‘Não brancos’ vestidos com as almas peladas

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1912. Comissão Rondon. O antropólogo Roquete Pinto grava índios na selva do Brasil

1912. Comissão Rondon. O antropólogo Roquete Pinto grava índios na selva do Brasil

Comissão Rondon e a canibalização do Brasil profundo 

Pensando na antropologia de nós mesmos, aqui e agora achei este filme fantástico: É um documentário sobre a Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas (CLTEMTA) conhecida como ‘Comissão Rondon’, 1912 Brasil.

Num fotograma que capturei, o Antropólogo Roquete Pinto (na foto de cima), integrando a parte científica da comissão, grava música indígena na selva num momento paradigmático das relações, sempre desiguais, entre brancos ‘civilizados‘ e índios ‘primitivos‘.

Muito bem construído e narrado, o filme deixa visível as demandas e contradições do pensamento ‘branco‘ hegemônico nacional voltado para a integração do Brasil não só do ponto de vista territorial mas também étnico, social, ‘racial’. Era a Política Indigenista. Visava-se ‘civilizar‘ o índio para torná-lo assimilável pela sociedade branca, na crença sincera de uns, maquiavélica de outros, de que o que era bom para o branco tinha que ser ótimo para o índio e todos os demais e estava acabado.

Não estava.

Ao lado, ao largo, à margem de todo este jogo de relações, curiosamente a foto flagra trabalhadores negros a serviço da Comissão. De onde teriam vindo estes negros, uma população absolutamente ausente naquela remotas plagas da tão inóspita Amazônia indígena? Quais seriam as relações de trabalho estabelecidas pela comissão com estes seres tão estranhos no ninho por ali?

1904 - Presos da revolta da Vacina a serem embarcados para o Acre para serem postos a serviço da Comissão Rondon.

1904 – Presos da revolta da Vacina a serem embarcados para o Acre para serem postos a serviço da Comissão Rondon.

Uma das poucas informações que se tem sobre a origem destes trabalhadores negros, misteriosamente integrados à comissão, nos dá conta de que, pelo menos em parte, eles vieram da Capital Federal, do Rio de Janeiro, rebeldes capturados após os sangrentos conflitos de rua relacionados às revoltas da Vacina (1904) e da Chibata (1910) motorneiros de bonde, anarquistas, marinheiros, capoeiristas, prostitutas, etc. e degredados, condenados à trabalhos forçados perpétuos na selva virgem, onde muitos, segundo alguns autores entre os quais Lima Barreto, foram devorados por bichos da mata.

Esta parte obscura da história da Comissão Rondon que eu saiba, ninguém ainda ousou investigar e contar.

História transversa e tenebrosa. Omissa. Ontem e hoje. “Uns‘ (os ‘brancos‘) devorando como canibais refinados a cultura alheia, a cultura dos ‘Outros” (índios) com os negros à margem de todo o processo, eternos escravos da nação, condenados à optar pela miscigenação ou à morte.

Vestidos e destribalizados naquela época, os índios voltam hoje a sonhar com a nudez exuberante de seu passado antes de Candido Rondon. O negro, vestido desde muito tempo, desde a África, continua à margem do rio da nação que corre, à sua revelia, sabe-se lá para que futuro, mas sonha em chutar o pau desta barraca de iniquidades já intoleráveis.

Instigante, intrigante história. Titio – que já contou a parte transversa dela em sua peça teatral  “ExuChibata” (sobre João Cândido e a sua Revolta da Chibata) volta com mais coisas disto aí uma hora destas.

Spirito Santo

Agosto 2012
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~ por Spirito Santo em 18/08/2012.

4 Respostas to “‘Não brancos’ vestidos com as almas peladas”

  1. Valeu, Pedro.

    Sintonia fina. Sem bem vinda.

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  2. A primeira foto, com índios em uma seção de gravação, NÃO SÃO índios Paresi (como o filme dá a entender) e sim índios WAYANA.

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  3. É esta aí que te passei. Pode ser que tenha outras origens, dificilmente eram trabalhadores contratados. A escravidão havia terminado, relativamente há pouco tempo, as relações de trabalho no Brasil eram ainda muito próximas do trabalho escravo perpetuado. A mais evidente e provável das origens destas pessoas é, portanto esta mesmo, pois sabe-se de várias fontes, que vários rebeldes destas revoltas aí (inclusive mulheres) foram, efetivamente levados para as ‘Selvas do Acre’ (como diz uma fonte) e postos á serviço da Comissão Rondon.

    Parte dos rebelados da Chibata, por exemplo, foram fuzilados no mar na virada do ano novo de 1911.

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  4. Caro Spirito,

    qual a fonte da informação sobre a origem dos trabalhadores negros? gostaria de ler mais sobre o assunto.

    Abraços,
    Lucas

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