A pedagogia musical do Titio faz Musikfabrik na Maré


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A última experiência do Titio com jovens e crianças de favela foi mesmo inesquecível.

Se você quiser o tio ensinando e aprendendo com crianças como estas, vai ter que tirá-las deste gueto e trazê-las até o tio num espaço que não seja de exclusão.

O enorme e aprazível campus da Uerj, por exemplo está com o tio aguardando esta oportunidade. É preciso abolir a política do gueto em nós.

Durante os meses de junho e Julho de 2012, o Titio esteve a serviço do projeto Fábulas de uma Maré de História da ong Ação comunitária do Brasil lecionando percepção musical para crianças e adolescentes da sede da ACB na Vila do João, Complexo da Maré, Rio de Janeiro.

A pedagogia do Tio que se chama ‘Musikfabrik“, criada e implantada na Uerj em 1995, se baseia em exercícios de fabricação de instrumentos musicais pelos próprios alunos, durante os quais são repassados, quase subrepticiamente, atributos fisológicos e teóricos básicos da linguagem musical inseridos no no processo.

Acredito que só assim, sem separar jamais a prática da teoria, promovendo o contato físico mesmo com música, construindo e tocando o próprio instrumento, tornando o processo de aprendizagem orgânico que o cérebro registra e aprende música (ou qualquer outra coisa)…para sempre.

A experiência de ensinar e aprender com esta galerinha foi inesquecível.

Spírito Santo

Agosto 2012
(Mês e ano da graça da terceira idade do Titio)

O ‘Meia Ponto Cinco’ da longa estrada e o engano da cigana que não me enganou


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O dia, o mês e o ano da graça da terceira idade de mim

Foi numa pracinha ali do aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro. O ano? Nem sei mais.

A cigana me enganou, claro (ou se enganou, vai saber?). Me disse com aquela cara de pau santa de toda cigana que eu ia morrer aos 53 anos de idade. Me lembro que faltava muito para isto. Imagina! Uma idade remota demais esta. Não dava para imaginar. Nem achei um destino tão triste assim. “_ Aos 53!”_ pensei: _” Ah…já vou estar cansado, de saco cheio de viver”. Pois é: Eu tinha aquela idade entre a pós adolescência inconsequente e a consciência vaga e babaca de que precisava tomar prumo na vida, amadurecer.

A possibilidade da morte precoce me atazanava a alma sim, desde que me dei conta de que a idade tão precoce em que meu pai morrera era a de um quase menino, uma prova inconteste de que não ia mesmo ficar para semente. O fato é que estava até me conformado já com aquela linha da vida na mão direita se desmilinguindo em linhazinhas loucas que não iam mais sozinhas a lugar nenhum.

_ Aos 53…mais ou menos”_ ponderou a cigana, já meio vacilante.

A cigana deve ter visto isto, esta coisa de hora temer, hora não temer  a morte logo ali na esquina, num lampejo dos meus olhos meio incrédulos meio cabreiros, curiosos com o que ela ia dizendo de mim. Não sei não, mas se fosse crer em profecias de mulheres de saião florido já teria morrido mesmo, há muito tempo. Algumas destas, nem ciganas eram, mas desejaram de algum modo que eu morresse, me escafedesse, desaparecesse nos quintos do inferno.

Nada que me incrimine. No noves fora até que sou e sempre fui um cara bom. Mas vocês sabem como são as mulheres, não sabem não? Algumas, às vezes são dadas mesmo a estas maldades gratuitas e despeitadas, com estas manias de bruxa que algumas têm, isto de não querer ser fadas, mães, isto de achar feio e revoltante serem boazinhas para os homens que têm, coitados, que só querem mamar e ser felizes no quentinho de um ninho qualquer.

(Fico até rindo delas agora, daquelas que me perderam – ou não me acharam – quando me vejo no espelho e sei, por A mais B que não desapareci, desapareceram elas. E é por isto que, enfim:

Yo no creo en las brujas mujeres, pero en las mujeres brujas yo creo si.)

Não sei. Acho que a cigana trocou os números 3 e 5 que viu no meu pavor e leu a linha da vida de minha mão às avessas, como a daquele cara do filme que nasce velho e envelhece bebê. O certo é que temi até os 35 anos uma morte, como a do meu pai chegar por alguma razão fortuita, mas ela, a danadinha, não chegou. Esperei aos 53 ela me aparecer de novo, definitiva, poderosa, toda cheirosa e sestrosa me chamando para dançar, mas ela, a bandida, percebendo talvez que dançar nunca foi mesmo o meu forte, jamais apareceu. Daí, já sabem, relaxei.

Olhando esta foto aí eu fico surpreso demais da conta de ter ultrapassado os 35 ou os 53 anos desta quase interrompida vida e ainda ter avançado outro tanto mais, sobrevivendo a tudo e a todos apesar do que desse, houvesse e viesse.

Bem sei que a maioria das pessoas sobrevive assim, de algum modo, mas vejam esta minha vida. O quase nada que éramos naquela casinha quase a desabar, a alegria fortuita do velocípede que meu pai me dera – e que a minha irmãzinha sempre querida, arredia e ressabiada em outra foto agora ostenta nesta, irradiando felicidade de estrela matutina – é tudo, mas só ali naquele momento. O tempo todo, do que dá para se ver assim de longe, era de uma pobreza digna, porém áspera, de marré de si.

Corina, a mais velha, tia temporã, meio irmã dos dois já tem, percebo agora alguma coisa no olhar que entrega alguma tristeza vaga.

(E se quiser veja mais sobre o tio pequenino e seu velocípede aqui neste link)

Ah que dela ainda recordo o cheirinho cálido. A primeira casinha da vida, sabem lá o que é isto? Estrada Comandaí 632, Marechal Hermes, um subúrbio tão tão distante do Rio de Janeiro. Foi nela que eu vim a este mundo cão sem dono, assim vindo à luz, sei lá se pela chama claudicante de um candeeiro ou de uma vela, pela mão de uma parteira daquelas, das redondezas, aquelas mulheres mandonas e altivas, sempre disponíveis, que pela gratidão das paridas que assistiram, têm mais amigas devotadas do que as santas virgens marias.

Estas sim, por certo, as que merecem ir pro céu de cadeirinha, mais do que certas outras santas de pau oco, que lá no céu já estão, mesmo sem merecer, apenas porque são ou foram esposas interesseiras de Jesus.

O tempo foi furacão neste período de minha curta vida. Bibi, minha maninha já nasceu numa maternidade. Mudamos logo para a segunda casa, da qual nem uma fotozinha temos. Construída num terreno doado ou comprado a perder de vista de alguma promoção do governo de Getúlio para enganar a pobreza dos ex pracinhas, heróis da guerra na Itália – como o meu pai foi – ela, a casinha a ser nova, nos livraria do aluguel da outra, que mesmo assim tão desabada, não era nossa, fazer o que?

A casa mais recente, sempre inacabada, acabou ficando ainda mais precária e distante do mundo ainda do que a casinha em que nasci. Desta outra me lembro apenas da escuridão profunda das noites de chuva, um negrume rasgado apenas pela chama trêmula das lamparinas de lata, artesanais. Me lembro das narinas amanhecidas, empretecidas da fuligem do querosene. Me lembro do chão ainda inconcluso, de terra batida, frio e úmido, como o daquelas casas mais selvagens.

Mas a gente se acostuma. Meu pai falecera em 1951, logo depois desta fotozinha aí, assim, quase de repente como se viu, nos seus plenos 35 anos. Morreu, imagino, de sequelas do alcoolismo que, por sua vez era sequela dos tormentos da guerra, as bombas dos tedescos ecoando na cabeça dele durante a Tomada de Monte Castelo, os amigos morrendo metralhados um aqui, outro ali, mais um acolá e ele, José Cyrilo, rezando o Salmo 91 do Davi da Bíblia Sagrada, única coisa assim mais religiosa que eu aprendi na vida (e nem deu tempo de ser com ele).

Mil cairão a teus pés, dois mil a tua direita, mas tu não cairás”

A casinha que era para ser nova, ficou ali nascida velha precoce porque sem pai muito mais difícil ainda se tornou a vida para todos nós, a mãe da roça, prendas do lar tendo que inventar uma profissão do nada, virando enfim a costureira mais artista que eu conheci na vida.

Azar dos ricos, mas só os pobres têm – como tenho agora – este orgulho desmedido de ter vindo da lonjura mais remota, das precariedades mais absolutas para estar aqui agora, lido e sabido, vivo da silva contando esta historinha pra vocês. O certo – nada a ver com duvidoso – é que estou aqui cascudo, ferrado mas não alquebrado, roto mais não torto, sexagenário menino, me remoçando a cada dia, na terceira idade desta terceira chance sem data marcada por nenhuma cigana 171.

 Trinta e cinco? Cinquenta e três? Sessenta e cinco?

Eu, Titio ainda no prazo de validade (alguns defeitos e remendos, pegando no tranco, mas vamos que vamos), sentado porque planejo uma longa espera, aguardando sem ansiedade Ela, a Bela, a irresistível Dona Morte sem saião estampado nem nada, derradeira mulher bruxa que me conquistará.

Ela, Aquela que me levará pela mão, não para o paraíso que nem me apetece, mas assim para um purgatório mais animado, iluminado à neon, com cerveja gelada, frango com quiabo e cafuné. Claro que quero do bom e do melhor. E eu lá sou tolo, inda mais assim sendo velho? Velho tem que ser sabido, porque senão, se não for, será batido e engolido pelo esmorecer.

Se for céu de algodão doce eu bocejo, me enfado. Édem de novela de TV eu não aturo, acho que peço para sair, pego o meu boné e vou embora.

O certo é que  na minha folha corrida –  minha longa e torta linha da vida – está lá escrita em algum lugar me referendando:

Foi Interno de escola-prisão, foi Preso político no Dops da Rua da Relação e na Ilha Grande, foi Pintor de letreiros de propaganda em muros, foi Operário metalúrgico, foi Desenhista projetista de arquitetura, fui Ilustrador de livros infantis. Cantor, Músico, Folião de Reis e CongadeiroProfessor de si mesmo e dos outros,  Fabricador de intrumentos musicais afro inusitados, Escrevinhador autodidata que escreve pelos cotovelos, sobre o que lhe dá na telha e está aqui, pronto para outra, a meia ponto cinco na longa estrada, olhando pros lados, nas curvas, esperando Ela.

(Bandida! Danada! Se bobear arranjo outra e traio ela)

Spirito Santo

27 de Agosto 2012

(Dia, mês e ano da graça da terceira idade do Titio)

No júri dos lobos, as hienas e a confissão de culpa de todos nós.


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Caçar os lobos e não aceitar só carniça: Tal é a lei da savana.

É um mistério para mim. Não sei o que faz as pessoas em geral – inclusive as aparentemente mais lúcidas e centradas – perderem totalmente a noção, o senso de avaliação quando mergulham no poço fundo da adoração por uma religião, uma celebridade, uma tendencia política, um time de futebol, etc. O que estes temas chamarizes da dicotomia e do fanatismo têm de especial para provocar estes sentimentos tão primitivos é a coisa mais enigmática deste mundo. Eu acho.

Burrice, ignorância, ingenuidade política ou oportunismo social? Fico sempre na dúvida.

A criação de acirradas oposições entre grupos de pessoas, a radical polarização delas em dois lados de uma questão candente, uma muralha de fogo surgida do nada entre elas, é uma coisa que, às vezes, escapa a qualquer lógica. Bom senso algum prevalece nestas horas e as pessoas podem mesmo entrar em guerra até a morte de umas e outras, simplesmente por causa de divergências mínimas, as mais tolas, num ‘é pau ou pedra‘, ‘é oito ou oitenta’ totalmente sem sentido.Deve ser atávico ao ser humano, coisa normal portanto.

…Ou será que fazem isto sempre por ‘espirito de corpos’, por interesse de classe, de caso pensado? Não consigo definir uma posição firme e segura quanto a isto.

Me lembro claramente que na eleição para presidente da República de 1989 – a primeira eleição real depois da ditadura – uma coligação entre o PDT de Brizola e o PT de Lula venceria fácil, acachapadamente o outro candidato, o indigitado dito canalha e depois empichado Collor de Melo.

Como é comum no Brasil, a tragédia se fez presente desta vez e o PC Farias (o ‘careca do Fernando’) apareceu arquivo morto, ‘suicidado‘.

Mas o que foi que que as pessoas da classe média ‘de esquerda’ fizeram na época? Rejeitaram com nojo a coligação mais lógica das ‘esquerdas‘, desejada por Brizola que cansou de propor uma aliança de esquerdas clássica, um vice do outro, não importava muito quem seria quem, para enfrentar de forma arrogante uma direita esperta e articulada que, na indecisão das esquerdas, rapidamente ganhou o jogo, adiando os planos de plena democracia para um futuro bem distante.

Hoje fica óbvio que aquela coligação de apenas dois partidos, ambos de esquerda, com divergências apenas cosméticas, um assumindo pragmaticamente posições neo liberais, outro se dizendo socialista mais radical (para inglês ver, viu-se depois) tinha potencial e quadros de sobra para realizar uma transição virtuosa para a democracia com amplas chances de trazer para o país todos os benesses econômicos que, mal ou bem vieram (porque viriam de qualquer jeito) do esforço dos governos democráticos que se seguiram.

Ou somos, politicamente uns idiotas ou há algo de errado com a ideologia desta tal de ‘classe média‘ de esquerda porque, até hoje estamos patinando nesta maneira escorregadia e imoral de lidar com os interesses do país. É a única conclusão a que se pode chegar. Esta dicotomia entre as esquerdas, recorrente no Brasil, desde a primeira república, atravessando o tempo dos conflitos da chamada ‘esquerda revolucionária‘ até os dias de hoje, talvez seja o que mais atravanca um real progresso do país.

É uma cunha entre os interesses reais da população – que se submete à carniça do clientelismo por necessidade – e os interesses de uma minoria em cima do muro que, adepta fervorosa da ‘Lei de Gerson‘, leva vantagem em tudo. Podem crer.

‘Mares de lama’ e a história repetida como farsa

Foi assim com o polêmico Getúlio Vargas que, de certo modo representando um governo de centro esquerda em 1954 foi deixado sozinho pela classe média de esquerda, acossado, entregue às feras da direita fascista de Carlos Lacerda (franco aliado depois do golpe militar de 1964).

(Para quem não conheceu o Carlos Lacerda foi uma espécie de Roberto Jefferson melhorado)

E a tragédia, aquela mãe da outra, esteve aí presente, a ponto dele, Getúlio, vir a se suicidar.

Foi mais ou menos assim em 1964 quando João Goulart, do mesmo modo que Getúlio, seu suposto pai político, foi abandonado por esta mesma classe média ‘bem pensante‘ (neste caso cindida, uma parte se assumindo, francamente de direita, “pela família, com Deus e pela liberdade”, anti comunista e outra, enrustidamente se assumindo ‘revolucionária‘).

Não importa, a classe média ‘de esquerda’ (ou ‘de direita’, difícil saber) tem sido sempre o fiel torto da balança política do Brasil desde sempre.

Que ninguém se esqueça que neutralizada pelo cansaço a esquerda social democrata de Leonel Brizola, dita ‘populista‘, isolada como arcaica e ‘caudilhesca’, sobrou-nos a social democracia light do atual PSDB, uma articulação de centro esquerda que, se foi por um lado – precisamos admitir – responsável pelas soluções mais cruciais dos nós de nossa economia, tem sido também um atrativo e habitat seguro para tendencias direitistas as mais pragmáticas, o que polarizou mais ainda o cenário político e parlamentar da nação, transformando-o neste saco de gatos dos neo capitalistas ruralistas de um lado e esquerdistas de fachada (oportunistas) e clientelistas de outro, articulados em torno do PT, com a corrupção estatal e institucional disparando aos píncaros até assumir os níveis de vergonhoso campeonato mundial de ladroagem organizada que ocupa hoje.

O que se vê de diferente agora no panorama, alguém pode nos dizer? Nada. Tudo piorou.

Se fôssemos fazer uma analogia entre a campanha do ‘Mar de Lama’, série de denúncias deflagradas na imprensa dita ‘marron‘ (como a ‘golpista’ de hoje) sobre os desmandos e a corrupção nas antessalas do governo de Getúlio Vargas e o suposto ‘mensalão‘- o ‘Mar de Lama’ de Lula – o que poderíamos esperar com resultado do desfecho?

Nada de muito ético ou meritório e honroso posso garantir.

Mesmo estando moralmente desmascarado pela simples existência da denúncia do Mensalão tão sobejamente demonstrada nos autos, Lula não se suicidará caso José Dirceu e os figurões do PT sejam condenados.

Pior ainda: caso seus assessores e amigos mais diretos sejam inocentados – o que não é de modo algum improvável – Lula será reentronizado no poder e toda a curriola de supostos mensaleiros estará de volta às ruas e aos cargos, coroando estes modos torpes de se dirigir e gerir um país, divido como butim de guerra em ‘tenebrosas transações’.

Será a desmoralização total da política. A avacalhação total de nossos modos de lidar com nós mesmos. Nós o povo acanalhdado nos entredevorando na política suja do ‘meu pirão primeiro‘.

(Outro dia, vindo de táxi do aeroporto o motorista me disse: “_ Vou votar sim, tenho um candidato a vereador. Quero grama sintética na quadra de futsal do meu condomínio. Se ele me der arranjo mais de mil votos pra ele”)

Lá atrás, como hoje, quem é que dá suporte a esta esquerda torta que adotou a tática dos ‘fins justificam os meios’ que marca a corrupção generalizada no Brasil? Quem dá apoio político a estas práticas torcendo militantemente pela absolvição dos mensaleiros? Ora, alguém duvida que são os quadros desta mesma classe média ‘de esquerda’ de sempre?

(Claro que existem os ingênuos e os românticos – meus amigos por exemplo-  mas estes são poucos)

Insisto. Não sei o que faz boa parte das pessoas no Brasil apostar assim tão irresponsavelmente nesta esperteza rasa como forma de conduta, esta coisa de hiena que ri da morte alheia porque espera a hora de ganhar os restos da vítima, largados pelos lobos já fartos de comer.

É preciso exterminar os lobos e as hienas, é o que deviam saber os bons caçadores.

Como bem disse, mais ou menos assim, Bertold Brecht: um dia a vítima comida pelos lobos, aquela que você deixou ser capturada porque é a carniça que você, covardemente almeja saborear – pode ser… você.

Spírito Santo

Agosto 2012

(Mês e ano da graça da terceira idade do Titio)

‘Não brancos’ vestidos com as almas peladas


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1912. Comissão Rondon. O antropólogo Roquete Pinto grava índios na selva do Brasil

1912. Comissão Rondon. O antropólogo Roquete Pinto grava índios na selva do Brasil

Comissão Rondon e a canibalização do Brasil profundo 

Pensando na antropologia de nós mesmos, aqui e agora achei este filme fantástico: É um documentário sobre a Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas (CLTEMTA) conhecida como ‘Comissão Rondon’, 1912 Brasil.

Num fotograma que capturei, o Antropólogo Roquete Pinto (na foto de cima), integrando a parte científica da comissão, grava música indígena na selva num momento paradigmático das relações, sempre desiguais, entre brancos ‘civilizados‘ e índios ‘primitivos‘.

Muito bem construído e narrado, o filme deixa visível as demandas e contradições do pensamento ‘branco‘ hegemônico nacional voltado para a integração do Brasil não só do ponto de vista territorial mas também étnico, social, ‘racial’. Era a Política Indigenista. Visava-se ‘civilizar‘ o índio para torná-lo assimilável pela sociedade branca, na crença sincera de uns, maquiavélica de outros, de que o que era bom para o branco tinha que ser ótimo para o índio e todos os demais e estava acabado.

Não estava.

Ao lado, ao largo, à margem de todo este jogo de relações, curiosamente a foto flagra trabalhadores negros a serviço da Comissão. De onde teriam vindo estes negros, uma população absolutamente ausente naquela remotas plagas da tão inóspita Amazônia indígena? Quais seriam as relações de trabalho estabelecidas pela comissão com estes seres tão estranhos no ninho por ali?

1904 - Presos da revolta da Vacina a serem embarcados para o Acre para serem postos a serviço da Comissão Rondon.

1904 – Presos da revolta da Vacina a serem embarcados para o Acre para serem postos a serviço da Comissão Rondon.

Uma das poucas informações que se tem sobre a origem destes trabalhadores negros, misteriosamente integrados à comissão, nos dá conta de que, pelo menos em parte, eles vieram da Capital Federal, do Rio de Janeiro, rebeldes capturados após os sangrentos conflitos de rua relacionados às revoltas da Vacina (1904) e da Chibata (1910) motorneiros de bonde, anarquistas, marinheiros, capoeiristas, prostitutas, etc. e degredados, condenados à trabalhos forçados perpétuos na selva virgem, onde muitos, segundo alguns autores entre os quais Lima Barreto, foram devorados por bichos da mata.

Esta parte obscura da história da Comissão Rondon que eu saiba, ninguém ainda ousou investigar e contar.

História transversa e tenebrosa. Omissa. Ontem e hoje. “Uns‘ (os ‘brancos‘) devorando como canibais refinados a cultura alheia, a cultura dos ‘Outros” (índios) com os negros à margem de todo o processo, eternos escravos da nação, condenados à optar pela miscigenação ou à morte.

Vestidos e destribalizados naquela época, os índios voltam hoje a sonhar com a nudez exuberante de seu passado antes de Candido Rondon. O negro, vestido desde muito tempo, desde a África, continua à margem do rio da nação que corre, à sua revelia, sabe-se lá para que futuro, mas sonha em chutar o pau desta barraca de iniquidades já intoleráveis.

Instigante, intrigante história. Titio – que já contou a parte transversa dela em sua peça teatral  “ExuChibata” (sobre João Cândido e a sua Revolta da Chibata) volta com mais coisas disto aí uma hora destas.

Spirito Santo

Agosto 2012

A antropologia antropofágica e o prato frio da vingança


Creative Commons License Atenção: Todo o conteúdo deste blog esta assegurado por uma licença Criative Commons.Titio no papel (imaginado) de Nêmesis se vinga de antropólogo - Extraído de R'esident-evil' (ilustration)

Titio no papel (imaginado) de Nêmesis se vinga de antropólogo – Extraído de R’esident-evil’ (ilustration)

Ufa! Ainda bem. Nativos aculturados não comem os ‘estrangeiros’.

” Nemesis é a personificação da vingança, na mitologia grega. Ela é a deusa da justiça, da vingança, da injustiça, da piedade e dos zumbis. Uma versão fêmea e grega de Thor. A frase “fazer justiça com as próprias mãos” não se aplica a Nemesis, que prefere matar os indignos com golpes de machado e espada

Nemesis tem uma pequena lista negra, onde coloca o nome de suas possíveis vítimas. Dizem que ela morreu no Brasil, de fome, pois nem a justiça conseguia mudar algo neste país. Uma das poucas divindades que não são filhas de Zeus e não são cúmplices deste nepotismo bizarro que acontece no Olimpo. Também é conhecida como Maria dos Enforcados”

                     (Extraído de Desciclopédia)                     

Fui chamado disto aí em cima dia destes, mas nem me ofendi porque não me lembrava direito – juro!- o que significava. Fui ao Google, claro. Entrelidos assim os sentidos da palavra, vendo estes super poderes todos a mim atribuídos, não pude deixar de dar um risadinha sarcástica, de lado.

Vingativo o Titio? Mitologia grega numa hora destas? Engano deles. Perderam tempo culpando o mensageiro pela má notícia. E olha que o Titio nem gosta de comida fria.

Mas gosto da metáfora sim, porque na atribuição que me dão, estranhamente reconhecem que alguma coisa a ser vingada, resgatada de algum vilipêndio, alguma justiça a ser feita, com a qual, com os rabos presos que alguns deles estão, me brindam com estes lampejos de razão.

Explico: O papo era sobre Cultura Popular e patrimonialismo estatal, esta onda aí meio que recente do Estado, um governo ‘mui amigo‘, estimular por meio de leis e decretos a salvaguarda de bens culturais imateriais no Brasil. Tenho sido um crítico contumaz de certas minúcias deste processo, que acho questionável em muitos aspectos. É que tenho o hábito de dizer, certo ou errado, com todas as letras porque sou contra isto ou aquilo.

É assim que aprendo e ensino, batendo e levando. É esta a minha escola.

Meus interlocutores desta vez são, antropólogos em sua maioria, uns incomodados com certos pontos mais agudos da minha fala num artigo aí sobre um livro sobre o Jongo e os percalços da patrimonialização da manifestação por parte do MinC/ Iphan.

_É, mas você bem que dá umas implicadas nos antropólogos não dá ?! rsrs prá testar a nossa capacidade real de relativizar”_ Me disse uma amiga, simpaticamente, no calor do debate outro dia.

Exato. Todo autodidata adora puxar a beca dos doutores. Ocorre que – pensam eles – ‘quem diz o que quer, pode ouvir o que não quer’.

Que nada. Quando os instigo com minhas críticas – e eles não são os únicos doutos com os quais compartilho ideias – é, exatamente algum feedback que eu procuro: Ouvir as partes, saber as minúcias de suas proposições, as intenções omissas de suas ações, compará-las com as minhas, fazer a sintonia fina, por aí. Se me permitem também filosofar, diria que a verdade – quem não sabe? – esta fugidia moça que nunca aparece nua, peleja no campo aberto das ambiguidades e relatividades humanas. Difícil desnudá-la sem alguns arranhões.

(Mas, ai de mim. Mesmo assim, tão ponderado e paparicando a verdade com os mimos das minhas dúvidas, as minhas orelhas arderam em brasa.)

É que o papo foi sendo inserido por alguns leitores doutos no âmbito de uma crítica direta – ácida demais as vezes – que faço, e que eles, em contrapartida (ou represália, vai saber) agora me fazem, tentando desautorizar, ou desqualificar minhas opiniões.

Agem como se eu, qual uma ‘vítima indefesa da sociedade’ (pois sim!) estivesse curvado sob o peso das atribuições desairosas destes vários desqualificativos, que justificariam então a minha suposta…nêmesis, ou sede de vingança, dirigida à academia (esta dos antropólogos) entidade arrogante de besta que me teria ‘rejeitado‘.

É que uns – que pirados!- chegaram mesmo a insinuar inclusive, que o fato de não ser um pós doutor era o que me insuflava estas ondas de despeito. Vejam só: Eu, um recalcado, um ‘complexado‘, psicologia de botequim numa hora destas? Pois sim.

(Juro por Nemesis: mal comparando me sinto um verdadeiro Joaquim Barbosa nestas horas)

Alguns epítetos desqualificadores foram até elegantes (“essencialista‘ foi o mais fino deles,) mas fui chamado também de ‘folclorista‘ (que imagino ser uma ofensa mortal entre antropólogos, mas diante da qual, como não sou, pouco me lixo) e ‘ingênuo‘, com o sentido de filosoficamente despreparado, estas coisas.

Tem jeito não. Nestas horas, desço das tamancas. Tento pô-lo na coleira, amordaçá-lo mas o meu currículo…late.

Bem se vê que não conhecem – ou subestimam – o espírito anarquista do Titio, a doce e idosa ideologia ‘pomba rolou’ que me orienta. Eu o tio que, se apoiando nos direitos a ele conferidos pela ‘Lei dos Sexagenários’ se dá ao desplante de gritar, sempre que lhe dá na telha, ou quando lhe aporrinham:

_Cala a boca já morreu! Quem manda em mim sou eu!”

Essencialista”. Vocês sabem lá o que é isto? Calma que o google explica.

Ah! Já cansei de falar sobre isto por aqui (tenho críticas fundas à academia do Brasil sim, aos seus conceitos e processos escalafobéticos. Afinal, temos um taxa de 38% de analfabetos funcionais entre estudantes universitários do país e o Brasil, mesmo assim, cara de pau diante deste escândalo vergonhoso, fica por aí produzindo doutores como quem produz chuchu na serra. É ou não é uma universidade ‘tabajara‘, a que temos? Vão confiar nela sem conferir o pedigree e duvidar do Tio vira latas? Vocês é que sabem.

E sei que falo quase solitariamente – e longe estou de pretender ser o dono da razão – mas no avanço desta minha crítica insistente, chata e ‘mala sem alça’ (escrevi um livro inteiro conceituando esta minha furibunda posição), começo a receber já feedbacks cada vez mais consistentes de antropólogos ‘de verdade’, alguns até conhecedores profundos do processo de inventariamento de bens culturais imateriais (ou até mesmo envolvidos nele, diretamente, desde o início e em todas as suas implicações). Ou seja: Opiniões abalizadas – quase nunca concordantes, mas respeitáveis – começam a chegar e o debate (a roda) fica muito mais rico (a) e pegando fogo.

(Cá entre nós… me sinto até prestigiado com estas ‘brigas‘ santas, devo confessar.)

Conversa pra mais de metro, o mote central do nosso debate é o registro ou ‘tombamento‘ do Jongo, mas o contexto da conversa é bem mais amplo: a crítica que faço é ao conceito como um todo, a discussão sobre o papel do Estado – e de sua antropologia acadêmica, oficial – como mediador de conflitos culturais latentes, num campo social minado por interesses os mais ambíguos, conflitantes e questionáveis.

Entendam: Sou daqueles que creem que numa sociedade tão dividida como a nossa, é natural que existam conflitos de classe, ‘trelelês‘ e ‘ranca rabos‘ em todo o sistema. Não é marxismo de ocasião não (embora seja muito bom que o Marx volte à ser moda). É que a cultura humana não sobreviveria num campo de conceitos travados, harmonizados no mal sentido. Nem mesmo em teoria.

Se o Brasil é um país racista e o racismo é sistêmico, lógico que o Estado e suas instituições refletem este racismo. A universidade brasileira, até que se torne mais democrática, tradicionalmente ‘É’ burguesa e ‘E’ racista (e seu elitismo neste caso se confunde com o seu racismo). Não há ‘anti essencialismo’ algum que desminta esta equação.

Cultura é conflito e política o tempo todo. É gente vivendo, disputando espaço e comida, roda girando, carroça andando, sem parar e sem volta. Não rola a cultura de uns tutelada pelos outros. Isto é um paradoxo… existencial, é falta de ar. Não rola.

Ah! Quer dizer que a Antropologia Estatal ‘É’, se assume como ‘canibalista’, uma adepta da antropofagia declarada? Tudo bem, mas vamos definir primeiro quem está comendo quem e – o que é mais importante – do ponto de vista de quem está sendo servido assim ou assado de bandeja (a cultura…popular), se é mesmo bom ser comido.

E, calma aí. Sem esta de maldar a minha analogia, por favor

Situaram-se? Papo cabeça e cabeludo, não é mesmo? Mas é assim. Eles, os incomodados com as mais humildes críticas, tentam te pegar pela palavra, pelas filigranas do pensamento dito torto, rasteiras conceituais, como ‘rabos de arraia’ com meias de seda e borzeguim de pelica.

Que respondam então: As armas estão à mostra? Os interesses das partes estão mesmo às claras, postos na mesa? Quem não conhece estas histórias de hegemonia? Viram aquele filme livro “Enterrem o meu coração na curva do Rio”? O lobo branco colonialista comendo a cultura indígena norte americana com rabo e tudo. Ainda chuparam o sangue dos Sioux, trucidando-os em vingança pela derrota do General Custer no Little Big Horn.

Vai confiar? Vai mesmo dar as costas para este pessoal tão bacana e tão legal? Quando a corneta da 7ª cavalaria soa, o trator do ‘go home black and indian people’passa e não fica uma peninha de índio, uma lança de preto em pé.

Falo sem maldade vingativa. O pensamento diverso é sempre um pé no saco de quem opera na zona de conforto, do lugar comum lá do alto da atalaia do poder. Logo, para não dizerem que não avisei ou não argumentei, vamos seguir pinçando as linhas mestras da visão oficial sobre o assunto.

(Nem preciso lembrar que é preciso ler também as entrelinhas):

I Seminário Nacional de Políticas Públicas para Culturas Populares

05/02/2010

A ideia da realização do I Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares surgiu de muitos anseios, tanto por parte dos indivíduos, grupos e comunidades que não viam respeitadas suas culturas e modos de fazer, como por parte dos militantes, intelectuais e apaixonados pela cultura popular. A tantos anseios somou-se a vontade de administradores públicos de contribuir, efetivamente, para o reconhecimento e a valorização das culturas populares.”

O evento final (do seminário citado) contou com uma rica programação cultural e promoveu espaços de diálogos entre diversos manifestantes das várias regiões do país, além de pesquisadores, produtores culturais e gestores públicos, em clima de harmonia, alegria e responsabilidade, num ambiente fértil e único para manifestar seus modos de expressão. “

O reconhecimento da diversidade, das especificidades e do valor artístico e cultural das manifestações populares pelas instituições públicas e privadas é parte fundamental do processo de inclusão cultural e econômica e do desenvolvimento humano”.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas considere-se, logo de saída que este grande pool de instituições oficiais têm um poder acachapante diante de quaisquer interesses diversos, eventualmente opositivos dos grupos de cultura tradicional envolvidos, os quais não se encontram, de modo algum organizados ainda, à altura de tão grande demanda e de interesses postos em jogo.

Por qualquer ponto de vista que se olhe a questão, os ditos “brincantes‘ são uma instancia totalmente indefesa ainda neste processo. Logo, o tal ‘clima de harmonia, alegria e responsabilidade‘ (estranha colocação, pois, nenhum risco de conflito aparece anunciado) tem um caráter muito mais de ato compulsório, tutelado do que natural e espontâneo.

O Estado acenou algum espelhinho. Disto tenho certeza e posso provar.

(E permitam-me dizer aqui: ai, como detesto esta palavra ‘brincante‘, que infantiliza os praticantes de cultura dita popular, como se estes fossem retardados mentais, seres culturalmente inferiores. Detesto também a expressão ‘nativos‘, pois me fica sempre a pergunta: Ué? Seriam os antropólogos do Brasil estrangeiros?)

Chama-me a atenção também – me intriga mesmo – a dicotomia sugerida no documento entre “indivíduos, grupos e comunidades que não viam respeitadas suas culturas” (os‘brincantes’, os‘populares’, propriamente ditos) de um lado, e “militantes, intelectuais e apaixonados (ui!) pela cultura popular de outro (instancia, aliás indefinida, com um mal disfarçado caráter de classe). É curioso também como o documento omite, cuidadosamente e não esclarece afinal da parte de quem partiu este desrespeito ‘às culturas e modos de fazer’ dos ‘grupos e comunidades’ arrolados.

Estas considerações entrealinhavadas mudam muita coisa no entendimento das intenções políticas dos decretos, exigindo muita relativização acerca do que se afirma logo a seguir, pois sejamos francosNo Brasil NÃO é, definitivamente o povo ‘brincante‘ quem ‘organiza o movimento e orienta o Carnaval’

E aí, a pergunta que insistentemente faço, convenhamos até que procede:

Afinal. Nestas ações de patrimonialização e salvaguarda de bens imateriais, quem foi que pediu para o Estado se meter na briga cultural entre brancos e não brancos, pobres e ricos do Brasil? Quem foi que pediu? Quais são as motivações deste Estado tão bonzinho?

(Só para avivar nossa mente, ressalte-se que a convenção da Unesco que deflagra todo este processo é do ano 2000)

Acesa a fogueira e servida a cachaça, antes de seguir com os seus pontos de demanda e visaria, Titio deve desamarrar alguns pontos da roda de Jongo anterior (esta, a dos antropólogos jongueiros)

O principal destes pontos é a oposição criada por estes meus simpáticos ‘opositores‘ entre as suas ideias neo preservacionistas e as minhas, tachadas por eles de ‘essencialistas‘, ‘folcloristas‘ ou quiçá até mesmo, ‘ingênuas” ou mesmo…’fascistas‘.

É que esta minha banca desorientadora aderiu a uma estratégia de fundo academicista, na qual os epítetos me chegam sempre sob a forma de conceitos síntese cabeludos, citações de eminentes teóricos da moda, conceitos estes travestidos de jargão doutoral enfim que, como todo mundo sabe, são aplicados num debate não para explicar, mas apenas para confundir mesmo, humilhar o interlocutor mais desavisado, soterrando-o sob um mar de sapiências

(Nada a ver, mas…sei lá: Modernistas que são, vai que o mestre de alguns deles foi o Chacrinha?)

É por isto que o Tio vai traduzindo, descomplicando o jogo de jargões:

PATRIMONIALIZAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DAS IDENTIDADES CULTURAIS

Xerardo Pereiro Pérez, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal)

a)Tradicionalista ou folclorista. O património cultural é aqui reduzido a um conjunto de bens materiais e imateriais que representam a cultura popular pré-industrial. A sua visão é historicista, pois consideram o património cultural como objecto e relicário do passado, mas também é conservacionista, pois pensa que o fim último do património cultural deve ser sempre a sua conservação, independentemente do seu uso actual. Os critérios de preservação de artefactos e edifícios do passado devem ser os de época e beleza.

(Área onde tentam enquadrar o Tio, confundindo as bolas do ‘essencialismo‘ e do ‘folclorismo‘ – usados como ofensas sutis – com as leigas ferramentas dialéticas de análise que usei – a reconstituição histórica, o estudo comparativo do processo anterior ao inventariamento, o meio, o contexto, estas coisas básicas  – para descobrir os elementos que servissem para desmascarar os equívocos e contradições que eu acho que existiram no processo do tombamento do Jongo, por exemplo e que ninguém agora quer admitir.)

b)Construtivista(Prats, 1998). O património cultural é entendido como fruto de um processo de construcção social, isto é, segundo as épocas e os grupos sociais, valorizam-se e legitimam-se uns bens patrimoniais e não outros. Por exemplo, no caso do Brasil há uma tendência para não patrimonializar o legado africano e indígena, nem tão pouco o dos subalternos(Funari, 2001). Nesta perspectiva, o património cultural é entendido como uma representação simbólica da identidade, mas também em muitas ocasiões como sinónimo de cultura.

(Área onde atuam muitos antropólogos brasileiros, enrustidamente interessados em diluir aspectos tradicionais da cultura negro africana, embora ao contrário do que o texto sugere, valorizem, as vezes em demasia, os mesmos aspectos na cultura indígena. Eu os considero portadores de um racismo atávico, muito calcado nas teses de Gilberto Freire, as quais não assumem claramente, entre outros enrustimentos)

c)Patrimonialista(Rodríguez Becerra, 1997). O património cultural é a recuperação do passado a partir de uma perspectiva presente, para explicar a mudança dos modos de vida. O património cultural está integrado por elementos culturais que adquirem um novo valor através de um processo de “patrimonialização”, porém não é o mesmo que a noção de cultura. Poderíamos dizer que é uma intervenção na cultura. Os bens patrimoniais representam formas de vida de um grupo humano no tempo.

d)Produtivista(Ashworth, 1994). O património cultural é entendido por esta posição como um recurso para o turismo cultural e para outras actividades económicas. Esta postura considera o património cultural como uma mercadoria que deve satisfazer o consumo contemporâneo, daí a necessidade de um processo de interpretação que converta recursos em produtos ou mercadorias necessárias para o funcionamento de um sistema de produção pós-industrial. Esta atitude segue o critério do consumo e o da procura, utilizando o património cultural como representação das identidades culturais. Presta, porém, pouca atenção aos riscos da sobre-exploração turística.

(As duas áreas, conjugadas, caem como luvas nas posições defendidas, aberta ou enrustidamente pela maioria dos antropólogos ligados, diretamente aos processos de inventariamento e patrimonialização de bens imateriais no Brasil. O fato de fazer esta mesma crítica às posições deles, muito bem expressas nesta classificação, é que tem instigado a pecha de ‘folclorista‘, que lançam contra mim, classificação totalmente infundada. Bastava ler os textos que escrevo com menos descuido e parcimônia.)

e)Participacionista(García Canclini, 1999 b). Nesta perspectiva de abordagem, a recuperação e conservação do património cultural deve por-se em relação com as necessidades sociais presentes e com um processo democrático de selecção do que se conserva. Também deve estar ligada à participação social com o objectivo de evitar a monumentalização e a “coisificação” de objectos, isto é, é muito importante pensar primeiro nas pessoas e logo nos bens culturais. O participacionismo defende uma política do património cultural de opções claras: primeiro, o artesão, depois, o artesanato; e, paralelamente, locais com turistas, em vez de locais turísticos

(Área na qual, claramente posso e gostaria de ser enquadrado – com algumas poucas ressalvas, diria, já que Canclini trata mais especialmente de cultura de bens materiais entre os índios mexicanos – Aliás, coincidentemente Nèstor Garcia Canclini é o autor que eu mais li, logo assim que fui tomado pelo interesse em conhecer melhor o assunto ‘culturas populares no capitalismo“)

Calando o caxambu e o candongueiro e puxando um ponto de amarração.

E vejam que curioso: No calor da roda debate, pedindo a vênia para cantar, um dos interlocutores criou uma interessante categorização (algo parecida com a do lusitano Xerardo) dos grupos de antropólogos envolvidos na pendenga. Nela a pessoa identifica um dos grupos a partir das seguintes características:

Modernistas – a conservação das essências (para eles) é impossível , dada a dinâmica cultural ), então a cultura “erudita” se permite uma flexibilização para antropofagizar (canibalizar) a “cultura popular” e assim preservar (e não conservar) o que de tradicional há em ambas (a noção de autenticidade das expressões da cultura popular perde totalmente o sentido, pois a mudança é desculpável pela dinâmica cultural, necessidade de emprego e renda. Tudo vira mercadoria. Mas entre eles, os modernistas a noção de autenticidade de suas obras é inquestionável .

Ai, meu Nzambi! Como assim? Porque seria necessário ‘conservar‘ algo? ‘Conservar o que?’ Quem está propondo a conservação deste algo? A afirmação é arbitrária por falta de motivação explícita. É um pressuposto sem fundamento, um pré conceito claro. Dada a qual dinâmica cultural? De que dinâmica cultural se está falando? Há conhecimento de causa profundo, suficiente da natureza desta ‘dinâmica’? Quem definiu e sob que critérios a natureza intrínseca desta ‘dinâmica’ cultural a ponto de sistematizar a impossibilidade de conservação de suas supostas ‘essênciais’?

Caramba! Fiquei pasmo. É exatamente o que eu suspeitava.  E vejam que a classificação bate com os dois grupos de Xerardo que o tio identificou como sendo…deletérios à cultura popular, grupo que vivo, insinuadamente atacando por aí, cheio de dedos. E eu achava radical demais apontar isto claramente embora o faça no meu livro, já que não sou de ferro. Sim senhor! Quem diria?

Gente…É isto mesmo? As contradições e más amarrações do conceito “canibalizar” atribuídas a este grupo pululam. É surpreendente que este conceito apareça escrito em alguma teoria, alguma tese, algum documento de doutores do ramo ou do Iphan, do MinC. É uma bandeira enorme. As péssimas intenções aqui explicitadas são assustadoras quando se sabe que são elas que, em boa medida orientaram, embasaram uma política pública de Estado tão decisiva para a pretendia salvaguarda nossa chamada Cultura Popular.

E outra – a maior das contradições – o grupo foi classificado (ou se auto classifica) como ‘Modernista‘, mas pela fala de pelo menos um de seus membros mais assumido, ooodeeeia Mário de Andrade, o guru do Modernismo real de 1922 (aliás, fui duramente admoestado por citar o dito cujo neste ensejo). Contudo, pelo visto eles seriam adeptos da antropofagia cultural canibalista, mais ou menos como manda o Manifesto Antropófago do outro Andrade modernista (Oswald). Seriam neo tropicalistas, luso tropicalistas, Gilbertofreiristas?

E mais, acusam Mário (e por tabela o Tio) de ter sido fascista…Porca miseria! Como assim se é neles, em suas exdrúxulas proposições que salta aos olhos os resquícios de populismo e intervencionismo estatal , ou seja: Se há alguém fascista nesta história, só pode mesmo ser eles. O roto fala do esfarrapado (e isto dá um mote de ponto de jongo sensacional).

São bodes fedidos comendo a nossa grama ou são cordeirinhos pulando a cerquinha que divide a cultura burguesa da cultura popular, esta coisa indefinível que afirmam amar de paixão?

Sei não. A roda deste Jongo é que decidirá.

Estive de novo na UFRJ dia destes (agora no Ifcs) para uma mesa redonda sobre cultura popular. Depois da publicação do meu livro, de vez em quando alguém me chama para estes rituais de suposta sapiência doutoral. Cara de pau que sou, vou, sempre amarradão.

Este papo aí, a propósito está muito em evidência por lá nas salas mais academicistas também. Lá na UFRJ eles tem uma excelente Cia. De Danças folclóricas(que, inclusive dança Jongo Espetáculo). Alguns leitores devem até mesmo conhecer o trabalho daquele pessoal, presumo.

Não achei lá nenhum véio maluco colocando estas coisas que coloco aqui na mesa, pelo menos nestes termos mais radicais e ‘pomba rolou’, mas percebi que estes pontos que abordo são nevrálgicos ali também e prometem gerar muitos curtos circuitos ainda. Logo, há muitos questionamentos no ar sim

(Em tempo: Os doutos falam sem pensar. ‘Tombar‘ significa registrar na ‘Torre do Tombo” em Lisboa (velho arquivo geral de documentos coloniais), logo “Registrar‘ em arquivos públicos significa, exatamente… a mesma coisa. O uso do eufemismo não muda em nada o conceito nem as intenções).

A bananeira mágica desta roda vai crescer. À meia noite alguém comerá as brasas desta fogueira. Espero que não seja eu.

_ Cachoeira! Machado!”_

Depois a roda segue, quente. Vamos deixar os tambô quentá fogo um pouco. Depois nóis, os jonguêro tudo vorta.

Spírito Santo

Agosto 2012

O Samba Chula transnacional é a diáspora indesejada pelos ímpios. Azar o deles


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“Chula”, no meu dicionário: “Coisa vulgar, comum, impura, genérica”.

É assim: O Samba carioca (o Samba hegemônico) não nasceu na Bahia. Mas isto não quer dizer absolutamente que não tenha nascido também um Samba na Bahia. É bom que se saiba que nasceram Sambas os mais diversos por este Brasil à fora. Onde chegou africano oriundo do antigo Reino do Kongo (mais ou menos a República de Angola atual), chegou o que chamamos de Samba, este ritmo emblema, símbolo nacional enjeitado do Brasil.

É que as origens mais remotas do Samba, antes mesmo dele ter sido assim batizado, estão muito mais para trás e além da Praça Onze, muito mais para trás e além do século 19, muito mais para trás e além do Brasil até, porque o Samba, gente não nasceu no Brasil não, ora. Se liguem: A travessia do Atlântico não foi e nem seria capaz de apagar a memória cultural secular dos africanos que aqui desembarcaram. O Samba é africano, angolano da gema como, de certo modo são os milhões e milhões de pessoas que dançam e cantam ele por aí.

É sim (e você pode até duvidar). Está tudo lá no meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão.

Há muita distorção e mistificação nesta história depois que cismaram de inventar que o Samba ‘nasceu‘ no quintal de uma senhora baiana chamada Hilária Baptista (Tia Ciata), onde muitos baianos se reuniam. O improvável mito da ‘Mangedoura do Samba” como classifiquei no livro, faz parte do ciclo de propaganda negro burguesa voltada para afirmar uma suposta ”pureza” africana dos baianos de Salvador, consubstanciada em seu ‘Candomblé‘, uma religião supostamente africana, inventada aí, por esta mesma casta pequeno burguesa, neste mesmo período do século 19.

Não creem? Não gostam de iconoclastia? Porque não tentam estudar mais profundamente o assunto?

O mito vicejou, especialmente no meio da colônia de negros ricos de ascendência yoruba nagô e, por extensão, a classe média emergente de Salvador no fim do século 19, parte da qual se mudou de mala e cuia para o centro do Rio de Janeiro, liderada por interessantes e articuladíssimas figuras (entre as quais a Tia Ciata, descrita aí em cima) e o ex malê (muçulmano) Pai Abedé convertido ao candomblé que ele mesmo ajudou a inventar, figuras que, se aliando espertamente à certa aristocracia branca e poderosa (entre os quais até um presidente da República) lançou por aqui, depois de implantar em Salvador Bahia, o que ficou conhecido como “ Mito da Supremacia nagô”, a falsa ideia de que tudo que restou de africano na cultura brasileira veio da cultura, supostamente pura e superior deste baianos nagô.

(E não me esqueci do luxuoso apoio técnico de certa academia, na afirmação deste mito tão jeitosamente brasileiro)

Sério. A rua enfrente à casa ‘de santo’ de Pai Abedé, ali pelas fraldas de uma daqueles morros da área da Praça Onze, Catumbi, Estácio, por aí, nas seções de candomblé de Sábado, ficava apinhada de automóveis chics, daquela aristocracia branca esperta que mandava e desmandava nos destinos da capital do país.

Dito assim, grosso modo fica fácil entender porque pouca gente conhece este Samba ‘baiano’ aí dos vídeos (e, aliás toda a pujante cultura negra do Recôncavo, rejeitado por 9 entre 10 intelectuais brasileiros, guardados no escaninho mofado do vago ‘folclore‘ brasileiro, como coisa ‘impura‘, menor, do mesmo modo que em certas rodas – principalmente as universitárias ou acadêmicas – pouco ou nada  conhecem, realmente sobre Jongo, a Congada, etc.

Foi que tudo que não fosse ‘nagô baiano’ passou a nos ser estranho.

Bem vão vendo aí este Samba do Recôncavo. Melhor cego é aquele que quer ver.

… Bem, e vocês entenderam que este papo não tem nada a ver com religião, certo? Ah, bom….

Raphael Crespo comenta um dos vídeos e eu, contente os compartilho:

—————-

“Tive o prazer de gravar c/ Boião e Zé de Paulo, mais Milton Primo, no Rio, primeira vez q eles saíram da Bahia p/ se apresentar e gravar. Na ocasião eu integrava ativamente o Reconca Rio no couros, pesquisa etc… antes de eu vir p/ sampa, foi a gravação q mais exigiu de mim até hj, por ironia, a mais simples.

Estamos precisando editar esse material, inclusive, tem aboios raríssimos. Qdo os coroas começaram a gritar as chulas, só pararam mais de uma hora depois, isso pq acabou nosso tempo no estúdio, rs. Mestre Boião, c/ mais de oitenta anos, tem uma chula diferenciada… ele ñ é uma enciclopédia, é uma biblioteca inteira de conhecimento e vivência dentro do samba. Sabe identificar a região do Recôncavo, de qualquer chula q cantem p/ ele, mesmo q nunca tenha ouvido.
Boião pode ficar, e já ficou mto, dias e noites no samba puxando uma chula atrás da outra, e se desafiar, se segura macho.

Boião praticamente ñ dorme, passa as noites em claro orando, acreditem, presenciamos isso. É um ser de luz, q reflete o q há de mais belo no povo brasileiro. É autêntico, ñ tem sambador igual.
Zé de Paulo fazendo a segunda, é ruim de aturar tb, é perfeito. Zé tb é história, viu. Como ele um dia disse “sou cativo do agrado”, mas ñ queira ver esse homem enfezado, trabalhou a maior parte da vida num matadouro, rs.

S/ contar o Milton Primo na viola Machete, viola de 10 cordas, praticamente esquecida no Brasil, os sambistas atuais então, me arrisco em dizer, s/ medo de errar, q a maioria esmagadora nem conhece.
Graças ao seu amor pelo samba, Milton tenta manter essa tradição no Recôncavo, ensinando aos mais jovens por lá. Poucos sabem tocar o machete tão dentro da métrica correta do samba como Milton, além de ser um cara mto ativo na manutenção da cultura do samba.
Milton tb fez o vídeo p/ imortalizar o nosso grande Boião e Zé de Paulo, do contrário meus amigos, dificilmente o povo do sul teria acesso a sua chula.

O q me entristece, é a forma como o brasil, em especial os sambistas, tratam a sua própria história, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, etc… agora são tratados quase como os ancestrais do samba carioca! Nada contra os caras, tb admiro, mas peraí né… vamos buscar na raiz mesmo! A propaganda oficial é outra né, quem v6e de fora até pensa…rs.

No recôncavo baiano o samba ainda é quente, vários grupos estão lá mantendo tradições de família.
Vale a pena comprovar, e perceber os vultos do partido-alto carioca, o vulto de Ciata e das tias baianas, na Irmandade da Boa Morte, e mtas outras riquezas. êeeee Brasil, q ainda está por ser descobrir!

Grato por vc compartilhar c/ sua rede Spirito, valeu meu Mestre ! “

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Spirito Santo

Agosto 2012

Orgulho Mata (plantão de bobagens #02)


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Louis_XIV_of_France - Véio e pelancudo já, mas... o pezinho, a meinha e cinta liga na coxinha, "entregam"

Luiz XIV de França – Véio e pelancudo já, mas… o pezinho, a meinha, as coxinhas de fora e cinta liga no joelhinho, “entregam”

No ar: O Plantão de Bobagens

(sempre sob o patrocínio da inconsequência e da absoluta falta do que dizer)

Bobagem número 1

O orgulho

Dois conversando:

1) Aquele que reflete

_ O orgulho é como colesterol. Tem o bom e o ruim. O bom é aquele orgulho que te salva da depressão absoluta, aquilo que se chama de auto estima, amor próprio, instinto de sobrevivência, essas coisas. Você toma bordoadas da vida, enfrenta a má sorte, a má fase e segue de pé, catando cavaca mas sem se estabacar no chão.

O sujeito que tem o bom orgulho sabe que tem atributos para insistir, continuar a viver. É o cara que tem energia interior, perseverança porque acredita em si mesmo, nas poucas, mas fundamentais, qualidades do seu ser.

2) O que ouve:

_ “E o mau orgulho?””

Aquele que reflete:

_ Ora, o mau é o falso orgulho. É que orgulho mesmo, de verdade, só existe um. Acho que é como colesterol também. Acho que um dos dois devia ter outro nome. O mau orgulho é aquele que serve de capa, de camuflagem para a insegurança, pro recalque. É um dos sentimentos mais baixos que um ser humano pode sentir, sabia? Um horror.

O mau orgulho é aquele traço de caráter que faz o sujeito ser intolerante, prepotente, autoritário. Sabe os ditadores? Pois é. São portadores potenciais de mau orgulho. O sujeito não tem coragem de enfrentar os desafios da vida, se expor, competir. É um fraco. Tem como principal meio de vida, principal estratégia, colar em alguém que ele imagina que tem os atributos que ele pensa que não tem. É como um parasita. Sabe? Gruda na árvore e fica ali, sugando a seiva que a outra elaborou com tanto esforço, até secar a coitada, até morrerem os dois.

O portador do mau orgulho, na verdade, é um covarde, um doente meio psicótico. Sofreu um trauma qualquer na infância, uma dificuldade assim mais forte, geralmente uma rejeição e pronto, em vez de superar o percalço, enfrentar o problema, decide fugir por um desvio, buscar um atalho.

O que ouve:

_ Atalho? Mas e daí? Que mal há em cortar o caminho?

Aquele que reflete:

_ Ah. Pensa, cara! Você vai descobrir que o problema é que o atalho do mau orgulhoso é maquiavélico, se baseia em ser uma sombra, um duas caras, sabe como é? Ou então ele te persegue e passa como um trator por cima de você, te atropela sem nenhuma hesitação. Ele pode ser um cara muito nocivo, sabia? Porque, ele é basicamente um egoísta. Quer um exemplo?

O mau orgulhoso tem pavor que a sua personalidade insegura seja percebida por alguém. O que ele faz? Fica autoritário, não deixa ninguém falar. Os bom orgulhosos mais experientes sabem como agir nestes casos, largam ele de mão, falando sozinho mas, os menos avisados, geralmente mau orgulhosos também, se juntam em torno dele como mariposas na lâmpada, criando as condições para ele exercer sua prepotência.

Você pode não saber mas, grandes flagelos sociais já foram perpetrados por verdadeiras hordas de malucos mau orgulhosos. O racismo, o nazismo, essas coisas, geralmente são gerados na cabeça de um doido desses. O cara foi chamado de feio, de orelhudo no colégio e pronto. Guarda aquela mágoa á vida inteira, é capaz de almejar obstinadamente a presidência da república só para poder provar que os “Orelhas de Abano” são superiores a todos os outros. O cara pode mandar exterminar todos os “Orelhas Pequenas” só por causa desta sua covardia infantil.

O que ouve:

_ Você tá maluco!

Aquele que reflete:

_Tá bom. Vai dizer que você nunca teve um amigo, um conhecido assim? Uma namorada,? Um chefe? Eles te levam a loucura, cara. São críticos agressivos, especialistas em descobrir seu pontos fracos para minar sua autoestima. Para quem é religioso, são como o diabo tentando convencer Deus a fazer algumas maldades. Tudo pra te espezinhar, te diminuir, sim, por que, o maior temor deles é ter que se defrontar com um bom orgulhoso que tope a briga e acabe descobrindo sua fraqueza.

O mal é que os bons orgulhosos costumam ter uma generosidade enorme, bem babaca e acabam sendo compreensivos demais, perdoando as armações desses malucos. Senão, não ia ter jeito, haveriam guerras majestosas entre os orgulhosos dos dois lados.

Podes crer.

Spirito Santo

(Dia deses, por aí.)

Titio in mandarim


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Sim, sim: Titio em mandarim

Foi ontem, assim de repente. O diretor do Departamento Cultural da Uerj me convocou para recepcionar um grupo de estudantes universitários da China.

A missão era mostrar alguma excelência do trabalho da universidade na área da extensão e cultura.

Eram 50 chinesinhos e alguns professores. Os melhores alunos de várias universidades do país cujo bônus acadêmico foi vistar universidades do Brasil. Disse me o diretor, Ricardo Lima que uma aluna de música chinesa, de certo confundindo Brasil com a África (no que até que tinha razão) se lastimou por não ter visto ainda nenhuma marimba por aqui. Dica ideal para o diretor exclamar:

_” Pois então você vai poder ver e ouvir marimbas hoje e aqui mesmo!”

São as idiossincrasias do Tio: Ensinar as pessoas fazer – entre outras coisitas musicais – marimbas neo africanas no Brasil. Bem que podíamos ter marimbas pelas ruas sim, mas sabem como é, africanos escravizados, ih! Não dava para explicar rapidinho em mandarim.

Até que me desincumbi bem da feliz missão. Havia um tradutor e os estudantes e professores todos falavam algum inglês. Fiz um improvisado workshop para os entusiasmados chinesinhos, enlouquecidos com a escala das marimbas do Musikfabrik, por causa das escalas pentatônicas que uso nelas, tão parecidas com escalas orientais:

_”Mais aqui não é dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó?” _ Perguntava um, insistentemente em inglês. _

“_É, mas isto aí é música europeia. Uso escalas africanas por aqui. A referencia é a música africana. As escalas são parecidas com as da China, certo?”_ tentava responder eu, de minha parte, naquele meu inglês roto e esfarrapado da Praça Mauá.

Piraram mesmo foi com o Ungotronic, meu unicórdio duplo, slide, eletrônico, que todo mundo insiste em chamar de berimbau, no qual eu tive que fazer um solo retumbante, um ‘baião funk pesadão’ que arrancou aplausos da chinesada eufórica.

No fim do sino furdunço, fiquei por instantes ruminando as minhas queixas mais recorrentes para com a elite do Brasil. Ora, a China cresceu rápido no mesmo embalo histórico em que estava o Brasil, os países BRIC emergentes (depois BricS) virando o eixo da ordem econômica mundial de cabeça para baixo, a longa crise assolando o 1º Mundo, com o 3º, aí já com a burra cheia da grana que migrou pra cá e pra lá, cantando Oba oba! Uh Lalá!

Bem, estamos vendo hoje mesmo na TV o desempenho da China nas Olimpíadas, não é não? Visível o formidável esforço que o governo comunista chinês (comunista? Heim?) fez nos esportes. Dá para lembrar ainda daquela China rural, comunista e feudal, mulambenta, quase faminta de 15, 20 anos atrás.

A visita dos 50 chinesinhos no Musikfabrik da Uerj sugere, também visivelmente que a China investe pesado em Educação. A China, esperta virou o mundo de ponta cabeça enquanto que o Brasil, que estava ali na mesma frente da fila fez o que?

Hum! Deixou uma casta e ladrões, capachos da elite de sempre, se apossar dos cofres do Estado e da República.

Cumprimentando os chinesinhos um a a um na saída, ouvi de todos um ‘obrigado‘ sorridente, feliz e sem sotaque. Estavam bem vestidos e bem nutridos, todos com máquinas fotográficas de ponta, algumas até profissionais, alegres bons vivants de país bola boa da vez. Enquanto isto, o Brasil vai perdendo dia a dia posições no que seria o seu grande salto para a frente, entretido, de norte a sul pelo julgamento de ladrões de leite de criancinhas.

Ai, que vergonha!

Spirito Santo

Agosto 2012
(Mês e ano da minha honrosa terceira idade)

‘Xaxá de Ajudá’ e a ‘mancha branca’ da nossa escravidão


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Francisco Félix de Souza , o Xaxá de Ajudá e Giuseppe Garibaldi em retratos quase gêmeos. Como assim?Garibaldi é mesmo este barbudo aí da direita, mas será que este da esquerda é mesmo o Xaxá?

Francisco Félix de Souza , o Xaxá de Ajudá e Giuseppe Garibaldi em retratos quase gêmeos. Como assim?Garibaldi é mesmo este barbudo aí da direita, mas será que este da esquerda é mesmo o Xaxá?

A ‘desmiscigenação’ ou o denegrir como paradigma do anti heroísmo escravista

…Quando foi fundado nos anos 70, o Quilombo tinha em seu estatuto a obrigação de pesquisar a história dos negros e exaltar seus personagens. A escola teve como enredo nomes até então pouco conhecidos, como Preto Cosme, João Cândido, Luiza Mahin e Luiz Gama.

…Candeinha (compositor de samba) compreende e defende os compositores da antiga: “A informação era ruim. O que sei hoje consegui a base de muitos seminários e leitura”.

Em 1984, seu samba venceu a disputa no Quilombo que tinha como enredo a Rainha Agotimé (tema levado pelo Beija-Flor para a Marquês de Sapucaí em 2001). Antes de ler a sinopse de “O Xaxá de Ajudá e a Rainha Mina do Maranhão”, ele nunca havia escutado falar na monarca africana que foi vendida ao Brasil como escrava e instituiu a prática do vodu no Maranhão.“

…Se as letras pecavam às vezes pela superficialidade e pela infidelidade ao contexto histórico, devemos levar em conta a época em que foram cantadas na avenida. Falamos de um tempo em que a bibliografia sobre o assunto era precária e os compositores tinham como fonte de informação os livros didáticos das escolas, que hoje, como sabemos, deturpam e omitem fatos básicos da história da África, como o fato do Egito fazer parte do continente.”

(Thales Ramos e Thiago Dias)

Xaxá…Xaxá? Quem já ouviu falar deste cara?

Volto ao Xaxá, instigado agora por uma pesquisa sobre as implicações do assunto tráfico de escravos, com a história de certa gente negra, que ex escrava, quando liberta, enriqueceu muito como comerciante de coisas e lousas, algumas – cala-te boca – diretamente ligadas ao tráfico de escravos africanos. Acho um mistério absoluto como esta casta de gente negra rica desapareceu completamente do Brasil, sem deixar nada senão vestígios esparsos.

Não? Não querem que se volte a tocar em velhas chagas? Pois toco sim…

(Negros ciosos de sua história de pobres excluídos não gostam muito de ouvir falar que existiu e existe também muita gente negra – ou que se faz passar por negra, ou mulata, sei lá – que não presta, não vale o pão que come ou comeu. Mas não tenho escapatória porque, foi neste mesmo contexto aí que decidiram maquiar o ‘Xaxá‘, logo… relaxem. Lavemos logo toda esta roupa suja. Acontece nas melhores famílias.

Francisco Felix de Souza, cujo apelido dizem ter sido ‘Chachá‘ porque pedia para as pessoas esperarem algo dizendo enfático que já as atenderia…“Já já!” (divulgo esta versão porque é a única, mas cá entre nós, eu também acho ela bem inconsistente) era, tecnicamente um português.

A primeira vez que ouvi falar de Xaxá de Ajudá foi nesta época ai de cima, por volta da segunda metade dos anos 80, naquela onda boa que se seguiu à fundação do Grêmio Recreativo Escola de de Samba Arte Negra Quilombo, a GRANES Quilombo do Candeia, Nei Lopes, Wilson Moreira e tantos outros bambas lúcidos, se reunindo num esforço bem bacana para romper o baixo astral anticultural da torpe ditadura militar brasileira. O samba dos mais mobilizados e conscientes (havia um conformismo pesado no meio das escolas de samba convencionais) mandando ver o seu descontentamento em seu próprio terreiro.

Xaxá de Ajudá e a rainha Mina do Maranhão foi um dos enredos lançados pelo bamba e diretor da Quilombo Nei Lopes para o desfile de 1984. Acho que eu, interessado em, quem sabe – não me lembro bem – entrar também na disputa do samba, cheguei até a pegar a apostila do enredo (devo tê-la guardada em algum lugar, sei lá onde) com o enunciado do tema que acabou tendo como vencedora a composição de Neguinho Jóia, Feliciano Pereira e Henrique.

E a letra? Alguém sabe aí a letra deste samba?

(Já fuçei no google. Não encontro a letra do samba, em lugar nenhum Nem mesmo o enunciado do enredo eu encontrei ainda. Acho que uma hora destas tomo coragem e peço diretamente ao Nei Lopes.)

O enredo, pelo que me lembro, baseava-se na pesquisa de Pierre Verger, que defendia a hipótese de que a Casa da Minas, templo principal do culto do Vudu no Maranhão, teria sido fundada por Na Agotime, da família real de Abomé, esposa do rei Agonglô (1789-1797) e mãe do Rei Ghezo(1818-1858) , vendida como escrava por Adandozan, seu irmão (suposto usurpador ) que ocupou o trono do Dahomey após o falecimento de Agonglô). Xaxá foi um dos personagens centrais desta história eletrizante, pois foi amigo de fé irmão camarada de Ghezo, tendo sofrido – e gozado – a paga por esta fidelidade canina ao futuro rei.

Nasce daí, suponho toda uma mitologia no meio do movimento negro brasileiro atribuindo a Xaxá simpáticos atributos de comerciante brasileiro mulato, que foi uma espécie de rei africano. História inventada, sabem como é. Quem conta um conto sempre aumenta um ponto.

Deste pouco que me recordo, portanto Xaxá, um suposto mulato bem sucedido, que ‘fez’ a África era pintado no enredo com cores um tanto brandas, panos quentes bordados com lantejoulas. Juro que não lembro bem, mas a impressão que me ficou foi a de que ele era descrito até como um cara do bem, gente boa, digamos assim.

Apenas de passagem, pela impressão que ficou, se dizia apenas que ele ficou rico ‘como comerciante’, e nem me lembro se o fato de sua fortuna ter tido origem na sua sórdida ocupação, como traficante de escravos foi mesmo citada. Se houve, a citação ao fato foi apenas circunstancial, quase como se ele tivesse sido mesmo um herói exemplar de nossa tão vadia negritude. Pintaram o Xaxá branco de mulato, pois, na intenção de entronizá-lo como herói de nossa ‘consciência negra’ e nossa carnavalesca África idealizada.

A razão me aparece bem clara agora: Queimar o filme de Xaxá, tão ligado que estava ele, carne e unha, com a nobreza do Dahomey, seria queimar toda aquela inefável africanidade sacrossanta do Benin mítico. O buraco era no entanto bem mais embaixo:

…Para os governantes do reino do Daomé (antigo nome do Benin), o comércio de cativos era um projeto econômico oficial, de desenvolvimento comercial e fortalecimento de um Estado. Esse ambiente foi favorável à chegada de brasileiros dispostos a trabalhar como negreiros, entre os quais o lendário Francisco Félix de Souza.

A trajetória de Souza ganhou ares de folhetim quando ele foi preso pela petulância de cobrar uma dívida do rei Adandozan (como castigo, consta que o rei ordenou que o prisioneiro fosse mergulhado várias vezes ao dia em um tonel de índigo para que sua pele ficasse escura).

(por Ronaldo Ribeiro. Fonte: National geographic Brasil)

(Não era preto, nem branco, nem mulato. Nem preto nem mulato ficou. Virou branco. Não gosto mesmo de ‘história oficial’, inventada como esta então…)

É que eu queria passar aqui uma visão mais cheia de nuances desta imagem sempre edulcorada de Xaxá – esta do enredo de samba – para daí enveredar pelos mistérios  mais soturnos deste Francisco Félix de Souza que, pelo pouco que li, à vera mesmo, era mesmo um ser humano execrável, muito mais canalha que herói, mas mesmo assim um personagem fascinante.

Ai como queria ver o Xaxá mítico, vestido de rei, correndo atrás do Xaxá nú, sem maquiagem. Ah, como queria poder humanizá-lo, torná-lo algo perto do Xaxá… real.

E segue a história oral de Xaxá:

…Nesse ínterim, porém, o baiano fez um pacto de sangue com o príncipe Gakpé, que cobiçava o trono. O irmão caçula do rei ajudou na fuga do brasileiro em troca de seu apoio em um golpe que, por fim, destituiu Adandozan. Souza entrou para a nobreza: foi consagrado vice-rei de Uidá. Ganhou um título honorário inédito, o de ‘Chachá’, e o direito de monopolizar o tráfico de escravos no Daomé.

…O Chachá (aí já se referindo aos Chachás modernos, do século 20) arbitra os conflitos que não implicam em crime de sangue e disputa de propriedade. Além disso, ele tem certo peso eleitoral e é a referência maior de uma identidade cultural, os agudás”, diz Milton Guran.

(por Ronaldo Ribeiro. Fonte: National geographic Brasil)

(E aqui, num preâmbulo em verdade em verdade vos digo: não me interpretem mal e não me torrem o saco: Muito bem sei que isto aí de estabelecer o real é coisa impossível de ser feita, mas o anseio de fazê-lo apaixona qualquer curioso contumaz feito eu. Vejam bem que é desta ansiedade curiosa que a história humana, mal ou bem, vive.

É que andaram dizendo por aí alguns doutos amigos, pejorativamente concluí, que o Titio é um ‘essencialista‘ enrustido e incorrigível, fazer o que? Sabem lá o que é isto? Filosofia numa hora destas? Refletir se as coisas são ou apenas aparentam ser  com o chicote das ambiguidades de Xaxá no quengo?  Se eu penso que Xaxá é assim como o descrevo, logo este meu Xaxá existe, ora. Quem quiser que imagine outro, sei lá.

Conversa para mais de metro de instigante, não é não? mas só para os que entendem a graça de piadas feitas de sutilezas e ambiguidades. O Xaxáessencial‘ ou o Xaxáexistencial‘? Qual dos dois seria o Xaxá real? Será que existiu mesmo um Xaxá… real?

O certo é que, da parte que nos interessa, Xaxá não é, de modo algum isto tudo aí de bom que disseram. Xaxá, gente de Deus, mesmo na dimensão embaçada de sua história de ‘homem de seu tempo’, a mim parece ter sido um ser humano para lá de asqueroso.

Xaxá na Internet 01:

…Filho de índia com português (nota: e aqui reside a primeira ambiguidade na biografia de Xaxá), Souza nasceu na Bahia, em 1754, e desembarcou no Daomé, acredita-se, em 1788. Escrivão e contador do Forte São João Batista de Ajuda, em Uidá, logo tornou-se mercador influente – dependia dele a entrada ao reino de produtos como pólvora, fuzis, cachaça – e galgou a aura de mito nos relatos de viagem da época, alardeado por manter 2 mil escravos em seus barracões, ser pai de 80 filhos homens (não houve contabilidade de filhas) e gozar de sua fortuna em festins cercados das mais belas mulheres e de vinhos, iguarias e roupas finas importadas de Paris, Londres e Havana.

(por Ronaldo Ribeiro. Fonte: National geographic Brasil)

Ou:

Era filho de um português traficante de escravos e de uma escrava. Aos 17 anos foi alforriado. Entretanto, seus descendentes o retratam atualmente como se fosse muito branco e louro. O mais provável é que tenha sido um mestiço indefinido.”

(Fonte Wikipedia)

Sem jeito neste torvelinho de disse me disses, fico e partilho com vocês, por enquanto, apenas esta vaga impressão de que o Xaxá retratado como um mulato comerciante de escravos que virou uma sumidade no Reino do Dahomey, como uma espécie de primeiro ministro, quase rei, existiu sim, se pode afiançar, mas ninguém sabe bem como era mesmo a cara dele, porque ninguém disse ou registrou o que viu.

(É que a forte desconfiança de que inventaram um retrato pintado dele baseado na aura heroica do aventureiro italiano Giusepe Garibaldi nunca me abandonou)

A grande contradição que permanece, contudo é que, mesmo se ele tivesse sido um branco (e reparem: não há nenhuma evidencia desta história aí dele ter sido mestiço), ele se perpetuou mesmo foi como se negro fosse e, ainda assim, nesta perpetuação de sua negritude tão improvável, desta sua desmiscigenação tão inusitada, evidenciada por sua descendência, ele na verdade muito menos que honrar, denegriu, vilipendiou a sua nova ‘raça‘, ensinando, repassando a execrabilidade de sua profissão de traficante de escravos aos descendentes negros, que se dedicaram também, diligentemente, tanto quanto ele, ao sórdido negócio do contrabando de carne humana.

Se liguem: Xaxá foi, portanto o decano, o maior de todos os piratas sangrentos do comércio de escravos da África Ocidental para as Américas. Xaxá foi o cão odioso contador meticuloso de cargas humanas a serem despatriadas para as Américas. No Dahomey no século 19 ele foi uma espécie de agigantado ‘Sebastião Curió ‘ (como aquele tenente que ganhou o direito de pelar a Serra dourada, sugando e chicoteando garimpeiros, como paga por ter matado em emboscadas covardes, a serviço da ditadura militar um punhado de guerrilheiros no Araguaia).

Traficante de almas e estuprador da história, é isto que o Xaxá foi.

E como ele, muitos outros supostos heróis de nossa negritude (como negros ‘de escol‘, de ‘elite’) também foram escrotos traficantes de escravos. A história da África Ocidental desta época aí, até o século 19, está cheia de nomes de negros, africanos ‘da gema’ ou descendentes diretos destes, que enriqueceram como ‘comerciantes‘ (traficantes) de escravos.

Bairrismos à parte, convenhamos que a maioria destes traficantes negros, presume-se, era composta por gente nagô (yoruba) estabelecida em Salvador, Bahia e em Lagos, Nigéria. Vocês se surpreenderiam com a quantidade deles, principalmente com aqueles que acabaram desempenhando proeminentes papéis na invenção e na fundação do Candomblé no século 19.

Cala-te boca. Melhor por hora, deixar pra lá. Fiquemos com o Xaxá. bode expiatório desta galera toda, escondida debaixo do tapete de nossa ainda rasa “consciência negra”.

Xaxá na Internet 02:

…Francisco Félix começou a negociar na região atuando como traficante de escravos, a mesma profissão que tinha sido exercida por seu pai. Entretanto, como chegou na África praticamente em estado de miséria, alguns relatos dizem que entrou no negócio de tráfico de escravos levado pelo seu sogro Comalangã, régulo da ilha de Glidji, na localidade de Popó, e pai de sua primeira esposa, Jijibu ou Djidgiabu…”

O mais incrível, o profundo, o mais…emblemático aspecto de toda esta conversa, é mesmo o sentido recôndito e perverso da ‘desmiscigenação‘ de Xaxá, uma espécie de paradigma da alma social brasileira dada a tantas – e, às vezes, tão inescrutáveis – ambiguidades.

O que mais me impressiona nessa cultura agudá – a cultura dos descendentes de brasileiros no Benin atual – é o fato dela existir. Ou seja, de antigos escravos terem usado a memória da escravidão, do tempo de vida no Brasil, para construir uma nova identidade”, diz o antropólogo e fotógrafo Milton Guran, autor do livro “Agudás, os brasileiros do Benin”, e pesquisador do Centro de Estudos Afro-Asiáticos e professor do Instituto de Humanidades da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro .”

(Fonte: National geographic Brasil)

Pois bem, Xaxá (que ao que tudo indica e como vimos, de negro ou mesmo de mulato tinha quase nada) é a ponta suja da meada de toda esta simpática história dos ‘Agudás‘.

Queria comparar a imagem deste ícone de nosso passado escravista com a magnífica imagem deixada por ele na África, onde se transformou, a si e a toda sua descendência, numa verdadeira etnia africana, uma estirpe real, negra sim (a despeito de sua origem de ‘Souza‘ ser tão alvamente portuguesa), uma dinastia com ampla influencia política no velho Daomé, hoje Benin até os dias de hoje. Sim, sim: Os ‘Souzas‘ descendentes do Francisco Félix de Souza são a origem genética do povo ‘Agudá” do Benin.

Os agudás se conservam sociologicamente católicos e brasileiros[…], à sombra do culto da família e da casa organizada em torno da mulher e da monogamia…

(Gilberto Freyre)

Meninos seguem um cortejo carnavalesco diante do muro com um cartaz que lembra Paul Emile de Souza, 'agudá' que foi presidente do Benin durante curto período. Outro 'agudá', o monsenhor Isidore de Souza, articulou a transição de um regime totalitário marxista, que durou 18 anos, à democracia no começo dos anos 1990. Eles e mais uma penca de ilustres membros da família 'Souza' são descendente diretos de Xaxá de Ajudá.

(Meninos diante de cartaz com Paul Emile de Souza, ‘agudá’ que foi presidente do Benin durante curto período. Outro ‘agudá’, o monsenhor Isidore de Souza, articulou a transição de um regime totalitário marxista, que durou 18 anos, à democracia no começo dos anos 1990. Eles e mais uma penca de ilustres membros da família ‘Souza’ são todos descendentes diretos do ‘branco’ Xaxá de Ajudá. foto Ricardo Teles)

Vão vendo aí. Conferindo:

Xaxá foi um branco que se unindo à reis negros que vendiam outros negros, acabou pintado pela história como se mulato fosse.

Xaxá foi aquele branco que se amasiando com negras africanas, teve dezenas de filhos, mulatos, os quais, no embalo de sua descendência foram se tornando negros, cada vez mais negros, inaugurando e perpetuando por fim uma dinastia negra ‘legítima‘– uma etnia – ‘autenticamente’…africana.

Xaxá é então o exato inverso do sonho de Graça Aranha, a mais perfeita ‘destradução‘ de seu romance Canaã no qual a importação de emigrantes europeus, a miscigenação e a extinção por morte fariam com que os negros desaparecessem do Brasil em… um século).

Xaxá é a desmoralização descarada do ‘elogio à mestiçagem’ teoria civilizatória eugenista e esquizofrênica, adorada em segredo pela maioria dos antropólogos do Brasil.

Xaxá é isto e aquilo (ou não), mas nunca é (ou foi) o que parece. Xaxá é a teoria do ‘desembranquecimento‘ atropelando a mestiçagem do “Esquenta” da Regina Casé e do Hermano Vianna, na prática, bem antes de existir a ‘antropologia plim plim‘ da TV Globo.

É! Podes crer!

Xaxá foi o suposto branco que em 100 anos, por aí, conseguiu transformar em negra retinta toda a sua descendência, transformando assim a marca ‘Souza”, ao mesmo tempo em emblema e estigma, marca registrada e cicatriz de sua insidiosa atividade comercial, alçada à condição de inusitado prato frio da vingança (como anti propaganda que é do racismo instalado no Brasil pela escravidão) inesperada garfada de degeneração.

Xaxá de Ajudá (espécie de símbolo dos brancos racistas do Brasil) foi o traficante de si mesmo. Era – e é – a cara feia do Brasil, esse babaca preto de alma branca.

Ah! E chega de lero lero metafísico porque senão…os ‘anti essencialistas’ piram!

Spirito Santo

Agosto 2012

Culturalist’s Musings: “Africa 21 interviews Spírito Santo”


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Titio é mesmo fogo na canjica. Olha ele e seu livro aí em Nova York, gente!

 

 

 

 

 

Negara Akili Kudumu é uma produtora cultural  novaiorquina com quem o Titio negociava em 2012 a busca de uma editora por lá para tradução para o inglês para o meu livro “O Samba e o Funk do Jorjão”.

Esta entrevista aí, traduzida por ela, saiu no seu site nesta ocasião. Foi realizada pelo Jornalista João Belizario e pelo que soube, teve boa repercussão na Europa. Com a segunda edição do livro já na praça (www.rosasewspiritos.wixsite.com)!nada melhor que retomar os esforços.

Very nice!!!

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Culturalist’s Musings. África 21 interwiews Spirito Santo

Negarra Kudumu

on August 3, 2012 in Culture, Race & Identity

The text below is the English translation of an interview with the aforementioned Spírito Santo conducted in March of this year by João Belisário for the Angola based magazine Africa 21. To read the article in its original Portuguese, click here, and scroll down to the Orange bold letters that say Spírito Santo, especialista de música afro-brasileira.

Spírito Santo – The origins of Samba

An exclusive interview by João Belisário, Rio de Janeiro for ‘África21′Angola – March  2012

Educator, researcher, writer, artist specializing in Afro-Brazilian music and musical craft (organology), visiting professor at the State University of Rio de Janeiro, where since 1995 he coordinates the university extension project Musikfabrik, the Brazilian Spirito Santo (Antonio José do Espírito Santo), 64, is still a person who does not accept the truths established without question, no matter who it hurts.

África21. The title of your book, Do Samba ao Funk do Jorjão, points to a relation between samba and funk? What is this relationship?

Spírito Santo: Yes, there is a strong relationship but it is more subtle than it seems. Both samba and funk are diasporic music genres and brothers. They are a type of urban synthesis of traditional music that came from Africa to the Americas: work songs, blues, American ragtime and things like the polka performed by the Oito Batutas band and Pixinguinha here, the work songs here and there (United States) all of which came from rural genres like jongos, congadas, vissungos, etc. The relationship is very close: one history that can not explained without the other. This appears clear in the evolution of Rio de Janeiro samba.

África21. In the book (“Do samba ao Funk do Jorjão”, 2011) you question some established truths regarding the origin of samba…

Spírito Santo: Samba as we know it, was very probably born from traditional jongo (a sociocultural manifestation of enslaved Africans from the Congo-Angola region brought to the coffee plantations in Rio de Janeiro). From the conclusions of my research, samba’s seminal rhythm would have originated from other musical genres of present day Angola such as kaduke, which is a dance that was in style in Mbaka (Ambaça) at the time of Capello and Ivens (mid 19th century). Enslaved Africans brought from Angola in the final years of slavery brought in their memory this dance, generically known here as batuque (and the music to which it corresponds). My theory, is in part, based on the opinion of Angolan experts like Mário Rui Silva e Liceu Vieira Dias, of ‘Ngola Ritmos’, for example.

África21. But there are other explanations for this origin…

The confusion that they created here within the scope of our urban music, was born from the fact that the word samba, a phenomenon typical of urban popular culture or of the mass that was born in that period, was becoming a very strong brand for the nascent Brazilian phonographic and radiophonic market as a synonym for ‘Black Popular Music’, in a period in which the mainstream, the concept of  ’music to sell’, also established it’s initial market strategies.

The fact is that the rhythm that  avenged itself and that won the dispute in order to be finally baptized by the market forever as samba, ended up not being the new maxixe practiced in the Praça Onze da Tia Ciata by popular elite musicians such as Pixinguinha, Donga, etc., but rather a fusion of Congolese-Angolan rhythms brought to the Court after slavery was abolished, by Blacks originating from the exodus that affected the coffee plantations at the end of Brazilian slavery. I believe that it is in the area of Cais do Porto, where these discharged Africans ex-slaves from coffee plantations ended up working as porters and therefore the “true” samba rhythm, as we know it, is fermented and crystallizes.

África21. Do you believe it is possible to determine the exact location, the physical space, the cradle of samba?

Spírito Santo: I don’t think so. What happened was that Praça Onze, a residential and bohemian area of the Black middle-class of Rio at the beginning of the 19th century ended up being elected by the Rio de Janeiro intelligentsia (chroniclers, journalists, etc.) as being the place of superior Black people, a type of colony of refined Blacks coming principally from Bahia.

The historiography of samba, according to my reasoning,  would have lost the focus of the question, which was concentrated in an official history of samba restricted to this limited Bahian area, underestimating the others (mostly Bantu) which ironically is exactly the matrix, the root from which samba “de facto”, was actually born.

África21. The seminal rhythm of samba would have had as its origen the remote rhythms of what is known as present day Angola. Why would this have happened?

Spírito Santo: The reasons for this ethnological branding of samba, for me are, in the first place, a geo-commercial logic of the transatlantic trafficking that prioritized the kidnapping of people to Brazil from the ancient Kongo Empire (and not Yoruba-Nagô people, from current day Nigeria, as a majority – contrary to all historical evidence – still believe) and in the second place the specificity assumed by social stratification in Brazil – in Rio de Janiero and Salvador especially –  that are characterized by the isolation of Blacks who are descendants of those enslaved Africans in ghettos, suburbs and favelas or in peripheral areas separate from the the middle class other upper economic echelons (whites), making it possible in these isolated communities the maintenance of ancestral habits and the creation of a specific culture with strong markers of its African origin.

In other words, ironically if there wasn’t racism in Brazil, maybe samba wouldn’t exist. As such the book attempts to tell, with the maximum amount of evidence possible, all of the details of evolution of the samba genre – that is far more complex than I have narrated here – inserting it’s history into the historical social context.

África21. And then what does the “samba do Jorjão” represent in this evolution?

Spírito Santo: Here it is. Jorjão was the head of a drum section that, with much boldness, mixed samba and funk in a samba drum performance in the 1997 parade, directing the Samba Unidos do Viradouro school. Jorjão sensed the time line and the “Afro-Diasporic” relationship. It was reviled by the traditionalists. I sat in the jury and gave him the highest mark and I was punished and ousted from the Samba-Liesa School League jury. I used Jorjão’s emblematic performance as the concept for the entire book.

África21. In the end, is there any difference between samba and the Samba School?

Spírito Santo: The Samba schools and samba are two very distinct entities. Very few people realize this but the Samba schools were previously Carnival Revelries, something that is remotely connected to Bahian “Pastoris” which originated from the Lusitanian “Lapinhas” that were very popular in Salvador, Bahia and in the rest of the Brazilian northeast at the beginning of the 20th century . The general form of the school parades is, even today, that of modernized Pastoris. It occurs that the soundtrack of these parades, that was in the past waltzes or marches with an European accent, was exchanged in the 1930s for the samba rhythm and from that point it became hegemonic, the official music of the parades. In other words, indeed, samba is musical aspect of the parades (and choreographic also, of course). What’s curious is that those who brought all of this to the Rio Carnival – including the Lusitanian influences – were Black Bahians, the same people who created Candomblé.

Samba is for me, thus genetically Congolese-Angolan, with a few Yoruba-Nagô rhythmic ingredients that come from Candomblé, added to other diverse and disperse  general influences of Black music from the Diaspora, with accentuated markers of Black North American music included. 

África21. The book questions, in another aspect, the official story of the origins of African culture in Brazil?

Spírito Santo: What the book questions most vehemently is that the obvious African origins of a large part of Brazilian culture are not mostly Nigerian (Nagô) as it is consistently claimed, but to the contrary, Bantu or Angolan. In samba there are also clear influences from Black North-American culture – the thesis of the Diasporic character of samba that I emphasized – which is also very much negated in the official thinking that vehemently denies this influence due to questionable xenophobic nationalism.

I question this “Nagô supremacy” in a radical manner. This is, moreover, the core of the debate that the book proposes. I try to place in the debate the proposition that the history of Blacks in Brazil and everything else that falls within this area needs to be completely and urgently revised. It is an ancient and very grave ethnological distortion because it contaminated everything in the area of our social sciences with its subtly racist bias. The process by which this distortion was constructed over time, by various agents, appears very clearly in the book.

Ironically, if there hadn’t been racism in Brazil, maybe samba wouldn’t have existed. I try to place in the debate the proposition that the history of Blacks in Brazil and everything else that falls within this area needs to be completely and urgently revised.

África21. Where, then, is there more evidence of the Yoruba-Nagô contribution to Brazilian music in general?

Spírito Santo: In the music of Candomblé, which is Brazil is very beautiful but is restricted almost entirely to the liturgy, to the religious ritual. It is necessary to stress that the urban popular music of Salvador, Bahia and of its Recôncavo (with the exception of the more traditional afoxés) is predominantly Bantu, with emphasis on Samba de Roda and Capoeira.

A Life’s Work

Ex-political prisoner, he was incarcerated more than two years in the dungeons of the military dictatorship; son of a father directly descended from Angolans in the 19th century, they were brought to Minas Gerais; with more than 40 years dedicated to music, Spirito Santo resolved to place on the market the fruit of his research launching his first book Do Samba ao Funk do Jorjão, an ethnomusicological essay that brings many unpublished regarding the origins and meanings of samba, the rhythm that defines in large part the soul of the Brazilian people.

Spirito Santo is in truth a researcher that always was at the forefront of the struggle for the salvation of history and cultural values of the population of African origin in Brazil. It has been more than 30 years since he created the musical group Vissungo and with it carried out a broad research about African traditional music in southeastern and northeastern Brazil, he persists with this project that has marked his entire life.

Despite having planned a publication for other essays, Spirito Santo is currently occupied with resuming field research about work songs of enslaved Africans working in mines who came from Angola to Minas Gerais in the 19th century in order to realize a documentary that will have to filmed in Brazil and Angola.

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