O InfantoCampo – Jardim lúgrube das desinfancias


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Moleques do Ayrton Senna com com Pick up - Arte e foto Spírito Santo

pMoleques do Ayrton Senna com com Pick up – Arte e foto Spírito Santo

O Infantocampo e sua configuração geral.

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, á profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração,violência, crueldade e opressão.”

 (Artigo 227 da Constituição Federal)

OAtrás das grades.

“Eu podia estar roubando, matando, traficando, estuprando”… mas estou aqui contando edificantes histórias para vocês. Nem preciso me exaltar, apelar muito para a ênfase. Basta apenas descrever friamente o cenário do lugar:

O espaço é enorme. Fica num platô na fralda do Morro dos Macacos virada para o Morro da Mangueira. Dali de cima a cidade lá em baixo desaparece, e a impressão nítida que se tem é a de que a favela é a principal cara urbanística da cidade. O Favelão geral é o Rio de Janeiro real.

O abrigo’ Ayrton Senna, um complexo de construções modernas (embora com marcas fundas de abandono nos últimos anos), foi construído, presumo numa das gestões iniciais do longo governo do prefeito Cesar Maia para ser um abrigo modelo, numa época em que o problema dos meninos e meninas ‘de rua’ tinha repercussão pública muito negativa, internacional até, exigindo soluções rápidas por parte da prefeitura, que teve em seus imperativos esforços, o apoio do governo federal, da Unicef e de muitas outras instituições, com milhões de reais e dólares envolvidos.

Logo que se estaciona, se dá de cara com um estreito corredor limitado por grades, com várias meninas mães adolescentes ou grávidas displicentemente sentadas ao longo de um banco, amamentando bebês. Algumas criancinhas muito novinhas, também filhas destas moças, nos cercam remelentas, cheias de carência por afeto.

Não entramos por esta porta e não vemos o que há lá dentro. Uma fonte segura, contudo testemunha ocular de tudo que ocorre ou ocorreu ali nos últimos anos – a qual, por razões óbvias não posso revelar o nome – nos descreverá meticulosamente tudo que há lá dentro, oculto nas partes atrás das grades, salas, galerias (sei lá como denominá-las) as quais não tivemos acesso.

Informações do mesmo modo fidedignas de como é este lugar por dentro nos foram repassadas também por crianças abrigadas aí, e com as quais tive muitas conversas enquanto trabalhava, fazendo música com elas, entre os anos de 2005 e 2008, na chamada ‘Casa do Lins’, espécie de centro cultural infantil da Obra Social da Prefeitura do Rio, uma experiencia exitosa, infelizmente logo, sumariamente descontinuada pela prefeitura atual, logo que esta assumiu.

Pela descrição das testemunhas o espaço lá dentro do abrigo’ Ayrton Senna é amplo e esconde muitas mazelas. As meninas ali abrigadas – na verdade presas – a maioria na faixa entre os 14 e os 17 anos, em sua maioria estão ou estiveram envolvidas com drogas ou algum tipo de prostituição. Muitas estão grávidas ou deram à luz recentemente, entre estas algumas estão soropositivas. Como se pode constatar em nossa visita, algumas crianças filhas destas meninas já estão crescendo por ali mesmo, do mesmo modo presas e sem futuro à vista.

A informação mais impactante sobre esta ‘galeria‘ das meninas adolescentes é a de que as recém paridas, convalescentes, ganham o direito de ficar numa espécie de ‘quarto particular’ mas estes ‘quartos’ na verdade são cubículos com grades, onde elas ficam o tempo quase inteiro trancadas, aparentemente para serem impedidas de fugir.

O fato é que a condição do encarceramento de crianças – inclusive, como pude constatar pessoalmente até as mais novinhas (a faixa etária dos abrigados é de zero anos aos 18, o limite legal) – é a regra deste ‘abrigamento’. O sistema é pois, literalmente um sistema prisional, em todos os seus aspectos semelhante aos sistemas prisionais de adultos.

Todas as crianças são, literalmente aprisionadas em grandes galerias independentes, limitadas por uma grade principal (que sendo de pequeno porte ilude, engana quem está de fora sobre as dimensões razoáveis de cada galeria). As crianças ali ficam, permanentemente, só saindo para as refeições, para eventos externos esporádicos ou para irem à escola municipal mais próxima. Nestas galerias, que dispõe de solariuns exclusivos, exatamente como galerias de presídios, os móveis, camas, as mesas, etc. são de cimento, com o fim provável de impedir incêndios em rebeliões.

(Ao intuir esta função para os móveis de cimento, fiquei imaginando que perigo poderia oferecer ao ‘sistema’ aquelas criancinhas frágeis, ansiosas por afagos e carinho como as muitas de 3, 4, 5 anos de idade que vi no dia em que visitei o lúgubre ‘abrigo’.)

Cada galeria é controlada por uma funcionária (geralmente são mulheres), chamada pelas crianças de ‘tia‘, como qualquer adulto é chamado por ali. Cada grupo de crianças de uma galeria fica sob a guarda de uma destas funcionárias durante todo o tempo, trancadas que estão, a elas submetidas em todas as circunstancias e delas completamente dependentes.

Os relatos sobre barbaridades cometidas contra as crianças por algumas destas funcionárias do ‘sistema‘ são numerosos. Surras são frequentes e tomei conhecimento de maus tratos até com bebês, recém-nascidos (inacreditável, certo?). Soube por uma destas minhas fontes, inclusive que era – ou é, como saber? – comum entre algumas destas funcionárias desviar para si mesmas, roubar enfim, os alimentos estocados nas galerias e refeitórios para as crianças, inclusive aqueles destinados às crianças mais novinhas como leite, ‘danoninhos‘, ‘todinhos‘, queijo, biscoitos, etc.

Este tipo de prática asquerosa e recorrente, aliás, eu mesmo testemunhei, pessoalmente numa unidade da FIA (Fundação para a Infância e a Juventude), instituição similar pertencente ao governo do Estado. Além dos que testemunhei, estes inomináveis relatos eu recolhi tanto de crianças com as quais trabalhei na ‘Casa do Lins’, quanto com adultos que trabalharam em abrigos da prefeitura como o Ayrton Senna.

A ampla rede de cumplicidades que acoberta estas práticas, muitas vezes envolvia – ou envolve, sei lá – até a omissão da direção do ‘abrigo‘. Os (as) funcionários (as) – não todos, porém muitos já que a prática exige a cumplicidade da maioria – saqueiam abertamente a farta dispensa destas unidades deixando para as crianças apenas algumas sobras. A justificativa cínica é sempre o fato destas pessoas – geralmente sub escolarizadas e sem preparo algum para a função que exercem – serem mau remuneradas.

Estas figuras antes conhecidas, oficialmente como ‘educadores sociais’ um eufemismo sórdido quando se conhece a natureza real de suas funções – são na verdade o equivalente dos carcereiros das prisões de adultos, sem tirar nem por e com o agravante de que a crueldade de alguns é covardemente aplicada sobre crianças, absolutamente indefesas.

Acredite quem quiser, mas campo de concentração nazista perde.

Além das grades

Do contexto exterior, dominado pelo grande platô onde o ‘abrigo‘ foi construído, no sopé de uma pequena mata, conta-se que nos tempos mais violentos da guerra de facções criminosas no Rio de Janeiro, os grupos do Morro dos Macacos e os do Morro da Mangueira trocavam tiros com balas traçantes. Nos tempos de trégua ou acordo unificavam seus negócios que envolviam sempre algum tipo de relação com os/as adolescentes e funcionários do abrigo, sob a vista grossa da Prefeitura. As relações sexuais entre meninas e jovens traficantes, além da distribuição e/ou guarda de drogas dentro do abrigo, eram – não e sabe se ainda são – ocorrências, de certo modo comuns.

Rumores de que havia a oferta de prostituição de meninas e alguma oferta de pedofilia (de meninos e meninas) também eram comuns Pode ser que tenha havido – e estes relatos, sempre à boca pequena, eu ouvi também das próprias crianças do ‘Ayrton Senna’ – uma rede de taxistas explorando este comércio abjeto, a parte mais sórdida de todas as mazelas locais, já que crianças muito novas (meninos e meninas, entre os 8 e os 12 anos de idade) podem estar sendo abusadas sexualmente por pedófilos – homossexuais masculinos e femininos, de classe média, frise-se – induzidas por dinheiro e ofertas banais como comida, guloseimas ou até mesmo drogas, em hotéis da Zona Sul do Rio, fatos que não raro são pincelados, aqui e ali, na imprensa, em casos aparentemente isolados.

Esta rede de exploração infantil mais submersa, contudo não é o lado mais cruel da história. Sabe-se com aquela certeza improvável que ajuda a acobertar os grandes crimes (‘ninguém sabe, ninguém viu”), que a setor do atendimento institucional à criança e ao adolescente, engordado por muitas verbas e recursos, se transformou numa frente muito rendosa de desvio de verbas públicas.

O Fundo Rio também é responsável pela celebração de contratos com empresas e convênios com Organizações da Sociedade Civil, Associações de Moradores, Universidades, estabelecendo parcerias para execução de seus programas: Rio Criança Maravilhosa, Rio Jovem, Rio Experiente, Rio em Família, SOS Cidadania, Vem pra Casa, Oficina da Criança, Crianças e Jovens em Situação de Risco e Mulheres Vítimas de Violência. A maioria dos convênios envolve repasse de recursos.”

(Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro. Secretaria de controle Externo 2ª Inspetoria Geral – Inspeção ordinária/ 2001/)

No caso presente, conta-se – cala-te boca! – com indícios bem sugestivos e factíveis, que o processo de terceirização das ações neste âmbito (exigido por lei), passou a ser controlado a partir dos anos 90 – comercialmente, financeiramente mesmo – pelos próprios secretários de ação social e funcionários de alto escalão, por intermédio da criação de uma rede de ONGs e Sociedades Filantrópicas, algumas de fachada (tendo muitas vezes estes próprios secretários como eminencias pardas, acobertados por estatutos ‘quentes‘, com presidentes e diretores de Ongs funcionando como testas de ferro). Associadas a uma rede de interesses escusos suplementares, formada por pessoas ligadas aos conselhos municipais de ‘defesa‘ da criança e do adolescente, aos conselhos tutelares e varas de infância etc. O esquema de corrupção desta área carreou, como um duto de esgoto clandestino, muito dinheiro destinado às crianças sob a sua guarda.

A possibilidade desta rede de corrupção na área da atenção à criança e ao adolescente existir (ou ter existido), não tem nada de remota, como se sabe. Basta se observar que este tipo de prática se tornou, absolutamente comum no Brasil de hoje em dia.

Arghhh! E se estas coisas existem, lógico que Deus, ou não existe ou é um omisso incompetente.

O fato é que com a criminosa descontinuação da solução anterior (anos 90) que se caraterizava pela construção e equipagem de uma rede de escolas públicas chamadas de Cieps (grandes unidades educacionais, integradas à comunidades específicas, que associavam educação, saúde, alimentação e abrigamento de crianças de rua ou abandonadas, com assistência à todas estas crianças em tempo integral) toda uma rede de abrigos e uma política de reclusão de crianças órfãs ou abandonadas foi então estabelecida na cidade do Rio de Janeiro, política esta articulada com o ministério público e inserida, pois, num contexto aparentemente legal, baseado em regras do Estatuto de Defesa da Criança e do Adolescente (ECA), numa rede de conselhos tutelares, etc.

Após quase duas décadas de vigência do ECA é preciso superar a política de internação de crianças pobres que permanece desde o Código de Menores de 1927.

Pesquisas recentes em âmbito nacional e os censos do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro constataram que a maior parte das crianças e adolescentes em situação de abrigo em entidades tem famílias, com indicativo de que a maioria está em vulnerabilidade social. É inadiável a mudança do modelo socioassistencial, ainda em uso no Brasil.

Mudar significa “...reorientar as redes pública e privada que historicamente praticaram o regime de abrigamento, para se alinharem à mudança de paradigma proposto. Este novo paradigma elege a família como unidade básica de ação social e não mais concebe a criança e o adolescente isolados do seu contexto familiar e comunitário…

(Leia mais neste link)

Só para se ter uma ideia do paradigma diabólico que representou a adoção desta política de ‘abrigamento‘ de menores, claramente em desacordo com recomendações internacionais como a descrita acima, as ações deste contexto…”sócio educativo” (“defesa”da criança e do adolescente) foram todas transferidas a partir de 2006 (às vésperas dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro) do âmbito da Educação para o da Segurança Pública, com a entrada do Ministério da Justiça e da Polícia Federal (SENASP) no rol das instituições voltadas para a ‘solução final’ do problema.

Como vocês verão, portanto a adoção desta política, teve suas intenções escusas cuidadosamente ocultas. Para os mais atentos, contudo elas sempre tiverem contorno claramente nazi fascista, já que na prática é uma política que se resume à criação de uma espécie de rede de pequenos campos de concentração (um sistema prisional infanto juvenil) nos quais as crianças caídas nas armadilhas da exclusão social, típica do modelo de sociedade que adotamos (a maioria composta por crianças negras, diga-se), são virtualmente aprisionadas e entregues à própria… sorte.

Esta trágica… ‘sorte‘ é a destas crianças ficarem encarceradas em celas coletivas, contidas ali até a maioridade, momento no qual, como cães vira latas, são lançadas à nova ‘sorte‘, pior ainda que a anterior, das ruas, sem alternativa alguma que não seja cair nas mesmas mazelas a que estavam expostas (prostituição, pedofilia, etc.) sem falar nas outras que são a de virarem traficantes, viciados em crack e morrerem por aí assassinadas, ao deus-dará, agora sem que o estado tenha qualquer responsabilidade legal sobre o quase sempre funesto destino delas.

E eu mesmo já disse certa vez num post aí:

Outro aspecto muito preocupante é que, com a falência do sistema das chamadas ‘medidas sócio educativas’ (Degases, Criams – hoje Criadds- e Febems), já estão sendo irresponsavelmente criados pelas autoridades estaduais e municipais, alguns canais de articulação entre estes falido sistema de medidas sócio educativas para menores infratores e a rede pública convencional de ensino, contaminando cada vez mais o sistema de educação pública com o já explosivo problema da exclusão social de jovens no Brasil, o consumo e a venda de crack, etc.

Jovens infratores, a maioria deles ligada ao tráfico de drogas, após o cumprimento de medidas sócio educativas, cumpridas literalmente em prisões juvenis (para quem não sabe o sistema Degase mantêm três colégios-presídios no Rio: Padre Severino, João Luiz Alves e Santos Dumont), quando não possuem família ou parentes responsáveis, são transferidos em grande medida para uma rede de abrigos municipais e, posteriormente matriculados como manda a lei, nestas escolas públicas convencionais, sem nenhum procedimento de adaptação, sem nenhum objetivo aparente que não seja usar a rede pública como mais um dispositivo de controle, exclusão e, agora repressão, meros depósitos de retenção e contenção de crianças pobres ‘em seu lugar’, em ultima análise.”

Um ‘Sistema’ prisional infanto juvenil

Provavelmente com o fim de burlar leis internacionais, normas e recomendações da ONU e escapar de denúncias de agencias internacionais de direitos humanos, o sistema é planejado para aprisionar crianças em unidades de tipo diverso, segundo o grau de sua ‘periculosidade‘. Estes procedimentos de ocultação das verdadeiras intenções de suas ações são ora sutis, ora grosseiros. Uma rápida análise de suas siglas pode nos indicar pistas bem claras deste crime institucional recorrente.

Degase (Departamento Geral de ações sócio educativas), Cemasis (Centros Municipais de Ação Social Integrada), CRIAMs – Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao Menor (na verdade centros de prisão em regime semiaberto) CRIAADs – Centros de Recursos Integrados de Atendimento ao Adolescente (mesma função dos Crains, aos quais apenas eufemísticamente substitue.

O texto aqui linkado é muito eloquente a estes respeito:

O conceito abrigamento que é de 1927 tem aquele ranço nazi fascista do isolamento ou apartamento de um grupo social problemático ou incômodo ao resto da sociedade. Isolado o grupo, decide-se então o que fazer com ele. Os nazistas usaram este mesmo conceito com judeus e outros grupos e decidiram pela ‘solução final’: matá-los.

O Titio mesmo (já contei isto aqui) foi, dos 4/5 aos 12/13 anos – de 1952 a 1960 – presa indefesa desta armadilha que à época se chamava S.A.M. ( Serviço de Assistência ao Menor) da qual, graças a sei lá que Deus, escapei e estou aqui para contar esta história doída)

No caso de sociedades como o Brasil funciona assim:

Parte considerável da sociedade é excluída da maioria de seus direitos de cidadania. Este processo de exclusão, assume naturalmente, como consequência direta desta privação de direitos básicos, a forma de exclusão física, geográfica mesmo, estruturando-se em bolsões de miséria, guetos (favelas, ‘complexos’, etc.) nos quais a população excluída cria suas próprias regras de conduta e convivência, regras estas que já contêm em si mesmas a providencial característica de serem facilmente controladas, militarmente em casos de extrema necessidade (vide UPPs).

Presa a esta armadilha desde que nasce, a criança adquire, pois, neste caso o papel de eixo do problema já que já nasce um cidadão privado de, rigorosamente todos os seus direitos, direitos estes que ele desconhece completamente, nem sabe que os tem. É esta criança que virá a ser a mãe ou o pai de uma outra criança idêntica, a ser, do mesmo modo abandonada a seguir. A ex-criança, uma vítima adolescente ainda do mesmo abandono cíclico. Fatal círculo vicioso, o destino de não ter futuro algum.

É mais ou menos óbvio que o que movimenta esta roda iníqua é o fato do Estado ter como premissa não atender a todos, mantendo sempre um contingente enorme de sua população à margem de tudo. É nesta premissa que reside a estupidez do sistema, pois, o custo financeiro da manutenção destes processos de exclusão é quase sempre maior do que a criação de soluções e processos de inclusão social efetivos (uma rede de educação infantil em tempo integral, por exemplo, a mui combatida e descontinuada solução anterior, a dos anos 90)

A constatação mais evidente de que estas crianças estão destinadas a esta ‘sorte‘ deprimente (e este talvez seja o aspecto mais asqueroso desta história) são os maus tratos a que elas estão submetidas desde bebês, até se tornarem imputáveis, responsáveis por seus próprios atos para daí serem, de novo punidas. Este é, sem dúvida o lado mais execrável de todo este drama introjetado pelo sistema na alma e no caráter destas crianças, crime de lesa humanidade do qual todos nós, por ação ou omissão, merecemos algum tipo de castigo.

E teremos este castigo sim, podem ter certeza. A pieguice dos cínicos não os salvará. Um dia haveremos de pagar, todos, amargamente, as penas por estarmos cometendo esta covardia inominável. O descaso, o abandono e o infanticídio com requintes de crueldade, não são práticas dignas de seres humanos. É abjeto. De algum modo isto está nos consumindo e pode nos matar, inviabilizar como sociedade.

Quem vai querer pagar para ver?

Podemos adiar sine die o nosso desejo de vingança – quase de matar – os que se acumpliciam com esta situação. Sim, chego mesmo a pensar na morte de gente assim, dada a inaceitável e incurável natureza de sua covardia. E vejam: É esta rede de cumplicidades que mantêm vivas estas odiosas ações do chamado ‘poder público’.

A rede é urdida pela sociedade. Embora não exista, exatamente um ‘gênio do mal’ puxando cordões, mexendo pauzinhos, claro, que ela é também uma construção individual. Os agentes diretos, aqueles que decidem as práticas, assinam ordens de serviço e memorandos são identificáveis, mas eles não são poder real, em si, aqueles sob os quais as iniquidades se apoiam. O poder real está na malha de omissões dos subalternos. No caso, o mal somos nós. O mal está em nossa covardia. A prefeitura é a responsável direta pela política de optar pelo abrigamento e pela construção e gestão dos equipamentos, mas são os subalternos cidadãos que plantam e regam as raízes, que fazem crescer e vicejar a planta do mal.

Existe uma rede comovida de gente caridosa, grupos, indivíduos que esfregam à água e sabão o ranço desta iniquidade com a sua boa vontade. O Norte Comum, por exemplo, é um grupo formado por uma garotada simpática, de classe média a maioria, residente na área de Vila isabel onde fica o ‘abrigo’ Ayrton Senna. Em parceria com o Sesc e seu projeto “Geringonça’, o Norte Comum tem promovido periódicas intervenções culturais humanitárias voltadas para as crianças do ‘abrigo’ e das favelas locais.

O Norte Comum, aliás, foi o nosso anfitrião no ‘show oficina’ que o nosso MusikEletroFolk (cria do Musikfabrik, projeto de extensão que o Tio coordena na Uerj) fez para as crianças do local recentemente.

São muito recorrentes ações deste tipo nos abrigos do município. Estas ações muitas vezes são promovidas pela própria prefeitura. São estes setores que estimulam outras tantas propostas honestas do mesmo tipo, como esta a seguir, pinçada de um comentário do facebook:

Estou querendo organizar um Mutirão de Reforma do lugar (o ‘abrigo’) com apoio de bandas e artistas em geral… Se quiser me ajudar a organizar isso seria legal!

Eu quero, fala com o fulano tb que é bom em reforma”

Mas vamos combinar. Muito comoventes, mas ingênuas demais estas propostas. Acabam representando ações ‘panos quentes’ que não tocam no cerne do sistema e não o questionam ( e por isto são toleradas), contribuindo, involuntariamente para perpetuá-lo, mantendo as coisas como estão.

O abrigo Ayrton Senna de nosso exemplo, é um equipamento da rede da Prefeitura do Rio que, de modo algum, como todos sabemos não é uma instituição carente. Como se sabe também existe um batalhão de especialistas no atendimento à crianças e adolescentes, psicólogos, assistentes sociais, educadores, etc. trabalhando para o sistema, bem como um número semelhante de críticos especialistas, ao contrário, denunciando a odiosa situação destas crianças.

O abandono físico das instalações do ‘abrigo’ Ayrton Senna é, portanto – só pode ser – apenas o reflexo da ordem de prioridades estabelecida pela Prefeitura atual e pelas anteriores com relação à questão.

Mesmo que o problema físico do local fosse passível de solução por parte da meritória ação de particulares (presumo que haja até um impedimento legal para este tipo de intervenção, sem falar na burocracia) é preciso se salientar que o problema real é político. Aquelas crianças são prisioneiras do sistema. É esta (o descaso) a política estabelecida, à nível municipal, estadual e federal para o problema da exclusão social de crianças no Brasil.

É preciso se afirmar, gravemente que a situação de abandono de crianças e adolescentes no Brasil é DELIBERADA e ampla, pois, é parte de uma política, um conjunto de ações muito bem urdidas, articuladas e sobejamente financiadas por verbas nacionais e internacionais com o enfoque (esquizofrênico, diga-se) direcionado apenas à questões de segurança pública.

A única forma eficiente de combater isto (ações pontuais são meritórias sim, claro, mas não passam de ‘enxugamento de gelo’, como se diz) talvez seja, ao mesmo tempo em que se ‘enxuga o gelo’, constatar as mazelas deste sistema de natureza claramente prisional, quebrar a malha de cumplicidade e omissão que o mantêm ativo e denunciá-lo como intolerável.

Sobra dinheiro neste campo de ação no Brasil. O que falta mesmo é vergonha, atitude e pressão da sociedade para moralizá-lo.

Lugar de criança é na escola e em casa, com alguma família. Qualquer situação que uma criança esteja na rua é melhor do que a que elas vivem nestas prisões infanticidas. É preciso quebrar as pernas e as garras deste sistema, cortar as suas várias cabeças, demoli-lo enfim. É preciso libertar, alforriar estas crianças.

É uma sociedade parasita esta que criamos e estamos mantendo no Brasil, uma sociedade canalha que, literalmente não só rouba pirulito das criancinhas como lhes rouba a comida, os sonhos, o sangue e a própria vida. Acanalhamo-nos todos. Comedores de criancinhas, acabamos virando abutres, hienas carniceiras de nós mesmos.

“…Você pode até dizer que eu estou por fora, ou então que eu estou inventando”…

O mínimo que uma criança como estas pode fazer do que restar de humanidade nela, é se voltar contra nós com um caco de vidro, uma faca, uma gilete, um revólver, cuspindo no nosso rosto todo o seu desprezo.

É justo. Quem pariu Mateus agora que o embalance.

Spírito Santo

Junho 2012

Vandré e seu Brasil-Pasárgada. Vamos simbora, gente!


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A ditadura em nós. Vento que venta lá, venta cá.

Acordei hoje assustado com tiros, 10 disparos de arma automática e um carro arrancando em disparada. Este tem sido o meu galo despertador, vez por outra, sitiada que está minha cidade por quase uma dezena de milícias armadas, ladrões de fardas estranhas e toucas ninjas. Imagino logo alguém todo ensanguentado, a cabeça dispara a pensar a coisas ruins. Pois bem, hoje pensei um medo inquietante do Brasil, pelo menos simbolicamente, se ensanguentar.

Ando seguindo as entrevistas do Geneton Moraes Neto feitas em 2010 para o canal GNT e reprisadas por estes dias. Assisti, atentamente, com as orelhas em pé ao depoimento de duas figuras chave da ditadura militar, o ex governador Paulista Paulo Egídio Martins, um dos líderes civis do golpe, com difusas ligações com a ‘Oban‘ (Operação Bandeirantes), organização que financiava os militares torturadores e o general do SNI Leônidas Pires Gonçalves. Ambos se disseram ‘revolucionários‘ autênticos traídos por golpistas cruéis, mas estiveram, claramente ligados, de algum forma à célebres e covardes assassinatos da ditadura.

O que me assustou – e já manifestei isto aqui – no entanto não foram as lágrimas de crocodilo deles. É que ambos, de forma muito semelhante fizeram questão de frisar que o Lula – sim, ele mesmo – não era um esquerdista comunista como os outros, que ele Lula era um honesto adepto do sindicalismo ‘puro‘, aquele decente, temente e obediente à lei. Hum…Maldei.

Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, que não pode ser…”, como sempre, vão me achar um blasfemo, um iconoclasta fóbico, estas coisas aí, mas maldei sim. Fazer o que? Sou filho de mineiro. Sou cismado assim desde criancinha.

Tem também uma parte do depoimento do general na qual ele dá a entender que, logo após a morte de Tancredo Neves, os mais importantes políticos da República, todos eles concentrados numa sala do Hospital de Base, receberam a orientação (a ordem, em outras palavras) dele, o general do SNI, de que quem teria que assumir a presidência tinha que ser o quase vice José Sarney. O general falou e ficou falado. Fez questão dar a entender na entrevista que quem ainda dava cartas ali era o exército da ditadura.

Me lembro que constitucionalistas na época debateram o assunto na imprensa estranhando. Afirmavam eles: se o presidente não havia tomado posse do cargo, tampouco haveria ainda um vice empossado e o poder deveria recair, legalmente sobre o presidente da câmara que teria que convocar novas eleições que, aí sim, seriam diretas. Seria esta ameaça, o risco a ser a todo custo evitado?

Bem, só se sabe que, a troco sei lá de que, José Sarney anda por aí mandando e desmandando na República até hoje, certo?

Em tempos de Mensalão e impunidades gritantes, com o que parece ser uma quadrilha nacional instalada e se agitando acintosamente para melar o julgamento, chantageando até juízes da nossa corte suprema. Assistindo ao mesmo Lula de lá exercendo a função de bulldog e porta-voz destes mensaleiros todos, desfilando com o Cabral da Delta de carrinho de golfe, inaugurando obras olímpicas sabe-se lá à título de que, me deu, de novo aquele medão, aquele aperto no coração.

Pau de passarinho. Aquele herói da pátria de lá, abraçado aos bandidos mais sujos e canalhas de cá?  Ma che?!

(E não me venham cobrar nomes de ‘outros partidos’, esse ou aquele, na longa lista de canalhas da nova República. Aqui não é um ‘Big Brother’ de bandidos, não é uma gincana de ladrões.)

E se desde lá, do tempo do finado Tancredo, a nossa democracia não passar de um acordo de cavalheiros sórdidos, por debaixo dos panos e os presidentes de um ou outro mandato, destes últimos aí, forem pinóquios de gravata, bonecos de ventríloquo, pau mandados, tutelados, com a função de manter tudo como dantes no quartel de Abrantes? E se a ditadura tiver se tornado discreta, porém eterna e estiver, sub-repticiamente residindo em nós?

E se a caixa de pandora preta do julgamento do mensalão escancarar alguma verdade suja proibida, daquelas intoleráveis, que ‘eles‘ não podem deixar que seja revelada de jeito nenhum?

Ontem foi dia da pungente entrevista do Geraldo Vandré. Tornado farrapo humano pela ditadura por ter composto uma ingênua canção que virou hino contra a opressão. Meio louco, lesado, meio lúcido e assustado ainda, Vandré reforçou o medo em mim. O grande compositor de “Disparada” uma das canções mais belas da música popular do Brasil, inativo desde lá, se diz asilado até hoje, vivendo num BrasilPassárgada – como disse o Geneton : num país de um habitante só: Ele, Vandré.

Me assusta sim a guerra implacável que ‘eles‘ fazem hoje contra o julgamento do Mensalão. Vociferam apavorantes “Não passarão! Não passarão!“. Hum! O que haveria de tão terrível a ser revelado? Medo das urnas não é. O povo eleitor não se importa com isto, com esta coisa de justiça, ética, etc. O povo eleitor é amante fiel, cego e mudo de quem lhe dê alguma migalhazinha. Vão lá no Maranhão só, pra ver. O Brasil é um grande Maranhão, o Maranhãozão, não notaram ainda não?

Teoria da conspiração? Sei não. Um Hugo Chavez lá, uma Cristina Kirchner ali… gente ‘deles‘ passeando em Paris, casando em castelo europeu. É. Assim que der vou guardar uma poupançazinha. As barbas já estão de molho. Estou muito velho para confiar, de novo, neste pessoal.

Sou gato preto escaldado. Fui preso por esta mesma ditadura aí numa noite chuvosa no fim deste mesmo 1968, esta mesma época aí de tanta insanidade (sorte que de noite sou pardo).

Se o tempo fechar vou me mandar para uma Pasárgada destas da vida, feito a do Vandré, aposentar as minhas mágoas que não são muitas, mas também são de doer, de lesar a alma e o já idoso coração.

Spirito Santo

Junho 2012

A Lama do Valongo e arqueologia do Caô – Post Final


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(Leia posts anteriores da série neste link, neste e neste outro)

Dentes esculpidos. Uma prática benguela

Na semelhança  impressionante entre os sítios arqueológicos do ‘Cemitério dos Pretos Novos’ e o ‘Slaves cemetery of Santa Helena island’ os dentes esculpidos, prática associada à africanos de alguma etnia na área do suposto Reino do Benguela é o dado mais impactante.

Do Porto do Valongo ao Cais da baía de Ruper na ilha de Santa Helena

 Os macabros cemitérios irmãos que gente bastarda não quer nem ver

(Antes de tudo surpreenda-se e saiba: O blog do Titio agora vem, de vez em quando, com Web Doc. incluído.  Assista aqui, com direção de José Carlos Soares, produção de Aline Rezende e assistência de produção de DJ Muhamed Malok o sensacional primeiro filme da série – ainda em versão demo)

O CAIS DO VALONGO:

Seguindo então…

Babalorixás visitam circuito da Herança Africana na Gamboa

O Sítio Arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, na Gamboa, vai ganhar pirâmides de vidro sobre as duas aberturas que deixam visíveis as ossadas dos escravos ali enterrados. A orientação partiu das babalorixás Mãe Beata de Oxóssi, Mãe Deuzita e Mãe Celina, sacerdotisas da religiosidade afrobrasileira em visita ao local. A sugestão envolta pela sabedoria espiritual foi imediatamente acatada pelas autoridades municipais, como o subsecretário do Patrimônio Cultural, Washington Fajardo, e Geovani Harvey, do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro. “

…E não é para menos, a presença das ilustres babalorixás se deu às vésperas do domingo das mães e do dia 13 de Maio, data da abolição da escravatura no Brasil. Para a nonagenária Mãe Beata de Oxóssi, o Cemitério dos Pretos Novos revive a história dos negros no Brasil “

Este é o pomposo texto oficial extraído do Portal da Prefeitura do Rio de Janeiro para os ‘momentosos‘ incrementos nas pesquisas arqueológicas do Cais do Valongo agora que as obras do Porto Maravilha atraem o olho grande de tanta gente graúda, animada com os milhares de turistas que virão para a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

_Uhlalá! O Rio civiliza-se!”_ diria o decano deste povo aí, o vetusto prefeito Francisco Pereira Passos (que Deus o tenha).

Para quem seguiu o Tio até aqui, a dimensão da promessa oficial, contudo além de piegas é pífia, diminuta mesmo, representando pouco mais que nada. Mesmo enganados pela pieguice, se esforcem e leiam de novo (bem que minha avó me dizia: Tem bobo para tudo neste mundo.).

Parece, mas não são pirâmides do Louvre isto aí não, esta “proposta cheia de sabedoria espiritual” (ui!), de modo algum é algo grandioso e digno como prometem. Gato por lebre, uma migalha, isto sim. Presente de grego.

Alguém aí já foi no Museu dos Pretos Novos? Pois então, senão, a hora é esta. A emoção que se tem ao entrar no lugar é pungente, aterradora, mas ao mesmo tempo é constrangida, dada a exiguidade, as dimensões diminutas do que é um recorte ínfimo do que deveria ser um sítio arqueológico daquela importância.

As aberturas com os ossos expostos a que a matéria se refere então…São mínimas, algo em torno de 1,5 m2 cada uma, o que daria pirâmidezinhas minúsculas – do tamanho aproximado de mesas de botequim – ridículas diante da dimensão gigantesca da área a que se refere o título “Cemitério dos Pretos Novos”.

Já nem falo muito da incrível, da acachapante humildade submissa das mães de santo em se prestar a um papel destes. Se é que é o caso, submissão não deveria ser coisa de ‘Mãe de Santo’. Está mais para coisa de… (com todo respeito – e de modo algum querendo ofender ninguém)…“Mãe Joana”, não aquela da casa bagunçada, mas aquela irmã do ‘Pai João’). Mas relevemos. Deve ser pura ingenuidade a atitude delas, simplórias orgulhosas de estarem sendo tratadas assim  com tanta – embora malandra – reverencia.

Mas vejam, não dá para aturar: Pirâmidezinhas para que, meu Zambi?

As aberturas já se encontram em local fechado e protegido: o cômodo de uma casa de dimensões também muito modestas, já que o museu é iniciativa pessoal de uma elogiável família que, praticamente às próprias custas, descobriu, divulgou, bancou e cuida há mais de 20 anos, praticamente sem o apoio de ninguém (alguns voluntários abraçam a causa, inclusive os abnegados já citados aqui, o historiador Cláudio Honorato e o arqueólogo Reinaldo Tavares) com total desvelo daquele que deveria ser o maior sítio arqueológico da história do Brasil, um dos maiores das Américas, no tema um dos maiores do mundo.

Vocês conseguem uma explicação plausível para este descaso histórico ocorrer? Falta de verbas? Hum! Garanto a vocês que as tais pirâmidezinhas não vão custar nem um décimo do salário mensal de qualquer uma daquelas autoridades ali presentes na ‘solene‘ (e cínica, quase humorística) cerimônia de legítimos ‘caras de pau‘ (caras de pau brancas sim, mas negras também, o que é pior).

Ah… E vocês fazem ideia de quanto estão custando as obras do Porto Maravilha, as reformas do cais do Valongo e suas adjacências, quanto a Prefeitura e as empreiteiras contratadas estão levando nisto aí? E o pior – cala-te boca – vocês sabem qual é a cota da rubrica, dos investimentos, grana viva, pois, prevista – e oficialmente garantida por lei – no orçamento geral das obras para os trabalhos historiológicos, as escavações suplementares à descoberta do ossos da casa de Merced (que são – é bom que se saiba – uma parte ínfima do ‘cemitério‘ geral) e a toda a pesquisa arqueológica em si?

Bem, espero que vocês já saibam – já disse isto aqui no post anterior – que as escavações e pesquisas nos sítios arqueológicos descobertos no caminho de obras públicas, de qualquer natureza, por lei, são bancadas sob o regime de contrato pelas empreiteiras envolvidas. Não sabem não? Pois fiquem sabendo agora. Pronto.

Isto não é nenhuma fortuna, mas nunca é também, garanto, exatamente uma merreca como se pensa. É uma percentagem bem razoável do valor geral da obra. O Tio sabe disto porque já trabalhou ‘sob contrato’ como consultor de cultura numa obra de contenção de encostas em favelas para o IEF (Instituto Estadual de Florestas), órgão do governo estadual do Rio. É assim que são tocadas as pesquisas em sítios arqueológicos no mundo todo.

Tive ontem inclusive, por intermédio de uma colaboradora do blog no facebook (‘Bete Scg‘) a incrível informação de que foi descoberto pelos ingleses agora mesmo, um sítio arqueológico, exatamente igual ao do Valongo.

Fica na Ilha de Santa Helena (certo! Aquela mesmo, onde esteve desterrado, caído em desgraça o arrogante Napoleão Bonaparte) Leia a tradução que o tio fez da matéria. Impressionante a semelhança, inclusive as que a gente apenas pode intuir, pois, não foram sequer abordadas nas pesquisas daqui:

The Guardian, Londres

Quinta-feira 08 de marco de 2012

Arqueólogos descobrem túmulos contendo corpos de 5.000 escravos em ilha remota.

Jamestown, capital da ilha de Santa Helena. Arqueólogos britânicos da Universidade de Bristol descobriram valas comuns na ilha.

Arqueólogos britânicos da Universidade de Bristol descobriram valas comuns na ilha de Santa Helena onde foram sepultados africanos que morreram sob custódia da Marinha Real a partir das primeiras décadas do século 19, depois de serem resgatados de navios negreiros apreendidos.

Os arqueólogos descobriram soterrados aí cerca de 5.000 corpos. As escavações começaram antes da construção de um novo aeroporto na ilha, revelando as condições dramáticas sofridas pelas vítimas do tráfico atlântico de escravos.

Os corpos foram encontrados na pequena Santa Helena, 1.000 milhas ao largo da costa sudoeste da África. Aqueles que morreram ali eram escravos resgatados de navios negreiros pela Marinha Real quando a Grã-Bretanha começou a suprimir a escravidão no Caribe. Muitos dos cativos morreram depois de serem mantidos em navios negreiros em condições precárias. Os demais moreram mais tarde, nos campos de refugiados nos quais foram instalados ao desembarcarem na ilha.

De acordo com o National Britanic Archives, entre 1808 e 1869 a Marinha Real apreendeu mais de 1.600 navios negreiros e libertou cerca de 150.000 africanos. A escavação, realizada antes da construção de um novo aeroporto na ilha, revelou estes horrores do tráfico atlântico de escravos.

A “Passagem do Meio” era o nome da etapa de uma rota tomada por navios de transporte de escravos da África para o ‘mundo novo’ (Américas). O tráfico de escravos era a segunda etapa de desta rota triangular realizada por navios europeus. A primeira etapa se caraterizava pelo transporte de bens manufaturados para a África, que seriam trocados por escravos. Em seguida, numa segunda etapa, os africanos eram transportados para as Índias Ocidentais e para o Brasil (e, até a abolição da escravatura em 1809, também para os EUA), os navios por fim cumpriam a terceira etapa do ciclo, levando matérias-primas das colônias para a Europa.

Especialistas da Universidade de Bristol lideram as escavações. Um deles, o professor Mark Horton, disse: “Aqui temos as vítimas da “Passagem do Meio” – um dos maiores crimes cometidos contra a humanidade…Estes despojos são, certamente uma das mais comoventes experiências que eu já vivi em minha carreira de arqueológo.”

Santa Helena foi, portanto o local de destino para muitos dos escravos tirados de navios negreiros capturados pela Marinha durante a repressão do comércio entre 1840 e 1872, quando a ilha se tornou a base para o esquadrão ofensivo montado pela Royal Navy contra os traficantes de escravos.

Durante este período, cerca de 26.000 escravos resgatados foram levados para a ilha, a maioria dos quais foi desembarcada em entrepostos na Baía de Rupert. As péssimas condições a bordo indicam que muitos não sobreviveram à viagem. O Vale de Rupert – um local árido, sem sombras e sempre com muito vento – era também inadequado para servir de campo de refugiados para tão grande número de pessoas.

Os arqueólogos da universidade, até agora descobriram 325 corpos em sepulturas individuais ou coletivas. Eles estimam que o sítio contenha um total de cerca de 5.000 corpos, mas parecem propensos a deixar a maioria onde se encontra. Horton observou que as escavações arqueológicas se limitarão apenas à área abrangida pela construção da nova estrada para o aeroporto.

Destes 325 corpos, apenas cinco pessoas foram enterradas em caixões – um adolescente e quatro bebês natimortos ou recém-nascidos. Os outros tinham sido colocados diretamente em covas rasas antes de serem rapidamente encobertos. Em alguns casos as mães eram enterrados com seus filhos. Dr Andrew Pearson, da universidade informou que 83% dos corpos eram de crianças, adolescentes ou adultos jovens.

Os mais jovens eram matéria-prima preferencial para os comerciantes de escravos, que selecionavam as suas vítimas entre aquelas com maior expectativa de vida.

A maioria das causas mortis não podem ser estabelecidas já que as principais – desidratação, disenteria e varíola – não costumam deixar traços patológicos. Os especialistas, contudo encontraram marcas do escorbuto em vários esqueletos e também muitos indícios de violência, incluindo a praticada contra dois homens que parecem terem sido baleados.

A equipe encontrou evidências também de que as vítimas eram de uma cultura muito rica, com um forte senso de identidade étnica e pessoal. Há numerosos exemplos de modificações dentárias, obtidas pelo estilhaçamento ou a escultura dos dentes da frente. Alguns conseguiram manter consigo itens como jóias, tais como contas e pulseiras, apesar de o processo físico de separação entre si e de seus pertences a que teriam sido submetidos logo após a captura.

Certo número de etiquetas de metal também foi encontrado nos corpos, o que sugere que eles eram classificados e identificados por nome ou número.

Foi por estas e outras que engasguei com aquelas pirâmidezinhas daqui, tipo ‘cala boca’ e não consegui segurar a língua. Não é de todo impertinente e injusta a minha indignação, contudo. Minha boca de velho cascudo não se calaria assim tão barato. Isto é dar espelhinho para índio em troca de ouro. Detesto pratos à base de sapo, ainda mais um cururu destes. Arghh!

Pois é.

Não seria o caso de alguma instancia idônea aí, de brancos ou de pretos tanto faz – e esta discriminação racial inaceitável me indigna, pois, insisto: a História d’O VALONGO não é dos pretos, dos ‘afro descendentes’. A história d’O VALONGO é de TODOS nós!- sendo assim não seria o caso de alguém exigir transparência neste assunto aí?

Sei que é temerário ficar lançando suspeitas e ilações por aí, mas me entendam: Vivemos num país de ética e transparência zero. Gente ‘171‘ dá em árvore por aqui. Quem prestará contas à sociedade das burradas e bobagens perpetradas pela ignorância ou pela esperteza de alguns neste caso aí, do Valongo? O que faremos quando os prédios e as calçadas da cidade modernizada para 2014 e 2016 já tiverem recapeado, sepultado de novo a maioria dos ossos e relíquias de tão intenso e importante passado?

Recorro sempre à amigos especialistas nestas horas. Eles me engolem cheios de reticencias, bem sei. É que são antropólogos, historiadores, doutores experientes, cientes das idiossincrasias e ‘saias justas’ da academia a qual pertencem (alguns são até famosos em suas áreas). Não estão muito dispostos a colocar a mão no fogo pelas furibundas afirmações ‘anti acadêmicas’ do Tio. Entendo a posição deles. Devem ter algo a perder.

O certo é que alguns – como o bom João Da Silva citado logo abaixo -sempre me socorreram com pertinentes explicações para estes enigmas todos, tão emblemáticos da incúria e da iniquidade de nossos modos de ser. Sabem como é: Os podres da elite, quando revirados fedem.

…Por isso mesmo tem tido grande impulso a etnoarqueologia de povos Indígenas atualmente, espécie de arqueologia histórica de povos Indígenas, baseada na tradição oral destes sobre seus antigos sítios de ocupação, etc.

Tirando isso, salvo engano, a arqueologia feita no Brasil (e arqueologia é cara, diferente d coisas como antropologia social por exemplo, que exige pouca grana pra fazer pesquisa) parece continuar meio restrita a resgates de edificações coloniais e coisas desse tipo, o que é claro não favorece em nada o conhecimento arqueológico da escravidão no Brasil.“

(João Da Silva, antropólogo, em conversa com o Tio pelo facebook)

E o Tio, comentando lá, depois de refletir aqui:

Entendi. Combinando: O recorte de nossa arqueologia é francamente racista (sim, pois, o elitismo dela é meramente circunstancial). E vejam, que, no ensejo cientificamente imperativo de estudar também os vestígios materiais dos ‘outros‘ povos (senão os da velha, caquética e recorrente arqueologia do passado europeu do Brasil) admitem, enfim pesquisar povos originários do período pré colombiano, mas o fazem ignorando renitentemente, completamente – como se, simplesmente não existissem – os povos todos oriundos da África e que para cá vieram, praticamente ao mesmo tempo em que os europeus. Não é isto mesmo?

E convenhamos, isto ocorre também, quase tintim por tintim, com a Antropologia, com a Etnologia e com a História acadêmicas, o mesmo vício recorrente, a mesma boca torta. Quando falam do negro, o fazem ‘cheios de dedos’, com nojinho metodológico, parcimoniosamente e, mesmo assim por meio de mistificações e tergiversações que mais omitem, falseiam do que revelam o que os vestígios e os dados registrados do passado gritam, esgoeladamente por aí:

_Nós, brasileiros, também somos negões! Também somos negões!Também somos negões! “

(E está aí mesmo a negadinha esquelética do Valongo que não me deixa mentir.)

O que me intriga muito, demais mesmo – e na verdade é a principal instigação desta série de posts – é que os responsáveis… técnicos pela escarafunchação do Valongo e outros sítios descobertos ou a serem descobertos no ensejo destas obras e maquiagens urbanas, têm curriculuns vitae de fazer inveja a sábio grego, de constranger ganhador de Nobel, super doutorados, mega laureados, super preparados, quem há de duvidar de sua sapiência?

(E daí vêm eles mesmos alegando a sua ignorância sem culpa, como se não fossem obrigados, por dever de ofício – doutores que alegam ser – a estudar e saber sim a arqueologia – ou a antropologia ou lá a área de estudo que seja – de tudo, todos e para todos. )

Me poupem destas abobrinhas mal recheadas.

Li vários deles, assim assim, folheando suas especialidades para escrever estas mal traçadas linhas. Há pelo que percebi, muita gente boa, séria sim, mas o que pontifica mesmo é uma casta de ‘bam bam bans’ com ‘Q.I.’, alguns poderosos sei lá porque cargas d’água, ligados aos órgãos federais mais incensados, todos eles mais ou menos que girando em torno daquela que parece ser a maior autoridade brasileira no campo da Arqueologia Histórica: Nossa personagem principal, desde o primeiro post desta série: Tania Andrade Lima (mui citada aqui – até demais, reconheço – por conta de sua própria alta e merecida notoriedade).

…Atua fundamentalmente na área de Arqueologia, com os seguintes focos: Arqueologia pré-histórica (complexidade emergente entre pescadores/coletores litorâneos), Arqueologia Histórica (vida cotidiana no século XIX), Teoria e Método em Arqueologia e Preservação do Patrimônio Arqueológico.

Foi vice-presidente (1997-1999) e presidente (1999-2001) da Sociedade de Arqueologia Brasileira, e professora de cursos de pós-graduação em diferentes unidades da federação (SP, RS, SE, GO, BA, MG).

É membro do conselho editorial de diversas revistas científicas no Brasil e América do Sul, consultora de agências nacionais e internacionais, membro de comissões e conselhos em universidades e órgãos governamentais. Recebeu, em 2006, a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Presidente Luis Inácio Lula da Silva em cerimônia realizada no Palácio do Planalto. )”

(Do currículo de nossa arqueóloga mor)

Hum… Pois vejam então este vídeo onde ela pontifica, do qual extraí,  dela mesma, a seguinte frase:

…Como não temos nenhuma familiaridade com o Candomblé, nós convidamos ialorixás que estão nos ajudando a interpretar este material. Segundo as ialorixás aqui nós temos um assentamento de orixá. Não sabemos que orixá se trata, mas elas, enfaticamente me dizem que estas pedras estão vivas e aqui tem um orixá e nós as estamos tratando de acordo com as instruções que elas passam.”

(Vejam o vídeo com a ‘tia’ Tania neste link)

Homessa! Será que sou eu o tolo irreverente, um chato recalcado perseguindo a douta? Leiam com o Tio então, em desencargo de consciência, as claras entrelinhas:

Para começar, não é admissível, não é justificável que uma arqueóloga, com formação suplementar em antropologia, segundo consta em seu polpudo currículo, não tenha, pelo menos alguma ‘familiaridade‘ com aspectos tão relevantes da cultura de seu país. Isto é inaceitável. Ou bem se é douto de verdade num assunto em que nos doutoramos, ou não se é douto em nada, em chongas.

Por outro lado, não me parece sério – na verdade me parece displicente até – transferir a responsabilidade técnica de um assunto tão complexo e específico como a arqueologia, para modestas mães de santo leigas totais, ingênuas absolutas nestas coisas de história e etnologia, informadas que são apenas pelas vagas e fragmentadas informações contidas, aqui e ali, na história oral de sua seita religiosa (uma entre tantas, já disse).

E os doutos todos sabem disto. Ah, sabem. E se sabem, qual é o projeto deles afinal, as intenções desta evidente ‘lavagem de mãos’, deste ‘‘empurrar com a barriga” quando o assunto diz respeito a negros africanos?

Neste mesmo sentido, tentando aprofundar um pouco mais, sob qual perspectiva metodológica, sacerdotisas de um culto religioso africano, deveriam ser especialistas na cultura, na história de um continente inteiro, de tão complexas e vastas características etnológicas?

Qual é critério enfim que justificaria a escolha deste tipo de desqualificada e impertinente consultoria, em detrimento de outras, considerando-se que existem no Brasil diversas fontes e especialistas no assunto, negros e brancos, inclusive no próprio âmbito profissional ou acadêmico da arqueóloga (quem leu os posts anteriores viu que já citamos aqui, enfaticamente pelo menos dois colegas da arqueóloga, muito conceituados experimentados neste tipo de pesquisa de sítios arqueológicos africanos)?

Isto é ou não é o que parece? Nem preciso dizer e cansado de argumentar me dou por sabido.

A volta de Ngonzo Dia Kimbangu, meu guru fantasma.

Nem bem rabisquei estas últimas tortas linhas e me vem voltando da bruma do tempo o meu amigo ectoplasma Sebastião Angola (Ngonzo Dia Kimbangu, como prefere ser chamado), ele que sabe tudo, de cor e salteado sobre a lama macabra que encobre este Valongo de tormentos mudos e insepultos chega cheio de si e de ginga.

Ngonzo (riso transparente, de banda, de sopetão, assim na lata, enigmático como jongueiro real, destes da roça):

_”Passarinho que come pedra sabe o cú que tem!” _

_Anh! O que disse? Perguntei aturdido, ainda sem saber de onde vinha aquela voz cavernosa.

Ngonzo:

_” Ngonzo tá a se referir à moça véia, aquela nhá dotôra dondoca, pescadora de caco de lôça, cheia das empáfia destas mais tola deste mundo. Podia ter parado pra ouvir os amigo de ocê, descido dos sarto arto das arrogança de sabe tudo tudim, pra dizê: Num sei. Preciso aprendê.”

_”Pois é, amigo. Deus não dá asa à cobra”_ Enfatizei, tentando enigmatizar meio como jongueiro também.

_”Entonces. Eu bem que podia dizer pra ela um dos segredo mais que segredado que os ossos do Valongo têm. Olha os dentes dos ôsso, moça! Olha os dente dos ôsso que tu vê bem de onde êis vêm, sô. Tá escrito lá é só saber ler. Pronto. Num disse. Se num digo pr’ela, que não merece nem quer saber, digo procês…”

E disse sim, tanto que posso dizer agora mesmo para vocês todos: Os dentes de muitos dos esqueletos do Valongo eram pontiagudizados, cuidadosamente como dentes duplo caninos, vários caninos duplos numa boca só, assustadores (veja a foto principal). Eu mesmo, agora que ele falou, me recordo que já ouvira falar disso ou li em algum lugar. Nem preciso me arvorar de procurar onde de tão evidente – e forense – que a prova é.

Isto! Eureka total. O povo africano que usava este prática de esculpir os dentes (costume que servia, dizem, para apavorar seus inimigos) era de alguma etnia da área do suposto Reino do Benguela. Sim. Estes eram conhecidos aqui no Brasil como ‘benguelas‘, com efeito. História oral, sabem como é, os doutos não consideraram relevante isto aí porque..porque… porque sãoi cegos, ora. Ou burros.

A evidência contudo é muito pertinente e o Tio crê nela como prova cabal sim, doc. ‘escrito’, ‘esculpido em carara‘, da origem destas pessoas: A área do Porto de Benguela, Angola.

E não é? Lembrem aí: Como é que até hoje chamamos pessoas com dentes quebrados ou faltando aqui no Brasil? Não é de ‘banguela‘? De onde é que vocês acham que veio esta palavra, com este sentido? Do grego, do francês, do latim, do português?

E vejam o que é mais incrível: A maioria dos africanos que vinham esmulambados pela infame ‘Passagem do Meio”, os que chegavam no Cais do Valongo, ao que tudo indica, eram os mesmos que, interceptados no caminho de seu sequestro-calvário, desembarcavam na Ilha de Santa Helena, pretensamente libertados de um algoz, para morrer em campos de concentração, nas mãos do outro: os agentes da armada inglesa.

Os cemitérios irmãos do Valongo e Ruper Valey são então mais uma prova – entre tantas – de que o fluxo mais intenso de africanos para aqui e para a América Central, para o Caribe, para as Américas inteiras enfim, pelo menos por esta época que diz respeito a esta parte de nossa história, era mesmo de gente embarcada no Porto de Benguela, Angola.

Gente que foi para o Kalunga Ngombe, mas habita até hoje em nós.

_”Assentamento de orixá é o cacete! Sei lá o que havera de ser isto, o que isto quer dizer?”

Dito isto, Ngonzo riu de novo, escancaradamente e desapareceu da minha ilusão. Foi para a bruma de onde veio, mas sei que uma hora destas pode voltar. “Os ossos falam”, pensei lembrando, de novo, a frase clichê do filme de arqueologia forense da TV.

Acredite em orixá, no Candomblé – ou no que ‘falam’ os ossos – quem quiser. Quem não quiser…que vá estudar – ou que vá se ferrar – na paz de Deus.

Spirito Santo

Junho 2012

(Leia posts anteriores da série neste link, neste e neste outro)

Leia também mais e mais sobre o assunto em https://spiritosanto.wordpress.com/2012/09/22/kalunga-forever-o-cais-do-valongo-nao-pertence-a-rainha-ma/

A Lama do Valongo e a arqueologia do Caô. Post # 03


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(Leia posts anteriores da série neste link e neste  outro)Cais do Valongo Tania Lima e mãe de santo -Foto José Carlos Soares -2012

As manhas e mumunhas do debate garimpam a terra já escalavrada

Movimento negro promove caminhada pela construção do Memorial da Diáspora Africana no centro do Rio

Por: Paulo Virgilio

13/05/2011

Rio de Janeiro – Representantes do movimento negro, de organizações não governamentais e de órgãos públicos como a Fundação Palmares e o Ministério da Cultura participam na noite desta sexta-feira (13) de uma caminhada, seguida de feijoada, na zona portuária do Rio de Janeiro. O objetivo da caminhada, com início previsto para as 18h, é chamar a atenção da população para importância da criação na área do Memorial da Diáspora Africana.

As recentes escavações feitas na região para as obras do Porto Maravilha, como é chamado o projeto de revitalização do Porto do Rio de Janeiro, propiciaram a descoberta do sítio arqueológico do Cais do Valongo, fato que injetou ânimo nos militantes do movimento negro. De acordo com o historiador Carlos Eugênio Líbano, que há dez anos pesquisa a chamada “Pequena África” – área do centro do Rio hoje conhecida como zona portuária – o Valongo é fundamental para o resgate da diáspora africana nas Américas.

O Valongo foi o único cais do Brasil construído especificamente para receber escravos, e isso num momento em que outros países já haviam abandonado o tráfico negreiro”, disse. Ele lembra que o Brasil foi o país que mais recebeu escravos africanos em todas as Américas, cerca de 4 milhões, e a maior parte deles foram desembarcados no Rio de Janeiro…”

Para os que estão pegando o bonde do Valongo andando o Tio explica sucintamente:

Como se sabe, no contexto do grande volume de obras turístico urbanísticas relacionadas aos mega eventos esportivos vindouros – Copa do Mundo em 2014 e Olimpíadas em 2016 – a cidade do Rio de Janeiro está sendo escalavrada, escarafunchada de norte a sul. Corte Imperial que foi até o século esta ex colônia valhacouto de rei fujão, acabou virando a maior metrópole colonialista das Américas.

O certo é que por força de várias más condutas e piores ainda posturas municipais – entre elas o esquizofrênico anseio de ser, a qualquer custo uma improvável cidade europeia – os gestores desta cidade soterraram em sucessivas reformas urbanas (algumas insanas como o ‘Bota Abaixo” de Pereira Passos, no iniciozinho do século 20) traços, marcas, tralhas e trilhos de seu passado.

Uma cidade sempre renovada sob camadas e camadas de entulho, apliques e pancake. Uma cidade ‘fakeface‘.

De soterramento em soterramento, o Rio de Janeiro já passou então, em pouco mais de um século do estilo colonial português do século 18 aos art dèco e nouveaux do início do século 19, até chegar ao neo clássico monumental nazi fascista dos anos 1940 e desaguar nestes monstrengos de concreto e vidro fumê de hoje em dia.

Disposto em camadas e mais camadas superpostas, esta cidade ‘coroa’, já passada nos anos, tem partes bonitas sim, arcos de triunfo (deles, e não nosso, claro) igrejas monumentais, fundações de construções patriarcais remotas, moedas de ouro, louça francesa, inglesa, mas ela tem também as marcas insidiosas de seu passado escravocrata, principalmente os ossos de escravos mortos, milhares de ossos, com alguns poucos despojos restantes dos usos e hábitos daquela gente africana bem bronzeada que, submetida a trabalhos forçados e seviciada por séculos à fio, nem tempo teve de mostrar o seu valor.

É. Basta imaginar esta gente habitando os cantos e as frestas destas edificações, uma a uma demolidas ou desabadas pelo tempo. Basta imaginar esta gente circulando pelas ruas recapeadas de pedras que elas mesmas, pessoas cativas carregaram no lombo, além de outras cargas sempre super pesadas. Basta imaginar estas pessoas no cenário transmutante da cidade maravilhosa (aos olhos dos outros) para que as desgraças mais execráveis de nossa sociedade, até recentemente escravocrata, em engulhos, espasmos de nojo aflorem, assim, diante de nós ao rés do chão.

O fato é que, para o bem ou para o mal, para revelar – ou queimar – o filme de sua história, a cidade do Rio de Janeiro ora escarafunchada, tem em seu subsolo um imenso, um precioso e inestimável sítio arqueológico com dados cruciais sobre aquela parte do nosso passado colonial que tanto queríamos esconder, mas que os arqueólogos envolvidos afirmam, de paixão querer revelar.

É isto mesmo que os muitos comentários a esta série de posts – como estes aqui – sugerem:

Spirito Santo, creio que você já deve conhecer o livro “À Flor da Terra: o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro, do Júlio César Medeiros da Silva Pereira. De qualquer forma , deixo a referência para, se for o caso, uma eventual pequena contribuição às suas leituras e aos demais leitores do blog. Sigo te acompanhando!

Abração,

Pablo”

“…Estive no IAB (no Museu nacional, presumo) e lá entrevistei os responsáveis pela pesquisa arqueológica, com o intuito de buscar estas informações, mas o que obtive foram as de que não fora feita uma pesquisa aprofundada e sim um “salvamento” e que, por conta disto, não havia mais nada a acrescentar ao que já fora publicado no folder da exposição dos Pretos Novos, já citado neste livro. Disseram precisar de verbas e recursos para esta finalidade.

Entretanto, enquanto nada mais se faz neste sentido, ao fim e ao cabo, somos obrigados a agradecer à musa Clio, que não pretende ser rainha, mas também não é mais serva. É livre e escolhe os seus companheiros livremente 88 e, mais, é capaz de continuar atuante quer tenha parceria ou não.”

E disse o Tio a Pablo,

Na verdade conheço o livro, trechos dele pinçados aqui e ali na rápida pesquisa que fiz sobre o tema agora mesmo. Não tinha o livro inteiro (vou linká-lo – está linkado aqui– na próxima matéria (esta!) na qual pretendo, exatamente esmiuçar as escavações arqueológicas em si e te agradeço muito disponibilizá-lo)

O livro é muito elucidativo. Por ele dá para se verificar que a análise que fizeram dos ossos da casa da Ana Merced foi bem superficial e rasa de conteúdo, com referencias genéricas sobre a etnicidade daquelas pessoas. Vou utilizar – e chamo a atenção para isto – este trecho aí do livro do Júlio que dá bem a medida do descaso arqueológico a que me refiro na segunda matéria da série:

Ao que, prontamente Reinaldo Tavares Arqueólogo do Instituto Pretos Novos,tocado em seus mais que justos brios, apareceu respondendo:

Prezados Amigos,

Boa noite, cabe salientar que em 2011 as pesquisas foram reiniciadas após 12 anos de abandono. Convido a todos para uma nova visita ao Instituto Pretos Novos para conhecerem os novos dados das pesquisas. Realmente, até então muito pouco tinha sido revelado, mas hoje há um pouco mais de informação, inclusive o tamanho da necrópole e como os corpos eram inumados.

Terei o maior prazer de receber vocês e juntos vamos construir esse conhecimento. Sobre a religião, apesar das poucas fontes disponíveis ainda não sabemos quais as religiões realmente eram praticadas pelos escravos, já que religiões são mutáveis por serem fruto de interações sociais.

Além do mais, não há como saber de qual parte da África cada indivíduo veio e qual religião familiar era praticada. Só há a indicação do porto de saída. Cremos que podemos identificar algumas estruturas presentes nas religiões ainda praticadas, mas não será a religião original.

A arqueologia da Diáspora Africana, nascida nos Estados Unidos ainda está engatinhando no Brasil, pela falta de um modelo próprio para o Brasil. Mas graças às últimas pesquisas, nos últimos anos, temos avançado. Gostaríamos inclusive de realizar mais pesquisas, mas ainda é bastante caro fazer arqueologia no Brasil. Estamos caminhando e gostaríamos de ter o apoio de todos, pois não é só a história dos afrodescedentes que estamos falando, mas sim de todos nós.

(Reinaldo Tavares Arqueólogo do Instituto Pretos Novos . Comemtando lá no blog do Tio)

Daí eu, muito animado como sempre sou com estas coisas, fui logo partindo para cima do Reinaldo – e com aquele exagero de ênfase que me toma as vezes – Reinaldo teve a serenidade de logo a seguir relevar meus arroubos críticos e tocar a bola para a direção do gol, já que torcemos para o mesmo time:

Titio cheio de marra, falando para Reinaldo:

…Só discordaria de você no que diz respeito à suposta falta de elementos cabais, historiológicos, antropológicos, etc. acerca da cultura Brasil dos africanos desembarcados no Brasil (notadamente estes, aqui no Valongo). E note que friso Cultura, na intenção de esvaziar a importância excessiva que se dá à religião quando se trata de assuntos de negro no Brasil.

A alegação desta falta de elementos’assim como a antigamente alegada diluição das culturas africanas’ na escravidão – não são mais alegações pertinentes nas Ciências Sociais. Isto é coisa que só rola no Brasil.

Existem sim – só que fora daqui- dados especializadíssimos sobre a cultura – a religião inclusa – destas pessoas. Se nos atermos aos egressos da Angola atual, inquestionavelmente a esmagadora maioria entre os chegados ao Valongo, gente de cultura geral bakongo: (Reino de Kongo e suas áreas de influencia nos primeiros séculos do tráfico, e ovimbundo, das imediações do antigo – e suposto – Reino do Benguela e suas adjacências, nos últimos séculos, a época crucial arqueologicamente associada aos ossos do ‘cemitério’ dos pretos novos), se nos atermos a ela os dados são incomensuráveis. Há muita bibliografia portuguesa, holandesa, angolana, francesa, inglesa, muita coisa mesmo. Basta fuçar e juntar os pontinhos.

Existe sim, repito, material histórico, antropológico – e até arqueológico – em profusão na Europa, na África e também no Brasil (em menor quantidade, é certo) especificando com toda a convicção possível, a origem provável dos africanos que vieram, não só para o Brasil como para as Américas como um todo.

Na verdade, Reinaldo o problema me parece que é muito mais um reflexo da baixa qualidade acadêmica e geral de nossas ciências sociais (a antropologia e arqueologia inclusas) do que um problema generalizado .

Aliás, estas suas afirmações sugerindo a inexistência de dados e informações acerca destes temas, quando estes dados efetivamente existem e estão disponíveis a qualquer estudioso mais curioso ou interessado, considerando a sua especialíssima formação e o papel central que você representa nesta pesquisa, pode sugerir que estamos tendo sim problemas graves na formação de nossos doutores.

Acho que este debate vai acabar mesmo é ajudando a esclarecer estes pontos ‘cabeludos’ – e controvertidos porque são ‘saia justa’ para doutores em geral – de nossa ainda corporativista e elitista relação com Educação e Cultura.

Reconheço, pois, Reinaldo, o seu inestimável e meritório esforço profissional como arqueólogo responsável pelo IPN, mas acho que o  seu relativo desconhecimento – que não é só seu, pois é problema recorrente em nossas universidades – sobre a profusão de estudos, teses e trabalhos científicos existentes fora do Brasil sobre o tema cultura africana – e religião – nas Américas, é uma evidência importante de que o renitente descaso de nossas ciências sociais, motivo principal e nosso presente debate, fez muitas vítimas.

Não que eu também não seja uma delas.”

E enfim, Reinaldo quase marcando o gol (é que na hora do chute final, cometeu falta):

Spirito Santo,

Estou adorando esse papo, por isso desculpe-me se me alongo muito.
Você tem razão, há muita coisa fora do Brasil sobre as religiões praticadas na África. Os etnólogos (nome figurado de velhos antropólogos) fizeram descrições densas no século XX sobre algumas religiões africanas)

No Brasil ficamos restritos a Bastide e Verger que preferiram estudar a religião dos povos do oeste africano. Investigar as religiões centro africanas que influenciam diretamente as práticas religiosas brasileiras é inclusive o meu projeto de pesquisa para o doutorado. O acervo que você viu no IPN não está abandonado, por mais que esteja meio vazio, ainda não há segurança suficiente para mostrar ainda muita coisa.

Precisamos melhorar as condições de exposição do acervo. Estamos levantando verbas para a instalação de proteções mecânicas nas janelas de sondagens. Que só tem quatro meses de abertas. Creio que este mês já teremos uma boa notícia sobre esse assunto, já que o município sinalizou o interesse em custiar os “vidros”. Cabe salientar que o IPN sobrevive com poucos recursos advindos de voluntários e atualmente do ponto de cultura. A Merced insiste em não cobrar nada pela manutenção do espaço, tanto é que tudo lá é de graça (até o cafezinho). Não há sequer uma taxa mínima de R$ 1,00 para poder entrar no recinto, tomar água gelada, café, visitar a exposição – mesmo que precária – e assistir as oficinas, com direito a certificado.

Voltando a falar sobre cultura africana acho muito pertinente o seu comentário, todos só falam em religião. Não tratam de questões sociais, políticas e econômicas. A África só tem interesse para aqueles que se interessam pelo passado da escravidão, só falam da África ancestral. Novos debates precisam ser travados. Venha para cá e nos ajude nestas questões. Vamos tratar do neo-colonialismo, do Pan-africanismo e dentro desse viés, quem sabe não sobra um espaço para antropologia e a arqueologia.

Por favor, não temos o intuito de enganar ninguém, estamos aprendendo a cada dia e não cansamos de compartilhar aquilo que aprendemos, inclusive possíveis bobagens.

Abraços,

Reinaldo Tavares”

Hum…Mas é aí, neste chamamento sincero à solidariedade voluntária pela manutenção do sítio arqueológico dos Pretos Novos, que surgem outras questões mais complexas ainda. São pontas da política se imiscuindo no problema. Compartilhar bobagens”?Afinal, à que “bobagensReinaldo está se referindo? Bobagens em geral, emitidas por leigos em arqueologia como suponho ser o Pablo? Ou seriam bobagens escritas aqui pelo Titio? Ficou dúbio este final.

Eis que daí – ressaltando que esta série de posts– como todos os outros do Titio – visam instigar debates francos, retirar panos quentes e levantar saias justas para mostrar calcinhas – ou cuequinhas – mal lavadas. Titio resolve reabrir agora mesmo o eletrizante…

Plantão de bobagens do Valongo

Abobrinhas doutas, leigas e outras mancadas clássicas ou ‘históricas’.

Bobagem nº 01- A arqueologia no Olimpo

Tentamos ao vivo, pessoalmente, mas como fomos dissuadidos por ela mesma…

_ Não está vendo que estou ocupada?_”

Vamos então conhecer aqui, on line na falta de outro modo e de forma inconclusiva ainda, algo sobre a doutora responsável pelo sítio arqueológico do Cais Valongoa mesma responsável outrora (1996), imagino, pelas escavações na casa de Ana Maria Merced onde foi encontrado, por acaso como se sabe, o sítio macabro chamado ‘Cemitério” dos Pretos Novos.

Tania Andrade Lima é graduada em Arqueologia pela UNESA (1979), especializada em Arqueologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1980), doutora em Ciências (Arqueologia) pela Universidade de São Paulo (1991) e tem pós-doutorado em História Social também pela Universidade de São Paulo (1993-1995).

É professora associada do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenadora do Mestrado em Arqueologia do Museu Nacional / UFRJ e curadora das coleções arqueológicas da instituição

Benza Deus! Mais douta que isto é difícil. Tania Andrade Lima é, pois, a decana de quase todos os arqueólogos de ponta aqui do pedaço – inclusive, quem sabe, o nosso bom Reinaldo Tavares. Mas como o Tio sempre diz para os mais interessados sobrinhos: Duvide, questione sempre os doutos (mesmo se arriscando a dizer bobagens). Só assim você um dia será um deles . Leiam, portanto, com a lupa dos chatos de plantão como eu a entrevista de Tania Andrade Lima a seguir:

Galileu: E o que vocês encontraram?

Tania: Encontramos primeiro o Cais da Imperatriz: uma rampa de pedras, escadarias, tudo em um piso muito bem trabalhado. Continuamos escavando em busca do Valongo. Sessenta centímetros abaixo do cais da Imperatriz, encontramos o que buscávamos.

Era um piso de pedras irregulares, porque ninguém fazia nada caprichado para escravos. Ainda não conseguimos delimitar tudo, mas já abrimos uma área muito grande. O Valongo está mais bem preservado que o Cais da Imperatriz. Encontramos muitos objetos que pertenciam aos escravos, inclusive objetos relacionados às suas práticas mágico-religiosas.

Achamos muitos adornos, o que não é comum na arqueologia brasileira. O que se encontra geralmente são os cachimbos de barro que eles usavam – o que também encontramos aos montes. Mas achamos outros artefatos menos comuns. Encontramos búzios usados em práticas divinatórias. Temos uma boa quantidade de adornos de contas, usados como amuletos ligados à proteção do corpo“.

Perceberam? Não? Pois é. A gente acaba passando batido pelas filigranas ensaboadas destes papos. Só depois de ler poucas e boas outras coisas sobre o assunto é que me toquei. É que as respostas, em se tratando de alguns destes que são considerada os maiores especialistas em arqueologia histórica do país (pelo menos em títulos e cargos), em se tratando de historia africana, muitas vezes não falam muito mais do que ramerrões vagos e imprecisos.

Ninguém fazia nada caprichado para escravos…”, está dito na entrevista. Ora, convenhamos: isto parece mais uma frase de efeito, apenas uma tirada piegas e paternalista, já que pode não ter nada a ver, tecnicamente, com a razão de ser das pedras serem diferentes entre si. O piso do Cais do Valongo soterrado foi feito na técnica conhecida como ‘pé de moleque’, muito comum em calçamentos de rua no século 18. O Cais da Imperatriz é posterior, de quase um século depois, quando a técnica de calçamento já havia evoluído para as placas quadrangulares que foram descobertas ali. Óbvio que as diferenças entre os pisos devem ter esta razão histórica arquitetônica aí, que é bem prosaica.

Por ouro lado as expressões grifadas por mim tais como “…inclusive objetos relacionados às suas práticas mágico-religiosas”, ..Encontramos búzios usados em práticas divinatórias” e “…adornos de contas, usados como amuletos ligados à proteção do corpo” são chavões historiológicos bem impertinentes. Ora, como já sabe a historiologia mais moderna, a cultura dos africanos nunca esteve restrita apenas – como pensam os historiadores e antropólogos mais atrasados e simplistas – aos limites estreitos da religião. Isto é um desconhecimento de causa injustificável.

Este pensamento arcaico, comum no fim do século 19, serviu para desqualificar, classificar os africanos como seres primitivos e ignorantes, aferrados à práticas supersticiosas, desprovidos de um senso de cultura mais elaborado. Sabem como o Titio é cismado, certo?

Estas não me pareceram colocações adequadas a pessoas especialistas no tema. São estas e outras colocações que, com certeza estimularam muitas outras dúvidas no Titio, ainda mais quando juntadas àquelas imagens da arqueóloga de mãos dadas com mães de santo de candomblé.

As cismas do Titio são apriorísticas, claro, mas são pertinentes (e afinal, como disse acima a tentativa de saber mais sobre o assunto foi rechaçada com maus modos). Cá entre nós: não é de modo algum uma bobagem intuir que estas afirmações descuidadas e recorrentes, quando ditas por alegados especialistas, se parecem sim com dispositivos deliberados de apagamento, pois denotam certo descaso metodológico, pouco apuro técnico, baixa cientificidade, caraterísticas intoleráveis para um doutor de qualquer ramo.

(É curioso perceber, aliás que a denúncia destas práticas de apagamento estão claramente expostas no discurso de Tania Andrade em várias outras entrevistas. São firmes e elogiáveis as suas posições quanto a isto. É uma contradição incômoda esta, pois, o Titio não pode, de modo algum, atribuir ignorância à pessoa tão renomadamente douta).

Nestas lidas e relidas de teses, artigos acadêmicos e currículos de arqueólogos brasileiros (existem um ou dois argentinos conceituados nesta turma), o Titio pode até perceber que existem sim especialistas e teses menos vagas sobre o tema (arqueologia histórica de sítios onde houve presença africana no Brasil). Citei dois excelentes arqueólogos desta praia nos posts anteriores (Pedro Paulo Funari e Luiz Claudio Symanski).

Não há pois carência de dados historiológicos e pesquisas referentes ao tema para embasar pesquisa posteriores. Existem sim, com certeza – o que me surpreendeu bastante – bons elementos para se realizar na área do Museu nacional e do Iphan um excelente trabalho de pesquisa. Nem sei porque estes talvez melhores especialistas citados, aparentemente não estão envolvidos mais diretamente na pesquisa do Valongo que é, com certeza o mais importante sítio do ramo de toda a história do Brasil (mais ainda que Palmares, já praticamente destruído pelas retroescavadeiras).

Mas, dirão os mais crédulos: Ah! Relaxa , Titio. Foram afirmações soltas (as de Tania Andrade) genéricas para uma revista não acadêmica. Concordo. Deve ser isto mesmo, mas é difícil, admitam. Acredito enfim – e este será o tema do post seguinte (espero que seja o final) desta série – que há mais coisas soterradas nesta história.

Do que se pode apreender por tudo que foi ventilado aqui,existem dois agentes nesta história, uns mordendo outros assoprando,como se diz. Nenhuma ingenuidade reinante, os dois sabendo muito bem o papel que querem desempenhar.

Eles, os agentes deste caso macabro, de algum modo acordados – ou mancomunados em seus interesses, sei lá, depende do ponto de vista – são os arqueólogos e as autoridades da Prefeitura Municipal (e sua turma de empreiteiras e empresas de engenharia e arquitetura). No meio deles, como uma cunha incômoda, estão os ‘afro descendentes’ (como os brancos doutos dizem, com certo distanciamento) os que reclamam um destino histórico digno para os ‘seus’ mortos.

Destes, os ‘afro descendentes’e afirmo isto às minhas próprias custas e riscos – a exemplo da inércia dos ossos de seus antepassados, são o segmento mais despreparado e desorganizado para o embate que, com toda certeza virá entre procedimentos de Apagamento e de Revelação.

(Hora de ressalvar a parte mais cínica deste embate paternalista: Não existem, que eu saiba, praticamente, arqueólogos negros de renome no Brasil. Quem conhecer algum que me apresente. Tampouco existem funcionários negros entre as autoridades mais proeminentes da Prefeitura ou entre seus empresários, lobistas e empreiteiros.

Parece uma bobagem (ops!) esta constatação, mas lembrem-se: O passado africano a ser revelado pelas escavações NÃO interessa apenas aos afrodescendentes, interessa a todos nós.

É complicado que não tenhamos interlocutores negros (independentes, isentos de compromissos com os interesses das partes associados em contrato) entre os que decidem as coisas neste assunto (e não estamos falando destas abnegadas e simpáticas mães de Santo de candomblé, um tipo de consultoria obviamente imprópria, inadequada e irrelevante neste caso).

Resquícios de racismo à parte, reflitamos também sobre a questão de fundo, o fulcro do problema: Os interesses da ‘Cidade Empresa’, a urbe capitalista (a quem esta arqueologia oficial – como veremos a seguir – presta serviços e deve satisfações) é, como se diz em grosso português, ‘passar o trator’ em tudo que atravanque o seu conceito raso de progresso à toque de caixa (2014 está aí, na nossa porta).

Por outro lado, os interesses do cidadãos (os ‘afro descendentes’ inclusos) é insistir, que se invistam verbas para escavar e limpar decentemente, à escova de dente e pincelzinho, além de sobretudo preservar um a um todos os ossos, objetos e artefatos de africanos dispersos pelo sítio, afim de revelar, meticulosamente o que se passou conosco, naquele ensejo cruel de desembarcar cativo, revelar de quem somos, exatamente, nós TODOS, os descendentes desta gente afinal, qual é de fato a história de nós todos, vítimas sobreviventes da maior iniquidade de nossa história.

E saibam que, vergonhosamente há um outro drama crucial embutido nesta história. É que ninguém sabe ao certo ainda – alguns nem mesmo querem saber – a extensão exata da área que contêm ossos e vestígios africanos soterrados na extensa área Valongo. Presume-se pela descrição de Paulo Fernandes Viana, funcionário da Corte de D.João VI que ordenou a limpeza do pântano (leia no link) cheio de cadáveres insepultos próximos ao Valongo, que a área seja bem maior do que a dos supostos ‘cemitérios dos pretos novos‘ referidos (o do Largo de Santa Rita – o original- e o do antigo Caminho do Cemitério, atual Rua Pedro Ernesto no atual bairro da Gamboa).

Até onde irá a vontade política de revelar toda a extensão do sítio em relação aos interesses de construir e reformar, maquiar esta parte da cidade para os eventos turístico esportivos que virão já já?

Aos mais atentos e interessados deixo então aqui, para uma conversa seguinte, uma pista (que não é, de modo algum uma insinuação, ressalvo) sugerida para a nossa escarafunchação final. É um conceito caro à arqueologia nacional que acabo de aprender. As palavras – para o bem ou para o mal – são de nossa principal agente arqueológica:

…Atualmente, cerca de 95% dos arqueólogos do Brasil trabalham com arqueologia de contrato. Grande parte dos sítios arqueológicos são descobertos ao acaso, em meio a uma construção ou uma obra.

Nesse caso, uma equipe de arqueólogos é contratada (daí o nome “arqueologia de contrato”) para promover um salvamento do sítio, caso ele esteja em destruição iminente.

Se não houver risco de destruição, o sítio deverá ser cadastrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para posterior pesquisa.

Então, entra o trabalho da arqueologia acadêmica. Na realidade, o profissional que trabalha por contrato passa mais tempo em expedições do que o arqueólogo acadêmico, justamente porque migra de um sítio ao outro.”

“Faltam arqueólogos no mercado, estamos sobrecarregados.” A frase de Tania Lima é confirmada por Pedro Paulo Funari que, em 2000, calculou em trezentos o número de arqueólogos em todo o país. “A arqueologia no Brasil é recentíssima, o número de arqueólogos profissionais reduzidíssimo e os centros de formação pouco numerosos” afirma.

(Importante frisar que quem ‘contrata‘ são as empresas empreiteiras que ganharam a concorrência para as obras.)

Os ossos falam” e como podem esperar, tranquilamente por quase uma eternidade, se não falarem agora, falarão depois. Podemos até criar uma ‘Comissão da Verdadecom eles, entrevistá-los, pois. Os ossos falarão.

Spírito Santo

Junho 2012