A antropologia antropofágica e o prato frio da vingança

Creative Commons License Atenção: Todo o conteúdo deste blog esta assegurado por uma licença Criative Commons.Titio no papel (imaginado) de Nêmesis se vinga de antropólogo - Extraído de R'esident-evil' (ilustration)

Titio no papel (imaginado) de Nêmesis se vinga de antropólogo – Extraído de R’esident-evil’ (ilustration)

Ufa! Ainda bem. Nativos aculturados não comem os ‘estrangeiros’.

” Nemesis é a personificação da vingança, na mitologia grega. Ela é a deusa da justiça, da vingança, da injustiça, da piedade e dos zumbis. Uma versão fêmea e grega de Thor. A frase “fazer justiça com as próprias mãos” não se aplica a Nemesis, que prefere matar os indignos com golpes de machado e espada

Nemesis tem uma pequena lista negra, onde coloca o nome de suas possíveis vítimas. Dizem que ela morreu no Brasil, de fome, pois nem a justiça conseguia mudar algo neste país. Uma das poucas divindades que não são filhas de Zeus e não são cúmplices deste nepotismo bizarro que acontece no Olimpo. Também é conhecida como Maria dos Enforcados”

                     (Extraído de Desciclopédia)                     

Fui chamado disto aí em cima dia destes, mas nem me ofendi porque não me lembrava direito – juro!- o que significava. Fui ao Google, claro. Entrelidos assim os sentidos da palavra, vendo estes super poderes todos a mim atribuídos, não pude deixar de dar um risadinha sarcástica, de lado.

Vingativo o Titio? Mitologia grega numa hora destas? Engano deles. Perderam tempo culpando o mensageiro pela má notícia. E olha que o Titio nem gosta de comida fria.

Mas gosto da metáfora sim, porque na atribuição que me dão, estranhamente reconhecem que alguma coisa a ser vingada, resgatada de algum vilipêndio, alguma justiça a ser feita, com a qual, com os rabos presos que alguns deles estão, me brindam com estes lampejos de razão.

Explico: O papo era sobre Cultura Popular e patrimonialismo estatal, esta onda aí meio que recente do Estado, um governo ‘mui amigo‘, estimular por meio de leis e decretos a salvaguarda de bens culturais imateriais no Brasil. Tenho sido um crítico contumaz de certas minúcias deste processo, que acho questionável em muitos aspectos. É que tenho o hábito de dizer, certo ou errado, com todas as letras porque sou contra isto ou aquilo.

É assim que aprendo e ensino, batendo e levando. É esta a minha escola.

Meus interlocutores desta vez são, antropólogos em sua maioria, uns incomodados com certos pontos mais agudos da minha fala num artigo aí sobre um livro sobre o Jongo e os percalços da patrimonialização da manifestação por parte do MinC/ Iphan.

_É, mas você bem que dá umas implicadas nos antropólogos não dá ?! rsrs prá testar a nossa capacidade real de relativizar”_ Me disse uma amiga, simpaticamente, no calor do debate outro dia.

Exato. Todo autodidata adora puxar a beca dos doutores. Ocorre que – pensam eles – ‘quem diz o que quer, pode ouvir o que não quer’.

Que nada. Quando os instigo com minhas críticas – e eles não são os únicos doutos com os quais compartilho ideias – é, exatamente algum feedback que eu procuro: Ouvir as partes, saber as minúcias de suas proposições, as intenções omissas de suas ações, compará-las com as minhas, fazer a sintonia fina, por aí. Se me permitem também filosofar, diria que a verdade – quem não sabe? – esta fugidia moça que nunca aparece nua, peleja no campo aberto das ambiguidades e relatividades humanas. Difícil desnudá-la sem alguns arranhões.

(Mas, ai de mim. Mesmo assim, tão ponderado e paparicando a verdade com os mimos das minhas dúvidas, as minhas orelhas arderam em brasa.)

É que o papo foi sendo inserido por alguns leitores doutos no âmbito de uma crítica direta – ácida demais as vezes – que faço, e que eles, em contrapartida (ou represália, vai saber) agora me fazem, tentando desautorizar, ou desqualificar minhas opiniões.

Agem como se eu, qual uma ‘vítima indefesa da sociedade’ (pois sim!) estivesse curvado sob o peso das atribuições desairosas destes vários desqualificativos, que justificariam então a minha suposta…nêmesis, ou sede de vingança, dirigida à academia (esta dos antropólogos) entidade arrogante de besta que me teria ‘rejeitado‘.

É que uns – que pirados!- chegaram mesmo a insinuar inclusive, que o fato de não ser um pós doutor era o que me insuflava estas ondas de despeito. Vejam só: Eu, um recalcado, um ‘complexado‘, psicologia de botequim numa hora destas? Pois sim.

(Juro por Nemesis: mal comparando me sinto um verdadeiro Joaquim Barbosa nestas horas)

Alguns epítetos desqualificadores foram até elegantes (“essencialista‘ foi o mais fino deles,) mas fui chamado também de ‘folclorista‘ (que imagino ser uma ofensa mortal entre antropólogos, mas diante da qual, como não sou, pouco me lixo) e ‘ingênuo‘, com o sentido de filosoficamente despreparado, estas coisas.

Tem jeito não. Nestas horas, desço das tamancas. Tento pô-lo na coleira, amordaçá-lo mas o meu currículo…late.

Bem se vê que não conhecem – ou subestimam – o espírito anarquista do Titio, a doce e idosa ideologia ‘pomba rolou’ que me orienta. Eu o tio que, se apoiando nos direitos a ele conferidos pela ‘Lei dos Sexagenários’ se dá ao desplante de gritar, sempre que lhe dá na telha, ou quando lhe aporrinham:

_Cala a boca já morreu! Quem manda em mim sou eu!”

Essencialista”. Vocês sabem lá o que é isto? Calma que o google explica.

Ah! Já cansei de falar sobre isto por aqui (tenho críticas fundas à academia do Brasil sim, aos seus conceitos e processos escalafobéticos. Afinal, temos um taxa de 38% de analfabetos funcionais entre estudantes universitários do país e o Brasil, mesmo assim, cara de pau diante deste escândalo vergonhoso, fica por aí produzindo doutores como quem produz chuchu na serra. É ou não é uma universidade ‘tabajara‘, a que temos? Vão confiar nela sem conferir o pedigree e duvidar do Tio vira latas? Vocês é que sabem.

E sei que falo quase solitariamente – e longe estou de pretender ser o dono da razão – mas no avanço desta minha crítica insistente, chata e ‘mala sem alça’ (escrevi um livro inteiro conceituando esta minha furibunda posição), começo a receber já feedbacks cada vez mais consistentes de antropólogos ‘de verdade’, alguns até conhecedores profundos do processo de inventariamento de bens culturais imateriais (ou até mesmo envolvidos nele, diretamente, desde o início e em todas as suas implicações). Ou seja: Opiniões abalizadas – quase nunca concordantes, mas respeitáveis – começam a chegar e o debate (a roda) fica muito mais rico (a) e pegando fogo.

(Cá entre nós… me sinto até prestigiado com estas ‘brigas‘ santas, devo confessar.)

Conversa pra mais de metro, o mote central do nosso debate é o registro ou ‘tombamento‘ do Jongo, mas o contexto da conversa é bem mais amplo: a crítica que faço é ao conceito como um todo, a discussão sobre o papel do Estado – e de sua antropologia acadêmica, oficial – como mediador de conflitos culturais latentes, num campo social minado por interesses os mais ambíguos, conflitantes e questionáveis.

Entendam: Sou daqueles que creem que numa sociedade tão dividida como a nossa, é natural que existam conflitos de classe, ‘trelelês‘ e ‘ranca rabos‘ em todo o sistema. Não é marxismo de ocasião não (embora seja muito bom que o Marx volte à ser moda). É que a cultura humana não sobreviveria num campo de conceitos travados, harmonizados no mal sentido. Nem mesmo em teoria.

Se o Brasil é um país racista e o racismo é sistêmico, lógico que o Estado e suas instituições refletem este racismo. A universidade brasileira, até que se torne mais democrática, tradicionalmente ‘É’ burguesa e ‘E’ racista (e seu elitismo neste caso se confunde com o seu racismo). Não há ‘anti essencialismo’ algum que desminta esta equação.

Cultura é conflito e política o tempo todo. É gente vivendo, disputando espaço e comida, roda girando, carroça andando, sem parar e sem volta. Não rola a cultura de uns tutelada pelos outros. Isto é um paradoxo… existencial, é falta de ar. Não rola.

Ah! Quer dizer que a Antropologia Estatal ‘É’, se assume como ‘canibalista’, uma adepta da antropofagia declarada? Tudo bem, mas vamos definir primeiro quem está comendo quem e – o que é mais importante – do ponto de vista de quem está sendo servido assim ou assado de bandeja (a cultura…popular), se é mesmo bom ser comido.

E, calma aí. Sem esta de maldar a minha analogia, por favor

Situaram-se? Papo cabeça e cabeludo, não é mesmo? Mas é assim. Eles, os incomodados com as mais humildes críticas, tentam te pegar pela palavra, pelas filigranas do pensamento dito torto, rasteiras conceituais, como ‘rabos de arraia’ com meias de seda e borzeguim de pelica.

Que respondam então: As armas estão à mostra? Os interesses das partes estão mesmo às claras, postos na mesa? Quem não conhece estas histórias de hegemonia? Viram aquele filme livro “Enterrem o meu coração na curva do Rio”? O lobo branco colonialista comendo a cultura indígena norte americana com rabo e tudo. Ainda chuparam o sangue dos Sioux, trucidando-os em vingança pela derrota do General Custer no Little Big Horn.

Vai confiar? Vai mesmo dar as costas para este pessoal tão bacana e tão legal? Quando a corneta da 7ª cavalaria soa, o trator do ‘go home black and indian people’passa e não fica uma peninha de índio, uma lança de preto em pé.

Falo sem maldade vingativa. O pensamento diverso é sempre um pé no saco de quem opera na zona de conforto, do lugar comum lá do alto da atalaia do poder. Logo, para não dizerem que não avisei ou não argumentei, vamos seguir pinçando as linhas mestras da visão oficial sobre o assunto.

(Nem preciso lembrar que é preciso ler também as entrelinhas):

I Seminário Nacional de Políticas Públicas para Culturas Populares

05/02/2010

A ideia da realização do I Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares surgiu de muitos anseios, tanto por parte dos indivíduos, grupos e comunidades que não viam respeitadas suas culturas e modos de fazer, como por parte dos militantes, intelectuais e apaixonados pela cultura popular. A tantos anseios somou-se a vontade de administradores públicos de contribuir, efetivamente, para o reconhecimento e a valorização das culturas populares.”

O evento final (do seminário citado) contou com uma rica programação cultural e promoveu espaços de diálogos entre diversos manifestantes das várias regiões do país, além de pesquisadores, produtores culturais e gestores públicos, em clima de harmonia, alegria e responsabilidade, num ambiente fértil e único para manifestar seus modos de expressão. “

O reconhecimento da diversidade, das especificidades e do valor artístico e cultural das manifestações populares pelas instituições públicas e privadas é parte fundamental do processo de inclusão cultural e econômica e do desenvolvimento humano”.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas considere-se, logo de saída que este grande pool de instituições oficiais têm um poder acachapante diante de quaisquer interesses diversos, eventualmente opositivos dos grupos de cultura tradicional envolvidos, os quais não se encontram, de modo algum organizados ainda, à altura de tão grande demanda e de interesses postos em jogo.

Por qualquer ponto de vista que se olhe a questão, os ditos “brincantes‘ são uma instancia totalmente indefesa ainda neste processo. Logo, o tal ‘clima de harmonia, alegria e responsabilidade‘ (estranha colocação, pois, nenhum risco de conflito aparece anunciado) tem um caráter muito mais de ato compulsório, tutelado do que natural e espontâneo.

O Estado acenou algum espelhinho. Disto tenho certeza e posso provar.

(E permitam-me dizer aqui: ai, como detesto esta palavra ‘brincante‘, que infantiliza os praticantes de cultura dita popular, como se estes fossem retardados mentais, seres culturalmente inferiores. Detesto também a expressão ‘nativos‘, pois me fica sempre a pergunta: Ué? Seriam os antropólogos do Brasil estrangeiros?)

Chama-me a atenção também – me intriga mesmo – a dicotomia sugerida no documento entre “indivíduos, grupos e comunidades que não viam respeitadas suas culturas” (os‘brincantes’, os‘populares’, propriamente ditos) de um lado, e “militantes, intelectuais e apaixonados (ui!) pela cultura popular de outro (instancia, aliás indefinida, com um mal disfarçado caráter de classe). É curioso também como o documento omite, cuidadosamente e não esclarece afinal da parte de quem partiu este desrespeito ‘às culturas e modos de fazer’ dos ‘grupos e comunidades’ arrolados.

Estas considerações entrealinhavadas mudam muita coisa no entendimento das intenções políticas dos decretos, exigindo muita relativização acerca do que se afirma logo a seguir, pois sejamos francosNo Brasil NÃO é, definitivamente o povo ‘brincante‘ quem ‘organiza o movimento e orienta o Carnaval’

E aí, a pergunta que insistentemente faço, convenhamos até que procede:

Afinal. Nestas ações de patrimonialização e salvaguarda de bens imateriais, quem foi que pediu para o Estado se meter na briga cultural entre brancos e não brancos, pobres e ricos do Brasil? Quem foi que pediu? Quais são as motivações deste Estado tão bonzinho?

(Só para avivar nossa mente, ressalte-se que a convenção da Unesco que deflagra todo este processo é do ano 2000)

Acesa a fogueira e servida a cachaça, antes de seguir com os seus pontos de demanda e visaria, Titio deve desamarrar alguns pontos da roda de Jongo anterior (esta, a dos antropólogos jongueiros)

O principal destes pontos é a oposição criada por estes meus simpáticos ‘opositores‘ entre as suas ideias neo preservacionistas e as minhas, tachadas por eles de ‘essencialistas‘, ‘folcloristas‘ ou quiçá até mesmo, ‘ingênuas” ou mesmo…’fascistas‘.

É que esta minha banca desorientadora aderiu a uma estratégia de fundo academicista, na qual os epítetos me chegam sempre sob a forma de conceitos síntese cabeludos, citações de eminentes teóricos da moda, conceitos estes travestidos de jargão doutoral enfim que, como todo mundo sabe, são aplicados num debate não para explicar, mas apenas para confundir mesmo, humilhar o interlocutor mais desavisado, soterrando-o sob um mar de sapiências

(Nada a ver, mas…sei lá: Modernistas que são, vai que o mestre de alguns deles foi o Chacrinha?)

É por isto que o Tio vai traduzindo, descomplicando o jogo de jargões:

PATRIMONIALIZAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DAS IDENTIDADES CULTURAIS

Xerardo Pereiro Pérez, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal)

a)Tradicionalista ou folclorista. O património cultural é aqui reduzido a um conjunto de bens materiais e imateriais que representam a cultura popular pré-industrial. A sua visão é historicista, pois consideram o património cultural como objecto e relicário do passado, mas também é conservacionista, pois pensa que o fim último do património cultural deve ser sempre a sua conservação, independentemente do seu uso actual. Os critérios de preservação de artefactos e edifícios do passado devem ser os de época e beleza.

(Área onde tentam enquadrar o Tio, confundindo as bolas do ‘essencialismo‘ e do ‘folclorismo‘ – usados como ofensas sutis – com as leigas ferramentas dialéticas de análise que usei – a reconstituição histórica, o estudo comparativo do processo anterior ao inventariamento, o meio, o contexto, estas coisas básicas  – para descobrir os elementos que servissem para desmascarar os equívocos e contradições que eu acho que existiram no processo do tombamento do Jongo, por exemplo e que ninguém agora quer admitir.)

b)Construtivista(Prats, 1998). O património cultural é entendido como fruto de um processo de construcção social, isto é, segundo as épocas e os grupos sociais, valorizam-se e legitimam-se uns bens patrimoniais e não outros. Por exemplo, no caso do Brasil há uma tendência para não patrimonializar o legado africano e indígena, nem tão pouco o dos subalternos(Funari, 2001). Nesta perspectiva, o património cultural é entendido como uma representação simbólica da identidade, mas também em muitas ocasiões como sinónimo de cultura.

(Área onde atuam muitos antropólogos brasileiros, enrustidamente interessados em diluir aspectos tradicionais da cultura negro africana, embora ao contrário do que o texto sugere, valorizem, as vezes em demasia, os mesmos aspectos na cultura indígena. Eu os considero portadores de um racismo atávico, muito calcado nas teses de Gilberto Freire, as quais não assumem claramente, entre outros enrustimentos)

c)Patrimonialista(Rodríguez Becerra, 1997). O património cultural é a recuperação do passado a partir de uma perspectiva presente, para explicar a mudança dos modos de vida. O património cultural está integrado por elementos culturais que adquirem um novo valor através de um processo de “patrimonialização”, porém não é o mesmo que a noção de cultura. Poderíamos dizer que é uma intervenção na cultura. Os bens patrimoniais representam formas de vida de um grupo humano no tempo.

d)Produtivista(Ashworth, 1994). O património cultural é entendido por esta posição como um recurso para o turismo cultural e para outras actividades económicas. Esta postura considera o património cultural como uma mercadoria que deve satisfazer o consumo contemporâneo, daí a necessidade de um processo de interpretação que converta recursos em produtos ou mercadorias necessárias para o funcionamento de um sistema de produção pós-industrial. Esta atitude segue o critério do consumo e o da procura, utilizando o património cultural como representação das identidades culturais. Presta, porém, pouca atenção aos riscos da sobre-exploração turística.

(As duas áreas, conjugadas, caem como luvas nas posições defendidas, aberta ou enrustidamente pela maioria dos antropólogos ligados, diretamente aos processos de inventariamento e patrimonialização de bens imateriais no Brasil. O fato de fazer esta mesma crítica às posições deles, muito bem expressas nesta classificação, é que tem instigado a pecha de ‘folclorista‘, que lançam contra mim, classificação totalmente infundada. Bastava ler os textos que escrevo com menos descuido e parcimônia.)

e)Participacionista(García Canclini, 1999 b). Nesta perspectiva de abordagem, a recuperação e conservação do património cultural deve por-se em relação com as necessidades sociais presentes e com um processo democrático de selecção do que se conserva. Também deve estar ligada à participação social com o objectivo de evitar a monumentalização e a “coisificação” de objectos, isto é, é muito importante pensar primeiro nas pessoas e logo nos bens culturais. O participacionismo defende uma política do património cultural de opções claras: primeiro, o artesão, depois, o artesanato; e, paralelamente, locais com turistas, em vez de locais turísticos

(Área na qual, claramente posso e gostaria de ser enquadrado – com algumas poucas ressalvas, diria, já que Canclini trata mais especialmente de cultura de bens materiais entre os índios mexicanos – Aliás, coincidentemente Nèstor Garcia Canclini é o autor que eu mais li, logo assim que fui tomado pelo interesse em conhecer melhor o assunto ‘culturas populares no capitalismo“)

Calando o caxambu e o candongueiro e puxando um ponto de amarração.

E vejam que curioso: No calor da roda debate, pedindo a vênia para cantar, um dos interlocutores criou uma interessante categorização (algo parecida com a do lusitano Xerardo) dos grupos de antropólogos envolvidos na pendenga. Nela a pessoa identifica um dos grupos a partir das seguintes características:

Modernistas – a conservação das essências (para eles) é impossível , dada a dinâmica cultural ), então a cultura “erudita” se permite uma flexibilização para antropofagizar (canibalizar) a “cultura popular” e assim preservar (e não conservar) o que de tradicional há em ambas (a noção de autenticidade das expressões da cultura popular perde totalmente o sentido, pois a mudança é desculpável pela dinâmica cultural, necessidade de emprego e renda. Tudo vira mercadoria. Mas entre eles, os modernistas a noção de autenticidade de suas obras é inquestionável .

Ai, meu Nzambi! Como assim? Porque seria necessário ‘conservar‘ algo? ‘Conservar o que?’ Quem está propondo a conservação deste algo? A afirmação é arbitrária por falta de motivação explícita. É um pressuposto sem fundamento, um pré conceito claro. Dada a qual dinâmica cultural? De que dinâmica cultural se está falando? Há conhecimento de causa profundo, suficiente da natureza desta ‘dinâmica’? Quem definiu e sob que critérios a natureza intrínseca desta ‘dinâmica’ cultural a ponto de sistematizar a impossibilidade de conservação de suas supostas ‘essênciais’?

Caramba! Fiquei pasmo. É exatamente o que eu suspeitava.  E vejam que a classificação bate com os dois grupos de Xerardo que o tio identificou como sendo…deletérios à cultura popular, grupo que vivo, insinuadamente atacando por aí, cheio de dedos. E eu achava radical demais apontar isto claramente embora o faça no meu livro, já que não sou de ferro. Sim senhor! Quem diria?

Gente…É isto mesmo? As contradições e más amarrações do conceito “canibalizar” atribuídas a este grupo pululam. É surpreendente que este conceito apareça escrito em alguma teoria, alguma tese, algum documento de doutores do ramo ou do Iphan, do MinC. É uma bandeira enorme. As péssimas intenções aqui explicitadas são assustadoras quando se sabe que são elas que, em boa medida orientaram, embasaram uma política pública de Estado tão decisiva para a pretendia salvaguarda nossa chamada Cultura Popular.

E outra – a maior das contradições – o grupo foi classificado (ou se auto classifica) como ‘Modernista‘, mas pela fala de pelo menos um de seus membros mais assumido, ooodeeeia Mário de Andrade, o guru do Modernismo real de 1922 (aliás, fui duramente admoestado por citar o dito cujo neste ensejo). Contudo, pelo visto eles seriam adeptos da antropofagia cultural canibalista, mais ou menos como manda o Manifesto Antropófago do outro Andrade modernista (Oswald). Seriam neo tropicalistas, luso tropicalistas, Gilbertofreiristas?

E mais, acusam Mário (e por tabela o Tio) de ter sido fascista…Porca miseria! Como assim se é neles, em suas exdrúxulas proposições que salta aos olhos os resquícios de populismo e intervencionismo estatal , ou seja: Se há alguém fascista nesta história, só pode mesmo ser eles. O roto fala do esfarrapado (e isto dá um mote de ponto de jongo sensacional).

São bodes fedidos comendo a nossa grama ou são cordeirinhos pulando a cerquinha que divide a cultura burguesa da cultura popular, esta coisa indefinível que afirmam amar de paixão?

Sei não. A roda deste Jongo é que decidirá.

Estive de novo na UFRJ dia destes (agora no Ifcs) para uma mesa redonda sobre cultura popular. Depois da publicação do meu livro, de vez em quando alguém me chama para estes rituais de suposta sapiência doutoral. Cara de pau que sou, vou, sempre amarradão.

Este papo aí, a propósito está muito em evidência por lá nas salas mais academicistas também. Lá na UFRJ eles tem uma excelente Cia. De Danças folclóricas(que, inclusive dança Jongo Espetáculo). Alguns leitores devem até mesmo conhecer o trabalho daquele pessoal, presumo.

Não achei lá nenhum véio maluco colocando estas coisas que coloco aqui na mesa, pelo menos nestes termos mais radicais e ‘pomba rolou’, mas percebi que estes pontos que abordo são nevrálgicos ali também e prometem gerar muitos curtos circuitos ainda. Logo, há muitos questionamentos no ar sim

(Em tempo: Os doutos falam sem pensar. ‘Tombar‘ significa registrar na ‘Torre do Tombo” em Lisboa (velho arquivo geral de documentos coloniais), logo “Registrar‘ em arquivos públicos significa, exatamente… a mesma coisa. O uso do eufemismo não muda em nada o conceito nem as intenções).

A bananeira mágica desta roda vai crescer. À meia noite alguém comerá as brasas desta fogueira. Espero que não seja eu.

_ Cachoeira! Machado!”_

Depois a roda segue, quente. Vamos deixar os tambô quentá fogo um pouco. Depois nóis, os jonguêro tudo vorta.

Spírito Santo

Agosto 2012

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~ por Spirito Santo em 17/08/2012.

4 Respostas to “A antropologia antropofágica e o prato frio da vingança”

  1. Isto aí, parceiro

    Nem muito por estarmos de acordo, mais pela agudeza da análise mesmo. “Endoclonialismo antropofágico’ é um conceito na veia.

    Abs

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  2. Reblogged this on Mamapress and commented:

    Há alguns meses no Brasil, viajo neste universo de me “reabrasileirar” e estranho.

    Encontro por todos os lados o “brasileiro” que nunca fui, que desde a barriga da mamãe recusei-me a incorporar, o canibal intelectual, o bossa nova encima do samba dos outros, sem os “outros”. Vejo por todos os lados a ocupação dos territórios dos “outros”, estes que nunca chegaram a ser brasileiros (gente com território definido, protegido e cidadão na acepção de gente com direitos iguais inclusive à propriedade). Vejo ex-weberianos que agora são candoblecistas, marxistas até a alma agora viram filhos de tias ciatas, e racistas empedernidos cantam de galo nos terreiros, a acusarem os negros de racistas. É tudo tão escancarado que sinto mais uma vez, que não querem que eu me abrasileire.

    Tive o prazer se assistir pessoalmente e in locus, a “queda” da torre do Tombo e de dentro de suas salas o falecimento do Instituto Superior de Estudos(ou seriam Políticas) do Ultramar em Lisboa. Lá em 1975 pude aprender e confirmar, que eu não passava de um nativo para ser estudado, comido, cuspido e renascido na cultura deles, os eus-eles. Esses eles, “brasileiros” nascidos aqui, só fui reconhecer em sua “essência” lá na matriz. Eram os que em nossas academias e círculos de produção ( melhor diria, domínio) do conhecimento, perpetuam ou “tombam”, em seu registros, a herança colonial dos dominadores. Um objeto tombado pode ser olhado por dois lados, uma estátua do Caxias, por exemplo.

    Quem define entretanto qual o “conhecimento” deste objeto que ficará na “memória” da nação, é quem domina o centro de produção do conhecimento e o “registra”. Vejo renascer aqui o defunto colonial da “Escola do Ultramar de Lisboa”. Escutei no ano passado, na Academia de Letras do Rio, em um Simpósio de Cultura Negra, um antigo Doutor especialista em África, lamentar o tempo perdido em sua juventude, por não ter registrado os “falares” e “seres” africanos que ainda “persistiam” pelas ruas do Rio de Janeiro nos meados do século XX. Quantos objetos a serem tombados ou registrados foram perdidos, pode a platéia constatar, poucos com indignação. O trato com esta gente por parte dos “canibalistas” que persiste e insiste até hoje, é reconhecer que não existem, ou melhor se registra enquanto são mortos e desterritorialzados.

    Removidos mesmos, para chegarmo à linguagem popular, ou evangelizado se nos aproximamos dos tempos modernos. Poderia aqui arriscar um conceito novo, “ciências sociais ou antropologia do desterro”, como pista para se entender o mato sem cachorro em que se meteram as relações entre academias e políticas de estado no Brasil desde a década de 30.. Mais uma pista para entendermos o porque da necessidade de todos estes conceitos citados por Spirito Santo, como participacionistas, folcloristas, modernistas, essencialistas etc., seriam algumas perguntas para as quais ainda não tenho respostas: seria a produção do conhecimento nas ciências sociais “brasileiras” póscolonialista, entendida como sequência natural do colonialismo?

    Estaríamos caminhando em um processo de endocolonialismo antropofágico, como a exemplo de Varsóvia que se gaba de ter a melhor culinária judia, sem judeus? Enquanto não se tem gente para responder estas perguntas, cabe a gente como Spirito, tombar, registar como o escrevem os lisboetas, para que tenhamos no futuro, pelo menos outra versão dos mortos ou desterrados (desterritorializados).

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  3. Grande Markim,

    Sempre lembrando que as primeiras letras deste papo começamos nós, os dois, lá no Overmundo de já priscas eras, ainda bem no comecinho do processo. Grande diálogo, grande amizade e muito respeito.

    Grande e forte abraço do mestre pupilo.

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  4. Irrepreensível mestre. Em momento algum me senti como um destes antropólogos — alguns, ou muitos, conheço, logicamente — salvo quando relatas sobre referências obscuras e linguagem hermética, visto que sou, de algum modo, cativo — mas presepeiro e questionador — de um círculo, de um campo, de uma “disciplina”. Bem, são muitas as veredas que apresentas, mas o que considero importante é sua insistência em equalizar os conceitos de tombamento com o de registro. É perfeito isso. Lidei com esta problematica em minha dissertação de mestrado e, mais tarde, pude observar o funcionamento desta não distinção na prática no Iphan, apesar da insistência dos gestores em reafirmar sua existência na teoria. Mas isso não é responsabilidade unicamente dos antropólogos, saliento, mas diz respeito à estrutura do Estado, aos meandros da burocracia e das janelas políticas que se abrem conforme o sopro dos ventos favoráveis. Cheguei a uma conclusão, por fim, neste campo, leva quem grita mais forte por um lado, ou quem convence na maciota — via jogo de interesses e relações afetivo-identitárias com os bens culturais. Esse é o segredo. Seu grito solitário é um que respeito, acompanho e replico sempre que posso.

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