O Reino é do Kongo, mas o Congado é do “Rosário de Maria”

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Os terços de rezar, os quartos do purgatório e os quintos dos infernos.

…Em 1444 dá-se a primeira venda pública de escravos em Portugal. Assim, um triste efeito secundário das explorações do infante seria a participação da Europa no comércio de escravos da África Ocidental, um tráfico cruel que viria a florescer realmente depois de Cristóvão Colombo descobrir as Índias Ocidentais, onde havia carência de mão-de-obra.

A ilha de Arguim foi alcançada em 1443 e a 8 de agosto de 1444, escreve Gomes Eanes de Azurara na sua “Crônica dos feitos de Guiné” (1453), realizou-se o início da venda pública de escravos, em Lagos (Algarve), na presença do Infante D.Henrique, o impulsionador das expedições africanas.

Este texto  (e o site como um todo) é realmente fantástico. A melhor e mais completa fonte de dados que já li na vida (!) sobre cultura negra do Brasil (me refiro a parte omissa, a que costumo chamar aqui, gozando os ímpios ‘anti essencialistas’, de ‘cultura negra brasileira REAL)

Já tinha comigo a maior parte dos dados expressos no texto acerca da história remota do Reino do Kongo porque fiz pesquisa   numa ralação sem fim no meu livro, garimpando em sites, teses e livros portugueses, holandeses e angolanos.

Chato reconhecer, mas quase nada havia sobre o tema no Brasil.

Já possuía também dados esparsos sobre a relação – que sempre supus ou intuí ser direta e vou vendo que tenho razão – entre as festas populares afro mineiras e do sudeste do país em geral (Congadas, Jongos, Ticumbis, etc.) e a história efetiva de Angola e do afro catolicismo bakongo de Kimpa Nvita, tema que sei ser ainda muito novo e desconhecido por aqui.

…A origem da devoção a Nossa Senhora do Rosário remonta ao século XIII tendo se propagado através de São Domingos Gusmão para quem a virgem teria aparecido e entregado um rosário em 1208 na Igreja de Prouille, França. Segundo Cota e Souza (2007: 1-5) há registros de que o Papa Pio V teria pressentido no ano de 1571 a vitória dos cristãos sobre os muçulmanos na Batalha de Muret, fato que veio a confirmar-se como verdadeiro implicando na construção de um santuário dedicado a Nossa Senhora da Vitória.

Em 1572, por ocasião de outra vitória cristã, desta vez na Batalha de Lepanto, o Papa instituiu a festa de Nossa Senhora da Vitória como uma celebração litúrgica para que pudesse ser comemorada todos os anos na data de aniversário do acontecimento, 7 de outubro. Em razão de naquele mesmo dia haver sido feita uma procissão do Rosário na Praça de São Pedro, em Roma, solicitando o sucesso da missão da Liga Santa contra os turcos otomanos no oeste da Europa, Nossa Senhora da Vitória foi então denominada Nossa Senhora do Rosário.”

Ou seja toda uma historiografia omitida no Brasil por conta do estúpido e recorrente ‘nagoísmo‘ de nossas…ciências sociais, que inventaram uma incrível antropologia do negro do Brasil desestoricizada (ê palavrinha!), esvaziada, descolada enfim de qualquer referência histórica como um pé de repolho sem pai nem mãe (alguém aqui já viu algum estudo relacionando a história política da Nigéria ao Candomblé nagô? Pois então? É a carroça sem os burros, o texto sem o contexto. Como conseguem chamar isto de ‘conhecimento‘?)

Pois bem, neste site sensacional aqui brevemente resenhado estão muitos dados históricos e culturais – principalmente na ótica religiosa das irmandades católicas – relacionados à Angola – grande parte do antigo Reino do Congo – relacionada por sua vez, diretamente à história do Brasil – de TODO o Brasil – e, principalmente ao negro africano no país. O pulo do gato preto em suma.

Não são, de modo algum conclusões definitivas sobre o assunto. esta é a parte mais elogiosa do trabalho. São dados apenas, embora profusos, já que as conclusões podem ser as mais variadas (as minhas hipóteses, por exemplo eu já vivo ‘pitaqueando‘ por aí) e cada um que os aprofunde por sua conta e chegue as suas conclusões.

Este texto é para copiar, arquivar e consultar sempre. Titio exulta em conhecê-lo – até que enfim! – animado com a indicação – mais uma vez! – da amiga e colaboradora do blog Bete Scg, que vai se tornando uma espécie de fonte de pauta para o blog do Titio.

…”O rei, que tinha o tronco nu, um rabo de cavalo a pender-lhe do ombro esquerdo e manto de damasco a tapar-lhe os pés, inclinou-se. Seguiu-se depois uma ruidosa festa, à maneira africana. Na expedição, além de frades, vinham pedreiros, carpinteiros, sacristães e mulheres para ensinar a cozer o pão. Todos foram apresentados ao rei. – A catequese começou logo pelo rei e pelos nobres, enquanto os operários portugueses construíam a primeira igreja. Esperavam inaugurá-la no dia do batismo do rei. Entretanto, chega a notícia da revolta dos Anzicas.

O rei não quer ir pagão para a guerra, pediu que se antecipasse a cerimônia. Os frades fizeram-lhe a vontade. Foi batizado com o nome de D.João I. E a rainha tomou o nome de Leonor. No dia seguinte ao batismo, D.João I, de acordo com seu filho mais velho, D.Afonso (Mbemba-a-Nzinga) e outros nobres, mandou queimar todos os feitiços venerados pelo povo o que provocou a indignação do filho mais novo, Panzo-a-Kitina ou Panzo Aquitino.”

Excelente documento! A parte da história do Reino do Kongo é a mais completa que já li no Brasil. Tenho aqui levantados todos estes dados que consegui pesquisando em sites portugueses e angolanos, mas nunca havia tido conhecimento de um estudo tão aprofundado sobre a ótica da igreja católica, fonte inestimável de dados históricos –  praticamente a única neste período – documentos enfim sobre esta parte eletrizante da história da África que nos diz respeito.

…O cristianismo chegou ao Congo de maneira mais ou menos espetacular. Diogo Cão mandou uma delegação com presentes ao Manicongo (rei do Congo), na cidade de Mbanza. Como os portugueses não voltaram, o navegador prendeu 4 indígenas e levou-os consigo para Portugal prometendo o regresso.

Os quatro foram catequizados e batizados em 1483. Ao voltar, em 1484, os portugueses mandaram um dos 4 para Mbanza e pediram a troca de prisioneiros que aconteceu sem problemas. Depois o rei do Congo Nzinga-a-Nkuvu, mandou uma embaixada com presentes a Dom João II e pediu missionários e artífices. O chefe da embaixada, Caçuta, e seus companheiros, foram batizados em Portugal.

A parte que mais gosto é esta aí da pragmática conversão da nobreza congolesa aos modos portugueses de ser. Tenho evidencias comigo (este texto não chega até aí, nesta minha hipótese que é apenas uma possibilidade ainda) de que o tal Caçuta (Kassuta), filho do rei, teria sido um dos sequestrados por Diogo Cão, em represália ao suposto sequestro, por parte de Nzinga Nkuwu dos padres que haviam ficado no Congo da primeira expedição, entre eles, segundo Manoel Pedro Pacavira, uma tal de ‘Nganga‘ (padre) Gouvêa.

É bem mais provável que Kassuta, que para mim é o mesmo Mbemba a Nzinga (Dom Afonso I) filho de Nzinga a Nkuwu tenha sido um destes 4 homens, os quais de reféns acabaram se transformando em agentes da colonização cultural levada a efeito pelos portugueses. Ele, Kassuta, teria ficado tão impressionado com os maneirismos da corte portuguesa durante sua estada em Lisboa, que acabou se transformando no agente principal de toda a ingerência política e militar portuguesa na região a partir daí.

A hipótese aventada por alguns historiadores de que Nzinga Nkuwu teria autorizado uma expedição congolesa tendo o próprio filho como representante é algo simplória, pois minimiza o fato de que o grupo de quatro nativos do Reino do Kongo embarcados como reféns na primeira caravela de Diogo Cão, permaneceram em Lisboa por muito tempo, cerca de dois ou três anos, tempo suficiente para terem sido aculturados, fascinados com certos aspectos da cultura portuguesa, mais ou menos como Marco Polo ficou bem impressionado com a cultura chinesa.

(E que ninguém se iluda. Estas aculturações são sempre em vias de mão dupla, nenhuma cultura humana, miméticos que somos por natureza, escapa impunemente do seu contato com outra. Culturas, notadamente as mais geograficamente próximas, mesmo inimigas inconciliáveis, cultivam e expressam diferenças marcantes umas da outras, mas nunca serão, totalmente ‘puras‘ e ‘originais‘ entre si. A ai delas se não deixarem bem demarcadas as suas individualidades)

É por esta prosaica razão – desculpem se já está óbvio para alguns – que utilizo aqui a expressão ‘Afro catolicismo’.

Kassuta/Mbemba a Nzinga/ D. Afonso (sobre o qual escrevi outros interessantes posts que podem ser lidos neste link) é um dos personagens mais controversos e fascinantes de toda esta história. Basil Davidson, o grande historiador por meio do qual conheci pela primeira vez esta história (o livro se chama “Mãe negra”), também tinha fascinação por este incrível Mbemba a Nzinga (alguns grafam ‘Mpemba’) havendo publicado as impressionantes cartas dele ao seu ‘irmão real’ D. Manoel de Portugal, queixando-se revoltado do descumprimento de vários acordos, entre eles aquele que proibia a escravização de sua população – até sobrinhos seus haviam sido capturados e levados para Portugal como escravos- e da demora na entrega, nunca efetivada de caravelas e outros itens de know how prometidos por D. Manoel, para o Reino do Kongo se desincumbir das guerras contra seus beliçosos rebeldes reinos vizinhos.

Nenhuma novidade. Nada que a gente já não tenha visto aqui no nosso mundinho ‘muderno’, no rol das tensas relações de países desenvolvidos com seus parceiros emergentes.

Kassuta/Mpemba a Nzinga/ D. Afonso teria sido, pois, o responsável crucial por esta virada transculturalista radical no seio da elite do Reino do Kongo, esta decisiva introdução do catolicismo apostólico romano (muito mais que uma religião, uma ideologia nesta época, mais ou menos como o capitalismo e o socialismo são hoje) que afinal deu este caráter tão especial à cultura negra que nos chegou com a escravidão.

Com efeito, esta injustificada presunção de ‘impureza‘ atribuída à cultura bantu no Brasil – a sua eventual ‘conspurcação‘ pela ideologia católica – é o principal pretexto (o mais execrável aliás) utilizado pela academia e pelos adeptos da supremacia nagô-baiana, para empreender suas táticas de apagamento e obscurecimento do que chamo de cultura negra brasileira REAL.

Não que tenham a consciência exata, premeditada de querer apagar o que quer que seja, mas porque, ao fim das contas é esta consequência final desta…”metodologia” errática e ignorante que procura ‘origens‘ e ‘raízes’ no oco das fantasias e das más intenções mais descabeladas.

Ora, nunca existiu ‘pureza‘ africana neste sentido (e nem tampouco europeia ou asiática, terráquea, ou marciana). Somos todos iguais em nossas diferenças. Mimetizamos tudo, tal é a natureza e o sentido prático da inteligência humana. Oh, obviedade!

No caso de nós negros (do ponto de vista cultural, ressalto) esta busca incessante por uma, absolutamente improvável ‘originalidade negro africana’ radical, este primitivismo selvagem de tanga e lança, mais que indesejado – inventado que é – baseado em mitos tolos, lendas e mistificações absurdas que ninguém sabe bem de onde vieram, é uma busca reacionária, pois acaba ressaltando, exatamente o que não devíamos querer ver ressaltado: O nosso atraso civilizatório, a nossa eventual e suposta selvageria que são – graças a Deus e à História – fruto do raso e estúpido preconceito de brancos ignorantes.

(A não ser que estimular esta ignorância toda seja o nosso intento também…O mundo também é povoado pelos tolos. Ah…Já estou eu aqui a reafirmar as minhas próprias convicções.)

É que me empolgo. Esta história angolana aí tem tanta relação com a história do Brasil que devia ser repassada na escola, desde o ensino elementar. Já temos até uma lei para isto, mas será que nos ensinarão mesmo a história certa? É que a coisa só é assim, ocultada, trancada em armários mofados porque a historiografia brasileira omite, deliberadamente, tudo que se refira à história da África que nos diz respeito. Quem quiser que reflita porque. Só sei que já chega. Contem outra história, por favor.

…O reino do Congo viveu seu apogeu neste séc.XVI. – Muito mais informações sobre o reino do Congo, Dom Afonso I e seu filho bispo D.Henrique nos traz Manuel Nunes Gabriel nas 60 páginas de “D.Afonso I, rei do Congo.” Lisboa, Secr. Nac. das Comemorações dos 5 Séculos.,1991.60 pág. – Naquele tempo, o rei de Portugal tratou o rei do Congo (hoje: sul do Congo, oeste do Zaire e norte da Angola) como seu igual.

Trocaram embaixadores. Tudo isso é um caso único na África. O soberano do grande reino do Congo aceitou a religião cristã livremente e após contatos diplomáticos. Enquanto a maioria dos chefes africanos relutaram para converter-se ao cristianismo, o batismo do rei do Congo forma uma notável exceção.

Eu só faria apenas um último reparo – muito instigante por sinal – sobre o indefectível “Rosário”, colar de contas rituais ao qual a história do culto à Nossa Senhora do Rosário se refere : O texto não cita, mas o terço usado pelos católicos, curiosamente é exatamente o mesmo objeto ritualístico que os islamistas, não sei se de todas as linhas, costumam debulhar em continhas, balbuciando rezas do mesmo jeito (eu já vi muitos muçulmanos fazendo isto na rua, quando morei na Europa) que os devotos e devotas mais católicos.

É mesmo muito curioso como esta prática muçulmana é idêntica à católica sem ter nada a ver com Nossa Senhora do Rosário ou qualquer outra relação com o catolicismo. Quem será que inventou o terço primeiro, ou melhor, quem copiou o ‘terço‘ de quem? Qual será o mistério embutido nisto aí, nestas intrincadas relações, dogmas, tabus, segredos e ‘saias justas‘ que a invenção de qualquer religião guarda ou omite de sua gênese?

…Conhecido no Oriente como Masbaha e na Grécia como Comboloi, é chamado também de terço grego, terço árabe e terço islâmico, e usado por todas as religiões para meditação, orações e pedidos de auxílio. Criado há milênios por mestres orientais, é um acumulador e transmissor de energias positivas, além de eliminador de tensão nervosa. Pode ter 33 ou 99 pedras, feitas nos mais diferentes materiais, do âmbar ao plástico, e os muçulmanos o utilizam em orações: deve-se rezar por cada pedra o seguinte: Subhana Allah, Al-hamdu Lillah, Allah Akbar (quão perfeito é Alá louvado seja Alá, Alá é o maior), ou seja, diz-se 33 vezes cada uma destas frases, o que totaliza 99. No final, para completar 100, recita-se o seguinte: «Não há outra divindade além de Deus (Alá) único. Ele não tem ninguém que lhe associe. A Ele pertence o reino e o louvor. Ele é Onipotente”.

“…O masbaha é apenas um “instrumento” de contagem. Ou seja, tanto faz usar um masbaha, ou um cordão com nozinhos, ou as falanges dos dedos (método de contagem muito recomendado).

É importante prestar atenção nisso, porque os masbahas são facilmente assimiláveis, para os irmãos ex-católicos, com os rosários. E mesmo para aqueles que não vêm do catolicismo, pode acontecer de transformarem o masbaha em um tipo de amuleto, o que é um grave erro.

… São gestos pequenos e que parecem inofensivos mas que estão ligados ao pecado gravíssimo de “dar” a um objeto os poderes e a adoração que só cabem a Allah”.

(Extraído de Coluna da Chistine)

Ih! Viram só? Eu não disse? Que coisa! As religiões canibalizam mesmo elementos rituais umas das outras. Nada se cria, tudo se transforma e muita coisa, simplesmente se inventa. Bem…mas isto aí já é uma outra história.

Spirito Santo

Agosto 2012

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~ por Spirito Santo em 01/08/2012.

2 Respostas to “O Reino é do Kongo, mas o Congado é do “Rosário de Maria””

  1. Maravilha, Daniel.

    Gosto do Alberto. Realmente o melhor do Brasil. Se tivesse estudado a relação das irmandades católicas com a história do Reino do Congo teria sido consagrado aí no post como campeão (me referi lá sobre aquele site por causa do viés católico que ele desvendou pioneiramente. Não li ainda o livro do Costa e Silva. Preciso ler.

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  2. Falai ai spirito santo, o melhor livro que encontrei sobre as relaçoes do Reino do Congo e o Brasil é o ´´A Manilha e o Libambo de Alberto da Costa e Silva´´ o Livro menciona as expedições de Salvador Correa se Sá e Benevides para a retomada de angola, seu exercito formado de tropas mulatas e de indios tupis (curiosamente o comandante negro Henrique Dias e seu regimento se recusaram a participar da expedição).a maioria dos soldados indios e mulatos se fixaram em angola e deixaram famílias descendentes das tropas brasileiras do seculo 17

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