João José Reis e a cegueira branca – Post # final – Desatando os nós cegos da historiografia interesseira

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1845 - Batalha de Vertières durante a revolução haitiana - gravurista francês anônimo

1845 - Batalha de Vertières durante a revolução haitiana - gravurista francês anônimo

O Quilombo perene, solenemente ignorado por não ser nagô

Foram centenas de rebeliões quilombolas no Brasil do século 19, a maioria delas de gente bantu.

(Bem…É melhor começar esta leitura pedregosa pelos posts anteriores: #01 e #02 e #03)

(Viram a imagem? Viram a data da imagem? Pois bem, a Revolução haitiana (1791–1804) foi deflagrada – manifestada – por um texto em kikongo. Kikongo para os incautos é uma língua dos bakongo, povo bantu do Reino do Kongo. O Haiti é até hoje, uma cultura afro americana marcada pela herança cultural jêje (do antigo Reino do Dahomey, hoje República do Benin, de onde veio o seu vudu) e bakongo/angolana (de onde veio o seu ‘Palo Mayombe‘ – também cubano – se formos falar apenas de religião).

O resto é abobrinha de historiador entre aspas, tirando onda de rei em terra de cego.

Já contei por aí. Em 1834, (um ano antes da Revolta dos Malês), no Vale do Paraíba do Sul, Rio de Janeiro uma seita de escravos denominada ‘Embanda, provavelmente com ligações estreitas com o Antonionismo congolês (uma religião de perfil afro catolicista) e uns poucos libertos bantu, urdia uma rebelião de grandes proporções com o fim precípuo de ‘matar todos os brancos’, fugir para uma serra próxima e implantar por lá uma sociedade de negros – ‘africanos‘ e ‘crioulos‘ livre da escravidão.

 Precipitadamente eclodida em 1838 (depois de delatada por um traidor) um dos ‘Tata Korongo‘ (chefes) desta sociedade secreta rebelde, o ferreiro chamado Manoel Kongo, a quem foi atribuído o comando da rebelião, foi capturado numa refrega (comandava um grupo onde estavam as mulheres, os velhos e as crianças). Condenado à morte Manoel Kongo morreu na forca na cidade de Vassouras em 06 de setembro de 1839.

Centenas de rebeldes em fuga, contudo ao que parece não foram jamais capturados e viveram livres para sempre num quilombo perene, localizado provavelmente na Serra da Estrela, nas imediações das cidades de Vassouras, Valença, Paty do Alferes e Valença. Conheci pessoalmente uma mulher anciã (116 anos) que, quando criança viveu neste quilombo perene. Até a entrevistei e disponibilizei esta fonte por aí (no meu livro inclusive).

Algumas conclusões eventualmente inéditas sobre os detalhes deste incidente memorável – a sua relação com a história africana, angolana, do período – são minhas mesmo, um leigo que não se pretende historiador, mas você pode ler também Flávio Santos Gomes um amigo doutor especialista que também tem muitas informações sobre esta coisa aí, de rebeliões escravas.

João Reis denegrindo o bantu mas fingindo dizer que não

João Reis denegrindo o bantu mas fingindo que não

Quando leio as ilações e opiniões grosseiras e difamatórias, como esta aí de cima, do emérito historiador João José Reis contra a moral dos escravos de ascendência angolana ou bantu e me reporto a este heroico – e tão academicamente subestimado – evento histórico, me aborreço muito.

Sutil tentativa de desqualificar, lançar dúvidas sob a caraterística guerreira do conceito quilomboaliás como disse acima um tipo de rebelião escrava estranhamente subestimada no estudo de João Reis, talvez por ser uma tática de insubordinação essencialmente bantu, com centenas de exemplos históricos amplamente registrados. Afinal, não se tem muita notícia de exemplos de quilombos exclusivamente nagô/haussá, não é mesmo?

Entendem agora porque estou denegrindo este renomado historiador?

Ética! Isto mesmo. Ética em geral e acadêmica por suposto. Não este convescote dos pares, a se entrevorarem nas ante salas dos departamentos universitários, disputando verbas e títulos na área de estudos do negro mais recorrentes (o indefectível Candomblé nagô/baiano), como quem disputa pechinchas numa liquidação das Casas Bahia.

Típico: Assim que são pegos com a mão na botija da disseminação de exageros irresponsáveis e mentiras descabeladas, se calam em conluio – como num pacto sagrado de uma seita – a se protegerem dos estudantes ímpios que se insubordinam contra inverdades científicas e as mentiras mais deslavadas. Tenho sido procurado por um monte de inconformados estudantes destes aí. Estranho, não? Foi isto, aliás que me motivou a escrever série de posts indignados.

 Ética acadêmica devia ser saber o nome daquilo que nunca se deve dizer em vão. E provar o que se diz devia ser regra sem perdão. Ética no geral, a de nós todos e não a ética deles. Doutores não deveriam ter este direito de dizer o que bem entendem sem dar satisfação a ninguém, se escondendo atrás do jargão desta discutível e engessada ‘norma culta’ tupiniquim. Como pode ser que os pares de João José Reis referendem ideias assim sem pé nem cabeça sem partilhar delas? Sem endossá-las? Vejam isto, o veneno se espalhando agora mesmo já no século 21:

…A impressão que se tem é que os nagôs são mais organizados do que os bantos. E uma outra impressão que nos forma é que, onde há um nagô, um outro vem para manter a identidade a partir da crença, por isto esta união entre eles…

…Mas penso que esta ideia de organização passa-se pelas origens identitárias dos nagôs na própria África, devida a sua cultura avançada. Os nagôs têm porte altivo e são belos, foram escravos, mas não perderam a elegância, isto é visível nele. É só sentar-se em SSA (Salvador) e observá-los.

Não é que os outros sejam inferiores, ao contrário disto, todos são iguais, mas penso que o que difere é estarem mais à frente do que os bantos nas questões do viver organizadamente enquanto identidade étnica.”

(Uma moçoila que se denomina ‘Luana Luna’– universitária e negra, presumo- , comentado um post em meu blog dia destes)

Luana,

…Cegueira branca, como diria o Saramago. Curiosamente acabo de escrever exatamente sobre isto. Infelizmente as suas colocações são marcadas pela repetição cega de um preconceito muito arraigado na cultura brasileira, este de que existem negros culturalmente superiores (os descendentes dos nagôs) aos outros (todos os demais).

É um equívoco dramático, terrível por que contaminou o pensamento até de pessoas negras (como imagino que você seja) que não percebem a armadilha racista em que estão aprisionadas.

O mais incrível é que parece que você não leu uma linha sequer do que escrevi antes, explicitando como este ‘auto preconceito’ venenoso foi instilado em nossa cultura, bem como as intenções dele em nos manter submetidos aos ‘brancos’ (ao fim de tudo considerados os ‘mais superiores’ que todos nós, os ‘outros‘, os supostos descendentes de nagôs inclusive).

Decepcionante. Não guardo muitas esperanças em você não, mas espero que leia esta próxima matéria, ao menos com atenção. Sempre resta uma esperança.”

(Eu mesmo, desolado respondendo lá no blog)

Lendo, engolindo em pílulas amargas a historiografia deste João Reis, considerando gravemente a alta reputação que ele goza nos meios historiográficos brasileiros, me ocorreu impressão de que a ideologia malsã que claramente permeia os seus escritos, pode representar mesmo o pensamento dominante, hegemônico das áreas universitárias e acadêmicas afins.

Não falo – claro – de ingênuos formandos, mestrandos, nem mesmo dos nem tão ingênuos assim doutorandos e orientandos. Falo dos doutos supremos mesmo, estes que elegem, referendam, recomendam e até mesmo exigem que se leia João José Reis como matéria referencial e obrigatória no estudo da história – fake– do negro do Brasil.

Notaram? O negroafricano heroico foi, providencialmente efêmero

Se o ‘africano‘ negro está extinto e o descendente dele é o ‘crioulo‘ reles e ‘impuro‘ quem será hoje o guerreiro ‘superior‘, da vez, para historiadores como João Reis?

Nem parece, mas se passaram impressionantes 80 anos entre a publicação de “Os Africanos no Brasil”, clássico maldito de Nina Rodrigues vindo à luz em 1906 e o livro Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos malês1835” Ed. Brasiliense 1986 de João José Reis nosso arguto historiador aqui enfaticamente resenhado.

Pelo que soube lendo em Arthur Ramos, Nina Rodrigues nem mesmo concebeu o seu livro daquela forma, já que ele foi editado após a sua morte a partir da compilação de textos esparsos deixados por ele, escritos ainda em francês. O compilador, Homero Pires (leia post a respeito aqui), o discípulo dileto Arthur Ramos e uma série de eméritos doutores se incumbiram, portanto de implantar, instilar estas ideias por aqui, dando peso acadêmico a elas, foros de ciências sociais ‘top de linha’, tornando-as referenciais no pensamento etnológico oficial do Brasil.

Puiff!

As ideias racistas ali disseminadas, contudo são claramente um reflexo do pensamento ideológico de Nina – e de seus seguidores todos já que reproduzem ideias recorrentes em sua época, a virada do século 19 para o 20 e seu contexto (Nina Rodrigues, como se sabe vivia na Europa, em Paris,).

…Beatriz Góes Dantas (1988) demonstra, após analisar o Xangô em Recife, que a noção de pureza nagô foi construída pela ação dos acadêmicos ao elegerem alguns sinais diacríticos como sinais de pureza, transformando a categoria nativa em categoria analítica, com o passar do tempo muitos candomblés reproduziram e internalizaram essas interpretações.”

(“Religiões afro-brasileiras. Da degenerescência à herança nacional: lendo Nina Rodrigues– Rosenilton Silva de Oliveira)

Disse no meu livro e repito aqui, contextualizando: estas ideias racistas, forjaram toda a ideologia das classes dominantes do mundo branco ocidental – inclusive no Brasil, claro – no momento paradigmático das abolições das escravaturas e da implantação do neo colonialismo em África e no resto do mundo não branco, ideias estas que explodiram como modo de pensar hegemônico com a prática das táticas assassinas do nazifascismo, só desmoralizadas depois de muito sangue, suor e lágrimas, vertidos na derrota destas forças insidiosas na segunda guerra mundial, após a morte de milhões e milhões de pessoas – consideradas ‘raças inferiores’ – em campos de concentração e extermínio (e não apenas na Europa, diga-se).

É por isto que constatar a incrível semelhança entre as odiosas ideias expressas claramente no livro de João José Reis e aquele velho pensamento eugenista de Nina Rodrigues me assusta. 80 anos não são 80 dias. É doença crônica. Demanda tratamento de choque, quiçá transplante.

Sim. Já devo ter me perguntado mil vezes: Como pode ser que quase um século depois, aquele grosseiro ideário pré nazista de Nina Rodrigues ainda prevaleça como referência, como ciências sociais ‘de ponta’ no Brasil, enrustido em quase tudo que nossos universitários leem – sem ler– obrigados que são a concordar e pronto? Como ninguém mais douto demonstra ter visto, lido, percebido? Porque se tornou tão comum encontrar este pensamento capcioso – aí sim! – dissimulado em quase tudo que se lê sobre o negro no Brasil.

_ Não! Não! João José Reis não é um racista! Estão vendo racismo em tudo!”- Disse mais ou menos assim uma minha amiga doutora branca.

Como não? As transcrições das palavras de João Reis aqui resenhadas são textuais. Ele realmente escreveu aquilo! Como se vai provar que não? Só não viu quem não quis ver. Quem virá aqui debater, questionar as pílulas claríssimas aqui pinçadas, em bases conclusivas? Que venham!

Não sou um tonto esbravejando. Tenho um monte de pedras novas e taludas ainda para lançar.

João Reis  tentando livrar a barra dos crioulos  mas se contradizendo

João Reis tentando livrar a barra dos crioulos mas se contradizendo

Êpa! Viram só? Contradição pura, de rabo de fora, de novo. O conceito de ‘rebelião escrava’, tão caro a toda a argumentação do eminente historiador, que já aparecia um tanto ou quanto vago e ambíguo quando as estatísticas denunciaram um contingente majoritário de nagôs islamizados presos (seria uma revolta, essencialmente religiosa?), além de aparecer questionado acima pela participação de um número expressivo demais de negros nagôs (e, em menor número, haussás) libertos em posição de franca liderança também, se desvanece um pouco mais ainda, com a franca admissão de que, ainda na virada do século 18, ‘crioulos‘ e ”mulatos‘ também se rebelavam sim, contra tudo, inclusive contra a escravidão (João afirmava antes, no mesmo texto e sempre enfaticamente, que não).

Vale ressaltar também (e estes dados vivem sendo empurrados para debaixo do tapete desta historiografia interesseira) que alguns – não sei se muitos – destes líderes malês nagô/haussás tinham inclusive escravos. Se não fosse uma rebelião religiosa, provavelmente não era também, pelo menos exatamente uma rebelião escrava, no sentido estrito da palavra. Nananinanão!

Crioulos’ e ‘mulatos’, provavelmente atuaram ao lado de brancos pobres e ‘africanos’ em protestos e quebra-quebras…”

Como se vê, desta feita, é o explícito aparecimento de rebeliões ‘crioulas‘ que problematiza mais ainda a questão, tornando algo incongruentes as alegações centrais da tese do historiador (a de que apenas os aguerridos ‘africanosnagôs/ haussás participaram das rebeliões escravas no período, patatipatatá).

Tênue demais a linha que separa, hierarquizando, o conceito “rebelião escrava’ de ‘rebelião nativista’. Ambas as revoltas (e reler E. Genovesecitado no post anterior – nesta hora cai bem, seria muito interessante) estão dentro do mesmo contexto de contestação às estruturas da sociedade colonial, com a luta contra a escravidão – do mesmo modo assumida por ‘africanos‘ e ‘ crioulos– aparecendo sempre como objetivo de ambos os tipos de insubordinação violenta contra a ordem estabelecida.

Talvez seja por isto que João Reis tenta criar uma clivagem tão radical – e improvável – entre ‘rebelião nativista’ e ‘rebelião escrava’, entre rebeliões quilombolas e rebeliões ‘nagô’.

João Reis endeusando os nagô e denegrindo os bantu

João Reis endeusando os nagô e denegrindo os bantu

Observem bem que todos os parâmetros que, supostamente atestariam a tal ‘supremacia‘ nagô/haussá são parâmetros civilizatórios do branco europeu. Sem se falar que a comparação entre a ‘tranquilidade camponesa’ dos angolanos e a ‘arrogancia urbano-comercial’ dos yoruba/haussás é de uma parcialidade cínica. De doer.

Os termos usados não são historicamente comparáveis, nem no tempo e nem no espaço. Os bantu também tiveram reinos estáveis, civilizados e prósperos até o fim do século 18. Os nagô/haussá também tiveram esta sua suposta condição de reinos estáveis e fortes desmontada nesta mesma década de 1830 da Revolta dos Malês, por força da expansão do colonialismo inglês na região e da pulverização provocada por guerras inter étnicas. O próprio aumento do fluxo de escravos nagô/haussá para Salvador, Bahia nesta época, prova isto.

Fala sério!

Alegando uma suposta predisposição…geo genética dos ‘africanos puros’ para serem moralmente ‘superiores(o seu alto grau de ‘excelência civilizatória’ seria fruto do fato de serem eles desta e daquela etnia e por serem ambas oriundas de uma determinada região africana, etc.), João Reis cria assim uma discutível relação direta entre eugenia e cultura, já que engendra aquele juízo de valor particular intencionado em sugerir que certas relações entre seres humanos, de forma determinista seriam opositivas, conflituosas:(‘africanos‘ versus ‘crioulos‘, ‘crioulos‘ aliados aos ‘brancos‘, e estes aliados ‘com ‘mulatos‘, todos contra os africanos, etc.)

João  denegrindo o bantu mas tentando realtivizar seu evolucionismo vulgar

João denegrindo o bantu mas tentando realtivizar seu evolucionismo vulgar

Eu sei. Eu li. Já disse! Eu vi que João Reis em seu livro, lá para as tantas, tece algumas tentativas tímidas de ser ponderado, culturalista e estas suas tentativas como vimos, foram acenadas veementemente por minha amiga branca.

Não me pegou. É o velho lobo evolucionista sob a pele do cordeirinho culturalista.

João Reis tentando ponderar incongruencias

João Reis tentando ponderar incongruencias

O trecho acima, neste sentido, aliás sugere um amontoado de incongruências indesculpáveis para um historiador deste porte.

Ora, não é de modo algum um ‘mito’ a afirmação de que os bantu seriam mais ‘afeitos‘ a determinados tipos de serviço. E não há nenhuma questão… evolucionista ou mesmo eugenista embutida nesta circunstancia. Alguns autores afirmam cabalmente que, ao contrário do que João Reis sugere, quem predominava em “serviços domésticos’ e ocupações mais especializadas” em Salvador, Bahia durante a escravidão, não eram, absolutamente os ‘crioulos‘ (em geral, usado quase como eufemismo para ‘bantu‘ por João Reis), mas sim os ‘puros‘, os ‘mais inteligentes‘, os ‘mais cultos’… ‘africanos‘ (e ‘crioulos‘) nagô/haussá.

É que havia evidentemente uma estratégia logística no negócio da escravidão (como em qualquer atividade laboral, comercial). Sempre que possível, escravos eram selecionados sim, na origem, segundo suas habilidades pré existentes. Claro! Aos próprios nagô/haussáJoão Reis omite este dado cuidadosamente – eram determinadas as funções mais específicas no ramo das atividades domésticas em Salvador (cozinheiros faxineiros, mucamas, etc.), cabendo a maioria dos escravos bantupela lógica comercial do negócio – funções mais braçais, o serviço pesado no eito do recôncavo.

Aquele imaginário garoto ginasiano esperto que citei num post destes aí, já sabe que grupos étnicos ‘angolanos‘ da área do porto de benguela, foram seletivamente trazidos para as Minas Gerais na época do ciclo do ouro e do diamante. É que estes povos eram e especialistas em mineração (na verdade os povos bantu da vasta região da Angola atual eram tradicionais mineradores, tendo a metalurgia – do ferro, à princípio – como atributo da nobreza de reis, desde tempos imemoriais)

Observe o leitor que a intenção de João aqui, portanto é sugerir a capciosa separação entre bantu e nagô, já que a maioria dos nagôs, segundo ele, seria ‘africana‘. No contexto de sua argumentação também parece omitir também, cuidadosamente o alto grau de assimilação dos nagô/haussá à sociedade branca (de Salvador e de Lagos, Nigéria), com a existência já a esta época de um significativo contingente de nagô/haussás libertos, alguns se tornando inclusive, alguns anos depois, mui ricos comerciantes, atuando no eixo Salvador /Lagos (Nigéria) atuando em negócios nem sempre heroicos, limpos e edificantes como – cala-te boca! – o tráfico de escravos do Benguela para cá, por exemplo.

(Vai duvidar? Me desmentir? Vamos lá!)

É fato historicamente comprovado enfim que a maioria dos escravos de origem bantu na Bahia, já a esta época (1835) estava no eito das plantações do Recôncavo, para onde eram levados de forma seletiva, enquanto que os nagô/haussá, estes sim estavam em franco processo de assimilação no perímetro urbano de Salvador, onde estas relações de assimilação podiam, naturalmente ocorrer. A razão de ser da exagerada opção preferencial de certa academia pelo estudo apenas deste ramo de nossa cultura negra, aliás, pode estar neste processo de assimilação nagô/haussá aqui demonstrado. Porque não? João, intencionalmente inverte as bolas, se pode perceber agora, facilmente.

Cegueira branca!

Inútil tentar contemporizar com os epítetos racistas de João Reis. Eles – vocês viram e podem ver melhor lendo o livro dele – estão todos lá, impressos candentes de ideias claramente eugenistas, afirmando que certo tipo de negro, por isto e por aquilo – razões sempre estapafúrdias – é – ou era – superior a outro.

As tentativas de ser ponderado a esta altura, pois, não desdizem o que ele escreveu antes, nas pílulas, nos recortes que esmiuçamos aqui. Acabam sendo mesmo secundárias pílulas cínicas, enganosas, placebo que não cura mais o veneno, tentativa de ocultação do ‘cadáver‘.

E como fede o morto!

E reflitam comigo finalmente a constatação final, a mais insidiosa das charadas:

Se os ‘africanos‘, seres superiores na pirâmide eugenista do século 19 erigida por João Reis não existem mais (e Nina Rodrigues declara lamentando, esta eminente extinção deles já no final do século 19), se ‘crioulos‘, ‘mulatos‘, ‘cabras‘, esta gentalha toda enfim é a óbvia descendência da negritude africana hoje existente no Brasil (os ‘negros da vez’, digamos assim), então pelas injunções étnicas/genéticas de sua descendência – sempre pela lógica de João Reissomos todos hoje – e digo nós, os negros do Brasil – necessariamente o rebotalho ‘impuro‘, a classe dos seres desprezíveis, não é isto não?

É que em todo o arrazoado teórico de João José Reis Usem a cabeça! Por favor, usem a cabeça!– o que aparece embutido, subliminarmente enfim no pensamento douto deste eminente historiador é o desprezo pelos negros todos do Brasilos ‘afro-brasileiros’ como ele diz – Sim! Como não?

Negros universitários do Brasil – e os brancos, ‘mulatos’ e os ‘cabras‘, também, coitados – estariam sendo obrigados assim a ler isto, para disto tirarem uma ideia inteiramente falsa sobre si mesmos. Ideia falsa esta que, quando estes jovens forem doutores, estarão por sua vez disseminando por aí.

_Ai, lei 10639! Rogai por nós!

Como para quem sabe ler um pingo é letra, óbvio está também que neste discurso de João Reis está sugerido que os descendentes dos nagôs/haussás – supostamente concentrados todos ainda e Salvador, Bahia seriam hoje o sub extrato de negros ‘superiores‘ aos demais.

Absurdo! Racismo ninafreirista reciclado, o mito abjeto da Supremacia nagô’ redivivo, pois, e o pior cego – este incidente exemplar vem provar isto cabalmente- é mesmo aquele que não quer ver.

Sendo mais claro ainda (se é que isto é necessário): Pelas linhas tortas de João, o valentão, o que ele reza em seu livro, portanto é a crença proselitista, quase religiosa de que, extintos os aguerridos ‘africanos‘, segundos na hierarquia de sua evolucionista pirâmide sociocultural (já que está a omitida – oh santa ingenuidade a nossa! – embora subentendida, a liderança exemplar dos brancos nesta história toda) sobraram por aqui uma maioria de negroscrioulos‘ e ‘mulatos‘, ‘impuros‘,acomodados‘, ‘inferiores‘, pois, e todos aqueles epítetos que vimos espalhados aqui em seus recortes, as nossas pílulas indigestas.

Ora – elementar, caro Watson!- se o ‘africano‘ ‘puro‘, superior entre todos nós, os negros, extinto como o ornitorrinco já não existe mais, se escafedeu; se somos todos ‘crioulos’ descendentes daqueles seres… ‘inferiores‘ sobreviventes, quem seria então a raça suprema na estratificação sócio racial do Brasil de hoje em dia? Quem? Quem? Quem?

Ah! Nem preciso responder.

É o parâmetro omisso da questão. A chave suja da ideologia malsã, a pura introjeção do velho racismo de sempre em nós mesmos, não é não? Nós, as vítimas sem o saber mancomunadas com os algozes de sempre, velhos maquiavélicos em pele de doutores sabichões. Nós, tomados por tolos, engolindo as pílulas de morte do Dr. Reis – o suposto príncipe de maquiavel – e sua banda.

É a Cegueira branca, mermão! É a Cegueira branca!

Spirito Santo

Março 2012

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~ por Spirito Santo em 16/03/2012.

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