O Samba Chula transnacional é a diáspora indesejada pelos ímpios. Azar o deles

Creative Commons LicenseATENÇÃO:Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

“Chula”, no meu dicionário: “Coisa vulgar, comum, impura, genérica”.

É assim: O Samba carioca (o Samba hegemônico) não nasceu na Bahia. Mas isto não quer dizer absolutamente que não tenha nascido também um Samba na Bahia. É bom que se saiba que nasceram Sambas os mais diversos por este Brasil à fora. Onde chegou africano oriundo do antigo Reino do Kongo (mais ou menos a República de Angola atual), chegou o que chamamos de Samba, este ritmo emblema, símbolo nacional enjeitado do Brasil.

É que as origens mais remotas do Samba, antes mesmo dele ter sido assim batizado, estão muito mais para trás e além da Praça Onze, muito mais para trás e além do século 19, muito mais para trás e além do Brasil até, porque o Samba, gente não nasceu no Brasil não, ora. Se liguem: A travessia do Atlântico não foi e nem seria capaz de apagar a memória cultural secular dos africanos que aqui desembarcaram. O Samba é africano, angolano da gema como, de certo modo são os milhões e milhões de pessoas que dançam e cantam ele por aí.

É sim (e você pode até duvidar). Está tudo lá no meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão.

Há muita distorção e mistificação nesta história depois que cismaram de inventar que o Samba ‘nasceu‘ no quintal de uma senhora baiana chamada Hilária Baptista (Tia Ciata), onde muitos baianos se reuniam. O improvável mito da ‘Mangedoura do Samba” como classifiquei no livro, faz parte do ciclo de propaganda negro burguesa voltada para afirmar uma suposta ”pureza” africana dos baianos de Salvador, consubstanciada em seu ‘Candomblé‘, uma religião supostamente africana, inventada aí, por esta mesma casta pequeno burguesa, neste mesmo período do século 19.

Não creem? Não gostam de iconoclastia? Porque não tentam estudar mais profundamente o assunto?

O mito vicejou, especialmente no meio da colônia de negros ricos de ascendência yoruba nagô e, por extensão, a classe média emergente de Salvador no fim do século 19, parte da qual se mudou de mala e cuia para o centro do Rio de Janeiro, liderada por interessantes e articuladíssimas figuras (entre as quais a Tia Ciata, descrita aí em cima) e o ex malê (muçulmano) Pai Abedé convertido ao candomblé que ele mesmo ajudou a inventar, figuras que, se aliando espertamente à certa aristocracia branca e poderosa (entre os quais até um presidente da República) lançou por aqui, depois de implantar em Salvador Bahia, o que ficou conhecido como “ Mito da Supremacia nagô”, a falsa ideia de que tudo que restou de africano na cultura brasileira veio da cultura, supostamente pura e superior deste baianos nagô.

(E não me esqueci do luxuoso apoio técnico de certa academia, na afirmação deste mito tão jeitosamente brasileiro)

Sério. A rua enfrente à casa ‘de santo’ de Pai Abedé, ali pelas fraldas de uma daqueles morros da área da Praça Onze, Catumbi, Estácio, por aí, nas seções de candomblé de Sábado, ficava apinhada de automóveis chics, daquela aristocracia branca esperta que mandava e desmandava nos destinos da capital do país.

Dito assim, grosso modo fica fácil entender porque pouca gente conhece este Samba ‘baiano’ aí dos vídeos (e, aliás toda a pujante cultura negra do Recôncavo, rejeitado por 9 entre 10 intelectuais brasileiros, guardados no escaninho mofado do vago ‘folclore‘ brasileiro, como coisa ‘impura‘, menor, do mesmo modo que em certas rodas – principalmente as universitárias ou acadêmicas – pouco ou nada  conhecem, realmente sobre Jongo, a Congada, etc.

Foi que tudo que não fosse ‘nagô baiano’ passou a nos ser estranho.

Bem vão vendo aí este Samba do Recôncavo. Melhor cego é aquele que quer ver.

… Bem, e vocês entenderam que este papo não tem nada a ver com religião, certo? Ah, bom….

Raphael Crespo comenta um dos vídeos e eu, contente os compartilho:

—————-

“Tive o prazer de gravar c/ Boião e Zé de Paulo, mais Milton Primo, no Rio, primeira vez q eles saíram da Bahia p/ se apresentar e gravar. Na ocasião eu integrava ativamente o Reconca Rio no couros, pesquisa etc… antes de eu vir p/ sampa, foi a gravação q mais exigiu de mim até hj, por ironia, a mais simples.

Estamos precisando editar esse material, inclusive, tem aboios raríssimos. Qdo os coroas começaram a gritar as chulas, só pararam mais de uma hora depois, isso pq acabou nosso tempo no estúdio, rs. Mestre Boião, c/ mais de oitenta anos, tem uma chula diferenciada… ele ñ é uma enciclopédia, é uma biblioteca inteira de conhecimento e vivência dentro do samba. Sabe identificar a região do Recôncavo, de qualquer chula q cantem p/ ele, mesmo q nunca tenha ouvido.
Boião pode ficar, e já ficou mto, dias e noites no samba puxando uma chula atrás da outra, e se desafiar, se segura macho.

Boião praticamente ñ dorme, passa as noites em claro orando, acreditem, presenciamos isso. É um ser de luz, q reflete o q há de mais belo no povo brasileiro. É autêntico, ñ tem sambador igual.
Zé de Paulo fazendo a segunda, é ruim de aturar tb, é perfeito. Zé tb é história, viu. Como ele um dia disse “sou cativo do agrado”, mas ñ queira ver esse homem enfezado, trabalhou a maior parte da vida num matadouro, rs.

S/ contar o Milton Primo na viola Machete, viola de 10 cordas, praticamente esquecida no Brasil, os sambistas atuais então, me arrisco em dizer, s/ medo de errar, q a maioria esmagadora nem conhece.
Graças ao seu amor pelo samba, Milton tenta manter essa tradição no Recôncavo, ensinando aos mais jovens por lá. Poucos sabem tocar o machete tão dentro da métrica correta do samba como Milton, além de ser um cara mto ativo na manutenção da cultura do samba.
Milton tb fez o vídeo p/ imortalizar o nosso grande Boião e Zé de Paulo, do contrário meus amigos, dificilmente o povo do sul teria acesso a sua chula.

O q me entristece, é a forma como o brasil, em especial os sambistas, tratam a sua própria história, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, etc… agora são tratados quase como os ancestrais do samba carioca! Nada contra os caras, tb admiro, mas peraí né… vamos buscar na raiz mesmo! A propaganda oficial é outra né, quem v6e de fora até pensa…rs.

No recôncavo baiano o samba ainda é quente, vários grupos estão lá mantendo tradições de família.
Vale a pena comprovar, e perceber os vultos do partido-alto carioca, o vulto de Ciata e das tias baianas, na Irmandade da Boa Morte, e mtas outras riquezas. êeeee Brasil, q ainda está por ser descobrir!

Grato por vc compartilhar c/ sua rede Spirito, valeu meu Mestre ! “

—————

Spirito Santo

Agosto 2012

Anúncios

~ por Spirito Santo em 15/08/2012.

7 Respostas to “O Samba Chula transnacional é a diáspora indesejada pelos ímpios. Azar o deles”

  1. hahahaha, boa! vê lá e-mail. abraço!

    Curtir

  2. Ora se não é o Rafa desaparecido. Já ia até procurar nas listas do Tortura nunca mais, rs rs rs” Por andas, cara?

    Curtir

  3. poema cibernético afro-concretista
    .
    .
    .
    ……………………………… seja bahia
    ………………….. seja minas
    ……………………………. seja rio
    .
    .ê banto é
    .
    .só pelas beiradas
    …da cintura pra
    ……..baixo
    .
    .
    .
    http://goo.gl/bdssi (a partir de 7:00; manjado, mas vale pra somar)

    Curtir

  4. não adianta, o comentário mata o grafismo poema. recusa por favor, spirito. vou tentar mais uma vez no próximo.

    Curtir

  5. poema cibernético afro-concretista

    . seja bahia
    . seja minas
    . seja rio

    .ê banto é

    .só pelas beiradas
    . da cintura pra
    . baixo

    http://goo.gl/bdssi (a partir de 7:00; manjado, mas vale pra somar)

    Curtir

  6. porra, a formatação dos comentários do wordpress detonou o concretismo do poema…

    Curtir

  7. poesia cibernética afro-concretista

    seja bahia
    seja minas
    seja rio

    ê banto é

    comer pelas beiradas
    da cintura pra
    baixo

    http://goo.gl/bdssi (a partir de 7:00; manjado, mas vale pra somar)

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: