Memória do Jongo. Sopro que aviva fogueira é fogo que faz ventar

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Memória do Jongo. As gravações históricas de Stanley J. Stein.

“…Memória do Jongo coloca ao alcance do público um material sonoro inédito. E outros quatro artigos ainda contextualizam a pesquisa, a história e os significados do jongo.

…Foram várias entrevistas que, lamentavelmente, acabaram extraviadas. Restaram algumas gravações, feitas com antigas bobinas de arame, esquecidas pelo autor. Estas gravações foram empregadas na tese de Stanley, em 1957, numa época em que a vidadas pessoas mal era observada por tal técnica.

…O historiador Gustavo Pacheco conheceu Stanley. Desse contato, foi retomado o assunto das gravações, relatado em um dos livros de Stanley.

Reencontraram-se em 2002. Pouco depois, as gravações chegaram às mãos de Gustavo. Recebeu as bobinas de arame com gravações originais de 1949. Foram estabelecidos alguns contatos até chegar à Unicamp. Uma das etapas mais difíceis comenta Silvia, foi decodificar as gravações do material bruto.

“A produção coletiva fortaleceu nosso trabalho e, o jongo, agregou elos internacionais”, verifica Marta. Para o historiador do IFCH, Robert Slenes, autor do capítulo a respeito das origens africanas do jongo, o livro constitui uma valiosa obra sobre a escravidão em Vassouras, num grande momento brasileiro (de 1850 a 1900)”.

(Projeto patrocinado pela Petrobras e editado pelo Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult) do IFCH e Folha Seca.)

Li esta importante publicação durante a pesquisa para o meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” (veja o link). Excelente estudo enfim, no geral com mui exatas definições sobre o que é a eletrizante manifestação do Jongo, envolto até então em velhos mistérios, nascidos do formidável descaso que a academia devotava a ele, envolvida com desvios nagoístas, no ‘candomblecismo’ de sempre.

(É muito sintomático, aliás – comentei lá no meu livro – que tenha sido a descoberta das gravações de um norte americano (Stanley Stein) numa bobina de arame esquecida desde 1949, o evento responsável por esta tardia saída do Jongo deste ‘armário‘ histórico conceitual em que o encerraram.)

No meu livro fiz longos comentários, em mais de um capítulo neste sentido, com reparos apenas pontuais embora incisivos, a maioria deles ligada ao pequeno aprofundamento devotado pelos autores às origens claramente angolanas da manifestação, colocadas a meu ver, de forma algo descuidada e imprecisa, genérica demais para um estudo que visava aprofundar o assunto, principalmente no que diz respeito à visão de Robert Slenes (também norte americano), incumbido no grupo de esmiuçar a parte relativa às origens mais evidentemente africanas do Jongo.

Acho que há também no estudo muitas imprecisões e omissões na análise dos controversos aspectos ligados à criação do ‘Jongo da Serrinha’ (e grupos similares) na cidade do Rio de Janeiro e a equivocada e excessiva influência desta linha espetacularizada, urbanizada e simplificada da manifestação ‘real‘ (a rural) do Jongo, utilizada por fim como padrão e modelo principal para o ‘tombamento‘ ou o registro do Jongo como patrimônio imaterial (ou seja, como manifestação de cultura…’tradicional‘, questão chave na resolução da Unesco que sugeriu esta onda de ‘tombamentos’).

O procedimento, cuja crônica só pode ser flagrada por meio do cruzamento de informações custosamente colhidas em fontes as mais diversas, foi para mim totalmente equivocado, pois ao contrário de sua vocação, acabou acelerando – e tornando em consequência irremediável – o processo de extinção da manifestação do Jongo em seu formato tradicional, que até aquela época (final da década de 1990) andava sendo ainda muito intensamente praticado, por muitas dezenas de grupos no interior, notadamente nos vales do rio Paraíba do Sul, RJ e ( sob o nome de ‘batuque‘, entre outros) dos rios Tietê e Pirapora, São Paulo.

Por força de documentos que eu próprio havia produzido em pesquisas na década de 1970 (entre eles uma sensacional entrevista com uma ex escrava residente na Serrinha desde antes da década de 1920), pude perceber, aliás que se omite no estudo que subsidia este livro, aspectos históricos ancestrais ligados ao surgimento da manifestação do Jongo no Rio de Janeiro e suas origens remotas no Vale do Paraíba do Sul no século 19, aspectos que seriam cruciais pra se entender e explicar o contexto, as implicações, as razões, a natureza enfim deste processo – bem posterior – de espetacularização citado. Os flagrantes do sutil processo de troca do jongo ‘certo‘ pelo jongo ‘duvidoso‘ enfim.

Entre estes aspectos, omite-se, por exemplo tudo que ocorreu antes da chegada da família de Darcy do Jongo para a Serrinha (oriunda do Morro da Mangueira), criando a partir daí um mito fundador – e heróis fundadores – totalmente descolado do evento fundador historicamente efetivo, factual.

Antropologismos de ocasião, travados por metodologias precárias que priorizam a bibliografia incipiente que produzimos sobre o tema, em detrimento de fontes outras (notadamente as orais as vezes únicos dados disponíveis) além de fontes externas ligadas às origens africanas no caso, exteriores a este nosso limitado afro brasileirismo primário, construído que foi sobre chavões e ramerrões ruins de doer ou engolir.

Tudo certo com o Jongo espetáculo. O sonho de Mestre Darcy, por vias tortas, finalmente está  realizado, mas trata-se de um problema cultural dramático, emblemático de nossos modos displicentes de ser. ‘Tombou-se’ como disse, o Jongo errado, condenando-se a morte o jongo rural, o tradicional que andava muito vivo ainda no Vale do Paraíba do Sul e que, com a enorme pressão do ‘jongo espetáculo’ (este das moçoilas  de saião estampado da Lapa e de Santa Teresa), teve que adaptar ao supostamente ‘novo jongo’, para não desaparecer de vez.

Na parte mais polêmica de meu relato – polêmica porque costuma ser rechaçada por muitos ‘novos’ jongueiros – afirmo que a forma de jongo ‘tombada‘ (registrada) pelo MinC, foi inventada na Serrinha por ‘alguns‘ agentes oportunistas, totalmente externos à manifestação e à comunidade local, que usando como pretexto, o visionarismo ingênuo de Mestre Darcy (inventor franco do ‘Jongo espetáculo’, que não tinha pretensões a serfolclórico’) dando forma a este jongo de hoje, equivocadamente tratado como se fosse algo folclórico e original.

Não é e nunca será. Neste sentido é uma farsa clara de jongo sem jongueiros.

Afirmo, portanto com base em inúmeros documentos, entrelinhas de teses de mestrado, dissertações acadêmicas e outros textos pinçados aqui e ali de forma fortuita, que estes ‘agentes‘ deste folclorismo fake, são, exatamente os mesmos que trabalharam intensamente no lobby instalado no final da década de 1990 para convencer Brasília (MinC) do ‘tombamento‘ da manifestação nos termos excessivamente abrangentes em que o registro se deu, facilitando a habilitação de suas Ongs de ‘jongo espetáculo’ ao acesso de verbas de patrocínio destinadas a preservação de bens imateriais tombados que, em caso contrário estariam restritos a formas de jongo apenas rurais (as realmente tradicionais).

Importante nesta hora constatar, portanto que no ensejo desta onda de tombamentos, foi percebida por estes grupos de predadores culturais a total incapacidade técnica, por parte dos grupos de jongo tradicionais (os ‘reais’), gente a rigor quase analfabeta, para concorrer a verbas de fomento e patrocínio em complicados editais de da lei Rouanet, passando a depender, inteiramente de intermediários, produtores culturais ‘ratões‘ e outros bichos sabidos que passaram a dar em árvore por aí.

É importante ressaltar também que este fenômeno da ‘apropriação indébita’ de bens culturais tradicionais imateriais, estimulado pelo ensejo destes ‘tombamentos‘ de bens culturais propostos inicialmente pela Unesco (e suas respectivas linhas de financiamento via renúncia fiscal), têm se tornado uma prática por demais rotineira neste Brasil de predadores sociais espertos e super atentos aos estoques de farinha pública (que, convenhamos nem é tão pouca assim).

Vão vendo aí – e o Titio já foi testemunha ocular disto – que a proliferação de mega projetos de turismo cultural, bancados por verbas muitas vezes milionárias por prefeituras de interior por este Brasil a fora, se baseiam inteiramente na existência de uma cultura popular submissa, maquiada e, sobretudo… tutelada com a inefável imaterialidade da cultura destes grupos de pobres negros, muitas vezes desvalidos, sendo usada contra eles mesmos como um defeito, um pecado original.

Cultura negra entregue a sanha de gafanhotos.

Quem quiser que me desminta, mas que desamarre a minha opinião com um ponto de jongo bem complicado. Bato o tambor e aceito a demanda. Acendo a fogueira na boa e até banco a cachaça.

É empolgante demais este assunto.

_Cachoeira!”

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~ por Spirito Santo em 27/07/2012.

2 Respostas to “Memória do Jongo. Sopro que aviva fogueira é fogo que faz ventar”

  1. Obrigado,
    Essa roda demora a acabar. Haja lenha pra essa fogueira.

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  2. Instigante! Belo ponto de demanda!!! Eu devia tê-lo lido antes dos meus rabiscos no capítulo da dissertação em que arrisco tratar das ressignificações, permanências e transformações… Das desconstuções necessária… Parabéns!

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