Batendo em cachorro morto Post #01 – A “Escolinha do prof. Kamel.


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Kamel: Qualquer semelhança é mera coincidência

Kamel: Qualquer semelhança é mera coincidência

Estudante branco e pobre é condenado”

“A cor da pele agora é uma questão institucional no Brasil”

Por Ali Kamel (sim, sim!) em editorial de ‘O Grobo”/ Publicado: 28/04/12 – 5h00

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Bem, para quem não está ligado uma informação chave: Os editoriais de “O Grobo’ em muitos casos ligados á questões raciais – e com toda certeza neste – são escritos pelo editor do jornal Ali Kamel. É fácil identificar. O estilo dele é raso, primário. Os textos são ginasianos e a argumentação frouxa e claudicante.

Como o texto não pode ser reescrito sem autorização e o articulista autor não vai autorizar mesmo, escrevo por mim mesmo em entrelinhas assinadas então:

(Calma seu “O Grobo”…Licença, marráio! Isto é apenas um longo comentário. A bronca, por enquanto ainda é livre. Não mando pa coluna de cartas de vocês porque a censura lá é muito pesada.)

(Começo logo rindo às gargalhadas):

Estudante… ‘branco’ “? Como assim? Mas, você, Kamel não dizia que não existiam raças? 

_Kkkkkkkk!

…Aprovadas por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento de uma ação sobre a aplicação do sistema pela Universidade de Brasília (UnB), as cotas raciais são um fato. Mas continua necessário discutir suas implicações. O fato é consumado, mas não seus desdobramentos. Não cabe ir contra a decisão judicial — em nenhuma hipótese, sob o risco de o estado de direito ser alvejado. Pertinente é discutir a execução da sentença. Mesmo que ela fosse em sentido contrário, contra as cotas.

É simbólica a reação de grupos indígenas ao veredicto. Se fica fácil chegar ao status de “estudante universitário”,sem considerar, no devido peso, o mérito escolar,é compreensível que etnias e “raças” queiram também um passaporte especial para embarcar nesta viagem rumo a uma suposta vida de sucesso profissional, independentemente de aptidões pessoais.Vende-se um sonho, como se não existisse a seleção do mercado de trabalho.”

Kkkkkkk” #01:

Todo o discurso de Ali Kamel, para quem não sabe é baseado em sofismas, ou seja, afirmações que apenas parecem corretas, mas que são erradas porque partem de premissas falsas, enganosas, grosseiramente mentirosas. E isto é anti jornalismo em todos os termos.

O mérito escolar”aludido por Kamel, por exemplo, é um sofisma claro. A afirmativa supõe que a escola privada e os cursos pré vestibulares de elite, realmente vendem saberes universais, formam seres mais inteligentes e preparados para ingressar na universidade. Ora, a premissa é claramente falsa. Esta parte de nosso sistema de ensino é, por excelência um mecanismo elitista de exclusão e reserva de mercado para uns poucos, caracterizado por um rede de ensino que barra economicamente a maior parte da população (que não por acaso é‘de cor’) a partir da venda de certos conteúdos pedagógicos usados como códigos de acesso (vestibulares).

O que os exames vestibulares clássicos avaliam não é, absolutamente o ‘mérito escolar’. Eles avaliam o domínio destes tais ‘códigos de acesso’. Quem pagou para dominar as chaves deste acesso, passa, muda de fase e ingressa na universidade.

A insidiosidade cínica deste sistema fica muito evidente quando se observa que a taxa de ingresso de estudantes pobres – negros ou brancos – na universidade antes das cotas era praticamente zero. A elite branca tinha a faca e o queijo na mão. Controlava o acesso e ocupava as vagas de ensino superior da universidade pública fianaciada por todos nós. Parasitas do sistema, em suma.

A este respeito, observe-se também que este ínfimo contingente de estudantes ‘brancos pobres’ hoje supostamente ‘condenados’, ‘discriminados’, jamais foi identificado e defendido por falsos paladinos panacas feito o Kamel. Acrescente-se ainda que, em todos os casos de cotas na educação, uma taxa para o ingresso de estudantes ‘brancos’ pobres, alunos da rede pública, está sendo sempre prevista e preservada. Kamel mente, portanto. Muito cínico o argumento. Puro lixo conceitual e jornalístico.

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…O STF discorda que, ao se importar um modelo racialista de uma sociedade constituída sobre “ raças”, a americana, o Brasil, construído na miscigenaçãonão entender como ausência de racismo —, estará se inoculando vírus de tensões inexistentes na história nacional.Que tenha razão o Supremo. Torçamos.”

Kkkkkk! #02:

O Brasil não está ‘importando uma sociedade constituída sobre raças‘ agora. Fala sério! O Brasil Éuma sociedade racista. Ninguém mais tem dúvida disto. A ideia de que o Brasil foi “construído na miscigenação”é claramente uma falácia. É simples se constatar isto, exatamente no âmbito das taxas de ocupação de nossas universidades, majoritariamente ocupadas por ‘brancos‘. Kamel não explica porque a tal da ‘miscigenação‘ não aparece refletida nos bancos das universidades. Omite a informação crucial que desmonta seu raso argumento. Kamel mente.

É óbvio ululante também que esta conversa de que as cotas raciais inoculam vírus de tensões inexistentes na história nacional”– além de mentirosa, pois, estas tensões já existem – é claramente terrorismo barato. Proselitismo grosseiro e mal intencionado. De novo jornalismo marrom.

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É da ideologia do “politicamente correto” que decisões “políticas” resolvem intrincados problemas. As cotas derivam desta fonte. Bem intencionada,a proposta pressupõe que o passe livre para a entrada no ensino superior operará milagres, sem considerar o mérito acadêmico.Engano. A cor da pele não pode substituir o conhecimento”…

Kkkkkk! #03

Aqui o panaca deixa escorrer todo o seu veneno racista. “Mérito acadêmico’ é um conceito que nada tem a ver com cotas de ingresso na universidade. ‘Mérito acadêmico’ se adquire. As universidades é que têm a obrigação de preparar os seus alunos, venham eles de onde vierem.

Após o ingresso, com ou sem cotas, os estudantes são formados de maneira totalmente igualitária. Todos devem ser considerados aptos. As distorções metodológicas da universidade elitista e excludente de antes devem ser corrigidas e pronto. Óbvio que teremos um novo conceito de universidade no Brasil: A universidade mais democrática que será impactada e transformada irremediavelmente de dentro para fora também, a medida em que tivermos mestrandos negros, doutorandos negros, professores negros enfim. O jogo estará zerado para todos.

Logo supor que os que ingressaram sob o sistema de cotas raciais não têm ou não terão condições de acompanhar os demais é um preconceito grosseiro. Insinua que os cotistas seriam intelectualmente inferiores e que os antigos estudantes, beneficiados pelo sistema elitista anterior, maioria ‘branca‘ que foram, seriam, ‘geneticamente‘ superiores.

A ginasiana e piegas frase a cor da pele não pode substituir o conhecimento”é racista de doer. Sugere que os ‘negros‘ são incapazes de adquirir conhecimento, mesmo que ingressem numa universidade.

Ai que nojo!

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“…Oportuno comentário o da pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Públicas da Universidade de São Paulo (USP) Eunice Durham: Você está tentando consertar a goteira do telhado, quando a casa está toda ruim. Em vez de reparar erros do passado, você dá cotas, que não reparam”. É certo. Apenas mascaram, de forma discriminatória, a baixa qualidade do ensino.

Mesmo nos Estados Unidos, onde as cotas se destacaram nas ações afirmativas, elas, por decisão da Suprema Corte tiveram sua ponderação reduzida nos programas de admissão de estudantes universitários.”

Kkkkkk! #04

Ali, imbecil ao quadrado, se vale aqui do sofisma da colega sei lá quemEunice Durham. A frase dela é um primor de non sense: …”em vez de reparar o passado…” (ou seja, admite a necessidade de reparação)…você dá cotas, que não reparam…” (ou seja, não fecha o argumento, pois não explica porque as cotas ‘não reparam’. Uma denúncia vazia). O sofisma dela repete o velho ramerrão de que é preciso aumentar a qualidade do ensino, pincipal bode expiatório dos neo racistas anticotistas.

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Criticar cotas raciais não deve ser interpretado como desconhecimento da realidade social e educacional do país, em quea grande massa de pessoas de baixa renda, de qualquer cor, continua a ter acesso apenas ao ensino público, quase sempre de nível deplorável.

Com as cotas,uma parcela dos jovens de baixa renda foi premiada, ganhou a sorte grande. O que fazer com o branco pobre? Este deve torcer para que as promessas oficiais de melhoria do ensino sejam cumpridas. Pelo ritmo de avanço dos programas de aprimoramento da escola pública, pelo menos parte de uma geração da “raça branca” de brasileiros de baixa renda foi condenada a não ascender ao ensino superior.

Kkkkkk! #05

Terrorismo barato. De novo. A qualidade do ensino no Brasil, não só no nível médio, mas na universidade também, nada tem a ver com as cotas raciais. Repetindo: as ações afirmativas na educação são muito abrangentes. Elas abrigam também pobres de qualquer ‘cor’ (cotas sociais já existem)

Só os mais tolos caem nesta esfarrapada mentira de Ali Kamel. A rigor, TODOS os jovens de baixa renda, negros ou brancos, estão abrigados nestas ações afirmativas. As chamadas ‘Cotas Sociais’, se universalidadas em detrimento das raciais, ajudariam, isto sim é a remendar o racismo, limitando ingresso de negros quase totalmente, pois, são eles que estão na base da pirâmide da exclusão. Para os racistas, as ‘cotas sociais’ eram um artifício de ceder os anéis para não perder os dedos.

Começaram a perder os dedos. Os dedos de Ali Kamel já doem.

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…”Aprovadas as cotas raciais, o problema da qualidade do ensino básico continua. E o branco pobre precisa se conscientizarda necessidade de ter melhor qualificação. A cor da pele agora é uma questão institucional no Brasil. É preciso conviver com ela eevitar as piores consequências.

Kkkkkk (meio assustado) # final

Como se sabe, o critério de cotas raciais apenas foca na parte mais crítica do sistema de educação vigente que exclui, flagrantemente as pessoas mais pobres que são, coincidentemente, em sua maioria pessoas ‘não brancas’ (‘negros‘ por suposto). Nenhuma ameaça a ordem social vigente. Pelo contrário, um sinal de congraçamento entre todos os brasileiros, pois trata-se apenas da democracia sendo exercida.

Ali não gosta de democracia? Claro que não! Pois vejam só que sintoma curioso:

Se Kamel repete sempre, como um mantra em seu discurso que não existem raças, que o Brasil é uma nação mestiça e tal e coisa, quem são estes ‘brancos‘ aí que ele se arvora em defender? Gente de Deus! Olha o rabo do racista de fora! Que pilantra!

E ainda se esconde como ‘editorialista fantasma’, colocando covardemente a culpa de seu racismo no jornal.

É vero. Aqui, por fim, as unhas sujas do Kamel racista fóbico aparecem. Prestem atenção que a expressão o branco pobre precisa se conscientizar da necessidade de ter melhor qualificaçãoé emblemática. Ali não fala aqui que TODOS precisam ter ‘melhor‘ qualificação. Tirou a máscara. Ele fala apenas dos brancos, colocados por ele como vítimas, como se a exortá-los a lutar contra o contexto que se configurou agora, com a aprovação das cotas raciais.

Reparem. Leiam de novo. O panaca anti jornalista, racista, dá uma de neo nazista aí e faz uma… ameaça velada, não é não?

Eu não disse?Eu não disse?Eu não disse?

Spírito Santo

Abril 2012

“Rosa Parks bus”. Justiça diz sim às cotas raciais no Brasil!


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http://www.communitygrows.org/2010/07/rosa-parks-garden/

Neo racistas, batidos, saltam fora do ponto pra morrer na praia.

Funk não. Vale um ‘Samba fox blues’: Guitarra, pandeiro e tamborim.

A letra diria algo assim:

Maiô rasgado, a Garota de Ipanema se esconde atrás do alambrado que esconde uma obra da Copa do Mundo e de lá vê a praia sendo invadida pelo criouléu.

_”Ô, my god!”

A ‘black galera” saltou em bando de um ônibus ‘piratão‘, amarelão, dirigido por uma velhinha chamada Rosa Parks. A velhinha com um sotaque esquisito, toda abusada, voz esganiçada, grita da janela do motorista para os mauricinhos e patricinhas que gastando a beleza nos bares da orla, olham para o ônibus caidaço, assustados:

_”Dá licença! Sai!Sai!Tira estes carros de bacana daí! A vaga está reservada. O ‘Bus da Rosa Parks’ vai estacionar aqui!Sai!Sai! –grita a velha, buzinando.

Maior burburinho. A galera negadinha partindo para a praia na maior animação, festejando sei lá o que.

Pra quê? A mauriçada e a patriçada assustada com aquele furdunço, aquela batucada exuberante, debandaram em polvorosa. Helicóptero da TV Globo filmando lá de cima, flash no plantão do ‘Bom Dia Rio”, edição extraordinária, com aquela musiquinha de terror. Não deu outra: a brancaiada pensou que era um arrastão, uma revolução haitiana, sei lá, que o morro tinha descido para o asfalto, como naquele samba pesadelo deles. Um “Pânico na TV” só.

_”Ô, my God!”

(Mas olhem bem vocês: Quando derem vez ao morro, toda cidade vai cantar)

Depois amainou. Deu até um ventinho de maresia, bem gostoso. As patricinhas voltaram, ficaram lá no cantinho delas, perto de um quiosque, os crioulinhos mais abusados fazendo ‘psiu‘ para elas, chamando elas de gostosas, os mauricinhos parrudos, escondendo as caras atrás das latas de energético, com medo de reagir e o criouléu, cheio de marra, cismar de engrossar.

Sabem como é: Isto aqui é um novo Brasil agora. As coisas acabam por se ajeitar, com o tempo, agora que preto tem também o seu lugar e que o lugar não é mais aquele gueto tão tão distante, apartado lá em ‘deus me livre’, não é mais  aquela favela lá no alto, aquele complexo do Alemão.

UPP é o cacete! Agora é rumo à pacificação real.

Acenei pra velhinha empolgado. Ela, me vendo velho também, que nem ela, respondeu piscando um olhinho, toda saidinha.

_”Eu heim! Vê se pode?”_  pensei eu, saindo de fininho, metido à garotão: “_  Só me faltava esta. Quem gosta de coroa é defunto, sô!”

Foi daí, pra disfarçar, que peguei o jornal de ontem e li:

Os três sofismas da derrotada Yvonne Maggie em seu último artigo contra as cotas em O Globo:

..Os brasileiros que como eu, nos meus dezesseis anos e até hoje, não se veem e não foram legalmente divididos em brancos e negros, em sua grande maioria não aceitam as leis raciais.

Mas quem os representa? Na audiência pública realizada em 2010 no STF a maioria dos convidados a se pronunciar era favorável às cotas raciais. Neste julgamento que se avizinha apenas duas vozes estarão defendendo a posição de Rosa Parks”

(Sofisma 1: Rosa Parks que se insubordinou contra a segregação racial desafiando a proibição de sentar no lado do ônibus reservado aos brancos, nunca declarou que seria contra as cotas raciais ou fez qualquer afirmação a favor da miscigenação como paradigma de coisa alguma. Yvonne se aproveita de forma eticamente desonesta do nome de Rosa fraudando o sentido do ato dela (e de quebra atacando Obama)

“.. A maioria quer reforçar a “raça” para depois extingui-la. Nem sempre a posição majoritária prevalece nestas situações, mas neste caso temo pela sorte do povo brasileiro, que preferiu ao longo de séculos se pensar a partir da metáfora dos três rios que se juntam em um novo e caudaloso”…

(Sofisma 2: Não existe nenhuma evidência de que o ‘povo brasileiro’ tenha ‘se pensado’ (rs rs rs) a partir do Mito as três raças. Isto sempre foi sim o pensamento oficial, o pensamento imposto por uma corrente de pensamento acadêmico elitista a qual Yvonne faz parte, a corrente do “Elogio à mestiçagem’. A evidencia da miscigenação servindo de pretexto para perpetuar o racismo contra os ‘não brancos’. E cá entre nós: esta versão do mito das três raças – ”três rios que se juntam em um novo e caudaloso”- é uma metáfora, piegas, cínica e oportunista, além de falaciosa.

…”que não criou (o povo brasileiro) leis segregacionistas e não proibiu o casamento entre pessoas de cores diferentes. Será mesmo que estes juízes conhecem suficientemente a História para decidirem sobre o destino de todos os brasileiros? “

(Sofisma 3: Ora, este artifício de colocar palavras na boca de terceiros é típico de gente que se vale de sofismas e falácias. Jamais seria o ‘povo brasileiro’ quem criaria leis contra o que quer que seja, como as segregacionistas, que proibiriam os casamentos inter raciais etc. Os juízes do Brasil é que criariam isto. Mas não o fizeram, e sabe-se muito bem agora porque.

Não o fizeram não porque o sistema era bonzinho. Estas leis não foram criadas simplesmente porque se estabeleceram após a Abolição barreiras sociais muito eficientes, terríveis, intransponíveis, que travaram a ascensão do negro até ontem, quando aí sim, por força da lei, se desmontou esta peça chave do nosso sistema de racismo: a exclusão social de pessoas do acesso à educação por conta de sua origem racial, peça do sistema racista brasileiro que a branquela Yvonne, neo racista que é, pretendia manter inalterada.

…E, finalmente a pergunta – agora inútil – que não quer calar: Quem seriam os dois juízes (as ‘duas vozes’) contra as cotas as quais Yvonne se referia?

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Rosa Parks, se viva fosse, ontem estaria em Brasília com o Spike Lee. Vendo a Yvonne na rua,, rabinho entre as pernas,  por certo lhe diria:

_”Perdeu branquela, perdeu! Agora pede pra sair. Vaza! Se manda. Levanta do meu ônibus e pega a sua limusine. Aqui não tem lugar para neo racistas não. Sai da frente que atrás vem gente.”

(…E foi daí que aquele ônibus ‘piratão‘ veio parar no Rio)

Spírito Santo
Abril 2012

Cotas já. A batata dos neo racistas assará em fogo brando


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(Na gravura de Ângelo Agostini. A Pátria repele os escravocratas.  Revista Ilustrada, c. 1880-1888). Na legenda se lê: “Não vos aproximeis de mim! Vossas mãos ainda tintas do sangue dos escravos manchariam as minhas vestes! Retirai-vos, eu não vos quero…” Na bandeira dos execrados fazendeiros escravocratas – amplie a gravura e veja – o dístico cínico: “Viva a República…com indemnização”)

O Passado em festa
“Abaixo a Monarchia abolicionista!”

E repararam bem no que diz a bandeira deles, lá em cima – incrível! Pois não é, praticamente o mesmo que dizem estes abolicionistas tardios tipo Ali Kamel & Cia. até hoje?

E notaram só o sinal trocado na informação? A supostamente… anacrônica ‘Monarchia‘ é quem propunha a Abolição dos escravos já que a, não menos supostamente moderna  ‘República‘, é quem queria de algum modo manter a escravidão ou tirar alguma vantagem dela antes do fim.

Pobres de nós! Ao que parece, já estávamos mal arranjados de modernidade desde aquelas priscas eras de Isabel, a redonda princesinha ‘redentora’.

Será que os nossos  ‘modernos’ de hoje, quando  a casa do racismo estiver prestes a desmoronar de vez e não tiverem mais alternativas, vão querer também pedir uma indenizaçãozinha ?

E a nossa …reparaçãozinha? Quando será que vem?

Kamel, Magnoli & Cia babam de prazer

O Jornal Nacional e o Bom Dia Brasil da TV Globo –  e, com certeza, o jornal de papel do mesmo grupo – sintomaticamente deram ontem e darão hoje pela manhã,  ares de manchete bombástica a tão infeliz notícia: a não inclusão das cotas raciais na UFRJ.

Só vai faltar – se é que vai – eles abrirem champanhe e soltarem fogos de artifício, comemorando o que, para os que pensam no futuro, não passa de uma constrangedora vitória do atraso, da ignorancia, da intolerancia mais estúpida de um grupo bem articulado de neo racistas aboletados em torno de um poderoso orgão da imprensa brasileira – e sabe-se lá apoiados por quem e em que mais – no intento de barrar o inevitável: A meticulosa demolição, pedra por pedra, pretexto a pretexto, do insidioso racismo do Brasil.

(Claro que eu sei que  eles alardeiam por aí que nós, os outros, é que somos… neo racistas. Mas afinal,  não são eles que pretendem perpetuar a exclusão sócio racial sob novos e cínicos pretextos? Então? É por isto mesmo que eu digo e repito: São eles os neo racistas sim e pronto)

Sofistas de meia tigela também, daqueles que não perdem por esperar.

E já que eles defendem estas esfarrapadas bandeiras do mais caquéticos dos atrasos – afinal, a batata deles está assando, em fogo brando desde 1888 – nada mais providencial do que repetir aquela velha palavra de ordem do tempo das lutas de libertação nacional na África colonial:

A luta continua! A Vitória é certa!

Spírito Santo
Agosto 2010

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(Repassando via Samuel Araújo, da UFRJ e  também assinando em baixo):

Carta aberta sobre as cotas na UFRJ

Ao contrário do que pretendem afirmar alguns setores da imprensa, o debate em torno de políticas afirmativas e de sua implementação no ensino universitário brasileiro não pertence à UFRJ, à USP ou a qualquer setor, “racialista” ou não, da sociedade. Soma-se quase uma década de reflexões, envolvendo intelectuais, dirigentes de instituições de ensino, movimentos sociais e movimento estudantil, parlamentares e juristas.

Atualmente, cerca de 130 universidades públicas brasileiras já adotaram políticas afirmativas – entre as quais, a das cotas raciais – como critério de acesso à formação universitária. Entre estas instituições figuram a UFMG, a UFRGS, a Unicamp, a UnB e a USP, que estão entre as mais importantes universidades brasileiras.

Em editorial da última terça-feira, 17 de agosto, intitulado “UFRJ rejeita insensatas cotas raciais”, o jornal O Globo assume, de forma facciosa, uma posição contrária a essas políticas afirmativas. O texto desmerece as ações encaminhadas por mais de cem universidades públicas e tenta sugestionar o debate em curso na UFRJ. Distorcendo os fatos, o editorial fala em “inconstitucionalidade” da aplicação do sistema de cotas, quando, na verdade, o que está em pauta no Supremo Tribunal Federal não é a constitucionalidade das cotas, mas os critérios utilizados na UnB para a aplicação de suas políticas afirmativas.

Na última década, enquanto a discussão crescia em todo o país, a UFRJ deu poucos passos, ou quase nenhum, para fazer avançar o debate sobre as políticas públicas. O acesso dos estudantes à UFRJ continua limitado ao vestibular, com uma mera pré-seleção por meio do ENEM, o que significa um processo ainda excludente de seleção para a entrada na universidade pública. Apesar disso, do mês de março para cá, o debate sobre as cotas foi relançado na UFRJ e, hoje, várias decisões podem ser tomadas com melhor conhecimento do problema e das posições dos diferentes setores da sociedade em relação ao assunto.

Se pretendemos avançar rumo a uma democracia real, capaz de assegurar espaços de oportunidades iguais para todos, o acesso à universidade pública deve ser repensado. Isto significa que é preciso levar em conta os diferentes perfis dos estudantes brasileiros, em vez de seguir camuflando a realidade com discursos sobre “mérito” (como se a própria noção não fosse problemática e como se fosse possível comparar méritos de pessoas de condição social e trajetórias totalmente díspares) ou sobre “miscigenação” (como se não houvesse uma história de exclusão dos “menos mestiços” bem atrás de todos nós).

Cotas sociais – e, fundamentalmente, aquelas que reconhecem a dívida histórica do Brasil em relação aos negros – abrem caminhos para que pobres dêem prosseguimento aos seus estudos, prejudicado por um ensino básico predominantemente deficiente. Só assim os dirigentes e professores das universidades brasileiras poderão continuar fazendo seu trabalho de cabeça erguida. Só assim a comunidade universitária poderá avançar, junto com o país e na contra-mão da imprensa retrógrada, representada por O Globo, em direção a um reconhecimento necessário dos crimes da escravidão, crimes que, justamente, por ainda não terem sido reconhecidos como crimes que são, se perpetuam no apartheid social em que vivemos.

Rio de Janeiro, 19 de agosto de 2010

Assinam os professores da UFRJ:

Alexandre Brasil – NUTES
Amaury Fernandes – Escola de Comunicação
André Martins Vilar de Carvalho – Filosofia/IFCS e Faculdade de Medicina
Anita Leandro – Escola de Comunicação
Antonio Carlos de Souza Lima – Museu Nacional
Beatriz Heredia – IFCS
Clovis Montenegro de Lima – FACC/UFRJ-IBICT
Eduardo Viveiros de Castro – Museu Nacional
Denilson Lopes – Escola de Comunicação
Elina Pessanha – IFCS
Fernando Alvares Salis – Escola de Comunicação
Fernando Rabossi – IFCS
Fernando Santoro – IFCS
Flávio Gomes – IFCS
Giuseppe Mario Cocco – Professor Titular, Escola de Serviço Social
Heloisa Buarque de Hollanda – Professora Titular, Escola de Comunicação/FCC
Henrique Antoun – Escola de Comunicação
Ivana Bentes – Diretora, Escola de Comunicação
Katia Augusta Maciel – Escola de Comunicação
Leilah Landim – Professora – Escola de Serviço Social
Leonarda Musumeci – Instituto de Economia
Lilia Irmeli Arany Prado – Observatório de Valongo
Liv Sovik – Escola de Comunicação
Liz-Rejane Issberner – FACC/UFRJ-IBICT
Marcelo Paixão – Instituto de Economia
Marcio Goldman – Museu Nacional
Marildo Menegat – Escola de Serviço Social
Marlise Vinagre – Escola de Serviço Social
Nelson Maculan – Professor titular da COPPE e ex-reitor da UFRJ
Olívia Cunha – Museu Nacional
Otávio Velho – Professor Emérito, Museu Nacional
Paula Cerqueira – Professora Instituto de Psiquiatria
Paulo G. Domenech Oneto – Escola de Comunicação
Renzo Taddei – Escola de Comunicação
Roberto Cabral de Melo Machado – IFCS
Samuel Araujo – Escola de Música
Sarita Albagli – Professora PPG-FACC-UFRJ/IBICT
Silvia Lorenz Martins – Observatorio do Valongo
Suzy dos Santos – Escola de Comunicação
Tatiana Roque – Instituto de Matemática
Virgínia Kastrup – Instituto de Psicologia
Silviano Santiago, Professor emérito, UFF

( e seguindoa  lista):

Spírito Santo – Artista visitante, UERJ

Facebook panaca vá pra #$%#@&*¨% que pariu!”


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Desejo ardentemente que morra estrangulada a galinha dos ovos de ouro dele!

(Carta aberta ao facepanaca ou qualquer um dos seus asseclas a quem interessar possa).

Da resenha do filme ‘Rede Social’, para quem não viu ou não leu:

Em 2003, na Universidade de Harvard, o estudante Mark Zuckerberg tem a ideia de criar um website para medir a beleza das estudantes de Harvard após sua namorada Erica Albright terminar com ele. Mark invade as bases de dados de vários alojamentos, baixa as fotos e o nome das estudantes e, em algumas horas, usando um algoritmo dado por seu melhor amigo Eduardo Saverin, ele cria o “FaceMash”, onde os estudantes homens escolhem quais das duas estudantes apresentadas são mais atraentes.

Mark é punido com seis meses de suspensão depois que as visitas do site fazem os servidores de Harvard cairem. Ele se torna uma espécie de “vilão” para a comunidade feminina de universidade…”

(A Rede Social’, o filme)

Dia destes Hermano Vianna mandou bem escrevendo sobre direito autoral e propriedade intelectual na internet, um tema no qual ele é considerado um especialista (também já dei os meus meus pitacos sobre este assunto, mas não cheguei a tanto). Hermano citava em seu artigo o Victor Hugo que dizia, de forma bem premonitória mais ou menos o seguinte: “O autor pode ser proprietário do livro, mas não do que nele está contido, propriedade que isto é de toda a humanidade”. O conceito – viram?- está ligado à intangibilidade das ideias, que, acho que o Hermano sacou brilhantemente, mas não aceitou – ou entendeu – ainda em toda a sua inteireza.

É que tangibilidade é exatamente a chave de toda esta questão controlada pelos poucos espertalhões que já sacaram tudinho. Sim. Nananinanão. Não vou ficar sentado a beira do caminho. Almejo como eles sacar, pelo menos alguma coisa.

Vi também dia destes uma exposição sobre a coleção de ‘Ex-Libris do Barão do Rio Branco na Academia Brasileira de letras e, de novo a sensação de estar diante de uma premonição me ocorreu.

Vocês sabem o que é um “Ex- Libris”? Parece coisa de cultura inútil. Daquelas que a gente deixa pra lá e nem fica afim de saber o que é. Pois não é que era bom saber? Aprendi lá: ‘Ex Libris’ são selos impressos, desenhos bordados à bico de pena, exclusivos e únicos, cheios de filigranas e simbologias gráficas que os dono de exemplares de livros, colecionadores com grandes bibliotecas, imprimem no frontispício dos seus livros para dizer, simplesmente: “este livro pode ser emprestado, mas lembre-se de que ele tem dono”. Lembrei na hora das licenças Criative Commons que eu uso na internet direto, doutrinado exatamente pelo velho site Overmundo, no qual o mesmo Hermano o ‘dono’ (e demais moderadores) fincou as bases do apreço pelas redes sociais em mim.

Dono‘, perceberam? Proprietário de objetos, no caso livros (ou sites), nos quais está ‘impressa‘ a obra, a alma, as ideias de alguém. A sutileza encerra um problema crucial de nosso tempo: Onde está contida agora, em tempos de internet, esta ‘obra‘ criada por um autor? Se já não somos nós, quem afinal é agora o proprietário das ideias que nós todos indivíduos – todas elas ideias autorais, por suposto – compartilhamos gratuitamente na internet?

Hora de se fazer mais perguntas.

O que gera propriedade intelectual Já pensaram nisto? No sentido do que o citado Victor Hugo parecia querer dizer, penso que – e já cansei de repetir isto sem me fazer entender – não seria de modo algum o conteúdo intangível da obra intelectual criada pelo autor, mas sim, talvez, a versão impressa (‘copiada‘) dela num livro, numa página de site ou em qualquer outro objeto (mídia) que multiplique e transporte, compartilhe, distribua esta ideia replicada e que, por esta razão, esta sua característica replicadora, multiplicadora, difusora enfim, pode ser comercializada por aí.

Dei uma enrolada boa para conceituar a coisa, como se ela fosse complexa, mas reparem. Não é. Não há nada mais simples que isto. Ora, convenhamos: apenas as coisas tangíveis, de algum modo materializadas, podem ser vendidas, comercializadas, trocadas por dinheiro. Não podemos ficar sendo (como antigamente eram) mineiros de piada comprando bondes, estátuas do cristo Redentor, caindo em contos de vigário como capiaus ingênuos. Era tudo golpe, gente. Vamos raciocinar.

Óbvio que só pode haver ‘direitos autorais’ gerados sobre o que foi vendido, comercializado. ‘Propriedade intelectual’, portanto seria outra coisa bem diversa, que diz respeito apenas ao direito do autor de ter a seu nome creditada a autoria daquela obra impressa, copiada. Se ninguém copiou, não existe direito autoral a ser cobrado. Ponto. São, portanto dois direitos distintos, não exatamente interdependentes, não acham não?

Um é o direito de ser reconhecido como autor da obra. O outro é o direito de autorizar ou não a replicação de sua obra, por qualquer meio ou mídia e ser remunerado – se assim o desejar – pela venda dela sob a forma de objetos (mídias) nos quais a obra foi ‘impressa‘, ‘gravada’.

O que a internet fez – e que é ambíguo e difuso ainda para muitos – foi diluir, esconder como num truque de mágica o conceito ‘objeto mídia’, imiscuindo as várias mídias anteriores numa só, criando uma outra, aparentemente intangível, surreal, tornando difícil para os vãos mortais entender de onde sai o dinheiro de algo que todos consomem, aparentemente de graça.

Mas gente. A Internet NÃO é a mídia. A mídia são os computadores, ora, os Pcs, os notebooks, os I-pads, os I-pods, os smart phones… Será que falei grego? Não.

Lembram do Mandrake? Aquele mágico de pince nez e fraque, assessorado por negão de maiô de oncinha? Pois é. Caiam na esparrela de seu ‘gesto hipnótico‘. Fiquem imóveis, com aquela interrogação das vítimas da prestidigitação dele num balãozinho sobre a cabeça ou parem, definitivamente para pensar.

Sigam o dinheiro.

Detesto estar me repetindo (afinal eu já disse isto tudo AQUI) , mas vejam: Quais são os ‘objetos mídias’ em que todos o conteúdos que compartilhamos na internet estão contidos? (Esta é fácil, mas eu dou um doce para quem me responder assim de pronto). E isto nos leva a segunda pergunta: Se a internet rende bilhões de dólares (em conteúdos vendidos) a meia dúzia de figurões (como este panaca do Zuckerberg), afinal quem é o proprietário desta josta, ‘O’ cara que está retendo o meu o seu, o nosso ‘direito autoral’ gerado pelos lucros desta venda? Afinal quem é o verdadeiro panaca nesta história?

Nós, claro.

(E não me subestimem, por favor. Não estou entrando naquele rumo raso da discussão levantada por Dona Ana de Holanda e seu pessoalzinho ligado ao ECAD. Falo dos sucessores desta gente amante do alheio, raposas tomadoras de conta de galinheiro. Falo dos espertinhos da vez)

Porque digo isto, assim agora? É porque está me parecendo que embriagados pelo canto de sereia da Internet Libertária estamos perdendo, abrindo mão cada vez mais de nossos direitos de ter e difundir informação abertamente. Acho que estamos caindo feito patinhos em redes de conversa sobre modernidade, pra lá de malandras e permitindo, por omissão que a internet se transforme, cada vez mais, num espaço de incúria intelectual, censura, irrelevâncias e mediocridade cada vez maior.

O pior de nós parece que está se replicando numa estranha reação de comodismo na rede, um ‘tudo bem’, ‘é assim mesmo‘, um “o que se há de fazer”, um ‘cuidado com as teorias de conspiração‘…

É como se milhões de agentes ‘smith de uma matrix bem mais babaca e desinteligente que a do filme, grosseira, inimiga da criatividade e da imaginação fosse prevalecendo, para o benefício de idiotas funcionais, apenas loucos por dinheiro (como, já disse, estes da laia do mauricinho Mark Zuckerberg, por exemplo).

O mundo, nosso velho mundo nunca muda de conteúdo. Isto é certo. Use o seu poder de síntese, separe os penduricalhos da suposta modernidade e perceba. Nada mudou. Só mudou mesmo de forma, ou seja, mudou a ordem dos fatores, mas não mudou o produto, a natureza dele que como se sabe é este velho planeta a carcomer-se pelo tempo. Cabe a nós cuidar para que ele não se deforme a ponto de perder o sentido de seu conteúdo, sua razão de ser que é apenas nos manter vivos e felizes povoadores (entre outros) e não meros zumbies repetidores dos anúncios e mantras imbecis dos facebabacas da vida.

E veja: Não é uma reflexão vaga esta. Romântica sim, talvez, mas nem um pouco irrelevante. Afinal, alguns de nós produzimos conteúdos diversos (uns poucos de nós, conteúdos até com certa relevância artística ou intelectual). Ao tempo de Victor Hugo apenas alguns eleitos ou mais abnegados faziam isto ou tinham acesso aos meios de se fazer isto. Hoje o direito de produzir e compartilhar sentidos, explicações para as coisas todas do mundo (ou simplesmente jogar conversa fora e fofocar) se tornou um direito universal. Com a internet somos todos – bons ou medíocres, não importa – compartilhadores de conteúdos que serão distribuídos para todo o mundo, instantaneamente. Somos todos, portanto autores e proprietários de ideias que podem ser distribuídas para bilhões mediante um único clique de mouse.

O problema é que – não nos demos conta disto totalmente ainda – nós os cedemos de graça, mas nossos conteúdos estão sendo vendidos sim, surrupiados por espertalhões que fingem nos prestar um serviço (nos dão acesso aos portais de um suposto ‘admirável mundo novo’) como aqueles químicos charlatães do fim do século 19 que vendiam em carroças mambembes falsos elixires para a cura de tudo. E, não só não nos curavam de coisa alguma, como chegavam mesmo a dentre nós matar alguns.

São eles, os nossos conteúdos compartilhados, criados ou copiados que geram estes bilhões todos, transformados que fomos em consumidores de conteúdos produzidos e distribuídos por nós mesmos, uns para os outros, numa espécie de autofagia prestes a deformar o nosso próprio sentido de mundo real.

Hermano Vianna fala em ‘abundância criativa’ na internet, o que eu acho um exagero em termos, pois, a percentagem de criação na internet deve ser um traço perto do zero. A essência da rede tem sido sempre o mais puro Chacrinha (ou Descartes, sei lá): É um ‘tudo se copia’ generalizado, vamos combinar. A questão que ninguém parece perceber é que:

1- O que se vende e dá lucro na internet são, exatamente estas ‘cópias‘ (criadas por nós ou pelos outros), estas que a gente disponibiliza graciosamente.

2- Logo, como a rede está formando bilionários (no que talvez seja o melhor negócio do planeta hoje) alguém está vendendo estas ‘cópias‘, lucrando com a veiculação massiva delas, associando anúncios pagos a elas, sem dividir os seus lucros com os eventuais autores (os compartilhadores).

Bem, como me disse alguém ontem: “Não existe almoço grátis”, um chavão que considero insuportável porque tem uma dose cínica de conformismo. Sem falar que ninguém me deu almoço algum,  já que compartilho conteúdos na internet à palo seco. O facebook não me dá nem um copo d’água em troca.

Me dava um tico de prazer e nem isto me dá mais.

—————–

Quero vingança. Cansado de ser enganado para acabar de endireitar, assim do nada fui bloqueado (e a desculpa foi a minha tentativa de postar uma foto de um jovem  – e irreconhecível – Hitler, soldado ainda, sem nenhuma legenda).

Ora, existem milhares de fotos do HItler, real e reconhecível no Facebook. Contem outra.

Alguém já parou para pensar que muitas das regras usadas de forma draconiana pelo Facebook por exemplo – estas que justificam bloqueios arbitrários de usuários – são simplesmente ilegais? Ora, existem leis no país. Se o acesso ao site, foi um direito adquirido no ato da inscrição de nosso perfil, a privação deste acesso precisa ser justificada, cabalmente e a acusação encaminhada autoridades quando for o caso.

O rito sumário de censurar um usuário que NÃO infringiu regra alguma não pode ser onipotente. Há invasão de privacidade (violação da correspondência pessoal por meio da leitura de mensagens privadas), calúnia e difamação , danos morais (a suspeição pública lançada contra o perfil como o de uma pessoa que infringiu regras graves de convivência), comerciais (no caso em que o perfil é usado para contatos profissionais), uma série de possíveis crimes do facebook que poderiam ser arrolados numa atitude de retaliação justa.

Isto tudo o facebook do panaca cometeu com este usuário que vos fala. Vai ficar assim? Não vão me acessar, se retratar publicamente, pensar no caso? Não. Então está certo. Me aguardem. Minha vingança ‘sará maligrina‘ como dizia aquele vampiro brasileiro do Chico Anísio.

E outra: Já perceberam em todas as fotos que postamos – isto sem falar na capa de nossos perfis –  que eles inserem, a nossa revelia um anúncio lá qualquer, de alguma porcaria que alguém pagou a eles para divulgar? Quem autorizou? Perguntaram a você se permitia aquilo? A opção de recusar o abuso existe, mas assim que voltamos à foto já existe outro anúncio lá. E outro e outro e mais outro. Canso o dedo de deletar anúncios nesta sacanagem irritante deles. Ora, isto é pura má fé, é ilegal, é apropriação indébita do nosso espaço, invasão de privacidade, pois, não ganhamos nem um vintém do que foi cobrado àqueles anunciantes.

E afinal, não é justamente isto que se chama na internet de ‘spam‘, uma prática asquerosa que o próprio Facebook diz combater? Que canalhice!

Cansei. Já sei, fiquei careca de saber agora que tudo que vocês do Facebook querem de mim são os conteúdos que compartilho, para vocês poderem colar anúncios chamarizes bem imbecis para os meus amigos comprarem coisas e fazerem a roda da fortuna de vocês girar. Quanto mais conteúdos eu compartilhar mais anúncios, quanto mais amigos eu tiver mais gente será atraída para a armadilha.

E agora ainda me vieram com a estúpida mania de controlar o que posso ou não posso postar, quem serão meus amigos, como me relacionarei com eles, o que posso dizer a eles (inclusive em mensagens privadas). Sei também – todo mundo sabe – que tudo que compartilho estarão nos arquivos de vocês para sempre para uso desconhecido e secreto.

Pois bem. Vão se danar. Vou reduzir drasticamente a minha quantidade de amigos e conteúdos. Vou fazer isto imediatamente e a minha meta é chegar a zero. Não  confio mais em vocês.

E outra: Se me bloquearem sumariamente de novo, seja lá por que razão for (vocês não têm este direito) podem ficar sabendo: deleto o facebook de vez da minha vida sem dó nem perdão. Ainda saio por aí queimando o filme desta josta em que vocês estão se transformando (isto aliás já estou fazendo agora mesmo)

Eu sou um dos milhões de ovinhos de ouro da galinha de vocês e, podem anotar aí: É de ovinho em ovinho que a galinha perde o papo.

Fiz isto com o Orkut, pai de todas as redes sociais (primo irmão de vocês) e não morri. Se querem mesmo saber, eu digo: Aqui vai o meu último aviso:

Você, facebook, bloqueou, sumaria e injustificadamente o meu perfil por três dias, violou a minha integridade moral lançando sobre ela suspeições completamente infundadas e afetou irremediavelmente a credibilidade que eu devotava à lisura do Facebook e de todas as redes sociais no que diz respeito à privacidade das minhas relações na rede.

Você,  facebook está então, a partir deste post, em processo de pré bloqueio. Por esta regra você cada vez menos vai poder me utilizar como recurso para atrair incautos leitores de anúncios. Saiba mais.

Para evitar ser bloqueado de vez, caro Facebook certifique-se de ler e entender os Padrões da comunidade dos não idiotas que usam ainda o Facebook.

The block will be active for ‘um tempão’.”

“Um, dois, três, quatro, cinco, mil, quero que o facebook vá pra puta que pariu!”

Spírito Santo

Maio 2012

Facebook é teletela de ‘1984’, o romance. Zucka, o aprendiz de ‘Big Brother’


Será que Zuckenberg – pastiche de ‘Big Brother’ – antes de morrer na praia nos afogará a todos?

Foi premido pela censura estúpida que nos hoje ronda na internet, bloqueado no Facebook arbitraria e sumariamente porque tentei postar uma prosaica foto de um jovem e desconhecido Adolf Hitler, sem nenhuma intenção de fazer apologia ao nazismo –  imagina, justo eu! – e sentindo manietado em meu direito de me comunicar com as pessoas, que me ocorreu fazer esta analogia recorrente.

Estaríamos enfim, no limiar da ditadura total prevista por George Orwell em 1948, na qual todos os nossos passos e ações estariam controlados por um sistema de comunicação planetário?

Eu sei. Já tentaram fazer esta analogia várias vezes. Talvez seja porque o livro de George seja mesmo genial no recorte que faz de nossas idiossincrasias de humanos cordeiros de nós mesmos, sempre prontos a marchar para algum abatedouro clean, insípido e inodoro.

Não acho que Mark Zuckemberg tenha nada de gênio não. Me parece mais um garoto mauricinho que gosta de dinheiro e sabe contratar pessoas certas para auxiliá-lo nesta maluquice, mas numa coisa eu acredito, piamente: ‘O Grande Irmão‘, o ‘Big Brother‘, o grão ditador, cruel e sanguinário já está entre nós, vestido com o manto diáfano da comunicação pela Internet. E o facebook do Zucka é um dos seus mais eficientes disfarces.

Senti isto na pele ontem.

Portanto, mesmo que você já tenha lido, sugiro que leia de novo o livro de Orwell, agora com os olhos mais abertos. Entenda as entrelinhas da novilíngua antes que ela te lamba e seja tarde demais.

“1984” de George Orwell -Resumo do romance

No mais famoso romance de George Orwell, a história se passa no “futuro” ano de 1984 na Inglaterra, ou Pista de Pouso Número 1, parte integrante do megabloco da Oceania.

É comum a confusão dos leitores com o continente homônimo real. O megabloco imaginado por Orwell tem este nome por ser uma congregração de países de todos os oceanos. A união da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), Reino Unido, Sul da África e Austrália não parece estar tão distante da realidade.

E a transformação da realidade é o tema principal de 1984. Disfarçada de democracia, a Oceania vive um totalitarismo desde que o IngSoc (o Partido) chegou ao poder sob a batuta do onipresente Grande Irmão (Big Brother).

Narrado em terceira pessoa, o livro conta a história de Winston Smith, membro do partido externo, funcionário do Ministério da Verdade. A função de Winston é reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do Partido. Nada muito diferente de um jornalista ou um historiador. Winston questiona a opressão que o Partido exercia nos cidadãos. Se alguém pensasse diferente, cometia crimidéia (crime de idéia em novilíngua) e fatalmente seria capturado pela Polícia do Pensamento e era vaporizado. Desaparecia.

Inspirado na opressão dos regimes totalitários das décadas de 30 e 40, o livro não se resume a apenas criticar o stalinismo e o nazismo, mas toda a nivelação da sociedade, a redução do indivíduo em peça para servir ao estado ou ao mercado através do controle total, incluindo o pensamento e a redução do idioma. Winstom Smith representa o cidadão comum vigiado pelas teletelas e pelas diretrizes do Partido. Orwell escolhera este nome na soma da ‘homenagem’ ao primeiro-ministro Winston Churchill com o uso do sobrenome mais comum na Inglaterra. A obra-prima foi escrita no ano de 1948 e seu titúlo invertido para 1984 por pressão dos editores. A intenção de Orwell era descrever um futuro baseado nos absurdos do presente.

Winston Smith e todos os cidadãos sabiam que qualquer atitude suspeita poderia significar seu fim. E não apenas sair de um programa de tv com o bolso cheio de dinheiro, mas desaparecer de fato. Os vizinhos e os próprios filhos eram incentivados a denunciar à Polícia do Pensamento quem cometesse crimidéia. Fato comum nos regimes totalitários.

Algo estava errado, Winston não sabia como mas sentia e precisava extravasar. Com quem seria seguro comentar sobre suas angústias? Não tendo respostas satisfatórias, Winston compra clandestinamente um bloco e um lápis (artigos de venda proibida adquiridos num antiquário).

Para verbalizar seus sentimentos, Winston atualiza seu diário usando o canto “cego” do apartamento. Desta forma ele não recebia comentários nem era focalizado pela teletela de seu apartamento. Um membro do Partido (mesmo que externo como Winston) tinha de ter um teletela em casa, nem que fosse antiga. A primeira frase que Winston escreve é justificavel e atual: Abaixo o Big Brother!

A vida de repressão e medo nem sempre fora assim na Oceania. Antes da Terceira Guerra e do Partido chegar ao poder, Winston desfrutava uma vida normal com os seus pais.

Mesmo Winston tinha dificuldades para lembrar das recordações do passado e da vida pré-revolucionária. Os esforços da propaganda do Partido com números e duplipensamento tornavam a tarefa quase impossível já que o futuro, presente e passado eram controlados pelo Partido.

O próprio ofício de Winston era transformar a realidade. No Miniver (Ministério da Verdade), ele alterava dados e jogava os originais no incinerador (Buraco da Memória) de tudo que pudesse contradizer as verdades do Partido. A função de Winston é uma crítica à fabricação da verdade pela mídia e da ascenção e queda de ídolos de acordo com alguns interesses.

O Partido informa: a ração de chocolate semanal aumenta para 20g para cada cidadão. O trabalho de Winston consistia em coletar todos os dados antigos em que descreviam que a ração antiga era de 30g e substitui-los pela versão oficial. A população agradece ao Grande Irmão pelo aumento devido aos propósitos midiáticos do poder. Winston entendia que adulterava a verdade, por muito tempo ele encobria a verdade para si, mas, aos poucos, ele começava a questionar calado e solitariamente. O medo de comentar algo era um dos trunfos do Partido para o controle total da população. Winston tinha esperança na prole. Na sua ingênua visão, que confunde-se com a biografia de Orwell em sua visão durante a guerra civil espanhola, a prole é a única que pode mudar o status quo.

Winston lembra dos “Dois minutos de ódio”, parte do dia em que todos os membros do partido se reunem para ver propaganda enaltecendo as conquistas do Grande Irmão e, principalmente, direcionar o ódio contido contra os inimigos (toteísmo usado amplamente pelo ser humano: odeie o seu inimigo e se identifique com o seu semelhante). Durante este ato, Winston repara num membro do Partido Interno, seu nome é O’Brien. Winston separou-se devido à devoção de sua esposa ao Partido.

Ela seguia as determinação que o sexo deveria ser apenas para procriação de novos cidadãos. O sexo como prazer era crime. Ao ver uma bela mulher, lembrou-se da última vez que fizera sexo. Havia três anos e com uma prostituta repugnante. Boicotar o sexo, como pretendem os atuais donos-do-mundo é uma das forças-motrizes para dominar a mente. Winston anotava tudo o que se passava pela sua cabeça. Um exercício proibido mas necessário. Anotar e lembrar pode ser muito perigoso.

O caso mais escandaloso que revoltava Winston era o de Jones, Aaronson and Rutherford, os últimos três sobreviventes da Revolução. Presos em 1965, confessaram assasinatos e sabotagens em seus julgamentos. Foram perdoados, mas logo após foram presos e executados. Após um breve período Winston os viu no Café Castanheira (Local mal-visto pelos cidadãos que não queriam cometer crimidéia). No ano do julgamento Winston refez uma matéria sobre os três ‘traidores’. Recebeu através do tubo de transporte que eles estavam na Lestásia naqueles dias, mas ele sabia que eles confessaram estar na Eurásia (naquela época a Eurásia era a inimiga, mas num piscar de olhos, a Lestásia deixava de ser a aliada e passava a ser a inimiga).

Esta é uma crítica às alianças políticas, principalmente ao pacto de Hitler e Stalin. Os nazistas chegaram ao poder financiados também por setores dos EUA para combater o avanço do comunismo. Durante a vigoração do pacto, a aliança entre Moscou e Berlim sempre existiu para a população dos dois países. Eles não eram amigos, eles sempre foram amigos! No ano seguinte, rumo ao ‘espaço vital alemão’, os russos sempre foram os inimigos. Sempre tinham sido. Bastante atual se compararmos o apoio logístico e bélico dado aos estaduinedenses a Saddam Hussein e Osama bin Laden para combater o comunismo. Agora, eles são os inimigos eternos.

A mentira do Partido era a prova que Winston procurava para si. Havia algo podre na Oceania. Winston, que era curioso mas não era burro, joga o papel que podia incriminá-lo no buraco da memória. Revoltado, escreve no seu diário que liberdade é poder escrever que dois mais dois são quatro. As fábricas russas ainda contém placas com o lema: dois mais dois são cinco se o partido quiser.

Não era bem-visto que membros do Partido frequentassem o bairro proletário. Winston estivera havia poucos dias no mesmo local para comprar seu diário. Depois de um costumaz bombardeio, Winston entrevista pessoas sobre como era a vida antes da guerra, mas os idosos não lembram mais, apenas futilidades e coisas pessoais. Ao voltar ao antiquário o proprietário tem uma surpresa para o curioso por antiquidades. Winston esperava ver algum objeto anterior ao Partido, mas o que o sr. Carrrington lhe mostra é um quarto com arrumação e mobílias antigas. Sem teletelas.

Winston, ao sair do antiquário, vê uma mulher e desconfia que ela seja uma espiã da Polícia do Pensamento. No dia seguinte, a encontra no Ministério da Verdade, o que aumenta o seu temor em ser denunciado. Ao passar por Winston, ela simula uma dor para desviar a atenção das teletelas, e lhe passar um bilhete escrito: “Eu te amo”.

As normas do Partido deixavam claro que membros do Partido, principalmente dos sexos opostos, não deveriam se comunicar a não ser a respeito de trabalho. Passaram-se semanas em conversas fragmentadas até conseguirem marcar um encontro num lugar secreto longe dos microfones escondidos. Winston só descobre seu nome após beijá-la. Júlia confessa que ficou atraída por Winston pelo seu rosto que parecia ir contra o partido. Estava na cara que Winston era perigoso à ordem e ao progresso.

Winston se surpreende ao saber que Júlia se ‘apaixonava’ com facilidade. O desejo dela era corromper o estado por dentro, literalmente. Para continuar seu romance com Júlia, Winston têm a idéia de alugar aquele quarto do antiquário.

Winston ficou impressionado e passou a acreditar que Júlia seria uma ótima companheira de guerra. Por enquanto, era a pessoa que Winston podia compartilhar seus sentimentos e secreções. Apaixonado, ele recupera peso e saúde. Enquanto isso, o partido organizava a “A Semana do Ódio ” (paródia dos mega-eventos políticos, principalmente as Reuniões de Nuremberg promovidas pelo partido Nazista e das paradas militares comunistas) e algumas pessoas desapareciam. Syme, filologista que dedicava-se a finalizar a décima-primeira edição do Dicionário de Novilíngua, tornou-se impessoa. Seu nome não estava mais nos quadros. Nunca esteve.

Certo dia, O’Brien, um membro do Partido Interno, percebe também que Winston era diferente dos outros. O’Brien o convida, para despistar as teletelas, a ir ao seu apartamento ver a nova edição do dicionário de novilíngua. O convite de O’Brien era incomum e fez Winston se animar com a possibilidade de uma insurreição. Ele passa a crer que a Fraternidade não era apenas peça de propaganda, a organização anti-Grande Irmão responsável por todos os danos causados na Oceania tal qual Bola-de-Neve em a “Revolucão dos Bichos”.

Winston leva Júlia ao encontro. Para espanto do casal, O’Brien desliga a teletela de seu luxuoso apartamento. Alguns integrantes do partido Interno tinham permissão para se desconectar de suas ‘bandas-largas’ por alguns instantes. Winston confessa seu desejo de conspirar contra o Partido, pois acreditava na existência da Fraternidade e para tal suas esperanças estavam depositadas em O’Brien. Os planos eram regados a vinho digno, artigo inviável para os integrantes do Partido Externo, e o brinde destinado ao líder da Fraternidade, Emanuel Goldstein. Dias depois, Winston recebe a obra política de Goldstein em seu cubículo.

Winston “devora” o livro enquanto Júlia não demonstra o mesmo interesse. Winston ainda acredita nas proles mesmo ao ver uma mulher cantando uma música pré-fabricada em máquinas de fazer versos. Nada muito distante da música atual. “Nós somos os mortos” filosofa Winston ao contemplar a vida simples da prole. A ignorância dos menos abastados não era perigo para o Partido e, portanto, não sofria tanta repressão quanto os membros, superiores e inferiores do Partido, a classe-média. “Nós somos os mortos” repete uma voz metálica. Sim, era uma teletela escondida atrás de um quadro. Guardas irrompem o quarto e Winston vai para uma cela, provavelmente, no Ministério do Amor.

Até as celas tinham teletelas que vigiavam cada passo de um Winston doente e faminto. Os prisioneiros têm a fisionomia dos do campo de concentração. Ao encontrar O’Brien, Winston que pensara que ele também fora capturado, escuta a frase mais enigmática do livro: “Eles me pegaram há muito tempo”.

Winston vai para uma sala e O’Brien torna-se o seu torturador. O’Brien explica o conceito do duplipensar, o funcionamento do Partido e questiona Winston das frases de seu diário sobre liberdade. O’Brien não esquece o que o Winston escreveu. A liberdade é o tema para que O’Brien explique durante a tortura o controle da realidade. Se fosse necessário deveriam haver quantos dedos em sua mão estendida o partido quisesse.

A verdade pertence ao Partido já que este controla a memória das pessoas. Winston, torturado e drogado começa a aceitar o mundo de O’Brien e passa ao estágio seguinte de adaptação que consiste em: aprender, entender e aceitar Winston sabia que já estava se adaptando e confessando que a Eurásia era inimiga e que nunca tinha visto a foto dos revolucionários. Mas ainda faltava a reintegração e este ritual de passagem só podria ser concluído no Quarto 101. Segundo O’Brien, o pior lugar do mundo.

O Quarto 101 é um inferno personalizado. Como Winston tem pavor de roedores, os torturadores colocaram uma máscara em seu rosto com uma abertura para uma gaiola cheia de ratos famintos separada apenas por uma portinhola. A única forma de escapar era renegar o perigo maior ao Partido, o amor a outra pessoa acima do Grande Irmão. “Pare. Faça isso com a Júlia.” Grita Winston.

Winston, libertado, termina seus dias tomando Gim Vitória e jogando sozinho xadrez no Castanheira Café. Ao fundo, seu rosto aparece na teletela confessando vários crimes. Ele foi solto e teve sua posição rebaixada para um trabalho ordinário num sub-comitê. Trajetória de milhares de pessoas de regimes totalitários, como o tcheco Thomaz de “A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera, o caso do médico que vira pintor de paredes ao renegar as ordens do partido não é muito diferente daqueles que não se adaptam em suas profissões no mundo livre S/A.

Júlia escapa também do Quarto 101. O Partido os separou e os dois só voltaram a se encontrar ocasionalmente. Já não eram mais as mesmas pessoas. Tinham “crescido” e se traído. Wisnton, no Café Castanheira, sorri. Está completamente adaptado ao mundo. Finalmente ele ama o Grande Irmão.

Livro citado pelo autor do artigo Wolf Borges:
• Livro 1984 – Edição Comemorativa – George Orwell

The amazing dahomey’s Amazons. As incríveis Amazonas do Dahomey


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Dahomey's Amazons. Pintura sobre foto do século 19

Dahomey’s Amazons. Pintura sobre foto do século 19

África e africanos no século 19 segundo os brancos assim e assados.

Seguindo a prosa das velhas afro novidades.

Todo mundo aqui já ouviu falar do Reino do Daomé, certo? Também ouvi, mas nunca a história particular deste encantado lugar. É que ele sempre esteve para mim – e para quase todos nós eu penso – relacionado à cultura religiosa dos nagôs, como uma espécie de ramo sucedâneo, subalterno da cultura yoruba que nos disseram ser hegemônica entre nós.

O Dahomey não passava para mim daquela pitadinha de coisas jêje (ou fon) que se diz existir no candomblé, que seria, ‘prioritariamente‘ nagô. Bem já cansei de falar disto, vocês já sabem como é.

(Ai como, o quanto fomos – e ainda somos- enganados.)

O Benin (que antigamente era este Daomé aí de nossa história de hoje) é um lugar fantástico, gente! Quase um crime terem camuflado por tanto tempo a história particular dele, tão visceralmente ligada ao Brasil por força dos ‘Agudás”, descendentes de brasileiros, baianos e católicos fervorosos, em sua esmagadora maioria, reunidos em torno de uma história escravista das mais emblemáticas e eletrizantes.

No Benin (antigo reino do Dahomey nos séculos 17 e 18) se estabeleceu uma das mais intensas, duradouras e cruéis experiencias escravistas da história humana, experiencia esta visceralmente ligada aos interesses comerciais, escravistas do Brasil e de Portugal.

Tanto quanto o Reino do Kongo, o Benin é pois o laboratório onde parte deste fenômeno a que chamamos tão rasamente ainda de ‘cultura afro-brasileira’ fermentou e se deu. Impossível para mim desde então, agora que achei este fio de meada, separar o Benin de nossa história de cultura negra na Diáspora.

A fervorosa ligação destes beninenses – os ‘agudás‘ principalmente – com o catolicismo português, associada a sua não menos fervorosa adoração pelo Vudu, religião tradicional local, a mistura curiosa entre estas duas tão diversas religiões, faz com que apareça agora límpido e claramente explicável para mim, aquele estranhamento que tinha, vendo quadros de entidades do vudu no Haiti, representadas por santos estranhamente brancos e católicos, Invasão de Santas Bárbaras, São Lázaros e São Josés nas praias de papa Loko, estas coisas contraditórias que fazem os simplistas engolirem em seco a sua tonteria.

Um eureka inaceitável para os reducionistas da negritude idealizada que pululam por aí e, vivem a me puxar os pés e as orelhas enquanto durmo, me tachando de iconoclasta traidor da raça só porque fiquei cansado de ser enganado.

Ah…Nem preciso me estender muito porque é justamente deste apagão nosso de cada dia que falo também desta vez.

Sim. Isto mesmo: Amazonas do Dahomey, África.

Quem daí de vocês da história destas bravas moças já ouviu falar?

Não. Não falo daquela lenda das caçadoras morenas (ou seriam louras?) que emprestaram seu nome para aquela floresta tão nossa (nossa?) que tem um estado do Brasil do mesmo nome plantado na selva mais impressionante do planeta.

E já que são…amazonas, mulheres guerreiras senhoras de si, posso afiançar com razoável certeza que o machismo ocidental não veio da África (pelo menos da África sub subaariana) A história a seguir é emblemática a este respeito.

Uma passarinha me diz: “Menos…menos”. Exagerei? Tá bom. Sei. Já entendi. Calma, calma que eu pondero, relativizo e explico.

(E tome ‘tchan, tchan, tchan, tchan”)

Dizem que ela – esta nossa história feminista ma non tropo – começou com o terceiro rei do Dahomey, Houegbadja, que reinou de 1645 a1685. Foi ele quem teria começado o que virou uma tradição nacional no Dahomey do século 19, montando um grupo feminino de caçadoras de elefantes chamado Gbeto. Os cronistas afirmam também, reforçando esta versão, que durante seu reinado de 40 anos Houegbadja teve várias esposas e teria montado também uma milícia feminina para a sua segurança pessoal.

E olhem só que coisa inusitada: sendo assim, Houegbadja teria sido então, provavelmente o inventor da Polícia feminina, uma instituição que havia até aqui no Rio de Janeiro em passado algo recente e que, sei lá porque, de repente desapareceu.

(E as moças lá do reino dele deviam gritar eufóricas e realizadas: _” Hei! Hei! Hei! Houegbadja é nosso rei!)

Dizem também estas nem boas nem más línguas, neste mesmo sentido dos fatos aqui narrados que o irmão de Houegbadja, seu sucessor o rei Agadja (que governou de 1708 a1732), gostou muito do babado e chegou a usar estas mulheres guerreiras na guerra do Dahomey contra o Reino vizinho de Savi em 1727. Estes mesmos cronistas estrangeiros em suas viagens à África chegaram a registrar a presença de guerreiras similares às do Dahomey entre os Ashanti do Ghana, famoso e grande reino vizinho.

O certo é este tipo inusitado de soldado – para os machistas modos branco ocidentais – foi ganhando a fama mundial de tropa mui forte e destemida no século seguinte, aterrorizando soldados europeus, franceses e ingleses que tremiam apavorados diante do ímpeto violento daquelas ‘falsas magras’ damas guerreiras.

Carte postale de Francois-Edmond Fortier représentant les Amazones du Dahomey

Carte postale de Francois-Edmond Fortier représentant les Amazones du Dahomey

Pano de fundo 01:

…Britânicos e os franceses lutavam entre si para controlar o Rio Níger, os franceses estão progressivamente impondo as suas regras no Dahomey. Inicialmente é assinado um tratado de “amizade e comércio”, em 1851, mas em 1861 eles obtêm a permissão para que missionários se mudassem para lá. Em 1864 obtiveram o protetorado da cidade Cotonou e o Reino da Porto Novo.”

…No fim do século 18 o Coronel Dodds, chefe do exército inglês está se preparando para atacar o Dahomey e tomar o reino dos franceses. O exército de Dodds é constituído por mais de 3000 homens que deixam o litoral de Cotonnou, e avançam sobre Abomey, a capital. Dodds está empenhado em atacar o rei Behanzin que governa o Reino.”

Já no século 19 esta já legendária tropa de mulheres estava inserida no corpo regular do majoriatariamente masculino exército do Dahomey passando a ser conhecida ali como ‘Mino‘ (palavra com o sentido de ‘mães‘ na língua fon). A partir do reinado do rei Ghezo (1818-1858), o Dahomey foi se transformando então, cada vez mais numa potência militar, já que Ghezo dava grande importância a defesa de seus interesses territoriais e comerciais.

É bom ir logo frisando que o tráfico de escravos era a atividade comercial principal do reino do Dahomey, atividade esta que estava na época sob férrea gestão do luso brasileiro Francisco Félix de Souza, o Xaxá de Ajudá, espécie de vice rei do Dahomey – ou primeiro ministro de Ghezo – figura controversa.

É que, sórdido como era, Xaxá sempre foi tratado com certa deferência por pesquisadores e militantes do movimento negro do Brasil nos anos 70 por ser…sei lá, supostamente mulato. Só sei que foi por esta época que, pela primeira vez ouvi falar deste Xaxá como tema de um samba enredo da valorosa ‘Granes Quilombo’ de Mestre Candeia.

Imaginem! Samba enredo para traficante. E… de escravos! Nem parece que Xaxá era do século 19. Ora, Xaxá era um cara do mal, gente. Posso apostar que sim porque ele talvez tenha sido o mais célebre traficante de escravos de toda a história. Como seria possível ele, mesmo assim ter sido um sujeito do bem? Só se fosse lá pras negas dele (e olha que ele, tanto quanto os reis locais as tinha. Muitas).

Hum! Sinto muito. Esta não dá para relativizar não, pessoal. O certo é que vocês nem precisam pedir: O tio não resistirá e, mais adiante, vai falar sim deste impressionante Xaxá(xodó dos tolos)num post posterior.

Dahomey Amazons em game 'War Empire'

Dahomey Amazons em game ‘Empire total War’ da Sega Games

Oh -suspiro!- Que belas e intrépidas eram aquelas bravas moças do Daomé!

E seguindo assim vos digo: Elas, as Amazonas do Dahomey vestiam-se com uniformes mui bem fashions e preparados, protegidas por muitos amuletos do vudu. Armadas com o mais completo dos equipamentos dinamarqueses (comprados com o lucro do tráfico de escravos) composto de fuzis winchester, lanças e facões, formavam nos áureos tempos do rei Ghezo um contingente entre 4000 e 6000 guerreiras (mais ou menos um terço de todo o exército do Dahomey)

Tendo tido como líder mais famosa, em certo tempo de sua história, uma mulher chamada Sedonghonbê, as brabas moçoilas do Dahomey eram recrutadas entre as ‘ahosi‘, que era como se chamavam as esposas do rei. A bem da meia verdade, eram também recrutadas à força, compulsoriamente, por meio da queixa de seus pais ou maridos ao rei, incomodados com o seu suposto ‘mau’ comportamento ou sabe- se lá porque outras mágoas ou broncas machistas.

(E aqui o espírito ocidentalista do femininismo de algumas leitoras, ensandecido com esta opressão masculina aparente, vai ser acometido pelo banho de água fria – com chiado das brasas encharcadas – que toda discussão homem versus mulher costuma gerar)

Mas peço calma às moças. Vamos e venhamos. Estas informações precisam ser relativizadas, pois, são todas oriundas de fontes europeias, precisando portanto de mais evidencias para serem corroboradas, principalmente dados extraídos do contexto da história oral do Dahomey, de sentidos mais explícitos da cultura local, para serem levadas totalmente a sério. Nestes casos – bem ensina o macaco velho – não dá para se tomar tudo ao pé da letra. É a lei da relatividade, gente, sem a qual toda verdade não verdadeira cai de madura.

Pano de fundo 02

Machões do mundo, tremei!

… Durante o seu engajamento na tropa as integrantes do Mino não podiam ter filhos nem privar de outras condições da vida no casamento. Muitas delas eram virgens.

O treinamento físico das integrantes era intenso. Era muito enfatizada a disciplina. Cativos que caíssem nas mãos das amazonas do Mimo eram frequentemente decapitados.”

Viram? Melhor não se precipitar, amigas. Muito provavelmente a razão para a adesão de tantas mulheres a uma empreitada desta, de vida ou morte, não podia ser explicada de forma tão banal. Só se todas as mulheres do Dahomey fossem estúpidas. Se eram perto de 6.000 armadas até os dentes, além de matar e degolar franceses e ingleses poderiam muito bem, na hora que entendessem, num surto de tpm coletivo que fosse, sair capando os maridos e os pais machistas com seus facões.

Todas querendo podiam até depor do trono o maridão e entronizar um ricardão qualquer para lhes servir de rei, ora ora.

Cronistas europeus, contem outra.

Pano de fundo 03

Sedonghonbeh é que era mulher de verdade.

“…O dia 26 de outubro de 1892 ficará para sempre marcado na cabeça do coronel Dodds. Segundo ele mesmo, foi “o dia mais mortal da guerra”. Quando os soldados do seu exército estava a 50 km de Abomey, capital do reino teve que enfrentar algo que nunca imaginavam que veriam um dia, um imenso exército bloqueando a sua passagem, feroz e armado até os dentes composto apenas por… mulheres! “

Rapidamente, Dodds foi informado: O exército era o corpo de “Amazonas” do rei Behanzin, mulheres guerreiras conhecidas por combater o inimigo com extrema violência.

Elas não têm absolutamente nenhum medo da morte. Em geral lutam na frente do exército dos homens, porque são implacáveis contra os seus inimigos e altamente resistentes.

Dodds já havia ouvido falar de Sedonghonbeh, uma mulher de coragem que liderava este exécito feminino de 6000 amazonas desde 1852. “

“Em 1890, o rei Behanzin havia negociado com os alemães a troca de escravos por 400 fuzis, 26.000 pistolas, seis revólveres, quatro metralhadoras e munições. A organização do exército de amazonas do Dahomey passou então a ser dividido em cinco batalhões especializados, incluindo três de infantaria:

Os franceses ficaram realmente surpresos com a coragem delas porque não hesitavam em avançar sobre eles, sempre que possível, decapitando-os brutalmente. Quando conseguiam enfrentar as tropas no corpo a corpo, saíam vencedoras na maioria das vezes. Algumas expressavam sua raiva e ódio aos franceses espancando até a morte aqueles que conseguiam capturar. Isto causava um medo pânico nos soldados, desestabilizando suas tropas. O que é certo é que o soldado que tivesse a infelicidade de cair nas mãos de uma amazona do Dahomey pouca chance teria de escapar.

No entanto, apesar de sua técnica e resistência física, estas amazonas não podiam suportar indefinidamente a pressão das tropas francesas que usavam equipamentos de guerra muito sofisticados e superiores. Elas morriam em maior número. Mesmo assim, só em novembro de 1892, quando do ataque francês à capital o Reino do Dahomey é que o corpo do amazonas foi derrotado.

O Rei Behanzin em fuga pelo interior do país continuou a lutar contra os franceses até 1894, mas no fim acabou deportado para a Martinica e depois para a Argélia.”

Pano de fundo final:

As nossas heroínas na cultura pop ocidental

As Amazonas do Daomé” foram representadas em 1987 no filmeCobra Verdedo diretor alemãoWerner Herzog. Como ‘As Amazonas de Ghezodesempenharam papel significativo na áudio novela deGeorge MacDonald Fraser da série ‘Flash man(“Flash para a liberdade”). As Amazonas do Dahomey estão também lindamente representadas (veja acima que imagem impressionante) no game de computadorEmpire: Total War(episódio 7).

E não é que encontrei também nesta rápida pesquisa para este post uma curiosa história em quadrinhos francesa (‘A civilização hostil ‘) que discorre sobre uma tal de Diamanka, que teria sido uma amazona do Dahomey capturada e aprisionada em Cotonnu que teria sido levada por um médico francês para a França afim de ser exibida como um animal de jardim zoológico no parque de aclimatação de Vincennes, em Paris (exatamente como ocorreu com a chamada Vênus Hotentote Shajie Sarah Baartman, da África do Sul, exibida como bicho na Inglaterra e sobre a qual falamos no post anterior).

Dahomey amazons num gibi  francês

A história de Diamanka, a Dahomey’s Amazon aprisionada num gibi francês

E é por isto que o tio fecha a tampa (por enquanto) afirmando, sem medo de errar: Os racistas todos – os de ontem e mais ainda os de hoje – são mesmos uns dementes, não são não?

Spirito Santo

Abril 2012

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Fontes e bibliografia:
http://www.cosmovisions.com/ChronoDahomey.htm
http://data.zestory.com/pls/zestory/p_fiche?i_sid&i_id_fiche=18669&i_lang=33
http://laplumeetlerouleau.over-blog.com/article-4284666.html

“Amazonas de Black Sparta: As mulheres guerreiras do Daomé”, Stanley B. Alpern, NYUP, 1998.http://www.dargaud.com/venus-du-dahomey/album-5103/la-civilisation-hostile/

A alma e a bunda de Sarah Baartmam. Os racistas é que são os bundões


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Nós devíamos saber, mas não sabíamos.

A ministra da cultura da Suécia e os estúpidos artistas que criaram esta aberração  (vejam no link) com certeza sabiam quem era e o que representou Sarah (Saartijie) Baartmam no imaginário racista do século 19. Fico pensando se a revelia e longe de nós, pessoas normais, estes doentes não ficam remoendo esta história nojenta, exercendo na calada os seus instintos bestiais.

É mesmo uma história abjeta. Há que se ter estômago de aço: Uma jovem africana da Cidade do Cabo, África do Sul, chamando a atenção de todos pelo tamanho descomunal de sua bunda é levada à Inglaterra onde é exibida como atração circense até morrer, pouco tempo depois.

Conhecia a história de relance. Já havia me deparado com a imagem da Sarah bunduda sendo vilipendiada, enojado com o sentido escatológico da história, marcada pela relação execrável que estes seres asquerosos da época fizeram entre negro, sexo e aberração animalesca.

Fiquei enojado ainda mais agora de saber que ainda hoje, em pleno século 21, o imaginário sórdido da mentalidade racista do século 19 ainda perdura entre europeus, ditos os cidadãos mais cultos e evoluídos do mundo.

Confesso: Tenho desprezo por esta gente (muito mais por saber que o ‘artista’ criador da ‘instalação, é negro) . Traduzi um texto com a história de Sarah Baartman com asco mesmo, tendo na memória a imagem da ministra da cultura (cultura?) rindo irresponsavelmente da cena que simbolizava o esquartejamento de uma mulher negra (a própria Sarah Baartman confeitada como um bolo com a cabeça de um ator em blackface) que eu pensava que já havia sido suficientemente enxovalhada naquele passado que nós, agora que sabemos, não iremos jamais esquecer.

Os brancos todos do mundo deviam ter vergonha da história de Sarah Baartman

“Muito pouco se sabe sobre os primeiros anos desta menina hotentote. Ela nasceu por volta de 1789, perto da província do Cabo, em algum lugar nas proximidades do rio Gamtoos, África do Sul. Por volta de 1806 ela se mudou para na Província do Cabo se fixando na zona rural de Maitland. Em 1810, enquanto trabalhava como empregada doméstica na fazenda de Pedro Cezar, sua vida mudou.

Ela foi persuadida por Alexander Dunlop, um cirurgião a embarcar em um navio para a Inglaterra, sem que ela imaginasse que nunca mais iria voltar à sua terra natal.

O Governador da província Lord Caledon deu permissão para que ela viajasse e a jovem Sarah por causa de seus dotes físicos acabou virando atração exibida como a “Vênus Hotentote”, como uma espécie de animal raro no Piccadilly Circus.

A opinião pública europeia e os cientistas ficaram fascinados por sua bunda e seus órgãos sexuais proeminentes. Sarah foi colocada então em uma gaiola e descrita como “um animal selvagem”. Espectadores divertidos pagavam ingressos e ela era exibida seminua, trancada numa gaiola.

Este tratamento desumano  contra a jovem Hotentote obrigou uma associação africana de Londres a mover uma ação contra Dunlop que foi levado a um tribunal. O caso foi encerrado, no entanto, após a apresentação de uma carta que indicava que Sarah havia concordado em vir para Londres “por sua própria vontade”.

Pouco se sabe do resto de sua vida na Inglaterra, mas está documentado que ela foi batizada em uma igreja anglicana em Manchester, Inglaterra, em 01 de dezembro de 1811. Há alguma indicação de que ela se casou com um índio e teve dois filhos.

Em 1814, Hendrik Cezar, irmão de seu antigo empregador Alexandre Dunplop, a levou para Paris, onde a vendeu para um showman, que a exibiu na Rue Neuve des Petits. Ela foi, mais uma vez objeto de divertimento e desprezo. Em março de 1815 ela foi examinada por uma comissão de zoólogos e fisiologistas e também foi pintada nua.

Sua saúde declinou rapidamente e ela morreu no ano seguinte, com a idade de 27 nos,  possivelmente, de pneumonia. Um molde do seu corpo de modo que uma imagem positiva pudesse ser criada foi construído em seguida à sua morte. A cópia de seu corpo construída a partir deste molde está ainda em exposição no Musée de l’Homme em Paris.

Poucas horas depois de sua morte foi concedida ao proeminente cientista francês Georges Cuvier a permissão para dissecar seu corpo. Após a dissecção, seu esqueleto juntamente com seu cérebro e as suas partes privadas foram instaladas num stand para exposição no museu. Em 1974 seus restos foram removidos armazenados fora da vista do público.

A luta para transladar seus restos de volta para a África do Sul começou em 1995, quando os governos sul africano e francês se reuniram para discutir o assunto. Em 21 de Fevereiro de 2002,  membros da assembleia Nacional francesa, por unanimidade votaram a favor do seu retorno à terra de seu nascimento.

Em 1 de Maio de 2002, os ativistas da volta de Sarah Baaartman à África natal se regozijaram quando os restos mortais dela finalmente retornaram à África do Sul após uma ausência de quase 200 anos.

Muitas festividades foram organizadas para comemorar seu retorno e para garantir que seus restos fossem, desta vez tratados com dignidade. Uma cerimônia tradicional hotentote foi realizada no domingo 4 de agosto de 2002.

Estas festividades foram interpretadas como uma oportunidade não para lamentar a morte de Sarah Baartman, mas sim para celebrar e honrar a sua vida e a sua memória.

Foram iniciadas gestões para escolher um lugar apropriado para Sarah ser sepultada. Diferentes grupos do leste a oeste da província do Cabo queriam ter a honra de sediar o túmulo dela, mas por fim decidiu-se enterrá-la no Cabo Oriental. Após diversas deliberações a decisão recaiu sobre Hankey, uma pequena cidade rural nas margens do rio Gamtoos, onde se acredita que Sarah nasceu.

O dia 09 de agosto de 2002 foi escolhido como a data do sepultamento. Numerosas personalidades sul africanas, incluindo o presidente da África do Sul Thabo Mbeki participaram do evento. Em seu discurso o presidente proclamou o local patrimônio nacional do país.”

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A amiga Bete Scg compartilhou excelente matéria sobre isto. Aqui está uma palinha com o blog linkado)

…Não foi com surpresa que Jay Gould (1990, p.272) notou ao visitar o Museu do Homem de Paris no início dos anos 1980, que próximo de onde estavam expostos os cérebros de “notáveis” como Descartes e Pierre Broca, representantes do racionalismo francês, não havia um só cérebro de mulher.

Como contraponto eram expostos os genitais de “uma negra, uma peruana e da Vênus Hotentote”. Se Saartjie servia no século XIX para marcar a diferença entre homens e mulheres, contribuiu também para que se construísse a identidade masculina européia. Segundo Sander Gilman (1985), foi o discurso médico que construiu o conceito de negritude.

O corpo feminino negro foi pensado como anormal, desviante em relação ao corpo masculino europeu. Nele, se articulavam categorias de raça e sexo que universalizadas acabaram por criar o estereótipo de hipersexualidade da mulher negra que impera até hoje e que foi estendida aos homens negros em geral.

Noções de que o tamanho dos órgãos sexuais (veja-se bem: manipulados) e das nádegas hotentotes eram, por fim, naturais a todas as mulheres negras, acabaram por criar o “mito científico” de que este tamanho era diretamente proporcional ao seu apetite sexual, o que fazia das negras mulheres devassas que não tinham domínio sobre o seu corpo, pura natureza.

(Janaína Damasceno em Patrícia Guinevere.blogspot)

Spírito Santo

Abril 2012

Saci Pererê / Spirito Santo & Grupo Vissungo


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Saci Pererê

(Ouça a música neste link)

Sei lá porque deu vontade de lembrar desta música justo agora: Eu bem garotão ainda, cantando e tocando o violão doido que aprendera um pouco no curso do Guerra Peixe, um pouco da minha inquieta intuição mesmo, incendiado pelos ares dos anos 70, começando a pesquisa de cultura negra, algo marcado pela música do Milton Nascimento sim, mas já com umas gracinhas estéticas inusitadas, muito particulares e curiosas pintando na cabeça para morarem para sempre em mim.

A Luena da história, ainda sem nome na época (era minha musa bebê) que nasceu em 1974 é a minha filha número 01, que atualmente mora em Londres e é feliz. Velhos tempos e muitas saudades da efervescencia boa que havia na cultura do país e, principalmente na disritmia malemolente da minha cabeça musical.

A letra da música, meio ela, meio eu acho que diz tudo:

(Para minha querida 1ª filha Luena)

Orixá ouriçando barriga de branca
Embrião sambando dentro
atabaque e beiço batucador
Um Saci pulou na noite
sarará, xereta, perguntador

Um bebê pererê
perereca, moleque
Saci, sararamiolê
miolo, sarará, Saci Pererê
Dengoso caxinguelê
miolo, sarará, Saci Pererê

Que num suvaco de um preto
uma branca se escondeu
barriga branca gorda,
bacuri, guri feijão com arroz

Que se a gazela é bela
a pantera pega pra comer
pega pra comer,
a pantera negra
pega pra comer,
pega pra comer, oi!

II
Que uma crioula cativa
que amansa a mão do feitor
com amor
gozou cantiga gemida
Saci cresceu na barriga
e o céu sararamiolou
e o céu sararamiolou

Que se a pantera é fraca
é a gazela quem pega pra comer
avisei, eu avisei

Que se a pantera é fraca
é a gazela quem pega pra comer
avisei, eu avisei

Que nasce um sararamiolô
crioulo louro, escravo com feitor
(bis)

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Acredite quem quiser, mas é uma gravação ao vivo de 1976. O grupo Vissungo, à época um trio composto por Spirito Santo (violão base e vocal), Lula Espírito Santo (baixo e coro) e Carlos Codó’ (violão base e solo)

O Show foi num teatro do SESC no centro de São Paulo
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Ficha técnica
Música de Spírito Santo composta em 1974

Spirito Santo (violão A / vocal)
Lula Espírito Santo (baixo)
Carlos Codó (violão B) – In memorian