Nelson Motta nunca foi chegado em gorilas.

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Eu no festival com a bela Norma Blum

Eu no festival com a bela Norma Blum

Se os defende agora é por que, neo racista que é, ficou ‘com a macaca’ com a vitória das cotas raciais no STF.

Tenho uma cisma antiga com o Nelson Mota que torno pública agora. Em 1968 participei e fui muito bem sucedido num festival de música da TV Globo.

Como compositor tirei o terceiro lugar (com direito à aclamação do público para mim – e vaias aos primeiros colocados. Queriam que a minha música vencesse). Fui escolhido também um dos dois melhores intérpretes do festival (a música se chamava “Havia” e fui acompanhado pela orquestra da Globo regida pelo grande maestro Mario Tavares, com arranjo de Lyrio Panicalli, também um importantante maestro). Saí até na capa do jornal O Globo no dia seguinte, um sábado.

(A vencedora foi a minha amiga Irinéa Ribeiro com belíssima canção “Praia Só”.)

Muitos anos depois, folheando recortes de Jornal da época, dei de cara com uma nota do já então crítico musical Nelson Mota que incensava os vencedores, inclusive algumas músicas com colocações mais inferiores e, simplesmente omitia o meu nome, o de minha canção e tudo o mais ao meu respeito, numa demonstração clara de desprezo absoluto, embora gratuito.

De tão inexplicável, o desdém de Nelson para comigo me embatuca até hoje. Na falta de outra, a suposição de racismo então me veio mais forte na cabeça. Mesmo Irinéa também sendo negra. É que tendo sido a primeira colocada teria sido impossível para Nelson Motta omiti-la da nota. Afinal, éramos eu e ela – e uma outra figura lá – os únicos negros entre centenas de pessoas, sei lá, cerca de  36 candidatos, além de técnicos, organizadores, músicos da orquestra, etc. Éramos mesmo três gatos pingados apenas naquele palco do Teatro João Caetano. O certo é que o único negro claramente suburbano e marrento daquela história toda, parece que  era eu.

Será que foi isto?

O fato é que nunca entendi o que teria feito Nelson Motta me desprezar a este ponto. A música era de franco protesto social (tanto que, apenas quatro meses após o festival – e não por causa da música – eu estava preso como militante iniciante de uma organização de luta armada). Mas Nelson não era um cara ‘de direita‘, um ‘reacionário‘. Seria impossível naquele tempo ser crítico musical e, ao mesmo tempo ser um ‘reacionário de direita’.

A música era, reconhecidamente de boa qualidade. Me lembro vivamente do entusiasmo com que Mário Tavares a regia, visivelmente emocionado. Lembro também do entusiasmo (mal disfarçado) de algumas pessoas do júri entre outros o Milton Nascimento, Paulo Sérgio Valle e o maestro Eumir Deodato.

Ficou nítido em todo o evento que o júri teve trabalho para julgar com isenção, já que a minha música era a franca favorita, até mesmo para os demais concorrentes (dias antes saiu até uma matéria me destacando num aplaudidíssimo ensaio no teatro da Globo. A matéria cantava a pedra de que eu ‘poderia‘ ganhar o festival).

Nelson Motta não. Nelson Motta me odiou. Fiquei com esta cisma e a mantenho até hoje. Que tipo de incômodo o meu justo sucesso naquele evento teria produzido no crítico musical ‘moderninho‘ a ponto de fazer com que ele, simplesmente me ignorasse e tentasse me riscar da história daquele festival?

Macacos me mordam se eu tiver sendo injusto com “Nelsinho”, mas é com esta cisma que comento um artigo dele de hoje em dia, dia destes no mesmo “O Globo” de outrora:

                  Macacos, gorilas e micos

Por Nelson Motta (Em O Globo de ontem))

“Quando um pagodeiro, um jogador de futebol e um funkeiro, fantasiados de gorilas e cercados por popozudas de biquíni à beira de uma piscina, se divertem em um clipe do pagode Kong, e são acusados de racismo e sexismo pelo Ministério Público Federal em Uberlândia por “unir artistas e atletas em um conjunto de estereótipos contra a sociedade, comprometendo o trabalho contra o preconceito”, a coisa tá preta.”

(“A coisa tá preta é uma óbvia provocação do ‘Nelsinho‘ que sabe que expressão pode ser criticada pelos radicais pró cotas como uma expressão racista, o que seria uma bobagem, claro, mas não justifica a provocação. Nelson, um jornalista mui esperto, parece sim é querer atrair ibope para a matéria)

Alexandre Pires não é só um pagodeiro, é cantor romântico milionário, com carreira internacional, queridíssimo do público. Funkeiro é só um pouco de Mr. Catra, figuraça da cena musical carioca, rapper famoso nacionalmente por suas letras contundentes e suas paródias. E não é só um jogador de futebol: é Neymar. Não por acaso, uns mais e outros menos, são todos negros, ricos e famosos por seu talento, ídolos das novas gerações do Brasil mestiço. Já o procurador é branco, preocupado em proteger os negros para que não façam mal a eles mesmos.”

(Aí a chave da ideologia de “Nelsinho” aparece fortuitamente; O Brasil NÃO é um país racista, simplesmente porque NÃO tem negros por ser um país…mestiço. É a tese preferida dos anticotistas raciais, e por suposto dos neo racistas de O Globo e de alhures. Mas é uma tese improcedente, além de impertinente, todo mundo hoje sabe disso.)

…Assim como a beleza, o preconceito também está nos olhos de quem vê. Quem ousaria associar o genial Neymar, o galã Alexandre e o marrentíssimo Mr. Catra a macacos? Só um racista invejoso. Quem se incomoda com piadas e brincadeiras com jogadores de futebol, pagodeiros, funkeiros e marias-chuteira? Logo vão proibir o Criolo de usar o seu nome artístico.”

(A chacota é a segunda arma mais usada pelos neo racistas. Mas é um recurso impertinente do mesmo modo porque visa desqualificar as queixas de quem sofre racismo, como quem diz: “Ah! Isto não tem importância. São só brincadeiras inocentes”. Não são. É meio irresponsável também porque existe até lei para punir este tipo de chacota pretensamente…ingênua (injúria racial)..Afinal o que  o fato de Neymar ser genial, o Alexandre ser galã e o Mr Catra ser marrento tem a ver com as calças? Se chamar um judeu, apenas pela sua condição religiosa, de porco sovina é uma injúria racial indesejável, zombar da ‘raça‘ ou da cor de uma pessoa é o que?

…O procurador ficou especialmente incomodado quando Mr. Catra, vestido de gorila, cercado por gostosonas louras, ruivas e morenas e feliz como pinto no lixo, diz ter “instinto de leão com pegada de gorila“. Seria uma sugestão preconceituosa da potência sexual afrodescendente. Êpa! Elogio não é crime.”

(Irresponsável de novo, pois sabe muito bem que este tipo de associação entre negro e sexo animalesco é um dos epítetos mais condenáveis neste rol de injúrias raciais que os que se pensam brancos – e são racistas – cometem todo dia)

…O clipe já teve mais de 3 milhões de acessos no YouTube, é muito engraçado e bagaceiro, com produção e fantasias bem vagabundas, trash brasileiro. Dá até para sentir o cheiro de churrasco. As mulheres, com seus peitões e bundões, são o sonho de consumo sexual de milhões de brasileiros e, sem preconceito, de brasileiras.”

(Moderninho da elite, o preconceito de “Nelsinho” aparece de novo, escorrendo pelos cantos da matéria, desqualificando o caráter popularesco do vídeo, sem se dar conta de que um filme com milhões de acessos, cometendo o que para muitos é um dano moral, uma ofensa coletiva (do mesmo modo que ocorre com uma ofensa pessoal), um comportamento deplorável de depreciação do outro precisa ser denunciado sim.)

…Freud explica: quando João fala de Pedro, está falando mais de João do que de Pedro. Nas falhas, defeitos e intenções que um atribui ao outro, revela-se mais de si do que do outro.”

(Por fim, à título de ‘moral da história’, “Nelsinho” lança uma afirmação ambígua, de fundo supostamente psicanalítico: Significando, grosso modo o seguinte: “Quem chama o outros de racista é que é o racista”.

Bem bobinho. Pretensioso também.

Enfim, devo ressaltar aqui veementemente que acho a denúncia contra o vídeo de Alexandre Pires um mico mesmo. Num país racista como somos, num momento deste de ampla mobilização de vários setores de nossa sociedade contra a luta pela abolição do racismo no Brasil, no momento em que neo racistas feito Nelson Mota vão colocando, sutilmente as manguinhas de fora, não era adequado para um artista negro autorizar um comercial daqueles. Alexandre deu mole. pagou uma de alienado.

Só não concordo é com esta tendência a se censurar manifestações racistas, sexistas ou lá o que seja por meio de ações na justiça. Vale a denúncia, valem as campanhas contra o conteúdo de material como este – e estas campanhas, mesmo as mais veementes, devem ser apenas educativas – mas jamais a tentativa de cercear a livre exposição de ideias pode ser estimulada.

Pau nos racistas sim. Nos neos ou nos velhos, mas censura, definitivamente não. Eles que são brancos que se entendam. Merecem bananas.

No tempo do  ‘meu’ festival Gorila era milico. Hoje, como lá censura é mico também.

Spírito Santo

(Com Nelson Motta discriminado em itálico)

Maio de 2012

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~ por Spirito Santo em 12/05/2012.

4 Respostas to “Nelson Motta nunca foi chegado em gorilas.”

  1. Somos chamados de minorias ,mas somos a maioria e é bom que fiquemos ligados nessa injúrias raciais

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  2. Esse discurso se repete há décadas. Na concepção deles, nós somos os principais racistas. tentam tapar o sol da hipocrisia com a peneira de um racismo velado, principalmente pela mídia. Basta observar a imagem sempre negativa e de subalterno que passam a todo momento na TV. Isso sem contar a ideia insistente de que somos minoria. Nunca morri de amores pelo Nelson Mota mesmo. Aliás, alguém deveria sugerir que ele se olhasse atentamente no espelho. Sua estética facial em nada lembra a dos brancos europeus.

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  3. Então. As pessoas precisam sempre lembrar que estas coisas não se dão assim por acaso. Têm sempre um montão de fundamentos e antecedentes que vão se avolumando até formar uma maneira de endeusar isto e apagar aquilo. O Nelson é uma destas pessoas que estabelecem modismos.

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  4. Lí sua matéria/depoimento e aplaudi. Alguém tem que ficar antenado a estas “sutilezas”, de preferência que todos nós estejamos antenados. Fica mais interessante quando o antenado ( no seu caso), tem história pra contar e confrontar os fatos.
    APOLONIO NETO

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