Umkhonto we Sizwe – Nós, Mandela e a lança da nação

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As realidades são bastante diferentes. Igualava-nos – ou iguala-nos- o racismo. Lá um população de esmagadora maioria negra, era oprimida por uma minoria branca, oriunda da Europa em levas migratórias posteriores às invasões coloniais.

Aqui uma imensa população negra oriunda da África colonial e trazida para cá em levas maciças de gente escravizada, que é mantida até hoje, em sua imensa maioria, em condições sociais algo semelhantes às que viviam seus antepassados, por força de uma abolição da escravatura que, não só não previu promoção social nem reparação alguma para os ex escravos, como estimulou a emigração maciça de europeus para ocupar todos postos de trabalho disponíveis, relegando as pessoas desta população negra à condição de párias.

Do ponto de vista de sua redenção, da superação de sua sujeição à dificuldades sociais extremas – principalmente nas nossas maiores cidades – os percalços da luta contra o racismo por aqui, tanto quanto lá, tem um papel preponderante. Contudo as duas questões têm diferenças bastante substanciais.

Uma delas é que a luta contra o racismo por aqui precisa passar a considerar, seriamente a redenção de TODAS as vítimas dos percalços sociais relacionados à exclusão de negros no Brasil e abandonar estratégias escapistas, assimilacionistas, voltadas para a redenção apenas de uma elite, marca ideológica mais evidente na prática de nosso chamado Movimento Negro Oficial.

Não se trata, obviamente de propor a adoção por aqui da luta armada (alternativa que, como vocês verão abaixo se tornou imperativa na África do Sul de Mandela), mas de apontar para a necessidade urgente de se planejar, organizar e por em prática formas mais radicais, abrangentes e efetivas de luta contra o racismo e suas mazelas sociais, para se mudar a sociedade brasileira neste e em outros aspectos que sirvam para nos transformar em gente de verdade, seres humanos iguais em todos os aspectos como pessoas como Mandela sonharam e sonham por aí.

Lutas como estas – o exemplo de Mandela é cintilante neste aspecto – não são travadas com ‘panos quentes’, nem tampouco foram talhadas para gente bundona e submissa.

Eles, os atenuadores de conflitos, os que tiram partido da situação, que se explodam.

De qualquer ângulo que se veja, contudo o exemplo da luta de libertação dos negros da África do Sul é simbólico. Mal comparando, sobram-nos os AR15s e a truculência de um lado – além da ‘conversinha‘ escapista e em ‘cima do muro’ de outro – mas falta-nos a lança simbólica da nação.

Vão vendo aí:

Umkhonto we Sizwe – Mandela, a lança da nação

(Extraído e livremente traduzido de SAHO / South African History Online)

“Em 16 de dezembro deste ano, fazem 50 anos desde que Umkhonto we Sizwe (MK, ‘A lança da Nação”) foi lançado como um braço armado do Congresso Nacional Africano (ANC).

Para marcar este aniversário, vamos contar história desta organização no exílio, focando suas atividades em numerosos países da África Austral. Ao países que serão abordados nesta série incluem Angola, Lesoto, Suazilândia, Moçambique, Zimbabwe, Zâmbia e Tanzânia.

A presença do MK em países como Angola e Lesoto teve bastante cobertura no passado, por isso é mais fácil começar esta série de histórias com estes 2 países. Nosso desafio é agora é descobrir material sobre outras as histórias do exílio que não foram abordadas em detalhes ainda. Se você tiver qualquer informação que você acha que deve ser adicionada a esse recurso, a partir de nomes de heróis desconhecidos de informações sobre determinadas campanhas e acampamentos informe-nos.

A formação do MK

Umkhonto we Sizwe (“Lança da Nação“) ou MK como era mais conhecido, foi criado no dia 16 dezembro de 1961. No mesmo dia em 1838, os africânderes haiam derrotado o Zulus na Batalha do rio do Sangue e era importante que a luta armada fosse lançada neste dia em particular, mais de cem anos mais tarde.

A formação de MK se seguiu a uma série de eventos que tornaram imperativo para os movimentos de libertação nacional na África do Sul avançar rumo a um desafio que tivesse impacto mais significativo sobre o governo de minoria branca. O Congresso Nacional Africano (ANC), juntamente com o Partido Comunista Sul Africano (SACP) e os membros da Aliança do Congresso, o Congresso Indiano Sul Africano , o Congresso Popular das Pessoas de Cor e do Congresso dos democratas, haviam se envolvido em atos pacíficos de resistência visando forçar o governo a finalmente reconhecer os direitos dos negros na África do Sul.

No entanto, as décadas de 1950 e 1960, mostraram a intenção do governo Sul-Africano de isolar ainda mais os negros do país através de várias leis e severas medidas repressivas. Além disso, em face de medidas repressivas por parte do Estado, surgiu a necessidade de se mudar de tática na forma como o ANC, SACP e a Aliança Congresso encaminhavam a luta pela liberdade e igualdade na África do Sul.

Multidões fugindo de balas no dia do massacre

As mudança de tática não ia ser uma coisa simples e fácil para o ANC porque há muito tempo que a organização havia abraçado aas táticas da “não-violência”, uma abordagem defendida pelo chefe Albert Luthuli, presidente do ANC naquele momento. Além da postura do “não-violência” que o ANC abraçou, haviam outras questões que não recomendavam a adoção da luta armada. Por exemplo, havia o fato de que no momento em que a decisão para formar a MK foi tomada, o CNA havia sido declarado proibido de atuar, enquadrado numa lei contra as organizações ilegais de 1960. Portanto, com a decisão de pegar em armas pelo ANC colocava a sua Aliança Congresso sob o risco de ser banida.

Eventos que levaram à decisão do ANC de pegar em armas

Na década de 1950 ficou claro para alguns membros do ANC e do SACP que a resistência passiva e a não-violência não estava dando resultados. Um fator que sem dúvida teve influência sobre o pensamento do ANC eo SACP, e que provavelmente teve uma influência sobre sua mudança de tática para a adoção da violência política em 1961, foi o fracasso geral do ANC nas campanhas da década de 1950 por mudanças políticas que fossem significativas, com base na política da não-violência e da moderação, seguindo os sucessos moderados da Campanha de 1952.

Algumas fontes afirmam que a razão para esses insatisfatórios e tímidos sucessos foram as reuniões improdutivas e sem foco. O CNA também manifestou mudanças de perspectiva nas suas políticas durante o congresso anual em 26 de Junho de 1955 em Kliptown, onde a Carta da Liberdade foi adotada.

O grande significado da Carta da Liberdade era que a percepção do ANC como uma organização africana avançava para uma crescente unidade entre todos os povos negros. No entanto, esta ideologia multi-racial acabou produzindo uma cisão no seio do ANC, por parte de membros como Robert Sobukwe que acabram por optar por uma visão panafricanista de uma “África para os africanos”. Robert Sobukwe formou então o Congresso Pan-africanista (PAC).

O mais importante catalisador da adesão da luta armada na África do Sul foi o Massacre de Sharpeville, em 21 de março de 1960, onde o governo esmagou violentamente uma manifestação pacífica contra a lei do Passe, organizada pelo Congresso Pan-africanista. A violenta repressão provocou a morte de 69 pessoas deixou 186 feridos. Também na província de Langa, no Western Cape Township 3 pessoas foram mortas e 27 feridos em confrontos com a polícia durante a queima de passes. A resposta despropositada do governo contra manifestações pacíficas e a subsequente proibição e banimento do ANC e SACP no mês seguinte, foi um golpe sério para o ANC e os seus aliados.

É portanto em 1960, após o massacre de Sharpeville e a proibição de organizações de libertação que muitos outros membros do ANC e SACP passaram a fiacr convencidosde que tinha chegado o momento de repensar a abordagem da luta e substituir o movimento de “resistência passiva” pela “resistência violenta”.

A proposta de “Mandela”

Até o final de 1960, a resistência popular parecia totalmente esmagada. As chamas ardentes dos passes tinham sido apagadas pelas balas de Sharpeville e Langa. A semana de paralisação conclamada para o dia 19 de abril de 1960 não conseguiu levantar o espírito do povo desanimado. Os líderes de libertação que escaparam da repressão maciça do governo, tiveram que sair para fora do país afim de começar a reorganizar a resistência a partir do estrangeiro. Para Mandela, este foi o ponto da virada.

“_Se a reação do governo é nos esmagar pela força, é hora de de abandonar as táticas de não violênca”_ disse ele numa reunião de imprensa local e estrangeira em uma casa segura.

“_Teremos que reconsiderar a nossa táctica. No meu entender estamos fechando neste momento o capítulo de nossa luta ligado à política da não violência”.

Várias sugestões foram dadas sobre com quem e como a decisão de pegar em armas iria se dar. Uma destas propostas, a primeira, foi a feita para o ANC por Mandela em junho. Ben Turok sugere, contudo que Mandela a fez numa reunião privada. Entre abril e maio de 1960, numa reunião que contou com a participação de um pequeno grupo de ativistas, Yusuf Dadoo, Jack Hugson, Joe Matthews, Michael Hermal, Moisés Kotane, Ben Turok, Ruth First, Bram Fischer e Bartolomeu Hlapane, Michael Hermel apresentou uma proposta de um movimento para a luta armada. A proposta, de acordo com Ben Turok, sugeria que:

“… Métodos pacíficos de luta não eram mais recomendados; que era preciso agora olhar para alternativas, e que a alternativa mais eficiente era a luta armada – a violência. Era necessário, pois, definir isso no contexto da teoria marxista e da teoria comunista e a prática revolucionária. “

Em uma reunião do ANC Comissão de Trabalho em junho de 1961 Mandela apresentou a proposta de uma ala militar. Inicialmente Moisés Kotane discordou. Ele argumentou que: “Ainda há espaço para os velhos métodos, se formos imaginativos e determinados o suficiente.” Eventualmente, entretanto, Kotane concordou com a matéria que está sendo criado com a Executiva Nacional.

Mais tarde a Executiva Nacional do ANC se reuniu em Durban. Como todas as reuniões do ANC, no momento, a reunião foi secreta e realizada à noite, a fim de evitar a polícia. Mandela antecipou dificuldades. Não havia dúvida que o momento era pobre. No julgamento por traição o CNA alegou que a não-violência era um princípio inviolável do movimento, e não simplesmente uma tática. Ele sabia que, além disso, que o compromisso de Luthuli, líder do movimento pela não-violência era profundamente moral e temia a sua oposição.

No entanto, Luthuli foi convencido:

“_Se alguém pensa que eu sou um pacifista”, disse ele, “e que vou deixá-lo tentar levar minhas galinhas, e ele vai saber logo o quanto está enganado!”

A sugestão de Luthuli era de que o movimento militar devia ser um órgão autônomo e independente, vinculada e sob o controle geral do ANC, mas fundamentalmente autônoma. Desta forma, a legalidade dos aliados ainda não banidos não ficaria comprometido. Houve concordância geral.

Na noite seguinte, o comitê executivo conjunto reuniu-se em Durban, incluindo representantes do Congresso indiano, o Congresso Popular dos homens de cor, o Congresso Sul Africano dos Sindicatos e do Congresso dos democratas.

Chefe Luthuli abriu a reunião dizendo que, ”_Embora o ANC já tenha endossado a decisão sobre a adoção da violência armada, julgo que a questão é de tal gravidade que eu gostaria de pedir que os meus colegas aqui nesta noite, reconsiderassem a questão de novo”.

Para Mandela, este era um sinal de que o chefe não estava 100% convencido por sua proposta. No entanto, quando a sessão de início às 20:00, Mandela apresentou os seus argumentos mais uma vez. Maulvi Cachalia pediu que o ANC não pegasse em armas, argumentando que o estado de abatimento do movimento de libertação total. “A não-violência não tem falhado…” sugeriu JN Singh.

“Discutimos a noite inteira”, lembrou Mandela. Mas, de repente, Naidoo, um membro do Congresso Indiano Sul Africano, disse a seus colegas indianos: “Ah, você estão é com medo de ir para a cadeia, isso é tudo!” Ao amanhecer, Mandela teve a sua autoridade.

Nelson Mandela e do ANC Slovo Joe do SACP foram autorizados a formar a nova organização militar, com seu alto comando separado do ANC. A política do ANC ainda seria a de não-violência. Eles foram autorizados a se juntar com quem quisessem para criar esta organização que não estaria sob o controle direto da organização-mãe (ANC).

No momento em que foi formado o MK foi tomada uma decisão de que ela devia ser uma entidade independente. Não há, porém, nenhuma certeza quanto aos termos precisos em que esta decisão foi tomada. Isso permitiu que o ANC e qualquer de seus líderes negar qualquer envolvimento com a atividade armada, permitindo que os MK organizasse a luta para fazê-lo em nome do ANC “.

O nome da nova organização seria Umkhonto weSizwe, palavra Zulu e Xhosa para a Lança da Nação. Seu nome curto seria o MK. O objectivo do MK era “lutar por todos os meios ao nosso alcance em defesa do nosso povo, nosso futuro e nossa liberdade”.

Planejamento para a primeira fase

A primeira fase da ação armada foi a campanha de sabotagem iiciada em dezembro de 1961 contra instalações do governo. As instruções foram emitidas para evitar ataques que levassem a ferimentos ou perdas de vidas.

Joe Slovo escreveu: “Ninguém acreditava que a tática de sabotagem poderia, por si só, levar ao colapso do Estado racista”. Era apenas a primeira fase da ” violência controlada”, destinada a servir um número de finalidades, num crescendo orientado pela necessidade de ações cuidadosamente planejadas, em vez de atos espontâneos ou terroristas de retaliação, como os que já estavam já em evidência … A ideia era demonstrar que era pertinente a realização de atos armados bem orientaos e responsáveis, no rumo de uma guerra civil civil contra todos aqueles diretamente ligados com o regime”.

Nos seis meses mais ou menos entre a decisão de formar a organização (junho) e os primeiros atos de sabotagem (dezembro), o MK definiu os comandos regionais nos principais centros. As pessoas selecionadas para fazer parte desses comandos foram escolhidos, ou porque tinha as habilidades técnicas necessárias ou militar ou porque eram membros das organizações da Aliança do Congresso.

Curnick Dlovu liderou a região de Natal. Looksmart Ngudle (morreu na prisão em 1963) e Fred Carneson eram líderes em Western Cape. Washington Bongco (enforcado pelo governo em agosto de 1963) foi comandante regional de fronteiras. Vuyisile Mini (que foi executado em 1964) foi uma das figuras-chave no comando do Cabo Oriental. Jack Hogson, Ahmed Kathrada, Arthur Goldreich e Dennis Goldberg estavam em Joanesburgo.

Ronnie Kasrils lembra seu recrutamento para o MK recém-formado:

“Em julho de 1961, Naicker me levou para um passeio ao longo da [Durban] frente para a praia …” _Me foi sugerido perguntar a você”_ , disse ele, acima do rugido das ondas esmagar contra as rochas ” _Está disposto a se envolver?”

“Teoria à parte”, escreveu Slovo …Ao se aventurar nesta nova era de luta nos encontrávamos mal equipados em muitos níveis. Muitos de nós não tínhamos uma pistola siquer. Ninguém sabia que tinha se envolvido em sabotagem urbana com explosivos caseiros … “

Jack Hodgson foi nomeado para o comando militar do MK de Joanesburgo, foi quem mostrou o rudimentos da prática. Ele havia sido um “rato do deserto”, veterano da campanha da Abissínia, durante os estágios iniciais da guerra norte africano.

“_Sacos de permanganato de potássio foram trazidos” _ escreveu Slovo “_ E passamos dias com pilões e morteiros moagem esta substância a um pó fino”.

Kasrils continua:.. “_ Ele (Hodgson) colocou uma mistura química com açúcar de confeiteiro em uma colher e cuidadosamente adicionou uma gota de ácido com um conta-gotas A explosão do pó em chamas e nós ficamos impressionados como alunos em uma aula de ciências.”

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Tudo começou assim. Observando-se a qualidade humana, moral, ética das pessoas envolvidas, nota-se talvez que, por isto mesmo, a vitória foi certa.

Spírito Santo

2012

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~ por Spirito Santo em 18/07/2012.

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