A Lama do Valongo e a arqueologia do Caô. Post # 03

Creative Commons LicenseATENÇÃO:Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

(Leia posts anteriores da série neste link e neste  outro)Cais do Valongo Tania Lima e mãe de santo -Foto José Carlos Soares -2012

As manhas e mumunhas do debate garimpam a terra já escalavrada

Movimento negro promove caminhada pela construção do Memorial da Diáspora Africana no centro do Rio

Por: Paulo Virgilio

13/05/2011

Rio de Janeiro – Representantes do movimento negro, de organizações não governamentais e de órgãos públicos como a Fundação Palmares e o Ministério da Cultura participam na noite desta sexta-feira (13) de uma caminhada, seguida de feijoada, na zona portuária do Rio de Janeiro. O objetivo da caminhada, com início previsto para as 18h, é chamar a atenção da população para importância da criação na área do Memorial da Diáspora Africana.

As recentes escavações feitas na região para as obras do Porto Maravilha, como é chamado o projeto de revitalização do Porto do Rio de Janeiro, propiciaram a descoberta do sítio arqueológico do Cais do Valongo, fato que injetou ânimo nos militantes do movimento negro. De acordo com o historiador Carlos Eugênio Líbano, que há dez anos pesquisa a chamada “Pequena África” – área do centro do Rio hoje conhecida como zona portuária – o Valongo é fundamental para o resgate da diáspora africana nas Américas.

O Valongo foi o único cais do Brasil construído especificamente para receber escravos, e isso num momento em que outros países já haviam abandonado o tráfico negreiro”, disse. Ele lembra que o Brasil foi o país que mais recebeu escravos africanos em todas as Américas, cerca de 4 milhões, e a maior parte deles foram desembarcados no Rio de Janeiro…”

Para os que estão pegando o bonde do Valongo andando o Tio explica sucintamente:

Como se sabe, no contexto do grande volume de obras turístico urbanísticas relacionadas aos mega eventos esportivos vindouros – Copa do Mundo em 2014 e Olimpíadas em 2016 – a cidade do Rio de Janeiro está sendo escalavrada, escarafunchada de norte a sul. Corte Imperial que foi até o século esta ex colônia valhacouto de rei fujão, acabou virando a maior metrópole colonialista das Américas.

O certo é que por força de várias más condutas e piores ainda posturas municipais – entre elas o esquizofrênico anseio de ser, a qualquer custo uma improvável cidade europeia – os gestores desta cidade soterraram em sucessivas reformas urbanas (algumas insanas como o ‘Bota Abaixo” de Pereira Passos, no iniciozinho do século 20) traços, marcas, tralhas e trilhos de seu passado.

Uma cidade sempre renovada sob camadas e camadas de entulho, apliques e pancake. Uma cidade ‘fakeface‘.

De soterramento em soterramento, o Rio de Janeiro já passou então, em pouco mais de um século do estilo colonial português do século 18 aos art dèco e nouveaux do início do século 19, até chegar ao neo clássico monumental nazi fascista dos anos 1940 e desaguar nestes monstrengos de concreto e vidro fumê de hoje em dia.

Disposto em camadas e mais camadas superpostas, esta cidade ‘coroa’, já passada nos anos, tem partes bonitas sim, arcos de triunfo (deles, e não nosso, claro) igrejas monumentais, fundações de construções patriarcais remotas, moedas de ouro, louça francesa, inglesa, mas ela tem também as marcas insidiosas de seu passado escravocrata, principalmente os ossos de escravos mortos, milhares de ossos, com alguns poucos despojos restantes dos usos e hábitos daquela gente africana bem bronzeada que, submetida a trabalhos forçados e seviciada por séculos à fio, nem tempo teve de mostrar o seu valor.

É. Basta imaginar esta gente habitando os cantos e as frestas destas edificações, uma a uma demolidas ou desabadas pelo tempo. Basta imaginar esta gente circulando pelas ruas recapeadas de pedras que elas mesmas, pessoas cativas carregaram no lombo, além de outras cargas sempre super pesadas. Basta imaginar estas pessoas no cenário transmutante da cidade maravilhosa (aos olhos dos outros) para que as desgraças mais execráveis de nossa sociedade, até recentemente escravocrata, em engulhos, espasmos de nojo aflorem, assim, diante de nós ao rés do chão.

O fato é que, para o bem ou para o mal, para revelar – ou queimar – o filme de sua história, a cidade do Rio de Janeiro ora escarafunchada, tem em seu subsolo um imenso, um precioso e inestimável sítio arqueológico com dados cruciais sobre aquela parte do nosso passado colonial que tanto queríamos esconder, mas que os arqueólogos envolvidos afirmam, de paixão querer revelar.

É isto mesmo que os muitos comentários a esta série de posts – como estes aqui – sugerem:

Spirito Santo, creio que você já deve conhecer o livro “À Flor da Terra: o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro, do Júlio César Medeiros da Silva Pereira. De qualquer forma , deixo a referência para, se for o caso, uma eventual pequena contribuição às suas leituras e aos demais leitores do blog. Sigo te acompanhando!

Abração,

Pablo”

“…Estive no IAB (no Museu nacional, presumo) e lá entrevistei os responsáveis pela pesquisa arqueológica, com o intuito de buscar estas informações, mas o que obtive foram as de que não fora feita uma pesquisa aprofundada e sim um “salvamento” e que, por conta disto, não havia mais nada a acrescentar ao que já fora publicado no folder da exposição dos Pretos Novos, já citado neste livro. Disseram precisar de verbas e recursos para esta finalidade.

Entretanto, enquanto nada mais se faz neste sentido, ao fim e ao cabo, somos obrigados a agradecer à musa Clio, que não pretende ser rainha, mas também não é mais serva. É livre e escolhe os seus companheiros livremente 88 e, mais, é capaz de continuar atuante quer tenha parceria ou não.”

E disse o Tio a Pablo,

Na verdade conheço o livro, trechos dele pinçados aqui e ali na rápida pesquisa que fiz sobre o tema agora mesmo. Não tinha o livro inteiro (vou linká-lo – está linkado aqui– na próxima matéria (esta!) na qual pretendo, exatamente esmiuçar as escavações arqueológicas em si e te agradeço muito disponibilizá-lo)

O livro é muito elucidativo. Por ele dá para se verificar que a análise que fizeram dos ossos da casa da Ana Merced foi bem superficial e rasa de conteúdo, com referencias genéricas sobre a etnicidade daquelas pessoas. Vou utilizar – e chamo a atenção para isto – este trecho aí do livro do Júlio que dá bem a medida do descaso arqueológico a que me refiro na segunda matéria da série:

Ao que, prontamente Reinaldo Tavares Arqueólogo do Instituto Pretos Novos,tocado em seus mais que justos brios, apareceu respondendo:

Prezados Amigos,

Boa noite, cabe salientar que em 2011 as pesquisas foram reiniciadas após 12 anos de abandono. Convido a todos para uma nova visita ao Instituto Pretos Novos para conhecerem os novos dados das pesquisas. Realmente, até então muito pouco tinha sido revelado, mas hoje há um pouco mais de informação, inclusive o tamanho da necrópole e como os corpos eram inumados.

Terei o maior prazer de receber vocês e juntos vamos construir esse conhecimento. Sobre a religião, apesar das poucas fontes disponíveis ainda não sabemos quais as religiões realmente eram praticadas pelos escravos, já que religiões são mutáveis por serem fruto de interações sociais.

Além do mais, não há como saber de qual parte da África cada indivíduo veio e qual religião familiar era praticada. Só há a indicação do porto de saída. Cremos que podemos identificar algumas estruturas presentes nas religiões ainda praticadas, mas não será a religião original.

A arqueologia da Diáspora Africana, nascida nos Estados Unidos ainda está engatinhando no Brasil, pela falta de um modelo próprio para o Brasil. Mas graças às últimas pesquisas, nos últimos anos, temos avançado. Gostaríamos inclusive de realizar mais pesquisas, mas ainda é bastante caro fazer arqueologia no Brasil. Estamos caminhando e gostaríamos de ter o apoio de todos, pois não é só a história dos afrodescedentes que estamos falando, mas sim de todos nós.

(Reinaldo Tavares Arqueólogo do Instituto Pretos Novos . Comemtando lá no blog do Tio)

Daí eu, muito animado como sempre sou com estas coisas, fui logo partindo para cima do Reinaldo – e com aquele exagero de ênfase que me toma as vezes – Reinaldo teve a serenidade de logo a seguir relevar meus arroubos críticos e tocar a bola para a direção do gol, já que torcemos para o mesmo time:

Titio cheio de marra, falando para Reinaldo:

…Só discordaria de você no que diz respeito à suposta falta de elementos cabais, historiológicos, antropológicos, etc. acerca da cultura Brasil dos africanos desembarcados no Brasil (notadamente estes, aqui no Valongo). E note que friso Cultura, na intenção de esvaziar a importância excessiva que se dá à religião quando se trata de assuntos de negro no Brasil.

A alegação desta falta de elementos’assim como a antigamente alegada diluição das culturas africanas’ na escravidão – não são mais alegações pertinentes nas Ciências Sociais. Isto é coisa que só rola no Brasil.

Existem sim – só que fora daqui- dados especializadíssimos sobre a cultura – a religião inclusa – destas pessoas. Se nos atermos aos egressos da Angola atual, inquestionavelmente a esmagadora maioria entre os chegados ao Valongo, gente de cultura geral bakongo: (Reino de Kongo e suas áreas de influencia nos primeiros séculos do tráfico, e ovimbundo, das imediações do antigo – e suposto – Reino do Benguela e suas adjacências, nos últimos séculos, a época crucial arqueologicamente associada aos ossos do ‘cemitério’ dos pretos novos), se nos atermos a ela os dados são incomensuráveis. Há muita bibliografia portuguesa, holandesa, angolana, francesa, inglesa, muita coisa mesmo. Basta fuçar e juntar os pontinhos.

Existe sim, repito, material histórico, antropológico – e até arqueológico – em profusão na Europa, na África e também no Brasil (em menor quantidade, é certo) especificando com toda a convicção possível, a origem provável dos africanos que vieram, não só para o Brasil como para as Américas como um todo.

Na verdade, Reinaldo o problema me parece que é muito mais um reflexo da baixa qualidade acadêmica e geral de nossas ciências sociais (a antropologia e arqueologia inclusas) do que um problema generalizado .

Aliás, estas suas afirmações sugerindo a inexistência de dados e informações acerca destes temas, quando estes dados efetivamente existem e estão disponíveis a qualquer estudioso mais curioso ou interessado, considerando a sua especialíssima formação e o papel central que você representa nesta pesquisa, pode sugerir que estamos tendo sim problemas graves na formação de nossos doutores.

Acho que este debate vai acabar mesmo é ajudando a esclarecer estes pontos ‘cabeludos’ – e controvertidos porque são ‘saia justa’ para doutores em geral – de nossa ainda corporativista e elitista relação com Educação e Cultura.

Reconheço, pois, Reinaldo, o seu inestimável e meritório esforço profissional como arqueólogo responsável pelo IPN, mas acho que a seu relativo desconhecimento – que não é só seu, pois é problema recorrente em nossas universidades – sobre a profusão de estudos, teses e trabalhos científicos existentes fora do Brasil sobre o tema cultura africana – e religião – nas Américas, é uma evidência importante de que o renitente descaso de nossas ciências sociais, motivo principal e nosso presente debate, fez muitas vítimas.

Não que eu também não seja uma delas.”

E enfim, Reinaldo quase marcando o gol (é que na hora do chute final, cometeu falta):

Spirito Santo,

Estou adorando esse papo, por isso desculpe-me se me alongo muito.
Você tem razão, há muita coisa fora do Brasil sobre as religiões praticadas na África. Os etnólogos (nome figurado de velhos antropólogos) fizeram descrições densas no século XX sobre algumas religiões africanas)

No Brasil ficamos restritos a Bastide e Verger que preferiram estudar a religião dos povos do oeste africano. Investigar as religiões centro africanas que influenciam diretamente as práticas religiosas brasileiras é inclusive o meu projeto de pesquisa para o doutorado. O acervo que você viu no IPN não está abandonado, por mais que esteja meio vazio, ainda não há segurança suficiente para mostrar ainda muita coisa.

Precisamos melhorar as condições de exposição do acervo. Estamos levantando verbas para a instalação de proteções mecânicas nas janelas de sondagens. Que só tem quatro meses de abertas. Creio que este mês já teremos uma boa notícia sobre esse assunto, já que o município sinalizou o interesse em custiar os “vidros”. Cabe salientar que o IPN sobrevive com poucos recursos advindos de voluntários e atualmente do ponto de cultura. A Merced insiste em não cobrar nada pela manutenção do espaço, tanto é que tudo lá é de graça (até o cafezinho). Não há sequer uma taxa mínima de R$ 1,00 para poder entrar no recinto, tomar água gelada, café, visitar a exposição – mesmo que precária – e assistir as oficinas, com direito a certificado.

Voltando a falar sobre cultura africana acho muito pertinente o seu comentário, todos só falam em religião. Não tratam de questões sociais, políticas e econômicas. A África só tem interesse para aqueles que se interessam pelo passado da escravidão, só falam da África ancestral. Novos debates precisam ser travados. Venha para cá e nos ajude nestas questões. Vamos tratar do neo-colonialismo, do Pan-africanismo e dentro desse viés, quem sabe não sobra um espaço para antropologia e a arqueologia.

Por favor, não temos o intuito de enganar ninguém, estamos aprendendo a cada dia e não cansamos de compartilhar aquilo que aprendemos, inclusive possíveis bobagens.

Abraços,

Reinaldo Tavares”

Hum…Mas é aí, neste chamamento sincero à solidariedade voluntária pela manutenção do sítio arqueológico dos Pretos Novos, que surgem outras questões mais complexas ainda. São pontas da política se imiscuindo no problema. Compartilhar bobagens”?Afinal, à que “bobagensReinaldo está se referindo? Bobagens em geral, emitidas por leigos em arqueologia como suponho ser o Pablo? Ou seriam bobagens escritas aqui pelo Tio? Ficou dúbio este final.

Eis que daí – ressaltando que esta série de posts– como todos os outros do Tio – visam instigar debates francos, retirar panos quentes e levantar saias justas para mostrar calcinhas – ou cuequinhas – mal lavadas. Titio resolve reabrir agora mesmo o eletrizante…

Plantão de bobagens do Valongo

Abobrinhas doutas, leigas e outras mancadas clássicas ou ‘históricas’.

Bobagem nº 01- A arqueologia no Olimpo

Tentamos ao vivo, pessoalmente, mas como fomos dissuadidos por ela mesma…

_ Não está vendo que estou ocupada?_”

Vamos então conhecer aqui, on line na falta de outro modo e de forma inconclusiva ainda, algo sobre a doutora responsável pelo sítio arqueológico do Cais Valongoa mesma responsável outrora (1996), imagino, pelas escavações na casa de Ana Maria Merced onde foi encontrado, por acaso como se sabe, o sítio macabro chamado ‘Cemitério” dos Pretos Novos.

Tania Andrade Lima é graduada em Arqueologia pela UNESA (1979), especializada em Arqueologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1980), doutora em Ciências (Arqueologia) pela Universidade de São Paulo (1991) e tem pós-doutorado em História Social também pela Universidade de São Paulo (1993-1995).

É professora associada do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenadora do Mestrado em Arqueologia do Museu Nacional / UFRJ e curadora das coleções arqueológicas da instituição

Benza Deus! Mais douta que isto é difícil. Tania Andrade Lima é, pois, a decana de quase todos os arqueólogos de ponta aqui do pedaço – inclusive, quem sabe, o nosso bom Reinaldo Tavares. Mas como o Tio sempre diz para os mais interessados sobrinhos: Duvide, questione sempre os doutos (mesmo se arriscando a dizer bobagens). Só assim você um dia será um deles . Leiam, portanto, com a lupa dos chatos de plantão como eu a entrevista de Tania Andrade Lima a seguir:

Galileu: E o que vocês encontraram?

Tania: Encontramos primeiro o Cais da Imperatriz: uma rampa de pedras, escadarias, tudo em um piso muito bem trabalhado. Continuamos escavando em busca do Valongo. Sessenta centímetros abaixo do cais da Imperatriz, encontramos o que buscávamos.

Era um piso de pedras irregulares, porque ninguém fazia nada caprichado para escravos. Ainda não conseguimos delimitar tudo, mas já abrimos uma área muito grande. O Valongo está mais bem preservado que o Cais da Imperatriz. Encontramos muitos objetos que pertenciam aos escravos, inclusive objetos relacionados às suas práticas mágico-religiosas.

Achamos muitos adornos, o que não é comum na arqueologia brasileira. O que se encontra geralmente são os cachimbos de barro que eles usavam – o que também encontramos aos montes. Mas achamos outros artefatos menos comuns. Encontramos búzios usados em práticas divinatórias. Temos uma boa quantidade de adornos de contas, usados como amuletos ligados à proteção do corpo“.

Perceberam? Não? Pois é. A gente acaba passando batido pelas filigranas ensaboadas destes papos. Só depois de ler poucas e boas outras coisas sobre o assunto é que me toquei. É que as respostas, em se tratando de alguns destes que são considerada os maiores especialistas em arqueologia histórica do país (pelo menos em títulos e cargos), em se tratando de historia africana, muitas vezes não falam muito mais do que ramerrões vagos e imprecisos.

Ninguém fazia nada caprichado para escravos…”, está dito na entrevista. Ora, convenhamos: isto parece mais uma frase de efeito, apenas uma tirada piegas e paternalista, já que pode não ter nada a ver, tecnicamente, com a razão de ser das pedras serem diferentes entre si. O piso do Cais do Valongo soterrado foi feito na técnica conhecida como ‘pé de moleque’, muito comum em calçamentos de rua no século 18. O Cais da Imperatriz é posterior, de quase um século depois, quando a técnica de calçamento já havia evoluído para as placas quadrangulares que foram descobertas ali. Óbvio que as diferenças entre os pisos devem ter esta razão histórica arquitetônica aí, que é bem prosaica.

Por ouro lado as expressões grifadas por mim tais como “…inclusive objetos relacionados às suas práticas mágico-religiosas”, ..Encontramos búzios usados em práticas divinatórias” e “…adornos de contas, usados como amuletos ligados à proteção do corpo” são chavões historiológicos bem impertinentes. Ora, como já sabe a historiologia mais moderna, a cultura dos africanos nunca esteve restrita apenas – como pensam os historiadores e antropólogos mais atrasados e simplistas – aos limites estreitos da religião. Isto é um desconhecimento de causa injustificável.

Este pensamento arcaico, comum no fim do século 19, serviu para desqualificar, classificar os africanos como seres primitivos e ignorantes, aferrados à práticas supersticiosas, desprovidos de um senso de cultura mais elaborado. Sabem como o Tio é cismado, certo? Estas não me pareceram colocações adequadas a pessoas especialistas no tema. São estas e outras colocações que, com certeza estimularam muitas outras dúvidas no Tio, ainda mais quando juntadas àquelas imagens da arqueóloga de mãos dadas com mães de santo de candomblé.

As cismas do Tio são apriorísticas, claro, mas são pertinentes (e afinal, como disse acima a tentativa de saber mais sobre o assunto foi rechaçada com maus modos). Cá entre nós: não é de modo algum uma bobagem intuir que estas afirmações descuidadas e recorrentes, quando ditas por alegados especialistas, se parecem sim com dispositivos deliberados de apagamento, pois denotam certo descaso metodológico, pouco apuro técnico, baixa cientificidade, caraterísticas intoleráveis para um doutor de qualquer ramo.

(É curioso perceber, aliás que a denúncia destas práticas de apagamento estão claramente expostas no discurso de Tania Andrade em várias outras entrevistas. São firmes e elogiáveis as suas posições quanto a isto. É uma contradição incômoda esta, pois, o Tio não pode, de modo algum, atribuir ignorância à pessoa tão renomadamente douta).

Nestas lidas e relidas de teses, artigos acadêmicos e currículos de arqueólogos brasileiros (existem um dois argentinos conceituados nesta turma), o Tio pode até perceber que existem sim especialistas e teses menos vagas sobre o tema (arqueologia histórica de sítios onde houve presença africana no Brasil). Citei dois excelentes arqueólogos desta praia nos posts anteriores (Pedro Paulo Funari e Luiz Claudio Symanski).

Não há pois carência de dados historiológicos e pesquisas referentes ao tema para embasar pesquisa posteriores. Existem sim, com certeza – o que me surpreendeu bastante – bons elementos para se realizar na área do Museu nacional e do Iphan um excelente trabalho de pesquisa. Nem sei porque estes talvez melhores especialistas citados, aparentemente não estão envolvidos mais diretamente na pesquisa do Valongo que é, com certeza o mais importante sítio do ramo de toda a história do Brasil (mais ainda que Palmares, já praticamente destruído pelas retroescavadeiras).

Mas, dirão os mais crédulos: Ah! Relaxa , Tio. Foram afirmações soltas (as de Tania Andrade) genéricas para uma revista não acadêmica. Concordo. Deve ser isto mesmo, mas é difícil, admitam. Acredito enfim – e este será o tema do post seguinte (espero que seja o final) desta série – que há mais coisas soterradas nesta história.

Do que se pode apreender por tudo que foi ventilado aqui,existem dois agentes nesta história, uns mordendo outros assoprando,como se diz. Nenhuma ingenuidade reinante, os dois sabendo muito bem o papel que querem desempenhar.

Eles, os agentes deste caso macabro, de algum modo acordados – ou mancomunados em seus interesses, sei lá, depende do ponto de vista – são os arqueólogos e as autoridades da Prefeitura Municipal (e sua turma de empreiteiras e empresas de engenharia e arquitetura). No meio deles, como uma cunha incômoda, estão os ‘afro descendentes’ (como os brancos doutos dizem, com certo distanciamento) os que reclamam um destino histórico digno para os ‘seus’ mortos.

Destes, os ‘afro descendentes’e afirmo isto às minhas próprias custas e riscos – a exemplo da inércia dos ossos de seus antepassados, são o segmento mais despreparado e desorganizado para o embate que, com toda certeza virá entre procedimentos de Apagamento e de Revelação.

(Hora de ressalvar a parte mais cínica deste embate paternalista: Não existem, que eu saiba, praticamente, arqueólogos negros de renome no Brasil. Quem conhecer algum que me apresente. Tampouco existem funcionários negros entre as autoridades mais proeminentes da Prefeitura ou entre seus empresários, lobistas e empreiteiros.

Parece uma bobagem (ops!) esta constatação, mas lembrem-se: O passado africano a ser revelado pelas escavações NÃO interessa apenas aos afrodescendentes, interessa a todos nós. É complicado que não tenhamos interlocutores negros (independentes, isentos de compromissos com os interesses das partes associados em contrato) entre os que decidem as coisas neste assunto (e não estamos falando destas abnegadas e simpáticas mães de Santo de candomblé, um tipo de consultoria obviamente imprópria, inadequada e irrelevante neste caso).

Resquícios de racismo à parte, reflitamos também sobre a questão de fundo, o fulcro do problema: Os interesses da ‘Cidade Empresa’, a urbe capitalista (a quem esta arqueologia oficial – como veremos a seguir – presta serviços e deve satisfações) é, como se diz em grosso português, ‘passar o trator’ em tudo que atravanque o seu conceito raso de progresso à toque de caixa (2014 está aí, na nossa porta).

Por outro lado, os interesses do cidadãos (os ‘afro descendentes’ inclusos) é insistir, que se invistam verbas para escavar e limpar decentemente, à escova de dente e pincelzinho, além de sobretudo preservar um a um todos os ossos, objetos e artefatos de africanos dispersos pelo sítio, afim de revelar, meticulosamente o que se passou conosco, naquele ensejo cruel de desembarcar cativo, revelar de quem somos, exatamente, nós TODOS, os descendentes desta gente afinal, qual é de fato a história de nós todos, vítimas sobreviventes da maior iniquidade de nossa história.

E saibam que, vergonhosamente há um outro drama crucial embutido nesta história. É que ninguém sabe ao certo ainda – alguns nem mesmo querem saber – a extensão exata da área que contêm ossos e vestígios africanos soterrados na extensa área Valongo. Presume-se pela descrição de Paulo Fernandes Viana, funcionário da Corte de D.João VI que ordenou a limpeza do pântano (leia no link) cheio de cadáveres insepultos próximos ao Valongo, que a área seja bem maior do que a dos supostos ‘cemitérios dos pretos novos‘ referidos (o do Largo de Santa Rita – o original- e o do antigo Cminho do Cemitério, atual Rua Pedro Ernesto no atual bairro da Gamboa).

Até onde irá a vontade política de revelar toda a extensão do sítio em relação aos interesses de construir e reformar, maquiar esta parte da cidade para os eventos turístico esportivos que virão já já?

Aos mais atentos e interessados deixo então aqui, para uma conversa seguinte, uma pista (que não é, de modo algum uma insinuação, ressalvo) sugerida para a nossa escarafunchação final. É um conceito caro à arqueologia nacional que acabo de aprender. As palavras – para o bem ou para o mal – são de nossa principal agente arqueológica:

…Atualmente, cerca de 95% dos arqueólogos do Brasil trabalham com arqueologia de contrato. Grande parte dos sítios arqueológicos são descobertos ao acaso, em meio a uma construção ou uma obra.

Nesse caso, uma equipe de arqueólogos é contratada (daí o nome “arqueologia de contrato”) para promover um salvamento do sítio, caso ele esteja em destruição iminente.

Se não houver risco de destruição, o sítio deverá ser cadastrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para posterior pesquisa.

Então, entra o trabalho da arqueologia acadêmica. Na realidade, o profissional que trabalha por contrato passa mais tempo em expedições do que o arqueólogo acadêmico, justamente porque migra de um sítio ao outro.”

“Faltam arqueólogos no mercado, estamos sobrecarregados.” A frase de Tania Lima é confirmada por Pedro Paulo Funari que, em 2000, calculou em trezentos o número de arqueólogos em todo o país. “A arqueologia no Brasil é recentíssima, o número de arqueólogos profissionais reduzidíssimo e os centros de formação pouco numerosos” afirma.

(Importante frisar que quem ‘contrata‘ são as empresas empreiteiras que ganharam a concorrência para as obras.)

Os ossos falam” e como podem esperar, tranquilamente por quase uma eternidade, se não falarem agora, falarão depois. Podemos até criar uma ‘Comissão da Verdadecom eles, entrevistá-los, pois. Os ossos falarão.

Spírito Santo

Junho 2012

Anúncios

~ por Spirito Santo em 03/06/2012.

6 Respostas to “A Lama do Valongo e a arqueologia do Caô. Post # 03”

  1. Pois é, Paulo. A seara da cultura negra do Brasil sofreu um trabalho de apagamento e mistificação tão profundo e violento que tudo que se pesquisa fora do foco oficializado como ramerrão, os achados mais prosaicos viram novidade impressionante. Ando muito satisfeito com os resultados desta minha pesquisa, mas sei que ela só é inusitada porque a incúria oficial (inclusive a acadêmica) é enorme. Ao que parece tudo está para ser feito e teremos que empreender uma revisão profunda em tudo que aprendemos até aqui para vencer este nosso atraso.

    Grande abraço.

    Curtir

  2. Spírito Santo foi por acaso, vasculhando, como sempre, que encontrei o seu ‘linguagem, cultura e sociedade’. Confesso que estou impactado com sua reflexão a respeito dos ‘achados arqueológicos’ do Valongo. Fiquei muito sensibilizado e, como estou presentemente frequentando a Biblioteca Nacional, em pesquisa que relaciona ‘Literatura e Sociedade’, vou aproveitar para me enfronhar na sua linha de pesquisa e argumentação. Muito boa !

    Paulo Roberto dos Santos

    Curtir

  3. Merced,

    Sim, bem sei de sua luta. Eu a conheço desde o início, como você sabe. É por saber de tudo isto, da dimensão imensa do achado a dimensão minúscula, pífia do valor que as autoridades – inclusive a academia – deram a tudo isto que tento chamar a atenção das pessoas. Como disse no post inicial desta série, nunca tive coragem de visitar o museu, até a poucos dias atrás, mas nunca deixei de acompanhar o seu admirável trabalho, de respeitar, profundamente o seu esforço, quase solitário na preservação dos despojos dos ‘pretos novos’.

    Considero o sítio arqueológico dos ‘pretos novos’ um dos locais de maior relevância para a preservação da memória do Brasil e da humanidade, na qual a escravidão desempenhou, historicamente um papel crucial. Foi por conta dela, por bem ou por mal que a população brasileira se forjou como o que é hoje. Desgraçadamente um dos mais bárbaros crimes cometidos por nossa as vezes odiosa humanidade o que aconteceu aí (e na Ilha de Santa Helena na costa da África, disse eu mesmo há pouco) não pode ser esquecido, apagado, maquiado como querem alguns.

    Não podemos deixar de lamentar e de nos insurgir contra isto, as tentativas de apagamento desta memória, que até hoje, esta memória seja tratada com tanto descaso e desleixo por aqueles que mais deviam cuidar de preservá-la. É neste sentido que manifesto a minha indignação e a minha sincera solidariedade a você, sua família e seus colaboradores.

    Admiro profundamente o seu trabalho e – insisto em confessar – tenho muito orgulho em conhecê-la. me orgulho disto sim, muito, embora indignado com o descaso que predomina. Conclamo por isto mesmo a todos que se emocionem ativamente, participativamente com esta história de revelação da imensa iniquidade e covardia que os escravocratas de plantão, ainda hoje desejam apagar.

    Me disponho, pessoalmente a colaborar ativamente, da forma que me for solicitada, incondicionalmente para que se trate com dignidade e respeito que merece esta história tão particular e, ao mesmo tempo tão crucial para todos nós porque é essencial para a consciência de nossa nacionalidade.

    Posso adiantar a você que cumprindo a função que planejei para esta série de matérias que compartilhei aqui na internet já atraiu a atenção de grande número de pessoas, estou até empolgado com a possibilidade de atrairmos a atenção de mais e mais adeptos a esta causa que, infelizmente terá que ser tocada, de forma independente por pessoas de boa vontade como você, exemplo para nós todos.

    Emocionado abraço do,

    Spirito Santo

    Curtir

  4. Ola Boa tarde.
    Sou a Ana MAria De LA Merced… Gostaria de falar com voce sobre tudo isso e os 16 anos que luto pelo um achado importante o que foi o de minha casa, poderia ter ficado calada, mas, vendo aqueles esqueletos humanos, pior… crianças jogadas de qualquer maneira… tive que falar, tive que lutar para que essa história jamais seja esquecida.
    Espírito Santo só tem uma coisa… ao achar o cemitério levantou-se a história da região, ou seja… achar o cemitério foi encontrar o fio da história, mas em 1996 ninguém deu a mínima para isso tudo. Aos poucos fui encorajada por pessoas que de certa forma me ajudaram a fundar o IPN e até hoje luto pelos Pretos Novos.
    Gostaria que mais pessoas abraçasse esta luta, pois é imensa.
    Hoje parece que tudo é novidade… gente isso não aconteceu agora, essa historia toda é velha na academia, mas ninguem se importava.
    Bjs em seu coração.

    Curtir

  5. Acertou!

    Tenho documentos comprovando que pelo menos 500,000 Ovimbundus dos Planatos de Benguela foram levados para o Rio de Janeiro.

    A comunidade NAO deve esperar que intelectuais organizem debates sobre este assunto…tantas desqualificacoes e tantos mitos. Quando e’ que tudo vai terminar?

    A. Kandimba

    Curtir

  6. No meu caso, suposição absolutamente correta, Spirito Santo. Realmente não possuo qualquer formação especializada em matéria de arqueologia (ou “arcaôlogia”, que seja), não obstante certa inclinação em tentar compreender, numa perspectiva histórica, a própria cidade em que nasci. Nesse movimento, fui descobrindo – algo que, aliás, nunca aprendi na escola – a extrema importância da contribuição principalmente de bakongos, ambundos e ovimbundos (e, por extensão, do núcleo mesmo daquilo que acredito ser a cosmologia banta – mas talvez tivéssemos de falar mesmo é numa “cosmusicologia”) para a cultura fluminense e carioca, tema que infelizmente vejo ainda com muito pouco relevo (seria mais uma modalidade do nosso racismo institucional?) em nosso ambiente “acadêmico”. E digo isso, digamos assim, meio que “de dentro”, já que tive oportunidade de me graduar (bacharelado em filosofia) e me pós-graduar (mestrado em educação) na UFRJ.

    Enfim, haveria muito a dizer ainda sobre meu interesse pessoal (sobretudo por elementos da minha própria história familiar) pelas culturas bantófones (mais isso, quem sabe, talvez possamos deixar para uma cerveja). Já quanto a esse episódio específico do Valongo, o que deveria estar – e que efetivamente está – em jogo aí, sim, é o que concerne ao próprio interesse público: mas quem tem falado realmente em nome dele? E sobretudo com que quantidade e qualidade de investimentos? Com que “memória”, afinal? Particularmente, acho que esse é o verdadeiro coração da questão, Spirito Santo, especialmente no que diz respeito a aspectos tão bem identificados por você nessa série de posts.

    Mais uma vez, forte abraço!

    Pablo

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: