Cachimbos do Valongo – Preto Novo, Preto Véio – Na pista a busca do lenitivo da dor

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Do cachimbo do preto novo ao ‘pito’ do preto véio

Cachimbos africanos, quem haveria de saber o tanto de segredos que eles contêm? A chama do fumo em brasa deles já me acendeu muitas centelhas de curiosidade na vida como pirilampos numa selva de cheiros e assombrações, estas coisas invisíveis aos olhos mais distraídos pela escuridão.

Tenho, curiosamente, pelo menos duas histórias estranhas com cachimbos. E olha que tem um tico que seja de africanidade nelas. É só ler pra crer.

De uma vez, sem que nem porque, uma vizinha macumbeira, vendo sei lá que alma buliçosa em mim, me mandou entregar um cachimbo destes comuns, vendidos em tabacarias, de formato europeu, com a seguinte mensagem que a minha mãe, macumbeira de fé também me repassou, com o ar mais grave deste mundo:

E eu, ateu fanático, já àquela altura metido em livros de Marx que mal entendia o que diziam, pensei cheio de empáfia:

_ E eu lá tenho estas coisas, estes alter egos do outro mundo?”

Mas não foi assim. Intrigado, foi mais agradecido do que gaiato que recebi o mui estranho presente. E olha que nem foi a única vez. Já até contei aqui: Recebi lá para outras tantas, de novo, um presente destes de fumar muito semelhante ao outro, de uma persona também macumbeira, em outro lugar nada a ver com o primeiro, mas com idêntico:

_Seu Tranca Rua das Almas mandou chamar êie (eu) lá em cima”_dizia o recado.

Desta vez o Exu tinha até identidade e um outro jeito de queimar tabaco também, pois o que me deram na mão, foi um charuto imenso, meio cubano, um ‘havana‘ sei lá, que eu nem mesmo me fiz de rogado em fumar, sofregamente, em longas baforadas, com jeito de cambono profissional – até traguei, juro! – batendo um ponto lá, muito doido, sei lá qual, num atabaque que me deram, junto ao meu incorporado anfitrião que me embebedou do wíske vagabundo que bebia no gargalo.

_”Vai misifio! Bate aí este tambor, homi!”

Nem ligo. Não creio tanto, que transito numa boa nestas coisas místicas todas, feliz de poder experimentá-las assim tão hospitaleiramente convidado.

Foi isto mesmo que fiz com o cachimbo: Comprei um bom fumo barato, mas de marca e o fumei, fazendo pose – coisa que suburbano adolescente faz como ninguém – mais de intelectual alemão do que do ‘Seu Tranca Rua’ afinal,um marginal prosaico demais para a crença de quem iria em breve se lançar na tentativa de salvar o mundo de todo o mal capitalista entranhado nele, como se arranca de alguém, uma alma do mal qualquer, de um corpo que não lhe pertence.

Pois é. Lembrei disto tudo agora lendo e vendo coisas sobre os cachimbos africanos que sei terem sido achados ali no Porto do Valongo, no Santa Helena island cemetery e em tantos cemitérios de escravos que estão sendo encontrados por aí.

Cheguei mesmo a ver ditos cachimbos destes num vídeo, orgulhosamente mostrados pela arqueóloga chefe da equipe que os encontrou aqui no Rio, pouco tempo atrás. Ela até diz no filme, naquele tom vago e reticente que carateriza a fala dos doutos brancos quase todos, quando o tema é a África soterrada aqui e ali por este Brasil:

_São cachimbos antropomórficos, como dizemos, com formas humanas…”

Foi daí, olhando aquelas carinhas ocas, prontas para serem abastecidas de fumo, mas curtas demais para serem mesmo fumadas assim, que o led de minh’alma piscou piscou e ligou o barco à motor deste post que – não tem jeito – vai ter mesmo que entrar, de novo, mar à fora por aí, do mesmo jeito que toupeira sabida entra terra a dentro, fuçando tudo que lhe atravanca o caminho até o quentinho do fim do buraco.

Vão vendo aí:

Tabaco em Wikipedia:

O tabaco foi trazido para a Europa, onde se veio a tornar muito popular, pelos espanhóis no início do século XVI. Antes disso era apenas encontrado na América, onde já era usado pelo nativos americanos. Era mascado, ou então aspirado sob a forma de rapé (depois de secar as suas folhas). Em 1561, Jean Nicot (de onde deriva o nome da nicotina), embaixador francês em Portugal, aspirava-o moído (rapé) e percebeu que ele aliviava suas enxaquecas. Desta forma, nesse ano, enviou sementes e pó de tabaco para França, para que a rainha Catarina de Médicis, o experimentasse no combate às suas enxaquecas. O corsário Sir Francis Drake foi o responsável pela introdução do tabaco na Inglaterra em 1585, mas o uso de cachimbo só se generalizou graças a outro navegador, sir Walter Raleigh. “

Sabiam disto? Não da origem indígena do hábito de inalar tabaco, já que isto é havido e sabido, afinal, a gente aprende isto no ginásio. Falo desta coisa aí de curar enxaquecas. Pois é. Guardem bem esta informação porque ela é a chave desta história.

…O tabaco foi introduzido na África pelos europeus no século XVII. A prática parece ter sido muito bem estabelecida por esta época nas Áfricas ocidental e central. Seu cultivo foi observado em Serra Leoa já em 1607. Em 1611 um cirurgião suíço registrou em suas anotações que os soldados do Rei do Kongo aliviavam a fome por meio da trituração e da combustão de folhas de tabaco ” de modo que a fumaça forte produzida pudesse ser inalada” .

(Aliás, falando em Rei do Kongo,“Cachimbo” deriva do termo quimbundo kixima. “Pito” deriva do tupi petï’ar, “tomar o tabaco”.)

Rainha Jinga fuma cachimbo

Rainha Jinga fuma cachimbo, pintada pelo padre Giovanni Cavazzi no século 17.

…Ah bem! Pelo menos isto, alguma negritude nesta suposta invenção branquela, já que indigenice da coisa já estava estabelecida desde o início.

E isto aí do cachimbo ser uma coisa inventada pelos europeus? Sabem toda aquela nossa mística do preto véio africano fumando o seu cachimbo ancestral, desde o Egito antigo, desde tempos imemoriais? Pois é, sinto muito ter quebrar mais este mito de nossa negritude, mas podem apagar isto aí também.

Pode ser que um dia alguém corrija esta história,e nos venha com uma gravura rupestre ou uma iconologia destas qualquer que prove que o homo sapiens (o homo africanus por suposto) já usava um tubo de osso, um troço destes qualquer para não queimar o beiços ao fumar, mas por enquanto, a verdade é esta aqui: Cachimbar é mais uma prática urdida naquele século paradigmático que foi o 16, os europeus invadindo as antes insondáveis periferias transatlânticas para conspurcar a nossa velha e boa selvageria, pegando para si a parte boa de nossas culturas (boas para eles).

Cachimbar é, portanto um modo ‘civilizado‘ de fumar, se intoxicar, se endoidar, se drogar de fumaça, se acalmar, enfim.

Tabaco e cachimbos: Áfricas ocidental e central.

…Logo após a sua introdução o tabaco tornou-se uma mercadoria muito apreciada pelos africanos. A partir de meados para final do século XVII ele já era um dos bens comerciais europeus mais utilizados como moeda de troca na compra de escravos.

A maior parte do tabaco trazido pelos europeus para a África, era destinada para compra de escravos, mas uma parte considerável, provavelmente a de qualidade mais inferior, que os franceses chamavam de “tabaco de cantina”, também era distribuída aos cativos a bordo dos navios negreiros.

E é aí que o drama começa a nos arrepiar.

Pelo que está dito pelo Jerome Handler S., autor deste iluminado texto do qual pinço alguns trechos aqui e ali, se pode supor então que os africanos, praticamente não fumavam antes do início da incrementação do tráfico negreiro (século15), pelo menos assim habitualmente, como uma prática cultural recorrente como imaginávamos.

Na verdade depois de capturados, ofendidos, vendidos como qualquer mercadoria, em troca seja do reles tabaco, ou do açúcar, ou de especiarias da Índia, da China, coisas manufaturadas na Europa enfim, eles eram ‘fumados‘, consumidos pelo fogo da servidão, como aquela fumaça que inalavam para esquecer suas agruras (‘amainar as enxaquecas’, lembram da chave do tema que eu sugeri que anotassem?).

(Poesia numa hora destas? Está bem:Vamos dizer no curto e grosso então, sem frescuras ou analogias poéticas:)

O hábito de fumar tabaco, segundo esta pesquisa e como já sabíamos, foi disseminado então pelos europeus a partir da invasões no Novo Mundo. O que não sabíamos, sequer imaginávamos era que após ser introduzido na África, após a sua inserção como mercadoria na cadeia econômica instalada pelo comércio de escravos, o fumo passou a ser consumido por uma elite africana até se ‘popularizar‘, quase que como uma droga destas modernas e ser usado como uma espécie de Rivotril (ou um Diazepam) colonial, com a função de acalmar, mitigar a dor dos cativos na lúgubre travessia da Passagem do Meio.

E o tema vai ficando mais instigante ainda quando nos deparamos com informações como esta aqui abaixo, pinçada num site de arqueologia daqui mesmo do Brasil, lugar onde, como sempre o Tio sempre repete, os doutos são via de regra desatentos a estas afro recorrências:

Oi, tudo bem?

Recentemente fizemos um trabalho no norte de Minas Gerais, mas precisamente no município de São Romão, região de Montes Claros.

Os documentos históricos dizem que a região era habitada por Caiapós. Inclusive em uma ilha com a denominação “ilha caiapós”, e também, na margem do continente, foram encontrados cachimbos de cerâmica. Eles tem rostos, são antropomórficos. Parece também que foram feitos com moldes. Queria saber se alguém já viu algo parecido ou poderia me dar alguma informação a respeito. Seriam indígenas mesmo? Por serem feitos com moldes, me fazem pensar que já são da época de contato.

A cidade é antiga, é de fins de sec XVII e inicio do XVIII e foi “fundada” justamente após o massacre dos caiapó.

Agradeço enormemente se alguém puder dar alguma contribuição.

Um grande abraço

Fabio”

Êpa! Cachimbos antropomórficos em Montes Claros, MG? Mas porque cargas d´água eles haveriam de ser indígenas, meu Deus? Bem, esqueçam o apriorismo da ‘boca torta’ de nossa arqueologia em seu renitente vício indigenista. Já falamos disto por demais. Vamos raciocinar juntos então, friamente apenas sobre os dados disponíveis:

Cachimbos de escravos achados no Valongo

Tania Andrade e os cachimbos de escravos achados no Valongo

Cachimbos antropomórficos, provavelmente feitos em série (moldados) foram achados numa cidade brasileira datada do século 17 em Minas Gerais, estado onde como bem sabemos foi maciça a utilização de trabalho escravo. Cachimbos antropomórficos (provavelmente também feitos em série – e, talvez do mesmo modo moldados – segundo o vídeo que assistimos no Youtube) foram encontrados no Cais do Valongo e na Ilha de Santa Helena(estes, como já abordamos em um post anterior, seguramente em muitos casos, moldados).

Mas eis que, pelo menos um arguto arqueólogo socorre o Fábio com uma informação surpreendente (para eles, o intrigado Fábio incluso):

Oi Fábio,

Não sou especialista em cachimbos, mas todos que vi com a descrição que vc fez (antropomorfo e moldado) são do período histórico e associados a comunidades negras na sua maioria, mas não todos.

Os cachimbos de origem indígena que conheço para região são tubulares e sem decoração e foram encontrados em contexto cerâmico.

É preciso ver o contexto e mesmo assim ponderar.

Sem ver a foto fica um pouco difícil mas até onde sei a probabilidade maior é de que não seja indígena.

Adriano.”

Mas é bingo para o Adriano sim. De posse de muitas fotos e outras referências de fora do Brasil, a única analogia possível, com toda certeza é a de que estes cachimbos podem ter sim alguma relação com a população escrava e, mais ainda, muito a ver, diretamente com o tráfico de escravos. É curioso demais, contudo o fato destes cachimbos tão relacionados como vimos à travessia de escravos no Atlântico, nesta mesma época, terem sido achados numa cidade tão longe do litoral.

…Os cachimbos europeus (com canos curtos fixos) negociados foram durante muito tempo os mais comuns, contudo os registros costumavam mencionar também os “cachimbos curtos” (sem canos) às vezes conhecidos como “cachimbos de escravos.”

Na carga de oito navios holandeses escravistas, por exemplo, de uma amostra de 15, durante o período de 1741-1779, os registros mostravam que tabaco ou cachimbos – um ou outro ou mesmo ambos – foram destinados para serem usados por escravos a bordo dos navios. Destes cachimbos, os registros chegavam a distinguir os “Korte pijpen” (cachimbos curtos) dos “Lange pijpen” (cachimbos longos)…”

Estes cachimbos eram frequentemente curtos recipientes de barro chamados de “curva do cotovelo” ou “cotovelo”, providos de um tubo oco suplementar, de madeira ou de junco que neles era inserido resultando por vezes em cachimbos de grande comprimento…”

(“Aspectos do comércio atlântico de escravos: Cachimbos, tabaco, e a Passagem do Meio”/Jerome Handler S.)

O fato de os cachimbos serem inegavelmente moldados por sua vez, é uma prova a mais de que eles eram mesmo feitos em série, de maneira quase industrial, para serem vendidos e utilizados em massa, à bordo dos navios negreiros como vimos, como lenitivo às mágoas dos cativos. Jerome Handler S. atesta este fato para nós de forma cabal:

Na carga de produtos comerciais em um navio negreiro dinamarquês na década de 1770 estava incluída 30 dúzias “cachimbos longos” e 90 dúzias de “cachimbos de escravos”, os primeiros com maior valor monetário que o segundos, pelo que nos conta Jean Barbot, agente para o empresa Real francesa na África, que relatou também que em uma viagem de um navio negreiro em 1698-99, entre refeições eram ocasionalmente servidos aos homens “cachimbos curtos e tabaco para fumar no convés, num sistema de turnos” .

Estes cachimbos “curtos” ou “cachimbos de escravos” como eram conhecidos não são descritos em qualquer fonte primária ou secundária de que tenho conhecimento, no entanto, eles poderiam ter sido cachimbos africanos do tipo “curva do cotovelo”, copiados por europeus e fabricados semi industrialmente (por meio de formas, inclusive: Nota minha) especialmente para servirem ao comércio de escravos. Ian Walker conta que um fabricante de cachimbos de origem alemã se estabeleceu em Copenhague em 1762 e continuou a fabricar cachimbos assim ao longo de todo o século 18.

Este fabricante produziu vários tipos de cachimbo, incluindo aqueles com hastes longas. Os cachimbos de hastes longas também foram feitos nos Estados Unidos, e Walker sugere que este estilo “pode ter atendido, particularmente o gosto dos africanos ocidentais já que tinham uma forma básica que se assemelhava às formas nativas de cachimbos africanos”.

“…Seja qual for o caso, é bastante evidente que cachimbos fabricados na Europa, de hastes longas ou curtas, foram negociados na costa da África para serem usados por escravos durante a travessia.

Além disso, cotas de tabaco eram, ocasionalmente distribuídas aos cativos a bordo dos navios negreiros, enquanto os navios aguardavam na costa africana, às vezes por muitos meses, para completar a sua carga de cativos. A distribuição de tabaco e cachimbos, era contudo, muito mais comum durante a travessia do Atlântico. “

(“Aspectos do comércio atlântico de escravos: Cachimbos, tabaco, e a Passagem do Meio”/Jerome Handler S.)

Cachimbo Kuba, Republica Democrática do Kongo

Cachimbo Kuba, Republica Democrática do Kongo

Tabaco, cachimbos e a Passagem do Meio

E é Jerome Handler S.– traduzido pelo Titio – quem prossegue:

…O que motivava os traficantes de escravos europeus a distribuir cachimbos e estimular o tabagismo entre os cativos era o mesmo que os levaram a distribuir contas e tolerar jogos de tabuleiro a bordo os navios…”

Embora às vezes, ingenuamente considerada como prova de humanitarismo os traficantes de escravos europeus com esta prática estariam sendo na verdade apenas pragmáticos já que, aparentemente acreditavam que tais medidas seriam úteis em seus esforços para controlar a escravaria e evitar ou minimizar distúrbios sociais e insurreições ou, até mesmo colocar os escravos num estado de ânimo melhor e mais tranquilo antes de serem vendidos ou transferidos de um porto para o outro.

Segundo Handler, conforme foi descrito por um funcionário da Companhia Real inglesa na África, por exemplo, “uma carga típica de provisões para embarcações que transportariam escravos, ao deixar o porto de Londres para seguir para a África durante a década de 1720, incluíam diferentes gêneros alimentícios e outros, entre os quais sempre havia uma carga de tabaco e de cachimbos para utilização por um número estimado de 200 cativos durante a Passagem do Meio”.

…O capitão William Snelgrave (1734:163), descrevendo suas viagens ao Índias Ocidentais Britânicas entre 1727 e 1730, informou que: “a cada manhã, os escravos eram servidos com cachimbos e tabaco, coisa a que são muito apegados”. Em 1768, o navio negreiro dinamarquês, Fredensborg, numa prática considerada de rotina a bordo de navios dinamarqueses, distribuía uma cota semanal de cachimbos e tabaco para os escravos adultos.

A distribuição de cachimbos e tabaco para adultos, tanto do sexo masculino quanto feminino pode ter ocorrido mais regularmente por escravistas em navios britânicos na segunda metade do século XVIII, em particular durante o período em que as críticas do comércio de escravos se intensificaram e mais e mais vozes britânicas clamavam por abolição. “

…Seja qual for a frequência da distribuição, a nação transportadora ou formação cultural do comandante de navio, ou mesmo o período de tempo, não existem dados sobre se o escravo era permitido manter os cachimbos que receberam a bordo dos navios negreiros. As hipóteses mais prováveis são as de que os cachimbos eram sempre recolhidos pela tripulação do navio, após cada utilização, para serem reutilizados em outras ocasiões.

No entanto, isto não exclui a possibilidade de que, ocasionalmente, um cachimbo ou outro pudesse ser roubado e escondido quando o cativo já estivesse desembarcado em terra.

Embora a grande maioria dos cachimbos tenha sido fabricada por europeus, os cachimbos de barro utilizados por homens e mulheres escravizados no Caribe e Norte América, provavelmente foram obtidos na América mesmo, pode ser que um cachimbo ou outro tenha sido, ocasionalmente trazido por algum africano cativo, através da Passagem do Meio para, finalmente encontrar o seu lugar de descanso final, geralmente como um fragmento de recipiente de barro ou caule de junco, em algum sítio arqueológicos do Novo Mundo…”

(“Aspectos do comércio atlântico de escravos: Cachimbos, tabaco, e a Passagem do Meio”/Jerome Handler S.)

E esta descoberta fortuita é um dos lados mais cruéis desta execrável história.

O fato é que, ressalvando-se que o uso de fumo nos navios negreiros tinha finalidades claramente ‘psicoterapêuticas”, não se tem a menor ideia sobre que tipo de fumo se usava nestas circunstancias – e ressalvo aqui também que, embora não descarte a possibilidade, não se achou referencia alguma ao consumo de maconha nestas travessias.

Mal comparando o fumo passou a ter então uma serventia parecida com a do consumo de crack nos jovens e crianças embarcados na roda da morte das grandes cidades do Brasil de hoje em dia (e vejam que tragédia e a iniquidade perpetuadas: ‘pretos novos’ que são, até bio tipicamente as vítimas de hoje são as mesmas do século 17).

O dado é instigante porque muda tudo no enfoque de alguns sobre os achados arqueológicos mais recorrentes que reportam o achado de cachimbos em ‘cemitérios‘ de escravos, notadamente os do Porto do Valongo no Rio de Janeiro e da Ilha de Santa Helena, na costa africana.

Cachimbo Kuba

Cachimbo Kuba. República Democrática do Kongo

É. Parece que foi exatamente isto que ocorreu por aqui e em todos os sítios onde estes cachimbos, vão sendo enfim encontrados. Testemunhas da tragédia do sequestro transatlântico de pessoas indefesas, o inusitado enigma guardado por estes cachimbos de barro por tantos séculos vai sendo lentamente assim, revelado, queira ou não queira a nossa vã – e por isto mesmo quase irrelevante – arqueologia nacional.

Sempre que meus olhos esbarrarem agora com um quadrinho tosco daqueles pretos velhos de cabelos encanecidos, como se diz, pitando o seu cachimbinho, vou me lembrar desta história inquietante. Eu mesmo preto véio que, de certo modo também sou, me lembro até hoje muito bem o quanto de paz interior aquelas bestas cachimbadas juvenis me inebriavam a alma.

_” Vai, anda, misifio! Homi que é homi num chora. Vai! Toca mais forte este tambor aí pros Preto Novo morto no Valongo, na Santa Elena, e neste canto tudo aí, descansá em paz! Vai! Toca aí, sô!”

Spírito Santo

Junho 2012

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~ por Spirito Santo em 20/06/2012.

4 Respostas to “Cachimbos do Valongo – Preto Novo, Preto Véio – Na pista a busca do lenitivo da dor”

  1. Rs, rs rs rs!…Conhece o ditado não? “Quem tem perna curta sai na frente”.

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  2. porra… cê já tá lá na frente na discussão… vou ler com calma mais tarde…

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  3. E num é? O véio chega tá ardido…

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  4. I assim nós vai levando fumo inté hoje……….

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