A Lama do Valongo e a antropologia do Caô / Post #02


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(Leia post anterior da série neste link)

Toni Malau século 18 - Metropolitan Museun New York

Afinal, arqueologia de que, de quem e para quem?

Post “freio de arrumação”(antes de falar, conheça um pouco mais o Porto do Valongo – e sua arqueologia – sem nenhum caco de maravilha.)

…Nos fundos da rua nova de São Joaquim e fundos das casas novamente edificadas nos cajueiros há um pântano que além de nocivo a saúde pública ainda de mnais a mais é cemitério de cadáveres de negros novos, pela ambição dos homens de Valongo que para ali os lançam a fim de se forrarem a despesa de pagar cemitério.

[Desses] males vem da existência do dito [lago], um a perda do terreno, outro a facilidade de ali se conservarem cadáveres, e imundícies com que se [imputa] o bairro, e dele toda a cidade. “

(Paulo Fernandes Vianna, Desembargador e ouvidor da Corte, nomeado intendente geral de Polícia da Corte pelo alvará de 10 de maio de 1808. Leia texto completo aqui)

(Leia aqui o post #01 da série)

O documento do desembargador Paulo Fernandes Vianna é muito claro no que se propõe: ser a letra fria da lei: a expressão ‘cemitério‘ era utilizada naquela época de forma quase que eufemística. É bastante provável que nunca tenha existido por ali naquela área, na verdade, apenas um ‘cemitério dos pretos novos‘ (o do Largo de Santa Rita, depois transferido par a Rua Pedro Ernesto no que é hoje a Gamboa).

O que ocorreu – e o funcionário da Corte afirma cabalmente – foi que, pelo menos um lixão de carne humana, a céu aberto surgiu, insidiosamente da prática, presumo, tornada comum na Corte do Rio dos senhores de escravos acharem mui natural e civilizado lançar cadáveres de escravos mortos por ali, num pântano vizinho qualquer, ao deus-dará.

A desconstrução da verdade acerca das reais circunstâncias em que se dava o sepultamento destes cadáveres, a adoção de panos quentes semânticos – uma prática brasileira por excelência – foi sendo paulatinamente criada por historiadores, cronistas e pesquisadores, negros e brancos, que acabaram por montar uma versão atual, mais palatável (argh!) de que aqueles teriam sido ‘campos santos” reais.

Ali era, isto sim, o sítio da desarqueologia do que foi o negro desembarcado aqui. A desumanização, o apagão total e final dele (como o de Ngonzo Dia Kimbangu, meu guru fantasma) desprovido até das fraldas esfarrapadas de sua alma, a qual agora querem atribuir a alma de outro. Tal é a “política” dos que querem me fazer aceitar o borrão oportunista como verdade histórica.

Aceito não.

…Em primeiro lugar, há falta de informação e de educação formal sobre o tema. Indígenas, africanos e pobres são raramente mencionados nas lições de História e, na maioria das vezes, as poucas referências são negativas, ao serem representados como preguiçosos, uma massa de servos atrasados incapazes de alcançar a civilização. “

(”Os desafios da destruição e conservação do patrimônio cultural no Brasil – Pedro Paulo A. Funari )

Outro aspecto crucial nesta discussão – cujo tema é aquele que mais mobiliza as nossas pesquisas leigas – é a necessidade de se estudar, profundamente a etnicidade destes escravos mortos e seus ossos, referencia importante para se desmontar um conceito chave deste racismo acadêmico institucional a que  tanto me refiro:

O desconstrutivismo racista nas ciências sociais do Brasil, a falsa ideia de que houve uma diluição da cultura africana desembarcada no Brasil por culpa de uma improvável pulverização das zonas de captura de escravos, que estariam espalhadas por uma imprecisa e vasta costa atlântica africana.

Ora, nem me preocupo mais em gastar lábia e tempo com argumentos mais definitivos sobre isto com esta gente. Esta conversa de espertos doutos e espertinhos militantes do atraso é farsa velha e sabida. Sem pé nem cabeça. Não engana mais ninguém.

Uns seguem o dinheiro, correndo atrás do que é modismo recorrente em editais que financiam pesquisas acadêmicas em geral. Outros são mesmo ignorantes racistas de plantão. Crias todos eles – por interação ou osmose – desta universidade excludente que se edificou no Brasil sobre os ossos dos mais vulneráveis.

…O grande problema é (como mostra a formação dessa arqueologia): não existe no Brasil a especialidade “Arquelogia de sítios afro-brasileiros’, ou algo do gênero. isto deveria estar dentro de arqueologia Histórica, mas o fato é que eles só sabem juntar caquinho de cerâmica portuguesa, inglesa, chinesa, etc. não existe nenhuma preparação para lidar com cultura material afro-brasileira.

(Maria Paula Adinolfi – antropóloga, pelo facebook)

Sempre foram, exatamente estas as minhas ponderações. Acrescentaria que a arqueologia do Brasil – numa dedicação excessiva, quase escapista – se fixa muito também na prospecção de sítios pré colombianos, estas coisas ligadas às nossas populações indígenas mais remotas. As razões disto, destas impropriedades técnicas ocorrerem com sítios afro brasileiros são diversas, mas o descaso e a subestimação por estas culturas (com exceção das de matrizes afro ocidentais, yoruba), basicamente é o que fica mais evidente.

“As tradições de Angola claramente predominaram (no sítio arqueológico de Palmares) . …O ki-lombo, uma sociedade a qual qualquer homem podia pertencer por meio do treinamento e iniciação, servia àquele propósito. Encontra-se, pois, uma instituição designada para a guerra, a qual podia incorporar grande número de estranhos desprovidos de ancestrais comuns a um poderoso culto guerreiro…Uma figura fundamental no ki-lombo era o nganga a zumba, um sacerdote cuja responsabilidade era tratar com o espírito dos mortos .

O ganga zumba de Palmares era provavelmente o detentor desse cargo (e já explanei isto, minuciosamente aqui, neste link)….Devemos considerar os aspectos africanos de Palmares não como “sobreviventes” desincorporados de seu meio cultural original, mas como um uso muito mais dinâmico e talvez intencional de uma instituição africana na forma especificamente designada para criar uma comunhão entre povos de origens díspares e fornecer uma organização militar eficiente. Certamente os escravos fugidos do Brasil adequam-se a essa descrição”

(A República de Palmares e a arqueologia da Serra da Barriga”- Pedro Paulo A. Funari)

“…Apesar da sofisticação dos modelos empregados para discutir a arqueologia de Palmares, tem sido mais recentemente reconhecido que a escassez dos dados empíricos recuperados nas duas estações de campo (duas semanas em 1992 e uma semana em 1993), que consistiram no total de 2488 artefatos recuperados de 14 sítios (Funari 1999), incluindo sítios que apresentaram somente cerâmica pré-colonial e outros somente material do século XIX, anacrônicos, portanto, com o período de conformação e ocupação do quilombo (cerca de 1605 a 1694), torna essas interpretações muito frágeis.

(“Arqueologia histórica no Brasil. Uma revisão dos últimos 20 anos” – Luís Cláudio Pereira Symanski)

O caso da Serra da Barriga é, pois, emblemático. Imaginem o quanto de resquícios e vestígios materiais não ficaram por lá enterrados nos quase cem anos de ocupação daquelas terras por gente bakongo.

…Desde a década de 1970, começou-se a suspeitar que o famoso quilombo, que resistiu por quase um século ao sistema escravista, se localizava no interior do Estado de Alagoas, na Serra da Barriga. Ativistas negros encontraram restos de superfície na colina e conseguiram, depois de uma campanha sem precedentes, fazer com que as autoridades declarassem a área património nacional, em 1985.

Contudo, devido ao pouco caso do establishment arqueológico,controlado por forças conservadoras ligados ao regime militar (Funari 1995b: 238-245), o sítio ficou nas mãos das autoridades locais. O resultado foi o uso de tractores para nivelar uma parte importante do sítio, o que permitiu que as autoridades promovessem festas e, desta forma, conseguissem o apoio eleitoral.

(”Os desafios da destruição e conservação do patrimônio cultural no Brasil Pedro Paulo A. Funari ) 

O trabalho de arqueólogos “do bem” como Pedro Paulo A. Funari, Luís Cláudio P. Symanski e Scott Allen, no entanto, por culpa deste mesmo descaso geral (que, como se vê agora, se perpetuou muito além do tempo da ditadura militar) será menos bem sucedido do que poderia ser.

Em termos mais diretos, Pedro Paulo Funari – vale repetir – afirma textualmente que, em certa época (presumo que tenha sido ali por volta de 1988), o Governo Federal e prefeituras da área da Serra da Barriga, sob a coordenação do MinC e da Fundação Palmares mandaram (ou autorizaram) terraplanar, afim de que se instalassem palanques de discursos e barracas de bugigangas cívicas, a área central do futuro sítio arqueológico, onde supostamente teria estado localizada a chamada Cerca Real do Macaco”, quartel general do Kilombo.

Os tratores e escavadeiras, pois, desgraçadamente revolveram e destruíram a maior parte dos vestígios do Kilombo de Palmares, que devem ter servido de aterro para sabe-se lá que obras das prefeituras locais. Sobraram os vestígios de camadas inferiores, de épocas anteriores ao século 18, em geral sítios de índios parentes dos tupinambás, de época pré colombiana até.

Vocês sabiam, por exemplo que entre os poucos vestígios que restaram na terra revolvida de Palmares pelas escavadeiras foram achadas estranhas estatuetas de Santo Antônio? E vejam: não encontrei esta evidencia em citações ou textos de ninguém não, nem mesmo em Funari ou Symanski. Os mais atentos seguidores sabem que, modéstia à parte, já andei pesquisando – e falando por aqui – disto aí.

O fato é que em Angola, ao tempo da sacerdotisa ‘antonionistaKimpa Nvita (1702, mesma época dos tempos finais do Kilombo de Palmares) foram encontradas, no norte de Angola estatuinhas, exatamente como estas aí de Palmares, que lá em Angola se chamavam Toni Malau“.

Pois é. Fato cabal e quase inquestionável. Tenho uma coleção de fotos destes amuletos em alguns lugar do meu HD (um deles – da coleção do The Metropolitam Museun of Art –  ilustra esta matéria).

Considero, por conta desta simples evidência, completamente impossível entender a história do Kilombo de Palmares – e outras histórias do negro do Brasil até mais recentes –  sem esta interface com a história angolana dos século 17 e 18, tendo as guerras anti colonialistas de Nzinga Mbandi e do seu parente Rei do Kongo D.Antônio Nkanga Nvita – além da posterior rebelião  “antonionista‘ de Kimpa Nvita, como eixo central.

Estas ‘estatuinhas‘ de ‘Toni Malau’, aliás, (coincidentemente remetendo a gente àquela música do Edu Lobo e do Guarnieri para a peça teatral ‘Ganga Zumba’) são – afirmo! – o elo perdido entre o acima citado  Antonionismo (‘afro catolicismo’) em voga no Reino do Kongo, à época de Kimpa e a dinastia de Nkanga a Nzumbi (“Zumbis‘) que governava Palmares à época do Zumbi clássico, o mais recorrente que morreu decapitado em Recife 1695 (exatamente como morreu 30 anos antes o seu conterrâneo  D. Antônio Nkanga Nvita na batalha de Mbwíla, Angolaem 1665) .

Estatuinha (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri)

“…Se a mão livre do negro
Tocar na argila
O que é que vai nascer?
Vai nascer pote pra gente beber
Nasce panela pra gente comer
Nasce vasilha, nasce parede
Nasce estatuinha bonita de se ver…

África daqui que ninguém quer ver nem pintada.

Pois é. Nenhum machado de Xangô. O único machado encontrado na área de Palmares, se soube logo depois, era um vestígio de práticas agrícolas dos índios tupinambás que também habitaram aquelas terras, deixados numa camada de terra abaixo daquelas arrasadas pelos tratores das comemorações oficiais por Zumbi.

…Para o caso de Chapada dos Guimarães, a mais clara evidência da manutenção de sistemas de crenças de base africana são os signos cruciformes incisos em apliques circulares presentes nos vasilhames cerâmicos (figura 4). Essa representação de uma cruz, ou de um asterisco, dentro de um círculo tem sido associada com um cosmograma Bakongo (veja matéria minha a respeito neste link) por diversos arqueólogos que trabalham em contextos afro-americanos (Ferguson, 1992:110-116, 1999; Sanford, 1996:104-106; Russel, 1997:64; Wilkie, 1999:274, 2000:20-21; Young, 1997:22).

…Os Bacongo são um povo que habita o norte de Angola e o sul da República Popular do Congo, sendo incluídos, no Brasil, na nação de escravos africanos denominada Congo (Karasch, 2000:54). De acordo com Thompson (1983:109), entre os Bacongo esse signo representa os quatro momentos do sol, no qual a divindade suprema, Nzambi Mpungu, é referenciada no topo, o mundo dos mortos, Kalunga, na base, enquanto o traço horizontal representa a água, vista como a divisão entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

A circunferência em volta da cruz, por sua vez, representa a reencarnação. Para o caso dos sítios de Chapada dos Guimarães, vasilhames cerâmicos contendo apliques com esse signo aparecem em contextos com datação média iniciando em 1836, o que tem uma forte correlação com o período em que os escravos Congo estavam se tornando o grupo africano majoritário na região, a partir de 1830…”

(“O domínio da tática – Práticas religiosas de origem africana nos engenhos de Chapada dos Guimarães (MT) Vestígios – Luís Cláudio P. Symanski)

Eu não disse? Eu não disse? Eu não disse?

Quase um bidu sem querer sê-lo eu já havia cantado também em meu livro e em posts espalhados por aí , a pedra desta relação entre a cruz dos africanos no Brasil e a cosmologia dos bakongo, do Reino do Kongo no século 18.

A este propósito – citando inclusive a fonte original de todos os acadêmicos mais atentos que é o filósofo congolês (bakongo) Fu Kiau Bunseki – já havia intuido bem o espírito da coisa (e lembrem-se. sou é um douto laico, um leigo orgulhoso e assumido, como se diz por aí).

Mesmo assim, e contudo, achar esta referencia, saber que esta linha de pensamento já tinha, embora mínimo, algum respaldo acadêmico no Brasil, bem antes de ter intuído isto, é luz no meio do túnel, um fato bastante animador.

Nesta mesma linha de raciocínio – que vai se tornando cada vez mais pertinente – numa conversa franca e densa com o diligente Cláudio Honorato, historiador coordenador de pesquisa histórica do Memorial dos Pretos Novos, chamei a atenção para o significado candente da lista no livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita (a antiga paróquia daquelas imediações do Valongo), impressa ali mesmo, num grande mural na sede do memorial, bem em frente aos ossos, com os nomes de escravos que constavam como enterrados no cemitério da paróquia. Os nomes estavam ali, enormes, gritando de onde vieram afinal:

Albina de nação Conga”

Antonio cabinda” (de Cabinda)

Antonio Sacanhema”

Domingos Bengo”

Felipe Angola

Francisca Benama”

Francisco Calabar”

Francisco Camundongo”

João Congo”

Joaquim Congo”

José Congo”

José de Benguela”

Gabriel Mixicongo” (de ‘muxicongo’)

Manoel Congo”

Manoel de nação Mojolo” (de ‘Monjolo’)

Maria da nação Moçambique”

Maximilano de nação Benguela”

Tomás de nação Cabinda”

Numa rápida olhada na lista total de 52 nomes, pude constatar que estes 18 citados eram os únicos africanos (identificados, como de praxe pela citação do local de origem). Há na lista, contudo mais 33 nomes sem nação definida, que eram em sua esmagadora maioria, como se pode facilmente supor, ‘crioulos‘ de ascendência relacionada às nações da maioria dos africanos nominalmente citados, entre um ou outro ‘pardo‘, com a ascendência provável também do mesmo modo relacionada – como sempre insistimos em ressaltar – às etnias do antigo Reino do Kongo (mais ou menos o território da Angola atual) e a costa de Moçambique.

Nenhum africano nagô ou jêje, ou mesmo muçulmano para contar qualquer história remotamente ligada ao candomblé (que aliás nem existia ainda como tal nesta época, início do século 19) . Que um ou outro ‘sudanês‘ pudesse haver por ali é lícito se supor, mas apenas no campo das raras exceções à regra, fora da lógica do fluxo do tráfico de escravos da época, localizado em áreas africanas de cultura predominantemente bantu.

Mesmo nos termos das modernas e precisas técnicas estatísticas atuais, considerando-se esta amostragem bem significativa (a Freguesia de Santa Rita, área de intenso trânsito comercial na época, era bem propícia a este tipo de pesquisa por amostragem), considerando-se também em conjunto os demais cemitérios da Corte (citados pelo mesmo Cláudio Honorato em sua excelente tese que pincei na internet), se poderia dizer, com alguma certeza que a proporção de indivíduos de etnia bantu era quase de 100% por esta ocasião, situação que só se altera, assim mesmo irrisoriamente depois de 1835 (após a segunda Revolta dos Malês) pelo menos, com a chegada de um pequeno grupo de baianos ex-escravos (libertos) ou nascidos livres (a maioria de ascendência yoruba e ‘jêje‘), que só se concentraram por ali, na área da Freguesia de Sant’anna (Campo de Sant’anna e Praça Onze atuais, até as imediações da também atual Praça da Bandeira) já na segunda metade do 19.

É muito fácil se intuir, portanto e depois de constatada a impropriedade desta tese, que nunca houve aqui no Brasil, como afirma, insinua ou sugere certa academia (quase toda ela, na verdade) um ‘melt pot do crioulo doido’, um caldeirão de micro culturas primitivas ‘todas juntas e misturadas’, entre as quais uma de suprema…‘pureza negro africana’ e de “maior grau de civilização” teria se sobressaído.

Me engana que eu gosto”. Não gosto. Nunca gostei. Nada mais falso e, considerando-se que eles sabem o que fazem, mentiroso. Não gosto mesmo desta negritude de fancaria, cheia de ‘caôs, caôs’.

Os ossos foram misturados, mas as culturas não. A cultura bantu daquelas pessoas se manteve íntegra por aqui.

Ora, basta pensar – e ler – a vasta bibliografia existente sobre o assunto com um pouco mais de senso critico ou menos preguiça. Na verdade – como demonstro facilmente, ‘lendo‘ as letras garrafais daquele mural com aqueles poucos nomes de mortos enterrados da área do Valongo – basta apenas concluir o óbvio.

Esta mistificação tão mal maquiada nas teses dos doutos é, no fundo no fundo (e nem tão fundo assim) a essência maquiavélica do mito da “Supremacia Nagô”, cujas funções ou finalidades ideológicas execráveis, jamais deveriam ser tomadas como palavra de fé pelos negros realmente conscientes de si e os anti racistas em geral.

Não é à toa que estas premissas falsas e recorrentes sobre as origens do negro do Brasil tanto agradam ao sistema que nos aparta entre negros ‘assim‘ e negros ‘assados‘ com ‘brancos‘ mandando – tanto que o mito da supremacia de uns virou a versão oficial da cultura do negro do Brasil.

Esta posição ‘supremacista‘, a adoção desta cultura carnavalizada, espetacularizada, de pompas de gibi, sacerdotisas de branco rodando baianas para a ‘branca‘ autoridade e o inglês verem, defendida por alguns falsos ingênuos como sendo uma tática de afirmação… ‘política‘ dos negros do Brasil, já deu o que tinha que dar.

É que ela – desculpem repetir – nos atravanca o caminho, trava a nossa evolução, nos exclui da modernidade, nos acorrenta a um passado tão indesejável quanto anacrônico.

Mantêm o cais de nossa chegada soterrado pelo cais da dondoca imperatriz.

Afinal um passado de deuses inventados, de história em quadrinhos e mistificações religiosas fantásticas interessa, exatamente a quem?

As mães de santo de candomblé estão certas em sua santa ingenuidade antropológica. Os santos é que são outros…ou estes dizem que são…estão errados.

E não se arvorem os mais tolos em me atacar com pedrinhas, ‘otás‘ genéricos e amuletos de plástico do Mercadão de Madureira: Não me atingem. Digo isto com todo respeito que tenho à religião tanto de uns quanto de outros, cariocas e troianos, gregos e baianos. Digo por que posso dizer, sou livre para falar, escrever e pensar. Não sou pago para mentir e iludir.

Religião – quem quiser que reflita a respeito – nunca deu boa política. Nas mãos dos pastores errados levam as ovelhas todas para o buraco dos quintos dos infernos. Vivo dizendo isto por aí.

Do mesmo modo – frisemos – qualquer arqueologia – ou antropologia, ou historiografia, por suposto – que se preze que se queira digna do nome, precisa trabalhar melhor com os dados desta etnicidade real e evidente dos negros do Brasil que são, sob qualquer ponto de vista, tecnicamente cabais.

Senão, Arqueologia para quê?

(Bem, podemos retornar então, mais adiante às controversas cavucações do Valongo. Vou ali ler mais e volto já.)

Spirito Santo

maio 2012

Siga a série  neste link  e neste outro)

Spirito Santo


  1. Criar seu atalho

A Lama do Valongo e a Arqueologia do Caô / Post #01


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Postal angolano (Portugal) do século 19 (corte)

Postal angolano (Portugal) do século 19 (corte)

As docas velhas e as mudas pedras pisadas do cais

Estive dia desses fazendo uma espécie de curiosa ‘inspeção’ às obras do “Porto Maravilha”, obras de revitalização das antigas Docas do Rio de Janeiro colonial e suas adjacências (uma denominação lascada de cínica, aliás, pois, trata-se de, entre outros resquícios imperiais, dar de cara com milhares de esqueletos de africanos soterrados num pântano que havia por ali na metade para o fim do século 18)

O trecho percorrido – todo registrado em fotos em vídeo porque eu estava acompanhado por um pequena equipe de cinema que, no momento realiza um documentário baseado no meu trabalho de pesquisador independente, compreendeu o Cais do Valongo (coberto pelo cais da Princesa em 1883) até o Museu dos Pretos Novos, sítio que conheci na época da descoberta mesmo, pois coincidentemente trabalhava ao lado, no Centro Cultural José Bonifácio e conhecia a dona da casa, Ana Maria Merced, onde os ossos foram descobertos em 1996.

(Nunca tive coragem para ir na casa de Merced ver os ossos, embora viva escrevendo sobre o Valongo e só agora entrei lá). História calcada, fincada no macabro de nossas relações sociais. Lançar cadáveres num lixão a céu aberto? Acreditam numa coisa destas? Os nazistas pelo menos incineravam sua vítimas.

Cá entre nós, o sítio arqueológico descoberto por Merced é tratado ainda hoje – mesmo com as obras do Porto Maravilha – com um descaso que, apesar de impressionante é muito recorrente quando se trata das coisas de preto no Brasil. Quase tudo que está lá de trabalho de prospecção foi de iniciativa da própria Merced, que inclusive comprou duas residências contíguas à sua casa, para ampliar a área de prospecção dos ossos.

Alguma, muito pouca, pesquisa e análise do material foi feita pelo Museu Nacional por razões que descobriremos a seguir e o sítio esteve, praticamente abandonado pelas autoridades da prefeitura nestes quase 15 anos. Quase nenhuma antropologia foi feita também nos vestígios (na verdade descobrimos pesquisando rapidamente o tema arqueologia brasileira, que a área científica que a academia resolveu associar à arqueologia neste caso, estranhamente não é a Antropologia, mas sim a História)

O fato é que pouco se têm feito neste campo, pelo menos no nível que a importância do sítio arqueológico do Valongo têm neste aspecto. Afinal, ali estava instalado, durante certa época, o maior porto de desembarque de escravos africanos nas Américas (sem falar nos trapiches, pequenos portos e desembarque particulares espalhados ela região).

Vi nesta rápida ‘inspeção‘ – de novo, pois li há pouco tempo atrás uma matéria sobre isto – uma mãe de santo (toda paramentada, fantasiada mesmo) sendo entrevistada por Tânia Andrade de Lima, arqueóloga responsável pelo sítio. Soube logo a seguir, cavucando o tema, que existe uma verdadeira comissão de mães de santo de candomblé orientando não sei o que no trato da arqueologia feita no local. Estranho muito isto (e quem conhece o Titio sabe muito bem porque) a possibilidade de se estar dando um enfoque etnologicamente equivocado ao caso do Valongo.

Sabem como é? Copa do Mundo e Olimpíadas vindo aí, Cidade Empresa, interesses turísticos comerciais exacerbados pode ser igual à Arqueologia à toque de caixa, apenas ‘para inglês ver’.

Fiquei mesmo curioso em saber, aliás, o que mães de santo de uma religião tão fundada na cultura de pessoas da África ocidental (grosso modo gente yoruba, da Nigéria por suposto) teriam a ver com os ossos, os usos, os costumes, os haveres e a sacralidade de pessoas que, em sua esmagadora maioria foram (pelo menos as que viraram os ossos mais ao rés do chão), oriundas do porto de Benguela e de Moçambique, na África colonial portuguesa.

Alguém disse aí que isto não tem a menor importância? Pois, para mim tem toda a importância do mundo. Como se deveria saber em se tratando do continente africano, assim como da Ásia já sabemos: um caminhão cheio de chineses é algo muito diferente de um caminhão cheio de japoneses. Nada a ver.

Alguém me disse lá, de forma francamente emocionada, justificando a presença da comissão de mães de santo de candomblé no âmbito da sacralidade intrínseca, porém discutível do Valongo, que havia chegado para o sítio dos ossos a “Hora do Sagrado”. Na mesma hora perguntei se este ‘Sagrado‘ – diverso que é como tudo que é humano – também não teria hora certa e lugar certo (origem definida) para ser evocado.

Nada disto pode ser aprofundado ainda (na verdade foi sim. Nota minha de 2019), mas na medida das nossas limitações, tudo será revelado daqui para adiante.

É importante salientar, entretanto que não será nada fácil. É que já nesta primeira abordagem, fomos interceptados de forma sutilmente policialesca, por funcionários da Secretaria de Obras da Prefeitura que nos obrigaram a interromper os registros (estávamos na rua). A impressão que tivemos é a de que o trabalho de prospecção lá – apesar de super vigiado – é bem precário, pois, quem fazia a recolha dos vestígios era um simples (e solícito) operário da obra, incumbido de revolver a lama com uma simples enxada, para recolher o que ele mesmo achasse relevante, que era posto num saco destes comum, de lixo sem nenhuma orientação aparente (eu mesmo, antes de ser admoestado e repreendido, pode pegar alguns destes impressionantes vestígios em  minhas próprias mãos).

Sei disto, que o trabalho – nesta fase pelo menos- parece ser pouco cuidadoso do ponto de vista técnico porque o operário entrevistado não se intimidou em nenhum momento em nos informar sobre tudo o que fazia, sem se reportar a nenhum chefe ou responsável. Na verdade uma pessoa com ares de alguma responsabilidade pela obra, só apareceu mesmo no momento de nos admoestar por estarmos – repito, o sítio é na rua, a céu aberto – observando e registrando o trabalho arqueológico ali desenvolvido.

Fomos orientados então a solicitar a autorização da arqueóloga responsável para que pudéssemos prosseguir com a nossa reportagem, o que fizemos imediatamente. Inusitadamente, contudo, no ensejo de ser consultada, Tânia Andrade Lima, a arqueóloga responsável, após uma seção de fotos (e, segundo nos informaram outras fontes, de uma entrevista para a Globo News) sempre de braços dados com uma das mães de santo, rechaçou a pessoa de nossa equipe, de forma, segundo a própria moça nos relatou, algo arrogante, dizendo:

_” Você não está vendo que estou ocupada?”

Foi por isto, pulgas atrás das orelhas que já estava, que  resolvi tentar aprofundar melhor esta história aí.

É assim, pois, que inciamos aqui esta série do que será um longo post-reportagem com algumas pitadinhas conceituais, focadas muito mais na história e na arqueologia destes ossos, tão importantes para a revelação de tantos enigmas nacionais, do que na cor das ceroulas e dos babados da princesa.

—————–

Em tempo, devo informar, contudo que esta era apenas a nossa única intenção, a inicial. É que, de tão impressionado que fiquei com a visão dos esqueletos no Museu dos Pretos Novos, sonhei à noite quase pesadelos . Em transe talvez, psicografei então um importante relato vindo, sei lá de onde – impossível saber – proferido por uma inusitada fonte, testemunha ocular deste passado macabro.

“_ Os ossos falam”_ Dizia o anúncio de um filme de antropologia forense destes aí, da TV. Foi assim que me vi – pelo que testemunhei e pelo que psicografei – instigado a começar esta série com o improvável depoimento de uma vítima do Valongo histórico.

Não tenho meios de provar que este informante, esta fantástica testemunha realmente existiu, mas prometo de pés juntos que este será o único trecho desta longa reportagem que não será cabalmente documentado. Acredite quem quiser.

Tião Angola – sem carne e em ossos – fala comigo. Entrevista exclusiva para o meu blog

EU:_ Incrível! Estou pasmo. Você é mesmo o espírito de um escravo desembarcado no Cais do Valongo?

Ngonzo:…Devera. Sou o fantasma franco de Sebastião Angola. Mal cheguei, batizado fui e nem bem me pude dar conta de que não poderia mais me chamar a mim mesmo de Ngonzo dia Kimbangu como me foi dado me chamar até aqui, desde lá.”

EU:_ Mas o que há de mal nisto. Batizaram-no com um nome português, ora. Quem haveria de entender o nome como o que você era conhecido antes?

Ngonzo:…E quem sou eu agora? Me diga. A partir daí fiquei sem saber quem sou. O que haveria de mim naquele ‘bastião’, palavrão que me gritava o batizador estúpido a ponto de não saber que batizado, ungido, nomeado eu já poderia ter sido desde que nasci. Ah…”

EU:_ Certo, mas então porque você não esqueceu este nome de português assim, impingido à força? Porque não apagou esta coisa de ‘bastião‘ e fica aí se apresentando assim, com este nome?

Ngonzo:…Sim. Sou sim o fantasma desembestado de Sebastião Angola, o dito cujo por eles assim denominado. Fantasma assusta? Apavora? Então. Já que apavora acho por bem que seja mesmo assim, por este nome conhecida a minha aura, esta que vagueia, este nome aí que o batizador me berrou rouco, cismado já daquele mal de fazer o desnomeamento de alguém, sem nem querer saber antes que nome havera de ter tido o homem que era eu, ali desnomeado.”

EU:_ Mas convenhamos que é exagero seu. Não dava para ter dois nomes, um africano outro português.

Ngonzo:…Como assim? Como nem se arvorou ele, o batizador, de me dar conta ao menos de qual pedaço de mim, de minh’alma estava extirpando? Como assim? O que foi feito do outro pedaço antigo de mim, aquele pedaço inteiro que desembarcou aqui, escravo e que, como me desengongonçando, me desanotomizando, me esquartejando, o batizador deu sumiço. Onde está o espírito que estava ali nos meus ossos, para ser perpetuado?”

EU:_ Então você entendeu como que aquilo era um outro nome, assim sendo forçado para identificar você? Como entendeu isto?

Ngonzo:… Ah é ! Não entendi isto assim, de entender mesmo. Intuí, ora. E cuspi nele, no batizador, sim, claro! Quem não cuspiria? Pensei aquele aspergir de água fria em mim como se o cuspe dele fosse. Um cuspe de me achar desprezível, de me achar bicho. Sim. Foi de nojo rebatido que cuspi nele, de volta, de demanda, em retaliação. Num rompante.”

EU:_ Sei. Entendo. Subiu um sangue assim e você reagiu. Fala aí. Como se sentiu nesta hora?

Ngonzo:…Nem vi que era batismo. Como iria saber? Só soube que os respingos eram a dita água benta lá dos santos dele, quando senti o tranco surdo do tapa que levei, como um jeito lá dele de ser mau cristão blasfemador, a ofender nazambiampungo com aquele ‘bastião’ berrado, mais nome de cão do que nome de kanda.

Não, não era nome de gente para gente desfiado, aquele ‘bastião’ gritado, sei lá o que significando. Não era como nome de kanda, um nome digno que veio da mesma gente de antes e que se perpetua assim para todo o sempre para gente de amanhã…

…O batizador, o extirpador de almas não sabe nada de mim nem de nomes, nada de nada. Se caveira cuspisse cuspiria nele agora mesmo, de novo pois sei, de ver esta lama do cais chafurdada aí de qualquer jeito, que eles, os batizadores de hoje ainda estão dando qualquer nome às nossas coisas, qualquer título aí ás tralhas e vestígios de nossos ossos, os quais eles continuam a não querer nem saber de onde vieram nem o que significam para nós.”

EU:_ Difícil de acreditar. Nem a sua cara eu posso ver. Afinal, mesmo assim se pudesse identificar que os ossos nestes esqueletos aí são seus, ficaria o enigma, pois ossos de gente são ossos de gente, esqueleto de gente é tudo igual.

Ngonzo:…Sim. Creia. Sou eu sim, o fantasma franco de Ngonzo Dia Kimbangu dito por eles Sebastião Angola. Aquele que mal chegou, batizado foi e nem bem pode se dar conta de que não poderia mais se chamar, a si mesmo, de Ngonzo dia Kimbangu, aquele do Huambo, à força embarcado no Benguela para cá, aquele d’Angola, como me foi dado ser e me chamar até aqui, desde lá…”

EU:_ Engraçado. Você não me assusta não. Posso saber porque me escolheu para falar isto? Você tem algum pedido a fazer, algum protesto, alguma mensagem algum sonho ou desejo que eu possa revelar para as pessoas de hoje em dia?

Ngonzo:“…Se sonho? Fantasma sem futuro sei que sou, mas sonho sim. Como não sonhar? Almejo o ensejo de ver estes meus ossos quebrados e estraçalhados, espalhados nesta lama amaldiçoada deste Valongo, embaralhados pelos batizadores, de novo, todos reconjutados, reengonçados, reanotomizados,desesquartejados enfim.

Almejo também ter de volta, nestes ossos meus, o meu nome, em todos os seus sentidos e o espírito, o nzumbi que estava neles. Almejo que esta aura desabusada, desapegada e fugida que do kalunga vos falou, seja um dia, para sempre aqui perpetuada, restituída para que o que ela, exatamente é e foi lá n’Angola, esta alma que está agora e para sempre estará no kalungangombe que é a história de todos nós.

EU:_ Mesmo assim ainda fico meio pasmo diante deste seu louvável desejo. Hoje em dia as pessoas têm muita dificuldade de entender este desassombro, isto de alguém – que quase já não é alguém mais – falar o que ninguém parece mais querer ouvir.

Ngonzo:…Falo assim por estes que somos antepassados de nós, os mortos assassinados pelos batizadores que nos desnomearam, nos deram nomes errados, trocados. Almejo porque, pelo que vejo, pelo andar desta carruagem da escavação do Cais da princesa – que escondia o Cais do Valongo de minha perdição – os mesmos batizadores, desestoriadores, continuam a tentar apagar e falsear as nossas almas por aí.”

EU:_ Bem. O que posso prometer é estudar este caso aí. Falar por aí deste desejo seu de lhe ver devolvida a alma na íntegra, sem fantasias, babados e badulaques ‘para inglês ver‘.

—————–

E mais não disse, por hora a tal aura, aquele fantasma do esqueleto de Ngonzo Dia Kimbangu. Fiquei assim solitário pensando num jeito de honrar a memória dele, que afinal é a memória de todos nós.

Também odeio batizadores, falsificadores de nomes, fraudadores de memórias, água benta falsa aspergida sobre mim eu também sei cuspir. Sou adepto dos fantasmas vingadores. Creio piamente em suas pragas justas.

A perna desta mentira do Valongo – se mais mentira existe nesta história – logo vamos saber qual é. Ela está escondida na lama de lá. Elas, estas mentiras todas, são como pernas anães. É este o sentido que esta reportagem vai pautar. Sigam a série.

Venham. Sigam a pista na lama. Façam comigo a Arqueologia do Caô

Spirito Santo
Maio 2012

Leia posts seguintes da série neste link , neste  e neste outro)

A hemorragia velada – A visibilidade maquiada do escravo na fotografia brasileira


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“Negros no Estúdio do Fotógrafo”, de Sandra Sofia Machado Koutsoukos, e “As Anotações Sobre Pintura do Monge Abóbora-Amarga”, do belga Pierre Ryckmans, são os destaque entre os lançamentos da Editora Unicamp para a 21ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

O primeiro título apresenta fotos de negros no Brasil durante o século XIX, já que os estúdios da época recebiam pessoas de todas as classes sociais. Nas imagens, negros livres, libertos, escravos domésticos, até mesmo fotos de presos da primeira penitenciária construída no Brasil.”

(Da resenha oficial da editora)

A resenha do Tio:

O trabalho – que ainda nem folheei – salvo engano, só pela resenha anunciada já exibe um aspecto fortuito de nossos velhos e duros modos escravistas de ser: Ele demonstra que na iconografia do negro do Brasil poucas foram as experiencias de fotos de rua (foto reportagens), representando assim uma iconografia contida, censurada, tutelada.

A foto da capa (que eu mesmo já compartilhei aqui, tempos atrás) é um dos raros exemplos de imagem com resquícios de reportagem, mais por conta da inusitada atitude de um dos escravos, quebrando a rigidez da cena com a sua insolente displicência.

(O fotógrafo e a sinhá devem ter se rasgado, possessos)

É a invisibilidade do negro demonstrada já no início da arte da fotografia, iniciada por aqui nestes documentos restritos, omissos, quase anti iconográficos porque não passam de cópias maquiadas do que era a vida real durante a escravidão. A realidade manietada.

A maioria destas fotos de escravos foram realizadas em estúdios por fotógrafos estrangeiros (a maioria alemães e franceses como Augusto Riedel, Marc Ferrez, Victor Frond) e por solicitação e soldo dos senhores destes escravos. É óbvio que um escravo dificilmente entraria, espontaneamente num estúdio para se deixar fotografar.

Em algumas imagens, mulheres negras aparecem luxuosamente vestidas com as roupas das ‘sinhás’, muitas vezes estando ali exclusivamente para segurar ou amparar bebes e crianças brancas. As fotos são, pois, apenas exemplos da iníqua arrogância senhorial, exibindo suas posses e presas.

Nas fotos em exteriores – geralmente em grandes fazendas e plantações de café – a mesma coisa: negros subjugados, formados para a foto com feitores e senhores posando ao lado, dominadores, como se estivessem exibindo suas cabeças de gado.

Esta constatação só me foi possível porque, na falta de fotos ‘brasileiras’, consulto com muita frequência álbuns de imagens de escravos de outros países, principalmente os da Biblioteca do Congresso dos EUA, onde imagens do tipo ‘foto reportagem’ (com muitos flagrantes exteriores de escravos posando espontaneamente, as vezes exibindo marcas de castigos ou mesmo em plena fuga) são muito profusas.

É mais uma marca de nossa constrangedora ignorância histórica, a tentativa de esconder a realidade, matar os arquivos, queimar as provas, desaparecer com os flagrantes, como criminosos atrás da impunidade eterna.

Fiz este arrazoado todo instigado por um único, sutil e capcioso trecho da resenha oficial. É aquele que diz : “… os estúdios da época recebiam pessoas de todas as classes sociais” Alto lá.  Não era bem assim. Como vimos isto não parece inteiramente verdadeiro quando se tratava de escravos. basta olhar nos olhos constrangidos dos escravos modelos: Eles estavam ali à força. A afirmação nos dá, portanto uma falsa e descabida ideia de democracia, de bons modos e humanidade de uma escravidão que teria sido por aqui plena de paz e amor – pelo menos nos estúdios fotográficos.

(Maldito Gilberto Freire! Maldito Gilberto Freire!)

A parte mais triste desta história é que a inusitada afirmação denota também que a maquiagem auto antropofágica que vela, censura estas imagens tão cruciais de nossa história, num jogo – algo feminino – de fingir que revela, escondendo… continua empávida.

Sabem como é: Já que temos olhos, que tal olhar com lupa as filigranas? A pergunta que fica é: Até quando este apagão de nossas almas seguirá assim, espelho branco embaçado, nos desrevelando? A não ser no cinema (vide aquele filme ‘Dèja vu”), não existe chance alguma de se instituir cotas raciais fotográficas… no passado.

E vejam: A ausência destas imagens reais é uma lacuna de nossa iconografia talvez sem remédio. Tomara que o cinema realista um dia restaure um pouco desta lacuna, com boas pesquisas de arte e cuidadosas reconstituições de época, nos revelando um pouco desta época de hemorragia escravista tão contida quanto falseada por livros e mais livros de história da carochinha.

Brasil com botox. Pátria feia (com aquela boca da maga pata patológica do Disney) rugas esticadas em  plásticas e mais plásticas operações de torpes – e não menos falsos – pitanguis.

Diga lá espelho meu (vosso): Existe alguém mais míope que eu?

Spírito Santo

maio 2012

The Coconut Revolution. O sangue do coco salva e tem poder


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O ser humano ideal e superior a todos nós existe

O barbarismo primitivista, o atraso, a estupidez está em outro lugar do mundo. Sim. Naquele lugar que os tolos chamam de ‘mundo civilizado’.

Se você quer saber o que somos – ou o que deveríamos ser – enquanto homens e mulheres de verdade, mire-se nestas pessoas que verá neste filme. Exultação, emoção pura e esfuziante de descobrir enfim que os homens perfeitos, os seres humanos ideais existem, em carne e osso. A humanidade tem salvação sim, as provas existem e estão aqui, diante de nossos olhos, numa remota ilha do Oceano Pacífico, próxima à Pupua Nova Guiné e á Austrália.

A Ilha de Bougainville.

Como acreditar que aqueles que seriam os seres mais primitivos da planeta Terra sejam, sob todos os aspectos os mais avançados, os humanos mais sábios, os mais próximos do modelo de homens deuses de si mesmos, altivos, dignos e justos merecedores de todas as glórias do paraíso?

O fato de tão pouco sabermos sobre eles, aliás expõe, de forma constrangedora e dramática o quanto estamos afundados na ignorância mais covarde, submetidos à forças do mal, estúpidas, nós seres inermes, vergonhosamente alheios aos sinais que a natureza nos dá de que à Terra pertencemos  e à Terra devemos amar e honrar incondicionalmente afim de merecê-la,  habitá-la.

Veja o filme AQUI:

http://youtu.be/wfqTqVxYbk4

Os homens e mulheres da Ilha de Bougainville são isto: Um sinal evidente, um aviso eminente de que temos em quem nos espelhar para voltarmos a ser os bons e práticos guardiões da Terra.

…Se é que queremos mesmo nos tornar enfim homens e mulheres de verdade e escapar do real juízo final.

Francis Ona, líder revolucionário e, posteriormente rei de Bougainville, morto em 2005

Francis Ona, líder revolucionário e, posteriormente rei de Bougainville, morto de malária em 2005

Francis Ona, o líder militar, político e espiritual, o pai de Bougainville entra agora, definitivamente no panteão dos grandes heróis da minha vida. Choro emocionado a sua perda. A dimensão enorme e visceralmente humana da liderança dele, nos demonstra, ao contrário, a dimensão minúscula, quase ridícula dos líderes que temos por aqui hoje, em todos os campos.

Ele inventou, liderou e comandou uma revolução de verdade lá. E venceu. Emocionado como estou mais não digo, até porque o impressionante filme já diz tudo.  Vejam aí.

Spírito Santo

Maio 2012

Nelson Motta nunca foi chegado em gorilas.


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Eu no festival com a bela Norma Blum

Eu no festival com a bela Norma Blum

Se os defende agora é por que, neo racista que é, ficou ‘com a macaca’ com a vitória das cotas raciais no STF.

Tenho uma cisma antiga com o Nelson Mota que torno pública agora. Em 1968 participei e fui muito bem sucedido num festival de música da TV Globo.

Como compositor tirei o terceiro lugar (com direito à aclamação do público para mim – e vaias aos primeiros colocados. Queriam que a minha música vencesse). Fui escolhido também um dos dois melhores intérpretes do festival (a música se chamava “Havia” e fui acompanhado pela orquestra da Globo regida pelo grande maestro Mario Tavares, com arranjo de Lyrio Panicalli, também um importantante maestro). Saí até na capa do jornal O Globo no dia seguinte, um sábado.

(A vencedora foi a minha amiga Irinéa Ribeiro com belíssima canção “Praia Só”.)

Muitos anos depois, folheando recortes de Jornal da época, dei de cara com uma nota do já então crítico musical Nelson Mota que incensava os vencedores, inclusive algumas músicas com colocações mais inferiores e, simplesmente omitia o meu nome, o de minha canção e tudo o mais ao meu respeito, numa demonstração clara de desprezo absoluto, embora gratuito.

De tão inexplicável, o desdém de Nelson para comigo me embatuca até hoje. Na falta de outra, a suposição de racismo então me veio mais forte na cabeça. Mesmo Irinéa também sendo negra. É que tendo sido a primeira colocada teria sido impossível para Nelson Motta omiti-la da nota. Afinal, éramos eu e ela – e uma outra figura lá – os únicos negros entre centenas de pessoas, sei lá, cerca de  36 candidatos, além de técnicos, organizadores, músicos da orquestra, etc. Éramos mesmo três gatos pingados apenas naquele palco do Teatro João Caetano. O certo é que o único negro claramente suburbano e marrento daquela história toda, parece que  era eu.

Será que foi isto?

O fato é que nunca entendi o que teria feito Nelson Motta me desprezar a este ponto. A música era de franco protesto social (tanto que, apenas quatro meses após o festival – e não por causa da música – eu estava preso como militante iniciante de uma organização de luta armada). Mas Nelson não era um cara ‘de direita‘, um ‘reacionário‘. Seria impossível naquele tempo ser crítico musical e, ao mesmo tempo ser um ‘reacionário de direita’.

A música era, reconhecidamente de boa qualidade. Me lembro vivamente do entusiasmo com que Mário Tavares a regia, visivelmente emocionado. Lembro também do entusiasmo (mal disfarçado) de algumas pessoas do júri entre outros o Milton Nascimento, Paulo Sérgio Valle e o maestro Eumir Deodato.

Ficou nítido em todo o evento que o júri teve trabalho para julgar com isenção, já que a minha música era a franca favorita, até mesmo para os demais concorrentes (dias antes saiu até uma matéria me destacando num aplaudidíssimo ensaio no teatro da Globo. A matéria cantava a pedra de que eu ‘poderia‘ ganhar o festival).

Nelson Motta não. Nelson Motta me odiou. Fiquei com esta cisma e a mantenho até hoje. Que tipo de incômodo o meu justo sucesso naquele evento teria produzido no crítico musical ‘moderninho‘ a ponto de fazer com que ele, simplesmente me ignorasse e tentasse me riscar da história daquele festival?

Macacos me mordam se eu tiver sendo injusto com “Nelsinho”, mas é com esta cisma que comento um artigo dele de hoje em dia, dia destes no mesmo “O Globo” de outrora:

                  Macacos, gorilas e micos

Por Nelson Motta (Em O Globo de ontem))

“Quando um pagodeiro, um jogador de futebol e um funkeiro, fantasiados de gorilas e cercados por popozudas de biquíni à beira de uma piscina, se divertem em um clipe do pagode Kong, e são acusados de racismo e sexismo pelo Ministério Público Federal em Uberlândia por “unir artistas e atletas em um conjunto de estereótipos contra a sociedade, comprometendo o trabalho contra o preconceito”, a coisa tá preta.”

(“A coisa tá preta é uma óbvia provocação do ‘Nelsinho‘ que sabe que expressão pode ser criticada pelos radicais pró cotas como uma expressão racista, o que seria uma bobagem, claro, mas não justifica a provocação. Nelson, um jornalista mui esperto, parece sim é querer atrair ibope para a matéria)

Alexandre Pires não é só um pagodeiro, é cantor romântico milionário, com carreira internacional, queridíssimo do público. Funkeiro é só um pouco de Mr. Catra, figuraça da cena musical carioca, rapper famoso nacionalmente por suas letras contundentes e suas paródias. E não é só um jogador de futebol: é Neymar. Não por acaso, uns mais e outros menos, são todos negros, ricos e famosos por seu talento, ídolos das novas gerações do Brasil mestiço. Já o procurador é branco, preocupado em proteger os negros para que não façam mal a eles mesmos.”

(Aí a chave da ideologia de “Nelsinho” aparece fortuitamente; O Brasil NÃO é um país racista, simplesmente porque NÃO tem negros por ser um país…mestiço. É a tese preferida dos anticotistas raciais, e por suposto dos neo racistas de O Globo e de alhures. Mas é uma tese improcedente, além de impertinente, todo mundo hoje sabe disso.)

…Assim como a beleza, o preconceito também está nos olhos de quem vê. Quem ousaria associar o genial Neymar, o galã Alexandre e o marrentíssimo Mr. Catra a macacos? Só um racista invejoso. Quem se incomoda com piadas e brincadeiras com jogadores de futebol, pagodeiros, funkeiros e marias-chuteira? Logo vão proibir o Criolo de usar o seu nome artístico.”

(A chacota é a segunda arma mais usada pelos neo racistas. Mas é um recurso impertinente do mesmo modo porque visa desqualificar as queixas de quem sofre racismo, como quem diz: “Ah! Isto não tem importância. São só brincadeiras inocentes”. Não são. É meio irresponsável também porque existe até lei para punir este tipo de chacota pretensamente…ingênua (injúria racial)..Afinal o que  o fato de Neymar ser genial, o Alexandre ser galã e o Mr Catra ser marrento tem a ver com as calças? Se chamar um judeu, apenas pela sua condição religiosa, de porco sovina é uma injúria racial indesejável, zombar da ‘raça‘ ou da cor de uma pessoa é o que?

…O procurador ficou especialmente incomodado quando Mr. Catra, vestido de gorila, cercado por gostosonas louras, ruivas e morenas e feliz como pinto no lixo, diz ter “instinto de leão com pegada de gorila“. Seria uma sugestão preconceituosa da potência sexual afrodescendente. Êpa! Elogio não é crime.”

(Irresponsável de novo, pois sabe muito bem que este tipo de associação entre negro e sexo animalesco é um dos epítetos mais condenáveis neste rol de injúrias raciais que os que se pensam brancos – e são racistas – cometem todo dia)

…O clipe já teve mais de 3 milhões de acessos no YouTube, é muito engraçado e bagaceiro, com produção e fantasias bem vagabundas, trash brasileiro. Dá até para sentir o cheiro de churrasco. As mulheres, com seus peitões e bundões, são o sonho de consumo sexual de milhões de brasileiros e, sem preconceito, de brasileiras.”

(Moderninho da elite, o preconceito de “Nelsinho” aparece de novo, escorrendo pelos cantos da matéria, desqualificando o caráter popularesco do vídeo, sem se dar conta de que um filme com milhões de acessos, cometendo o que para muitos é um dano moral, uma ofensa coletiva (do mesmo modo que ocorre com uma ofensa pessoal), um comportamento deplorável de depreciação do outro precisa ser denunciado sim.)

…Freud explica: quando João fala de Pedro, está falando mais de João do que de Pedro. Nas falhas, defeitos e intenções que um atribui ao outro, revela-se mais de si do que do outro.”

(Por fim, à título de ‘moral da história’, “Nelsinho” lança uma afirmação ambígua, de fundo supostamente psicanalítico: Significando, grosso modo o seguinte: “Quem chama o outros de racista é que é o racista”.

Bem bobinho. Pretensioso também.

Enfim, devo ressaltar aqui veementemente que acho a denúncia contra o vídeo de Alexandre Pires um mico mesmo. Num país racista como somos, num momento deste de ampla mobilização de vários setores de nossa sociedade contra a luta pela abolição do racismo no Brasil, no momento em que neo racistas feito Nelson Mota vão colocando, sutilmente as manguinhas de fora, não era adequado para um artista negro autorizar um comercial daqueles. Alexandre deu mole. pagou uma de alienado.

Só não concordo é com esta tendência a se censurar manifestações racistas, sexistas ou lá o que seja por meio de ações na justiça. Vale a denúncia, valem as campanhas contra o conteúdo de material como este – e estas campanhas, mesmo as mais veementes, devem ser apenas educativas – mas jamais a tentativa de cercear a livre exposição de ideias pode ser estimulada.

Pau nos racistas sim. Nos neos ou nos velhos, mas censura, definitivamente não. Eles que são brancos que se entendam. Merecem bananas.

No tempo do  ‘meu’ festival Gorila era milico. Hoje, como lá censura é mico também.

Spírito Santo

(Com Nelson Motta discriminado em itálico)

Maio de 2012

Titio e seu livro na Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada


Spirito Santo: um pesquisador musical e escritor desfazendo ruídos sobre as origens do samba e cultura afro-brasileira.

Quinta-feira 3 de Maio de 2012, por Simone Ricco

Foto de Marina Alves

Foto de Marina Alves

Conjugando atividades em diferentes espaços Spirito Santo faz artesanato musical (organologia), milita na luta antiracismo e promove discussões que colaboram com o reconhecimento da contribuição negro-africana para a formação da cultura brasileira. Em seus trabalhos como professor convidado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autor do livro “Do Samba ao funk do Jorjão”, produz esclarecimentos sobre o surgimento do samba brasileiro e do carnaval carioca, dois pilares de sustentação de nossa cultura e espaços de projeção de identidades afro-brasileiras.

Ao refletir sobre experiências acumuladas nas seis décadas de vida, o pesquisador avalia a presença do negro na vida social e cultural, levantando questões cruciais para acorrentar os afrodescendentes a estereótipos atribuídos no passado e mantidos nos presente. Atento aos movimentos necessários à desconstrução de rótulos e preconceitos, o autor faz colocações apropriadas sobre “o processo dramático de exclusão e da privação do negro dos direitos de cidadania na sociedade brasileira” e aborda ações que visam a combater tal exclusão aliando escrita, pesquisa e música ao empoderamento jovens afrodescendentes, à afirmação de identidade afro-brasileira e a transformações nas relações étnico raciais.

Ciranda Afro – Em 2011 você lançou o livro “Do Samba ao funk do Jorjão”. Esta iniciativa literária corresponde a comunicação que queremos, na qual o silêncio sobre as experiências e memórias negras é rompido, dando visibilidade à participação ativa da comunidade negra brasileira na criação da arte e cultura. Fale um pouco das dificuldades e prazeres envolvidos nesta experiência de pesquisar, registrar e transmitir memórias que contam a história do samba.

Spirito Santo – Como sabemos, o Brasil tem no racismo um dos eixos principais de seu modelo de sociedade. É um modelo arcaico, superado há muito tempo pelas sociedades mais evoluídas (e por isto mesmo, mais prósperas). O que mais nos diferencia talvez seja o fato de ter-se adotado aqui – e mantido de forma renitente até hoje – um recorte supostamente racial, fenotípico de estratificação social, criado após a abolição da escravatura como pretexto para perpetuar a exclusão social tornando-a sistêmica. Esta prática de controle social (a qual damos o nome algo eufemístico de ’racismo’) é no Brasil, apesar de não muito sofisticada, extremamente eficiente.

Esta fachada ’racial’ (étnica, no caso) deu à Educação e à Cultura funções mais ou menos estratégicas do ponto de vista dos gestores do sistema. É mais ou menos evidente, portanto que o monopólio da Educação, da informação, principalmente dos meios de difusão cultural, tenha se tornado o calcanhar de aquiles do sistema.

É um processo, como disse acima bem vulgar, simples e arcaico, mas que funciona. Desqualificar, subestimar a expressão da cultura específica dos demais (a cultura ’dos negros’ no nosso caso) é, pois, a principal barricada desta elite, o ’trono’ onde o sistema está assentado e de onde teremos que escorraçá-lo um dia.

O caso do meu livro – da literatura quero dizer, entre outros meios, o teatro, o cinema, etc. – é emblemático neste sentido. Não foi visível, mas deu para perceber nos 7 anos entre a produção do texto e a busca de uma editora, que existem filtros muito rígidos – embora sutis, enrustidos em sete chaves – tornando muito difícil a publicação de certos livros, a difusão de certas ideias em nossos meios de comunicação e dispositivos de mídia mais convencionais.

Existem, é claro, espaços e expressões de cultura negra ’permitidos’, ’autorizados’, tolerados’. O grande prazer que encontrei nestes anos todos (a pesquisa que redundou neste livro tem já mais de 30 anos) foi, entre outros, portanto poder exercitar – e de certo modo vencer – o desafio de contar uma história provável do Samba para todos e não apenas do gueto para o gueto, não me conformar em ser enquadrado num espaço apenas tolerado, permitido, não adequar o meu discurso aos lugares comuns de sempre, o que todos repetem por aí acerca deste tema tão caro à nossa autoestima.

Ciranda Afro – O título do livro aponta para um processo de criação e transformação do samba. Ao analisar as transformações no ritmo das baterias de escolas de samba cariocas sua pesquisa indica que a abertura de espaço para o funk resulta de um processo de comunicação entre sonoridades africanas. Este diálogo diaspórico enfraquece ou renova o samba e a cultura afro-brasileira?

Spirito Santo – Na verdade, não há muita novidade nesta minha abordagem expressa pelo título. O que eu constatei é que há sim uma complexa rede de enganos, um manto de mistificações que ocultavam os aspectos mais profundos da experiência histórica e cultural dos africanos no Brasil. Este ’processo de comunicação entre sonoridades africanas’ sempre ocorreu, até porque é humano que seja assim. Ele ocorreria de um modo ou de outro, nas circunstâncias em que se deu o sequestro, o translado forçado de tantas pessoas de um continente para o outro.

A cultura dos seres humanos – e não só a cultura negra – sempre se processou assim. Os africanos não eram, silvícolas de tanga, ’povos tradicionais’ como certa antropologia reducionista os pinta até hoje. Eram – e são – em sua grande maioria, povos com larga e antiga – experiencia cultural e civilizatória, como se sabe. Além disto o mero convívio com a diversidade cultural do meio para o qual foram transplantados, a cultura de uns e de outros (inclusive a dos europeus, na dolorosa experiencia do colonialismo em África e na escravidão nas Américas, é claro) era natural que se ensejasse um processo de trocas com um resultado muito complexo e com traços e vocação para a modernidade.

As pessoas não se deram conta ainda, mas quando observamos mais profundamente certas caraterísticas específicas – historiológicas, antropológicas – dos modos de ser e pensar destes grupos étnicos africanos que a escravidão trouxe para as Américas, talvez se deva concluir que o próprio sentido do conceito cultura popular urbana (’cultura pop’ como se diz mais grosso modo, no sentido mais amplo da palavra) pode ter sido criado aqui nas Américas, no início do século 19 e por força do transplante destas pessoas e suas almas cultas, espalhadas aos milhares, em multidões buliçosas, pelos principais grandes centros urbanos que se formaram na ocasião.

O eixo – um tripé – onde, neste processo o fenômeno, provavelmente se deu (e eu sugiro isto, diretamente no livro), foi o Caribe, o Brasil e o Sul dos EUA, uma linha evolutiva, de tempo que simbolicamente vai “…Do Samba ao Funk do Jorjão”.

É por isto que, neste sentido, não existe para mim, uma música negra ’brasileira’, ’nacional’, no sentido restrito e xenofóbico mais recorrente. As circunstancias em que se deu a escravidão – para o bem e para o mal – produziu uma música popular única, partilhada pelos negros das Américas e tornada a música ’do mundo’, ’música pop’ universal, de todo o planeta.

O Samba para mim – como o Funk original, norte americano – sínteses destas sonoridades todas, são um reflexo claro desta ’diasporidade’ maravilhosa, que nos une e que talvez seja, com seu espírito de união fazendo força, a nossa única chance de salvação um dia.

Ciranda Afro – Ainda sobre a trajetória do samba no Rio de Janeiro, desde as primeiras manifestações culturais organizadas em torno da sonoridade africana, a comunidade negra exerceu um protagonismo na criação artística. A organização das escolas de samba foi um marco deste protagonismo. Com a transformação do desfile das escolas de samba em evento de maior projeção no calendário cultural carioca, notamos um deslocamento da comunidade negra para a periferia do espetáculo. Qual sua impressão sobre este processo?

Spirito Santo – O que ocorreu no Rio de Janeiro a partir de 1910 está ligado diretamente a este fenômeno cultural diaspórico ao qual acabo de me referir. Não foi um fenômeno de modo algum isolado, envolvendo inclusive um processo muito intenso de transferência de populações de um estado para o outro. O reflexo musical deste processo na época, mais precisamente foi o surgimento das grandes bandas musicais e de fenômenos musicais típicos como a ’Habanera’ cubana (a Salsa atual), o Rag Time de New Orleans e o Samba (e o Choro) carioca. O que deflagra este processo do ponto de vista cultural aqui no Rio de Janeiro na verdade não é o nem o Samba apenas (que, aliás nem existia ainda como tal), mas de um lado a emergência dos hábitos baianos (como o ’pastoril’ ou ’Lapinha’ lusitana, aqui chamada de ’Rancho Carnavalesco’ prevalecendo) e, de outro lado, pelo Jongo (que resultou no ’Partido Alto’) trazido das fazendas de Café do Vale do Paraíba do Sul, na província do Rio de Janeiro (bom frisar também que o Candomblé não tem, a rigor nenhuma participação, assim direta ou relevante nesta mistura musical, no caráter de música urbana, profana, dela).

Era, portanto um processo de muita efervescência social no qual o negro assume o protagonismo não exatamente por ser negro (ou africano) mas por ser o ’povo’ real e visível, a maioria populacional nestes centros urbanos principais que se formaram (Rio de Janeiro, Salvador e Recife) que acumularam uma massa impressionante de ex escravos em busca de trabalho e sobrevivência.

Há que se considerar também que há no processo um recorte social muito sutil que a historiografia brasileira omite ou subestima: Os baianos que chegam à Corte (uma pequena colônia oriunda de Salvador, na verdade) são uma espécie de classe média emergente, já desde a Bahia com um grau importante de assimilação dos valores pequeno burgueses brancos que surgiam. Eles tinham um espírito de corpo, uma vocação elitista muito forte marcada por agudos anseios de ascensão social. Este perfil de colônia negra orgulhosa, atraiu – e iludiu – a inteligentsia branca da época (como ilude a academia branca ainda hoje), criando um conceito de ’pureza’ negra, de ’supremacia ’yorubaiana’ (que eu chamo no livro de ’reducionismo nagô’) bem questionável à luz de estudos mais aprofundados.

Ciranda Afro – Além das transformações rítmicas abordadas em seu livro, as escolas de samba realizaram muitas transformações visuais. No cenário das escolas houve aumento de luxo e da profissionalização, com um visível embranquecimento da equipe técnica e dos componentes das escolas. Como ficou o protagonismo da comunidade negra no atual samba carioca? Nesta trajetória de profissionalização do carnaval, como explicar o distanciamento dos afrodescendentes das posições de comando das escolas de samba e órgãos ligados à organização dos desfiles cariocas?

Spirito Santo – As Escolas de Samba são um excelente microcosmo para se analisar o processo dramático de exclusão e da privação do negro dos direitos de cidadania na sociedade brasileira. O processo que descrevi entre 1910 e 1930 é virtuoso para o negro. O Rancho Carnavalesco deixa de ser uma manifestação pequeno burguesa luso baiana e, embora já tocada por negros, assume de vez, com a chegada do Samba dos jongueiros entre outras influências, características negro africanas bem mais definidas.

Já com este perfil estético essencialmente negro-africano, as Escolas de Samba catalizam então tudo que é cultura de massa no âmbito do Carnaval da cidade. De certo modo, o Carnaval de rua da elite, da classe média carioca (que no geral já se isolara nos salões) passa a ficar reduzido apenas às Chamadas ’Grandes Sociedades’, desfiles de imensos carros alegóricos.

No livro se pode observar nitidamente que ficou mais ou menos evidente no pós guerra (e por razões que não cabe analisar aqui) a agudização do processo de empobrecimento, exclusão geral da comunidade negra. Iniciativas como o Teatro Experimental do Negro, num rol de iniciativas culturais dos negros urbanos que começa antes de 1950, demonstram claramente que o racismo se agravou muito e que algo precisava ser feito.

É nesta fase que o processo de degradação das Escolas de Samba atual, aparentemente se inicia também, sutilmente a princípio, para se agravar muito nas décadas seguintes, 1960 e 1970. O sinal mais evidente desta decadência política das Escolas de Samba, como representação de nossa cultura negro africana, consiste nas ’transformações visuais’ que são, nada mais nada menos do que a inserção das ’Grandes sociedades’ burguesas, seus gigantescos carros alegóricos e seus artistas plásticos ’carnavalescos’, no contexto de uma manifestação antes inteiramente ’popular’, ’de pobres negros’, numa espécie de democratização às avessas.

Os resultados deste longo processo (que não é exclusivo das Escolas de Samba, pois a proliferação de favelas e bairros miseráveis para negros se inicia nesta época também) pode ser claramente observado hoje, quando de Samba – e de sambistas – mesmo as Escolas de Samba já não têm quase nada do que tinham no passado.

Ciranda Afro – O crescimento do carnaval de rua e a profissionalização das escolas de samba são oportunidades para a inclusão da comunidade negra em atividades culturais remuneradas e valorizadas economicamente?

Spirito Santo – Infelizmente não. E estes são os outros aspectos omissos da questão. O espaço político e econômico do negro nas Escolas de Samba foi inteiramente usurpado por interesses espúrios os mais diversos há muito tempo, desde os anos 1970, à época da ditadura militar pelo menos. Os interesses comerciais pelo gigantesco valor econômico dos eventos são muito poderosos.

Na verdade as Escolas de Samba – entidades legais sem fins lucrativos – se transformaram em espécies de lavanderias de dinheiro escuso de variados tipos de máfia, entre as quais os chamados ’contraventores’ – que, aliás vão perdendo terreno rapidamente para outras máfias mais poderosas – são apenas um grupo a mais. Isto sem contar nos interesses midiáticos mais evidentes.

No livro conto um curioso e emblemático exemplo da tentativa de organização de uma entidade profissional de ritmistas de Samba (iniciativa de um mestre de bateria nos anos 80) que foi rapidamente abortada e esquecida depois do que pareceu ser uma sutil ameaça de morte, lançada no ar por um famoso (e falecido) ’patrono’ contra o ex-quase sindicalista sambista.

A relativa ausência de negros nos inúmeros blocos de Carnaval de rua do Rio de Janeiro de hoje em dia é também um sintoma bem claro desta situação que, como disse é dramática.

Ciranda Afro – Além da cultura, e do carnaval, outras frentes de atuação foram abertas pela comunidade negra. A partir dos anos 1970 coletivo de militantes negros/as toma lugar na produção de ações práticas e reflexões teóricas que têm garantido a inserção de questões afro-brasileiras na comunicação. Nos atuais tempos de cultura digital, a web abre espaço para experiências promotoras da democratização da informação. No Brasil, ativistas da luta pela igualdade racial e estudiosos das relações raciais têm recorrido aos blogues como ferramenta que amplia a circulação de conhecimentos e de questões importantes para afirmação da cultura e dos afro-brasileiros. Em que medida estes espaços constituem um novo modelo de militância?

Spirito Santo – Esta é sem dúvida a grande virada nesta questão. O caráter amplamente democrático da internet quebra a espinha dorsal de um sistema baseado no controle da informação, na medida em que mais e mais pessoas vão aprendendo a utilizar estas novas mídias disponíveis e vão podendo exercer os seus direitos culturais a coisa muda, rapidamente. Eu mesmo sou um fruto deste processo aí, pois, velho militante da cultura negra que sou, só agora, me valendo destas ferramentas é que consegui dar alguma fluidez e visibilidade às ideias que já manifestava desde os anos 70.

Há muito que se fazer no entanto no campo da Educação e da difusão de nossa cultura real, pois de modo geral, ainda temos uma ideia bem estereotipada de nós mesmos, e os mecanismos de acesso do negro à fontes de pesquisa – o acesso à Educação formal em suma – ainda estão inteiramente controlados pelos mesmos agentes de sempre. Pessoalmente acho que ainda estamos muito submissos, subordinados a uma ideia de história e cultura negras mistificadas e tuteladas pela academia ’branca’. No livro apelo veementemente por um amplo processo de revisão destas mistificações todas que nos impuseram e que ainda reproduzimos de forma totalmente acrítica.

Ciranda Afro – A união de música e educação gerou o projeto Musikfabrik. Durante o projeto, jovens afrodescendentes travaram contato com o processo de criação de instrumentos tradicionais africanos. Com base nos resultados deste projeto, qual é a importância do acesso a conhecimentos resguardados pela matriz africana para despertar nos jovens uma identidade afrodescendente?

Spirito Santo – O Musikfabrik é uma experiência muito positiva no sentido da utilização à nosso favor de mecanismos pedagógicos muito eficientes, mas em geral totalmente desprezados pela Educação convencional, burguesa. Este mecanismo é a Linguagem Musical, fonte poderosíssima de transmissão de conteúdos gerais, história, antropologia, matemática, física, um mecanismo fundamental à sobrevivência da cultura africana no Brasil por força da grande experiencia dos africanos com dispositivos pedagógicos de transmissão de conhecimentos de natureza oral (acústicos, por suposto).

Sempre ressaltamos nestes mais de 15 anos de Musikfabrik a enorme eficiência de mecanismos ligados às ’múltiplas linguagens’ nos processos de escolarização de nossa população, não só negros ou afro descendentes, diga-se porque nossa cultura é fortemente marcada por valores negro africanos sim, mas todos, negros e brancos estamos sujeitos, afeitos a ela, pois é a cultura de todos nós.

Contudo, com exceção de algumas poucas parcerias que estabelecemos, a adesão das instituições convencionais de ensino – inclusive a UERJ, instituição a qual , por enquanto, ainda pertencemos – a estas nossas ideias sempre foi mínimo. No geral, apesar de nossa longevidade e visibilidade sempre nos subestimaram como experiencia educacional, tentando nos reservar apenas espaços subalternos como uma oficina de instrumentos musicais exóticos, folclóricos ou curiosos ’para negros’. A despeito dos preconceitos rasos e clássicos (e típicos de nosso racismo sistêmico), contudo, o sucesso e a pertinência desta nossa experiência são reconhecidos internacionalmente.

Ciranda Afro – A educação brasileira elegeu o livro como principal ferramenta didática, mantendo pouco explorado o potencial didático dos muitos sambas de enredo que ensinam a história do Rio de Janeiro, do Brasil e de figuras significativas nestas histórias. Quais as perdas resultantes desta falha de comunicação entre a escola e um ritmo tão presente no cotidiano de grande parte dos estudantes?

Spirito Santo – É precisamente o tema da pergunta anterior. A educação brasileira, pensada para excluir a maioria das pessoas e manter uma casta minoritária no poder, é uma das mais atrasadas do mundo. Agora mesmo, como um país burro empacado, estamos perdendo avanços importantes por falta de quadros preparados para ocupar postos de trabalho gerados pelo nosso relativo sucesso econômico.

Fica cada vez mais evidente de que este atraso recorrente se dá em todos os níveis, desde o ensino elementar e fundamental e seus processos ’deseducativos’ até a universidade, renitentemente aristocrática, anti democrática, burra mesmo porque trabalha com princípios elitistas de transmissão de apenas alguns conhecimentos para poucos, apenas o suficiente para manter a mesma elite no poder (como em uma terra de cegos).

Os filtros sutis aos quais me referi que dificultam a publicação de certa literatura ou a fruição de certas ideias nos meios de comunicação convencional são a prova desta nossa endêmica ’burrice acadêmica’.

Ciranda Afro – A Conferência Rio +20 tem por proposta renovar o comprometimento político com o desenvolvimento sustentável e incentivar a economia verde como uma saída para a erradicação da pobreza. Que discussões podem ser promovidas nesta Conferência para colaborar com políticas que auxiliem na ampliação de cidadania e sustentabilidade da comunidade negra?

Spirito Santo – À comunidade negra foram relegados os piores espaços de ocupação do espaço urbano. Negados historicamente seus direitos de acesso à terra no interior do país, deixaram que o negro – e agora o nordestino – ocupasse as áreas mais degradadas das grandes cidades ou, por absoluta falta de alternativas, áreas que ele mesmo, favelado foi obrigado a degradar.

De certo modo o negro foi transformado pelo sistema numa espécie de predador do meio ambiente urbano, empurrado para periferias cada vez mais afastadas dos serviços urbanos essenciais garantidos apenas aos poucos de sempre, e barrado também de alternativas ligadas ao acesso a terra para plantar. O nível de favelização de cidades brasileiras como o Rio de Janeiro por exemplo – um problema ecológico mais que evidente – é, por isto mesmo o de uma cidade em coma, estrangulada por sua imensa periferia.

Sou pessimista diante destas iniciativas macro de desenvolvimento sustentável porque elas as vezes ignoram problemas ambientais básicos de nossas sociedades, aqueles ligados às pessoas, como é este caso de nossas favelas, por exemplo. É óbvio que o sistema econômico hegemônico que nos rege é o grande responsável por nosso dramático desequilíbrio ambiental. As soluções propostas, contudo (e o conceito +20 tem um peso de contagem regressiva assustador) não se atrevem a questionar o sistema em nenhum grau e são sempre paliativas, retóricas, quase nunca – notadamente no Brasil – considerando as pessoas como um componente essencial desta equação ecológica, deste ’mundo a ser salvo’.

As políticas atuais aplicadas no Rio de Janeiro, por exemplo claramente estimuladas por interesses financeiros e turísticos imediatistas, ’de ocasião’, no que diz respeito à gestão dos problemas socioambientais e de moradia (saneamento básico, saúde, transporte, etc.) ligados à comunidade favelada (negra e nordestina) são a prova candente deste descalabro oportunista e ecologicamente irresponsável. É provável que a criação, por parte do negro, de um sentimento cultural de pertencimento a esta sociedade a ser transformada (sair do isolamento deste gueto emocional em que se encontra), um sentimento de revolta franca e ampla que estimule a organização de formas de luta coletiva mais eficazes, sejam as únicas formas de quebrar a lógica paliativa do sistema que, ao que parece vai querer sempre ’mais 20’, ’mais 20′, com o negro – o excluído de sempre – no papel de predador de si mesmo.

O poder da cultura e seus mecanismos de comunicação social, como força coercitiva destas mudanças me parece, neste aspecto crucial.

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Fonte:http://www.ciranda.net/fsm-2011-dakar/article/spirito-santo-um-pesquisador