Arthur Bispo do Rosário e a arte inventário de Deus

Creative Commons LicenseATENÇÃO:Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Atiçado por Sandra Bello,  de Berlim evoco aqui o grande artista do Brasil.

Tem país que é cego

Ainda não reconhecido no Brasil (por razões óbvias que se entenderá a seguir) Arthur Bispo do Rosário era um negro ex marinheiro e ex pugilista que um dia enlouqueceu.

Fantástico! Provavelmente antes da técnica do infográfico se estabelecer na imprensa, Bispo faz este completíssimo infográfico histórico sobre a marinha do Brasil

Fantástico! Provavelmente antes da técnica do infográfico se estabelecer na imprensa, Bispo faz este completíssimo infográfico histórico sobre a marinha do Brasil

Louco, num hospício, inserido num programa do Museu do Inconsciente da notável Dra. Nise da Silveira, se revelou um criador fabuloso, moderno, maravilhoso, comparado pelos críticos mais argutos aos melhores artistas do mundo, como Marcel Duchamp, por exemplo com o qual o seu trabalho muito se aparenta.

Bispo se imaginou um ‘inventariador das coisas do mundo’, missão que lhe teria sido passada por Deus. Com inigualável apuro estético passou a reunir objetos os mais inusitados, a serem transportados por veículos artesanais não menos inusitados, fazendo inventário de coisas mais intangíveis em panos, mantos e estandartes bordados com o fio indigo blue de velhos uniformes do hospital psiquiátrico (num destes panos ou estandartes bordou certa vez toda a esquadra da Marinha do Brasil)

Tanto o conceito estabelecido por ele quanto o apuro técnico são comuns a todos os grandes artistas da humanidade, não fosse já a arte, em si, uma forma de loucura.

No Brasil, contudo – como disse acima- exceto por um ou outro admirador mais empolgado, Arthur Bispo do Rosário é tratado como um reles negro louco, um artesão exótico, inculto, näif.

Estúpidos! Eu, por exemplo só fui conhecer o Bispo assistindo uma exposição dele em Zürich, Suíça em 1992, respeitado lá como o artista gigante que foi. Acachapado com a dimensão insuperável da arte dele (não conheço nada melhor no Brasil) de lá fiquei até hoje refletindo sobre estas coisas que disse aqui.

(Assista aqui o emocionante vídeo postado pela Sandar Bello no facebook)

Mais Bispo:

ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO:
O ILUSTRE DESCONHECIDO

Centenário de Nascimento e Vinte Anos de Ausência

NEGRO, POBRE, LOUCO

Arthur Bispo do Rosário, nasceu em Japaratuba – SE, no ano de 1909 (ou 1911, não se sabe ao certo), descendente de escravos africanos.

Em 1925, muda-se para o Rio de Janeiro e torna-se marinheiro. Foi campeão brasileiro e sul-americano de boxe na categoria peso leve pela Marinha.

Em seguida, passa a trabalhar na Light, empresa carioca de fornecimento de energia, e como lavador de bonde e borracheiro. Sofre um acidente de trabalho e resolve ajuizar uma ação contra a empresa, ocasião em que conhece o advogado Humberto Leoni, que passa a representá-lo na demanda judicial.

Começa a trabalhar na casa do advogado, como empregado doméstico, fazendo serviços diversos e residindo no local.

Na noite de 22 de dezembro de 1938, procura o patrão motivado por alucinações que lhe diziam que deveria apresentar-se à Igreja da Candelária. Peregrina pelas ruas, dirigindo-se a várias igrejas. Por fim, chega ao Mosteiro de São Bento, onde declara aos monges ser um enviado de Deus, incumbido da tarefa de julgar os vivos e os mortos.

É preso como indigente e demente, sendo conduzido ao Hospital dos Alienados, um hospício situado na Praia Vermelha. Um mês depois, é transferido para a Colônia Juliano Moreira, no bairro de Jacarepaguá, onde permaneceria por cerca de cinqüenta anos.

Foi diagnosticado como portador de esquizofrenia paranóide – que é um dos quatro tipos principais dessa patologia -, caracterizada pela ocorrência de visões, alucinações, sentimentos de perseguição e em que é comum o doente escutar vozes (FRANÇA, 2007).

A partir desse período, começa a produzir seu trabalho artístico, motivado por um pedido de Deus para que reconstruísse o universo e registrasse a passagem divina pela terra.

Aí, começa a história de Bispo do Rosário como artista plástico.

Estima-se que elaborou cerca de 1.000 peças, que permaneceram como propriedade da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, hoje desativada como instituição manicomial e transformada no Museu Arthur Bispo do Rosário.

Bispo faleceu em 1989.
Veja obras do artista aqui

 E mais outras aqui.

REFERÊNCIAS
* FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina Legal. Rio de Janeiro: Guanabara, 2007.

Spirito Santo

Março 2012

Anúncios

~ por Spirito Santo em 23/03/2012.

6 Respostas to “Arthur Bispo do Rosário e a arte inventário de Deus”

  1. Daniel

    Suas pistas são sempre muito promissoras. Veja o que descobri: O Francis Williams a quem Hobbs atribui aquele retrato não foi um pintor e não se vestia de mulher. Williams foi um negro jamaicana liberto (o pai era protegido de um nobre inglês). Francis foi mandado para estudar em Cambridge e se tornou um renomado professor especializado em literatura e matemática. Ele voltou apra a Jamaica na segunda metade do século 18 e fundou lá uma escola de latin e matemática.

    A ilação de Hobbs é rasteira (e falsa como se vê), pois, está assentada na seguinte evidência expressa na biografia d o jamaicano: Francis Williams incomodou muito a aristocracia inglesa e seus ‘schoolars’. Por conta disto Francis foi vítima de uma insidiosa e ferrenha campanha de difamação por parte dos racistas da época que não se conformaram de jeito nenhum que fosse possível um negro de tão especiais caraterísticas intelectuais existir.

    Resumindo: Francis Williams nunca foi pintor e não há nehum indício de que tenha sido homossexual os textos racistas no máximo o acsam de pedantismo e arrogância intelectual) logo ela nunca se autorretratou vestido de mulher. O quadro que Hobbs resenhou se for mesmo uma referencia à Williams (o que eu duvido) não passaria de uma charge grosseira, tentando difamar e desqualificar moralmente um negro intelectual que pela sua simples existência, desmontava todo o arcabouço teórico que embasava o racismo ‘científico’ da época.

    Lamentável.

    Curtir

  2. Daniel

    Muito curiosa mesmo a imagem. Dei uma pesquisada, surpreso é claro com a forte insinuação constante na legenda de que o negro autor estaria se auto retratado travestido de mulher e descobri coisas mais inusitadas ainda. O Carlton Hobbs o autor da resenha é um colecionador e crítico de arte inglês de uma corrente interessada na influência do negro das colônias inglesa na sociedade britânica. Até aí tudo bem muito bacana, mas é interessante considerar também que, ao que fica subentendido nas coisas que li (e nas fotos dele que observei) que ele é simpatizante da causa homossexual e ao que parece fez aquela insinuação de que o autor teria se auto retratado vestido de mulher a partir apenas de uma mera e apressada suposição.

    Não há nenhuma evidência desta afirmação e nenhuma das resenhas que li inclusive as dele. Não há inclusive nem mesmo a certeza de que o quadro realmente seja do o negro jamaicano Francis Williams e que a tela tenha sido pintada na Jamaica. Aliás encontrei uma outra resenha do próprio Hobbs em outro site na qual ele afirma que a ‘origem do quadro é incerta’ (ou seja de autor e local desconhecidos) atribuindo a provável origem da tela ao Brasil colonial informação exatamente oposta a da resenha inicial que, como vimos afirma que a tela teria uma paisagem ao fundo de uma cidade jamaicana de estilo espanhol.

    Os simpatizantes da causa gay que me perdoem mas este proselitismo que propõe a existência do homossexualismo em todos os âmbitos da sociedade tudo precisa ser baseado em dados mais cabais. Este merchandising LGBT é bem questionável,ainda mais quando assume estes falsos ares acadêmicos como no trabalho de Hobbs. Do jeito que está sendo colocado não pode ser levado a sério.

    Vou seguir na pista para fazer uma resenha bem completa da tela.

    Curtir

  3. Falando em arte, andei cutucando pelai internet e achei essa pintura curiosa que talvez te interesse:http://www.carltonhobbs.net/art/paintings/black-artist-completing-a-portrait-of-a-white-female-aristocrat/2011/06/27/

    Curtir

  4. É nisto que pensei quando conheci a obra dele lá na Europa. Tinha ouvido falar dele e de outros doidos artistas ligados aquela proposta da Dra. Nise. Acho que num filme do Leon Hischmann. Ali num museu de arte contemporânea na área nobre da cidade à beira do rio que corta Zürich me deu esta tristeza de saber o quanto ele era – é – subestimado como artista por aqui e o quanto começava a ser incensado lá (um pouco depois rolou uma expo dele na Dinamarca também).

    Neste filme que postei instigado pela moça de Berlin, esta versão fashion da obra dele, usada como conceito de moda é bem instigante, emocionante mesmo ver a dimensão de sua arte rompendo fronteiras burras, de um jeito ou de outro.

    Do que eu soube a obra do Bispo estava mal ajambradamente guardada na colônia sem muita condição de escapar à deterioração eminente, invisibilizada pela burocracia e pelo descaso. Dói muito esta desculpa que usam para desqualificar a qualidade da obra dele alegando a sua esquizofrenia. Van Gogh e tantos outros eram esquizofrênicos, aliás, que artista não é um pouco esquizofrênico, não é não?

    Acho que os cupins estão curtindo mais a obra dele do que os homens.

    Curtir

  5. Conhecer a obra de Bispo do Rosário é tarefa obrigatória pois muda muito os nossos conceitos sobre a arte brasileira. Ele não foi estudar na Europa, não fez parte da acadêmia e de nenhum movimento para romper com o academicismo. Mas sozinho, em seu isolamento, fez o que só os gênios conseguem: romper paradigmas com a força da sua arte e expressão.

    Curtir

  6. Spirito, eu estive muito envolvida com a obra do Bispo… há muitos anos, tentei com a Denise, psicóloga que cuidou dele, publicar um livro pela então Salamandra, mas não rolou. O Frederico Moraes naquela época estava cogitando uma exposição no Centro Pompidou. Depois a coisa foi indo eu meio que pulei fora, muitos personagens dessa história já estão mortos, outros perdi contato, espero que o Bispo tenha conseguido sua sepultura, pq na época em que andei pela Colonia Juliano Moreira ele estava numa gaveta… e que a obra, claro, esteja pelo menos protegida contra os cupins. Tem horas que este Brasil é muito triste. Bjs

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: