Vandré e seu Brasil-Pasárgada. Vamos simbora, gente!

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A ditadura em nós. Vento que venta lá, venta cá.

Acordei hoje assustado com tiros, 10 disparos de arma automática e um carro arrancando em disparada. Este tem sido o meu galo despertador, vez por outra, sitiada que está minha cidade por quase uma dezena de milícias armadas, ladrões de fardas estranhas e toucas ninjas. Imagino logo alguém todo ensanguentado, a cabeça dispara a pensar a coisas ruins. Pois bem, hoje pensei um medo inquietante do Brasil, pelo menos simbolicamente, se ensanguentar.

Ando seguindo as entrevistas do Geneton Moraes Neto feitas em 2010 para o canal GNT e reprisadas por estes dias. Assisti, atentamente, com as orelhas em pé ao depoimento de duas figuras chave da ditadura militar, o ex governador Paulista Paulo Egídio Martins, um dos líderes civis do golpe, com difusas ligações com a ‘Oban‘ (Operação Bandeirantes), organização que financiava os militares torturadores e o general do SNI Leônidas Pires Gonçalves. Ambos se disseram ‘revolucionários‘ autênticos traídos por golpistas cruéis, mas estiveram, claramente ligados, de algum forma à célebres e covardes assassinatos da ditadura.

O que me assustou – e já manifestei isto aqui – no entanto não foram as lágrimas de crocodilo deles. É que ambos, de forma muito semelhante fizeram questão de frisar que o Lula – sim, ele mesmo – não era um esquerdista comunista como os outros, que ele Lula era um honesto adepto do sindicalismo ‘puro‘, aquele decente, temente e obediente à lei. Hum…Maldei.

Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, que não pode ser…”, como sempre, vão me achar um blasfemo, um iconoclasta fóbico, estas coisas aí, mas maldei sim. Fazer o que? Sou filho de mineiro. Sou cismado assim desde criancinha.

Tem também uma parte do depoimento do general na qual ele dá a entender que, logo após a morte de Tancredo Neves, os mais importantes políticos da República, todos eles concentrados numa sala do Hospital de Base, receberam a orientação (a ordem, em outras palavras) dele, o general do SNI, de que quem teria que assumir a presidência tinha que ser o quase vice José Sarney. O general falou e ficou falado. Fez questão dar a entender na entrevista que quem ainda dava cartas ali era o exército da ditadura.

Me lembro que constitucionalistas na época debateram o assunto na imprensa estranhando. Afirmavam eles: se o presidente não havia tomado posse do cargo, tampouco haveria ainda um vice empossado e o poder deveria recair, legalmente sobre o presidente da câmara que teria que convocar novas eleições que, aí sim, seriam diretas. Seria esta ameaça, o risco a ser a todo custo evitado?

Bem, só se sabe que, a troco sei lá de que, José Sarney anda por aí mandando e desmandando na República até hoje, certo?

Em tempos de Mensalão e impunidades gritantes, com o que parece ser uma quadrilha nacional instalada e se agitando acintosamente para melar o julgamento, chantageando até juízes da nossa corte suprema. Assistindo ao mesmo Lula de lá exercendo a função de bulldog e porta-voz destes mensaleiros todos, desfilando com o Cabral da Delta de carrinho de golfe, inaugurando obras olímpicas sabe-se lá à título de que, me deu, de novo aquele medão, aquele aperto no coração.

Pau de passarinho. Aquele herói da pátria de lá, abraçado aos bandidos mais sujos e canalhas de cá?  Ma che?!

(E não me venham cobrar nomes de ‘outros partidos’, esse ou aquele, na longa lista de canalhas da nova República. Aqui não é um ‘Big Brother’ de bandidos, não é uma gincana de ladrões.)

E se desde lá, do tempo do finado Tancredo, a nossa democracia não passar de um acordo de cavalheiros sórdidos, por debaixo dos panos e os presidentes de um ou outro mandato, destes últimos aí, forem pinóquios de gravata, bonecos de ventríloquo, pau mandados, tutelados, com a função de manter tudo como dantes no quartel de Abrantes? E se a ditadura tiver se tornado discreta, porém eterna e estiver, sub-repticiamente residindo em nós?

E se a caixa de pandora preta do julgamento do mensalão escancarar alguma verdade suja proibida, daquelas intoleráveis, que ‘eles‘ não podem deixar que seja revelada de jeito nenhum?

Ontem foi dia da pungente entrevista do Geraldo Vandré. Tornado farrapo humano pela ditadura por ter composto uma ingênua canção que virou hino contra a opressão. Meio louco, lesado, meio lúcido e assustado ainda, Vandré reforçou o medo em mim. O grande compositor de “Disparada” uma das canções mais belas da música popular do Brasil, inativo desde lá, se diz asilado até hoje, vivendo num BrasilPassárgada – como disse o Geneton : num país de um habitante só: Ele, Vandré.

Me assusta sim a guerra implacável que ‘eles‘ fazem hoje contra o julgamento do Mensalão. Vociferam apavorantes “Não passarão! Não passarão!“. Hum! O que haveria de tão terrível a ser revelado? Medo das urnas não é. O povo eleitor não se importa com isto, com esta coisa de justiça, ética, etc. O povo eleitor é amante fiel, cego e mudo de quem lhe dê alguma migalhazinha. Vão lá no Maranhão só, pra ver. O Brasil é um grande Maranhão, o Maranhãozão, não notaram ainda não?

Teoria da conspiração? Sei não. Um Hugo Chavez lá, uma Cristina Kirchner ali… gente ‘deles‘ passeando em Paris, casando em castelo europeu. É. Assim que der vou guardar uma poupançazinha. As barbas já estão de molho. Estou muito velho para confiar, de novo, neste pessoal.

Sou gato preto escaldado. Fui preso por esta mesma ditadura aí numa noite chuvosa no fim deste mesmo 1968, esta mesma época aí de tanta insanidade (sorte que de noite sou pardo).

Se o tempo fechar vou me mandar para uma Pasárgada destas da vida, feito a do Vandré, aposentar as minhas mágoas que não são muitas, mas também são de doer, de lesar a alma e o já idoso coração.

Spirito Santo

Junho 2012

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~ por Spirito Santo em 10/06/2012.

3 Respostas to “Vandré e seu Brasil-Pasárgada. Vamos simbora, gente!”

  1. É o que digo há algum tempo: pra bom entendedor, meia palavra é só meia palavra. Cavalo sempre ao alcance do assovio diria Zorro pro Tonto. Bala de prata é que mata lobisomem, caro amigo. E tal munição é sempre escassa.

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  2. Entendo então, por isto mesmo – ainda mais vindo de vossa senhoria, aí de dentro do PT – que devo mesmo, mais que nunca, manter as ralas barbas de molho e a montaria selada.

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  3. A decisão dos “próceres da república” de acatar a palavra de ordem do ditador Figueiredo muita se assemelha a de Jango em 1º de abril de 64. Golpe dado, a ele não resistir., que se esboroara o esquema militar que lhe sustentasse, rewstando o III Exército e Brizola.
    No episódio seguinte, Sarney não era vice, porque Tancredo não fora empossado.
    Tornou-se presidente a mando do soldado.

    Outro capítulo, entanto, amigo, é a linha direta que fazes das consequências desde lá, que tem os nomes, mas não tem as políticas, que são, sim, distintas e, algumas vezes, contraditórias, principalmente na economia, ainda que não sejam as do sonhos de quaisquer gerações de revolucionários, à direita e à esquerda. Assim não fosse, não haveria o onipresente Zé Chirico Serra, nem Veja-FSP, em dobradinha, vez por outra triangulando com a Rede Globo.

    Lula é também capítulo outro: a maioria que sempre se articulou em torno dele no partido nunca encaminhou programa sequer democrático-popular, ficou somete no popular mesmo. A esquerda nova ou clássica foi e e uma expressiva minoria no Partido dos Trabalhadores.
    Em linhas gerais, no conteúdo principal, pleno acordo. Saúde!

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