Cotas já. A batata dos neo racistas assará em fogo brando

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(Na gravura de Ângelo Agostini. A Pátria repele os escravocratas.  Revista Ilustrada, c. 1880-1888). Na legenda se lê: “Não vos aproximeis de mim! Vossas mãos ainda tintas do sangue dos escravos manchariam as minhas vestes! Retirai-vos, eu não vos quero…” Na bandeira dos execrados fazendeiros escravocratas – amplie a gravura e veja – o dístico cínico: “Viva a República…com indemnização”)

O Passado em festa
“Abaixo a Monarchia abolicionista!”

E repararam bem no que diz a bandeira deles, lá em cima – incrível! Pois não é, praticamente o mesmo que dizem estes abolicionistas tardios tipo Ali Kamel & Cia. até hoje?

E notaram só o sinal trocado na informação? A supostamente… anacrônica ‘Monarchia‘ é quem propunha a Abolição dos escravos já que a, não menos supostamente moderna  ‘República‘, é quem queria de algum modo manter a escravidão ou tirar alguma vantagem dela antes do fim.

Pobres de nós! Ao que parece, já estávamos mal arranjados de modernidade desde aquelas priscas eras de Isabel, a redonda princesinha ‘redentora’.

Será que os nossos  ‘modernos’ de hoje, quando  a casa do racismo estiver prestes a desmoronar de vez e não tiverem mais alternativas, vão querer também pedir uma indenizaçãozinha ?

E a nossa …reparaçãozinha? Quando será que vem?

Kamel, Magnoli & Cia babam de prazer

O Jornal Nacional e o Bom Dia Brasil da TV Globo –  e, com certeza, o jornal de papel do mesmo grupo – sintomaticamente deram ontem e darão hoje pela manhã,  ares de manchete bombástica a tão infeliz notícia: a não inclusão das cotas raciais na UFRJ.

Só vai faltar – se é que vai – eles abrirem champanhe e soltarem fogos de artifício, comemorando o que, para os que pensam no futuro, não passa de uma constrangedora vitória do atraso, da ignorancia, da intolerancia mais estúpida de um grupo bem articulado de neo racistas aboletados em torno de um poderoso orgão da imprensa brasileira – e sabe-se lá apoiados por quem e em que mais – no intento de barrar o inevitável: A meticulosa demolição, pedra por pedra, pretexto a pretexto, do insidioso racismo do Brasil.

(Claro que eu sei que  eles alardeiam por aí que nós, os outros, é que somos… neo racistas. Mas afinal,  não são eles que pretendem perpetuar a exclusão sócio racial sob novos e cínicos pretextos? Então? É por isto mesmo que eu digo e repito: São eles os neo racistas sim e pronto)

Sofistas de meia tigela também, daqueles que não perdem por esperar.

E já que eles defendem estas esfarrapadas bandeiras do mais caquéticos dos atrasos – afinal, a batata deles está assando, em fogo brando desde 1888 – nada mais providencial do que repetir aquela velha palavra de ordem do tempo das lutas de libertação nacional na África colonial:

A luta continua! A Vitória é certa!

Spírito Santo
Agosto 2010

————-

(Repassando via Samuel Araújo, da UFRJ e  também assinando em baixo):

Carta aberta sobre as cotas na UFRJ

Ao contrário do que pretendem afirmar alguns setores da imprensa, o debate em torno de políticas afirmativas e de sua implementação no ensino universitário brasileiro não pertence à UFRJ, à USP ou a qualquer setor, “racialista” ou não, da sociedade. Soma-se quase uma década de reflexões, envolvendo intelectuais, dirigentes de instituições de ensino, movimentos sociais e movimento estudantil, parlamentares e juristas.

Atualmente, cerca de 130 universidades públicas brasileiras já adotaram políticas afirmativas – entre as quais, a das cotas raciais – como critério de acesso à formação universitária. Entre estas instituições figuram a UFMG, a UFRGS, a Unicamp, a UnB e a USP, que estão entre as mais importantes universidades brasileiras.

Em editorial da última terça-feira, 17 de agosto, intitulado “UFRJ rejeita insensatas cotas raciais”, o jornal O Globo assume, de forma facciosa, uma posição contrária a essas políticas afirmativas. O texto desmerece as ações encaminhadas por mais de cem universidades públicas e tenta sugestionar o debate em curso na UFRJ. Distorcendo os fatos, o editorial fala em “inconstitucionalidade” da aplicação do sistema de cotas, quando, na verdade, o que está em pauta no Supremo Tribunal Federal não é a constitucionalidade das cotas, mas os critérios utilizados na UnB para a aplicação de suas políticas afirmativas.

Na última década, enquanto a discussão crescia em todo o país, a UFRJ deu poucos passos, ou quase nenhum, para fazer avançar o debate sobre as políticas públicas. O acesso dos estudantes à UFRJ continua limitado ao vestibular, com uma mera pré-seleção por meio do ENEM, o que significa um processo ainda excludente de seleção para a entrada na universidade pública. Apesar disso, do mês de março para cá, o debate sobre as cotas foi relançado na UFRJ e, hoje, várias decisões podem ser tomadas com melhor conhecimento do problema e das posições dos diferentes setores da sociedade em relação ao assunto.

Se pretendemos avançar rumo a uma democracia real, capaz de assegurar espaços de oportunidades iguais para todos, o acesso à universidade pública deve ser repensado. Isto significa que é preciso levar em conta os diferentes perfis dos estudantes brasileiros, em vez de seguir camuflando a realidade com discursos sobre “mérito” (como se a própria noção não fosse problemática e como se fosse possível comparar méritos de pessoas de condição social e trajetórias totalmente díspares) ou sobre “miscigenação” (como se não houvesse uma história de exclusão dos “menos mestiços” bem atrás de todos nós).

Cotas sociais – e, fundamentalmente, aquelas que reconhecem a dívida histórica do Brasil em relação aos negros – abrem caminhos para que pobres dêem prosseguimento aos seus estudos, prejudicado por um ensino básico predominantemente deficiente. Só assim os dirigentes e professores das universidades brasileiras poderão continuar fazendo seu trabalho de cabeça erguida. Só assim a comunidade universitária poderá avançar, junto com o país e na contra-mão da imprensa retrógrada, representada por O Globo, em direção a um reconhecimento necessário dos crimes da escravidão, crimes que, justamente, por ainda não terem sido reconhecidos como crimes que são, se perpetuam no apartheid social em que vivemos.

Rio de Janeiro, 19 de agosto de 2010

Assinam os professores da UFRJ:

Alexandre Brasil – NUTES
Amaury Fernandes – Escola de Comunicação
André Martins Vilar de Carvalho – Filosofia/IFCS e Faculdade de Medicina
Anita Leandro – Escola de Comunicação
Antonio Carlos de Souza Lima – Museu Nacional
Beatriz Heredia – IFCS
Clovis Montenegro de Lima – FACC/UFRJ-IBICT
Eduardo Viveiros de Castro – Museu Nacional
Denilson Lopes – Escola de Comunicação
Elina Pessanha – IFCS
Fernando Alvares Salis – Escola de Comunicação
Fernando Rabossi – IFCS
Fernando Santoro – IFCS
Flávio Gomes – IFCS
Giuseppe Mario Cocco – Professor Titular, Escola de Serviço Social
Heloisa Buarque de Hollanda – Professora Titular, Escola de Comunicação/FCC
Henrique Antoun – Escola de Comunicação
Ivana Bentes – Diretora, Escola de Comunicação
Katia Augusta Maciel – Escola de Comunicação
Leilah Landim – Professora – Escola de Serviço Social
Leonarda Musumeci – Instituto de Economia
Lilia Irmeli Arany Prado – Observatório de Valongo
Liv Sovik – Escola de Comunicação
Liz-Rejane Issberner – FACC/UFRJ-IBICT
Marcelo Paixão – Instituto de Economia
Marcio Goldman – Museu Nacional
Marildo Menegat – Escola de Serviço Social
Marlise Vinagre – Escola de Serviço Social
Nelson Maculan – Professor titular da COPPE e ex-reitor da UFRJ
Olívia Cunha – Museu Nacional
Otávio Velho – Professor Emérito, Museu Nacional
Paula Cerqueira – Professora Instituto de Psiquiatria
Paulo G. Domenech Oneto – Escola de Comunicação
Renzo Taddei – Escola de Comunicação
Roberto Cabral de Melo Machado – IFCS
Samuel Araujo – Escola de Música
Sarita Albagli – Professora PPG-FACC-UFRJ/IBICT
Silvia Lorenz Martins – Observatorio do Valongo
Suzy dos Santos – Escola de Comunicação
Tatiana Roque – Instituto de Matemática
Virgínia Kastrup – Instituto de Psicologia
Silviano Santiago, Professor emérito, UFF

( e seguindoa  lista):

Spírito Santo – Artista visitante, UERJ

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~ por Spirito Santo em 26/04/2012.

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