê.

Quase todo mundo fingiu não ler, mas o nosso anti herói, o célebre e ultra recomendado historiador João José Reis denegriu, intencionalmente os ‘crioulos‘, os ‘mulatos‘ e os ‘cabras‘ do Brasil, chamando-os de um montão de coisas moralmente deploráveis, com o intuito aparente – ou pretexto, sei lá – de nos convencer de uma tese sua sobre a Revolta dos Malês. A difamação vaza os poros do seu contexto histórico suposto – o período entre 1805 e 1835 – e contaminam de ofensas e injúrias a memória dos negros brasileiros todos, os de hoje, os sobreviventes da escravidão.

A tese é altamente questionável, principalmente porque ele usa armas de um ultrapassado eugenismo racista muito comum no final do século 19 e o faz torcendo alguns fatos, o que para um historiador é absolutamente condenável. Suas ideias são, por este meu modesto entender, claramente tendenciosas, traiçoeiras e venenosas. E é por estas e outras que ele está sendo denegrido aqui.

Bem, você pode e deve voltar aos dois posts anteriores (#01 e #02). A discussão é pesada porque questionar sumidades exige um certo cuidado com as filigranas – e com os punhais nas costas também – afinal João José Reis tem uma banca notável de admiradores submissos e fiéis. A técnica que escolhi é a sugerida por ele mesmo: A Medicina legal (área de estudos preferida por Nina Rodrigues, seu mestre e inspirador evidente).

Indo por partes, esquartejei assim, como um Jack sarcástico, certos trechos do livro dele (Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos malês-1835″ Ed. Brasiliense 1986) e os resenho aqui, um a um como numa autópsia. Não uso luvas – nem mesmo as de pelica,  nem mesmo aquelas cirúrgicas – mas em certas partes tive que me valer sim de uma máscara, porque o cheiro dos argumentos era nauseabundo demais, muito ruim.

Mas pode entrar. A casa é sua. Feche a porta atrás de si e vamos em frente.

João Reis denegrindo ‘angolanos”

Falou doutor? Escreveu? Agora é tarde. Tá falado.

João Reis denegrindo o bantu com jeitinho

João Reis denegrindo o bantu com jeitinho

“…Falta de dados”?  Que tipo de historiador especialista em cultura negra comete semelhante ato falho?

Bem… só mesmo recapitulando, pegando o fio embaralhado desta meada: Por extensão, João Reis propõe em seu texto  – e numa hierarquia eugenista bem suspeita – que ‘mulatos‘ e finalmente ‘cabras‘, (ao contrário dos ‘aguerridosafricanos puros‘ nagô/haussás) seriam ‘submissos‘, ‘pusilânimes‘, afeitos à acomodada adaptação diante da escravidão, atribuindo esta condição, do mesmo modo, ao estágio inferior do senso de civilização e de cultura destas etnias, além do agravante delas estarem já a esta época, segundo ele ‘contaminadas‘ pela sua sua estreita ligação com a ideologia dos brancos.

Ai, ai! Pobrezinha da lógica dos fatos diante dos difamadores. O que significaria a expressão “..lado mais fortemente africano dos angolanos”? Angolanos SÃO africanos e pronto. Ou não? É uma condição inquestionável a todas as pessoas nascidas na África serem…africanas. Não é uma condição ‘etnogenética’, um qualificativo…evolucionista, tipo ‘primitivo‘, ‘moderno‘, ‘civilizado‘ ‘incivilizado‘. Não há juízo de valor possível para se avaliar esta condição nos nossos tempos culturalistas.

Negros podem ser africanos ou não africanos (‘crioulos’), ponto. Não existem africanos ‘mais‘ africanos que os outros. A questão é – desculpem a franqueza– de uma capciosidade estúpida. Claro está que João Reis pretende desqualificar a ‘africanidade‘ evidente dos bantu (os ‘angolanos’ dele) para exaltar a seguir a suposta ‘superioridade‘ de outros grupos (no caso, é claro, os nagô/haussás).

João Reis denegrindo o bantu e endeusando os sudaneses no mesmo discurso

João Reis denegrindo o bantu e endeusando os sudaneses no mesmo discurso

E – pelo amor de Deus! – o que significaria esta hierarquia esquisita que ele estabelece entre sociedades patrilineares e matrilineares? Machismo enrustido? Sociedades cuja  linhas de sucessão são baseadas em princípios ‘masculinos’  são superiores as matrilineares em que sentido, meu Deus?

Bantos‘ – que, segundo ele, eram…ou são, ‘dissimulados‘ e ‘acomodados‘  – optaram por ‘enganar os senhores”. Nagôs/haussás (os heróis da negritude suposta de quem João Reis ridiculamente se ufana“)…seguiram a trilha do confronto cultural, modificando-se apenas no que de melhor servia para enfrentar a escravidão.”

Oh, África helênica! Oh! Que exemplo mais rochapombiano!Ô sumidade das sumidades!

Li várias vezes, incrédulo para poder entender. Quase nenhuma linha de verdade histórica encontrei. Infundadas abobrinhas propagandísticas isto sim. Proselitismo nagoísta barato. Como semelhante argumentação, rasteira em todos os seus termos, pode ser considerada historiografia ‘de ponta’, alguém pode me dizer?

(E aqui mais me impressiono mesmo é como as fontes são esgrimidas, torcidas para legitimar opiniões tão destrambelhadas de sentido)

Não é de modo algum verosímil que os antecedentes puramente etnológicos – ou geográficos, históricos enfim – dos africanos bantu e dos nagô/haussás, tanto faz – fossem determinantes em seus respectivos comportamentos diante da escravidão. É tudo muito relativo e circunstancial neste aspecto. Diversos são os fatores a serem considerados. A história não é uma entidade estática, andando aos saltos, tudo está em processo, claro!

Além do mais, não existe, não faz sentido algum para a antropologia moderna os conceitos ‘cultura original, ‘cultura mais africana’, ‘cultura mais pura’, etc. Porque o problema da qualidade dos parâmetros se impõem fortemente. Melhor dizendo: Os pontos de vista, o foco de quem determina o que é ‘isto‘ ou ‘aquilo‘, ‘superior‘ ou ‘inferior‘ (o historiador, no caso) nunca são isentos, idôneos, desinteressados. É tudo meramente opinativo, politizado e improvável, lixo conceitual, portanto.

O dito pelo não dito. Engasguei. Esta pílula foi a mais difícil de digerir.

Este é o lado mais surpreendentemente rasteiro da argumentação de João José Reis: Não existem, pois, diferenças significativas nas diversas táticas de resistência utilizadas por escravos africanos que possam hierarquizá-los como sendo uns mais ou menos aguerridos que os outros, moralmente superiores, etc.. Isto é primário demais para ser considerado. Lixo conceitual, repito.

Maquiavel, meu caro Watson, puro Maquiavel! “_ Diria o inglesíssimo e colonialista Sherlock Holmes.

_ Vai dividir e imperar o cacete!” Diria o titio aqui, já ‘pelas tamancas’.

Aqui, abaixo uma surpresa sensacional – Aleluia!

João Reis no intuito de denegrir os ‘crioulos‘ – tidos e havidos como covardes por não terem aderido à Revolta dos Malês – distraidamente sucumbe a lógica dos fatos e acaba descrevendo – embora sempre desqualificando – uma revolta… ‘crioula‘!

João reis denegrindo os crioulos

João reis denegrindo os crioulos

Estranhas ilações, de novo permeadas de contradições em relação à partes anteriores do próprio texto. “…mesmo cultuando deuses africanos era comum (os crioulos) agirem separadamente” ? (Como assim? Mas afinal os ‘crioulos‘ não eram, invariavelmente adoradores do catolicismo branco?)

…Em sua grande maioria os ‘crioulos’ rebelaram-se, em pelo menos duas ocasiões (Ué? Mas como assim de novo? Os ‘crioulos‘ não eram, invariavelmente ‘acomodados‘ e ‘pusilânimes, ‘puxa sacos’ inveterados dos brancos?).

…Mas não sabemos se este movimento também possuía algum conteúdo antiafricano” .

Ah! Leiam de novo e me digam: Se João Reis, o historiador perspicaz não sabia disto como pode afirmar, exatamente isto mesmo, e com tanta ênfase (afinal não foi ele quem afirmou, nas linhas anteriores (“…..trabalho sujo para os africanos...não se esqueceram de discriminar enfaticamente os camaradas africanos”). Hum…E aí? Podemos dar crédito a estas afirmações tão displicentemente maldosas – e caquéticas porque originalmente vieram do hoje vetusto e questionado Nina Rodrigues – ainda assim mal costuradas com insinuações que se desmentem a si mesmas?

Ah, sei. Em nome da ideia preconcebida de sua tese, mesmo se rebelando os ‘crioulos‘ não podiam escapar da pecha de traidores imorais que ‘odiavam’ os africanos. De onde saem estas estapafúrdias constatações? Em que se baseiam afinal? Não se sabe. Parece mais um grosseiro preconceito do historiador. E é.

João Reis endeusando os nagô

João Reis endeusando os nagô

Assim neste, não menos raso recorte que faz da realidade da população negra de Salvador no período – e não da Bahia como um todo, ressalvamos – João Reis dá sempre a nítida impressão de que só considera realmente ‘legítimos‘ os seus eleitos nagô/haussá e seus vizinhos (‘jêjes’, ‘tapas’, etc.). As suas tentativas de provar esta algo improvável superioridade de uns sobre os outros (usando a tal, há muito ultrapassada ‘premissa spenceriana’, aludida no post anterior) são, em certas partes do texto bem canhestras.

Ora, africanos de outras etnias – nomeadamente gente bantu – do mesmo modo que os nagô/haussás, circunstancialmente também“…eram vítimas de conflitos armados em suas terras.” A África deste período histórico, acossada por invasores colonialistas e dissenções internas, interétnicas insufladas por estes mesmos invasores (europeus católicos de um lado e árabes islâmicosde outro) era palco de conflitos armados de norte a sul. Quem não sabe disto? Pode um historiador especializado em África desconhecer isto?

João Reis denegrindo os bantu e endeusando os nagô no mesmo discurso.

João Reis denegrindo os bantu e endeusando os nagô no mesmo discurso.

(Frise-se: Ele estranha, sabe-se lá porque, a ausência a nosso ver natural de ‘bantus‘ numa rebelião exclusivamente nagô, tocada por muçulmanos). Não se pode deixar de chamar a atenção também da mais que suspeita diluição que João Reis faz dos bantu num melê de etnias amplo demais, improvável tentando dissolver estes bantu em micro etnias dispersas, quase tribos primitivas.

Preconceito maldoso. Com o rabo de fora. Quem não sabe? O conceito ‘bantu‘ (tanto quanto ‘sudanês’) é um equívoco metodológico do século 19 (João Reis sabe muito bem disto e até alude a este aspecto mais adiante). Ora, isto é ‘be-a-bá’: ‘Cabindas‘ e ‘benguelas‘ são termos que dizem respeito aos portos de embarque destes escravos e não à etnias propriamente ditas. ‘Congos e ‘Angolas, dizem respeito por outro lado a etnias muito vizinhas, cujas lideranças, suseranos, reis, sobas, como se os queira definir, eram inclusive de um mesmo ramo familiar, oriundos todos de uma matriz étnica ancestral chamada de ‘bakongo‘.

Com toda certeza esta gente genericamente denominada por João Reis (e antes dele por Nina Rodrigues, ambos com desprezo) de ‘bantu‘ (“angolanos‘ sim, como ele em certos momentos os denomina) possuía talvez muito mais integridade étnica do que os nagôs por exemplo, estes sim pulverizados como o próprio historiador reconhece, a certa altura de sua ‘estória’, em várias micro etnias (sem falar no recorte religioso, a distinção que necessariamente se deve fazer em qualquer termo no âmbito da Revolta dos Malês entre ‘nagôs em geral ‘ e ‘nagôs islamizados’)

E o problema maior da argumentação de João Reis, contudo nem é este ainda. É que, curiosamente, na utilização algo descuidada desta categorização ‘Africanos x ‘Crioulos’ – de teor fortemente eugenista, racista como já aludimos – o historiador omite completamente a existência também em Salvador, no mesmo período de ‘africanos legítimos’ oriundos de outras partes da África que não o Golfo do Benin. Ou seja, africanos para ele são apenas gente nagô/haussá. Curto e grosso (e no mal sentido).

Ora, este contingente populacional não poderia ser omitido na argumentação – a não ser por alguma má intenção metodológica – pois está contido nas mesmas estatísticas de africanos‘ em geral. Como João consegue separar os africanos de Salvador em dois grupos tão diversos e estanques? Como vimos, ele na verdade faz esforço enorme para explicar esta suposta e algo improvável contradição ideológica entre estes dois grupos de africanos, mas o faz se atolando cada vez mais no lodaçal racista de seu pensamento geral.

João Reis denegrindo os bantu e os crioulos

João Reis endeusando os nagô e minimizando a 'impureza' de seu catolicismo

João Reis endeusando os nagô

(Aqui, a propósito, confirmando as nossas ponderações acima – ao se referir às irmandades como um fator ‘negativo‘ que depõe contra a ‘africanidade‘ dos bantu, João se contradiz mais uma vez porque em partes do texto como esta se refere à adoção da mesma tática afro catolicista (enfatizando a Irmandade de ‘Nossa Senhora da Boa Morte’ assumida pelos nagô/haussá) só que desta feita ‘endeusando‘ a perspicácia estratégica e minimizando a ‘impureza‘ de catolicismo dos seus eleitos).

Devia causar espécie ao leitor mais atento – como minha amiga negra – o fato dele fazer todas estas afirmações sem fornecer dados suficientemente avaliáveis, sem demonstrar ter estudado em alguma profundidade enfim a cultura destas ‘outras‘ etnias. As digressões de João Reis quando fala, sempre genericamente da cultura dos bantu, por exemplo são bastante primárias, omitindo – e parecendo até mesmo desconhecer!- a existência, as raízes históricas – de grandes reinos e impérios africanos da África Austral como o Reino do Kongo e do Loango, por exemplo, tão importantes – ou formidáveis – do que os reinos do Golfo do Benin.)

Explicitar em minúcias esta tese estranha – a da superioridade de certas etnias consideradas ‘puramente africanas’ sobre outras, as ‘espúrias‘, é, aparentemente – muito mais do que explicar as motivações reais da Revolta dos Malês – a principal razão de ser do texto de João José Reis.

Puiff!

Deixo para o post final a revelação provável de um enigma: Porque João José Reis manifesta esta adoração quase religiosa pelos ‘africanos‘ supostamente mais ‘puros‘ da história pregressa do negro no Brasil? É eugenista o pensamento dele, mas sendo ele branco de marré de si, o que haveria por trás desta insólita adoração… ‘racialista‘? Me aguardem, por favor.

Fui tomar um ar. É que este cheiro de formol me asfixia. Mais um comercial das Casas Bahia. Daqui a pouco a gente volta para encerrar o próximo e último bloco (#04.)

Spirito Santo

Março 2012

Cegueira branca – João José Reis enlameando estigmas/post # 02


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Século 19: Táticas de guerra em canoas no Rio Kongo com guerreiros especialistas em lutas com mosquetes ou lanças tradicionais. Muito acomodada e pusilânime esta gente bantu, não é não? Quando viram 'crioulos' então...

Século 19: Táticas de guerra em canoas no Rio Kongo com guerreiros especialistas em lutas com mosquetes ou lanças tradicionais. Muito acomodada e pusilânime esta gente bantu, não é não? Quando viram ‘crioulos’ então…

A forjada história do negro do Brasil vista do alto

Denegrindo impunemente os Crioulos, os Bantu e o resto da ‘cambada’.

Como estamos vendo (leiam post anterior) esmiuçado em nossa resenha de pílulas digestivas e bem preliminares, o festejado e altamente referendado historiador João José Reis comete em seu livro clássico (“Rebeliões escravas – A história da Revolta dos Malês-1835” Ed. Brasiliana 1986) um texto cheio de interstícios e entrelinhas capciosas – algumas, na nossa modesta opinião simplesmente infundadas – com um forte teor eugenista com o rabo de fora enrustido, com o qual parece tentar provar – convencer mesmo os leitores mais desavisados – estudantes de História de universidades do Brasil inteiro – sobre o acerto das suas nada cabais e venenosas opiniões.

Leiam com atenção a pílula seguinte:

João Reis denegrindo o crioulo
João Reis denegrindo o crioulo

Leia de novo:

Cumplicidade entre o escravo nacional e o senhor…” ?“…Pacto anti africano entre baianos senhores e escravos, pretos, brancos e mulatos…”?

Como assim? Reflita. Pense: Esta afirmação tão peremptória de que teria havido um conluio entre negros nascidos no Brasil (de ascendência nagô, haussá ou bantu, tudo misturado, já que João Reis em nenhum momento os diferencia, livrando a barra apenas dos ‘africanos’) faz sentido? Como João Reis aferiu isto se não há depoimentos, nem tampouco documentos, mesmo policiais ou oficiais atestando direta e cabalmente a ocorrência desta ‘conspiração’ – ‘pacto‘ como ele diz – de negros assim contra negros assados, mancomunados com os brancos?

João Reis denegrindo os crioulos

E viram lá? Ele acusa deste modo – frontal e diretamente – os ‘crioulos‘ (ou ‘afro-brasileiros’) de sórdidos traidores de sua herança africana. Ô louco!

Ocorre que – qualquer ginasiano pode intuir – haviam diferenças sim nos modos de ser e conviver dos escravos ‘africanos’ e ‘crioulos’ com ‘seus‘ senhores, de brancos com negros assim e assados, como não? Era natural que houvesse. Isto fazia parte da sociologia do regime de trabalho escravo (de qualquer regime social, vamos combinar). Ora esta regra é recorrente demais nas relações entre os extratos de qualquer sociedade hierarquizada, dividida em classes os castas.

Aliás, a fundamentação desta suposta contradição entre negros africanos recém-chegados e negros nascidos aqui é bem frouxa como veremos a seguir. Como se sabe os dados estatísticos, geográficos, historiográficos etc. sobre a impropriedade desta tese de João Reis são profusos. Quem os quiser realmente encontrar não terá mesmo dificuldade alguma.

E tomem mais João Reis:

E destacando em verde cintilante:

Salvo raras exceções, de norte a sul das Américas os ‘crioulos’ não se envolveram em levantes escravos onde eram inferiores em número aos africanos…”

Oh! Quanta esperteza tergiversatória!

Sim e não. E é certo e errado também. Os africanos só foram, realmente maioria por longo tempo na massa escrava das Américas nos tempos mais iniciais do tráfico (daí o cuidado e ressaltar as tais …“raras exceções”, sacaram?). Nos anos seguintes podem ter sido maioria em locais restritos e específicos (como Salvador, por exemplo), mas mesmo assim durante períodos de tempo muito curtos (como os irrisórios cinco anos da pesquisa de João Reis).

Além do mais, esta condição de escravo ‘africano‘ – óbvio ululante – sendo assim puramente circunstancial, fazia com que a expressão ‘africano‘, significasse em termos práticos, apenas ‘recém chegado’. É evidente demais que, ao fim de um certo período de adaptação a esta sociedade escrava, as diferenças ideológicas entre negros ‘recém chegados’ e negros ‘nascidos no Brasil’ se tornassem irrelevantes.

Esta dicotomia radical entre ‘africanos‘ e ‘crioulos‘ criada por João Reis é totalmente inverosímel, descabida, não me parece ter fundamento algum. De novo o historiador parece pesar a mão com ilações descabeladas, apenas para forçar o leitor a aceitar a sua tese rançosa que preconiza que entre negros escravos existiam uns superiores aos outros.

Reducionismo racista, por suposto.

A intermitência do tráfico de africanos na segunda metade do século 18, como se sabe foi muito intensa, mas este quadro muda muito, quase que radicalmente após 1831 (exatamente às vésperas da Revolta dos Malês). O quadro de predominância de ‘africanos’ – ou de gente ‘sudanesa‘ – aludido por João Reis é, portanto historicamente bastante improvável fora do âmbito restrito da cidade de Salvador.

Deve ser por esta límpida razão que o seu texto carece tanto da apresentação de fontes cabais, apelando, exagerando nas ilações descabidas e opinativas, que ninguém questiona porque…sei lá, talvez porque nesta ‘terra de cegos’, Reis se transformou num ‘monstro sagrado’  da Academia, esta pobre academia ainda branca do Brasil.

(Aprendi a engolir e a entender isto com o Dr. Ross, aquele das ‘pílulas de vida’):

Parece ardiloso, não é? Mas como só há lacônica nota referendando estas informações incabíveis, diria que esta pílula parece mais é puro veneno mal dosado, mera picuinha. Mama mia! João Reis alude aqui a uma suposta divergência radical instalada entre ‘afro brasileiros’ (e aqui ele evita, cuidadosamente a expressão sinônima ‘crioulos‘) e ‘africanos’ no período da Revolta dos Malês.

Acredite quem quiser.

Ora bolas, as ‘exceções’ – na participação de ‘crioulos‘ em revoltas nesta época, virada do século 18 para o 19 – com certeza nãoeram raras. Basta citar a vitoriosa revolução do Haiti que, para início de conversa não era uma, mas na verdade um turbilhão de várias rebeliões escravas no Caribe ocorridas em cadeia. E além do mais, é óbvio que – aí já foi malandragem do doutor! – os africanos raramente foram maioria na população escrava por razões muito banais que estamos tentando esmiuçar aqui.

(Observem também que a nota de rodapé 4 acima com que João tenta atestar sua afirmação de que “..africanos seriam mais numerosos no Caribe a na Bahia”não é conclusiva )

É que a aqui citada nota 4 se refere ao trabalho (ler sempre a tese no original é um conselho útil a estudantes de qualquer nível) “From Rebellion to Revolutiondo acadêmico da Universidade de Columbia Eugene Genovese.

Do pouco que li em resenhas sobre a tese original de E. Genovese, João Reis na verdade praticamente copia as conclusões do norte americano, tomando o cuidado de omitir delas dados cruciais como, por exemplo as diferenças substanciais entre o amplo contexto geo histórico a que Genovese se refere (o Sul dos EUA em meados para o fim do século 18 e o Caribe) e o contexto restrito de Salvador da Revolta dos Malês, com o século 19 já quase no meio.

E fora isto – vamos combinar também –  a tese de Genovese não é, de modo algum rasa e simplista. Como a de Reis. Genovese não separa os escravos assim tão canhestramente como João Reis, em seu desvio evolucionista faz, em grupos opositivos e inconciliáveis com ‘africanos heróicos e puros’ de um lado versus ‘crioulos impuros e covardes”de outro. A tese de E. Genovese (assentada em teorias de análise marxistas) é ponderada como deve ser toda boa historiografia. Ela aponta diferenças circunstanciais entre os interesses de africanos e crioulos sim, mas justifica esta condição, estas diferenças pontuais com argumentos isentos de ideologia pessoal e de raso preconceito eugenista de Reis.

Quem ainda não viu este filme velado?

Os desenganos da historiografia reducionista de João José Reis flagrada.

João Reis falando, se referindo a uma blitz a um candomblé jêje em Brotas, Bahia em 1829:João Reis denegrindo as crioulas

Um brinco de ranço preconceituoso. Observe atentamente o leitor que quem decidiu dar vantagem às crioulas foi o juiz branco, preocupado com seus acordos, no intuito de não atingir os interesses dos senhores, donos das escravas – um acordo estrito entre brancos, portanto – não há no incidente em si, nenhum indício de que a vantagem tenha se dado por alguma ação ‘dissimulada‘ das crioulas. A alusão à ‘falsidade do choro’ e ao caráter ‘dissimulado‘ das crioulas, são ilações (grosseiras) do próprio historiador. João Reis incorpora assim ao seu texto, carregando nas tintas o discurso de um juiz de paz, insinuações maldosas e não constantes no depoimento da fonte, com o único fim aparente de denegrir a moral das ‘crioulas‘. Puif! E ainda assim ele segue:

João Reis denegrindo os crioulos
João Reis denegrindo os crioulos

(Estranha ética esta de João Reis, transferindo aos americanos a grosseria da ofensa mais evidente) Ética torta, esta sim dissimulada, distorcida e má intencionada. Leia com atenção, por exemplo o trecho de uma destas resenhas sobre as teses originais de E.Genovese que li a pouco, na qual analisando as estratégicas relações entre senhores e escravos Genovese descreve o contexto de interesses comuns entre TODOS os escravos:

“ …(Genovese) Colocou o paternalismo no centro da relação senhor-escravo. Ambos os senhores e escravos abraçaram o paternalismo, embora por razões diferentes e com diferentes noções do que significa paternalismo.

Para os proprietários de escravos, o paternalismo permitiu a eles verem, a si mesmos como benevolentes, justificando assim a sua apropriação do trabalho dos seus escravos. A ideologia paternalista, acreditavam eles, também deu a instituição da escravidão um rosto mais benigno, ajudando a esvaziar a crítica abolicionista cada vez mais forte à instituição.

Os escravos, por seu lado, reconheceram que a ideologia paternalista poderia ser distorcida para servir a seus próprios fins, dando-lhes vida melhorada e condições de trabalho. Os escravos lutavam bravamente para converter as benevolentes “dons” ou “privilégios” concedidos a eles por seus mestres em direitos consuetudinários que os senhores não violariam.

A reciprocidade de paternalismo pode funcionar a favor dos escravos, permitindo-lhes exigir um tratamento mais humano de seus senhores.”

(Li numa resenha.)

———————

“…Genovese tenta contextualizar as revoltas de escravos dentro de seu ambiente global. Ele acredita que a Revolução Francesa ensejou a Revolução haitiana, porque a ieologia dos direitos de igualdade perpetuava noções e liberdade. Genovese encontra um modelo de líder de revolta de escravos em Tousssaint L’Overture, o ex escravo que liderou a revolta haitiana. O autor compara Toussaint com os líderes de revolta Nat Turner, Gabriel Prosser e Dinamarca Vessey.

Estes líderes sabiam ler e escrever e gozavam de certo grau de autonomia  dentro de sua comunidade escrava. Genovese resume a sua perspectiva sobre a importancia global das revoltas de escravos, declarando que “as revoltas de escravos se fundiram com as lutas maiores de libertação nacional e da reforma sociopolítica e beneficiaram a burguesia ao incentivar as massas a desafiar o racismo, a exploração  e a opressão.”

(Tina Canhão numa destas outras resenhas que li)

(Bem, João Reis deve ter lido Genovese com os óculos trocados)

Importante inclusive ressaltar que , ao contrário de Genovese – num equívoco metodológico indesculpável – ele não diferencia claramente ‘crioulos nagôs’ de ‘crioulos bantu’, mas separando-os em grupos rivais mais adiante, deixa esta oposição forçada, insinuada, implícita o tempo inteiro em todo o texto. Claro. Matada a charada a gente deduz que esta oposição aparentemente forjada, tem intenções embutidas muito pouco historiográficas.

Ora, fica cada vez mais claro agora que João opõe ‘africanos’ contra ‘crioulos’ para, indiretamente opor ‘nagôs/haussás contra ‘bantu’ (ou ‘angolanos’), num desvio ninafreirista muito elementar, primário, para lá de superado.

Concluo eu então, sem medo de errar que o pensamento torto de João Reis tenta afirmar, sem papas na escrita, o seguinte:

1- Os africanos ‘legítimos’ (nascidos na África) teriam no início do século 19 – pela simples razão de serem estrangeiros, sei lá – um espírito de rebeldia mais aguerrido, mais…. ‘evoluído’ , ‘superior’ ao dos ‘crioulos’ (escravos nascidos no Brasil) e as demais etnias ou extratos sociais.

2- Dentre estes ‘aguerridos africanos’ eleitos por ele como sendo ‘autênticos’, os da Golfo do Benin – notadamente os yorubas e os haussás – seriam majoritários a partir de 1810, sendo ainda majoritários em 1835, por ocasião da Revolta dos Malês, contexto em que ele está inserindo o seu estudo.

Esta suposta superioridade numérica justificaria em parte a liderança assumida por estes nagô/haussá no comando da revolta de 1835, liderança esta que João quase sugere ter se generalizado através do tempo, no que se convencionou chamar de ‘Supremacia nagô’, um mito rasteiro como vai se comprovando nas pesquisas mais atuais sobre a história do negro no Brasil.

Raciocinemos: A lógica do tráfico de escravos não era baseada em critérios de cargas tão descartáveis assim de modo que houvesse ao longo do tempo qualquer equilíbrio quantitativo entre ‘africanos‘ e ‘crioulos‘ com a eventual predominância de ‘africanos’ por longos períodos. Isto nunca ocorreu no Brasil.

O mais certo seria acreditar, como já aludimos acima, que os ‘africanos‘ eram rapidamente incorporados à massa escrava em geral, misturando-se aos ‘crioulos‘, sempre em maior número, na faina comum do eito que para eles, ambos escravos, era de todo modo um idêntico sofrer.

E isto nem precisa ser atestado por estatística alguma porque é uma lógica genética, humana. As pessoas nascem, sempre, pois, independente de qualquer coisa a natureza é uma máquina que não para. A cada geração de ‘africanos‘ corresponderia, evidentemente uma descendência natural de ‘crioulos‘, por mais que o índice de mortalidade entre os escravos de uma região para outra fosse relevante.

Além do mais nunca existiu – e garanto que não existem estes dados! – uma separação realmente radical entre população escrava nesta época, com ‘africanos‘ de um lado e ‘crioulos‘ de outro. Estes dois grupos, naturalmente não viviam realidades estanques, a ponto de desenvolverem qualquer tipo de animosidade significativa. Seria improvável, inexplicável e sobretudo anti econômico do ponto de vista dos gestores do sistema de trabalho escravo.

As eventuais contradições entre estes grupos precisariam ser melhor comprovadas, o que João não faz, de modo algum em sua dissertação demasiadamente opinativa. A principal contradição no caso da Revolta dos Malês de 1835, muito provavelmente se deu entre negros nagôs/haussás islamizados (com a predominância inclusive de nagôs libertos, a maioria dos quais líderes da revolta) e os demais escravos, todos – com raras e pontuais exceções – os não islamizados em geral.

Capciosidade fofoqueira – com todo respeito à propriedade acadêmica – esta de João Reis ao exagerar esta animosidade radical improvável entre ‘africanos‘ e ‘ crioulos‘.

Na falta de argumentos mais cabais, as explicações de João Reis escorregam então para justificativas de natureza ética, moral, literalmente ‘denegrindo‘ os ‘crioulos‘ a princípio e logo em seguida os ‘bantu‘:

Como “se sentiam mais ameaçados pelos africanos do que pelos brancos” – diz ele em outras palavras– então tendiam de forma covarde, a se bandear para o lado dos brancos – deduzimos nós. Como assim? De onde ele tirou esta conclusão? Isto faz sentido? Isto é uma argumento sério, científico?

Mal comparando – com o perdão da ênfase – seria o mesmo que afirmar que um grupo de judeus recém-chegados a um campo de concentração, atavicamente, pelo simples fato de serem… ‘recém chegados’ manifestariam divergências radicais com seus companheiros do mesmo infortúnio, ali já instalados e, pelo simples fato deles já estarem ali, mais acostumados na convivência com os soldados nazistas, os considerariam ‘sórdidos traidores’, aliados dos nazistas.

(Não resisto à comparação – que não é exagerada não -, mas admitir esta contradição tão improvável entre indivíduos da mesma origem e condição, do mesmo modo aprisionados, subjugados, só cairia bem mesmo como estratégia maquiavélica de um comandante de campo mais pragmático e cruel, não acham não?)

Uffa! Tentar descosturar a trama escusa destas malversativas, malsãs e mal traçadas linhas cansa o espírito. Ainda assim não sei como ninguém de peso, maior que eu, mais culto e mais douto, se manifestou ainda, disse que viu ou a que veio, maldou ou comentou.

Terra de cegos’, deve ser. E o tal que tem um olho deve ser este aí, o nosso Reis.

(E é assim,  penseiro, desconfiado, cabreiro com este acadêmico mundo de frio calculismo, chamando o comercial das‘Casas Bahia”que, por enquanto eu vou)

Daqui a pouco a gente volta…

(Leia aqui posts seguintes:  #03 e #04)

Spirito Santo

Março 2012

Se o quilombo é dos Macacos que se dê nome aos bois


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Cubatas de quilombo real juridicamente tipificável

Cubatas de quilombo real juridicamente tipificável. Foto Spirito Santo, MG, 2009

Cansado de ser enganado macaco véio tira a mão da cumbuca

Quer mesmo apoiar o povo do Quilombo do Rio do Macaco na Bahia, localizado justo na área da base de Aratu, paradisíaco local no qual os nossos últimos presidentes ‘de esquerda’ já há algum tempo tiram férias? Informe-se melhor então, principalmente sobre os detalhes, as partes omitidas em algumas destas dezenas de campanhas pró Macacos que pululam por aí, umas oportunistas, outras um tanto… “chapa brancas”, a maioria escondendo partes cruciais da equação.

Querem ver uma destas partes omitidas? Bem, vocês sabem que a autoridade máxima, ‘o comandante em chefe’ das forças armadas – e, no caso da Marinha – é a presidência da república, o governo federal, não sabem? Então. As confusões começam por aí. “Desapropriação para efeitos de reforma agrária”, conhecem esta figura jurídica tão propalada quanto quase nunca aplicada?

Não seria o caso de…

É. Esquece. Não é tão simples quanto parece. Propaganda eleitoreira, populista ou governista, não é vida real. Não é coisa de se resolver  assim com uma canetada, nem na base da porrada (muito menos com estes occupy New York moderninhos). O problema mesmo acaba sendo descobrir, ao final de tudo quem é que vai levar mais paulada, cassetetada, tiros e pontapés. Quem vai levar na cabeça, quase nunca é quem vai lucrar mesmo, realmente, com a gritaria virtual.

Leia aqui trechos do opúsculo “Terras Quilombolas – Balanço 2011 – da Comissão Pró índio do Estado de São Paulo (tá. Eu também sei que índio e quilombola são coisas bastante diferentes, mas, vai entender? Não dá para explicar agora, ok? Procurem resposta vocês mesmos. Garanto que vão achar ela até bem curiosa.)

Se você é um especialista destes sabe tudo, desculpe aí. Pode passar batido aqui pelo post, pegar a sua mochila, o seu porrete, o seu capacete  e se mandar para Aratu.

A questão básica é proteger a integridade física das pessoas, dos habitantes de lá, certo? Garantir que elas tenham mesmo terra para morar e plantar já é uma coisa mais complicada. Se quer ajudar nisto aí – que é o que realmente importa – se informe mais e faça a coisa certa.

Ah… E se você quiser encher o meu saco tornando esta conversa rasteira, ramerrona, lugar comum ao rés do chão, me chamando de anti governista, anti dilmista, anti petista, traidor da pátria quilombista, ou algum destes ‘istasaí, simplistas, vá em frente, mas fique sabendo que eu vou classificar você mesmo é de… ‘babaquista’ (conhece o conceito?).

…E antes que me esqueça: _”Tucano é mãe!

Um ‘Xis’ da questão

“…O Governo Lula chegou ao seu último ano de mandato emitindo apenas 11 títulos às comunidades quilombolas, com a promessa de que seriam 57 comunidades em 2010.[1] Até dezembro de 2011, somente 3 das 44 áreas decretadas para desapropriação haviam sido tituladas pelo governo federal. As comunidades beneficiadas foram Família Silva (RS), Colônia São Miguel (MS) e Preto Forro (RJ). A primeira teve suas terras parcialmente tituladas em 2009 e as outras duas em 2011.[2]

No novo PPA (2012-2015), já sob o governo Dilma, as comunidades quilombolas não mais contam com um programa específico; na transição para o novo PPA não mais existe o programa Brasil Quilombola.

O novo programa, denominado Enfrentamento ao Racismo e Promoção da Igualdade Racial, e que tem na Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial-SEPPIR o órgão gestor responsável tem para o ano de 2012, um orçamento no valor de R$ 73,125 milhões, e para os três anos seguintes, mais R$ 239,498 milhões, totalizando no período de 2012-2015 cerca de R$ 312,623 milhões. Considerando-se os números apresentados, um orçamento ainda menor que o anterior (2008-2011).[3]

Outro ‘Xis’ da questão

Durante o primeiro ano do governo de Dilma Rousseff apenas uma Terra Quilombola foi titulada pelo governo federal, de acordo com o estudo Terras Quilombolas – Balanço 2011.

A publicação foi lançada hoje (15) pela Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP). A comunidade beneficiada com o título foi a Colônia São Miguel, no Mato Grosso do Sul. O placar de terras quilombolas tituladas no Brasil alcançou 110 o que significa que apenas 6% das 3 mil comunidades quilombolas que se estima existir no país conta com o título de suas terras.

A publicação Terras Quilombolas – Balanço é divulgada anualmente pela Comissão Pró-Índio de São Paulo tem coordenação de Lúcia Andrade. A pesquisa e a publicação foram realizadas com o apoio de ICCO e Christian Aid.

Comissão Pró-Índio de São Paulo destaca dois temas no balanço do ano de 2011: a) a decisão do Incra de contratar empresas para realizar os estudos antropológicos de identificação das terras quilombolas a serem tituladas, e b) os obstáculos encontrados para dar eficácia aos decretos de desapropriação de propriedades incidentes em terras quilombolas.

Empresa de informática vence pregão do Incra

Em agosto de 2011, o Incra decidiu contratar empresas para realizar 158 relatórios  antropológicos de identificação das terras quilombolas a serem tituladas, por meio de pregão eletrônico. O Incra irá investir mais de R$ 8 milhões nos contratos para a realização dos estudos, que em princípio, terão vigência de setembro de 2011 a setembro de 2012.

Conforme análise da Comissão Pró-Índio de São Paulo, a medida gera preocupação em relação à qualidade técnica dos estudos, uma vez que as empresas selecionadas não parecem dispor de expertise para a tarefa. “Até onde foi possível levantar, nenhuma delas têm experiência prévia com elaboração de estudos antropológicos”, diz um trecho da publicação.

Algumas empresas exercem um ramo de atividade bastante distante de estudos e pesquisa, como é o caso da Capital Informática Soluções e Serviços (contratada para realizar 17 estudos em Minas Gerais e Mato Grosso) e do Senai (responsável por quatro estudos na Bahia). Apenas duas empresas assumiram 61% da produção de relatório, são elas a Terra Ambiental e a Ecodimensão. A Empresa Terra Ambiental de Santa Catarina ficou responsável pelo maior número de estudos: 70 abrangendo 11 estados, o que corresponde a 44% dos estudos contratados pelo Incra.

Na análise da Comissão Pró-Índio, a medida gera dúvidas se irá de fato agilizar os processos de titulação, justificativa utilizada pelo Incra para a adoção de tal medida, já que o relatório antropológico é apenas uma das peças do  Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) sendo que as demais deverão ser elaboradas pela equipe do próprio Incra. “Não se sabe como o Incra planeja dar conta dessa demanda especialmente tendo em vista que em sete anos publicou apenas 147 RTIDs”, pontua a publicação.

Vigência dos decretos

Outro ponto de destaque no Balanço 2011 são as dificuldades operacionais para a efetivação dos decretos de desapropriação já assinados pela Presidência da República. Do total de 44 desapropriações por interesse social decretadas pelo governo federal até hoje, apenas 3 resultaram em titulação.

O maior problema na demora está no risco dos decretos “caducarem” já que a legislação (Lei nº 4.132 de 1962) determina o prazo de dois anos para efetivar a desapropriação, que começa a contar a partir da publicação do decreto. A desapropriação é efetivada quando há acordo entre o Incra e o proprietário ou quando a respectiva ação de desapropriação é ajuizada. 

Em 2011, o prazo para efetivação de três decretos editados em 2009 venceu sem as devidas providências. “Não se sabe qual à medida que o governo adotará a partir de agora para retomar os processos das comunidades Lagoinha de Baixo e Mata Cavalo, no Mato Grosso, e Lagoa do Peixe, na Bahia”, questiona a organização.

Vão lendo mais aí:

http://comissaoproindio.blogspot.com/2012/02/terras-quilombolas-balanco-2011.html

http://cspconlutas.org.br/2012/03/nota-de-apoio-do-movimento-nacional-quilombo-raca-e-classe-a-luta-do-quilombo-rio-dos-macacos-na-bahia/

Revolta dos Malês e João José Reis. A historiografia que não sai do corpo que não lhe pertence


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Guerreiros bantu 'covardões' liderados pelo 'submisso' Shaka Zulu na guerra dos 'pusilânimes' zulus contra os ingleses em 1879. Sei lá. Não sei do que João Reis está falando.

Guerreiros bantu ‘covardões’ liderados por um ‘submisso’ descendente de Shaka Zulu na guerra dos ‘pusilânimes’ zulus contra os ingleses em 1879. Sei lá. Não sei do que o João José Reis está falando.

História revoltada e sem carochinha, vista quadro à quadro

João José Reis é um renomado historiador, destes que os pares quase se benzem ao citar o nome. Especialista em revoltas escravas no Brasil. Juro por Deus que, mesmo mexendo com estes temas não sei se já o conhecia. Acho que não. Soube dele porque uma amiga antropóloga, surpresa com o fato de uma teoria minha sobre certo incidente da história de (abra este link e leia) Zumbi de Palmares não ser conhecida por ela – e nem por ninguém – indicou o meu blog para o João ler e opinar (imagina! Me meto em cada uma!). Fiquei muito honrado, claro, mas assustado também. Vai que cometi algum erro historiográfico sério e sou desmascarado na minha condição de humilde pesquisador ‘independente‘?

Ui!

Bem. Que eu saiba João José Reis não leu o meu post sobre Zumbi. Entendo. Uma figura douta destas, um acadêmico ocupadíssimo que deve ser, não fica lendo blogs de qualquer um assim, sem que nem por que. O fato mais curioso contudo não é este. É  que dias depois outra amiga – esta uma mestranda ou doutoranda ainda – me aparece com um texto do mesmo João José Reis, parte de um livro dele que sei agora ser um clássico sobre o tema (“Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos malês-1835″ Ed. Brasiliense 1986)

O razão desta outra amiga me recomendar a leitura do texto era inusitado: Segundo ela havia um conteúdo ideológico embutido no texto, muito focado na afirmação da famigerada tese da ‘Supremacia nagô’, um tema caro às leigas elucubrações do tio. Li por alto o texto e tive engulhos francos. Não era apenas ‘nagoista‘ o texto. Era racista também!

Ai, ai, ai!

E aí? O que fazer? Duas amigas, uma (branca) recomenda o historiador a quem ela devota respeito extremo. Outra (negra) me recomenda por razões exatamente opostas: Esta segunda achava muito grave que um historiador – segundo ela – tão aferrado a ideias eugenistas (ou racistas) como João Reis, fosse referencia para todo mundo que estuda história do Brasil, notadamente cultura negra.

Entre a cruz e a calderinha então, me vi obrigado – intimado quase – a ler o João José Reis menos por alto. Este post é fruto desta leitura mais cuidadosa, com contra argumentações minhas como sempre bem pessoais – e as vezes até originais e polêmicas – com as quais ninguém precisa, necessariamente concordar.

Bom ressalvar também que não resenho o livro inteiro, apenas um trecho dele, cerca de 50 páginas, copiadas por minha amiga da biblioteca da USP onde o texto é, como disse de alta referencia. Minhas colocações, portanto são bastante pontuais, pois, utilizo aqui como sempre o método mui prático de comentar matando a cobra e mostrando o pau (comentários diretos sobre trechos originais selecionados). Chamem este método do que quiserem. Eu chamo de “resenha em pílulas”, certo? E as primeiras pílulas de uma série estão aqui:

João Reis em debate: Pílula 01

Para início de conversa, o gráfico a que João se refere não surte todo o efeito desejado (atestar a sua afirmação de que houve um significativo ‘redirecionamento‘ no fluxo do tráfico acentuando a vinda em maior número de escravos da costa leste para a Bahia) porque elie não apresenta um gráfico comparável da situação anterior.

Mas tudo bem. Não há necessidade alguma de se questionar este dado em especial. O que chama a atenção no quadro (ressaltando-se que há a observação de que o gráfico publicado foi ‘adaptado”) é a ótica peculiar que João parece ter usado para leitura dos dados, reforçando sutilmente aspectos com poder de corroborar sua tese e aparentemente omitindo ou subestimando, cuidadosamente outros.

Vamos a eles:

1- Dos 137 escravos citados genericamente no gráfico ( nos dois períodos abordados) como sendo da ‘Costa do Ouro’, não há nenhuma referencia válida sobre a condição étnica destas pessoas. O gráfico apenas diz “Costa” (“negros da Costa”) e “Minas” (“negros Mina”, ou seja: ‘negros do Forte de El Mina‘), expressões quase sinônimas e vagas demais para o caso. Por suposição se pode deduzir que seriam escravos de diversas etnias embarcados no Castelo de El Mina, em Gana, como se sabe um entreposto comercial colonial controlado por Portugal a princípio e pela Holanda e outras potencias europeias após 1642.

Como se sabe também, de El Mina vieram em grande profusão escravos de outras áreas além dos da Costa do Ouro, como gente da área do antigo reino do Kongo, por exemplo já nesta ocasião principal fonte de escravos para as colônias portuguesas e as Américas em geral. A população do Kilombo de Palmares, por exemplo (que se organiza antes de 1640), formada por maioria étnica Bakongo – ‘bantu’- provavelmente é oriunda, em boa parcela, do Castelo de El Mina. Grande parte veio também de levas de prisioneiros de guerra em batalhas perdidas por angolanos e congolesas contra Portugal ou Holanda.

A ausência deste dado essencial atrapalha bastante a argumentação de João, pois, a identificação de escravos não yoruba-haussá neste contingente sem etnia definida no gráfico (quase 20% em 1810/11) mudaria o quadro totalmente, impactando as estatísticas a favor de um aumento da cota de gente bantu . É preciso se ressaltar fortemente também que com a perda do controle do tráfico de escravos na Costa do Ouro em 1642, Portugal tinha acesso restrito – e caro – à cargas de escravos daquela região, transferindo suas prioridades logísticas, gradativamente para portos mais ao sul, Congo e Angola, basicamente (Nsoyo, Luanda, Benguela) e Inhambane em Moçambique.

2- Aliás, ainda comparando os dados deste mesmo gráfico, pode-se observar que, ao contrário do que João afirma, o contingente de gente yoruba desembarcada nesta época, praticamente não se alterou nos dois períodos (’18’ em 1805/6, ’22’ em 1810/11) a quantidade de haussás também não se altera (’12’ em 1805/6, ’14’ em 1810/11) o que enfraquece mais ainda o argumento central da tese do historiador.

Na verdade o que causa impacto significativo mesmo neste quadro de 1810/11 é o aumento de cerca de 1/3 de gente do Dahomey (ou Jejes) por razões que podem ser melhor identificadas se cruzarmos estes dados com a história do tráfico na região do reino do Dahomey na época.

Há, com efeito uma diminuição substancial no desembarque de gente bantu em Salvador, BA entre os dois períodos abordados no quadro, mas do mesmo modo pode-se se deduzir que o tráfico transatlântico de escravos mais massivo e planejado para o Brasil mudou de direção com o incremento da mineração em Minas Gerais (meados para o final do séc.18) e posteriormente para as plantations do interior da província do Rio de Janeiro (do início para meados do séc. 19). Era óbvio que o fluxo de escravos diminuiria em termos absolutos para Salvador (embora o fluxo de gente da costa leste – yoruba-hausssás – aumentasse).

Este aumento da chegada de gente yoruba-hausá para Salvador neste período, (muito bem abordado por Pierre Verger em “Fluxo e Refluxo – Do Tráfico de Escravos Entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos”) aliás é usado de maneira bem ingênua por alguns historiadores como prova de que nesta época a população de escravos da costa leste – nem sempre com os yoruba em maior número – teria ‘aumentado‘ no Brasil, suplantando a população bantu.

É muito ingênuo o raciocínio – usado as vezes de forma oportunista por alguns – porque os dados (no caso de João Reis inclusive) se referem apenas e especificamente à Salvador. Como se sabe, se Salvador não representa nem mesmo a Bahia, não poderia jamais representar o Brasil. Salvador e a Bahia não podem continuar sendo considerados microcosmos da escravidão – e da cultura negra do Brasil. Isto é um antigo equívoco historiográfico que precisa ser urgentemente superado.

O que provavelmente ocorreu foi que, como disse acima, na origem – deslocando-se definitivamente para a área Congo Angola – e no destino – deslocando-se para o sudeste do Brasil – a lógica geopolítica do comercio escravista se alterou, ficando Salvador restrito a um, cada vez mais incipiente, comercio de escravos da costa leste (fluxo que, praticamente se encerra depois de 1831, com a radicalização da repressão inglesa ao tráfico de gente africana).

Como se pode observar lendo o texto mais atentamente, João evita cuidadosamente a adoção da expressão ‘bantu‘. Usa o termo ‘angolanos‘, ainda impreciso também, pois, não é um termo etnologicamente adequado (o correto seria usar os termos, ‘Bakongo‘, Kimbundo‘, etc.) João em contrapartida foge também da expressão ‘sudaneses‘, velho termo adotado por Nina Rodrigues. Com efeito em toda esta nossa análise chama muita atenção esta semelhança das teses e argumentações de João com as velhas e superadas teorias de Nina Rodrigues.

Embora ele reconheça em certas partes do texto que o termo ‘sudaneses‘ é incorreto, na prática, ao juntar os negros oriundos do Golfo do Benin num mesmo saco de gatos étnico, acaba repetindo e reforçando todos os equívocos de Nina, erros crassos como se sabe cometidos há mais de um século e injustificáveis numa historiografia mais atual.

Este equívoco clássico – o pecado original da etnologia de Nina Rodrigues – aparece particularmente claro na omissão sistemática que João Reis faz do caráter legitimamente africano dos escravos ‘angolanos‘ chegados na Bahia, tratados sempre por ele, quase que pejorativamente como ‘crioulos‘, com a conotação de ‘impuros‘.

João na verdade parece subestimar de forma renitente ou, simplesmente ignorar – omitir – a existência na Bahia do início do século 19 de escravos recém-chegados da área etnolinguística bantu . Neste sentido a subestimação deliberada deste grupo – em qualidade e quantidade – a desqualificação de sua influencia na história do negro baiano (e na de suas revoltas) e na cultura africana na região de uma maneira geral é o traço mais evidente de suas intenções ideológicas submersas.

João Reis em debate: Pílula 02

No trecho de João Reis assinalado acima, quem afirma que os negros da costa leste africana que chegavam à Bahia no início do século 19 eram especialmente perigosos, um “alto risco para a paz escravista”, o Conde da Ponte, é uma fonte colonial, oficial e sob a qual, obviamente historiadores perspicazes como João devem lidar com muito cuidado, porque são fontes suspeitas que ora reforçam interesses coloniais superiores, ora omitem ou falseiam dados por diversas intenções individuais, subjetivas demais para serem levadas ao pé da letra, mas vá lá que seja.

Fica a impressão por isto mesmo que a fonte talvez tenha sido usada aqui como referencia porque serve para corroborar a tese central do autor: A de que os yoruba (ou os negros oriundos do Golfo do Benin) eram valorosíssimos guerreiros, ‘superiores’ neste aspecto aos demais. A afirmação, para mim um tanto apriorística é reforçada apenas pela tese do nigeriano E. Adeny Oroge “The Institution of slavery in Yorubaland” que não é de modo algum, pelo que presumo um estudo amplo sobre a impetuosidade guerreira dos africanos em geral (a tese de E. A. Oroge, pelo que me lembro, é usada também por Luiz Nicolau Parès em estudos ligados ao estudo do fenômeno da ‘nagoização‘ e da invenção do Candomblé em Salvador, BA do século 19).

De todo modo, nada há de questionável na afirmação (ou opinião) em si, mas ora, convenhamos que sob as mesmas circunstancias sociais e históricas estavam sujeitos os africanos aqui chegados oriundos de outras regiões, gente da área bantu inclusive (bastaria dar uma olhada, por exemplo nas conflituosas relações entre o Reino do Kongo, seus vizinhos e o invasor português neste mesmo período e nas guerras interétnicas no Sul da África e inúmeros outros exemplos no continente inteiro).

Esta hipótese…’etnogeneticista‘ da ‘impetuosidade guerreira superior’ original, portanto, caso fosse factível, não parece razoável que tivesse sido – como João, enfaticamente tenta afirmar – um atributo exclusivo dos yoruba e dos haussás. Não existem nesta parte do texto a princípio – João não os demonstra suficientemente – elementos que corroborem esta afirmação. As alegações, portanto podendo ser generalizadas para, praticamente todas as demais nações africanas que nos cederam escravos, é muito tendenciosa, capciosa mesmo a meu ver.

Em outras partes – as quais comentarei mais adiante – o texto de João Reis está cheio de tentativas de ser comparativo a este respeito, relacionando hierarquicamente atributos superiores dos yoruba-haussás em relação à uma suposta (e atávica) inferioridade ‘crioula‘ e/ou bantu (‘angolana‘ no caso), mas o fato de ‘sugerir‘ isto sem criar nenhum termo de comparação ou parâmetro válido que justifique esta sua… superestimação, esta adulação aos yoruba-haussás, o excessivo, o exagerado destaque dado ao ‘espírito guerreiro’ destes ‘oriundos do Golfo do Benin’ neste caso é que contamina a tese de João Reis com intenções ideológicas estranhas e questionáveis. É delas que estamos tentando  tratar aqui.

João Reis em debate: Pílula 03

A percentagem de escravos ‘crioulos’ libertos, por exemplo é um dado inócuo para a argumentação. Afinal, tratava-se de uma revolta islamica, uma ‘jihad‘ da iniciativa de negros yoruba-haussás (entre os quais inclusive muitos libertos – 48%). O dado solto assim no meio do enunciado carece de propósito. Afinal porque razão negros libertos não muçulmanos (ou não nagôs) deveriam se envolver numa revolta tão especificamente ligada a um grupo étnico religioso?

(O dado visto por outro ângulo serve inclusive para reforçar o caráter religioso da revolta – que João subestima – reduzindo a sua condição de ‘revolta escrava’ ao meu ver exagerado pela historiografia ‘oficial’ do Brasil)

A propósito vale ressaltar que existem relatos idôneos que dão conta de que este tipo de adesão de ‘crioulos‘ na Revolta dos Malês seria indesejado – e até rechaçado – pelo revoltosos mais radicais que consideravam estes ‘crioulos‘ (e todos os outros que não fossem malês) ‘infiéis‘, inimigos do islã Por isto ou por aquilo, com certeza a “ausência do negro brasileiro ou ‘crioulo’ ” na Revolta dos Malês precisa ser explicada de maneira menos grosseira e simplista, pois, as razões podem ser as mais diversas. Este fator, colocado assim eugenisticamente como João Reis coloca, não explica nada.

Esta associação direta entre ‘negro africano puro e superior’ e ‘negro brasileiro impuro e inferior’ que aparece muito explicitamente no texto do renomado historiador é o lado mais lamentável de seu discurso.

Infelizmente só se encontra algum meio de compreender as razões obscuras desta argumentação de João Reis – a tal ‘passividade crioula’ – quanto se desconfia da existência nela de uma mal disfarçada intenção de depreciar o caráter, a moral guerreira dos ‘crioulos, cabras e mulatos’ para, em contrapartida reforçar a tese da superioridade moral dos ‘aguerridos’ africanos, e indiretamente, por vias transversas, afirmar a surrada teoria da ‘supremacia nagô-haussá.

Quem tiver outra versão que me convença. Tudo fica mais claro quando se ilumina o que está obscuro com outras luzes menos distraídas.

Aliás – disse isto em meu livro – estas classificações grosseiramente eugenistas usadas por historiadores como João Reis (como não se aperceber disto?), transcendem a um racismo antiquado e nada sutil que perpassa todo o texto. Como se sabe estas categorias (‘cabra’, ‘crioulo’, ‘mulato’) não possuem mais nenhum valor etnológico. Este tipo de categorização – estou certo de que o historiador sabe disto melhor do que eu – era muito utilizada pelo regime escravista (‘boçais’, ‘ladinos’, ‘crioulos’, ‘cabras’…) com as finalidades as mais abjetas, servindo inclusive, até recentemente como modelo oficial para a classificação de indivíduos em regimes racistas como o ‘apartheid‘ da África do Sul, e a ‘lei do indigenato’ do colonialismo português, por exemplo.

Não é mais cientificamente aceitável se relacionar assim, diretamente ‘impetuosidade guerreira’ – ou qualquer outro atributo individual ou grupal – com o fato de uma pessoa ser ou não ser miscigenada (“pura” ou “impura”?) ou ter ou não ter nascido na África ou no Brasil. Isto é racismo grosseiro. Há hoje absoluto consenso quanto a isto.

Qualquer etnólogo de esquina sabe que a geografia e a genética não são fatores, exatamente determinantes da cultura ou dos modos de ser de um grupo social. Um negro – escravo ou liberto – nascido no Brasil filho de dois africanos (ou não) e vivendo isolado num ambiente cultural com pessoas de origem semelhante a sua, será etnicamente igual a um outro nascido na África.

Estes parâmetros eugenistas, enfim não são válidos para se analisar a participação de africanos e crioulos em qualquer evento histórico, muito menos numa Revolta que, afinal era… ‘dos Malês’ .

(Para quem ainda não se ligou a dica: ‘Malê” (“Imale“) é a palavra do vernáculo yoruba para “muçulmano“)

Minha amiga negra para mim, infelizmente estava certa em suas suspeitas. Minha amiga branca talvez tenha lido o livro com outros olhos…ou outros óculos, como saber? O certo é que a contradição “negro africano heroico, rebelde” versus ‘negro brasileiro covarde, passivo‘ fulcro deste trecho da tese de João José- inegável, porque está explícito – mesmo no estrito contexto da Revolta dos Malês é um conceito absurdo e inaceitável como ciência.  Não vejo isto como historiografia isenta ou séria. É o que eu acho.

Conta outra.

(Daqui a pouco a gente volta)

Leia aqui os posts seguintes: #02 e #03 e #04. Leia também este post chave sobre Nina Rodrigues, guru de JJ Reis.

(He he he he! Este post aqui – e os seguintes de sua série – está rendendo panos para mangas na internet, vazando para faculdades de história por aí e se inserindo em debates de pós graduação de forma bem subversiva. Acabo de treplicar num destes debates aí no qual a professora doutora defende JJ Reis para a sua turma, tentando puxar a orelha do Titio. Vão vendo aí o que rolou: https://spiritosanto.wordpress.com/2012/10/18/historiografia-malsa-em-xeque-a-defesa-de-joao-jose-reis/)

Spírito Santo

Março 2012

Livro do Tio não samba aqui (no jornal O Globo), mas semba lá (na revista angolana).


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A história é assim: Na época do lançamento do livro do Tio ” Do Samba ao Funk do Jorjão” surgiram várias propostas de matéria, duas delas do importante jornal O Globo. Fiquei bem animado, mas não saiu nada (o tio deu até uma reclamada num post recente)

Pois bem, Leonardo Lichote, de O Globo, um cara bacana lendo a entrevista do Tio que saiu agora na revista Angolana “África 21”, mandou esta simpática mensagem. Acho ela muito elucidativa para a gente entender como funciona nossa imprensa e suas complexas idiossincrasias. Por isto compartilho:

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“Linda matéria, Spirito Santo. Parabéns. Sobre a nossa tentativa aqui, o que posso te dizer é que achei o livro fantástico. Me impressionou sobretudo por combinar dois lados que não costumam andar juntos nos estudos do tipo: a profundidade da pesquisa; e a ousadia e a originalidade das teses. Normalmente, autores que têm uma não têm outra.

Mas tive dificuldade para conseguir emplacá-lo como pauta no jornal. Talvez pela minha incompetência em vender suas ideias nas poucas palavras de uma reunião de pauta, talvez pela própria inadequação do Segundo Caderno como espaço para o livro – talvez o Prosa e Verso fosse o caderno mais indicado para a discussão que se propõe ali – ou talvez pela dificuldade de os editores, não envolvidos com o assunto, entenderem a importância do que está ali.

O negócio é que não foi aceita minha sugestão. Tentei algumas vezes e, antes que desistisse, fui obrigado a me afastar da redação por licença médica, que emendei com férias. Qd voltei à ativa, em fevereiro, já havia perdido o “tempo jornalístico” de abordar o assunto. Só pude lamentar.

Espero que a gente possa falar dessas ideias numa outra pauta, em que o assunto (origens do samba, a dinâmica da formação da cultura negra no Brasil) seja levantado.”

Um gd abraço.

Leonardo Lichote”

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Daí, o João Belisario, responsável pela revista angolana no Brasil mandou esta carta para os articulista leo Lichote ( com cópia para o subeditor do segundo caderno de O Globo Bernardo Araújo:)

“Caro Leonardo Lichote ,

Tomo a liberdade de enviar-lhe em anexo a versão em pdf da edição de Março da revista África 21, que está começando a ser impressa no Brasil em carácter experimental mas Já é conhecida há mais de cinco anos nos países Africanos de língua portuguesa e por assinatura também na Europa e nas Américas . Neste número destacamos uma reportagem sobre as eleições que se avizinham em 20 países africanos e uma entrevista sobre as origens do samba com o pesquisador, músico , escritor e educador brasileiro Spirito Santo.

A revista é generalista com foco na África . Combinando informação e análise, dá destaque à política, economia e cultura.

Nela escrevem renomados jornalistas africanos e outros , brasileiros inclusive, especializados em África .

Oito importantes escritores dos países de língua portuguesa assinam uma crónica regular nas suas páginas: Pepetela (Angola), Luiz Ruffato (Brasil), Germano de Almeida (Cabo Verde), Odete Semedo (Guiné-Bissau), Mia Couto (Moçambique), José Carlos Vasconcelos (Portugal), Conceição Lima (São Tomé e Príncipe) e Luís Cardoso (Timor Leste).

Com uma circulação dirigida sobretudo aos formadores de opinião, nas áreas académicas , cultural, económica, diplomática e politicas ligadas a África , é uma leitura indispensável para quem quer de fato conhecer o que acontece atualmente com os nossos vizinhos Africanos, com quem o Brasil tem profundos laços históricos, culturais e económicos .

Cordiais saudações

João Belisario / Representante da África 21 no Brasil

Titio foi à África – Entrevista para a revista angolana “África 21”


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Capa entrevista África 21 - Foto Marina Alves
Titio foi á África

Titio foi á África. O sinhô não deixou não mas fui. Não de ir assim de avião (e de navio também não – nem pensar –  que disto aí a minha bisavó veio e ao que se sabe odiou a travessia). Fui assim numa onda vaga, lufada de vento, em “espirito“ como se diz, numa entrevista voadora nas asas páginas de uma colorida revista angolana: a “África 21“.

Em muito boa hora porque, a não ser uma fala ou outra no rádio e as notinhas esparsas que o próprio tio, pai da criança pôs na internet, nenhuma linha sequer saiu na imprensa convencional do Brasil sobre o livro motivo da entrevista (‘Do Samba ao Funk do Jorjão). Nem mesmo uma resenhazinha de caderno literário de segunda feira que fosse. Eu mesmo não sei se com todo livro é assim. Parece que com os livros dos pretos é. Acabo de perceber que talvez seja sim. Como saber? Deve ser.

Queima de arquivo? Será?

Viram não? Fizeram até mais uma antologia sobre isto – a mais recente dia destes – esta coisa de um país com tantos pretos quase não ter livros escritos por pretos nas livrarias e nas bibliotecas. É sim. Sem contar os dois ou três consagrados de sempre, uns velhos autores clássicos há muito tempo falecidos, quantos livros de gente preta você tem visto por aí em resenhas ou matérias no Brasil?

Quem disse algo perto do zero ganhou o doce. E é de chocolate.

Será que é porque pretos pouco escrevem? (E pouco escrevem porque pouco leem?) Ou será que é porque os pretos escrevem mal, não dominam as normas ‘cultas‘? Mas quem avalia isto, discrimina aquilo, vaticina o que será publicado, culturalmente normatizado? Como o saber se os livros de pretos valem como literatura sem lê-los, sem publicá-los, sem resenhá-los, sem nem permitir que as pessoas todas tenham acesso a eles, uma chance ao menos de esmiuçá-los enfim? Porque será que de livros de pretos o mercado, a imprensa e a crítica literária não querem nem saber?

Digo isto porque não sei escrever literatura escrava, aquela que o sinhô quer ler, literatura de ‘preto sofrendo’, se lamuriando do cativeiro existencial em que os pretos do Brasil ainda estão. Literatura “negra“ tampouco me apetece o conceito. Negra – pergunto – porque? Literatura de gueto, isolada  do contexto? Para quê? Se não se fala literatura “branca”, porque haveríamos nós esta parte de nossa literatura empretecer?

Literatura afro brasileira? Talvez.

O fato é que é muito difícil classificar esta coisa de gente transplantada à força para uma terra estranha, de um lugar distante que veio grudado nela como os pelos e os cabelos. Muito difícil, reconheço classificar a escrita de gente assim, transfigurada pela dor de ter deixado um pé, uma ponta da alma do lado de lá do Atlântico e ter fincado o outro pé cá.

Deve ser disto que o sinhô não gosta, esta indefinição espacial, geográfica, o que não dá para o sinhô prender com as mãos, esta literatura de palavras e temas sem travas ou beiradas, sem fronteiras, que é deste mundo sim, mas é sem cercas de arame (embora cheia de arestas, farpada) sem porteiras que impeçam o cativo de manter a alma escrava como o corpo quer, mas que mesmo plantado à terra não consegue de jeito nenhum impedir que a cabeça voe, voe alto e mais alto ainda, para um destino de uma infinitude insubmissa porque imortal.

E o que a literatura é senão cabeças voando livres por aí?

É, mas como assim? Mistério de nossa literatura, qual será o limbo para onde os livros dos pretos são lançados ou vão? Seria um kalungangombe enevoado do pó branco de mpemba, um mar das tormentas encapelado de pesadelos irreprimíveis que nem estes, apesar de tão nossos, tão íntimos, eles nos deixam escrever e contar? Seria este limbo o mesmo oceano fundo de onde viemos escravos? E se escravos e iletrados já não somos, qual será a antibiblioteca onde todos estes livros de pretos estão sendo enfurnados, desencadernados, desfolhados, desletrados?

Parece mesmo que são afogados, encharcados de salmoura para em algum mar das Bermudas sumidos,  nunca chegarem nem aqui onde estamos nem lá de onde vieram as histórias todas, justo aquelas que o sinhô não quer nem mesmo ouvir falar e tampouco deixar que a gente as conte por aí.

Muito surpreendente, portanto a feliz notícia de que a primeira matéria densa que sai sobre o modesto alfarrábio do tio Do samba ao funk do Jorjão seja, exatamente esta entrevista numa revista africana.

Fui num desnaufragado negreiro, sem algemas, cheio de palavras pretas livres das amarradas normas incultas desta mau aportada nau da literatura do Brasil que quer ser – azar o dela – branca e sem alma, ilegível para a maioria até morrer.

No embalo ondulante do lançamento do livro e das candentes pesquisas relâmpagos postadas no blog, algumas janelas, contudo vão se abrindo ao tio (e as janelas africanas são, confesso as que mais enchem a alma do Tio de ar e sol). É que as coisas todas que falo e escrevo por aí, afinal se referem – como todo mundo que as lê já deve saber – ao resgate das memórias trazidas embarcadas de lá para cá.

Mar em marés turvas de fluxos incessantes de gentes que para cá vieram e morreram, e pra lá só voltariam mesmo assim, nas bagagens de memórias fortuitas, memórias renavegantes, retornadas como almas tripulantes em folhas de papel escritas, em bits inscritos, em lágrimas descritas em pingos, uma a uma pelo caminho formando a vaga onda de um renovado mar que finalmente deságua lá, agora para ficar.

O amaldiçoado sinhô não deixou, não viu, não leu e não gostou, mas as vozes dos antepassados  falam sempre mais alto e firmes que as nossas lamúrias e não existe sinhô algum neste mundo que as possa calar.

Sangue de Zambiampungo é tinta forte, sua escrita vale ouro e tem poder!

Spírito Santo, especialista de música afro-brasileira

As origens do samba

Entrevista exclusiva para João Belisário, Rio de Janeiro para ‘África21’, Angola – março 2012

Educador, pesquisador, escritor, artista especializado na música afro-brasileira e artesanato musical (organologia), professor visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde desde 1995 coordena o projeto de extensão Universitária Musikfabrik, o brasileiro Spirito Santo (Antonio José do Espírito Santo), 64 anos, é ainda uma pessoa que não aceita as verdades estabelecidas sem questioná-las, doa a quem doer

África21. O título do seu livro, Do Samba ao Funk do Jorjão, evidencia uma relação entre o samba e o funk. Que relação é essa?

Spírito Santo: Há uma forte relação sim, mas ela é mais sutil do que parece. É que ambos, samba e funk, são gêneros musicais diaspóricos e irmãos. São uma espécie de síntese urbana da música tradicional que veio da África para as Américas, os work songs, o blues e o rag time dos EUA e coisas como o maxixe dos Oito batutas e Pixinguinha por aqui, os cantos de trabalho das plantations de lá e daqui, saídos de gêneros rurais como jongos, congadas, vissungos, etc. A relação é bem estreita. Uma história que não se explica sem a outra. Isto aparece nítido na evolução do samba carioca.

África21. No livro (“Do samba ao Funk do Jorjão”, 2011) você questiona algumas verdades estabelecidas a partir da própria origem do samba…

Spírito Santo: O samba, tal qual o conhecemos, muito provavelmente nasceu do jongo tradicional (manifestação sociocultural dos escravos da área Congo-Angola trazidos para as plantations de café no Rio de Janeiro). Pelas conclusões da minha pesquisa o ritmo seminal do samba teria tido como origem remota entre outros ritmos da área da Angola atual, o kaduke, que é uma dança que era moda em Mbaka (Ambaça) ao tempo de Capello e Ivens (meados do século XIX). Os escravos trazidos para cá nos anos finais da escravidão trouxeram em sua memória esta dança, genericamente conhecida aqui como batuque (e a música a ela correspondente). Esta minha teoria, em parte, é baseada na opinião de especialistas angolanos como Mário Rui Silva e Liceu Vieira Dias, do ‘Ngola Ritmos’, por exemplo.

Mas há outras explicações para esta origem… A confusão que criaram aqui, já no âmbito de nossa música urbana, nasceu do fato de a palavra samba, num fenômeno típico da cultura popular urbana ou de massa que nascia ali mesmo naquela época, estar virando uma marca muito forte para o nascente mercado fonográfico e radiofônico brasileiro como sinônimo de ‘música popular de negros’, numa época em que o mainstream, o conceito de ‘música para se vender’ também estabelecia as suas estratégias mercadológicas iniciais.

O fato é que o ritmo que acabou vingando e que ganhou a disputa para ser batizado por fim pelo mercado para sempre como samba, acabou sendo não o maxixe-novo, praticado na Praça Onze da Tia Ciata por músicos populares de elite como Pixinguinha, Donga, etc., mas sim uma fusão de ritmos ‘congo-angolanos’ trazidos para a Corte após a abolição da escravatura pelos negros oriundos do êxodo que se deu das fazendas de café nos anos finais da escravidão brasileira. Eu acredito que é na área do Cais do Porto, onde estes egressos ex-escravos das fazendas de café passaram a trabalhar como carregadores, portanto, que o «verdadeiro» ritmo do samba, tal qual o conhecemos, é fermentado e se cristaliza.

África21.Acredita que se pode determinar o local exato, o espaço físico, o berço do samba?

Spírito Santo: Acho que não. O que aconteceu foi que a Praça Onze, área boêmia e residencial da classe média negra do Rio a partir do início do século XIX, acabou sendo eleita pela intelligentsia carioca (cronistas, jornalistas, etc.) como sendo lugar de gente negra ‘superior’, espécie de colônia de pretos remediados vindos principalmente da Bahia.

A historiografia do samba por este meu raciocínio teria perdido o foco da questão, concentrada que estava em oficializar uma história do samba restrita apenas a esta limitada área baiana, subestimando todo o resto (a maioria bantu), resto este que, ironicamente seria exatamente a matriz, a raiz de onde o samba ‘de fato’, realmente teria nascido.

África21.O ritmo seminal do samba teria tido como origem remota ritmos da área da Angola atual. Porque isso teria acontecido?

Spírito Santo: As razões desta marca etnológica do samba para mim são, em primeiro lugar, a lógica geocomercial do tráfico transatlântico que priorizou o sequestro para o Brasil de gente da área do antigo Reino do Kongo (e não gente yoruba-nagô, da área da Nigéria atual, como a maioria – contra todas as evidências históricas – ainda acredita) e, em segundo lugar as especificidades assumidas pela estratificação social no Brasil – no Rio de Janeiro e em Salvador em especial – que se caracterizaram pelo isolamento de negros descendentes daqueles escravos em guetos, subúrbios e favelas ou em periferias apartadas das áreas de classe média para cima (brancas), possibilitando a estas comunidades isoladas a manutenção de hábitos ancestrais e a criação de uma cultura específica, com fortes marcas de sua origem africana.

Ou seja, ironicamente, se não houvesse racismo no Brasil talvez não existisse samba. Assim o livro tenta contar com o máximo de evidências possível todos os detalhes desta evolução do gênero samba – que é bem mais complexa do que narrei aqui – inserindo a sua história em seu contexto histórico social.

África21.E o que representa então o samba do Jorjão nessa evolução?

Spírito Santo: Aí que está. O Jorjão foi um mestre de bateria que, com muita ousadia, misturou o samba e o funk numa performance de bateria de samba, no desfile de 1997, dirigindo a escola de Samba Unidos do Viradouro. O Jorjão intuiu esta linha de tempo e esta relação ‘afro-diaspórica’. Foi execrado pelos fundamentalistas. Eu, que estava no júri e dei nota máxima a ele, fui castigado e defenestrado do júri da Liga das Escolas de Samba-Liesa. Usei então a performance emblemática do Jorjão como conceito para todo o livro.

África21.Afinal, existe alguma diferença entre samba e Escola de Samba?

Spírito Santo: As escolas de Samba e o samba são duas coisas bastante distintas. Poucos se dão conta disto, mas as escolas de Samba antes eram Ranchos Carnavalescos, uma coisa que vem remotamente dos ‘Pastoris’ baianos que, por sua vez, são originários das ‘Lapinhas’ de origem lusitana, muito populares em Salvador, Bahia, no início do século XX e em boa parte do Nordeste brasileiro. A forma geral dos desfiles das escolas é até hoje isto aí: Pastoris modernizados. Ocorre que a ‘trilha sonora’ destes desfiles, que era antes valsas ou marchinhas com sotaque europeu, a partir da década de 30 foi trocada pelo ritmo do samba que ficou sendo a partir daí hegemônico, a música oficial dos desfiles. Ou seja, a rigor, o samba é apenas a parte musical dos desfiles (e coreográfica também, claro). O curioso é que quem trouxe tudo isto para o carnaval do Rio – inclusive as influências lusitanas – foram os negros baianos, os mesmos que criaram o Candomblé.

O samba é para mim, portanto geneticamente congo-angolano, com um ou outro ingrediente de ritmos yoruba-nagô, saído do candomblé, somado a diversas e dispersas influências outras da música negra geral da diáspora, com acentuadas marcas da música negra norte-americana, inclusive.

África21.O livro questiona, em algum outro aspecto, a versão oficial sobre as origens da cultura africana no Brasil?

Spírito Santo: O que o livro questiona com mais veemência é que estas evidentes origens africanas de grande parte da cultura do Brasil não são majoritariamente nigerianas (nagô) como se alega aqui de forma mais ou menos recorrente, mas, ao contrário muito mais bantu ou angolanas. Há também no samba influências evidentes da cultura negra norte-americana – a tese do caráter diaspórico do samba que ressaltei – também muito combatida pelo pensamento oficial que nega, veementemente, esta influência por causa de um nacionalismo xenófobo bem questionável.

Questiono enfim esta ‘supremacia nagô’ de forma radical. Este é, aliás, o cerne do debate que o livro propõe. Tento colocar em debate a proposta de que a história do negro no Brasil e todo o resto neste campo precisa ser total e urgentemente revisto. É uma distorção etnológica antiga e muito grave, pois contaminou tudo no campo de nossas ciências sociais com seu viés sutilmente racista. O processo de como esta distorção foi sendo construída ao longo do tempo, por vários agentes, aparece bem nítido no livro.

Ironicamente, se não houvesse racismo no Brasil talvez não existisse samba. Tento colocar em debate a proposta de que a história do negro no Brasil e todo o resto neste campo precisa ser total e urgentemente revisto

África21.Onde então mais se evidencia a contribuição yoruba-nagô na música brasileira em geral?

Spírito Santo: Na música do candomblé, que no Brasil é muito bela, mas está restrita, quase que inteiramente ao âmbito litúrgico, do ritual religioso. É preciso frisar que a música popular urbana de Salvador, Bahia, e do seu Recôncavo (com exceção dos afoxés mais tradicionais) é, por sua vez, predominantemente bantu, com ênfase no Samba de Roda e na Capoeira.

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O TRABALHO DE UMA VIDA
Ex-preso político, esteve encarcerado mais de dois anos nas masmorras da ditadura militar; filho de pai descendente direto de angolanos que no século XIX foram trazidos para Minas Gerais; com mais de 40 anos dedicado à música, Spirito Santo resolveu colocar no mercado o fruto de suas pesquisas lançando o seu primeiro livro Do Samba ao Funk do Jorjão, um ensaio etnomusicológico que traz muitas reflexões inéditas acerca das origens e dos significados do samba, o ritmo que define em grande parte a alma do povo brasileiro.

Spirito Santo é na verdade um pesquisador que esteve sempre à frente na luta pelo resgate da história e dos valores culturais da população de origem africana no Brasil. Passados mais de trinta anos desde que criou o grupo musical Vissungo, e com ele realizou uma ampla pesquisa sobre música tradicional africana na região do sudeste e nordeste do Brasil, persiste no projeto que marcou toda a sua vida.

Apesar de ter em vista a publicação de outros ensaios, ocupa-se agora da retomada da pesquisa de campo sobre cantos de trabalho de mineiros escravos, vindos de Angola no século XIX para Minas Gerais, com o objetivo de realizar um documentário que terá que ser filmado no Brasil e em Angola.

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