Jardin d’inégalité Tropicale:O Zoológico Humano ou a ‘Maldição de Paris’

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Madre de Deus! Oh, my God! Mon Dieu! Mein Gott! 

Até o titio se surpreende com estas coisas. Contei aqui a triste história de Sarah Baartman e sua bunda étnica, exibida como bicho raro – e erótico – em Londres, não contei não? (Veja o link) Contei também a gloriosa história das Amazonas do Dahomey que está aqui neste link, carrascas do exército colonial francês, cuja honra e arrogância guerreiras foram conspurcadas – por pura e covarde vingança, presumo – na captura e exibição em Paris de uma destas valorosas mulheres como animal de circo (descrita num gibi francês que coloquei como ilustração final do post).

Contei tudo aqui e agora conto mais.

No meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” aludi também – e sem me dar conta ainda, totalmente – da estranha e pouco comentada recorrência de uma prática colonista execrável, muito em voga logo após o fim do tráfico de escravos e das abolições da escravatura no mundo colonial:

A realização de grandes ‘exposições coloniais’ inseridas num esforço mundial pela douração da pílula do neo colonialismo, modelo que, com pouca maquiagem prevalece e domina até hoje

Apontando no que via, no livro me referi, particularmente à exposição colonial portuguesa de 1934, realizada no Porto, na qual nativos das colônias lusitanas trazidos de Angola e de Moçambique, basicamente eram expostos como animais num zoológico. Pois não é que só agora – por honra da inestimável e sempre pronta colaboração de Bete Scg, uzeira e vezeira aqui do blog – consigo ligar totalmente os pontinhos das coisas e a ficha cai?

Nada como um post atrás do outro.

Sim. Minhas suspeitas estavam certas. Todos estes fatos, incidentes e ações como disse, execráveis e abjetas, tudo indica que faziam parte sim de uma estratégia europeia geral, parte de um esforço amplo da iniciativa dos governos colonialistas de então, para legitimar as práticas relacionadas à continuidade da exploração colonial no chamado “outro mundo” (esforço no qual – sempre repito – esteve envolvido, direta e profissionalmente, remunerado que foi pelo ditador fascista Oliveira Salazar, o ‘nosso’ incensado Gilberto Freire).

Eram sim, agora posso afirmar, ações de algum modo articuladas, uma prática usual que marcou a “nova ordem econômica mundial” durante quase toda a primeira metade do século 20, só sendo interrompida e desmoralizada – de inspiração nazi fascista que estava profundamente marcada – com a derrota da Alemanha nazista na segunda Guerra Mundial.

Foi a derrocada da expressão franca e aberta daquela ideologia malsã deste capitalismo eterno, ele sim selvagem, que nos governa, que passou assumir a partir daí esta cara songa monga, cheia de hipocrisia malandra, escorregadia de hoje em dia (e a Rio+ 20 que nos diga), da qual o velho Gilberto Freire – perdão por insistir – nos impregnou a aura e a alma.

É. Sobre escravidão, colonialismo e racismo, ao que tudo indica, não sabemos mesmo ‘da missa o terço”.

Vão vendo aí:

Jardin d’Agronomie Tropicale: O amaldiçoado zoológico humano de Paris”

(Extraído de Messy Ness Chic Blog)  02 de março de 2012

No canto mais afastado do bosque de Vincennes, em Paris, encontra-se os restos do que foi outrora uma exposição pública para promover o colonialismo francês a mais de 100 anos atrás. O local só poderia ser comparada nos dias de hoje a algo equivalente a um zoológico humano.

Em 1907 seis diferentes aldeias foram construídas no Jardin d’Agronomie Tropicale, representando todos os cantos do império colonial francês no tempo de Madagascar, Indochina, Sudão, Congo, Tunísia e Marrocos. As aldeias e os seus pavilhões foram construídos para recriar a vida e a cultura das colônias e como eram e viviam as pessoas em seus habitats originais. Isto incluía replicar a arquitetura, a agricultura e espantosamente,  casas habitadas por pessoas reais, trazidas destes territórios distantes.

Os habitantes humanos da ‘exposição’ foram observados por mais de um milhão de visitantes curiosos de Maio a Outubro 1907, quando a exposição terminou. Foi estimado que entre 1870 até 1930, mais de meio bilhão de pessoas visitaram várias exposições ao redor do mundo com habitantes humanos.

Em 1906, este réplica de uma “fábrica” do Congo foi construída em Marselha, como parte de uma exposição colonial. Famílias congolesas também foram trazidos para trabalhar nesta fábrica. Em fevereiro de 2004 os restos mortais destas pessoas foram incinerados. 

Hoje, o Jardin d’Agronomie Tropicale (nome atual do local) é tratado como uma mancha na história da França. Mantidos fora da visão durante a maior parte do século 20, os prédios estão abandonados e decadentes e as plantações de espécimes de flora exótica há muito desapareceram.

Em 2006, foi franqueado ao público algum acesso aos jardins, mas poucas pessoas realmente o puderam visitar integralmente. A entrada é marcada por um pórtico chinês vermelho e os visitantes podem ter uma fugaz sensação de ansiedade ao entrar para, rapidamente reconhecer que, definitivamente aquele não é um lugar do qual os franceses devam ter orgulho.

Apenas algumas vias permanecem limpas e ao serem ultrapassadas nos levam a monumentos vandalizados, ruínas de casas queimadas e misteriosos e inexplicáveis objetos.

Há rumores de que um edifício, o “Pavilhão da Indochina”, será remodelado para funcionar como um pequeno museu e centro de pesquisa. Pode ser uma solução inteligente para um assunto delicado. Se o governo francês destruir definitivamente os jardins, pode atrair acusações de que está tentando encobrir o passado. Se os jardins forem totalmente restaurados, o fato poderia ser interpretado como uma exaltação ao colonialismo e ao uso sinistro da imagem de uma França poderosa.

Por enquanto o local continua a ser um tenebroso fantasma da cidade aberto a constrangedora visitação pública. “

Endereço:
Jardin d’Agronomie Tropicale
45 bis Avenue de la Belle Gabrielle, 75012 Paris
Imagens via Les Exposições universelles de Paris, Paris Invisível, Lynam Shane e Aubert Olivier

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Spirito Santo

2012

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~ por Spirito Santo em 19/07/2012.

Uma resposta to “Jardin d’inégalité Tropicale:O Zoológico Humano ou a ‘Maldição de Paris’”

  1. Antônio José; em termos de informações sobre “a história negra mal contada oficialmente” seu blog está de parabéns no objetivo que vc propõe. Esta págia tem imenso prazer em ajudar na divulgação do mesmo, ao mesmo tempo que considera sua iniciativa em criá-lo. Quando cliquei no artigo, abriu-se um linque de um blog. Realmente não prestei atenção em seu nome no linque “em frente ao cadeado”. Seria de fato redundante comentar o artigo. Mas a página do Grupo “Invisibilidade Negra” continua precisando da colaboração opinativa e da interação daqueles que fazem parte dela. Precisamos de gerar ideias, propostas, discussões e conclusões que satisfaçam aos objetivos desse grupo em “compartilhar práticas de combate ao racismo institucional.

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