IconoFAKEgrafia. Retrato mal falado do ilustre negão do 18

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“Artista Negro(a) concluindo retrato de uma mulher branca aristocrata” aristocrata Pintura possivelmente da escola brasileira. Primeira metade do século XVIII. Óleo sobre tela. Altura: 41

Iconologia do black people para todos (+ um post)

Francis Williams, nega maluca holandesa e iconologia das línguas de trapo

Deus do céu! Mal acredito no que vejo.

Ai como nestas horas faz bem ter um São Tomé negão no altar. Não para rezar, claro, que em santo nem todos creem, mas, para no sentido estritamente filosófico de sua condição de santo cabreiro e desconfiado, nos orientar e proteger.

E para sempre ser louvado.

Muito curiosa mesmo a imagem não é não? Inquietantemente inusitada, diria. Pois é mais curiosa ainda a legenda resenhada no site de onde ela foi extraída hoje, sugerida lá no blog do Tio por um dileto leitor que prepara para ser um especialista em iconologia, o sempre atento Daniel Jorge.

“…A pintura pertence a um grupo pequeno, porém cada vez mais estudado de obras em que indivíduos negros são retratados em variados tipos de papéis, de subserviente ao erudito. Enquanto a representação dos negros em atividades intelectuais é raro, não é contudo inédito, este retrato de Francis Williams, o intelectual negro da Jamaica por volta de 1740, no Museu Victoria e Albert. O filho de ricos ex-escravos, Williams teve um estilo de vida europeu e a oportunidade de estudar poesia e matemática.

Em seu retrato, Williams é flagrado em seu estúdio com a cidade jamaicana de Hispaniola à distância. Enquanto o objecto da presente pintura também parece desfrutar de algum nível de luxo, o contexto é mais ambígua.”

Um argumento em favor da condição de escravo/ servo desta figura negra seria o estilo do vestido. Os ombros corte-trabalho e outras características do vestuário não parece típico do século 18, e poderia refletir os tipos, muitas vezes fantasiosas de trajes usados pelos escravos dos ricos durante este período.

Junto com outros estilos de pintura os artistas coloniais também imitavam o estilo europeu de se fazer retratos, muitas vezes com fortes referências à suas próprias tradições e temas. Uma pintura extremamente rara de um artista negro completando o retrato de uma mulher branca aristocrata representa essa fusão entre metrópole e conceitos indígenas.

A pintura, possivelmente executada no Brasil, fala acerca da posição e da integração de escravos na sociedade do século 18. Aqui, o artista está vestido em um traje, antiquado e fantasioso e usa um brinco, colar de prata e punho de braço, indicando a sua condição de servo ou escravo.

“…A origem da pintura é ainda incerta, no entanto, há fortes indícios de ser esta origem sugerida pela paisagem urbana vista através da janela na pintura. Os telhados desta animada cena de cor rosa avermelhado são específicos das pinturas de Portugal e do Brasil colonial, que esteve sob domínio Português até 1822. ”

(Carlton Hobbs, crítico de arte e colecionador inglês interessado na influência do negro africano na sociedade britânica)

Já havia ouvido falar de Francis Williams? Nem eu. Associar este nome assim tão britânico à coisas de preto então, nem pensar; senão é improvável, é uma ideia bastante fortuita. Bem, o Brasil não, mas a Jamaica já foi uma colônia inglesa, certo? E esta é a nossa pista mais quente, mas só quando a gente vai mais fundo na questão é que se dá conta destas relações.

É sempre assim com o tio, parece até espiritismo. Um leitor especialista lê um post da sua praia no blog. Instigado pelo tema sugere um desdobramento e daí, pronto: Caímos nós, levando vocês de roldão em mais uma história fantástica, daquelas que a gente jamais imaginava que ia conhecer.

O amigo leitor é, mais uma vez o Daniel Jorge, moço que se especializa em iconologia histórica e sempre nos brinda com imagens raras para lá de instigantes. Impossível, a partir delas não mergulhar mais e mais no assunto. Iconologia é isto aí: Vício mobilizador. Pólvora em rastilho sem fim.

Não sei porque os historiólogos de verdade mesmo não mergulham assim, apaixonadamente como nós neste mundo do ver para crer. Quanto mais se vê, mais nos apaixonamos pela confusão do palheiro e mais acreditamos que encontraremos mais cedo ou mais tarde todas as agulhas escondidas nele.

Acho que, incréus que são – frios e objetivamente ‘britânicos‘ – estas sumidades supostas em seus narizes empinados, subestimam o nosso arguto bom e subjetivo São Tomé. De certo subestimam o ‘ver para crer’ da iconologia, usada como fonte de estudo, porque aferrados que estão às aristocráticas manias de ser da academia, teimam em hierarquizar fontes de informações, tachando umas de mais idôneas que as outras, segundo critérios, no fundo no fundo, enrustidamente evolucionistas, pra lá de caquéticos, ou seja: dados de documentos escritos, oriundos de fontes oficiais, seriam mais críveis do que os de fontes outras, com as fontes orais no fim da fila e a iconologia, o estudo meticuloso de indícios contidos em imagens de época, num nível também bem abaixo do crítico.

Segundo esta metodologia ultrapassada já pela lógica dos fatos (a internet está aí para derrubar esta impropriedade, em dois tempos, todo dia), a visão de um pintor, um gravurista na maioria dos casos não seria uma fonte segura de dados porque a imagem pode ter sido ‘corrompida’ pelas ilações e opiniões do autor. O mesmo se diz das fontes orais, não raro a única fonte de opinião disponível em sociedades que, no passado, não tinham ainda o hábito ocidental da escrita.

Mas convenhamos: Porque acham eles que um memorando alfarrábico escrito por um nobre europeu, à serviço de sua Coroa não teria o mesmo problema, esta mesma contaminação por interesses omissos, pessoais ou mesmo ‘da Coroa’, sendo um doc. ‘chapa branca’ por assim dizer, pois, sendo como todas as outras fontes não mais que meia verdade…podem ser ao fim de tudo não mais que reles mentira?

É o elitismo residual de nossas ciências sociais, vivo dizendo aqui. Má ou nenhuma cientificidade podem estar escondidas nestas metodologias renitentemente arcaicas. Quer mesmo saber tudo sobre algo? Então duvide de tudo que é fonte oficialmentesegura‘, referendada por alguns poucos e olhe a questão por todos os ângulos e versões possíveis. Escolha bem o seu doutor referencial, o seu guru. Questione-o. Desestabilize-o, derrube-o de sua torre de marfim.

A versão oficial de um fato, eleita pela ‘norma culta‘ e suas metodologias pretensamente científicas, não raro se interessa muito mais pelo estabelecimento de mentiras do que pela busca da verdade. E isto é verdadeiro. As mentiras certas são sempre mais confortáveis à manutenção do status quo, para as coisas que nos são favoráveis permanecerem para sempre como estão. É esta a ideologia do negócio dos doutos, dos mais sabidos. É disso que a academia convencional (a cultura oficial) se alimenta e vive. A verdade é inalcançável sim, claro! É como o rabo do cachorro. Mas a busca dela é, ao fim de todas as contas, o que nos libertará e nos fará avançar para o futuro.

Tenho dito muito isto por aí.

Veja‘ então estes texto e imagens aqui com os outros olhos. Os olhos da perspicácia e do ´’pé atrás’.

Como cego – por enquanto – não sou, posso descrever o que vi no quadro facilmente. Vocês também: Mais detalhes posso dar – e darei – mais adiante, mas logo de cara o que vejo posso descrever assim:

Uma mulher negra – e não um homem – com um ar curiosamente divertido, vestida surpreendentemente com roupas europeias de homem, pintando uma tela que representa uma mulher branca com vestes aristocráticas, tendo ao fundo uma cidade, flagrantemente ‘brasileira’.

A princípio a legenda de Hobbs não cita a expressão ‘auto retrato’, no entanto afirma, sabe-se lá por conta de que elementos, que o retratado (ou autorretratado) seria Francis Williams, um notável cidadão Jamaicano sobre o qual também falaremos melhor a seguir. Não há contudo evidencias cabais de que o retratado seja, realmente ele, não estando justificado no texto tampouco de onde saiu esta informação essencial à compreensão de tão inusitado flagrante. E o Tio mesmo pode rechaçar a informação com uns poucos cliques de mouse.

O que me chamou mais a atenção e me instigou a pesquisa foi o fato de a dedução mais lógica a que Hobbs nos induz ao fazer esta sua afirmação, é a de que Francis Williams teria sido… homossexual, uma informação que neste caso seria, absolutamente escandalosa. Ora, afinal a descrição de Hobbs nos diz é ou não é a seguinte?

Um pintor jamaicano, negro liberto, rico e aristocrata no século 18, se assumindo, abertamente como homossexual e produzindo um autorretrato no qual está travestido de mulher pintando uma dama branca tendo ao fundo uma cidade jamaicana – ou brasileira –

_”Cuma?” _ Diria um bom e atônito Mussum diante de tão inusitada descrição. Maldei também, claro. Não sei bem de onde o cítico retirou tão impactante informação.

Viram só quantas pulgas podem pular, de repente em nossas orelhas só de olhar uma imagem assim?

Dei uma pesquisada boa, muito surpreso, é claro com a forte insinuação de homossexualismo negro colonial constante na legenda (não fosse já surpreendente o fato de um negro ser rico e aristocrata na Jamaica do século 18). E mais ainda: pelo fato dos dados historiográficos não baterem em muitos pontos.

Foi daí que de descobri coisas mais inusitadas ainda. O Carlton Hobbs, autor da resenha, por exemplo é um mui famoso e respeitado colecionador e crítico de arte inglês, de uma interessante corrente interessada na influência do negro das colônias inglesas na sociedade britânica. Até aí tudo bem, muito bacana, mas é interessante considerar também que, ao que fica subentendido pelas coisas que li sobre Hobbs (e nas fotos dele que observei) se percebe que ele pode ser um discreto simpatizante da causa homossexual e, ao que parece fez aquela insinuação – de que o autor teria se auto retratado vestido de mulher – a partir apenas de uma mera e apressada suposição.

Ai, meu São Benedito (quiçá puro e hetero como eu), será que este crítico é da tchiurma do Luiz Mott e do Peter Fry?

...Embora a figura do artista negro aparente estar usando um vestido, é provável que seja uma figura masculina. Como o estudioso Cheek Sheldon explica, o artista usa um brinco e um colar de prata, ambos os artigos comuns usadas pelos negros servos/escravos na Europa durante os séculos 17 e 18, o colar tradicionalmente indicando o estado de escravidão. As mulheres raramente usavam este colar de prata. O artista também parece estar usando uma “algema” de prata no braço.”

(Carlton Hobbs)

O fato é que não há nenhuma evidência desta afirmação – a de que no quadro há um homem travestido de mulher – em nenhuma dos muitos textos que li agora mesmo sobre o notável – e até hoje – desconhecido Francis Williams. Não há inclusive – fato admitido pelo próprio Hobbs – nem mesmo a certeza de que o quadro realmente seja do rico negro jamaicano Francis Williams ou qualquer outro homem negro, ou mesmo que a tela tenha sido pintada na Jamaica, já que o fundo descarta a possibilidade da tela representar Londres ou qualquer outro lugar na Europa.

Tudo mera suposição de Hobbs. Vai supor assim no mato… e sem cachorro.

É incrível como ao se avançar mais ainda na análise se pode observar que o figurino da imagem nos remete ao vestuário de um século antes da data alegada por Hobbs (e um século, em termos historiológicos é tempo demais). Embora Hobbs justifique esta digressão e o antiquado do figurino de forma, diga-se, bem descuidada (seria um recurso humorístico) a justificativa não me parece fazer o menor sentido. O chapéu, por exemplo, e o modelo da roupa da figura (como eu já disse claramente masculinas e de modo algum um ‘vestido‘) nos remete fortemente para a escola flamenga, de meados do século 17. É roupa holandesa com quase toda garantia.

Eu dataria a tela, com quase toda certeza na segunda metade do século 17 (década de 1640, provavelmente) da escola flamenga como disse e, sem dúvida, pintada por algum dos artistas da comitiva de artistas trazida ao Brasil por Maurício de Nassau (entre os quais Albert Ekchout ou um seu aprendiz, no Brasil ou na Holanda, pode ser o mais provável autor). Há a este respeito o forte indício também de que, a se julgar pelo casario bem brasileiro que aparece ao fundo, que a cidade provavelmente é Recife.

Nenhuma relação haveria portanto entre a tela do século 17 e um suposto pintor inglês jamaicano do século 18 que, de modo algum poderia ser Francis Williams que, também enfaticamente se pode afirmar, sob hipótese alguma, teria se travestido de mulher. Aliás, a hipótese de ser um outro homem (um pintor supostamente negro travestido de mulher) também é absolutamente descabida por falta de fundamentos.

…O filho de ex-escravos ricos, Williams teve um estilo de vida europeu e a oportunidade de estudar poesia e matemática. Neste quadro, Williams é retratado trabalhando tendo uma cidade jamaicana de Hispaniola ao fundo. Embora o tema da pintura demonstre que ele parece desfrutar de algum nível de luxo, o contexto da pintura possui aspectos um tanto ou quanto ambíguos.”

(Carlton Hobbs)

Mentirada grosseira – ou ignorante – esta resenha perpetrada por Hobbs. Ao que parece ele mistura os textos de dois quadros completamente diferentes produzindo uma resenha ‘branco-doida’ que denigre o pobre (embora rico) Francis Williams.

A hipótese mais provável do suposto pintor travestido ser, na verdade uma mulher negra, isto sim, vestida como um aristocrata em plena era da colonização holandesa é que seria, portanto o fato mais instigante da tela.

Afinal, quem seria a senhora branca quase de meia idade retratada na tela inacabada?

Vale para este quadro aliás, o mesmo que disse acerca de um quadro do mesmo período resenhado aqui mesmo no blog. O Tio então já dizia:

“A pintura, uma ‘tronie’ ou ‘rostro’ (em holandês), é uma técnica característica do ‘verismo’ flamengo do século 17, caracterizado como uma representação de um modelo com expressões inusitadas ou grotescas, com a finalidade de demonstrar o talento do artista para captar expressões de personagens. “

Acrescentaria ainda que há na imagem inquietantes indícios de uma ironia humorística – ou ‘fantasista‘, um ramo do ‘verismo‘ flamengo, talvez – cujo sentido, que está óbvio na implausibilidade – ou non sense – da situação descrita pelo quadro  (uma negra dama vestida de homem (a África holandesa?), pintando uma mulher branca em plena colonização holandesa (A Europa ibérica, portuguesa?) nos escapa ainda.

E atentem para o detalhe de que estes dados estão à vista de qualquer um, pois como se sabe, nem crítico de arte o Titio é.

De modo enviesado devo ressalvar também – e os simpatizantes da causa gay que me perdoem, se quiserem – que este proselitismo da hora, da moda, que propõe a existência de homossexualismo em tudo, em todos os âmbitos da sociedade, insinuado pelas sugestão resenhada por Hobbs, precisa começar logo a se basear em dados e evidências mais cabais, sob pena de desmoralizar a causa dos interessados.

Esta espécie de… merchandising LGBT, pretensamente historiológico (no qual os antropólogos Luiz Mott e Peter Fry têm sido os ‘scholars‘ e próceres mais incensados) é bem questionável e não poderá ser levado a sério por muito tempo, ainda mais quando assume estes falsos ares acadêmicos, esta presunção de ‘pés quebrados’ e mal ajambrada expressa pelo trabalho de pessoas como Carlton Hobbs, críticos de arte, técnicos especialistas supostos nas artes de São Tomé.

O verdadeiro Francis Williams, no século 18 em tela cheia de sugestões à sua intelectualidade exuberante

O verdadeiro Francis Williams, no século 18 em tela também algo jocosa, cheia de sugestões à sua intelectualidade exuberante

Por fim – e como eu fiquem pasmados um pouco mais – na verdadeira biografia de Francis Williams , o herói de nossa história (sim, o Tio foi lá ver quem era ele) há sinais evidentes de que se o quadro se referisse mesmo a ele, só teria sido com o fim de depreciá-lo postumamente, pois Francis foi odiado na Inglaterra, onde viveu por um bom tempo.

Por isto mesmo parece muito mais evidente que o quadro aludido por Hobbs (que, como disse presumo ser do século 17) foi usado no contexto de uma campanha difamatória grosseira contra um negro livre que por seu próprio esforço se tornou um renomado intelectual no auge do regime colonial britânico. Uma campanha racista por suposto.

(Tomara que o difamador não seja o próprio Hobbs)

As pistas são muito promissoras. Vejam o que descobri: O verdadeiro Francis Williams foi sim um negro jamaicano liberto (o pai era John Williams, negro rico protegido de um nobre inglês). Francis foi mandado para estudar em Cambridge num ‘experimento social’ (espécie de ‘cota racial‘ como se dizia na época) e se tornou um renomado professor, especializado em literatura e matemática. Francis voltou para a Jamaica na segunda metade do século 18 e fundou ali uma conceituada escola.

David Hume, contemporâneo de Francis Williams, era um filósofo muito respeitado por sua clareza de pensamento e uso construtivo de ceticismo. Racista convicto, no entanto (é uma das referencias ideológicas do Tea Party dos EUA), se incomodou demais com um negro como Francis Williams,  cuja simples existência desmentia as bases principais de suas teorias. Referindo-se aos negros (e a Williams, diretamente) Hume escreveu em 1742:

…Eu estou inclinado a suspeitar que os negros e, em geral, todas as outras espécies de homens (pois há quatro ou cinco tipos diferentes) são naturalmente inferiores aos brancos. Nunca houve uma nação civilizada de qualquer cor de pele diferente da do branco, nem mesmo qualquer indivíduo eminente em ação ou especulação.”

…Você pode obter algo dos negros, oferecendo-lhes bebida forte, e podem facilmente convencê-los a vender, não só os seus filhos, mas suas esposas e amantes por um barril de brandy.

“Havia dois professores negros da filosofia na Europa na época. O jamaicano a quem Hume se referia era Francis Williams, um professor bem-educado que compunha poesia em latim. Para Hume, no entanto, ele era apenas um ‘parrot’ (um papagaio), capaz de imitar os comentários dos outros, mas não de criar algo próprio:”

…Nenhum engenhoso fabricante entre eles, sem arte, sem ciência. Por outro lado, o mais rude e bárbaro dos brancos, como os antigos germanos, os tártaros, ainda tem algo eminente sobre eles, em seu valor, sua forma de governo, ou algum outro aspecto particular. Essa diferença uniforme e constante não poderia acontecer em tantos países e épocas se a natureza não tivesse feito uma distinção original entre estas raças de homens.

…Na Jamaica, de fato eles falam de um negro que é um homem educado e de muitos saberes, mas é provável que ele seja admirado por realizações muito banais como as de um papagaio, que imita algumas palavras claramente.”

(Clássica teoria racista de Hume em Philosophical Misadventures)

A ilação de Hobbs é, portanto desqualificada e rasteira, pois, parece estar assentada num raso preconceito expresso na biografia do jamaicano: Francis Williams, na época da franca germinação das teses evolucionistas e racistas mais radicais que se tornam recorrentes no século 19, incomodou muito a aristocracia inglesa e seus ‘scholars’ brancos por sua – para eles – inusitada capacidade intelectual. Por conta disto Francis foi vítima de uma insidiosa e ferrenha campanha de difamação por parte dos racistas da época, que não se conformaram de jeito nenhum que fosse possível um negro de tão especiais caraterísticas intelectuais sequer existir.

E mais: Francis Williams nunca foi pintor. Não há, neste mesmo sentido indício algum de que ele tenha sido homossexual (os textos racistas da época o acusam, no máximo, de pedantismo e arrogância intelectual) logo ele nunca se autorretratou vestido de mulher – até porque como podemos muito bem constatar acima, o quadro que sugere esta infâmia oportunista e estúpida, é de um século antes da ascensão de Francis Williams às frescuras e babados dos meios pedantistas da nobreza inglesa.

O quadro que Hobbs resenhou, caso fosse mesmo uma citação à Williams (o que eu duvido, pois, não encontrei nenhuma referencia a isto em outros autores) não passaria, pois, da apropriação indébita e desonesta de uma obra, flamenga com certeza, de outro contexto histórico e intenções estéticas portanto, aleatoriamente utilizada como charge grosseira, tentando difamar, ‘denegrir‘ e desqualificar moralmente um negro intelectual do século 18 que, como dissemos acima desmontava todo o arcabouço teórico que embasava o racismo ‘científico’ da ocasião.

Lamentável. É a minha conclusão final sobre o assunto.

É por estas falsetas iconológicas e por outras que virão que o Tio recomenda: Olhos abertos. Olhar e ver para crer. Mais do que nunca granjear a São Tomé toda a nossa contrita e irrestrita devoção.

Como dizem os crentes: A Verdade vos libertará.

Spírito Santo

Março 2012

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~ por Spirito Santo em 25/03/2012.

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