O Manifesto do Contra Ebó. ‘Santo’ que come palavra de ordem não é santo de nada não.

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Manifesto do contra ebó

Manifesto do contra ebó

Protesto exortação do preto ateu – e à toa – cansado de ser enganado

O que me evoca isto tudo é o ebó que vi numa encruzilhada quando era jovenzinho. Sem um tostão, doido para matar aula e ir ao cinema, ao ver o despacho – que era para Cosme e Damião, sei lá – pensei no ato:

_”Ser ou não ser?”

O ‘ser‘ era me assumir crente submisso, acreditar naquela macumba toda ali espalhada, na farofa amarela engordurada e temê-la como o diabo teme a cruz (me diziam sempre que pisar, chutar, pegar despacho dava ‘cobreiro‘, o pé caía, a mão caía, este terror todo apavorando os incréus). Mas era complicado para eu guri. Cocadas, balas, goiabada, ameaçadoras delícias e a garrafa verde de guaraná vazia ali me instigando, o vidro brilhando ao sol.

O ‘não ser‘ – lógico – era pegar logo a garrafa vazia, vender no garrafeiro e ir ao cinema ver um filme qualquer de ‘faroeste‘.

– Não ser!”_ optei, sem pestanejar.

Oh, e como – muito mais que a chata aula – o filme de bang bang (big bang!) me fez bem!

Esta reminiscencia baba de quiabo toda, é porque ando cada vez mais entediado, com esta busca incessante – e cega – da maioria, pelos improváveis valores de uma etnicidade afro brasileira apenas supostamente africana, neste primitivismo fake de bom selvagem domado, vestido de tanga branca ‘de marca‘, como calção adidas de índio do xingu.

A Afrobrasilidade ideal – mesmo a imaginária, a sonhada ou idealizada – é óbvia demais já. Passou na janela. Quem não viu? Nem é preciso mais vestir fantasias de babalaôs, lagdbás do Mercadão de Madureira, brandir arco e flecha da Casa Turuna para negros ‘autênticos‘ sermos. Quem quiser ser – pronto! – Já é. E é tão bonito ser!

E tem aquela história: Ou bem se é ou não. Ser ou não ser hoje, não é muito mais do que a constatação da inescapável ambiguidade das meras aparências, dos ledos enganos. Quem quiser ser já é. Já disse. A África dentro de nós é nóis‘, de todos nós, e isto – tem mais jeito não – mal ou bem já somos. Fazer o que? Os pés chatos ou longos de todo brasileiro – de um lado ou de outro – já estão cozinhando no fogo de nossa cultura desde à escravidão. A obviedade desta constatação aí já está lá dobrando a esquina, não viram ainda não?

(E não venham querer me confundir com estes papos de miscigenação)

Os pés dos pedantes, dos envergonhados, dos complexados, dos aculturados, daqueles que almejam colocar os ditos pezinhos na sala do sinhô, aqueles que fazem chapinha nos cabelos da alma, alisando-os para parecerem europeus de fancaria, falsos, ‘tabajaras’, sem ‘marca d’água’, sem prazo de validade ou garantia, sem data de fabricação, sem pedigree nem nada, ah…estes que se danem. Vão acabar pisando as brasas da fogueira do jongo da verdade, na roda gira roda de suas vaidades vãs de colonizados tardios.

(E haverão de voltar desta ‘bad trip’ – qual carmem mirandas invertidas – africanizados)

Serve para que isto, esta etnicidade de aparências, de papelão amarrado com fita crepe? Dancinhas de santos de pau ôco pra inglês ver e cabeças raspadas – que hoje tanto podem ser cabeças de nego quanto de branco, cabeças de qualquer um – cucas vazias de conteúdo, cucas sem ‘brain storms‘ ou surpresas, que não explodem, que na hora agá dão chabu, servem para que?

Viram não? Agora mesmo se podia ver isto:

_” Vamos fazer tudo direitinho como os orixás mandarem” _

Diziam dia destes os doutores brancos do Valongo, tranquilos porque, afinal foram “os orixás que mandaram” a Prefeitura cimentar tudo, enterrar tudo, apagar tudo, construir em cima de tudo que bem se sabia estar guardado pelo tempo ali.

Um bom fim para os ossos, pensaram os sabidos: nada que uma lavagem de iaôs de turbante, com vasos grandes cheios d’água, vassouras e flores brancas não resolva. Os orixás mandaram, as babalorixás endossaram de corpo presente. A Copa do Mundo agora é nossa!

Mas o axé de gabinete desta gente, este axé domado que encabeça a nossa luta, anda fedendo a ‘defumador indiano’, a incenso palito de taróloga de Santa Teresa (saião de chita falsa, bustiê falso, turbante de seda falsa) impregnando as nossas demandas políticas reais todas com estes caôs caôs e eparrêis de butique.

_”Vem cá dá, dona doutora…Me confundi todo agora. Isto aí é horóscopo de revistinha de moças ou é oráculo de ifá?”

_” Ah…De que importa isto, meu filho? Não entendemos nada nada de Candomblé. Nem precisamos…”

Viram aí? Ah, ah! Brancos de alma com suas máscaras pretas. E o pobre do Fanon se remexendo no túmulo, repetindo:

“Je n’ai pas dit? Je n’ai pas dit? Je n’ai pas dit?

Ah, ah! Estes chavões bolorentos de ‘povo do santo‘, esta cultura negra oficial, serve para que isto? Que inglês, francês, que chinês – só para falar dos que nos são assim mais turistas – acredita que isto aí é mesmo o AfroBrasil à vera, de verdade e de tutano, autenticado de papel passado real?

Será que fingem que acreditam porque isto aí o ‘sinhozinho‘ bonzinho pode deixar passar, sempre deixou? Sinhozinho é sabido, sabiam não? Podem acreditar que sim. Ele dá a maior força para esta etnicidade de fachada que andamos exprimindo por aí. Sempre achei que é porque ela lhe convêm e dá ibope. Será que este nagô look fake rola solto porque o sinhô autoriza? Será que é porque isto não atrapalha a roda do velho mundo branco dele de rodar? Será que é porque esta a dancinha ‘primitiva‘ é a que agrada mais aos humores da Sinhá? Será?

E se fosse um bando de negão do Complexo do Alemão, de fuzil na mão, dançando um funk proibidão?

Ah… As perguntinhas cabulosas desta história. Porque nunca aparece alguém para respondê-las?

Mas a palavra de ordem de quem deixou de ser branco pra ser franco não deveria ser quebrar tudo, quebrar a roda da carruagem, passar por cima dela com o trator da liberdade? A questão de ordem não era gritar:

_”Chega de ‘sim sinhô, Sinhá! Chega de ‘sim sinhá’, Sinhô!” e derrubar estes sinhozinhos e sinhazinhas da Sociedade da Exclusão todos de bunda no chão?

Não seria não? Não seria não?

Creio piamente que até mesmo o mais iconoclasta dos ateus tem lá o seu lado místico. Até eu. Todo mundo reza pelos cantos na hora do ‘vamos ver’ e todos têm lá o seu direito a um foro íntimo, a sua religiosidade intrínseca, visível ou enrustida, evoluída do passado mesmo, à vera ou inventada – o que importa? Ela, a religiosidade de cada um, pode e deve ser exercida sim, mas penso que isto é para ali, no canto do templo ou do terreiro privado de cada um, ali que ela deve viver: Ela lá e nós aqui.

Então vamos combinar: A quem interessa – como ideologia e política – ficarmos nós negros eternos silvícolas, batendo atabaques de som rachado, brandindo sanguinolentas cabeças de cabritos por aí, em nome de que? De uma tal de ‘africana pureza‘? “Pureza? Pureza não liberta ninguém. Pureza não bota comida na mesa.

A quem interessa mesmo esta autenticidade de gibi, que para mim é meio que um ‘spam‘ da alma, pois nos invade o espírito para depois tentar hackear nossas sempre frágeis convicções, esta ideologia indecisa dos incréus, como um vampiro on line, saído dos confins mais obscuros do google, tentando nos levar a fazer sempre ‘o que seu mestre (o mestre ‘deles’ ) mandar’.

Evangélica, baseada que está em dogmas e mitologias escritas sim (como as bíblias e os alcorões), em teses e mais teses, pela academia branquela – mitologias tão infundadas e pouco científicas quanto a de qualquer outra religião – qual é a diferença – em termos de escravidão emocional – entre estes e os outros evangelismos proselitistas que pululam por aí? A quem serve enfim este primitivismo sem pé nem cabeça, selvagens – embora dóceis – rituais religiosos de uma apenas suposta pureza africana que ninguém diz, exatamente de onde veio  porque não veio mesmo de lugar nenhum?

Que pureza o que, mermão! Nem virgem maria, nem buda, nem khrisna, nem alah meu bom alá – quanto mais oxalá – nem mesmo eu (que não sou deus, mas não me acho assim de jogar fora) ninguém aqui é puro nesta vida. O bicho existe para ficar solto. O bicho solto pega, mata e come.

Está certo. Presume-se que isto seja uma filosofia, uma cosmogonia ancestral secular, mas não é, afirmo que não é. Esta África aí de mentirinha – esta pretensamente ‘pura‘ – é uma ficção absoluta, mero folhetim, gente! Só existe mesmo nos filmes de Tarzan, do “Fantasma-que-anda” (e seu pigmeu Guran), nas novelas da Sinhá Moça, da Escrava Isaura, nos filmes do Cacá Diegues. Esta África aí ‘do paraguai’ já morreu, pessoal. E é por isto mesmo – por ser falsa e morta – que ela acaba nos levando para o beleléu

Alienação, dizem os ateus mais praticantes. Alienação, esta sim, da pura. Ovelha negra, negra mesmo, a que se preza, não obedece e nem segue pastor, seja lá de que religião este puto pastor for.

Se o ‘povo do santo’ está nesta de bater cabeça para o poder ‘branco‘, qualquer poder, na base do ‘sim sinhô’, porque não virarmos logo… ‘povo da rua’ ?

A Afrobrasilidade ideal – a política, ideológica – esta que pretende superar o racismo que nos atravanca os caminhos e que fará avançar a democracia no Brasil, nunca foi santa. Em vez de rezinhas, mezinhas e cantorias em línguas exóticas ou quase mortas, que nem sabemos mais o que nos têm a dizer, nossa Afrobrasilidade – política e a ideológica devo repetir – deveria mesmo era nos atiçar as rebeliões mais improváveis e inesperadas, insubordinações de gente grande indignada e chutação de paus de barraca já tortos de tanto estarem de pé.

Precisamos de mais modernidade de fila andando, tempo passando, não é não? Estudar mais, acreditar cegamente menos, deixar de ser assim analfabetos de pai e mãe. Ter mais conhecimento histórico atestado, pesquisado, sacramentado (para não sermos enganados por qualquer doutor) ter a nossa cultura – que é brasileira, vamos afirmar – sistematizada (nem que seja apenas por nós mesmos).

Mais exemplos de enfrentamento dos ‘mais velhos’ a serem seguidos; menos ‘santos‘ efêmeros e mais heróis reais; menos carnavalização submissa, menos ‘promoção racial’ consentida. Enfim, morte ou aposentadoria já para este ‘pai joão’, ‘pai de santo’ enrrolão que nos governa a mente, não é não?

Ora, é óbvio que só o balde chutado à gol é que vai nos fazer felizes campeões de liberdade. Aquele frango preto estrangulado no alguidar da encruzilhada, só serve mesmo para instigar a pergunta que o futuro nos faz toda hora, aquela pergunta que gente aqui não quer calar:

_”E aí negadinha? Vai ou fica? Vai ficar nesta aí de envergonhar zumbi?

E aí? Vamos nos curvar aos dogmas da falsa ou suposta pureza religiosa de não sei o que – esta aí, tão exótica, tutelada, submissa e queridinha do sinhô – ou vamos assumir a gira da pomba rolou libertária da ideologia leiga, aquela do ‘y have one dream”, prenhe de modernidade, doida para virar a mesa?

“_ Cada cabeça, uma sentença”
_ pensa o carrasco, fazendo as contas de quanto vai ganhar pelo trabalho de cortá-las.

————

Quanto ao Titio: entre o alguidar de farofa e o garrafeiro, os misifios já sabem qual foi a opção:

Titio foi à luta. Titio véio de guerra não caiu nesta arapuca de ‘sinhô‘. Titio vendeu a garrafa do ebó . E forro por si mesmo… ‘matou‘ a pau a sinhá dona pureza. Em vez de se esconder no terreiro…foi ao cinema.

Com todo respeito – e com a melhor das intenções – só espero que por conta desta minha iconoclastia tão vadia, sadia, não me atrasem a vida e não me cortem o pé.

Spirito Santo

Julho 2012

(Já que estão no embalo, leiam só este comentário aqui: https://spiritosanto.wordpress.com/2012/07/07/titio-o-ebo-e-seu-ego-mui-pretensioso/

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~ por Spirito Santo em 06/07/2012.

2 Respostas to “O Manifesto do Contra Ebó. ‘Santo’ que come palavra de ordem não é santo de nada não.”

  1. Meu nobre “Holy Spirit”,

    Eu li seu blog – mais uma vez. O tempo e os afazeres aqui nas terras da rainha, tem me impedido de expressar minha idéia em tempo real. Mas este post seu me impeliu a escrever algumas linhas sobre o assunto.

    Bem, eu sou herdeiro e depositário desses tais valores africanos, os quais você cita. E te confesso que tenho uma postura em certo sentido bem ambígua…quase esquizofrênica…cresci em meio aos terreiros de candomblé e umbanda; meu tio de sangue é babalaô; eu mesmo sou confirmado ogã (mas não exerço o cargo…nunca participei de nenhum derramamento de sangue).

    Gosto do som do tambor; gosto – e não sei porque – de toda a energia que flui em cerimônias, como uma saída de santo, por exemplo…

    Mas sou ao mesmo tempo, um contumaz crítico de tudo isso. De um poder paralelo, secreto, que reproduz o modelo elitizante pros que se aconchegam aos pés do pai ou mãe de santo. Sou partidário da idéia de todo e qualquer poder corrompe o ser. Seja nesse mundo ou em qualquer outro.

    Por isso, decidi seguir à margem de toda essa tentativa – muito bem exposta por ti em teu artigo – de “resgatar e preservar ‘valores ancestrais’ africanistas”. Admito que nada ou quase nada sabemos de uma imensidão chamada África. E ainda temos a lente da escravidão atada à nossa visão. O dia-a-dia na minha cidade confirma isso, por exemplo.

    Então, passei a estudar por minha própria intuição tudo isso que seja transe, incorporação, diálogo entre planos e o que seja. Do que vi, entendo que há nisso um constante “negócio” entre este plano material e o imediatamente “além” deste. Ebós, despachos, comidas de santo, cabeças de bicho cortadas, sapos costurados e o que mais seja usado como oferenda ao orixá, sugere-me ser mais um condensador energético, uma antena, um magnetizador emitindo o balanço energético e intenção ali colocada, e isso funciona como um catalizador para as energias que só não dispõem deste nosso corpo físico, mas ainda mantém um corpo “astral”, sobretudo. E aí meu caro…aí é que a coisa complica…porque isso funciona mesmo como um business – um toma lá, dá cá. Quem já não tem corpo bio-físiológico, quer voltar a ter as sensações que outrora jah teve, apegado a esta realidade, como suponho. Quem está aqui, quer saber do futuro imediato, do porvir e tenta “torcer” o destino das coisas, se sobrepor à lei natural dos acontecimentos – vã utopia.

    Por fim, minha fé se deposita mesmo é no poder da In-formação. No que já não dispõe de corpo, de dispositivo, de contorno, de aparência, de canal. Minha crença me remete ao que é consciência flutuante, não nascida, nem perecível. Sou levado a intuir que corpo físico, emocional, mental e mesmo o espiritual, ainda são formas, recipientes da Real In-formação.

    Sou um rio por onde correm as águas da In-formação. Por isso, ainda que aprecie este ou aquele batuque, colorido, dançado. Ainda que me disponha a conversar com o caboclo, o preto-velho, o exu sei lah do q, a maria não sei das quantas, suponho serem estes meros intermediários e ainda formas em evolução tanto quanto você e este que te fala.

    Mas isso é apenas minha opinião pessoal, que sem ser requisitada, é desimportante ao Universo da In-formação.

    Td flui…td flui…

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  2. Guerreiro, seu nome não é Espirito Santo por acaso! Falou, pensou e escreveu por todos os nossos ancestrais NEGROS! AXÉ!!!

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