Beatriz não é a ‘Xica que dá”. História maiúscula ainda que tardia.

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Os mais atentos e chegados sim, mas de verdade mesmo poucos conhecem Beatriz  Nascimento – a quem nos fulgurantes ‘anos 70’ tive a honra de conhecer pessoalmente, cunhada do seminal estudioso da história dos negros africanos, Zé Maria Nunes Pereira, irmã de Isabel, mãe – e Zé Maria pai – da também historiadora Luena (de quem copiei o nome que dei à minha primeira filha) – Beatriz nossa grande e exemplar historiadora, precocemente desaparecida.

Eu sei, os historiadores, dificilmente ficam célebres, mas o desconhecimento da maioria sobre o trabalho único – infelizmente solitário – e corajoso de Beatriz é explicável também por suas atitudes de corajosa construtora militante de debates essenciais. Beatriz nunca foi ‘mãe Joana’ submissa aos cânones bolorentos da academia ou às armadilhas da submissa história contada do ponto de vista dos ‘vencedores’. Beatriz tinha a história como campo de luta.

(Beatrizes como esta rareiam por aqui. Vamos combinar).

Pincei este trecho (que se refere ao filme “Xica da Silva” de Cacá Diegues) agora mesmo da excelente revista de história Topoi, por sugestão da amiga Bete Scg. Vale a pena ler. :

Imagem, raça e humilhação no espelho negro da nação: cultura visual, política e “pensamento negro” brasileiro durante a ditadura militar, de Francisco das Chagas Fernandes Santiago Júnior Universidade Federal do Rio Grande do Norte Natal, RN, Brasil

…A historiadora Beatriz Nascimento exigiu a proibição da fita por ser um desrespeito que impõe a um episódio da história de um povo, desrespeito quanto à história de todo um povo, desrespeito na medida em que vilipendia este povo, desrespeito por manter os estereótipos em relação a um povo que no momento procura, em função de sua autonomia cultural, se livrar justamente desses estereótipos.

O trabalho de Diegues fugiria da veracidade histórica, desinformando a população e, “em termos da crítica das relações raciais no Brasil, nos remete à Idade da Pedra” [grifos do autor]. Nascimento identificou uma matriz ideológica na obra:

‘Repete como já dissemos Casa-grande e senzala. Os portugueses no filme, desde João Fernandes, passando pelo intendente, até o frouxo “inconfidente” são opressores, exploradores, mas complacentes com os negros, escravos, sentimentais (o pai do “Inconfidente” e João Fernandes) e, acima de tudo, bons apreciadores dos jogos do amor. Os negros, escravos e quilombolas são passivos, rebeldes inconsequentes (bandidos salteadores) e reconhecidos da bondade e generosidade do Senhor (…) O conflito racial (que não consegue transpirar satisfatoriamente) só parte das pessoas menos dotadas (…)’

Em suma, o éthos português colonizador é de humanidade e reconhecimento da pessoa dos negros: uma escravidão amena e divertida [grifo do autor]17. Finalmente, no final do artigo para Opinião, Nascimento faz sua grande crítica: Confesso que perdi as esperanças quanto à compreensão do intelectual branco brasileiro sobre a real história do negro. (…)

Se o senhor Diegues descesse um pouco da sua onipotência e fizesse uma reflexão sobre si mesmo e a implicação da história do seu povo em si antes de confeccionar o filme, entenderia que, devido às relações sociais e culturais,ele como um homem branco brasileiro possui introjetado, de forma específica, o negro brasileiro, sua posição em termos de homem e de raça. Mas ele, como a maioria dos seus iguais, deve ter um grande receio de descobrir esse ponto oculto…”

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Na veia como tem que ser. Leiam Beatriz e acordem desta letargia de ‘alma branca’ que tempo ainda há.

Spírito Santo

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~ por Spirito Santo em 03/07/2012.

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