A alma e a bunda de Sarah Baartmam. Os racistas é que são os bundões

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Nós devíamos saber, mas não sabíamos.

A ministra da cultura da Suécia e os estúpidos artistas que criaram esta aberração  (vejam no link) com certeza sabiam quem era e o que representou Sarah (Saartijie) Baartmam no imaginário racista do século 19. Fico pensando se a revelia e longe de nós, pessoas normais, estes doentes não ficam remoendo esta história nojenta, exercendo na calada os seus instintos bestiais.

É mesmo uma história abjeta. Há que se ter estômago de aço: Uma jovem africana da Cidade do Cabo, África do Sul, chamando a atenção de todos pelo tamanho descomunal de sua bunda é levada à Inglaterra onde é exibida como atração circense até morrer, pouco tempo depois.

Conhecia a história de relance. Já havia me deparado com a imagem da Sarah bunduda sendo vilipendiada, enojado com o sentido escatológico da história, marcada pela relação execrável que estes seres asquerosos da época fizeram entre negro, sexo e aberração animalesca.

Fiquei enojado ainda mais agora de saber que ainda hoje, em pleno século 21, o imaginário sórdido da mentalidade racista do século 19 ainda perdura entre europeus, ditos os cidadãos mais cultos e evoluídos do mundo.

Confesso: Tenho desprezo por esta gente (muito mais por saber que o ‘artista’ criador da ‘instalação, é negro) . Traduzi um texto com a história de Sarah Baartman com asco mesmo, tendo na memória a imagem da ministra da cultura (cultura?) rindo irresponsavelmente da cena que simbolizava o esquartejamento de uma mulher negra (a própria Sarah Baartman confeitada como um bolo com a cabeça de um ator em blackface) que eu pensava que já havia sido suficientemente enxovalhada naquele passado que nós, agora que sabemos, não iremos jamais esquecer.

Os brancos todos do mundo deviam ter vergonha da história de Sarah Baartman

“Muito pouco se sabe sobre os primeiros anos desta menina hotentote. Ela nasceu por volta de 1789, perto da província do Cabo, em algum lugar nas proximidades do rio Gamtoos, África do Sul. Por volta de 1806 ela se mudou para na Província do Cabo se fixando na zona rural de Maitland. Em 1810, enquanto trabalhava como empregada doméstica na fazenda de Pedro Cezar, sua vida mudou.

Ela foi persuadida por Alexander Dunlop, um cirurgião a embarcar em um navio para a Inglaterra, sem que ela imaginasse que nunca mais iria voltar à sua terra natal.

O Governador da província Lord Caledon deu permissão para que ela viajasse e a jovem Sarah por causa de seus dotes físicos acabou virando atração exibida como a “Vênus Hotentote”, como uma espécie de animal raro no Piccadilly Circus.

A opinião pública europeia e os cientistas ficaram fascinados por sua bunda e seus órgãos sexuais proeminentes. Sarah foi colocada então em uma gaiola e descrita como “um animal selvagem”. Espectadores divertidos pagavam ingressos e ela era exibida seminua, trancada numa gaiola.

Este tratamento desumano  contra a jovem Hotentote obrigou uma associação africana de Londres a mover uma ação contra Dunlop que foi levado a um tribunal. O caso foi encerrado, no entanto, após a apresentação de uma carta que indicava que Sarah havia concordado em vir para Londres “por sua própria vontade”.

Pouco se sabe do resto de sua vida na Inglaterra, mas está documentado que ela foi batizada em uma igreja anglicana em Manchester, Inglaterra, em 01 de dezembro de 1811. Há alguma indicação de que ela se casou com um índio e teve dois filhos.

Em 1814, Hendrik Cezar, irmão de seu antigo empregador Alexandre Dunplop, a levou para Paris, onde a vendeu para um showman, que a exibiu na Rue Neuve des Petits. Ela foi, mais uma vez objeto de divertimento e desprezo. Em março de 1815 ela foi examinada por uma comissão de zoólogos e fisiologistas e também foi pintada nua.

Sua saúde declinou rapidamente e ela morreu no ano seguinte, com a idade de 27 nos,  possivelmente, de pneumonia. Um molde do seu corpo de modo que uma imagem positiva pudesse ser criada foi construído em seguida à sua morte. A cópia de seu corpo construída a partir deste molde está ainda em exposição no Musée de l’Homme em Paris.

Poucas horas depois de sua morte foi concedida ao proeminente cientista francês Georges Cuvier a permissão para dissecar seu corpo. Após a dissecção, seu esqueleto juntamente com seu cérebro e as suas partes privadas foram instaladas num stand para exposição no museu. Em 1974 seus restos foram removidos armazenados fora da vista do público.

A luta para transladar seus restos de volta para a África do Sul começou em 1995, quando os governos sul africano e francês se reuniram para discutir o assunto. Em 21 de Fevereiro de 2002,  membros da assembleia Nacional francesa, por unanimidade votaram a favor do seu retorno à terra de seu nascimento.

Em 1 de Maio de 2002, os ativistas da volta de Sarah Baaartman à África natal se regozijaram quando os restos mortais dela finalmente retornaram à África do Sul após uma ausência de quase 200 anos.

Muitas festividades foram organizadas para comemorar seu retorno e para garantir que seus restos fossem, desta vez tratados com dignidade. Uma cerimônia tradicional hotentote foi realizada no domingo 4 de agosto de 2002.

Estas festividades foram interpretadas como uma oportunidade não para lamentar a morte de Sarah Baartman, mas sim para celebrar e honrar a sua vida e a sua memória.

Foram iniciadas gestões para escolher um lugar apropriado para Sarah ser sepultada. Diferentes grupos do leste a oeste da província do Cabo queriam ter a honra de sediar o túmulo dela, mas por fim decidiu-se enterrá-la no Cabo Oriental. Após diversas deliberações a decisão recaiu sobre Hankey, uma pequena cidade rural nas margens do rio Gamtoos, onde se acredita que Sarah nasceu.

O dia 09 de agosto de 2002 foi escolhido como a data do sepultamento. Numerosas personalidades sul africanas, incluindo o presidente da África do Sul Thabo Mbeki participaram do evento. Em seu discurso o presidente proclamou o local patrimônio nacional do país.”

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A amiga Bete Scg compartilhou excelente matéria sobre isto. Aqui está uma palinha com o blog linkado)

…Não foi com surpresa que Jay Gould (1990, p.272) notou ao visitar o Museu do Homem de Paris no início dos anos 1980, que próximo de onde estavam expostos os cérebros de “notáveis” como Descartes e Pierre Broca, representantes do racionalismo francês, não havia um só cérebro de mulher.

Como contraponto eram expostos os genitais de “uma negra, uma peruana e da Vênus Hotentote”. Se Saartjie servia no século XIX para marcar a diferença entre homens e mulheres, contribuiu também para que se construísse a identidade masculina européia. Segundo Sander Gilman (1985), foi o discurso médico que construiu o conceito de negritude.

O corpo feminino negro foi pensado como anormal, desviante em relação ao corpo masculino europeu. Nele, se articulavam categorias de raça e sexo que universalizadas acabaram por criar o estereótipo de hipersexualidade da mulher negra que impera até hoje e que foi estendida aos homens negros em geral.

Noções de que o tamanho dos órgãos sexuais (veja-se bem: manipulados) e das nádegas hotentotes eram, por fim, naturais a todas as mulheres negras, acabaram por criar o “mito científico” de que este tamanho era diretamente proporcional ao seu apetite sexual, o que fazia das negras mulheres devassas que não tinham domínio sobre o seu corpo, pura natureza.

(Janaína Damasceno em Patrícia Guinevere.blogspot)

Spírito Santo

Abril 2012

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~ por Spirito Santo em 18/04/2012.

3 Respostas to “A alma e a bunda de Sarah Baartmam. Os racistas é que são os bundões”

  1. fiquei chocada com a historia esta africana, muito sentida com tudo isto
    estes foi mesmo orrivel, o que fizerao, com ela , eu nem dormi a noite de pensar que coitada trasida para ser escravisada na europa etc……..

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  2. E mesmo assim – vamos combinar – tanto no IX como no XXI é injustificável usar uma pessoa como animal de circo ou a sua imagem como piada escatológica.

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  3. Sabemos que no séc. IX, as ciencias tentavam justificar as aberrações do racismo com teorias, como essas da hiper sexualidade, do instinto selvagem etc., mas em pleno séc, XXI, uma autoridade aviltar a memória de uma pessoa, qure merecia antes um pedido de perdão, dessa forma, é de causar asco!

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