A Lama do Valongo e a Arqueologia do Caô / Post #01

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Postal angolano (Portugal) do século 19 (corte)

Postal angolano (Portugal) do século 19 (corte)

As docas velhas e as mudas pedras pisadas do cais

O Tio esteve dias destes fazendo uma espécie de curiosa ‘inspeção’ às obras do “Porto Maravilha”, obras de revitalização das antigas Docas do Rio de Janeiro colonial e suas adjacências (uma denominação lascada de cínica, aliás, pois, trata-se de, entre outros resquícios imperiais, dar de cara com milhares de esqueletos de africanos soterrados num pântano que havia por ali na metade para o fim do século 18)

O trecho percorrido pelo Tio – todo registrado em fotos em vídeo porque o tio estava acompanhado por um pequena equipe de cinema que, no momento realiza um documentário baseado no trabalho, exatamente do… tio – compreendeu o Cais do Valongo (coberto pelo cais da Princesa em 1883) até o Museu dos Pretos Novos, sítio que conheci na época da descoberta mesmo, pois coincidentemente (já vem o Tio com suas histórias) trabalhava ao lado, no Centro Cultural José Bonifácio e conhecia a dona da casa, Ana Maria Merced, onde os ossos foram descobertos em 1996.

(Nunca tive coragem para ir na casa de Merced ver os ossos, embora viva escrevendo sobre o Valongo e só agora entrei lá). História calcada, fincada no macabro de nossas relações sociais. Lançar cadáveres num lixão a céu aberto? Acreditam numa coisa destas? Os nazistas pelo menos incineravam sua vítimas.

Cá entre nós, o sítio arqueológico descoberto por Merced é tratado ainda hoje – mesmo com as obras do Porto Maravilha – com um descaso que, apesar de impressionante é muito recorrente quando se trata das coisas de preto no Brasil. Quase tudo que está lá de trabalho de prospecção foi de iniciativa da própria Merced, que inclusive comprou duas residências contíguas à sua casa, para ampliar a área de prospecção dos ossos.

Alguma, muito pouca, pesquisa e análise do material foi feita pelo Museu Nacional por razões que descobriremos a seguir e o sítio esteve, praticamente abandonado pelas autoridades da prefeitura nestes quase 15 anos. Quase nenhuma antropologia foi feita também nos vestígios (na verdade descobrimos pesquisando rapidamente o tema arqueologia brasileira, que a área científica que a academia resolveu associar à arqueologia neste caso, estranhamente não é a Antropologia, mas sim a História)

O fato é que pouco se têm feito neste campo, pelo menos no nível que a importância do sítio arqueológico do Valongo têm neste aspecto. Afinal, ali estava instalado, durante certa época, o maior porto de desembarque de escravos africanos nas Américas (sem falar nos trapiches, pequenos portos e desembarque particulares espalhados ela região).

Vi nesta rápida ‘inspeção‘ – de novo, pois li há pouco tempo atrás uma matéria sobre isto – uma mãe de santo (toda paramentada, fantasiada mesmo) sendo entrevistada por Tânia Andrade de Lima, arqueóloga responsável pelo sítio. Soube logo a seguir, cavucando o tema, que existe uma verdadeira comissão de mães de santo de candomblé orientando não sei o que no trato da arqueologia feita no local. Estranho muito isto (e quem conhece o Tio sabe muito bem porque) a possibilidade de se estar dando um enfoque etnologicamente equivocado ao caso do Valongo.

Sabem como é? Copa do Mundo e Olimpíadas vindo aí, Cidade Empresa, interesses turísticos comerciais exacerbados pode ser igual à Arqueologia à toque de caixa, apenas ‘para inglês ver’.

Fiquei mesmo curioso em saber, aliás, o que mães de santo de uma religião tão fundada na cultura de africanos da África ocidental (grosso modo gente yoruba, da Nigéria por suposto) teriam a ver com ossos os usos, os costumes, os haveres e a sacralidade de pessoas que, em sua esmagadora maioria foram (pelo menos as que viraram os ossos mais ao rés do chão), oriundas do porto de Benguela e de Moçambique, na África colonial portuguesa.

Alguém disse aí que isto não tem a menor importância? Pois, para o Tio tem toda a importância do mundo. Como se deveria saber em se tratando do continente africano, assim como da Ásia já sabemos: um caminhão cheio de chineses é algo muito diferente de um caminhão cheio de japoneses. Nada a ver.

Alguém me disse lá, de forma francamente emocionada, justificando a presença da comissão de mães de santo de candomblé no âmbito da sacralidade intrínseca do Valongo, que havia chegado para o sítio dos ossos a “Hora do Sagrado”. Na mesma hora perguntei se este ‘Sagrado‘ – diverso que é como tudo que é humano – também não teria hora certa e lugar certo (origem definida) para ser evocado.

Nada disto pode ser aprofundado ainda, mas na medida das limitações do Tio, tudo será revelado daqui para adiante.

É importante salientar, entretanto que não será nada fácil. É que já nesta primeira abordagem, fomos interceptados de forma sutilmente policialesca, por funcionários da Secretaria de Obras da Prefeitura que nos obrigaram a interromper os registros (estávamos na rua). A impressão que tivemos é a de que o trabalho de prospecção lá – apesar de super vigiado – é bem precário, pois, quem fazia a recolha dos vestígios era um simples (e solícito) operário da obra, incumbido de revolver a lama com uma simples enxada, para recolher o que ele mesmo achasse relevante, que era posto num saco destes comum, de lixo sem nenhuma orientação aparente (o Tio mesmo, antes de ser admoestado e repreendido, pode pegar alguns destes impressionantes vestígios em suas próprias mãos).

Sei disto, que o trabalho – nesta fase pelo menos- parece ser pouco cuidadoso do ponto de vista técnico porque o operário entrevistado não se intimidou em nenhum momento em nos informar sobre tudo o que fazia, sem se reportar a nenhum chefe ou responsável. Na verdade uma pessoa com ares de alguma responsabilidade pela obra, só apareceu mesmo no momento de nos admoestar por estarmos – repito, o sítio é na rua, a céu aberto – observando e registrando o trabalho arqueológico ali desenvolvido.

Fomos orientados então a solicitar a autorização da arqueóloga responsável para que pudéssemos prosseguir com a nossa reportagem, o que fizemos imediatamente. Inusitadamente, contudo, no ensejo de ser consultada, Tânia Andrade Lima, a arqueóloga responsável, após uma seção de fotos (e, segundo nos informaram outras fontes, de uma entrevista para a Globo News) sempre de braços dados com uma das mães de santo, rechaçou a pessoa de nossa equipe, de forma, segundo a própria moça nos relatou, algo arrogante, dizendo:

_” Você não está vendo que estou ocupada?”

Foi por isto, pulgas atrás das orelhas que já estava, que o Tio resolveu tentar aprofundar melhor esta história aí. É assim pois que inciamos aqui esta série do que será um longo post-reportagem com algumas pitadinhas conceituais, focadas muito mais na história e na arqueologia destes ossos, tão importantes para a revelação de tantos enigmas nacionais, do que na cor das ceroulas e dos babados da princesa.

—————–

Em tempo, devo informar, contudo que esta era apenas a nossa única intenção, a inicial. É que, de tão impressionado que fiquei com a visão dos esqueletos no Museu dos Pretos Novos, sonhei à noite quase pesadelos . Em transe talvez, psicografei então um importante relato vindo, sei lá de onde – impossível saber – proferido por uma inusitada fonte, testemunha ocular deste passado macabro.

“_ Os ossos falam”_ Dizia o anúncio de um filme de antropologia forense destes aí, da TV. Foi assim que me vi – pelo que testemunhei e pelo que psicografei – instigado a começar esta série com o improvável depoimento de uma vítima do Valongo histórico.

Não tenho meios de provar que este informante, esta fantástica testemunha realmente existiu, mas prometo de pés juntos que este será o único trecho desta longa reportagem que não será cabalmente documentado. Acredite quem quiser.

Tião Angola – sem carne e em ossos – fala ao Tio. Entrevista exclusiva para o blog

Titio:_ Incrível! Estou pasmo. Você é mesmo o espírito de um escravo desembarcado no Cais do Valongo?

…Devera. Sou o fantasma franco de Sebastião Angola. Mal cheguei, batizado fui e nem bem me pude dar conta de que não poderia mais me chamar a mim mesmo de Ngonzo dia Kimbangu como me foi dado me chamar até aqui, desde lá.”

Titio:_ Mas o que há de mal nisto. Batizaram-no com um nome português, ora. Quem haveria de entender o nome como o que você era conhecido antes?

Ngonzo:…E quem sou eu agora? Me diga. A partir daí fiquei sem saber quem sou. O que haveria de mim naquele ‘bastião’, palavrão que me gritava o batizador estúpido a ponto de não saber que batizado, ungido, nomeado eu já poderia ter sido desde que nasci. Ah…”

Titio:_ Certo, mas então porque você não esqueceu este nome de português assim, impingido à força? Porque não apagou esta coisa de ‘bastião‘ e fica aí se apresentando assim, com este nome?

Ngonzo:…Sim. Sou sim o fantasma desembestado de Sebastião Angola, o dito cujo por eles assim denominado. Fantasma assusta? Apavora? Então. Já que apavora acho por bem que seja mesmo assim, por este nome conhecida a minha aura, esta que vagueia, este nome aí que o batizador me berrou rouco, cismado já daquele mal de fazer o desnomeamento de alguém, sem nem querer saber antes que nome havera de ter tido o homem que era eu, ali desnomeado.”

Titio:_ Mas convenhamos que é exagero seu. Não dava para se ter dois nomes, um africano outro português.

Ngonzo:…Como assim? Como nem se arvorou ele, o batizador, de me dar conta ao menos de qual pedaço de mim, de minh’alma estava extirpando? Como assim? O que foi feito do outro pedaço antigo de mim, aquele pedaço inteiro que desembarcou aqui, escravo e que, como me desengongonçando, me desanotomizando, me esquartejando, o batizador deu sumiço. Onde está o espírito que estava ali nos meus ossos, para ser perpetuado?”

Titio:_ Então você entendeu como que aquilo era um outro nome, assim sendo forçado para identificar você? Como entendeu isto?

Ngonzo:… Ah é ! Não entendi isto assim, de entender mesmo. Intuí, ora. E cuspi nele, no batizador, sim, claro! Quem não cuspiria? Pensei aquele aspergir de água fria em mim como se o cuspe dele fosse. Um cuspe de me achar desprezível, de me achar bicho. Sim. Foi de nojo rebatido que cuspi nele, de volta, de demanda, em retaliação. Num rompante.”

Titio:_ Sei. Entendo. Subiu um sangue assim e você reagiu. Fala aí. Como se sentiu nesta hora?

Ngonzo:…Nem vi que era batismo. Como iria saber? Só soube que os respingos eram a dita água benta lá dos santos dele, quando senti o tranco surdo do tapa que levei, como um jeito lá dele de ser mau cristão blasfemador, a ofender nazambiampungo com aquele ‘bastião’ berrado, mais nome de cão do que nome de kanda.

Não, não era nome de gente para gente desfiado, aquele ‘bastião’ gritado, sei lá o que significando. Não era como nome de kanda, um nome digno que veio da mesma gente de antes e que se perpetua assim para todo o sempre para gente de amanhã…

…O batizador, o extirpador de almas não sabe nada de mim nem de nomes, nada de nada. Se caveira cuspisse cuspiria nele agora mesmo, de novo pois sei, de ver esta lama do cais chafurdada aí de qualquer jeito, que eles, os batizadores de hoje ainda estão dando qualquer nome às nossas coisas, qualquer título aí ás tralhas e vestígios de nossos ossos, os quais eles continuam a não querer nem saber de onde vieram nem o que significam para nós.”

Titio:_ Difícil de acreditar. Nem a sua cara eu posso ver. Afinal, mesmo assim se pudesse identificar que os ossos nestes esqueletos aí são seus, ficaria o enigma, pois ossos de gente são ossos de gente, esqueleto de gente é tudo igual.

Ngonzo:…Sim. Creia. Sou eu sim, o fantasma franco de Ngonzo Dia Kimbangu dito por eles Sebastião Angola. Aquele que mal chegou, batizado foi e nem bem pode se dar conta de que não poderia mais se chamar, a si mesmo, de Ngonzo dia Kimbangu, aquele do Huambo, à força embarcado no Benguela para cá, aquele d’Angola, como me foi dado ser e me chamar até aqui, desde lá…”

Titio:_ Engraçado. Você não me assusta não. Posso saber porque me escolheu para falar isto? Você tem algum pedido a fazer, algum protesto, alguma mensagem algum sonho ou desejo que eu possa revelar para as pessoas de hoje em dia?

Ngonzo:“…Se sonho? Fantasma sem futuro sei que sou, mas sonho sim. Como não sonhar? Almejo o ensejo de ver estes meus ossos quebrados e estraçalhados, espalhados nesta lama amaldiçoada deste Valongo, embaralhados pelos batizadores, de novo, todos reconjutados, reengonçados, reanotomizados, desesquartejados enfim.

Almejo também ter de volta, nestes ossos meus, o meu nome, em todos os seus sentidos e o espírito, o nzumbi que estava neles. Almejo que esta aura desabusada, desapegada e fugida que do kalunga vos falou, seja um dia, para sempre aqui perpetuada, restituída para que o que ela, exatamente é e foi lá n’Angola, esta alma que está agora e para sempre estará no kalungangombe que é a história de todos nós.

Titio:_ Mesmo assim ainda fico meio pasmo diante deste seu louvável desejo. Hoje em dia as pessoas têm muita dificuldade de entender este desassombro, isto de alguém – que quase já não é alguém mais – falar o que ninguém parece mais querer ouvir.

Ngonzo:…Falo assim por estes que somos antepassados de nós, os mortos assassinados pelos batizadores que nos desnomearam, nos deram nomes errados, trocados. Almejo porque, pelo que vejo, pelo andar desta carruagem da escavação do Cais da princesa – que escondia o Cais do Valongo de minha perdição – os mesmos batizadores, desestoriadores, continuam a tentar apagar e falsear as nossas almas por aí.”

Titio:_ Bem. O que posso prometer é estudar este caso aí. Falar por aí deste desejo seu de lhe ver devolvida a alma na íntegra, sem fantasias, babados e badulaques ‘para inglês ver‘.

—————–

E mais não disse ao Tio, por hora a tal aura, aquele fantasma do esqueleto de Ngonzo Dia Kimbangu. Fiquei assim solitário pensando num jeito de honrar a memória dele, que afinal é a memória de todos nós.

Também odeio batizadores, falsificadores de nomes, fraudadores de memórias, água benta falsa aspergida sobre mim eu também sei cuspir. Sou adepto dos fantasmas vingadores. Creio piamente em suas pragas justas.

A perna desta mentira do Valongo – se mais mentira existe nesta história – logo vamos saber qual é. Ela está escondida na lama de lá. Elas, estas mentiras todas, são como pernas anães. É este o sentido que esta reportagem vai pautar. Sigam a série.

Venham. Sigam a pista na lama. Façam com o Tio a Arqueologia do Caô.

Spírito Santo

Maio 2012

Leia posts seguintes da série neste link , neste  e neste outro)

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~ por Spirito Santo em 23/05/2012.

12 Respostas to “A Lama do Valongo e a Arqueologia do Caô / Post #01”

  1. Obrigado,parceiro. Fiat lux!

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  2. Que texto maravilhoso, falando da Treva com tanta luz. Parabens.

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  3. Sensacional… assusta mais é a cara de pau… Se precisar de assistente… colaborador… montagem… pesquisa… conte comigo nesse mangue, topo a pescaria!

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  4. Republicou isso em Visual Awarenesse comentado:
    Sensacional texto de Spirito Santo! Axé!

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  5. MUito obrigado. Vou lá ver e salvar.

    Grande abraço

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  6. Spirito Santo. Encontrei belas fotos feitas em angola no final do seculo 19 feitas pelo portugues JOSÉ AUGUSTO DA CUNHA MORAES:http://www.geheugenvannederland.nl/?/nl/items/VKM01:A45-94
    http://www.geheugenvannederland.nl/?/nl/items/VKM01:A45-53

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  7. Bom. Sigo cavucando.Este assunto é daquelas filigranas que acabam virando pedras cabeludas se a gente não cuidar.

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  8. Sigo acompanhando…

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  9. Pablo,
    É este o objetivo central destas matérias, com certeza, mas é quase desanimadora a proporção de esforço que teremos que empreender. É que estou agora, precisamente neste momento, com o fim de melhor embasar meus pontos de vista, lendo artigos e teses acadêmicas sobre o tema, focando nos antecedentes como o caso da arqueologia do sítio da Serra da barriga (Palmares) por exemplo.

    Olha… é constrangedor saber que o problema é antigo e recorrente. Há um descaso, ao que parece deliberado do mundo acadêmico, calcado num mais que arcaico racismo e oportunismos diversos, tudo facilmente constatável e por demais conhecido dos muitos doutores ‘do bem’ que abnegadamente tentam nadar contra a maré e não se furtam em denunciar o que nós leigos só agora denunciamos.

    O diabo do apagão a que relegaram a história do nego africano no Brasil é bem mais feio do eu pinto. hajam reportagens e denúncias.

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  10. Olá novamente, Spirito Santo! Muito oportuna a ideia do documentário (além do próprio post-reportagem). Me pergunto se ambos, juntos, não poderiam ser pensados também como uma espécie de “dossiê” (algo como “Dossiê Valongo”), a servir como referência básica, num futuro que esperamos próximo, à formação de todo cidadão brasileiro, especialmente cariocas e fluminenses.

    Abs,

    Pablo

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  11. Que estilo bonito de escrever redescobrindo uma história triste. Adorei. Fui chamada!

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  12. A perna da Mentira de Valongo, como dizes, Tio, é a perna inexistente do Saci Pererê: é vendo que se vê que não é.

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