Memória do Jongo. Sopro que aviva fogueira é fogo que faz ventar


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Memória do Jongo. As gravações históricas de Stanley J. Stein.

“…Memória do Jongo coloca ao alcance do público um material sonoro inédito. E outros quatro artigos ainda contextualizam a pesquisa, a história e os significados do jongo.

…Foram várias entrevistas que, lamentavelmente, acabaram extraviadas. Restaram algumas gravações, feitas com antigas bobinas de arame, esquecidas pelo autor. Estas gravações foram empregadas na tese de Stanley, em 1957, numa época em que a vidadas pessoas mal era observada por tal técnica.

…O historiador Gustavo Pacheco conheceu Stanley. Desse contato, foi retomado o assunto das gravações, relatado em um dos livros de Stanley.

Reencontraram-se em 2002. Pouco depois, as gravações chegaram às mãos de Gustavo. Recebeu as bobinas de arame com gravações originais de 1949. Foram estabelecidos alguns contatos até chegar à Unicamp. Uma das etapas mais difíceis comenta Silvia, foi decodificar as gravações do material bruto.

“A produção coletiva fortaleceu nosso trabalho e, o jongo, agregou elos internacionais”, verifica Marta. Para o historiador do IFCH, Robert Slenes, autor do capítulo a respeito das origens africanas do jongo, o livro constitui uma valiosa obra sobre a escravidão em Vassouras, num grande momento brasileiro (de 1850 a 1900)”.

(Projeto patrocinado pela Petrobras e editado pelo Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult) do IFCH e Folha Seca.)

Li esta importante publicação durante a pesquisa para o meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” (veja o link). Excelente estudo enfim, no geral com mui exatas definições sobre o que é a eletrizante manifestação do Jongo, envolto até então em velhos mistérios, nascidos do formidável descaso que a academia devotava a ele, envolvida com desvios nagoístas, no ‘candomblecismo’ de sempre.

(É muito sintomático, aliás – comentei lá no meu livro – que tenha sido a descoberta das gravações de um norte americano (Stanley Stein) numa bobina de arame esquecida desde 1949, o evento responsável por esta tardia saída do Jongo deste ‘armário‘ histórico conceitual em que o encerraram.)

No meu livro fiz longos comentários, em mais de um capítulo neste sentido, com reparos apenas pontuais embora incisivos, a maioria deles ligada ao pequeno aprofundamento devotado pelos autores às origens claramente angolanas da manifestação, colocadas a meu ver, de forma algo descuidada e imprecisa, genérica demais para um estudo que visava aprofundar o assunto, principalmente no que diz respeito à visão de Robert Slenes (também norte americano), incumbido no grupo de esmiuçar a parte relativa às origens mais evidentemente africanas do Jongo.

Acho que há também no estudo muitas imprecisões e omissões na análise dos controversos aspectos ligados à criação do ‘Jongo da Serrinha’ (e grupos similares) na cidade do Rio de Janeiro e a equivocada e excessiva influência desta linha espetacularizada, urbanizada e simplificada da manifestação ‘real‘ (a rural) do Jongo, utilizada por fim como padrão e modelo principal para o ‘tombamento‘ ou o registro do Jongo como patrimônio imaterial (ou seja, como manifestação de cultura…’tradicional‘, questão chave na resolução da Unesco que sugeriu esta onda de ‘tombamentos’).

O procedimento, cuja crônica só pode ser flagrada por meio do cruzamento de informações custosamente colhidas em fontes as mais diversas, foi para mim totalmente equivocado, pois ao contrário de sua vocação, acabou acelerando – e tornando em consequência irremediável – o processo de extinção da manifestação do Jongo em seu formato tradicional, que até aquela época (final da década de 1990) andava sendo ainda muito intensamente praticado, por muitas dezenas de grupos no interior, notadamente nos vales do rio Paraíba do Sul, RJ e ( sob o nome de ‘batuque‘, entre outros) dos rios Tietê e Pirapora, São Paulo.

Por força de documentos que eu próprio havia produzido em pesquisas na década de 1970 (entre eles uma sensacional entrevista com uma ex escrava residente na Serrinha desde antes da década de 1920), pude perceber, aliás que se omite no estudo que subsidia este livro, aspectos históricos ancestrais ligados ao surgimento da manifestação do Jongo no Rio de Janeiro e suas origens remotas no Vale do Paraíba do Sul no século 19, aspectos que seriam cruciais pra se entender e explicar o contexto, as implicações, as razões, a natureza enfim deste processo – bem posterior – de espetacularização citado. Os flagrantes do sutil processo de troca do jongo ‘certo‘ pelo jongo ‘duvidoso‘ enfim.

Entre estes aspectos, omite-se, por exemplo tudo que ocorreu antes da chegada da família de Darcy do Jongo para a Serrinha (oriunda do Morro da Mangueira), criando a partir daí um mito fundador – e heróis fundadores – totalmente descolado do evento fundador historicamente efetivo, factual.

Antropologismos de ocasião, travados por metodologias precárias que priorizam a bibliografia incipiente que produzimos sobre o tema, em detrimento de fontes outras (notadamente as orais as vezes únicos dados disponíveis) além de fontes externas ligadas às origens africanas no caso, exteriores a este nosso limitado afro brasileirismo primário, construído que foi sobre chavões e ramerrões ruins de doer ou engolir.

Tudo certo com o Jongo espetáculo. O sonho de Mestre Darcy, por vias tortas, finalmente está  realizado, mas trata-se de um problema cultural dramático, emblemático de nossos modos displicentes de ser. ‘Tombou-se’ como disse, o Jongo errado, condenando-se a morte o jongo rural, o tradicional que andava muito vivo ainda no Vale do Paraíba do Sul e que, com a enorme pressão do ‘jongo espetáculo’ (este das moçoilas  de saião estampado da Lapa e de Santa Teresa), teve que adaptar ao supostamente ‘novo jongo’, para não desaparecer de vez.

Na parte mais polêmica de meu relato – polêmica porque costuma ser rechaçada por muitos ‘novos’ jongueiros – afirmo que a forma de jongo ‘tombada‘ (registrada) pelo MinC, foi inventada na Serrinha por ‘alguns‘ agentes oportunistas, totalmente externos à manifestação e à comunidade local, que usando como pretexto, o visionarismo ingênuo de Mestre Darcy (inventor franco do ‘Jongo espetáculo’, que não tinha pretensões a serfolclórico’) dando forma a este jongo de hoje, equivocadamente tratado como se fosse algo folclórico e original.

Não é e nunca será. Neste sentido é uma farsa clara de jongo sem jongueiros.

Afirmo, portanto com base em inúmeros documentos, entrelinhas de teses de mestrado, dissertações acadêmicas e outros textos pinçados aqui e ali de forma fortuita, que estes ‘agentes‘ deste folclorismo fake, são, exatamente os mesmos que trabalharam intensamente no lobby instalado no final da década de 1990 para convencer Brasília (MinC) do ‘tombamento‘ da manifestação nos termos excessivamente abrangentes em que o registro se deu, facilitando a habilitação de suas Ongs de ‘jongo espetáculo’ ao acesso de verbas de patrocínio destinadas a preservação de bens imateriais tombados que, em caso contrário estariam restritos a formas de jongo apenas rurais (as realmente tradicionais).

Importante nesta hora constatar, portanto que no ensejo desta onda de tombamentos, foi percebida por estes grupos de predadores culturais a total incapacidade técnica, por parte dos grupos de jongo tradicionais (os ‘reais’), gente a rigor quase analfabeta, para concorrer a verbas de fomento e patrocínio em complicados editais de da lei Rouanet, passando a depender, inteiramente de intermediários, produtores culturais ‘ratões‘ e outros bichos sabidos que passaram a dar em árvore por aí.

É importante ressaltar também que este fenômeno da ‘apropriação indébita’ de bens culturais tradicionais imateriais, estimulado pelo ensejo destes ‘tombamentos‘ de bens culturais propostos inicialmente pela Unesco (e suas respectivas linhas de financiamento via renúncia fiscal), têm se tornado uma prática por demais rotineira neste Brasil de predadores sociais espertos e super atentos aos estoques de farinha pública (que, convenhamos nem é tão pouca assim).

Vão vendo aí – e o Titio já foi testemunha ocular disto – que a proliferação de mega projetos de turismo cultural, bancados por verbas muitas vezes milionárias por prefeituras de interior por este Brasil a fora, se baseiam inteiramente na existência de uma cultura popular submissa, maquiada e, sobretudo… tutelada com a inefável imaterialidade da cultura destes grupos de pobres negros, muitas vezes desvalidos, sendo usada contra eles mesmos como um defeito, um pecado original.

Cultura negra entregue a sanha de gafanhotos.

Quem quiser que me desminta, mas que desamarre a minha opinião com um ponto de jongo bem complicado. Bato o tambor e aceito a demanda. Acendo a fogueira na boa e até banco a cachaça.

É empolgante demais este assunto.

_Cachoeira!”

Spirito Santo

2012 (com ressalvas e etcs. em 2016 e 2018)

Chico Rei, o filme completo na rede enfim!


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Zenaide Zenah e Mário Gusmão

Chico Rei, o filme e a música (e as mumunhas) dentro do filme – Post #02

(Que está na rede está, mas já postei aqui dois links que pessoas compartilharam em  sites de vídeos que foram  apagados. Tente este🙂

O amigo Ricardo Beliel, dia destes pelo facebook:

…” Quando estavam filmando em Ouro Preto estive lá fazendo uma reportagem sobre o filme. Fiquei lá umas duas semanas e estava sempre com o Gusmão e a Zenaide, que eu já conhecia, e o Severo, que conheci lá, entre vários outros amigos que participavam como atores ou técnicos. Mas nessa época o filme já estava imerso por mil problemas de produção. Os produtores alemães brigavam com os produtores brasileiros e no final o filme foi sequestrado e levado para a Alemanha. Acho que o Walter nunca o terminou. Lembro que o contrato inicial era para fazer uma série que passaria na TV alemã e um longa para passar no Brasil. Nunca vi o filme. O que aconteceu?”

Oh, que sorte! O filme acaba de ser lançado na íntegra aqui na internet! Tinha aqui comigo uma cópia em CD, mas nunca tive coragem de compartilhar. É que este filme para o Tio é sagrado. É um dos meus ritos de passagem para me tornar o que sou.

Sei quase tudo sobre a história deste filme. Fiz um post grande sobre ele. Tá aqui no blog e vocês podem reler abrindo este link  antes de seguir por estas mais que completas considerações.

É que no intervalo entre o ‘sequestro‘ do filme, citado pelo Ricardo e a sua finalização fui convocado pela última vez pelo Walter Lima Júnior, eu e meu parceiro de Grupo Vissungo, o Samuka. Walter estava completamente só com seu sonhado filme, os copiões com locações inconclusas, praticamente sem grana, sem nada e precisava de alguma força.

O filme havia sido planejado pelos coprodutores alemães para ser uma mini série sobre escravidão, destinada ao mercado europeu a exemplo de ‘Raízes”, grande sucesso da época. O plano de Walter ao aceitar a direção da série era realizar um longa-metragem autoral. Deu quase tudo errado por problemas de gestão da produção como vocês verão a seguir.

Depois de muito tempo de espera e negociações que envolviam já a Embrafilme, Walter Lima conseguiu um acordo com os alemães: Ir à Hamburgo editar a tal mini série em troca dos copiões. Voltou com 54 hs de rolos de celuloide (!) que foram artesanalmente transformados (quem se lembra do que é uma moviola?) neste filme por ele e pelo verdadeiro ninja da assistência de montagem cinematográfica Mário Murakami. Uma loucura

A história do ‘sequestro‘ do filme é também muito interessante, confusa e controversa. As más línguas atribuíam os problemas da produção a uma jogada comercial da Provobis, produtora alemã do filme que, por sua vez, segundo as mesmas línguas perversas, tinha ligações com a mais mal falada ainda (e, supostamente direitista) Opus Dei.

A teoria da conspiração digna de um Código Da Vinci sugeria enfim que o filme – uma super, quase mega produção para a época – teria sido, numa jogada de alto risco, deliberadamente entregue a uma produtora amadora e inexperiente do terceiro mundo (a Art 4 de José Eugênio Müller Filho, cuja experiencia anterior mais significativa havia sido a produção de filmes dos ‘Trapalhões‘) para que desse errado mesmo e os espertos alemães colocassem a mão no seguro milionário feito na Sotebys (ou outra grande seguradora europeia) com este exato fim.

Impossível desvendar a verdade. A hipótese – que tinha mais pinta de lenda do que a própria ‘lenda‘ de Chico Rei – dava bem a medida da baixa credibilidade gozada pela produção cinematográfica brasileira deste início da década de 1980 (a produção do filme ‘Natal da Portela’ de Paulo Cesar Sarraceni, do qual também participamos, tinha um enredo bem semelhante).

De fato mesmo (pois o titio estava lá para presenciar in loco) só a profunda crise que se abateu sobre a produção na fase de Ouro Preto. O nababesco tratamento dispensado à equipe e ao elenco já era uma pista clara de que podia ‘dar merda’, mas quem se preocuparia com isto àquela altura?

Os prejuízos deixados na cidade pela Art4 foram astronômicos, quase colocara a cidade, cuja economia, naquele período dependia inteiramente da verba de Chico Rei, à falência. As locações acabaram se transformando, isto sim, num veio de ouro às avessas.

Do que vi com estes olhos e posso contar tem, por exemplo o desespero de grandes atores e atrizes como Maria Fernanda, Nelson Dantas e Othon Bastos, monstros sagrados de nosso cinema na época, praticamente largados como reféns no hotel: Fugiram todos os responsáveis pela produção brasileira. Soube-se então do sumiço também, dias antes dos brasileiros, dos atores e executivos alemães, que se mandaram com os copiões, as malas e as cuias para a Europa.

Presenciamos também, nestes mesmos dias, uma inusitadíssima passeata do pessoal da figuração de Ouro Preto e cidades vizinhas, a galera que fazia as vezes de ‘população escrava‘ do filme. Queriam porque queriam como todos por ali, receber pagamento.

Eu e Samuka, macacos ‘véios’ remunerados de antemão, estávamos ao lado de Mário Carneiro (grande fotógrafo do filme junto com o José Ventura) quando a turba de ‘escravos‘ enfurecida olhando para os cabelos claros (já grisalhos) dele e sua alta estatura gritaram em coro:

 _ “Alá! É ele! O alemão!”

Nós, os ‘negros de ganho’ não trabalhamos sem ganhar não.

Foi difícil convencer a turba de ‘escravos‘ a não linchar o pálido e saudoso Mário Carneiro, brasileiríssimo e um dos maiores fotógrafos de cinema do Brasil.

A crise a esta altura era já tão profunda que nós do Grupo Vissungo, por ocasião da produção da cena final, já assumida pela Embrafilme (que havia passado a controlar a gestão financeira do filme) indispensáveis que nos havíamos tornado, responsáveis que havíamos ficado pela arregimentação da figuração de congadeiros e os instrumentos musicais ‘africanos‘ a serem usados na cena, exigimos num contrato radical que a cena só aconteceria se recebêssemos, em cash, 100% do pagamento 2 hs antes da locação. Concordaram.

(Soube mais tarde que fomos uns dos poucos – senão os únicos – a não tomarem calote, coisa mais do que corriqueira em produções nacionais)

Nossa participação nesta fase inicial em Ouro Preto, é importante ressaltar, seria totalmente voluntária e não remunerada, pois visávamos, estrategicamente ganhar o direito de compor e atuar na trilha sonora do filme, o que, ao final de tudo, deu totalmente certo.

A incrível excelência do tratamento dado ao elenco e à equipe de produção – mordomia mesmo, no melhor sentido da expressão – já era, contudo quase que uma remuneração. Tínhamos reserva cativa num dos melhores hotéis da cidade e as refeições nababescas, regadas à cerveja e wíske à vontade eram feitas no melhor restaurante da cidade.

Tão certo deu esta nossa estratégia que antes mesmo de se pensar sequer em planejar a trilha sonora, já estávamos contratados (e agora com excelente remuneração) para construir os instrumentos musicais de cena (que podem ser rapidamente vistos na cena final), a partir da minha pesquisa pessoal que se chama hoje Musikfabrik sediada na Uerj) e que, estava do ponto de vista profissional, literalmente começando ali.

Envolvidos até os ossos em nossa pesquisa sobre Congadas mineiras, já cobertas as áreas mais ao sul, na direção de Belo Horizonte (acompanhados pela fotógrafa Maria Helena Matos de Almeida que documentava as nossas coletas de campo) cuidávamos agora da área de Minas Gerais que tinha acesso pela rodovia Fernão Dias. A ideia era planejar um novo trajeto de coletas futuras nesta região. Foi assim que chegamos à Ouro Preto, atrás das congadas locais, coincidentemente ao mesmo tempo em que as locações de Chico Rei ali se realizavam.

O veio de ouro e o arsênico revelados

Chegando em Ouro Preto, quem nos apresentou ao Walter Lima foi o meu velho amigo – e quase sósia quando jovem – José Ricardo D’Almeida, à época casado com uma pessoa ligada à produção do filme. Nosso encontro com Walter Lima foi, literalmente cinematográfico: Dentro de uma antiga mina de ouro desativada, a 315 metros chão a dentro, nas cercanias de Mariana, cidade vizinha à Ouro Preto.

Na cena, da qual nunca me esqueci, estavam Antônio Pitanga (hoje meu colega como artista visitante da Uerj), o sergipano Severo D’Acelino (o Chico Rei do filme), o saudoso Haroldo de Oliveira e outros ‘escravos‘, enfurnados todos entre as pedras no cenário opressivo daquela que representava a histórica e lendária Mina da Encardideira. A cena mostrava o encontro do veio de ouro que ensejou a redenção de Chico e seus malungos todos.

Me lembro nitidamente da transparência absoluta de um lago que havia no interior da antiga mina e da informação prestada por alguém da equipe – não sei até hoje se fundada – de que a água do lago continha arsênico. Vagamente me lembro também de que Walter, enfurnado no interior da mina por vários dias, escravo de seu próprio filme que era, teve que ficar afastado das locações na mina por um tempo, supostamente intoxicado por algo na longa exposição aos ares insalubres do local.

O filme tinha sérios pecados originais encravados no argumento anterior escrito pelo novelista da TV Globo na época Mário Prata. Este argumento era baseado por sua vez num romance muito fantasioso de Agripa de Vasconcelos, além de indicar para as opções de pré produção – como ainda hoje é recorrente – um projeto calcado demais em mitos e chavões estéticos nagoístas (yoruba, nigerianos) do Candomblé, incompatíveis com a história bantu do Chico Rei e a cultura negra de Minas Gerais em especial.

Aliás, Providencialmente, foi o fato de apontarmos nossa pesquisa, exatamente para este aspecto em especial da questão – o equívoco da opção por uma estética baseada no mito da ‘supremacia nagô‘, o que estimulou Walter Lima a nos convidar para esta consultoria totalmente voluntária, solidária mesmo, já na primeira noite em que conversamos, numa agradável bebericação da cachaça mineira “vale do jequitinhonha” com mel num bar na praça central da cidade.

Foram diversas seções de consultoria informal. No auge das locações, mais ou menos a cada 15 dias, Walter mandava a produção convocar no Rio, eu e Samuka, para acertarmos alguns detalhes e minúcias digamos assim, ‘etnológicas‘ da produção.

Um dos incidentes mais curiosos de toda esta nossa experiência, aliás, foi o surdo conflito instalado entre nós e o elenco ‘africano‘ do filme, que tendo como guru o fantástico ator Mário Gusmão, havia sido arregimentado quase todo em Salvador, Bahia.

É que com a nossa chegada influindo nas decisões ‘etnológicas‘ da direção do filme, a consultoria também informal que eles mesmos, os baianos, faziam, principalmente àquela ligada às danças e ao figurino, tudo baseado, quase inteiramente nas coisas mais recorrentes do Candomblé e da Capoeira da Bahia, tiveram que ser revistas. A esta altura Walter Lima já estava, irremediavelmente convencido de que seria um erro terrível um filme de pretensões históricas tão evidentes, apostar em dados etnológicos distorcidos ou impertinentes.

Bantu versus nagô na negra serra mineira

Foi assim então, e por conta desta constatação etnológica, que fomos contratados para criar e produzir toda a cena final do filme, para a qual sugerimos – e efetivamente levamos para Ouro Preto – dois grupos de congadeiros reais, arregimentados em duas cidades que serviam de base para nossas pesquisas (Oliveira e Machado). A decisão modificava radicalmente a participação do elenco negro, principalmente do grupo de apoio formado pelos baianos citados, que não teriam tempo de se adaptar às danças performances de trato puramente bantu, forte característica cultural dos figurantes mineiros e, de certo modo teriam que ficar discretamente afastados da cena final.

A decisão impactou também, decisivamente o figurino destes novos participantes, já que os vestuário de trato ‘nigeriano‘ criado pelo diretor de arte se tornara totalmente inverossímil a partir daí e precisava também ser corrigido.

A nossa salvação (a saída diplomática) foi a greve por pagamentos em que a equipe de produção estava também inserida, o que permitiu que eu e Samuka fôssemos liberados para criar ali, na hora, o figurino dos congadeiros. Fizemos como os pés nas costas, simplesmente seguindo a alguma pesquisa que tínhamos feito a respeito, que indicada como desenhistas de referencia os manjadíssimos Debret e Rugendas.

As pranchas destes artistas sugeriam, simplesmente que os escravos libertos de Chico Rei, nas circunstancias de uma festa de coroação de um rei africano em Minas Gerais, poderiam usar partes aleatórias de roupas portuguesas, tornadas símbolo evidente de suas ascensão social, misturadas a este ou aquele hábito africano tipo tubantes e bandanas, elementos flagrados no trabalho daqueles desenhistas, testemunhas oculares da vida dos escravos de séculos atrás. O figurino estava pronto já, nos cabides do próprio guarda roupa, entre os jaquetões, sobretudos e chapéus de três bicos usados pelos personagens brancos do filme.

Outro problema crucial foi que com a súbita eclosão da crise na produção não deu para que se filmasse algumas cenas essenciais à continuidade do roteiro original de Walter Lima. O projeto do longa-metragem ficava assim, de certo modo seriamente ameaçado.

A própria cena final, na parte da figuração totalmente produzida por nós, teve que ser improvisada e filmada a toque de caixa, numa única tarde. É por esta razão que se pode ver neste finalzinho do filme os congadeiros dançando com sapatos modernos, tênis, etc. Filmou-se apenas o ensaio com os figurantes calçados, mas não houve tempo (luz) para se filmar as cenas definitivas, com os figurantes descalços, como prevíramos.

(Os mais atentos poderão observar também na cena final do filme a incongruência flagrante entre o figurino ‘nigeriano‘ de Mário Gusmão e o dos demais figurantes, congadeiros).

O tumultuado filme teve também bastidores ‘internos‘ da conta do elenco negro, alguns dos quais tomo a liberdade de contar aqui, pela primeira vez. Um, o mais ‘saia justa ‘ de todos, era a antipatia latente que a maioria do elenco ‘escravo‘ nutria (mas só expressava à boca pequena) pelos atores negros do ‘primeiro elenco’ que mantinham, aparentemente um distanciamento arrogante da ‘plebe‘, preferindo frequentar apenas o convívio dos alemães e das estrelas brancas do elenco.

 Sinto, mas a bela Zenaide não era nada zen

Esta antipatia era dirigida mais intensamente a Antônio Pitanga e à Zenaide Zenah, atriz escolhida para ser a mulher de Chico Rei. Curiosamente, Severo D’Acelino, o protagonista, não partilhava deste comportamento tão criticado pelos demais e não só frequentava bastante os ambientes onde a massa da figuração ‘escrava‘ frequentava como era um também um crítico contumaz desta suposta arrogância elitista dos colegas.

Zenaide Zenah, linda atriz, de corpo ‘escultural‘ como se dizia antigamente (já falecida e conhecida mais tarde como Zenaide Zen em concorridas performances onde se apresentava inteiramente nua) desfilava de forma tão evidente e frequente a sua arrogância por Ouro Preto, sempre ao lado dos atores alemães que acabou se tornando vítima de si mesma.

Conta-se que logo que se deu conta da importância de seu papel de mulher de Chico Rei na trama do seriado, passou a pressionar de forma tão incisiva e insistente a produção, por aumento da remuneração e das condições gerais de seu contrato (queria ver niveladas estas condições a dos atores do ‘primeiro time‘) que acabou vendo sua personagem ser ‘morta‘ na trama, por decisão da direção, tendo abatidos aí, em pleno voo os planos de ascensão ao estrelato (poderia ter sido uma nova Zezé Mota, vai saber?)

O filme nos seus finalmentes, a despeito de todas os seus percalços foi, portanto, concluído e criado na moviola. Ao final, com a fita montada nós do Vissungo fomos enfim contratados pela gravadora Som Livre para realizar a trilha sonora (a parte ‘africana‘, pois, a ‘europeia‘ como se sabe foi criada por Wagner Tiso) trabalho que acabou premiado como melhor música nos festivais de Ghent, na Bélgica e Cartagena, na Colômbia.

A parte mais chata da história é que estamos esperando até hoje a nossa parte dos prêmios. É que jamais nos informaram nada a respeito, nem mesmo do que consistiram este prêmios, se foram certificados em papel, medalhas, dinheiro, nada. Esta omissão inexplicável, daquela que foi a experiência artística mais importante da aventurosa carreira do Titio, deu muito trabalho para ser, pelo menos em parte, desagravada e corrigida em nosso currículo oficial, que circulava por aí sem esta importante atribuição.

Até o arguto especialista e amigo José Carlos Rodrigues em seu excelente e lapidar trabalho O negro brasileiro e o Cinema dá uma escorregada na ficha técnica da trilha de Chico Rei grafando o nome de Mílton Nascimento como o principal autor do trabalho, quando Mílton apenas gravou duas músicas de Wagner Tiso compostas para o filme. Salvou-nos um outro crítico, com este texto definitivo sobre o papel do Grupo Vissungo em Chico Rei que orgulhoso vivo replicando por aí:

“…O épico Chico Rei deu continuidade ao projeto de um cinema histórico mais atento às elaborações mitológicas que ao rigor das versões acabadas. Lima Jr. usa a história do primeiro escravo a se tornar dono de ouro no Brasil para investigar as suas próprias raízes negras. O Grupo Vissungo, em sua fusão de arte e militância, teve papel decisivo na formatação sonora do filme, que ainda mobilizou ícones da música negra brasileira como Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Naná Vasconcelos e Geraldo Filme. Chico Rei assinalou também a primeira colaboração direta de Wagner Tiso numa trilha de Walter, parceria que iria se repetir em três dos quatro filmes seguintes do realizador.

Em ‘Um cinema que quer ser música’ artigo de Carlos  Alberto Mattos, Publicado na revista Veredas -CCBB/Rio, Nov-2000

Demais de felizes estas lembranças. Empolgante me ‘rever‘ cantando música tradicional afro mineira e tocando as kalimbas do filme. De relance eu posso até ser visto na cena final, tocando uma furiosa marimba.

O Tio compôs muitas músicas nesta época especialmente para esta trilha sonora ‘africana‘ do filme. As duas melhores canções, “Saudades do Kongo” e “Chico Reina” (esta cantada na introdução pela saudosa Clementina em sua última aparição em estúdio, já debilitada demais para os solos que, acabei eu mesmo tendo que cantar) nem aparecem no filme, mas estão no vinil produzido pela Som Livre com a trilha sonora original e, inusitadamente aparecem também como faixas ‘bônus‘ numa reedição do clássico Canto dos Escravos com Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca.

Oh, que felicidade! Oh, sentimento de bela missão cumprida.

Ficaram daí muitas amizades eternas. A de Delanir Cerqueira, mestre contra regra de tantos filmes ‘de negão’ de nosso cinema e, principalmente a de Walter Lima Júnior, este mestre de nosso cinema realmente novo, que assumiu francamente a vontade de realizar com Chico Rei cinema negro de um Brasil real.

Bem, agora com a ‘fita’  liberada na Internet basta apenas ir lá, conferir a ficha técnica e acompanhar o filme, em sua beleza ‘perturbadora‘ como bem diz  José Carlos Rodrigues e a sua heroica riqueza como documento candente da cultura negra do Brasil sem firulas, para se ter uma vaga ideia do enorme orgulho do Tio em ter participado, tão intensamente desta história empolgante e exemplar.

Ah, como era gostoso fazer cinema brasileiro nesta época!

Spirito Santo

2012

TV Axé e babado forte de Xangô. Coitada da epistemologia nagô


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As ‘raízes’ do Candomblé fake a gente vê na TV
Axé babá caô caô, sem mestre.

A moça amiga e vizinha Paula Estrela me pergunta pelo facebook, me repassando o link de um tal de “Premio Korin Axé” :

“ _E aí, conhece? É confiável?”

Chato que sou fui lá e vi.

Rs rs rs rs! Fala sério! Religião, em geral já um negócio que, pra se confiar, exige cuidado. Imagina isto aí: Um cidadão brasileiro, tipo branco, com uma fala semi analfabeta, com cara de 171 (não que ele necessariamente o seja) , fantasiado de africano da Nigéria vendendo peixes religiosos como um pastor evangélico vagabundo destes aí (com todo respeito) vende, sugere o que para vocês? Confiabilidade? Tem alguém cego aí na sala?

Sessão de descarrego será que cura cara de pau?

Engraçado: Reparem que eles evitam falar a expressão ‘Candomblé‘ (usam ‘Umbanda‘, com certeza porque a palavra calaria a eventual cobrança dos ‘puristas‘, pois ‘Umbanda‘ se refere a uma religião ‘brasileira‘, desta terra ‘mestiça‘, na qual, obviamente brancos podem participar. É o início, a essência do caô. Fazem o mesmo com a Capoeira, com o Maracatu, com os blocos de Carnaval de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, etc. É da natureza predatória da sociedade ‘branca‘ brasileira, onde a lei geral é tirar vantagem em tudo, até mesmo da cultura dos chamados ‘oprimidos‘ (ai este marxismo de botequim que não me larga!).

Moral zero, ética zero, sem-vergonhice a mil.

Reparem também, contudo como eles usam todo o look e os ritos do ‘culto dos orixás’ supostamente puro. Além das roupas os chavões, o panteão supostamente yoruba do ‘culto nigeriano‘, ‘ ancestral‘, tudo. Ao fundo das falas tatibitatis deles, muitas imagens de arquivo com autênticas práticas religiosas da Nigéria, para dar credibilidade ao ‘caô- caô’ geral.

Eparrêi!”

Fui lá ver, viram? Eles têm esta tal de ‘TV Mojubá’ com um monte de armações apresentadas por um tal de Walmir de Omulú, figuraça mais analfabeta ainda, que distribui o prêmio ‘microfone de ouro’ o qual diz ele lá, desmunhecadamente, é um prêmio de ouro maciço, 18 quilates. Já pensaram no preço que custaria um mimo destes? Ui!

“A entrega do prêmio ‘Korin Axé’ atrasou”, fala ele no a ar, porque a firma contratada não honrou o pedido e ‘eles‘, uma tal de ‘comunidade de Oswaldo Cruz’_meteram a mão no bolso”, se cotizaram e compraram as joias (tem um ‘microfone de prata’ também).

Desculpem esta já velha franqueza do Tio, mas tirando o fato dos ‘sacerdotes‘ 171s desta onda aí serem ‘brancos(‘ou quase brancos’, como diria o Caê Velô) tirando a cara de pau absoluta deles, as aparências ‘teatrais‘ todas, o ‘mise em scene’ as mumunhas histriônicas do culto, em nada se diferenciam do chamado ‘Candomblé autêntico de negão‘, que no modesto entender do Tio, chato de galocha e ‘pra dedéu‘, cai na sua própria armadilha, urdida no velho peixe vendido lá atrás, no século 19, da tal da ‘hegemonia”, da bufona “supremacia nagô”.

Ôh, ôh, ôh, Xangô fake se ferrô!

Desculpe falar, mas quando tio comenta aqui qualquer coisa sobre o Candomblé, na boa, no intuito de promover algum debate, sem papas na língua, aparece logo um monte de críticos irritadinhos, intelectualíssimos, sabichoníssimos, a me admoestar, a me chamar de ‘sacrílego‘. Ora, ora, numa hora destas, com esta TV Mojubá no ar, aí fazendo gato e sapato da religião hegemônica e supostamente ‘pura‘ do negro do Brasil, ninguém aparece.

O bom macaco cuida sempre do próprio rabo, não é não?

Spírito Santo

2012

Abaixo-assinado AKOBEN: Transparência + Honestidade = Democracia


A realização do edital a que se refere este abaixo assinado (“OLONADÉ – A cena negra brasileira”), de finalidade de suma importância para a difusão da arte e da cultura do negro carioca, exposta que sempre estiveram em todo o Brasil a diversos expedientes de obscurecimento – alguns deliberados, outros frutos da ausência preconceituosa de fomento às suas ações específicas – gerou um resultado surpreendente e duvidoso.

Como sabemos, a prática de diversas formas de favorecimento de grupos e pessoas no decurso de licitações e editais de patrocínio à cultura e a obras públicas, infelizmente tem sido fato comum no Brasil, o que sugere a necessidade da sociedade cobrar a máxima transparência na oferta de patrocínios com recursos da renúncia fiscal que são, a rigor recursos públicos.

Mesmo não se questionando o direito desta ou de qualquer outra empresa concorrer e, eventualmente vencer um edital deste tipo, causou surpresa o seu sucesso insuficientemente explicado, frente à qualidade da proposta de sua concorrente Cia Dos Comuns, do mesmo modo abalizada e preparada, com o dado expressivo de ser uma Cia formada por negros.

A natureza deste questionamento do resultado deste edital, expressa neste abaixo assinado se liga também, fortemente à insuficiência dos argumentos oferecidos pela Funarte  em resposta ao recurso interposto pela empresa preterida.

Acho muito importante e significativo que se restabeleça a justiça neste caso por meio de justificativas cabais ou pelo reconhecimento, enfim do equívoco, caso se venha comprovar por qualquer meio, que não houve lisura no resultado atribuído à empresa vencedora por uma banca de avaliadores notórios que devem satisfações à sociedade que os remunerou para representá-la na escolha.

Spirito Santo

2012

Abra este link e assine: http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N25245

Abaixo-assinado AKOBEN para o Ministério Público

AKOBEN é o Movimento criado pela classe artística negra que grita por uma política cultural honesta, inclusiva e verdadeiramente democrática.

Transparência + Honestidade = Democracia

Nós, abaixo assinados, inconformados com o resultado do edital de ocupação do Teatro Glauce Rocha/2012, regido pela Lei nº 8.666 de 21/6/1993, que contemplou o projeto “Linguagens Brasileiras – Cultura Negra em Cena”, tendo como proponente a empresa JLM Produções Artísticas, vimos expor e solicitar o que se segue abaixo.

No mesmo edital, dentre outros projetos concorrentes, a Cia dos Comuns/Comuns Eventos e Projetos Culturais Ltda., criada em 2001 pelo ator e diretor Hilton Cobra, a partir da necessidade de se ampliar a presença de companhias de teatro negro contemporâneo no cenário cultural brasileiro, concorreu com o projeto da 4ª edição da mostra de teatro negro intitulada “OLONADÉ – A cena negra brasileira”, que pretendia reunir no Teatro Glauce Rocha, na cidade do Rio de Janeiro, no período de 12 de abril a 29 de julho/2012, companhias de teatro e produções independentes com trabalhos voltados para as atividades que valorizam a arte e a cultura negras. Durante os quatro meses de realização do evento, o público carioca teria acesso a 16 espetáculos – adultos e infanto- juvenis – totalizando 78 apresentações e seis leituras dramatizadas a preços populares, e atividades gratuitas –10 oficinas, quatro palestras e seis depoimentos de atores e atrizes negros consagrados.

Com fulcro no subitem 4.6, do item 4 – DA SELEÇÃO, do referido edital: “Pedidos de reconsideração podem ser enviados para o endereço teatro@funarte.gov.br, no prazo de até 5 (cinco) dias úteis após a publicação do resultado, de acordo com o que estabelece a Lei nº 8.666/93”, solicitamos ao presidente da FUNARTE, Sr. Antonio Grassi, em requerimento datado de 08 de março de 2012, reconsideração do resultado. Através da portaria nº 62, de 16 de março de 2012, a FUNARTE divulgou o resultado final: “O Presidente da Fundação Nacional de Artes – Funarte, no uso das atribuições que lhe confere o inciso V artigo 14 do Estatuto aprovado pelo Decreto n° 5.037 de 07/04/2004, publicado no DOU de 08/04/2004, em conformidade com a Portaria n° 369, de 30/12/2011, publicada no DOU de 01/01/2012, que regulamentou o Edital de Ocupação do Teatro Glauce Rocha/2012, resolve tornar público o seu resultado final, tendo como selecionado “JLM Produções Artísticas Ltda. – Linguagens Brasileiras – Cultura Negra Em Cena – Rio de Janeiro/RJ”.

Como se tratou de uma licitação pública, e estando alicerçados no artigo 3º da Lei nº 8.666/93, que diz: “A licitação destina-se a garantir a observância do princípio constitucional da isonomia, a seleção da proposta mais vantajosa para a administração e a promoção do desenvolvimento nacional sustentável e será processada e julgada em estrita conformidade com os princípios básicos da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade, da probidade administrativa, da vinculação ao instrumento convocatório, do julgamento objetivo e dos que lhes são correlatos”, vimos requerer ao Ministério Público Federal que solicite esclarecimentos à Fundação Nacional de Artes – FUNARTE quanto ao processo de julgamento dos projetos concorrentes na referida licitação pública, uma vez que os resultados do edital e sobretudo do recurso não foram suficientemente detalhados, não produzindo, portanto, qualquer possibilidade de análise esclarecedora e, consequentemente, entendimento quanto ao resultado divulgado.

N. Termos

P. deferimento


Os signatários

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Na cachanga do Titio jogando o jogo do caxangá


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Os Pato Donald pira!

Caxangá!

Este jogo aí, típico de marinheiros embarcados no porto, sem o que fazer, sempre me intrigou. O desenho dos  estúdios Walt Disney que você vão assistir logo abaixo, reforça a tese de que o jogo não tem nada de anglo saxão, tampouco nada de europeu em geral, (mas vai saber) já que o filme define como ‘brasileiro‘ tanto quanto o Zé Carioca (que dizem ter sido inspirado no sambista Paulo da Portela). Só sei que é exótico e enlouquecedor este jogo de pedrinhas, conchinhas, caixinhas de fósforo, sei lá mais o que.

A possibilidade de ser, como palpito, um jogo africano aumenta, pois,  o nome ‘caxangá’ tem pinta de ser uma palavra angolana, embora alguns digam que é indígena, do Brasil querendo dizer ‘mata brava’, o que não faz sentido algum. É que há uma corrente de etnolinguistas aqui que insiste que toda palavra que não é europeia só pode ter vindo do tupi guarani. Tolinhos. Acham que os africanos eram mudos.

O certo é que Caxangá mesmo, este do nome do jogo, é um tipo de caranguejo (do espanhol ‘cranguejo‘, diz a Wikepedia) de 10 patas cujo nome científico é ‘lallinectes larvatus‘. A palavra portanto original se refere a este caranguejo, passando a servir para denominar aqui no Brasil um boné de marinheiros com o qual o corpo do caranguejo, aliás, algo se assemelha.

A palavra – quem não sabe? – aparece num jogo denominado ‘Escravos de Jó’ de origem desconhecida e controversa, que parece ser muito antigo e que consiste no seguinte: Vários jogadores se dispõem ao redor de uma mesa, com um objeto (uma pedra, uma caneca ou uma caixa de fósforos) na mão. Daí, ao ritmo e ao som de uma música com letra, ficam trocando as peças com os jogadores lado a lado num ritmo determinado, ditado pela música. Quem erra a disposição das pedras durante a ação ditada pela música é eliminado da competição.

As melhores informações sobre esta misterioso jogo são as do blog do E. Rohde, replicadas aqui:

Tenho visto na internet um grande interesse pelo jogo Escravos de jó. O Prof. Cláudio Moreno escreveu na Zero Hora, a Dra. Yeda Pessoa de Castro, especialista em cultura afro-brasileira, pesquisou, o Jornal de Angola publicou artigo. Eu mesmo escrevi um conto.  

Lendo essa gente inteligente emerge a seguinte história: o tal Jó da bíblia, que ficou famoso por ser paciente, não por ter escravos, não tem nada a ver. De jó era como chamavam os escravos domésticos: cozinheiras, costureiras, amas-de-leite, et cétera. Na língua banto, njó (do kimbundo angolano, afirma o Titio) quer dizer casa.  Caxangá pode ser um tipo de siri ou um boné de marinheiro. Se é um jogo, ninguém conhece. Zé Pereira, quem é?

Quanto à origem da cantiga, sabe-se menos ainda. Pode ter sido inventada no Brasil – por escravos? Pode ter vindo da África. Não é de se descartar que venha da Europa, como muitas outras cantigas de roda. Minha sogra diz que jogava esse jogo na Itália no tempo da IIª Guerra. O jogo e a melodia eram idênticos ao nosso, só mudava a letra:

Allo scambio del gioco, giochiamo a scassinar
oilì, oilà, giocherem
chi viene chi va, con lo zigolo-zigolo-za
chi viene chi va, con lo zigolo-zigolo-za

Agora, se fomos nós que importamos da Itália ou eles de nós, isso eu não sei.

A propósito: giochiamo a scassinar faz tanto sentido em italiano quanto jogavam caxangá em português.

O livro se chama Comptines et chansons du papagaio – Le Brésil et le Portugal en 30 comptines, a autora é Lerasle Magdeleine e a editora é a Didier. Eu li na versão italiana, com título All’Ombra della papaia – Il Brasile e il Portogallo in 30 filastrocche, da editora Mondadori. Ambos parecem estar em falta na editora, o que é uma pena. O livro traz o texto das canções em português e italiano (ou francês), tem ilustrações bacanas, e vem com um CD.

No final do livro, a autora  fala um pouco sobre cada uma das peças. Sobre Escravos de Jó, ela diz que exercita a lateralidade, a percussão e a destreza (…) O movimento cruzado de retorno e o vai-e-vem em ‘zigue-zigue-zá’ lembra os passos laterais do caranguejo e o bater das suas garras (…) Caxangá, sinônimo de siripu, designa um caranguejo do mangue e deu nome a um estilo de capoeira (…) Pode-se também jogar em pé, uns de costas para os outros, formando um círculo fechado e passando os objetos com os braços estendidos ao longo do corpo sem olhá-lo (…) O arranjamento musical prevê pandeiro, atabaque, chocalho, reco-reco, flauta e agogô.”

Então vamos lá! Todo mundo cantando:

Escravos de nJó, jogavam Caxangá

Tira, bota, deixa o Zambelê ficar…

Guerreiros com guerreiros

fazem zigue zigue zágue

Guerreiros com guerreiros

fazem zigue zigue zágue”

Este ‘Zambelê‘ aí, trocado depois para ‘Zé pereira’, é de uma versão mais antiga e a palavra com cara de ser tipicamente angolana, reforça mais ainda a tese da origem africana do jogo, no caso e como se viu, uma origem bantu, mais precisamente angolana.

Sem provas cabais ainda que nos confirme o palpite, a palavra ‘Caxangá‘ por sua estrutura pode ter também uma origem indiana, ou mesmo chinesa. É que tenho alguma desconfiança de que o jogo, sendo típico de marinheiros, pode ter relação com as navegações de naus portuguesas em suas colônias do ultramar antes do século 19, Luanda, Goa, Macau

A hipótese mais provável é mesmo a origem angolana. Aposto nela.

Me recordo bem que aqui no Rio, ainda hoje em zonas mais populares como bairros e favelas de maioria negra se fala ‘Caxanga‘ com o sentido de casa humilde e hospitaleira, uma analogia que pode se referir a casca do caranguejo ‘caxangá‘ também. Algo que nos cobre, protege, difícil ainda achar o sentido e a etimologia original. O sentido dos étimos “Njo” (casa no vernáculo kimbundo) e ‘Caxanga‘ (casa no falar popular afro carioca) é muito significativo.

Mais do que isto não me foi possível avançar por falta de fontes. Passei as pedras depois que a Bete Sgc me repassou do facebook. Siga em frente você, daí, sem errar para não ser eliminado do jogo.

Achei garimpando sobre o filme disponibilizado pela amiga sempre alerta Bete Scg esta interessante resenha (também no blog do E. Rohde) que traduzo livremente abaixo.

Observem que o contexto da resenha é o interessante período que abordo, intensamente em meu livro Do Samba ao Funk do Jorjão envolvendo um grande esforço diplomático do Congresso norte americano para atrair a simpatia do Brasil contra às malévolas intenções belicistas da Alemanha nazista, da qual Getúlio Vargas se dizia, malandramente simpatizante.

O esforço dos gringos, ápice das relações internacionais só superado talvez pela chamada ‘Aliança para o Progresso’ dos anos 60, se chamou aqui Política da Boa Vizinhançae envolveu no campo cultural grandes caravanas de artistas com a participação de gente de ponta das artes e do entretenimento dos EUA, tais como os músicos compositores e maestros Aaron Copland e Leopold Stokowsky (diretor das trilhas sonoras de Disney), que tentaram se articular por aqui com artistas também de ponta na época como Heitor Villa Lobos e Donga (os nossos dois principais articuladores) além de Paulo da Portela (que talvez tenha sido, como disse o modelo para o Zé Carioca), tendo a ‘Brazilan Bomb Shell’ Carmem Miranda sido convocada para o papel de ponte entre os dois mundos.

Caxangá!

Por Jeffrey Pepper

“No Brasil se pratica um jogo cantado muito interessante.
Quando ouvimos a melodia dele ela nos persegue dia e noite.
Basta jogar uma vez que com certeza a melodia singular permanecerá em sua mente. “

Enterrado nas profundezas da obscuridade histórica dos arquivos da Walt Disney Company há uma joia escondida conhecida como Caxangá (assista o filme aqui). É um dos meus desenhos animados favoritos do acervo da Disney. Mas entre The Concert Band, Who Killed Cock Robin ou muitos outros clássicos que obtiveram determinada fama, Caxangá tem uma característica e distinção muito especial: É uma produção que jamais foi concluída e, portanto, nunca apareceu nas telas de cinema.

Alternadamente chamado ‘A Sinfonia Brasileira’, Caxangá foi um dos muitos projetos criados no início de 1941 na América Latina pelo pessoal dos estúdios Disney que, finalmente deu à luz Saludos Amigos, The Three Caballeros e outros filmes temáticos e curtos sob a forma de desenhos animados. Os rascunhos e propostas criativas de ‘Caxangá’ foram documentados num filme sobre a fronteira sul dos EUA lançado em 1942.

South of the Border foi um filme de 30 minutos lançado no final de 1942, com imagens de eproduções de Walt Disney, recolhidas pelo artista Lee Blair e oassistente de produção Larry Lanburgh que levaram câmeras de 16mm em 1941 numa turnê de pesquisa relacionada às viagens ligadas à política de boa izinhança’ à países latino-americanos deflagrada no pré 2ª Guerra Mundial.

O esforço dos americanos precedeu acabaria por inspirar filme ‘amigos’ principalmente ‘Saludos’ e ‘The Three Caballeros’. O jogo de caixas de fósforos (‘caxangá), era um dos muitos projetos anunciados no filme, apenas ideias e noções do entretenimento potencial que poderia ser explorado.

Nas cenas do filme se vê o supervisor de produção Norm Ferguson, o roteirista Bill Cottrell, o diretor técnico da Court Jack e artista Mary Blair demonstrando o jogo das caixas de fósforos. Um narrador em off explica:

“E aqui está um velho jogo brasileiro chamado Caxangá. Eles dizem que os índios o jogaram séculos atrás. Era jogado com conchas originalmente, mas hoje eles usam caixas de fósforos. O objetivo é cumprir um ciclo passando as epças sem falhar. Aqui, novamente, o ritmo desempenha um parte importante. Primeiro você canta o verso, em seguida, cantarola para então jogar seguindo os tempos, mas em silêncio. ”

A próxima cena mostra um artista desenhando uma série de esboços de histórias, o que sugere um desenho futuro ou a sequência do Pato Donald jogando o tal jogo.

Várias tentativas foram feitas para incorporar em Caxangá outras ideias que estavam sendo consideradas. Em vários pontos de seu desenvolvimento, o jogo tinha sido feito em vários planos para ilustrar a música “Aquarela do Brasil”, uma sequência finalmente concluída para o filme ‘Saludos Amigos, Carnaval Carioca”, numa vinheta que mostrava Zé Carioca e Pato Donald visitando o carnaval no Rio, além de um projeto inicial de “Blame It on the Samba”, que era para dar destaque à Carmen Miranda.

O storyboard descrevia a sequência com Zé e Donald visitando Carmem Miranda, durante uma apresentação noturna da canção título. Os dois relembram uma visita anterior ao Rio na noite de São João, onde Donald se apaixona por uma papagaia parecida com Carmem Miranda. Ela, Donald e Zé Carioca jogam então o jogo das caixas de fósforos por alguns momentos. “Blame It on the Samba” mais tarde evoluiu para um segmento mais abreviado e diferente, principalmente por causa da indisponibilidade de Carmem Miranda causada por dificuldades contratuais.

O jogo mais tarde se tornou a peça central para a proposta de dois cartoons separados. Os primeiros elementos, emprestados do já mencionado “Blame It on the Samba”, mostra Donald e Zé numa noitada na cidade do Rio de Janeiro. Donald se apaixona por uma pata bonita, desta vez uma caricatura de Aurora Miranda, que seria exibido no ‘The Three Caballeros’. Donald e Zé fazem uma partida do jogo de Caxangá com as estacas, sendo uma delas a pata ‘Aurora’.

O segundo projeto evoluiu para o início da animação à lápis com algumas músicas gravadas e algum diálogo. Em 1995, uma reconstrução do curta foi incluída no disco laser da Coleção do arquivo exclusivo de ‘Three Caballeros’ e ‘Saludos Amigos’. Apesar de sua natureza áspera e grosseira de projeto ainda ‘não animado’, o filme é de muitas maneiras maravilhoso, sendo uma indicação divertida de “o que poderia ter sido.” Como eu disse, um dos meus desenhos animados favoritos da Disney, apesar de seu estado inacabado.

O filme começa com o Pato Donald, Zé Carioca e, curiosamente, o Pateta, sentados ao redor de uma mesa em um pátio no último piso, jogando o jogo das caixas de fósforos. O cenário é o Rio que se reflete na vista da varanda nas proximidades, era, sem dúvida, baseado em uma paisagem semelhante do Pão de Açúcar apreciado por artistas da Disney durante a sua estada no Rio de Janeiro. Os detalhes de uma foto com Lee e Mary Blair, que aparece no livro ‘A Arte e Flair de Mary Blair’, tem alguma semelhança, mas o cenário é distinto do local descrito nos esboços do storyboard de Caxangá.

(Assista o filme aqui)

Donald se exaspera com tantas gags envolvendo um inteligente jogo de legendas e o ritmo alucinante do jogo. Como Donald pouco depois se encontra em sua cama, torneiras de água, um relógio, persianas, um lustre e até mesmo as luzes da cidade, tudo começa a soar fora no ritmo da melodia. Os esboços do storyboard exibem uma paisagem de sonho, pulsante, maluca, não muito diferente da sequência dos elefantes rosa em Dumbo, mas refletindo estilos visuais executados com sucesso em filmes como Amigos Saludos e Three Caballeros.

É interessante especular a respeito de até onde a evolução do processo criativo poderia ter, finalmente levado Caxangá. Com base na reconstrução, suas conceituações inteligentes e divertidas, certamente tinham o potencial de torná-lo uma visão americana vibrante e imaginativa da idealizada América de Disney.

Por Jeffrey Pepper

Sábado, 2 de fevereiro, 2008

Imagens e vídeo © Walt Disney Company / Departamentos: animação clássica

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Spirito Santo

2012

Jardin d’inégalité Tropicale:O Zoológico Humano ou a ‘Maldição de Paris’


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Madre de Deus! Oh, my God! Mon Dieu! Mein Gott! 

Até o titio se surpreende com estas coisas. Contei aqui a triste história de Sarah Baartman e sua bunda étnica, exibida como bicho raro – e erótico – em Londres, não contei não? (Veja o link) Contei também a gloriosa história das Amazonas do Dahomey que está aqui neste link, carrascas do exército colonial francês, cuja honra e arrogância guerreiras foram conspurcadas – por pura e covarde vingança, presumo – na captura e exibição em Paris de uma destas valorosas mulheres como animal de circo (descrita num gibi francês que coloquei como ilustração final do post).

Contei tudo aqui e agora conto mais.

No meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” aludi também – e sem me dar conta ainda, totalmente – da estranha e pouco comentada recorrência de uma prática colonista execrável, muito em voga logo após o fim do tráfico de escravos e das abolições da escravatura no mundo colonial:

A realização de grandes ‘exposições coloniais’ inseridas num esforço mundial pela douração da pílula do neo colonialismo, modelo que, com pouca maquiagem prevalece e domina até hoje

Apontando no que via, no livro me referi, particularmente à exposição colonial portuguesa de 1934, realizada no Porto, na qual nativos das colônias lusitanas trazidos de Angola e de Moçambique, basicamente eram expostos como animais num zoológico. Pois não é que só agora – por honra da inestimável e sempre pronta colaboração de Bete Scg, uzeira e vezeira aqui do blog – consigo ligar totalmente os pontinhos das coisas e a ficha cai?

Nada como um post atrás do outro.

Sim. Minhas suspeitas estavam certas. Todos estes fatos, incidentes e ações como disse, execráveis e abjetas, tudo indica que faziam parte sim de uma estratégia europeia geral, parte de um esforço amplo da iniciativa dos governos colonialistas de então, para legitimar as práticas relacionadas à continuidade da exploração colonial no chamado “outro mundo” (esforço no qual – sempre repito – esteve envolvido, direta e profissionalmente, remunerado que foi pelo ditador fascista Oliveira Salazar, o ‘nosso’ incensado Gilberto Freire).

Eram sim, agora posso afirmar, ações de algum modo articuladas, uma prática usual que marcou a “nova ordem econômica mundial” durante quase toda a primeira metade do século 20, só sendo interrompida e desmoralizada – de inspiração nazi fascista que estava profundamente marcada – com a derrota da Alemanha nazista na segunda Guerra Mundial.

Foi a derrocada da expressão franca e aberta daquela ideologia malsã deste capitalismo eterno, ele sim selvagem, que nos governa, que passou assumir a partir daí esta cara songa monga, cheia de hipocrisia malandra, escorregadia de hoje em dia (e a Rio+ 20 que nos diga), da qual o velho Gilberto Freire – perdão por insistir – nos impregnou a aura e a alma.

É. Sobre escravidão, colonialismo e racismo, ao que tudo indica, não sabemos mesmo ‘da missa o terço”.

Vão vendo aí:

Jardin d’Agronomie Tropicale: O amaldiçoado zoológico humano de Paris”

(Extraído de Messy Ness Chic Blog)  02 de março de 2012

No canto mais afastado do bosque de Vincennes, em Paris, encontra-se os restos do que foi outrora uma exposição pública para promover o colonialismo francês a mais de 100 anos atrás. O local só poderia ser comparada nos dias de hoje a algo equivalente a um zoológico humano.

Em 1907 seis diferentes aldeias foram construídas no Jardin d’Agronomie Tropicale, representando todos os cantos do império colonial francês no tempo de Madagascar, Indochina, Sudão, Congo, Tunísia e Marrocos. As aldeias e os seus pavilhões foram construídos para recriar a vida e a cultura das colônias e como eram e viviam as pessoas em seus habitats originais. Isto incluía replicar a arquitetura, a agricultura e espantosamente,  casas habitadas por pessoas reais, trazidas destes territórios distantes.

Os habitantes humanos da ‘exposição’ foram observados por mais de um milhão de visitantes curiosos de Maio a Outubro 1907, quando a exposição terminou. Foi estimado que entre 1870 até 1930, mais de meio bilhão de pessoas visitaram várias exposições ao redor do mundo com habitantes humanos.

Em 1906, este réplica de uma “fábrica” do Congo foi construída em Marselha, como parte de uma exposição colonial. Famílias congolesas também foram trazidos para trabalhar nesta fábrica. Em fevereiro de 2004 os restos mortais destas pessoas foram incinerados. 

Hoje, o Jardin d’Agronomie Tropicale (nome atual do local) é tratado como uma mancha na história da França. Mantidos fora da visão durante a maior parte do século 20, os prédios estão abandonados e decadentes e as plantações de espécimes de flora exótica há muito desapareceram.

Em 2006, foi franqueado ao público algum acesso aos jardins, mas poucas pessoas realmente o puderam visitar integralmente. A entrada é marcada por um pórtico chinês vermelho e os visitantes podem ter uma fugaz sensação de ansiedade ao entrar para, rapidamente reconhecer que, definitivamente aquele não é um lugar do qual os franceses devam ter orgulho.

Apenas algumas vias permanecem limpas e ao serem ultrapassadas nos levam a monumentos vandalizados, ruínas de casas queimadas e misteriosos e inexplicáveis objetos.

Há rumores de que um edifício, o “Pavilhão da Indochina”, será remodelado para funcionar como um pequeno museu e centro de pesquisa. Pode ser uma solução inteligente para um assunto delicado. Se o governo francês destruir definitivamente os jardins, pode atrair acusações de que está tentando encobrir o passado. Se os jardins forem totalmente restaurados, o fato poderia ser interpretado como uma exaltação ao colonialismo e ao uso sinistro da imagem de uma França poderosa.

Por enquanto o local continua a ser um tenebroso fantasma da cidade aberto a constrangedora visitação pública. “

Endereço:
Jardin d’Agronomie Tropicale
45 bis Avenue de la Belle Gabrielle, 75012 Paris
Imagens via Les Exposições universelles de Paris, Paris Invisível, Lynam Shane e Aubert Olivier

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Spirito Santo

2012

Umkhonto we Sizwe – Nós, Mandela e a lança da nação


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As realidades são bastante diferentes. Igualava-nos – ou iguala-nos- o racismo. Lá um população de esmagadora maioria negra, era oprimida por uma minoria branca, oriunda da Europa em levas migratórias posteriores às invasões coloniais.

Aqui uma imensa população negra oriunda da África colonial e trazida para cá em levas maciças de gente escravizada, que é mantida até hoje, em sua imensa maioria, em condições sociais algo semelhantes às que viviam seus antepassados, por força de uma abolição da escravatura que, não só não previu promoção social nem reparação alguma para os ex escravos, como estimulou a emigração maciça de europeus para ocupar todos postos de trabalho disponíveis, relegando as pessoas desta população negra à condição de párias.

Do ponto de vista de sua redenção, da superação de sua sujeição à dificuldades sociais extremas – principalmente nas nossas maiores cidades – os percalços da luta contra o racismo por aqui, tanto quanto lá, tem um papel preponderante. Contudo as duas questões têm diferenças bastante substanciais.

Uma delas é que a luta contra o racismo por aqui precisa passar a considerar, seriamente a redenção de TODAS as vítimas dos percalços sociais relacionados à exclusão de negros no Brasil e abandonar estratégias escapistas, assimilacionistas, voltadas para a redenção apenas de uma elite, marca ideológica mais evidente na prática de nosso chamado Movimento Negro Oficial.

Não se trata, obviamente de propor a adoção por aqui da luta armada (alternativa que, como vocês verão abaixo se tornou imperativa na África do Sul de Mandela), mas de apontar para a necessidade urgente de se planejar, organizar e por em prática formas mais radicais, abrangentes e efetivas de luta contra o racismo e suas mazelas sociais, para se mudar a sociedade brasileira neste e em outros aspectos que sirvam para nos transformar em gente de verdade, seres humanos iguais em todos os aspectos como pessoas como Mandela sonharam e sonham por aí.

Lutas como estas – o exemplo de Mandela é cintilante neste aspecto – não são travadas com ‘panos quentes’, nem tampouco foram talhadas para gente bundona e submissa.

Eles, os atenuadores de conflitos, os que tiram partido da situação, que se explodam.

De qualquer ângulo que se veja, contudo o exemplo da luta de libertação dos negros da África do Sul é simbólico. Mal comparando, sobram-nos os AR15s e a truculência de um lado – além da ‘conversinha‘ escapista e em ‘cima do muro’ de outro – mas falta-nos a lança simbólica da nação.

Vão vendo aí:

Umkhonto we Sizwe – Mandela, a lança da nação

(Extraído e livremente traduzido de SAHO / South African History Online)

“Em 16 de dezembro deste ano, fazem 50 anos desde que Umkhonto we Sizwe (MK, ‘A lança da Nação”) foi lançado como um braço armado do Congresso Nacional Africano (ANC).

Para marcar este aniversário, vamos contar história desta organização no exílio, focando suas atividades em numerosos países da África Austral. Ao países que serão abordados nesta série incluem Angola, Lesoto, Suazilândia, Moçambique, Zimbabwe, Zâmbia e Tanzânia.

A presença do MK em países como Angola e Lesoto teve bastante cobertura no passado, por isso é mais fácil começar esta série de histórias com estes 2 países. Nosso desafio é agora é descobrir material sobre outras as histórias do exílio que não foram abordadas em detalhes ainda. Se você tiver qualquer informação que você acha que deve ser adicionada a esse recurso, a partir de nomes de heróis desconhecidos de informações sobre determinadas campanhas e acampamentos informe-nos.

A formação do MK

Umkhonto we Sizwe (“Lança da Nação“) ou MK como era mais conhecido, foi criado no dia 16 dezembro de 1961. No mesmo dia em 1838, os africânderes haiam derrotado o Zulus na Batalha do rio do Sangue e era importante que a luta armada fosse lançada neste dia em particular, mais de cem anos mais tarde.

A formação de MK se seguiu a uma série de eventos que tornaram imperativo para os movimentos de libertação nacional na África do Sul avançar rumo a um desafio que tivesse impacto mais significativo sobre o governo de minoria branca. O Congresso Nacional Africano (ANC), juntamente com o Partido Comunista Sul Africano (SACP) e os membros da Aliança do Congresso, o Congresso Indiano Sul Africano , o Congresso Popular das Pessoas de Cor e do Congresso dos democratas, haviam se envolvido em atos pacíficos de resistência visando forçar o governo a finalmente reconhecer os direitos dos negros na África do Sul.

No entanto, as décadas de 1950 e 1960, mostraram a intenção do governo Sul-Africano de isolar ainda mais os negros do país através de várias leis e severas medidas repressivas. Além disso, em face de medidas repressivas por parte do Estado, surgiu a necessidade de se mudar de tática na forma como o ANC, SACP e a Aliança Congresso encaminhavam a luta pela liberdade e igualdade na África do Sul.

Multidões fugindo de balas no dia do massacre

As mudança de tática não ia ser uma coisa simples e fácil para o ANC porque há muito tempo que a organização havia abraçado aas táticas da “não-violência”, uma abordagem defendida pelo chefe Albert Luthuli, presidente do ANC naquele momento. Além da postura do “não-violência” que o ANC abraçou, haviam outras questões que não recomendavam a adoção da luta armada. Por exemplo, havia o fato de que no momento em que a decisão para formar a MK foi tomada, o CNA havia sido declarado proibido de atuar, enquadrado numa lei contra as organizações ilegais de 1960. Portanto, com a decisão de pegar em armas pelo ANC colocava a sua Aliança Congresso sob o risco de ser banida.

Eventos que levaram à decisão do ANC de pegar em armas

Na década de 1950 ficou claro para alguns membros do ANC e do SACP que a resistência passiva e a não-violência não estava dando resultados. Um fator que sem dúvida teve influência sobre o pensamento do ANC eo SACP, e que provavelmente teve uma influência sobre sua mudança de tática para a adoção da violência política em 1961, foi o fracasso geral do ANC nas campanhas da década de 1950 por mudanças políticas que fossem significativas, com base na política da não-violência e da moderação, seguindo os sucessos moderados da Campanha de 1952.

Algumas fontes afirmam que a razão para esses insatisfatórios e tímidos sucessos foram as reuniões improdutivas e sem foco. O CNA também manifestou mudanças de perspectiva nas suas políticas durante o congresso anual em 26 de Junho de 1955 em Kliptown, onde a Carta da Liberdade foi adotada.

O grande significado da Carta da Liberdade era que a percepção do ANC como uma organização africana avançava para uma crescente unidade entre todos os povos negros. No entanto, esta ideologia multi-racial acabou produzindo uma cisão no seio do ANC, por parte de membros como Robert Sobukwe que acabram por optar por uma visão panafricanista de uma “África para os africanos”. Robert Sobukwe formou então o Congresso Pan-africanista (PAC).

O mais importante catalisador da adesão da luta armada na África do Sul foi o Massacre de Sharpeville, em 21 de março de 1960, onde o governo esmagou violentamente uma manifestação pacífica contra a lei do Passe, organizada pelo Congresso Pan-africanista. A violenta repressão provocou a morte de 69 pessoas deixou 186 feridos. Também na província de Langa, no Western Cape Township 3 pessoas foram mortas e 27 feridos em confrontos com a polícia durante a queima de passes. A resposta despropositada do governo contra manifestações pacíficas e a subsequente proibição e banimento do ANC e SACP no mês seguinte, foi um golpe sério para o ANC e os seus aliados.

É portanto em 1960, após o massacre de Sharpeville e a proibição de organizações de libertação que muitos outros membros do ANC e SACP passaram a fiacr convencidosde que tinha chegado o momento de repensar a abordagem da luta e substituir o movimento de “resistência passiva” pela “resistência violenta”.

A proposta de “Mandela”

Até o final de 1960, a resistência popular parecia totalmente esmagada. As chamas ardentes dos passes tinham sido apagadas pelas balas de Sharpeville e Langa. A semana de paralisação conclamada para o dia 19 de abril de 1960 não conseguiu levantar o espírito do povo desanimado. Os líderes de libertação que escaparam da repressão maciça do governo, tiveram que sair para fora do país afim de começar a reorganizar a resistência a partir do estrangeiro. Para Mandela, este foi o ponto da virada.

“_Se a reação do governo é nos esmagar pela força, é hora de de abandonar as táticas de não violênca”_ disse ele numa reunião de imprensa local e estrangeira em uma casa segura.

“_Teremos que reconsiderar a nossa táctica. No meu entender estamos fechando neste momento o capítulo de nossa luta ligado à política da não violência”.

Várias sugestões foram dadas sobre com quem e como a decisão de pegar em armas iria se dar. Uma destas propostas, a primeira, foi a feita para o ANC por Mandela em junho. Ben Turok sugere, contudo que Mandela a fez numa reunião privada. Entre abril e maio de 1960, numa reunião que contou com a participação de um pequeno grupo de ativistas, Yusuf Dadoo, Jack Hugson, Joe Matthews, Michael Hermal, Moisés Kotane, Ben Turok, Ruth First, Bram Fischer e Bartolomeu Hlapane, Michael Hermel apresentou uma proposta de um movimento para a luta armada. A proposta, de acordo com Ben Turok, sugeria que:

“… Métodos pacíficos de luta não eram mais recomendados; que era preciso agora olhar para alternativas, e que a alternativa mais eficiente era a luta armada – a violência. Era necessário, pois, definir isso no contexto da teoria marxista e da teoria comunista e a prática revolucionária. “

Em uma reunião do ANC Comissão de Trabalho em junho de 1961 Mandela apresentou a proposta de uma ala militar. Inicialmente Moisés Kotane discordou. Ele argumentou que: “Ainda há espaço para os velhos métodos, se formos imaginativos e determinados o suficiente.” Eventualmente, entretanto, Kotane concordou com a matéria que está sendo criado com a Executiva Nacional.

Mais tarde a Executiva Nacional do ANC se reuniu em Durban. Como todas as reuniões do ANC, no momento, a reunião foi secreta e realizada à noite, a fim de evitar a polícia. Mandela antecipou dificuldades. Não havia dúvida que o momento era pobre. No julgamento por traição o CNA alegou que a não-violência era um princípio inviolável do movimento, e não simplesmente uma tática. Ele sabia que, além disso, que o compromisso de Luthuli, líder do movimento pela não-violência era profundamente moral e temia a sua oposição.

No entanto, Luthuli foi convencido:

“_Se alguém pensa que eu sou um pacifista”, disse ele, “e que vou deixá-lo tentar levar minhas galinhas, e ele vai saber logo o quanto está enganado!”

A sugestão de Luthuli era de que o movimento militar devia ser um órgão autônomo e independente, vinculada e sob o controle geral do ANC, mas fundamentalmente autônoma. Desta forma, a legalidade dos aliados ainda não banidos não ficaria comprometido. Houve concordância geral.

Na noite seguinte, o comitê executivo conjunto reuniu-se em Durban, incluindo representantes do Congresso indiano, o Congresso Popular dos homens de cor, o Congresso Sul Africano dos Sindicatos e do Congresso dos democratas.

Chefe Luthuli abriu a reunião dizendo que, ”_Embora o ANC já tenha endossado a decisão sobre a adoção da violência armada, julgo que a questão é de tal gravidade que eu gostaria de pedir que os meus colegas aqui nesta noite, reconsiderassem a questão de novo”.

Para Mandela, este era um sinal de que o chefe não estava 100% convencido por sua proposta. No entanto, quando a sessão de início às 20:00, Mandela apresentou os seus argumentos mais uma vez. Maulvi Cachalia pediu que o ANC não pegasse em armas, argumentando que o estado de abatimento do movimento de libertação total. “A não-violência não tem falhado…” sugeriu JN Singh.

“Discutimos a noite inteira”, lembrou Mandela. Mas, de repente, Naidoo, um membro do Congresso Indiano Sul Africano, disse a seus colegas indianos: “Ah, você estão é com medo de ir para a cadeia, isso é tudo!” Ao amanhecer, Mandela teve a sua autoridade.

Nelson Mandela e do ANC Slovo Joe do SACP foram autorizados a formar a nova organização militar, com seu alto comando separado do ANC. A política do ANC ainda seria a de não-violência. Eles foram autorizados a se juntar com quem quisessem para criar esta organização que não estaria sob o controle direto da organização-mãe (ANC).

No momento em que foi formado o MK foi tomada uma decisão de que ela devia ser uma entidade independente. Não há, porém, nenhuma certeza quanto aos termos precisos em que esta decisão foi tomada. Isso permitiu que o ANC e qualquer de seus líderes negar qualquer envolvimento com a atividade armada, permitindo que os MK organizasse a luta para fazê-lo em nome do ANC “.

O nome da nova organização seria Umkhonto weSizwe, palavra Zulu e Xhosa para a Lança da Nação. Seu nome curto seria o MK. O objectivo do MK era “lutar por todos os meios ao nosso alcance em defesa do nosso povo, nosso futuro e nossa liberdade”.

Planejamento para a primeira fase

A primeira fase da ação armada foi a campanha de sabotagem iiciada em dezembro de 1961 contra instalações do governo. As instruções foram emitidas para evitar ataques que levassem a ferimentos ou perdas de vidas.

Joe Slovo escreveu: “Ninguém acreditava que a tática de sabotagem poderia, por si só, levar ao colapso do Estado racista”. Era apenas a primeira fase da ” violência controlada”, destinada a servir um número de finalidades, num crescendo orientado pela necessidade de ações cuidadosamente planejadas, em vez de atos espontâneos ou terroristas de retaliação, como os que já estavam já em evidência … A ideia era demonstrar que era pertinente a realização de atos armados bem orientaos e responsáveis, no rumo de uma guerra civil civil contra todos aqueles diretamente ligados com o regime”.

Nos seis meses mais ou menos entre a decisão de formar a organização (junho) e os primeiros atos de sabotagem (dezembro), o MK definiu os comandos regionais nos principais centros. As pessoas selecionadas para fazer parte desses comandos foram escolhidos, ou porque tinha as habilidades técnicas necessárias ou militar ou porque eram membros das organizações da Aliança do Congresso.

Curnick Dlovu liderou a região de Natal. Looksmart Ngudle (morreu na prisão em 1963) e Fred Carneson eram líderes em Western Cape. Washington Bongco (enforcado pelo governo em agosto de 1963) foi comandante regional de fronteiras. Vuyisile Mini (que foi executado em 1964) foi uma das figuras-chave no comando do Cabo Oriental. Jack Hogson, Ahmed Kathrada, Arthur Goldreich e Dennis Goldberg estavam em Joanesburgo.

Ronnie Kasrils lembra seu recrutamento para o MK recém-formado:

“Em julho de 1961, Naicker me levou para um passeio ao longo da [Durban] frente para a praia …” _Me foi sugerido perguntar a você”_ , disse ele, acima do rugido das ondas esmagar contra as rochas ” _Está disposto a se envolver?”

“Teoria à parte”, escreveu Slovo …Ao se aventurar nesta nova era de luta nos encontrávamos mal equipados em muitos níveis. Muitos de nós não tínhamos uma pistola siquer. Ninguém sabia que tinha se envolvido em sabotagem urbana com explosivos caseiros … “

Jack Hodgson foi nomeado para o comando militar do MK de Joanesburgo, foi quem mostrou o rudimentos da prática. Ele havia sido um “rato do deserto”, veterano da campanha da Abissínia, durante os estágios iniciais da guerra norte africano.

“_Sacos de permanganato de potássio foram trazidos” _ escreveu Slovo “_ E passamos dias com pilões e morteiros moagem esta substância a um pó fino”.

Kasrils continua:.. “_ Ele (Hodgson) colocou uma mistura química com açúcar de confeiteiro em uma colher e cuidadosamente adicionou uma gota de ácido com um conta-gotas A explosão do pó em chamas e nós ficamos impressionados como alunos em uma aula de ciências.”

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Tudo começou assim. Observando-se a qualidade humana, moral, ética das pessoas envolvidas, nota-se talvez que, por isto mesmo, a vitória foi certa.

Spírito Santo

2012

Ui, ui!! Quase fui gay! Pra acabar de vez com esta homofobia


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O Titio está velho para debater estas coisas.”

A esfarrapada e escapista desculpa que dei para mim mesmo não colou e eu fiquei ali, nas cordas, com o dedo virtual de vários amigos em riste, apontando para mim aquela acusação de nome estranho e sem sentido:

_Homofobico!Homofobico!_”

Ai, ai. E eu que fugia do assunto feito o diabo da cruz para preservar a minha integridade, a minha saúde, a minha paz interior, pois, bem sabia que o tema era puro terror destilado aos potes para quem, como eu não é homossexual, muito menos simpatizante e além do mais não tem vocação para ‘maria-vai-com-as-outras‘. Justo eu, o acusador de tantas horas, useiro e vezeiro de apontar o preconceito alheio, ali naquele tribunal on line acuado pelos amigos, duramente admoestado como um reles demóstenes bolsonaro negão.

_Homofobico! Homofobico! Justo você, Tio?”

Mas afinal, porque ‘homofóbico?”_ perguntava eu, já rouco de argumentar. Não estou com medo -fobia – de nada nem de ninguém. Só quero ter o direito de ponderar e livrar a minha opinião dos ‘panos quentes’ no qual querem envolvê-la, como se fosse um monstrinho, um filho feio envolto em trapos cor de arco íris.

Ah. Mexeram no vespeiro de minh’alma? Agora aguentem.

Homofilia sem mestre. No fiofozinho da meada há sempre uma mão boba oculta

Conheço bem os dramas destes amigos. Pensam que não, mas sei de cor e salteado a razão de ser de quase todas as mágoas dos envolvidos neste ‘problema’ gay. E mais, fiquem sabendo: detesto esta palavra. Este anglicismo afetado que ela tem, este jeito de subterfúgio, de eufemismo chic. Eu, heim! Mas sei bem sim que, no fundo no fundo, as mágoas embutidas nesta palavra, dita a boca nervosa pelos amigos, nem são comigo.

Sei que discordarão com a veemência de sempre, mas arrisco-me a afirmar que talvez eles nem saibam direito de que são feitas as suas mágoas. Quem sabe não são mágoas com eles mesmos, remorsos de algo incompreensível, ou mágoas agudas com a sociedade, culpada vaga e contumaz de sempre, que entende estas coisas menos até do que nós? No fim, talvez as mágoas mais profundas sejam mesmo as difusas, aquelas de não entender algumas coisas que precisavam ser entendidas. Respostas redentoras que não existem porque alguém (vocês mesmos, quem sabe?) insiste em calar e fechar os olhos com estes óculos fashion, de ‘gatinho‘, de aros branquinhos, mas de lentes pretas feito alcatrão.

Afinal, quem pode afirmar que entende mesmo do que trata este assunto?

As mágoas da aceitação daquilo que ‘nunca será porque não tem juízo’. Talvez sejam estas, as mágoas mais antigas, estas que os ‘cala te bocas’ tentam apagar. Um nó cego dentro do peito. Um aperto sem dó capaz de curar.

Está certo. Não sou um expert no assunto, mas quem é? Se eu fosse um mauricinho destes de zona sul, cheio de nove horas, ainda vá lá, mas fiquem vendo aí que, de onde eu vim, fiquei escolado demais nestas coisas. Deste pequeno que convivo com isto aí. O que um menino de subúrbio ou de favela não vê?

Pois foi exatamente destas experiencias infantis que estas conclusões ditas homofóbicas me vieram e se cristalizaram em mim. Elas estão comigo desde lá atrás, me enchendo o saco sempre que ouço estas tergiversações de orgulho gay e estas acusações gratuitas de homofobia, mal se acaba de abrir a boca da escrita para demonstrar alguma justa aversão por coisa abjetas feito a pedofilia.

Se não são os comunistas, quem são e de onde vêm os comedores de criancinhas? Já se fizeram esta pergunta?

Conto aqui umas duas ou três historinhas de guri. Ninguém se arvore a duvidar delas porque são minhas memórias particulares. As mais agudas e profundas histórias, as de adulto, não conto porque são de foro íntimo demais, de mim ou de alguém e não interessam a ninguém, pronto. Mas conto estas outras sim, por causa dos porquês ocultos nelas, as pistas para um argumento ou outro, que podem muito bem, fortuitamente ajudar a limpar a alma de alguém além de mim, quem sabe?

O mote é o mesmo de antes: a relação que afirmo e reafirmo existir entre pedofilia e homossexualismo, doa a quem doer.

A ‘meia’ e a inteira. Historinhas de corar carochinha

A primeira imagem que tenho de homossexualismo foi, como todas as minhas primeiras imagens lembradas, no pátio do colégio interno do S.A.M.

Um menino branquelo, ali pelos seus 7 anos, aterrorizado chupando o pênis de um maior, à força, e depois sendo obrigado a chupar os pênis de vários outros meninos, um a um. Não haviam risos, nem mesmo histéricos, em torno da cena. Me lembro de ter ouvido constrangido, apenas os soluços compungidos do garoto submetido e mais nada. Só sei que, de tão enojado, entre os pênis chupados o meu não andou. Imagina! Quase vomitei com a cena.

Brabeza de história, não é não? Mas é tudo verdade. E tem mais.

A segunda história é comigo mesmo. Foi a incompreensível ‘patolada‘ (a tal da ‘mão boba’) que um barbeiro perneta, e velho, deu no meu inocente ‘bilauzinho‘ certo dia de manhã. O corte que usava era o ‘príncipe danilo’. Me lembro que eu era tão pequeninho que tinha que sentar numa taboa posta sobre os braços da cadeira, para dar altura. Fiquei meio travado, sem ação na hora. Me deu uma náusea rápida, logo reprimida. O velho não insistiu, me deu uma bananada, assim do nada e soltou um risinho nojento, indefinível para mim. Nem entendia direito o que se passava, algo a ver com sexo, mas o que significava sexo para mim? Nojo?

Aquele menino não, pois ele estava ali na escola prisão, sem pai nem mãe, submetido a força, mas a cena é de certo modo comum. Ele não. Ele como se viu fora uma vítima de uma espécie de estupro coletivo. Mas o que teria se passado daí em diante na cabeça de outros meninos seviciados como ele, de forma semelhante aliciados, abusados por outros meninos ou, na maioria das vezes, por adultos, antes mesmo de entenderem o que se passava. Tormentos terríveis, dúvidas atrozes, presumo.

E se o perneta insistisse comigo? E se eu não conto nada para a minha mãe e volto sempre para pegar mais bananadas, por que tortuosos caminhos de seu aliciamento sexual o sórdido perneta seguiria? Me seviciaria? Me induziria a masturbá-lo, chupá-lo? (…e olha o nojo voltando)… Uma coisa é certa eu seria um gay hoje em dia, com toda certeza.

E não me venham dizer que aquilo estava escrito, que os meninos seviciados nasceram com aquela predisposição para chupar os pênis dos outros, masturbar os outros, deixar-se penetrar como se mulheres fossem, que ‘nasceram‘ homossexuais, mulheres em ‘corpos errados‘. Ah! Não me venham com esta vergonhosa história de tanto pai e mãe omisso por aí. É claro que aquele incidente – a sevícia – foi determinante, foi o que deflagrou aquele futuro, certamente gay do garoto.

Não tenho histórias pessoais de ‘meiinha‘. Juro por Deus. Vocês sabem o que é ‘meiinha‘, não? Pois é aquela experiencia meio inconsciente de menino, bem novinho um experimentando ‘comer‘ o outro para ver se é bom. Nunca soube se era fato ou lenda estas histórias, até que um amigo do peito me confiou a sua história me descrevendo como foi que fez – ou o que fizeram com ele – isto aí, uns garotos maiores e mais fortes. Contou triste esta história. Apanhou muito do pai, anos a fio e foi a partir desta experiencia traumática das surras ‘corretivas‘, para vingar-se delas, que se tornou homossexual, me disse ele. Duvidam?

O que me aborrece mais quando me chamam de homofóbico, aliás, é isto aí: A lembrança vívida destas histórias sexuais infanto juvenis. Me aborrece esta reação extremada e cega, burra, ainda mais quando vinda assim de amigos. Me incomoda muito esta confusão que fazem da minha franqueza com estupidez, quando me lembro bem de ter sido confidente de vários amigos que se tornaram homossexuais, no momento mesmo de sua transição para assumir-se. Muitos mesmo.

Só posso atribuir a confiança deles a alguma coisa solidária que viram em mim, uma qualidade exatamente inversa a esta homofobia rasa que me atribuem agora, por estes dias, esta hipocrisia que permeia de tabus e pontos inconfessáveis os debates sobre o assunto. Não sei se foi a aguda compreensão que tive do caráter compulsivo da iniciação homossexual deles, aquela ação forçada a que foram submetidos na primeira vez o que, me comovendo, me deixou esta aura de gente boa e confiável. O certo é que tenho uma coleção destas histórias. Muitas!

Tenho até uma de mulher que posso contar. Da época do ginásio. Ela mesma, a pessoa, foi quem me contou.

O pai da moça era um negro alcoólatra. A mãe uma portuguesa autoritária (conto as pílulas da história já psicoanalisando o caso). No colégio público foi aliciada por uma professora ‘sapatão‘. Tentou superar o choque. Noiva, foi forçada a fazer sexo com o noivo grosseirão. Acabou com o quase casamento. Acabou se casando com um amigo meu, plácido e tranquilo. Um amigão dos dois.

O pobre flagrou ela com outra uma semana após o casamento. Pouco mais de um ano depois ela já estava com um jeitão de homem. A última vez que a visitei morava com uma outra mulher, mais aparentada a um homem do que ela, metamorfoseada à hormônio masculino, um machão de buço e barba, de sete costados. Cheguei até a flagrar uns olhares que me pareceram enciumados desta outra – ou ‘outro‘ – e nunca mais voltei a visitá-la.

A história mais triste, contudo é a do ‘Milton‘ (nome fictício) ator negro brilhante, o melhor de sua geração na época, numa noite de muita caipirinha com mel em Ouro Preto, nas locações do filme Chico Rei. Sei lá porque, talvez por causa desta minha aura solidária, nos melhores momentos da afinidade surgida entre eu, ele e meu amigo Samuka, Milton emocionado, com os olhos embargados nos contou como se transformou em homossexual:

Havia sido – e continuou sendo, durante algum tempo – estuprado pelos filhos de uma madame, patroa de sua mãe num apartamento da zona sul do Rio. Nunca esquecemos, eu e Samuka o rancor profundo que ele demonstrou ter daquelas pessoas que o estupraram, durante anos sem que a mãe soubesse – ou vá lá, até tolerasse, vai saber? O ódio da patroa da mãe, que fez vista grossa e talvez até estimulasse os filhos, era visceral. Não sei se todos vocês sabem, mas é muito comum as primeiras experiencias sexuais de mauricinhos da zona sul do Rio de Janeiro, terem sido feitas por meio do seviciamento das empregadas ou dos filhos de empregada como o caso de Milton.

Querem mais? Dou uma pausa? Relaxem. É tudo verdade, mas já passou. Milton inclusive faleceu pouco tempo depois. É por isto, para relaxar que a mais engraçada eu deixei para o final:

TV Manchete, final dos anos 80. Grupo Vissungo é atração no programa do Clodovil. No miolo do programa, antes do número musical, o entrevistado da banda é quem? Eu. Hum… Tímido como sou, reajo com agressividade quando acuado. Clodovil, malicioso, percebe. Me faz perguntinhas bobas, meio pessoais. Pergunta o meu signo e zomba do meu jeitão de machão empedernido, na defensiva por pura timidez.

Na saída, ainda no estúdio recolhendo os instrumentos, um câmera man me aborda com um risinho de lado e me dá um bilhete dizendo na lata:

_” Aí! ‘Seu’ Clodovil está te convidando pra jantar!”

Gargalhada geral da galera da banda. Eu morto de raiva, repulsa e vergonha, querendo estrangular aquela ‘bicha escrota’, estas coisas que os pudicos tem vergonha de confessar. Que filho da puta! Me achou com cara de pobre, que eu iria ceder a uma proposta destas, que eu iria aceitar um agrado financeiro durante um jantar com outro homem, um regalo, algo assim. Vou matar este desgraçado!

Mas, claro que eu entendia bem o que havia acontecido. Já não era mais nenhuma criancinha. Hoje conto rindo esta história. Estas coisas ficam escondidas por muitas purpurinas, mas na prática mesmo elas são assim, meio sujas.

E aqueles caras no banheiro do boteco, olhando ávidos para o meu pau?

Sem gozação anotei – e espero que vocês tenham anotado também – um lugar comum, recorrente nestas histórias todas de homossexualismo na infância: Em todas as histórias que vivi (não contei nem mesmo um terço delas), existe, de um modo ou de outro, o componente do aliciamento indesejado e, em escala razoável também a coação física ou, finalmente a sevícia, o estupro.

É o lado torpe desta história toda. Aquele lado que vocês, os românticos envolvidos não querem que se conte por aí, de jeito nenhum. As coisas trancadas no enorme armário das mágoas de vocês.

E mais: As histórias quase todas se referem a crianças, No geral são, como disse, histórias de seviciamento e abuso ou estupro, as vezes – poucas vezes, vamos admitir – abusos cometidos por outras crianças também, mas em todo caso incidentes ligados diretamente à pedofilia, ao abuso sexual de crianças por algum adulto, induzindo, marcando o surgimento do homossexualismo no seviciado.

Se isto não associa as duas coisas – homossexualismo e pedofilia – não sei o que poderia associar.

Você, homossexual, certamente se lembra de sua primeira experiência, mas você, pai ou mãe de homossexuais se lembra, se tocou sobre a natureza do incidente que deflagrou o homossexualismo em seu filho ou filha? Conversaram com eles sobre isto? Têm certeza de que não foi algum tipo de abuso sexual na infância, cometido por um adulto? Nem importa muito, mas perceberam que, em muitos casos, o abusador era sim um homossexual?

Mais fácil xingar o falador de homofóbico, mandar calar, ‘fuzilar‘ o mensageiro da indesejada notícia, não é não?

Os conceitos e seus defeitos

Organizando a bagunça do papo de cabelos em pé.

Achando que está, suficientemente dito e escrito já, porque afinal relaciono Homossexualismo e Pedofilia, no aspecto menos questionável, prossigo na relação que vejo daquele com a prostituição infanto juvenil (o aspecto negado de mãos postas, jurado de pés juntos pelos meus detratores).

(E vou logo avisando: esta parte é aquela repugnante. Os que tiverem nojinho e pruridos morais mais delicados, podem passar batidos.)

Dois tipos de experiencia e observação pessoal me instigam neste caso: Os foco de prostituição desta classe que vejo aqui no entorno do meu bairro e as experiencias de prostituição a mim relatadas por crianças ‘de rua’ (entre 8 e 12 anos de idade) nos abrigos da prefeitura nos quais eu trabalhei.

Devo frisar só de leve que, no caso dos abrigos da prefeitura os abusos ocorriam (ou ocorrem), aparentemente de forma generalizada e sob alguma cobertura institucional. Não posso afirmar, apenas suspeito da relação entre uma coisa e outra, mas soube que já houve um núcleo homossexual instalado nos cargos dos primeiros escalões da prefeitura na área da ação social, exatamente na época em que que o aliciamento de meninas para a prática homossexual com mulheres de meia idade era, aparentemente acentuada no sistema.

As experiências a mim relatadas, diretamente por meninos e meninas se referiam a práticas de aliciamento fora dos abrigos, ocorridas sempre que estes meninos fugiam para as ruas. Geralmente os incidentes podiam ser caracterizados como prostituição, pois, estes meninos eram – e são – de algum modo remunerados.

Os clientes eram – ou são – geralmente, segundo os relatos das próprias crianças, homossexuais masculinos adultos, geralmente de classe média, muitos já passados da meia idade. As práticas sexuais preferidas por estes clientes de serviços infantis iam (ou vão) desde os chamados ‘boquetes‘ (prática mais usual de meninas e meninos mais novos) até a penetração ativa ou passiva, cometida em – e por – meninos e meninas invariavelmente.

(Quem puder que me desminta)

Devo considerar relevante também a ocorrência de um fenômeno muito recente ao qual a maioria de vocês não deve ter conhecimento, que é a formação de estranhas comunidades gays femininas nas favelas aqui da Zona Oeste (notadamente, sei lá porque, em favelas de maioria nordestina). Este núcleos são formados por mulheres-homens na faixa entre os 55 e 65 anos, que se amasiam com moças bem mais jovens e as sustentam (um tipo de prostituição ‘branca‘, concluo)

Desconheço a dimensão deste fenômeno (que obviamente extrapola a simples questão do homossexualismo) fora da minha região, em outras comunidades, mas já são bem significativos os impactos das especificidades deste tipo novo de clientela em postos de saúde da rede pública local (consultórios de ginecologia despreparados para o atendimento de algumas patologias clínicas ligadas às pessoas que utilizam procedimentos, drogas e medicamentos para acentuar a sua masculinidade, interromper menstruações, etc.) e postos de assistência social como os programas de renda mínima como o Bolsa família (as mulheres-homens reivindicando direitos de pai de família, adotando os filhos das amantes ou ‘esposas‘, etc.).

É bastante alto também a incidência de homossexualismo juvenil nestas favelas ou comunidades, com a maioria dos jovens sendo encaminhados para o mercado dos garotos ou garotas de programa para clientela essencialmente gay e adulta (no caso dos meninos), atividade essencial neste tipo de prostituição.

A rigor, em se tratando de garotos e garotas muito pobres, não existe nenhuma alternativa profissional disponível que não seja este mercado, tornando o problema muito preocupante no que diz respeito ao mesmo impacto que pode ocorrer nos serviços de saúde pública (hiv e demais mazelas clínicas ligadas ao sexo promíscuo) em médio prazo, além do aumento dos casos policiais associados a homofobia ou riscos de violência típicos em qualquer tipo de ambiente ligado à prostituição.

Me parece oportuno ressaltar que estes fenômenos todos estão relacionados, diretamente ao aumento da naturalização de práticas homossexuais na nossa sociedade. Ajuizar sobre isto, não me compete. Os aspectos morais da questão são absolutamente discutíveis – e, confesso, que eles não me interessam, absolutamente.

Mas chamo a atenção das pessoas sim, fortemente para os aspectos puramente éticos da questão, além de sugerir que se comece logo a lidar com as esperadas consequências, os impactos gerais, diretos, efetivos enfim destes novos padrões de comportamento sexual em nossas relações sociais, estes impactos mais concretos e urgentes que esboçamos apenas de leve aí em cima, estes que ficam boiando por aí, omissos nas passeatas de milhões e milhões de adeptos do tal ‘orgulho gay’.

Fim de papo, por enquanto.

Escrevi um tratado maior ainda que este, tecendo considerações pessoais sobre este tema, mas elas escapam muito do meu interesse central, pois, instigado pelos desvios da conversa para o tema homossexualismo, enveredei por considerações político semânticas sobre isto tudo aí. Sei que posso me aborrecer muito mais se aprofundar o que penso sobre a questão, daí, ‘amarelei’.

Guardo para depois. Vou ali comprar um colete à prova de balas simbólicas, um antídoto contra eufemismos de ocasião e volto depois, quem sabe, talvez, um dia.

Nem peço licença ou desculpas mais aos amigos. Me encrespei com este papo torto de ”cerca lourenço’. Conversa que não entendo é ‘minhó’ calar.

Spirito Santo

Julho 2012

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Em tempo acho de uma incúria intelectual sem tamanho ter que explicar isto. Bastou-me apenas ir lá no google e chupar (ops!) a explicação. De onde tiraram esta ideia de que não se pode chamar homossexualismo pelo nome porque se estaria assim classificando a ação como uma doença? Pô, vai estudar, galera! Isto é matéria de ginásio:

“Na linguagem médica, a doença é frequentemente designada pelo sufixo “patia” acrescentado ao nome, em grego, do órgão afetado,  como gastropatia (doença do estômago), pneumopatia (doença dos pulmões) ou cardiopatia (doença do coração) e assim por diante .

“A partícula “ismo” é extraída da raiz grega ismós, surgindo no português como sufixo nominal, que designa uma doutrina; escola; teoria ou princípio artístico, filosófico, político ou religioso ou qualidade característica de um grupo.”


Ai meu Nzambi! O meu Candombe é de Angola, mas nunca foi Candomblé.


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Tambores de Justinópolis, MG

Ritual dos tambores de candombe de Justinópolis, MG, Brasil no filme de Rafael Galante

Hora de falar de cultura bantu no Brasil.

Veja o filme que o Rafael Galante me brindou a pouco e comece logo a sua peregrinação por dentro de si mesmo, com esta curta resenha do tio com algo a ver:

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Para quem não sabe, “Moçambiques” (ou ‘Candombe‘ em certos locais e para os íntimos) é uma dança do ciclo das Congadas, manifestação cultural de milhares e milhares de negros no sudeste do Brasil, notadamente Minas Gerais.

Não sabia disto? Melhor começar a se ligar então.

Não sabe também o que são ‘Congadas“? Ah…esta é fácil, o próprio nome já diz. Congadas São festas tradicionais relacionadas à reminiscências africanas ligadas aos áureos tempos do Reino do Kongo, hoje, em grande parte, a República Popular de Angola.

As roupas com saiotes, turbantes estilizados (toucas servem para simbolizar os ditos) , contas ‘do rosário’ cruzadas à bandoleira, os instrumentos onde predominam chocalhos de tornozelo chamados de ‘paiás‘ (na área onde eu pesquisei) e de ‘patangomas‘ os largos, de mão (feitos de latas, mas de função organológica idêntica aos “shikitisis” moçambicanos). Este o sufixo ‘ngoma‘, aliás claramente vem do mbundo (ou kimbundo)  angolano e aparece fortuito no vocábulo (a palavra ‘ngoma‘, que comumente designa tambor, neste caso pode estar até sendo usada para definir ‘instrumento de percussão’ em geral, étimo que me parece bem mais vernacular)

Candombe‘, pelo que sei ou minhas pesquisas sugerem, é o nome genérico que se dava no século 19 no sudeste do Brasil às religiões de ‘matriz africana’, como se diz hoje, em geral. A dança aí do vídeo, que eu conheço como ‘Moçambiques‘ e é, provavelmente a mais tradicional entre todas as danças de Congada, saída diretamente pelo que nos contam nossas fontes, diretamente de dentro das chamadas ‘Casas de Candombe“, espécies de templos ou terreiros onde se praticava rituais religiosos tipicamente angolanos (oriundos de lá) com viés afro católico muito provavelmente já contido neles, desde a África.

A palavra ‘Candomblé‘ (‘ka- ndombe‘ = com o sentido de “referente aos negros”), aliás, embora se refira hoje a rituais de matriz yoruba, nagô, veio com certeza deste termo ‘Candombe‘ aí.

Não se sabe muita coisa sobre os ‘candombes‘ por que, como vivo dizendo a nossa antropologia, nossa etnologia, estas coisas de ‘seu’ doutor aí, tiveram um desvio de rota nagoísta‘, ou seja: privilegiaram aspectos estapafúrdios da cultura de negros da África ocidental inglesa, um equívoco enorme que fez com que estas manifestações oriundas do antigo Reino do Kongo, Angola, mais precisamente, tão ‘brasileiras‘ que são, fossem inteiramente desprezadas até hoje.

O resultado disto é que quase não existe uma bibliografia decente sobre estas coisas no Brasil. Mas não não lamente. Corra atrás de sua própria cultura africana que ela já está no século 21. Reconstrua você mesmo a sua história, à sua imagem e semelhança, e seja feliz.

Contudo muitos segredos estão ainda aí contidos, meio ocultos e cifrados nas canções, nos maneirismos dos ritos, nas roupas, nas danças destas manifestações e poderão ser decifrados à medida em que mais e mais pessoas se debrucem, com a atenção necessária, na pesquisa destes fatores de nossa alma brasilis real.

Inseri algumas informações sobre isto em meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“, fruto de minhas pesquisas durante mais de 10 anos in loco, em algumas cidades de Minas Gerais (onde cheguei a ‘sair‘ como desfilante e ‘marimbeiro‘ num grupo de Congada durante 6 anos) e São Paulo.

Hora de olhar melhor a nossa cara bantu. Eu olho esta cara que está em mim, no espelho de casa, todo santo dia.

Spirito Santo

Julho 2012

Titio, o ebó e seu ego mui pretensioso.


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Titio segundo a crítica 'especializada'

Titio segundo a crítica ‘especializada’

Chupa! Enfim alguém critica o tio besta escrevinhador

Está certo que provoquei. Afinal esta é a minha especialidade. Enfim alguém leu, meticulosamente e desancou o tio, malhou o seu estilo, os seus conceitos, principalmente a sua pretensão escrevinhadora.

No final eu respondi, pirracento, meio que escondendo a birra (vocês vão notar), mas segurando a onda.

Referindo-se ao ultimo post publicado aqui no blog (“O manifesto do Contra Ebó“) O comentário saiu numa página do facebook chamada, providencialmente “Candomblé Pesquisa‘. Tem muitas outras críticas lá (o povo dali não foi muito com a cara do Tio não). Compartilho, portanto apenas aquele comentário mais representativo do pensamento geral dos críticos, assim mesmo como o autor , o jovem Kleverton Almirante escreveu:

—————–

“O texto me seduziu a entendê-lo. Procurei fazer uma análise dele. MUITA GENTE NÃO VAI LER PELO TAMANHO, MAS QUEM LER VAI ENTENDER PORQUE. Cabe a nós aceitar, ou não, se ‘Santo’ que come palavra de ordem não é santo de nada não. Primeiro porque há uma História que nos reporta várias histórias africanas, afrobrasileiras e escravagitas de até dias de hoje.
Sim, foi feita abolição do trabalho escravo de negros, porém nossos cultos ainda se sujeitam às palavras de ordem de uma cúpula esbranquiçada. E não é querendo promover discriminação à pele branca, mas aos pensamentos que reprimem e repudiaram nossa luta afro-religiosa-cultural. Confesso que notei um texto impregnado da gordura de um alimentador de ego. O rebusco das palavras, as conotações e denotações, as mais variadas formas de transparecer intelectualidade, tudo isso me enoja quando se faz para alimentar o ego e para aparentar superioridade sobre os leitores.
A gama de hífens, parênteses e aspas que ele usa não é crime, mas irrita. Daí o autor começa citando um ebó (coisa de negro macumbeiro). O autor é negro, mas preferiu ser intelectual para não ser nem macumbeiro, nem enganado? Faça-me o favor! A pior parte é quando ele cita que ainda era jovenzinho e pensou “ser ou não ser”. De fato, uma criança superdotada era. Entretanto, citar o ebó não foi lá uma ideia genial. Para se manifestar contra ele, fazia-se necessário dizer que ao invés de estar arriando ebó ali com a comunidade afro-religiosa, ou de estar comendo as guloseimas arriadas como qualquer criança, ele preferiu vender a garrafa capitalizando dinheiro para assistir um filme que o daria o cacife necessário de entender as lutas da nossa vida faroeste. Bem, o filme de bang bang o proporcionou um big bang mental, brain storms e seja lá o que for.
De certeza! Isso é tão dialético: ele preferiu não ser negro macumbeiro para ser pensante capitalista – lutador de mercado. Ao optar por ser uma coisa, não está sendo outra, vice-versa e todo o direito tem. No entanto, ontologicamente, há uma coisa pior aí? Ele julga e considera uma coisa ou outra pior ou melhor? Digo: não é assim. Ele fez suas escolhas e não se julgue superior por elas, cada um traça seu caminho e ele não tem, por ser este “lido” senhor de vasto currículo, mais valor que minha mãe-de-santo desdentada filha de Óba-Aganjú. Coisas que me enojam, prepotências desnecessárias, orgulhos vis de coisas vãs quando tudo são vida e caminhos diferentes, cada qual com o seu. Concordo quando ele fala do sábio Fanon (advinho) e do axé de gabinete “impregnando as nossas demandas políticas reais todas com estes caôs caôs e eparrêis de butique”. Nos sujeitamos muito a isso.
É verdade e já era previsível. É notório que ainda persistem em nossas casas de axé os filhos conformados, acomodados e ascetistas, que não resistem às palavras de ordem (de calar nossas bocas, de parar nossos tambores, de proibir nossa indumentária) por falta de interesse, estratégia e senso de luta inteligentemente unida em prol do que é negro. Sim, do negro. Não do jeje, nem do banto, nem do iorubá, mas do negro. Falta a muitos a inteligência da união. Apesar de não gostar da construção do texto, parabéns por ele. Faz refletir.”
Kleverton Almirante

Nota (só para informar): O jovem Kleverton Almirante é de Maceió e nos informa em sua página que fala Português brasileiro, Língua iorubá, Língua hebraica e Língua fon.

(Ops, titio mal fala o português carioca)

Daí titio respondeu, quase sem retaliar:

“Tá aí. Gostei. Principalmente do Kleverton, pela atenção meticulosa e pela franqueza. Raro, muito raro ser lido e comentado, criticado assim. Reclamei disto ontem mesmo por aí. As pessoas leem, mas geralmente se omitem nas respostas e não debatem.

Achei muito curiosas – e estranhas – as críticas ao estilo, algumas até muito pertinentes, pois eu também reluto em gostar de certas características desta forma de escrever. Mas as pessoas precisam ser um pouco mais pacientes e tolerantes (preguiça não vale como desculpa neste caso, certo?) diante das novidades, mesmo as questionáveis. A fila precisa andar.

Afinal, é óbvio que eu estou tentando uma maneira diferente de dizer as coisas sem tratar as pessoas como estúpidas. O fato de alguns não entenderem um texto não quer dizer, exatamente que ele é assim tão ruim.

As críticas que classificam o texto de ‘pretensioso’ eu aceito também, mas com a mesma ressalva: tem gente que gosta. Com um tema desta profundidade, difícil agradar a todo mundo.

Importante ressalvar também que recebo muitos comentários com opiniões exatamente opostas a estas. O que confunde muito o criticado. Tem gente que diz que adora e vocês detestaram. paciência. Afinal como entender que uns achem a escrita legal e outras a detestem. Deve ser por conta da ironia, recurso que, confesso, adoro.

Mas gostei sim de ser criticado. Sinceramente. Vou até aparar certas arestas nos próximos posts. Só não garanto parar de rebuscar, arriscar novas maneiras de dizer as coisas, porque senão…pra que escrever?

Escrever claro, agradando a todo mundo, me desculpem é coisa para escriturário.

De resto, considerando o nome da página (“Candomblé Pesquisa”) só me ressenti de não terem debatido, exatamente o tema em questão e terem preferido malhar o autor. Afinal, será que o estilo ‘rebuscado’ atrapalhou tanto assim a compreensão?

Posso, se quiserem fazer uma tradução.”

Ops!

Spirito Santo

Julho 2012