A Lama do Valongo e arqueologia do Caô – Post Final

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(Leia posts anteriores da série neste link, neste e neste outro)

Dentes esculpidos. Uma prática benguela

Na semelhança  impressionante entre os sítios arqueológicos do ‘Cemitério dos Pretos Novos’ e o ‘Slaves cemetery of Santa Helena island’ os dentes esculpidos, prática associada à africanos de alguma etnia na área do suposto Reino do Benguela é o dado mais impactante.

Do Porto do Valongo ao Cais da baía de Ruper na ilha de Santa Helena

 Os macabros cemitérios irmãos que gente bastarda não quer nem ver

(Antes de tudo surpreenda-se e saiba: O blog do Titio agora vem, de vez em quando, com Web Doc. incluído.  Assista aqui, com direção de José Carlos Soares, produção de Aline Rezende e assistência de produção de DJ Muhamed Malok o sensacional primeiro filme da série – ainda em versão demo)

O CAIS DO VALONGO:

Seguindo então…

Babalorixás visitam circuito da Herança Africana na Gamboa

O Sítio Arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, na Gamboa, vai ganhar pirâmides de vidro sobre as duas aberturas que deixam visíveis as ossadas dos escravos ali enterrados. A orientação partiu das babalorixás Mãe Beata de Oxóssi, Mãe Deuzita e Mãe Celina, sacerdotisas da religiosidade afrobrasileira em visita ao local. A sugestão envolta pela sabedoria espiritual foi imediatamente acatada pelas autoridades municipais, como o subsecretário do Patrimônio Cultural, Washington Fajardo, e Geovani Harvey, do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro. “

…E não é para menos, a presença das ilustres babalorixás se deu às vésperas do domingo das mães e do dia 13 de Maio, data da abolição da escravatura no Brasil. Para a nonagenária Mãe Beata de Oxóssi, o Cemitério dos Pretos Novos revive a história dos negros no Brasil “

Este é o pomposo texto oficial extraído do Portal da Prefeitura do Rio de Janeiro para os ‘momentosos‘ incrementos nas pesquisas arqueológicas do Cais do Valongo agora que as obras do Porto Maravilha atraem o olho grande de tanta gente graúda, animada com os milhares de turistas que virão para a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

_Uhlalá! O Rio civiliza-se!”_ diria o decano deste povo aí, o vetusto prefeito Francisco Pereira Passos (que Deus o tenha).

Para quem seguiu o Tio até aqui, a dimensão da promessa oficial, contudo além de piegas é pífia, diminuta mesmo, representando pouco mais que nada. Mesmo enganados pela pieguice, se esforcem e leiam de novo (bem que minha avó me dizia: Tem bobo para tudo neste mundo.).

Parece, mas não são pirâmides do Louvre isto aí não, esta “proposta cheia de sabedoria espiritual” (ui!), de modo algum é algo grandioso e digno como prometem. Gato por lebre, uma migalha, isto sim. Presente de grego.

Alguém aí já foi no Museu dos Pretos Novos? Pois então, senão, a hora é esta. A emoção que se tem ao entrar no lugar é pungente, aterradora, mas ao mesmo tempo é constrangida, dada a exiguidade, as dimensões diminutas do que é um recorte ínfimo do que deveria ser um sítio arqueológico daquela importância.

As aberturas com os ossos expostos a que a matéria se refere então…São mínimas, algo em torno de 1,5 m2 cada uma, o que daria pirâmidezinhas minúsculas – do tamanho aproximado de mesas de botequim – ridículas diante da dimensão gigantesca da área a que se refere o título “Cemitério dos Pretos Novos”.

Já nem falo muito da incrível, da acachapante humildade submissa das mães de santo em se prestar a um papel destes. Se é que é o caso, submissão não deveria ser coisa de ‘Mãe de Santo’. Está mais para coisa de… (com todo respeito – e de modo algum querendo ofender ninguém)…“Mãe Joana”, não aquela da casa bagunçada, mas aquela irmã do ‘Pai João’). Mas relevemos. Deve ser pura ingenuidade a atitude delas, simplórias orgulhosas de estarem sendo tratadas assim  com tanta – embora malandra – reverencia.

Mas vejam, não dá para aturar: Pirâmidezinhas para que, meu Zambi?

As aberturas já se encontram em local fechado e protegido: o cômodo de uma casa de dimensões também muito modestas, já que o museu é iniciativa pessoal de uma elogiável família que, praticamente às próprias custas, descobriu, divulgou, bancou e cuida há mais de 20 anos, praticamente sem o apoio de ninguém (alguns voluntários abraçam a causa, inclusive os abnegados já citados aqui, o historiador Cláudio Honorato e o arqueólogo Reinaldo Tavares) com total desvelo daquele que deveria ser o maior sítio arqueológico da história do Brasil, um dos maiores das Américas, no tema um dos maiores do mundo.

Vocês conseguem uma explicação plausível para este descaso histórico ocorrer? Falta de verbas? Hum! Garanto a vocês que as tais pirâmidezinhas não vão custar nem um décimo do salário mensal de qualquer uma daquelas autoridades ali presentes na ‘solene‘ (e cínica, quase humorística) cerimônia de legítimos ‘caras de pau‘ (caras de pau brancas sim, mas negras também, o que é pior).

Ah… E vocês fazem ideia de quanto estão custando as obras do Porto Maravilha, as reformas do cais do Valongo e suas adjacências, quanto a Prefeitura e as empreiteiras contratadas estão levando nisto aí? E o pior – cala-te boca – vocês sabem qual é a cota da rubrica, dos investimentos, grana viva, pois, prevista – e oficialmente garantida por lei – no orçamento geral das obras para os trabalhos historiológicos, as escavações suplementares à descoberta do ossos da casa de Merced (que são – é bom que se saiba – uma parte ínfima do ‘cemitério‘ geral) e a toda a pesquisa arqueológica em si?

Bem, espero que vocês já saibam – já disse isto aqui no post anterior – que as escavações e pesquisas nos sítios arqueológicos descobertos no caminho de obras públicas, de qualquer natureza, por lei, são bancadas sob o regime de contrato pelas empreiteiras envolvidas. Não sabem não? Pois fiquem sabendo agora. Pronto.

Isto não é nenhuma fortuna, mas nunca é também, garanto, exatamente uma merreca como se pensa. É uma percentagem bem razoável do valor geral da obra. O Tio sabe disto porque já trabalhou ‘sob contrato’ como consultor de cultura numa obra de contenção de encostas em favelas para o IEF (Instituto Estadual de Florestas), órgão do governo estadual do Rio. É assim que são tocadas as pesquisas em sítios arqueológicos no mundo todo.

Tive ontem inclusive, por intermédio de uma colaboradora do blog no facebook (‘Bete Scg‘) a incrível informação de que foi descoberto pelos ingleses agora mesmo, um sítio arqueológico, exatamente igual ao do Valongo.

Fica na Ilha de Santa Helena (certo! Aquela mesmo, onde esteve desterrado, caído em desgraça o arrogante Napoleão Bonaparte) Leia a tradução que o tio fez da matéria. Impressionante a semelhança, inclusive as que a gente apenas pode intuir, pois, não foram sequer abordadas nas pesquisas daqui:

The Guardian, Londres

Quinta-feira 08 de marco de 2012

Arqueólogos descobrem túmulos contendo corpos de 5.000 escravos em ilha remota.

Jamestown, capital da ilha de Santa Helena. Arqueólogos britânicos da Universidade de Bristol descobriram valas comuns na ilha.

Arqueólogos britânicos da Universidade de Bristol descobriram valas comuns na ilha de Santa Helena onde foram sepultados africanos que morreram sob custódia da Marinha Real a partir das primeiras décadas do século 19, depois de serem resgatados de navios negreiros apreendidos.

Os arqueólogos descobriram soterrados aí cerca de 5.000 corpos. As escavações começaram antes da construção de um novo aeroporto na ilha, revelando as condições dramáticas sofridas pelas vítimas do tráfico atlântico de escravos.

Os corpos foram encontrados na pequena Santa Helena, 1.000 milhas ao largo da costa sudoeste da África. Aqueles que morreram ali eram escravos resgatados de navios negreiros pela Marinha Real quando a Grã-Bretanha começou a suprimir a escravidão no Caribe. Muitos dos cativos morreram depois de serem mantidos em navios negreiros em condições precárias. Os demais moreram mais tarde, nos campos de refugiados nos quais foram instalados ao desembarcarem na ilha.

De acordo com o National Britanic Archives, entre 1808 e 1869 a Marinha Real apreendeu mais de 1.600 navios negreiros e libertou cerca de 150.000 africanos. A escavação, realizada antes da construção de um novo aeroporto na ilha, revelou estes horrores do tráfico atlântico de escravos.

A “Passagem do Meio” era o nome da etapa de uma rota tomada por navios de transporte de escravos da África para o ‘mundo novo’ (Américas). O tráfico de escravos era a segunda etapa de desta rota triangular realizada por navios europeus. A primeira etapa se caraterizava pelo transporte de bens manufaturados para a África, que seriam trocados por escravos. Em seguida, numa segunda etapa, os africanos eram transportados para as Índias Ocidentais e para o Brasil (e, até a abolição da escravatura em 1809, também para os EUA), os navios por fim cumpriam a terceira etapa do ciclo, levando matérias-primas das colônias para a Europa.

Especialistas da Universidade de Bristol lideram as escavações. Um deles, o professor Mark Horton, disse: “Aqui temos as vítimas da “Passagem do Meio” – um dos maiores crimes cometidos contra a humanidade…Estes despojos são, certamente uma das mais comoventes experiências que eu já vivi em minha carreira de arqueológo.”

Santa Helena foi, portanto o local de destino para muitos dos escravos tirados de navios negreiros capturados pela Marinha durante a repressão do comércio entre 1840 e 1872, quando a ilha se tornou a base para o esquadrão ofensivo montado pela Royal Navy contra os traficantes de escravos.

Durante este período, cerca de 26.000 escravos resgatados foram levados para a ilha, a maioria dos quais foi desembarcada em entrepostos na Baía de Rupert. As péssimas condições a bordo indicam que muitos não sobreviveram à viagem. O Vale de Rupert – um local árido, sem sombras e sempre com muito vento – era também inadequado para servir de campo de refugiados para tão grande número de pessoas.

Os arqueólogos da universidade, até agora descobriram 325 corpos em sepulturas individuais ou coletivas. Eles estimam que o sítio contenha um total de cerca de 5.000 corpos, mas parecem propensos a deixar a maioria onde se encontra. Horton observou que as escavações arqueológicas se limitarão apenas à área abrangida pela construção da nova estrada para o aeroporto.

Destes 325 corpos, apenas cinco pessoas foram enterradas em caixões – um adolescente e quatro bebês natimortos ou recém-nascidos. Os outros tinham sido colocados diretamente em covas rasas antes de serem rapidamente encobertos. Em alguns casos as mães eram enterrados com seus filhos. Dr Andrew Pearson, da universidade informou que 83% dos corpos eram de crianças, adolescentes ou adultos jovens.

Os mais jovens eram matéria-prima preferencial para os comerciantes de escravos, que selecionavam as suas vítimas entre aquelas com maior expectativa de vida.

A maioria das causas mortis não podem ser estabelecidas já que as principais – desidratação, disenteria e varíola – não costumam deixar traços patológicos. Os especialistas, contudo encontraram marcas do escorbuto em vários esqueletos e também muitos indícios de violência, incluindo a praticada contra dois homens que parecem terem sido baleados.

A equipe encontrou evidências também de que as vítimas eram de uma cultura muito rica, com um forte senso de identidade étnica e pessoal. Há numerosos exemplos de modificações dentárias, obtidas pelo estilhaçamento ou a escultura dos dentes da frente. Alguns conseguiram manter consigo itens como jóias, tais como contas e pulseiras, apesar de o processo físico de separação entre si e de seus pertences a que teriam sido submetidos logo após a captura.

Certo número de etiquetas de metal também foi encontrado nos corpos, o que sugere que eles eram classificados e identificados por nome ou número.

Foi por estas e outras que engasguei com aquelas pirâmidezinhas daqui, tipo ‘cala boca’ e não consegui segurar a língua. Não é de todo impertinente e injusta a minha indignação, contudo. Minha boca de velho cascudo não se calaria assim tão barato. Isto é dar espelhinho para índio em troca de ouro. Detesto pratos à base de sapo, ainda mais um cururu destes. Arghh!

Pois é.

Não seria o caso de alguma instancia idônea aí, de brancos ou de pretos tanto faz – e esta discriminação racial inaceitável me indigna, pois, insisto: a História d’O VALONGO não é dos pretos, dos ‘afro descendentes’. A história d’O VALONGO é de TODOS nós!- sendo assim não seria o caso de alguém exigir transparência neste assunto aí?

Sei que é temerário ficar lançando suspeitas e ilações por aí, mas me entendam: Vivemos num país de ética e transparência zero. Gente ‘171‘ dá em árvore por aqui. Quem prestará contas à sociedade das burradas e bobagens perpetradas pela ignorância ou pela esperteza de alguns neste caso aí, do Valongo? O que faremos quando os prédios e as calçadas da cidade modernizada para 2014 e 2016 já tiverem recapeado, sepultado de novo a maioria dos ossos e relíquias de tão intenso e importante passado?

Recorro sempre à amigos especialistas nestas horas. Eles me engolem cheios de reticencias, bem sei. É que são antropólogos, historiadores, doutores experientes, cientes das idiossincrasias e ‘saias justas’ da academia a qual pertencem (alguns são até famosos em suas áreas). Não estão muito dispostos a colocar a mão no fogo pelas furibundas afirmações ‘anti acadêmicas’ do Tio. Entendo a posição deles. Devem ter algo a perder.

O certo é que alguns – como o bom João Da Silva citado logo abaixo -sempre me socorreram com pertinentes explicações para estes enigmas todos, tão emblemáticos da incúria e da iniquidade de nossos modos de ser. Sabem como é: Os podres da elite, quando revirados fedem.

…Por isso mesmo tem tido grande impulso a etnoarqueologia de povos Indígenas atualmente, espécie de arqueologia histórica de povos Indígenas, baseada na tradição oral destes sobre seus antigos sítios de ocupação, etc.

Tirando isso, salvo engano, a arqueologia feita no Brasil (e arqueologia é cara, diferente d coisas como antropologia social por exemplo, que exige pouca grana pra fazer pesquisa) parece continuar meio restrita a resgates de edificações coloniais e coisas desse tipo, o que é claro não favorece em nada o conhecimento arqueológico da escravidão no Brasil.“

(João Da Silva, antropólogo, em conversa com o Tio pelo facebook)

E o Tio, comentando lá, depois de refletir aqui:

Entendi. Combinando: O recorte de nossa arqueologia é francamente racista (sim, pois, o elitismo dela é meramente circunstancial). E vejam, que, no ensejo cientificamente imperativo de estudar também os vestígios materiais dos ‘outros‘ povos (senão os da velha, caquética e recorrente arqueologia do passado europeu do Brasil) admitem, enfim pesquisar povos originários do período pré colombiano, mas o fazem ignorando renitentemente, completamente – como se, simplesmente não existissem – os povos todos oriundos da África e que para cá vieram, praticamente ao mesmo tempo em que os europeus. Não é isto mesmo?

E convenhamos, isto ocorre também, quase tintim por tintim, com a Antropologia, com a Etnologia e com a História acadêmicas, o mesmo vício recorrente, a mesma boca torta. Quando falam do negro, o fazem ‘cheios de dedos’, com nojinho metodológico, parcimoniosamente e, mesmo assim por meio de mistificações e tergiversações que mais omitem, falseiam do que revelam o que os vestígios e os dados registrados do passado gritam, esgoeladamente por aí:

_Nós, brasileiros, também somos negões! Também somos negões!Também somos negões! “

(E está aí mesmo a negadinha esquelética do Valongo que não me deixa mentir.)

O que me intriga muito, demais mesmo – e na verdade é a principal instigação desta série de posts – é que os responsáveis… técnicos pela escarafunchação do Valongo e outros sítios descobertos ou a serem descobertos no ensejo destas obras e maquiagens urbanas, têm curriculuns vitae de fazer inveja a sábio grego, de constranger ganhador de Nobel, super doutorados, mega laureados, super preparados, quem há de duvidar de sua sapiência?

(E daí vêm eles mesmos alegando a sua ignorância sem culpa, como se não fossem obrigados, por dever de ofício – doutores que alegam ser – a estudar e saber sim a arqueologia – ou a antropologia ou lá a área de estudo que seja – de tudo, todos e para todos. )

Me poupem destas abobrinhas mal recheadas.

Li vários deles, assim assim, folheando suas especialidades para escrever estas mal traçadas linhas. Há pelo que percebi, muita gente boa, séria sim, mas o que pontifica mesmo é uma casta de ‘bam bam bans’ com ‘Q.I.’, alguns poderosos sei lá porque cargas d’água, ligados aos órgãos federais mais incensados, todos eles mais ou menos que girando em torno daquela que parece ser a maior autoridade brasileira no campo da Arqueologia Histórica: Nossa personagem principal, desde o primeiro post desta série: Tania Andrade Lima (mui citada aqui – até demais, reconheço – por conta de sua própria alta e merecida notoriedade).

…Atua fundamentalmente na área de Arqueologia, com os seguintes focos: Arqueologia pré-histórica (complexidade emergente entre pescadores/coletores litorâneos), Arqueologia Histórica (vida cotidiana no século XIX), Teoria e Método em Arqueologia e Preservação do Patrimônio Arqueológico.

Foi vice-presidente (1997-1999) e presidente (1999-2001) da Sociedade de Arqueologia Brasileira, e professora de cursos de pós-graduação em diferentes unidades da federação (SP, RS, SE, GO, BA, MG).

É membro do conselho editorial de diversas revistas científicas no Brasil e América do Sul, consultora de agências nacionais e internacionais, membro de comissões e conselhos em universidades e órgãos governamentais. Recebeu, em 2006, a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Presidente Luis Inácio Lula da Silva em cerimônia realizada no Palácio do Planalto. )”

(Do currículo de nossa arqueóloga mor)

Hum… Pois vejam então este vídeo onde ela pontifica, do qual extraí,  dela mesma, a seguinte frase:

…Como não temos nenhuma familiaridade com o Candomblé, nós convidamos ialorixás que estão nos ajudando a interpretar este material. Segundo as ialorixás aqui nós temos um assentamento de orixá. Não sabemos que orixá se trata, mas elas, enfaticamente me dizem que estas pedras estão vivas e aqui tem um orixá e nós as estamos tratando de acordo com as instruções que elas passam.”

(Vejam o vídeo com a ‘tia’ Tania neste link)

Homessa! Será que sou eu o tolo irreverente, um chato recalcado perseguindo a douta? Leiam com o Tio então, em desencargo de consciência, as claras entrelinhas:

Para começar, não é admissível, não é justificável que uma arqueóloga, com formação suplementar em antropologia, segundo consta em seu polpudo currículo, não tenha, pelo menos alguma ‘familiaridade‘ com aspectos tão relevantes da cultura de seu país. Isto é inaceitável. Ou bem se é douto de verdade num assunto em que nos doutoramos, ou não se é douto em nada, em chongas.

Por outro lado, não me parece sério – na verdade me parece displicente até – transferir a responsabilidade técnica de um assunto tão complexo e específico como a arqueologia, para modestas mães de santo leigas totais, ingênuas absolutas nestas coisas de história e etnologia, informadas que são apenas pelas vagas e fragmentadas informações contidas, aqui e ali, na história oral de sua seita religiosa (uma entre tantas, já disse).

E os doutos todos sabem disto. Ah, sabem. E se sabem, qual é o projeto deles afinal, as intenções desta evidente ‘lavagem de mãos’, deste ‘‘empurrar com a barriga” quando o assunto diz respeito a negros africanos?

Neste mesmo sentido, tentando aprofundar um pouco mais, sob qual perspectiva metodológica, sacerdotisas de um culto religioso africano, deveriam ser especialistas na cultura, na história de um continente inteiro, de tão complexas e vastas características etnológicas?

Qual é critério enfim que justificaria a escolha deste tipo de desqualificada e impertinente consultoria, em detrimento de outras, considerando-se que existem no Brasil diversas fontes e especialistas no assunto, negros e brancos, inclusive no próprio âmbito profissional ou acadêmico da arqueóloga (quem leu os posts anteriores viu que já citamos aqui, enfaticamente pelo menos dois colegas da arqueóloga, muito conceituados experimentados neste tipo de pesquisa de sítios arqueológicos africanos)?

Isto é ou não é o que parece? Nem preciso dizer e cansado de argumentar me dou por sabido.

A volta de Ngonzo Dia Kimbangu, meu guru fantasma.

Nem bem rabisquei estas últimas tortas linhas e me vem voltando da bruma do tempo o meu amigo ectoplasma Sebastião Angola (Ngonzo Dia Kimbangu, como prefere ser chamado), ele que sabe tudo, de cor e salteado sobre a lama macabra que encobre este Valongo de tormentos mudos e insepultos chega cheio de si e de ginga.

Ngonzo (riso transparente, de banda, de sopetão, assim na lata, enigmático como jongueiro real, destes da roça):

_”Passarinho que come pedra sabe o cú que tem!” _

_Anh! O que disse? Perguntei aturdido, ainda sem saber de onde vinha aquela voz cavernosa.

Ngonzo:

_” Ngonzo tá a se referir à moça véia, aquela nhá dotôra dondoca, pescadora de caco de lôça, cheia das empáfia destas mais tola deste mundo. Podia ter parado pra ouvir os amigo de ocê, descido dos sarto arto das arrogança de sabe tudo tudim, pra dizê: Num sei. Preciso aprendê.”

_”Pois é, amigo. Deus não dá asa à cobra”_ Enfatizei, tentando enigmatizar meio como jongueiro também.

_”Entonces. Eu bem que podia dizer pra ela um dos segredo mais que segredado que os ossos do Valongo tem. Olha os dentes dos ôsso, moça! Olha os dente dos ôsso que tu vê bem de onde êis vêm, sô. Tá escrito lá é só saber ler. Pronto. Num disse. Se num digo pr’ela, que não merece nem quer saber, digo procês…”

E disse sim, tanto que posso dizer agora mesmo para vocês todos: Os dentes de muitos dos esqueletos do Valongo eram pontiagudizados, cuidadosamente como dentes duplo caninos, vários caninos duplos numa boca só, assustadores (veja a foto principal). Eu mesmo, agora que ele falou, me recordo que já ouvira falar disso ou li em algum lugar. Nem preciso me arvorar de procurar onde de tão evidente – e forense – que a prova é.

Isto! Eureka total. O povo africano que usava este prática de esculpir os dentes (costume que servia, dizem, para apavorar seus inimigos) era de alguma etnia da área do suposto Reino do Benguela. Sim. Estes eram conhecidos aqui no Brasil como ‘benguelas‘, com efeito. História oral, sabem como é, os doutos não consideraram relevante isto aí porque..porque… porque são cegos, ora. Ou burros.

A evidência contudo é muito pertinente e o Tio crê nela como prova cabal sim, doc. ‘escrito’, ‘esculpido em carara‘, da origem destas pessoas: A área do Porto de Benguela, Angola.

E não é? Lembrem aí: Como é que até hoje chamamos pessoas com dentes quebrados ou faltando aqui no Brasil? Não é de ‘banguela‘? De onde é que vocês acham que veio esta palavra, com este sentido? Do grego, do francês, do latim, do português?

E vejam o que é mais incrível: A maioria dos africanos que vinham esmulambados pela infame ‘Passagem do Meio”, os que chegavam no Cais do Valongo, ao que tudo indica, eram os mesmos que, interceptados no caminho de seu sequestro-calvário, desembarcavam na Ilha de Santa Helena, pretensamente libertados de um algoz, para morrer em campos de concentração, nas mãos do outro: os agentes da armada inglesa.

Os cemitérios irmãos do Valongo e Ruper Valey são então mais uma prova – entre tantas – de que o fluxo mais intenso de africanos para aqui e para a América Central, para o Caribe, para as Américas inteiras enfim, pelo menos por esta época que diz respeito a esta parte de nossa história, era mesmo de gente embarcada no Porto de Benguela, Angola.

Gente que foi para o Kalunga Ngombe, mas habita até hoje em nós.

_”Assentamento de orixá é o cacete! Sei lá o que havera de ser isto, o que isto quer dizer?”

Dito isto, Ngonzo riu de novo, escancaradamente e desapareceu da minha vista. Foi para a bruma de onde veio, mas sei que uma hora destas pode voltar. “Os ossos falam”, pensei lembrando, de novo, a frase clichê do filme de arqueologia forense da TV.

Acredite em orixá, no Candomblé – ou no que ‘falam’ os ossos – quem quiser. Quem não quiser…que vá estudar – ou que vá se ferrar – na paz de Deus.

Spirito Santo

Junho 2012

(Leia posts anteriores da série neste link, neste e neste outro)

Leia também mais e mais sobre o assunto em https://spiritosanto.wordpress.com/2012/09/22/kalunga-forever-o-cais-do-valongo-nao-pertence-a-rainha-ma/

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~ por Spirito Santo em 08/06/2012.

7 Respostas to “A Lama do Valongo e arqueologia do Caô – Post Final”

  1. Cristiane,

    Grato pelo comentário. Bem vinda ao clube dos sem direito à história. A costa do sudeste do Brasil, afora toda a nossa costa oceânica está coalhada de vestígios materiais da cultura indígena milenar que era a guardiã de nossa natureza exuberante antes dos brancos chegarem.

    Daí para cá foram séculos de soterramento, de ocultação. A presença de escravos africanos por aqui é um crime posterior cometido por eles, do qual também se incumbiram de soterrar e ocultar todas as pistas.

    Visto assim como crime, temos bem clara e medida a nossa justa revolta, a nossa exigência de que estas pessoas todas – principalmente os arqueólogos e antropólogos do Museu Nacional – assumam logo o dever que lhes compete (e para o qual se formaram às nossas custas):

    Fazer valer as leis de preservação de sítios históricos africanos e indígenas na costa brasileira e pararem de representar este papel imoral de intermediários dos interesses urbanísticos, turísticos e imobiliários dos brancos e sempre (eles inclusos), contra a memória de um passado de duras penas e grandes glórias que é de todos nós.

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  2. Achei seu link após pesquisas sobre os sambaquis do Cais do Valongo onde nós indígenas fomos descriminados por antropólogos, pesquisadores, direitos humanos, politicas de igualdade racial. Nos do “Raízes Históricas Indígenas” , estamos até hoje aguardando as pessoas acima citadas a nos procurar.

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  3. Pablo,

    Pois é. A saga continua. O veio desta pesquisa é infinito quase. Como disse abaixo, respondendo ao Paulo Roberto, a incúria é tanta que as novidades sobre estes temas, praticamente afloram da terra como os ossos dos escravos mortos no Valongo. Hoje mesmo, zapeando na internet aleatoriamente, descobri coisas mais impressionantes ainda sobre o tema que vão virar um próximo post.

    esta sua ideia é muito boa. Podíamos pensar num seminário sim, lá no Museu dos Pretos Novos, no ensejo deste lançamento. Vou falar com a Merced sobre isto, uma hora destas.

    grande abraço

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  4. Seria um enorme prazer te conhecer nesse lançamento, Spirito Santo! E de lambuja ganhar também teu autógrafo no meu exemplar de “Do Samba ao Funk …” ! Aliás, me pergunto se não seria igualmente interessante a realização conjunta de um seminário (ou vá lá coisa parecida, desde que “dissemine” mesmo) sobre todo esse episódio acerca do Valongo… e quem leu, nesse mesmo livro, o capítulo “Os nagôs e morte cultural dos bantu” saberá do que se trata…

    Abs,
    Pablo

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  5. Merced,

    Obrigado. Estamos às ordens sempre. É só convocar. Entre outras coisas podemos também planejar aquele lançamento do meu livro aí no museu.

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  6. Parabens pelo blog, gostei muito do que assisti e o que li.

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  7. Belo post, por falar em Benguela, achei uma bela ilustração do século 19 intitulada ´´Negros idolatras do reino de benguela´´:http://www.lookandlearn.com/history-images/XB089047/Idolatrous-Negroes-from-the-Kingdom-of-Benguela?img=0&search=Idolatrous%20Negroes%20from%20the%20Kingdom%20of%20Benguela

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